Saber é Poder
SABEr É PoDEr
DANiEl DE oliVEirA GomES
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©2015 Daniel de Oliveira Gomes
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permissão da editora e/ou autor.
G6331 Gomes, Daniel de Oliveira
Saber é Poder/Daniel de Oliveira Gomes. Jundiaí, Paco Editorial: 2015.
180 p. Inclui bibliografia.
ISBN: 978-85-8148-983-4
1. Construção do saber 2. Aquisição do saber 3. Poder 4. Identidade
I. Gomes, Daniel de Oliveira.
CDD: 121
Índices para catálogo sistemático:
Filosofia
100
Epistemologia
121
IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
Foi feito Depósito Legal
Meu avô-macaco
Aquele que Darwin buscou
Me olha do galho:
Busca a força dos caninos
O vigor dos pulsos
O arfar do peito
O menear da cabeça
O trabalho
Tudo se foi
Nada mais resta
Do fulgor primata
Da força de boi
Saber
Saber mata
Paulo Leminski
Sumário
Apresentação
9
Introdução
11
Capítulo 1 – Influências de Poder nas Nações,
17
Capítulo 2 – O Poder Linguístico
25
Capítulo 3 – Desde a Origem
29
Capítulo 4 – Das Técnicas da Mecanização
35
Capítulo 5 – Cultura e Paisagem Natural
39
Capítulo 6 – Comunicações e Lógica do Caos
45
Capítulo 7 – O Poderio do Mercado
51
Capítulo 8 – Poderes Fanáticos, Saberes Estáticos
59
Capítulo 9 – Das Ciências Naturais e Formais
65
Capítulo 10 – Saber como Errância
69
Capítulo 11 – Um Conjunto de Engrenagens
75
Capítulo 12 – Saberes dos Guerreiros
81
Capítulo 13 – Espetacularização do Corpo
89
Capítulo 14 – Por uma Democracia Global
93
Capítulo 15 – Egosclerose
99
Capítulo 16 – Da Vaidade do Sábio
105
Capítulo 17 – Por um Saber sem Vaidades
113
Capítulo 18 – O Âmbito Escolar
119
Capítulo 19 – Poder ir Adiante
125
Capítulo 20 – Saber Voltar Atrás
129
Capítulo 21 – A Falta de Condição do Pesquisador Brasileiro 135
Capítulo 22 – Produtividade Científica
141
Capítulo 23 – A Dimensão Gritante do Poder
145
Capítulo 24 – Poder do Estado
149
Capítulo 25 A Dimensão Silenciosa do Poder
153
Capítulo 26 – Descentralização da Noção de Poder
157
Capítulo 27 – Ciência ou Culto?
161
Considerações Finais
169
Referências
173
Coleção Foco
177
APRESENTAÇÃO
Saber que Sobrevive
Em um dos poemas de Caprichos e relaxos (1983), o poeta
curitibano Paulo Leminski afirmava: “saber / saber mata”. A sabedoria é uma forma de conflito com uma sociedade cega a tudo
que não sejam os seus valores produtivistas. Este saber mortífero, no entanto, contraditoriamente, nunca se fez tão necessário
como uma forma de mudar o curso apocalíptico da presença do
homem no planeta.
Movido por um desejo de abrir janelas para o saber, e numa
linguagem que se permite ser transparente, o professor Daniel
de Oliveira Gomes escreveu este livro, um livro que passeia criticamente pelas principais questões que envolvem a aquisição do
saber, desde as históricas e filosóficas até as sociais e culturais.
Saber é poder talvez pudesse ser definido como um conjunto de
verbetes que se comunicam entre si ao mesmo tempo em que
guardam uma autonomia própria do ensaio. Desmontável, ele
pode ser lido aos pedaços, embora tenha uma estrutura geral. O
leitor vai passando de um assunto-célula para outro, entendendo os mecanismos da construção do saber, ou de sua obstrução,
sempre com a sugestão de novas leituras. Por isso chamei os capítulos de janelas. Eles se abrem para outras paisagens intelectuais.
No centro da reflexão do autor, a influência do último Foucault, na sua defesa da descentralização do poder e do saber, do
empoderamento pela linguagem de cada um dos atores sociais periféricos. Pensar deixa de seu um privilégio de classe para ser uma
possibilidade comum a todos. É este projeto de ampliação das
vozes que encontramos neste livro, que cumpre um papel didático muito importante ao instigar o leitor a pensar, a construir um
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Daniel de Oliveira Gomes
saber que é perigoso principalmente para os poderosos de plantão.
Todo saber será sempre uma forma de liberdade individual.
No capítulo 10, versículo 9 do Apocalipse de S. João, há a
famosa passagem do livro para ser comido. Segue aqui na tradução clássica de João Ferreira d’Almeida: “E fui ao anjo, dizendo-lhe: Dá-me o livrinho. E ele disse-me: Toma-o e come-o, e fará
amargo o teu ventre, porém na tua boca será doce como mel”. É
este o papel dos livros focados no saber. Por mais que eles sejam
doces aos nossos paladares, sempre cumprirão uma tarefa de estranhamento. Exercitar este estranhamento, esta alteridade, nos
faz mais humanos, menos intolerantes, mais próximos daquilo
que nos nega.
O autor não aceita nem o cientificismo acadêmico nem o
empirismo militante, buscando um lugar estratégico de identidade. Todo o saber será sempre uma construção autobiográfica,
uma roupa sob medida. E é este o desafio que ele nos propõe,
descobrir o que somos, com o que nos construímos.
Escrito com a linguagem leve própria da crônica, mas compulsando uma vasta bibliografia, sem nunca descuidar dos fatos
históricos recentes, Daniel de Oliveira Gomes compõe um painel
filosófico que tem o grande mérito metonímico de apresentar
lascas do saber que podem ser complementadas pelo leitor.
Dedique-se com calma a cada um destes verbetes e tente tirar
deles mais do que uma reflexão, mas um caminho para se chegar
a outras latitudes de ser. Pois a máquina do saber, depois de acionada, nunca mais para.
É este convite ao movimento que o autor nos faz no livro.
Contras as verdades cristalizadas, um desejo insaciável de saber.
Miguel Sanches Neto
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INTRODUÇÃO
Poder Saber: saber poder
Distingamos bem: quem deseja adquirir o sentimento de poder, recorre a todos os meios e não despreza nada que possa
alimentá-lo. Quem o tem, porém, tornou-se bastante seletivo
e nobre em seu gosto; raramente alguma coisa o satisfaz.
Friedrich Nietzsche
Temos um itinerário, claro. Porém, a leitura deste “Saber é
Poder” começa onde o leitor abrir o livro. Significa que não temos um quadro perfeito da relação entre saber e poder, pois seria
muito ambiciosa uma postura totalizadora sobre um tema tão
amplo, e, acaso o leitor considere que temos sim um mapa do
assunto, atente-se que este mapa seria apenas uma das possibilidades de abordagem. Falar do saber não é uma coisa simples, por
mais simplesmente se queira explanar sobre o assunto. O objetivo do presente livro, nesta série voltada a estudantes, é entender
questões acerca do saber e do poder. Questões que precisam ser
redebatidas e mapeadas para que se compreenda o que é o saber,
quando surge, com quais condições ele se estabelece na sociedade. E, principalmente, com quais “poderes”?
Todos nos lembramos de um grande músico que lutava contra os males do poder, dizia que era um sonhador “mas não o único” e convocava que todos se juntassem nesse sonho, porquanto
o mundo seria um só, um mundo pacífico. A mensagem de John
Lennon, em uma leitura primeira, exprime que os poderosos são
irracionais, fogem da paz, que o poder corrompe o homem, que
o poder extingue o verdadeiro saber, reprime os sábios, etc. Mas,
no fundo no fundo, há muito nos emocionamos com a mensagem de Imagine, de Lennon, sem a entendermos muito bem.
Logo depois, viramos o disco e todos voltam às suas vidas. Parece
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Daniel de Oliveira Gomes
que esta mensagem se mescla com as de outros sábios, Ganhdi;
Luther King; Madre Teresa de Calcutá; Dalai Lama...
No dia a dia, todos buscam uma parcela de poder, nesta selva (nossa sociedade capitalista, funcionalista, competitiva), onde
praticamente é cada um por si, tendo os líderes pacifistas como
estrelas de boas intenções (porque estes sábios nos guiam por um
mundo teórico muito distinto e, aparentemente, mais complexo
na avalanche da vida prática).
Todos individualmente escalam suas montanhas atrás das
várias formas de poder, seja aquele que lhe confere um diploma,
que lhe confere uma experiência, uma universidade, um estágio
de trabalho, um status social, uma imagem pessoal, uma posição
financeira, uma habilidade, etc. As livrarias de hoje estão repletas
de livros de autoajuda, neste sentido: o poder da fé, o poder de
saber ganhar dinheiro, o poder de “se dar bem” na vida, o poder
dos líderes, o poder da comunicação, etc. Sabemos, assim, que, na
sociedade em que estamos, a priori, nem sempre o poder é saber.
Nem sempre sábios como John Lennon podem fazer algo de fato...
No entanto, o título do presente livro vem a ser: “Saber é poder”.
Aqui, pensaremos nas razões que legitimam esta ideia que o
saber é poder, em todas as situações. Afinal, se vivemos em um
tempo tão distinto das gerações passadas, se nascemos em um
contexto governado pelo poder da informação, da economia, da
virtualidade, etc, não precisaríamos debater muito mais esta antiga premissa? É o que faremos aqui, vamos debater vários pontos
fundamentais para formar um percurso intelectual sobre o saber
(como poder), e para tanto não cairemos em uma visão historicista ou meramente antropológico-cultural.
Queremos aqui sintetizar, de um modo claro e acessível, as
questões do presente que são suscitadas quando pensamos no
saber e no poder, dentro de uma sociedade como a nossa. Uma
sociedade que possui heranças específicas, no Ocidente, ou seja,
que possui suas próprias memórias de poder, suas próprias formas de saber. Que questões seriam estas?
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Saber é Poder
A priori, notemos que – seja lá qual for o interesse do acadêmico: histórico, político, geográfico, literário, científico ou filosófico – sempre estaremos a ponderar acerca de questões correlativas entre os temas, ou que botam em relação dois temas, que
à primeira vista podem parecer opostos, quais sejam, o tema do
“saber” versus o tema do “poder”. Nesta acepção, o tema é um só:
poder saber: saber poder.
O título da presente Introdução pode ser marcante ao passo
que parte do pressuposto “poder saber”, ou seja, o poder entrar
em contato com um conhecimento, geral ou específico. Poder
saber: a faculdade de ter acesso a uma informação, um ofício.
Poder saber: o poder de uma experiência, por exemplo, capacidade de tomar ciência de algo. Poder saber: ter condições para
o conhecimento. E tudo isso passa por, também, “saber poder”.
Saber poder significa ter previamente uma iniciação (ao menos
discursiva) sobre esta possibilidade do conhecimento.
Oras, caímos em uma tautologia (repetição)... Mas como
“poder saber” se confunde com “saber poder”? O que vem, então,
primeiro, o ovo ou a galinha, o poder saber ou o saber poder? O
que é mais importante, o poder ou o saber? Será mais importante
ter as condições para o conhecimento, o domínio das ideias e
das práticas sobre algum campo específico, ou, ao contrário, ter,
antes, a sabedoria do que se irá dominar? Lançamos esta questão,
mas é impossível responder, na perspectiva que adotaremos aqui,
e logo veremos.
O leitor precisa saber, antes de qualquer coisa, que o presente
livro tem como finalidade prática muito mais propor um percurso, uma iluminação inicial, sobre a questão relacionada do saber
e do poder, do que tentar concretizar um perfeito manual. É que
se torna impossível um inventário completo deste tema. O tema
não se constitui apenas sociológico ou educacional, ele é vastíssimo e poderia ser dilatado para outros subtemas intermináveis.
O livro em questão, como integrante de uma série focada a
estudantes que acabaram de sair do ensino médio, considera que
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Daniel de Oliveira Gomes
tais alunos vieram deste momento em geral altamente universalizado, dividido em disciplinas rigorosas que, muitas vezes, não
abrem espaço para diálogos integradores dos conhecimentos. E
porque não queremos integrar os conhecimentos? Porque os professores que dispomos não são os profissionais vocacionados que
imaginamos e que deveriam querer desempenhar esta integração?
Não é apenas questão de salário, de poder ou de querer. Há
outra máxima, semelhante à “saber é poder”, uma frase que diz
“querer é poder”. Uma velha frase que não passa de uma pretensiosa mentira, pois quantos professores realmente querem
proporcionar, do fundo do coração, esta integração entre os conhecimentos, mas não podem, simplesmente pelo fato de que
não dispõem da metodologia, do tempo, das condições institucionais, da liberdade, etc.
A culpa da dificuldade da interdisciplinaridade sempre recai
no professor, porque estamos ininterruptamente a identificar um
culpado físico, quando o culpado é o próprio sistema em que a
educação se insere (como salvadora, redentora, mítica, ou seja,
na parcela de responsabilidade exagerada onde o professor deve
ser um sábio exemplar por obrigação ou por dom.). Ao longo do
livro, veremos isto. Passaremos pelas forças gritantes do poder e
as dimensões silenciosas do poder.
Respectivamente o itinerário que traçamos segue esta ordem:
falaremos, inicialmente, do poder das nações; do poder da linguagem; dos mitos do poder e os conceitos de técnica. Depois,
entenderemos as relações culturais do saber com o espaço natural; o desenvolvimento das comunicações; as leis do mercado; a
perseguição dos místicos; o poder das ciências e as grandes invenções, exposições. Em seguida, abordamos o poder militar, o
saber bélico; a espetacularização do corpo humano e das culturas
na globalização; o saber nas práticas milenares dos iogues indianos. Assim, os temas seguintes passam pela vaidade acadêmica e
as ilusões pedagógicas, políticas; os problemas da pesquisa contemporânea e das bases falhas que impulsionam a produtividade
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Saber é Poder
científica; o poder sob as óticas do marxismo tradicional e o que
existe na leitura pós-estrutural; os velhos e novos modelos de poder do Estado e a descentralização do conceito de poder. E, enfim, a distinção básica entre os saberes religiosos e os científicos.
Acreditamos que, neste itinerário, abrangeremos as questões
essenciais, ao mesmo tempo históricas e contemporâneas, do
tema “saber é poder”, pois passamos dos mitos às ciências; passamos das referências nas artes às questões éticas e históricas; passamos das definições técnicas às problemáticas políticas de várias
ordens. Um itinerário misto e descentralizador.
Assim, o presente livro é escrito com uma intenção interdisciplinar que parte do estudo genealógico e estético dos saberes a
partir de leituras particulares que o autor operou ao longo de sua
trajetória de constituição da matéria, desde as Ciências Humanas
(Letras e Filosofia). Então, vamos à leitura!
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