CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA
ORAÇÃO AOS MOÇOS
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
TESE DE CONCURSO
para uma das cadeiras de
PORTUGUÊS
do
Colégio Pedro II
– Internato –
Rio de Janeiro, 2010
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
À memória de
MARCELINO PITA DA ROCHA LIMA,
Espírito supremo daquele que me ensinou
a sentir o direito, e querer a liberdade;
daquele cuja presença íntima respira em
mim nas horas do dever e do perigo;
daquele a quem pertence, nas minhas
ações, o merecimento da coerência e da
sinceridade; emanação da honra, da
veracidade e da justiça, espírito severo de
meu pai ...
(Rui Barbosa, 1948)
2
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO: RUI E A LÍNGUA PORTUGUESA ... 5
O varão ................................................................. 5
O mestre da língua e o escritor ............................. 9
1.
CAPÍTULO I: ................................................................
DO MÉTODO NO ESTUDO DO ESTILO ................. 19
1.1. Língua e estilo .................................................... 20
1.2. Estilo e estilística individual ............................... 23
1.3. A estilística e seus objetivos ................................ 25
1.4. Propósito do presente trabalho ........................... 27
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
3
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
2.
CAPÍTULO II: ................................................................
INTERPRETAÇÃO ESTILÍSTICA DA ORAÇÃO AOS
MOÇOS ..................................................................... 30
2.1. O manuscrito e a redação definitiva ..................... 31
2.2. A língua de Rui. Gramática da Oração aos Moços 49
2.3. A construção da frase. Tom explicativo ................. 70
2.4. Ecos de um passado literário. Arcaização e classicismo. O preciosismo ................................................ 75
2.5. Valores semânticos do vocabulário. Indignação. Resistência e combate. Amor do grandioso e do sublime.
Misticismo ............................................................ 86
2.6. O senso rítmico e a ênfase oratória. Sentimento de simetria ................................................................... 93
3.
CAPÍTULO III: ..............................................................
CONCLUSÃO ......................................................... 105
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................... 108
4
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
INTRODUÇÃO
RUI E A LÍNGUA PORTUGUESA
O varão
“Rui é um mundo.” (PEREIRA, 1945, p. 9). A flama viva do espírito, que Deus acendeu na lâmpada de barro da nossa mortalidade, sagrou-o, para a vigília dos séculos, o iluminado intérprete da consciência nacional – nas suas lutas e aspirações, no seu culto da justiça e no seu amor da liberdade:
Creio na liberdade onipotente, criadora das nações robustas;
creio na lei, emanação dela, o seu órgão capital, a primeira das
suas necessidades; creio que, neste regímen, não há poderes soberanos, e soberano é só o direito, interpretado pelos tribunais ...
(BARBOSA, 1896, p. 216)
À face do mundo e com a bênção do céu, a nação brasileira, em apoteose, divinizou, a 13 de agosto de 1918, o jubileu
cívico da sua glória, aclamando-o o maior de seus filhos.
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
5
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
Sob a beca do jurisconsulto, ou com a pena do jornalista; na curul senatorial, ou no apostolado da pregação popular;
fronteiras dentro da terra natal, ou a deslumbrar os povos civilizados nas conferências internacionais – sempre se extremou
pela fidelidade da vocação democrática, pela nobreza do idealismo mais puro e pela religião do trabalho. "Para ele" – escreveu Américo Palha em recente estudo biográfico –
a humanidade era a família comum de todos nós, irmanada pelos
laços da fraternidade cristã. Onde houvesse um Caim, a sua palavra se erguia para vergastá-lo. Onde houvesse um réprobo, seu
verbo se levantava para fulminá-lo (PALHA, 1948, p. 82)
Tão extenso se lhe alargara o campo das suas lidas e
fainas; em tantas províncias do saber fora o primeiro, que (dirse-ia), em sua época e depois dele, todos os brasileiros lhe ficamos a dever parte do nosso destino como povo.
"Bastaria vos lembrásseis" – é um trecho do elogio que
lhe fez Laudelino Freire, ao suceder-lhe na Academia Brasileira de Letras –
que de Sólon e Licurgo teve a larga visão no legislar; de Publícolo, a resistência contra a tirania; de Péricles, a dignidade do proceder e a grandeza d’alma; de Marcelo, a coragem cívica; de Catão, aquele saber e utilidade nas orações do Senado; e de Demócrito, a mesma doçura e humanidade depois do triunfo ...
(FREIRE, 1936, p. 37)
Nem espaço, nem tempo nos sobraria, na angusteza deste capítulo, para sequer esboçar a síntese da sua vida, nos dias
6
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
largos de uma existência que as virtudes do trabalhador infatigável maravilhosamente multiplicaram. Já lhe tem sido glorificada, com brilho maior ou menor,1 a ação de político e diplomata, de jurista e homem de estado, de evangelizador da liberdade e construtor da história republicana.
O que não se tem dito suficientemente a seu respeito é
que, por entre os vaivéns da sua vertiginosa carreira, jamais
deixou de haver nele
um homem ansioso pela verdade e pelo bem, corajoso e leal. Algumas das mais belas qualidades humanas iluminavam a sua vida como nenhuma eloquência poderia fazer. E mesmo quando
todas as lições políticas, sociais e humanas, que ele escreveu e
pregou, viessem a esmaecer definitivamente, restaria, como o
seu legado aos homens, a nobreza moral do homem que ele foi.
(DELGADO, 1945, p. 275)
Àquele que se iniciou na tribuna popular, ainda estudante, “em defesa de um escravo contra o senhor” (BARBOSA,
1897, p. 51); na tribuna forense, para desafrontar a “honra de
uma inocente filha do povo contra a lascívia opulenta de um
mandão” (Ib.); e na tribuna parlamentar, patrocinando a eleição de um conservador contra o próprio partido liberal em que
militava – saberia conservar pelos anos fora, como coroa imperial da sua vida, a mesma invencível repugnância a qualquer
– Pela objetividade e profundeza de análise, banido o tom vulgar da apologia pela
apologia, merecem relevo especial estas três obras, publicadas ùltimamente: Viana
Filho (1941), Mangabeira (1943) e Delgado (1945).
1
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
7
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
forma de tirania e a mesma “sede insaciável de justiça” (Ib.),
que lhe modelou irresistivelmente a carreira toda. Protestando
sempre contra a brutalidade da força, herdou ao seu país a lição admirável de crer na lei, nos momentos em que todos dela
duvidavam. Só não fez conspirar. Nem se pôs jamais ao lado
da violência – quer a do poder constituído, quer a de rebeldes à
ordem legal.
Propugnei ou adversei governos; golpeei ou escudei instituições;
abalei até à morte um regímen, e colaborei decisiva e capitalmente no erigir de outro. Pelejei contra ministros e governos,
contra prepotências e abusos, contra oligarquias e tiranos. Ensinei, com a doutrina e o exemplo, ma ainda mais com o exemplo
que com a doutrina, o culto e a prática da legalidade, as normas e
o uso da assistência constitucional, o desprezo e horror da opressão, o valor e a eficiência da justiça, o amor e o exercício da liberdade. (BARBOSA, 1920, p. 205)
Duas forças demolidoras – o modernismo e a ditadura –
tentaram envolver em penumbra a incomodativa glória do seu
nome, cuja presença permanente doía como uma acusação.
Uma grande glória pesa sempre aos contemporâneos. Se ela não
é o que os homens mais ambicionam na vida, é certamente o que
menos perdoam aos seus semelhantes. Não espanta que Aristófanes preparasse a cicuta de Sócrates, que Vergílio e Horácio nem
sequer pronunciassem o nome de Cícero, que Madame de Sevigné, com igual clarividência, profetizasse Racine passaria, como
havia de passar a moda recente do café ...
Quando um monstro, um Hugo, depois de encher um século com
a atroada e o clarão do seu gênio, morre por fim, a humanidade
que ele coagira ao admirar, suspira desabafada, e tàcitamente
conspira, daí por diante, em não lhe repetir uma imagem, declamar um verso, reler um livro, divertindo-se em lhe devassar a intimidade para o reduzir à miséria comum dos viventes. Ai de
8
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
quem possui uma glória exclusiva, e, portanto, intolerável, ou
pior, uma glória duradoura, e, então, fatigante! (PEIXOTO,
1944, p. 45)
O mestre da língua e o escritor
Custa crer que, através de tantas personificações em que
se lhe cem-dobrava a atividade, ainda lhe restasse energia e
gosto para perseguir a perfeição literária, que só se conquista à
força de vigílias esgotantes e de pertinacíssimo e amorosíssimo estudo.
Não queremos com isto insinuar haja sido Rui gramático, ou filólogo. Pensamos, até, que esses títulos lhe devam ser
recusados.
Empolgou-o, sim, desde a puerícia, a paixão do idioma
pátrio, instrumento do seu ministério, cujos recursos e segredos conhecia como ninguém. Em oração proferida no Senado,
em 1904, ele nos ensina, com singular justeza, o lugar que cabe à gramática no estudo de uma língua:
Desde menino tive os bons livros dos nossos mestres de linguagem nas minhas mãos ... E foi esta a gramática que aprendi.
Creio mesmo que, em um exame de regras gramaticais, seja, fatalmente, um aluno reprovado.
E’ este o meu conceito a respeito da gramática: é uma arte que se
aprende pela prática, pelo manejo da língua, pela convivência
com os que a falam e escrevem corretamente; e, se existe a ciência da gramática, não é senão, como várias autoridades compe-
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
9
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
tentes a têm definido, a ciência dos fatos da linguagem. (BARBOSA, 1904, p. 319)
Já vinte e um anos antes, no famoso Parecer (BARBOSA, 1946) sobre a reforma do ensino primário (1883), no qual
mostra leitura dos mais distintos teoristas então em voga (Bréal, Brachet, Ayer, Whitney etc.), manifestara as mesmas convicções:
Que o ensino da língua não se confunde com o ensino da gramática, não é licito contestar. (Op. cit., p. 218-219).
O primeiro passo da gramática usual consiste numa definição, e
de definições, de classificações, de preceitos dogmáticos se entretece todo este ensino. Em todo esse longo e penoso curso de
trabalhos que nos consomem o melhor do tempo nos primeiros
anos de estudo regular, não se sente, não há, não passa o mais leve movimento de vida. Como se as teorias fossem a primeira, e
não a última, expressão da atividade intelectual no desenvolvimento do indivíduo, ou da humanidade. Como se o uso não fosse
anterior às regras. Como se a definição não pressupusesse o conhecimento cabalmente real do objeto definido. Como se a linguagem, numa palavra, não precedesse necessariamente as codificações gramaticais! (Ib., p. 227)
... quando a observação constante, em toda a parte, nos está mostrando, na infância, no povo, e até entre indivíduos dados ao trato literário, a mais pura vernaculidade ordinariamente aliada à
mais completa ignorância das leis da ortodoxia gramatical. (Ib.,
p. 233).
Na sua vasta biblioteca, conservada na “Casa de Rui
Barbosa”, antiga residência do mestre, que a devoção do Governo brasileiro transformou em museu público, encontram-se
vestígios indeléveis do seu amor à língua. Seus dicionários
portugueses (todos o sabem), lia-os Rui de capa a capa, e mar-
10
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
ginava-lhes os verbetes de aditamentos e remissões, opuletando, aqui, a sinonímia, documentando, além, um torneio de frase, corrigindo, adiante, uma citação em falso. Apenas por amostra, a título de fundamentação, colhemos, a esmo, no mais
conhecido dos nossos dicionários, o de Cândido de Figueiredo
(edição de 1899), estas anotações do próprio punho de Rui, a
tinta vermelha:
verbete alpestre: a que ele acrescentou: alpígeno, alpense, alpino, álpico, alpéstrico, alpestrino;
verbete gabo:
a que ele aditou: gabadela, gabação, gabamento, gabazola;
verbete açoite:
logo enriquecido com os sinônimos: látego,
chibata, azorrague, vergalho, tagante, relho,
estafim, vergasta, flagelo.
Ao perlustrarmos o velho Morais (na 1ª edição), deparou-se-nos o mesmo empenho de carrear material variado para
os seus escritos; ao verbete, por exemplo, açoutar, apôs ele,
em chorrilho, meia dúzia de vozes equivalentes: atagantar, azorragar, verberar, vergalhar, fustigar, chicotear.
Notícia que todos os estudiosos da língua portuguesa receberam com imensa alegria, foi a de que, na edição das “Obras Completas”, em cento e cinquenta volumes, que se está
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
11
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
preparando para as comemorações do centenário, um dos tomos (o da Réplica) reunirá, em apêndice, preciosos inéditos de
um Dicionário Analógico, que ele, por certo, pretendia concluir e, talvez, publicar. O exame desses apontamentos nos revela
que Rui trabalhara neles durante toda a vida, pois o caderno
mais antigo está datado de 1864, e as notas mais recentes já foram escritas naquele excelente papel pautado que ele trouxera
do seu exílio na Inglaterra.
Era este o segredo da copiosidade de seu vocabulário,
do que nos dá exemplo a memorável página “A Rebenqueida”
(BARBOSA, 1912), onde, por entre os estiletes de uma ironia
golpeante, se alinham trinta e tantos sinônimos da palavra rebenque! Tivemos em mãos, na “Casa de Rui Barbosa”, a folha
original (Fig. 1) onde foram recolhidas as palavras para a
construção dessa brilhante peça literária e política.
O manusear os volumes de seus clássicos portugueses
permite-nos apurar, com surpresa crescente, o vigor do seu espírito de eleição: os mestres de seu pensamento e de seu estilo,
aqueles que mais o seduziram e lhe plasmaram a individualidade de escritor, foram, sem dúvida, Frei Luís de Sousa, Bernardes, Herculano, Camilo e o padre Antônio Vieira, este principalmente, cuja música oratória e audácia de arquitetura verbal somente Rui pôde rivalizar.
12
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
Não satisfeito com os comentários que punha às margens das folhas dos “Sermões”, trasladava-os ele para cadernos metodicamente numerados, que recebiam as rubricas devidas: “Vieira-Sintaxe”; “Vieira-Ideias” ...
Daí as aproximações inevitáveis entre a forma literária
de Vieira e a de Rui; em muitos passos, este está visivelmente
impregnado daquele.
Nos artifícios de ideação e no jogo harmonioso das repetições e antíteses, um e outro prestaram tributo àquele ludismo quase sensual da mais desvairada prosa gongórica.
Compare-se este cintilante excerto de Vieira, no “Sermão de
Santo Antônio”, pregado na cidade de São Luís do Maranhão,
em 1654, aos fragmentos de Rui, postos logo a seguir:
VIEIRA: Vós, diz Cristo Senhor Nosso, falando com os Pregadores, sois o
sal da terra; e chama-lhe sal da terra, porque quer que façam na
terra, o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas
quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela, que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa
desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se
não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores não
pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina, que lhe dão, a não
querem receber: ou é porque o sal não salga, e os Pregadores dizem ũa cousa, e fazem outra, ou porque a terra se não deixa salgar,
e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem que fazer o que
dizem: ou é porque o sal não salga, e os Pregadores se pregam a si,
e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes,
em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto
verdade? Ainda mal.
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
13
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
......................................................................... (VIEIRA, 1944)
RUI:
A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a
verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do orgulho, ou da loucura.
Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade,
seria desigualdade flagrante, e não igualdade real. (BARBOAS,
1921, p. 25)
E estoutro trecho, provocado pela declaração do chanceler da Alemanha de que os tratados internacionais eram “trapos
de papel”:
Se os tratados são trapos de papel, porque se consignam em papéis, trapos de papel são contratos, porque todos em papel se escrevem. Se, celebrando-se no papel, os tratados, por isso, não são
mais que trapos de papel, mais que trapos de papel não são também as leis, que no papel se formulam, decretam e promulgam.
Se os tratados, porque recebem no papel a sua forma invisível, a
trapos de papel se reduzem, as Constituições, que no papel se
pactuam, não passam de trapos de papel. Trapos de papel maiores ou menores, mas tudo papel e em trapos. (BARBOSA, 1916,
p. 86)
A própria Réplica (BARBOSA, 1904) é menos um monumento gramatical do que mais uma coroa para o escritor
culto e de bom gosto. Haja vista, para aludir somente a um lugar, o capítulo sobre o Neologismo (nº 475, especialmente),
capítulo que nenhum gramático do mundo escreveria, e raros
escritores saberiam fazê-lo com aquele brilho literário que Rui
lhe comunicou.
14
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
No entanto, parece lícito concluir que ele se beneficiou
grandemente com a feitura da Réplica. Porque, de começo, sua
pena não seguia tão à risca, em muitos casos, os preceitos literários havidos por exemplares. A propósito, deponha Sousa da
Silveira:
Alguns dos grandes escritores brasileiros, como Rui Barbosa,
João Ribeiro e Raimundo Correia, que no princípio da sua carreira literária, embora escrevessem em português, se afastavam um
pouco do bom tipo linguístico, esforçaram-se depois por acompanhá-lo de mais perto, e conseguiram tornar-se modelos da
mais formosa vernaculidade. (SILVEIRA, 1947)
Prova magnífica de sua evolução como mestre da língua, surpeendemo-la nos dois [primeiros] volumes da Queda
do Império (BARBOSA, 1947), nos quais, ao recompor, em
1921, para publicação em livro, os artigos estampados, em
1889, no Diário de Notícias, quase se diria que fez timbre em
obedecer, à letra, às lições da Réplica.
Curioso é que, entre os que lhe negavam a qualidade de
escritor, figurava ele próprio em primeiro lugar. Fundido em
moldes olímpicos, talvez pensava que, à força de o glorificarem como puro homem de letras, iriam deixando na penumbra
o coautor da Abolição, o arquiteto da República, o apóstolo do
Civilismo, E’ o que se depreende deste fragmento do discurso
do jubileu:
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
15
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
Os órgãos de publicidade, que redigi, eram todos eles de política
militante; os livros, que escrevi, trabalhos de atividade pugnaz;
as situações em que me distingui, situações de energia ofensiva
ou defensiva.
...............................................................................................
Uma existência vivida assim nos campos de batalha, tecida,
assim, toda ela, dos fios da ação combatente não se desnatura da
sua substância, não se desintegra dos seus elementos orgânicos,
para se apresentar desvestida e transmudada naquilo que ela tem
menos, na mera existência de um homem de letras. Como quer
que se encare, boa ou má, é a de um missionário, é a de um
soldado, é a de um construtor. As letras nela entram apenas como
a forma da palavra, que reveste o pensamento, como a
eloquência, que dobra o poder das ideias, como a beleza aparente
que reflete a beleza interior, como a condição de asseio que lhe
dá clareza às opiniões, que as dota de elegância, que as faz
inteligíveis e amáveis. (BARBOSA, 1920, p. 205)
Se é certo que ele não se adarvou na longínqua turris
eburnea da arte pela arte, que somente pisam os imaculados,
os budas – não é menos certo que bastariam para imortalizá-lo,
além das suas obras de índole estritamente literária, aquelas
grandes perorações épicas e aqueles trechos sublimados de beleza, que ele encravou nos seus discursos, nos seus escritos, e,
até, nas páginas técnicas de muitos trabalhos forenses! Não é
num discurso político que se engasta “O Estouro da Boiada”
(BARBOSA, 1910, p. 134), aí posto, oito anos depois de Os
Sertões, com o intuito visível de provocar um paralelo literário
com a descrição de Euclides da Cunha? Não é ao caricaturar
um adversário político de ocasião, que lhe sai da pena o imortal libelo contra “O jogo” (BARBOSA, 1897a, p. 109)? Que
16
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
autor sacro escreveu prosa de maior sopro lírico sobre o mistério da Ressurreição, do que o Rui da “Prece de Natal” (Id.,
1898), ou de “Surrexit” (Id., 1899b)? E a inigualável “Visita à
terra natal” (Id., 1948)? E o quadro bucólico das “Andorinhas
de campinas" (Id., 1920, p. 182-183)? e a “Saudação aos jangadeiros” (Id., 1922)? e “Bustos e estátuas” (Id., 1920, p. 206207)? e Porneia (Id., 1899a)? Não teria fim esta enumeração ...
Depois de haver escrito, a propósito da redação do Código Civil, aquele pensamento lapidar:
... só o influxo da arte comunica durabilidade à escrita humana,
só ele marmoriza o papel e transforma a pena em escopro.
(BARBOSA, 1902, p. 5)
ele, na oração clássica, em francês, com que recebeu a Anatole
France na Academia Brasileira de Letras, confessou reconhecer que
... la forme, dans l’idéalité de ses lignes, c’est presque toujours
ce qui reste de la pensée, comme une amphore ancienne d’une
essence perdue. (BARBOSA, MCMIX, p. 29)
Como produções literárias puras, lembre-se (e é ele
mesmo quem no-las cita):
O elogio do poeta, a respeito de Castro Alves; a oração do centenário do marquês de Pombal; o ensaio acerca de Swift; a crítica
do livro de Balfour; o discurso do Liceu de Artes e Ofícios, sobre
o desenho aplicado à arte industrial; o discurso do Colégio Anchieta; o discurso do Instituto dos Advogados; o parecer e a réplica acerca do Código Civil; umas duas tentativas de versão
homométrica da poesia inimitável de Leopárdi; a adaptação do
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
17
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
livro de Calkins, e alguns artigos esparsos de jornais, literários
pelo feitio ou pelo assunto. (Id., 1920, p. 203).
Esqueceu-lhe muita coisa ainda, especialmente o adeus a Machado de Assis (PUJOL, 1917, p. 355) que, por si só, consagraria qualquer grande prosador em qualquer parte do mundo.
Escritor, Rui logrou alcançar, iluminada e serena, a perfeição que sonhara: marmorizou o papel e transformou a pena
em escopro, para glória da língua portuguesa.
18
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
CAPÍTULO I
1.
DO MÉTODO NO ESTUDO DO ESTILO
... a beleza aparente que reflete a beleza
interior ...
(Rui Barbosa, 1920)
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
19
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
1.1. Língua e estilo
Os modernos métodos de pesquisa estilística têm por
base aquela distinção fundamental estabelecida por Ferdinand
de Saussure, entre langue (a cujo domínio pertence a gramática) e parole (terreno onde se encontra o estilo).
A langue é um sistema: um conjunto organizado e opositivo de relações. Fato social por excelência, é aquele acervo
de sons, estruturas vocabulares e processos sintáticos que a sociedade impõe a todos os membros de uma comunidade linguística. Em suas grandes linhas, mora virtualmente em cada
cérebro, “ou plus exactement dans les cerveaux d’un ensemble
d’individus; car la langue n’est complète dans aucun, elle
n’exist parfaitement que dans la masse.” (SAUSSURE, 1922,
p. 30) Do equilíbrio de duas tendências resulta sua estabilidade
pelos tempos fora: de um lado, a diferenciação, força natural,
espontânea, desagregadora; de outro, a unificação, força coercitiva, disciplinante, conservadora “C’est du jeu de ces deux
tendences que résultent les diverses sortes de langues, dialectes, langues spéciales, langues communes ...” (VENDRYES,
1921, p. 287)
20
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
À medida que se vai assenhoreando dos recursos da
langue, cada indivíduo, culto ou ignorante, a executa à sua
maneira, de acordo com o seu temperamento, com a sua sensibilidade: um é aparatoso, verbalista, ama a riqueza das imagens, a veemência das antíteses, a audácia dos adjetivos extravagantes; outro é sóbrio, cheio de pudor e delicadeza, prefere
o desataviado da expressão direta, a singeleza dos vocábulos
comuns. Eis a parole.
Enquanto a langue, aspecto social e coletivo da linguagem, exterior, portanto, ao indivíduo, “n’existe qu’en vertu
d’une sorte de contract passé entre les membres de la communauté” (SAUSSURE, 1922, p. 31), a parole se nos apresenta
como um ato individual de vontade e inteligência, segundo o
qual o ser falante “utilise le code de la langue em vue
d’exprimer as pensée personelle ...” (Ib.)
A contribuição pessoal que se possa revelar na parole,
ao lado da contribuição tradicional da langue, é o estilo, que
Sêneca já havia definido como “o espelho da alma”.
Sem dúvida,
Le langage ne connaît pas de création "ex nihilo"; un examen un
peu attentif fait toujours trouver dans la langue existante les
modèles qui ont servi pour les formes nouvelles. Mais c’est
précisément cela qui est intéressant; ce sont ces créations qui
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
21
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
nous font comprendre le mécanisme du langage. (BALLY, 1926,
p. 45)
No equilíbrio de Machado de Assis e nos arroubos equatoriais de Castro Alves, encontramos uma só e mesma língua
portuguesa: o mesmo material sonoro, o mesmo sistema de
flexões nominais e verbais, os mesmos princípios de concordância, regência e ordem das palavras na frase, as mesmas
preposições, conjunções e artigos. No entanto, dentro da margem de liberdade que o determinismo da língua deixa ao indivíduo, uma série de particularismos assinalam inconfundivelmente um e outro: frases curtas, sutileza de tonalidades semânticas, horror ao truísmo, busca de efeitos sarcásticos – tudo reflete aquele pessimismo cruelmente compassivo, que retrata,
de corpo inteiro, o triste burilador de Brás Cubas. Da mesma
forma, aqueles descortinos de clarividente, aqueles desvarios
de profeta em cólera, toda a generosa combatividade e idealismo de Castro Alves – aflui ao largo estuário de suas páginas,
e vai denunciar-se na curva sonora dos períodos, no amor às
comparações e imagens, às hipérboles e inversões violentas,
aos vocativos, e exclamações, e apóstrofes! Para zurzir vingadoramente, com o azorrague da sua maldição, a ignomínia que
enodoava a sua época, ele extraiu à língua portuguesa aquele
“som alto e sublimado”, compatível com excelsitude da sua
revolta exemplar.
22
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
Aí está o estilo de um jovem ciclope, como ali estava o
estilo de um velho roído de desencanto.
“Tenemos, pues, en resumen: estabilización de lo
psíquico en lo verbal; ampliación de lo verbal por lo psíquico.”
(SPITZER, 1942, p. 92)
Sem embargo de se prestar à floração de mil estilos individuais, a língua não se desfigura; seu sistema permanece
uno e íntegro. É a variedade na unidade, a preservação histórica do seu gênio, da sua índole, à qual se hão de adaptar todas
as inovações.
1.2. Estilo e estilística individual
Porém é forçoso reconhecer que há um abismo de diferença entre o uso da língua por um indivíduo posto nas circunstâncias normais e comuns a todo um grupo linguístico, e o
emprego que dela faz o esteta, em seus formosos momentos de
entusiasmo criador. Enquanto aquele a utiliza para a só expressão das suas necessidades de entendimento, a este ela se oferece como instrumento de arte: “...un effort d’expression qui se
développe sans cesse.” (ALBALAT, 1948, p. 20) E’ artificialismo que passa a preponderar: visando a fins estéticos, o artista enfeita, retoca, cinzela, trabalha a frase, movido pela preoCARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
23
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
cupação superior de beleza e originalidade. “La prose n’est
jamais finie” – dizia o insatisfeito Flaubert. Eça de Queirós
buscava alcançar os segredos de uma prosa idealmente ignota:
– Enfim, exclamei, uma prosa como não pode haver!
– Não! – gritou Fradique, uma prosa como ainda não há!
(QUEIRÓS, 1945, p. 125).
E’ aquela fome de perfeição, que excrucia os grandes
torturados da forma.
Daí a distinção essencialíssima entre estilo e estilística
individual, distinção em que tanto insiste Charles Bally (s./d.,
p. 19, § 21b), em seu primoroso Traité de Stylistique Française:
On a dit que “le style c’est l’homme”2, et cette vérité, que nous
ne contestons pas, pourrait faire croire qu’en étudiant le style de
Balzac, par exemple, on étudie la stylistique individuelle de
Balzac: ce serait une grossière erreur. Il y a um fossé
infranchissable entre l’emploi du langage par um individu dans
le circonstances générales et communes imposées à tout un
groupe linguistique, et l’emploi qu’en fai un poète, un romancier,
un orateur. Quand le sujet parlant se trouve dans les mêmes
conditions que tous les autres membres du groupe, el existe de ce
fait une norme à laquelle on peut mesurer les écarts de
l’expression individuelle; pour le littérateur, les conditions sont
toutes différentes; il fait de la langue um emploi volontaire et
conscient (on a beau parler d’inspiration; dans la création
artistique la plus spontanée en apparence, il y toujours un acte
volontaire); en second lieu et surtout, il emploie la langue dans
une intention esthétique; il veut faire de la beauté avec les mots
comme le peintre en fait avec les couleurs et le musicien avec les
Alceu Amoroso Lima foi o primeiro – parece-nos – que atentou na deturpação que
tem sofrido a célebre frase de Buffon. À página 124, nota 12, de sua “Estética
Literária” (Americ Edit., Rio, 1943), transcreve ele o texto original do discurso de
recepção na Academia Francesa (25 de agosto de 1753), e ali se lê: “... le style est
de l’homme même”.
2
24
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
sons. Or cette intention, qui est presque toujours celle de
l’artiste, n’est presque jamais celle du sujet qui parle
spontanémente as langue maternelle. Cela seul suffit pour
séparer à tout jamais le style et la stylistique.
1.3. A estilística e seus objetivos
Deve-se a Charles Bally, discípulo de Saussure, a
investigação dos “faits d’expression du langage organisé au
point de vue de leur contenu affectif” (BALLY, s./d., p. 16, §
19). Na ciência alemã, os mestres dessa recente disciplina, que
se chamou estilística, são os doutrinadores da escola idealista
de Karl Vossler.
O objetivo de Bally tem sido, de modo exclusivo, o estudo da afetividade na língua corrente; ao contrário, Vossler e
seus discípulos, ainda que também a esta se hajam aplicado,
restringiram o campo de suas pesquisas à língua literária, principalmente à língua criadora da poesia, muito mais rica em elementos emocionais. Assim entendida, a estilística é a ciência
dos estilos dos escritores.
Essa nova orientação nada tem em comum com aquela
pedagogia da arte de escrever, tão do gosto dos manuais franceses de “explications de textes” e de obras como, por exemplo, as de Antoine Albalat, nas quais nada mais se procura que
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
25
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
oferecer modelos e normas para imitação. Em ambos estes casos, o estilo é concebido como forma literária e, portanto, passível de ser transmitido didaticamente, segundo a compreensão
dos retóricos do Renascimento, que o imaginavam entidade
absoluta e isolada, factível e adquirível pela vontade.
La forma no es, en efecto, un factor independiente, con existencia propia – escreve Robert Petsch – que se incorpore al contenido ideal o pueda enlazarse arbitrariamente con él, sino una irradiación de ese contenido mismo, sólo que parece llevar una vida
propia e independiente, aunque en realidad se halla puesto constantemente y de modo cada vez más perfecto al servicio de la voluntad de expresión de la vida interior del hombre. (PETSCH,
1946, p. 276)
Em trabalho notável, Helmut Hatzfeld (1942, p. 153216) resenhou grande parte das obras de estilística no domínio
das línguas românicas. Suas informações, completadas por
Amado Alonso e Raimundo Lida (1942, p. 219-244), permitem-nos apreciar o interesse despertado por tais estudos e os
caminhos diferentes que a novel disciplina há seguido nos últimos tempos. Os temas preferidos têm sido os seguintes:
1 – Teoria geral do estilo.
2 – Indagações estilísticas baseadas no cotejo de manuscritos e variantes.
3 – Estudo de fontes poéticas.
4 – Pesquisa de línguas poéticas individuais.
26
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
5 – Temas e processos estilísticos de certos escritores.
6 – Diversas formas estilísticas sobre o mesmo assunto.
7 – Marcha de determinado processo estilístico através
de toda uma literatura.
8
–
Estilística
histórica:
evolução de
recursos
estilísticos.
9 – Estilística étnica: o estilo como espelho de uma
cultura nacional.
1.4. Propósito do presente trabalho
Pôr mãos sacrílegas nos mármores da obra literária de
Rui Barbosa, com o fito de tentar surpreender, na sua beleza
sem mescla, aquela “beleza interior”3 que lhe engrandeceu a
vida – eis o escopo deste pequeno trabalho.
Longe de nós, contudo, a pretensão de ambicionarmos,
ainda que a respeitosa distância, acompanhar a Vossler, Leo
Spitzer, Elise Richter e mais teóricos da estilística, em pós daquela ânsia de encontrar, em toda particularidade idiomática
“as letras nela entram (em sua vida) ...como a beleza aparente que reflete a beleza
interior...” (BARBOSA, 1920, p. 205).
3
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
27
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
do autor estudado, o reflexo de um estado de alma também
particular.
É mister precaver-nos, antes de tudo, contra os perigos
que tal diretriz nos oferece, conduzindo-nos, muita vez, a um
terreno onde os excessos do subjetivismo podem acabar por
dominar-nos. Aquela estilística que “aspira a una re-creación
estética, a subir por los hilos capilares de las formas idiomáticas más características hasta las vivencias estéticas originales
que las determinaron” (ALONSO, 1942, p. 12), nem sempre
ministra ao pesquisador trilha segura por onde caminhe. É o
caso de Leo Spitzer, que, ao comentar a expressão “avantguerre”, usada por León Daudet, em 1913, com o sentido particular de “época à espera da guerra”, nela vê “la expresión
verbal de la angústia de un patriota francés de 1913!” (SPITZER, 1942, p. 93)4 Também Vossler, na análise estilística da
fábula de La-Fontaine – “Le Corbeau et le Renard”, a propósito, por exemplo, da inversão que figura no primeiro verso
(Maître corbeau, sur un arbre perché...) – acha que “la posición del ciervo aparece aún más alta” e que assim se acentua,
desde o começo, “el caráter orgulloso del ciervo.” (VOSSLER, 1929, p. 184)
A frase está confusa, iniciada em espanhol e concluída em português: "la
expresión verbal de la angústia de um patriota francês de 1913!”
4
28
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
Sem que nos mova a preocupação constante de penetrar
nos mistérios – muita vez insondáveis – do mundo psicológico
do escritor, buscaremos, na medida do objetivamente possível,
reunir algumas observações sobre o estilo de Rui Barbosa na
Oração aos Moços, desejosos de concorrer para a compreensão geral desse alto espírito, que aprendemos a reverenciar
desde os primeiros dias de adolescência.
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
29
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
2.
CAPITULO II
INTERPRETAÇÃO ESTILÍSTICA
DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
Por motivos práticos, trabalharei no particular para poder aprofundar-me no geral;
mas sempre o conceito primário será a unidade.
(Karl Vossler)
30
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
2.1. O manuscrito e a redação definitiva
Tivemos o raríssimo privilégio de poder consultar o
manuscrito anterior ao que, depois de lido pelo Dr. Reinaldo
Porchat aos doutorandos da Faculdade de Direito de São Paulo, serviu para a impressão de 1921. Dele tiramos cópia fotostática, por gentileza do Ilmo. Sr. Dr. Américo Jacobina Lacombe, ilustre diretor da “Casa de Rui Barbosa”, em cujo arquivo se guarda o precioso documento.
Causou-nos uma das maiores emoções de nossa vida a
leitura das cento e onze páginas desse rascunho, cujas emendas nos revelam a sabedoria incomparável do escritor, e reforçaram muitas das conclusões a que chegáramos ao estudar-lhe
os processos de trabalho.
O confronto entre os dois textos – o do autógrafo e o da
1ª edição –, paralelo que temos por conveniente, espancará
muita dúvida respeitante às ideias e preferências de Rui no fim
da vida, por isso que, traído, às vezes, pelo subconsciente, deixou ele documentadas no original manuscrito, aqui e ali, certas
formas e maneiras de ver, que se deu pressa em modificar na
redação definitiva.
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
31
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
Não nos deteremos, por óbvias razões, no exame de TODAS AS VARIANTES,
senão no daquelas que, por sua natureza
especial, possam, de qualquer modo, contribuir para o propósito que temos em vista; fá-lo-emos assistematicamente, em vários lugares desta tese, à proporção que se for oferecendo oportunidade. Não obstante isso, registrá-las-emos de forma
completa (exceto as de grafia e as de pontuação), para que, assim, se venha a ter, ao mesmo tempo, o estabelecimento fidelíssimo do inédito, cuja publicação, segundo cremos, será de
alto interesse para quantos amamos as letras pátrias.
Utilizou-se para o cotejo o exemplar nº 2 da 1ª edição
especial de cinquenta exemplares, em papel Wathman, numerados e rubricados pelo autor –, edição promovida pelo mensário acadêmico Dionysos, publicada em outubro de 1921 pela
Casa Editora "O Livro”, de São Paulo. E’ a edição autorizada
por excelência. Além dela, existem, pelo menos, estas seis publicações:
I – a do jornal O Estado de São Paulo, nos dois dias
subsequentes ao da colação de grau (30 e 31-3-1921);
II – a da revista Arcádia, da Faculdade de Direito de São
Paulo, nº 3;
III – a da Revista de Língua Portuguesa, n. 11, Rio,
32
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
1921;
IV – a que figura no volume Elogios Acadêmicos e
Orações de Paraninfo, Rio, 1924;
V – a de Flores & Mano, Rio, s/d.;
VI – a da Organização Simões, autorizada pelo
Ministério da Educação e Saúde, Rio, 1947.
MANUSCRITO
PRIMEIRA EDIÇÃO
1 – admissão a esse sacerdócio (p.
1)
admissão ao nosso sacerdócio (p.
11).
2 – como a quem se sente alongado
por centenas de quilômetro. (p. 2)
como a quem se sente arredado por
centenas de quilômetros. (p. 12).
3 – debaixo dos
campanários. (p. 3)
sob os mesmos campanários. (p. 12)
mesmos
4 – quando a sua visão (p. 7)
quando sua visão (p. 13)
5 – como a pêndula de um relógio
(p. 7)
como pêndula de relógio (p. 13).
6 – se alimenta ele da comunhão
nos sentimentos e índoles, nas
ideias e aspirações? (p. 9)
se alimenta ele na comunhão dos
sentimentos e índoles, das ideias e
aspirações? (p. 14).
7 – Quantas vezes não vemos, nesse
fundo obscuro e remotíssimo, uma
imagem cara? (p. 11)
Quantas vezes não entrevemos
nesse fundo obscuro e remotíssimo
uma imagem cara? (p. 15).
8 – na esfera das comunicações
na esfera das comunicações morais
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
33
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
imateriais (p. 14)
(p. 15)
9 – não conseguiremos enxergar de
um a outro cabo, numa linha tão
curta? (p. 14)
não conseguiremos enxergar de um
a outro cabo, em linha tão curta? (p.
16).
10 – porque o espírito encontrou
logo o seu equilíbrio na convicção
de que, afinal, me chegava conhecer
a mim mesmo, reconhecendo a
escassez da minha energia (p. 17)
porque o espírito encontrou logo
seu equilíbrio na convicção de que,
afinal, me chegava eu a conhecer a
mim mesmo, reconhecendo a
escassez de minhas reservas de
energia, (p. 16-17).
11 – Tenho o consolo de haver dado
ao meu país (p. 18)
Tenho o consolo de haver dado a
meu pais (p. 17).
12 – os excessos de atividade
incansável, com que, desde os
bancos acadêmicos, o servi. (p. 18)
os excessos de atividade incansável,
com que, desde os bancos
acadêmicos, o servi, e o tenho
servido até hoje. (p. 17).
13 – entre uma nacionalidade
esmorecida e indiferente (p. 19).
em uma nacionalidade esmorecida e
indiferente (p. 17).
14 – sobranceria (p. 19)
sobrançaria (p. 17).
15 – Descrer da cegueira humana,
sim; mas da Providência, fatal nas
suas soluções, bem que tarda nos
seus passos, isso nunca. (p. 20)
Descrer da cegueira humana, sim;
mas da Providência, fatal nas suas
soluções, bem que (ao parecer)
tarda nos seus passos, isso nunca.
(p. 18).
16 – Essas chispas da substância
divina (p. 25)
Essas faúlhas da substância divina
(p. 19).
17 – Então a palavra se eletriza,
treme, lampeja, atroa, fulmina. (p.
26)
Então a palavra se eletriza, brame,
lampeja, atroa, fulmina (p. 20).
18 – Eis aí a cólera santa! Eis a ira
divina! (p. 26-27)
Ei-la aí a cólera santa! Eis a ira
divina ! (p. 20).
34
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
19 – o renegado, o blasfemo, o
profanador? (p. 27)
o renegado, o blasfemo, o
profanador, o simoníaco? (p. 20).
20 – a prostituição pública (p. 27)
a prostituição política (p. 20).
21 – Quem, senão ela, a cólera do
celeste inimigo dos vendilhões e
dos hipócritas? (p. 27-28).
Quem, senão ela, ela a cólera do
celeste inimigo dos vendilhões e
dos hipócritas? (p. 20).
22 – crucifixo entre os ladrões? (p.
28)
crucifixo entre ladrões? (p. 20).
23 – no fundo são do vaso onde
tumultuam essas procelas, e donde
borbotam essas erupções, (p. 29).
no fundo são da urna onde
tunultuavam essas procelas, e donde
borbotam essas erupções, (p. 21).
24 – não assenta um ódio, uma
inimizade, uma vingança (p. 29)
não assenta um rancor, uma
inimizade, uma vingança. (p. 21).
25 – ou como conselho de pai a
filhos, se não como o testamento de
uma carreira. (p. 32)
ou como conselho de pai a filhos,
quando não como o testemunho de
uma carreira, (p. 22).
26 – mas sempre o evangelizou com
entusiasmo. (p. 32).
mas sempre o evangelizou com
entusiamo, o procurou com fervor, e
o adorou com sinceridade. (p. 22).
27 – fui sentindo quanto ela
necessita da contradição, (p. 32)
fui sentindo quanto esta necessita
da contradição, (p. 22)
28 – senão sim que o devo,
principalmente, às maquinações dos
malévolos e às contradições da
sorte. (p. 35).
senão
sim
que
o
devo,
principalmente, às maquinações dos
malévolos e às contradições da sorte
madrasta. (p. 23).
29 – Uns querem mal, e fazem bem.
Outros almejam o bem, e nos
trazem o mal. (p. 36)
Uns nos querem mal, e fazem-nos
bem. Outros nos almejam o bem e
nos trazem o mal. (p. 23).
30 – não hajam contribuído senão
não nos hajam contribuído senão
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
35
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
para a nossa felicidade. (p. 37)
para a felicidade. (p. 23).
31 – versado nas lições do tempo.
(p. 39)
versado nas longas lições do tempo,
(p. 24).
32 – por saber se o levarão ao cabo.
(p. 40)
por saber se a levarão ao cabo, (p.
24).
33 – na viagem de trânsito por este
mundo, (p. 40)
na viagem de trânsito deste a outro
mundo. (p. 24)
34 – desde as nebulosas no espaço,
até aos aljôfares de orvalho na relva
dos prados. (p. 42)
desde as nebulosas no espaço, até
aos aljôfares do rocio na relva dos
prados. (p. 25).
35 – quinhoar desigualmente os
desiguais, (p. 42)
quinhoar
desigualmente
desiguais (p. 25).
36 – De cinquenta aspirantes, que,
em
1564,
solicitaram,
em
Salamanca, ingresso à Companhia
de Jesus, (p. 46-47)
De cinquenta aspirantes, que, em
1564, solicitavam, em Salamanca,
ingresso à Companhia de Jesus (p.
27).
37 – se quereis honrar a vossa
vocação, (p. 50)
se quereis honrar vossa vocação (p.
28).
38 – cavar nos veios da vossa
natureza. (p. 50)
Cavar nos veios de vossa natureza
(p. 28).
39 – Nem a cabeça exausta nos
prazeres tem onde caiba o inquirir,
(p. 52)
Nem a cabeça já exauta, ou esta
fada nos prazeres, tem onde caiba o
inquirir, (p. 29).
40 – A natureza nos está mostrando
com o exemplo a verdade. (p. 52)
A natureza nos está mostrando com
exemplos a verdade. (p. 29).
41– Mas, quando se avizinha o
volver da luz, muito antes que ela
arraie a natureza, e ainda antes que
alvoreça no firmamento, já rompeu
na terra em cânticos a alvorada, (p.
Mas, quando se avizinha o volver
da luz, muito antes que ela arraie a
natureza, e ainda primeiro que
alvoreça no firmamento, já rompeu
na terra em cânticos a alvorada, (p.
36
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
aos
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
52-53).
29).
42 – mas a de vos anticipardes (sic)
aos demais, ganhando mais para
vós mesmos, (p. 55).
mas a de antecederdes aos demais,
logrando mais para vós mesmos, (p.
30).
43 – Nem a colheita acode tão
suave às mãos do lavrador, quando
a terra já lhe não está sorrindo entre
o sereno da noite e os alvores do
dia. (p. 56)
Nem a colheita acode tão suave às
mãos do lavrador, quando o torrão
já lhe não está sorrindo entre o
sereno da noite e os alvores do dia.
(p. 31).
44 – Mas muitos somos os que
ignoramos certas condições, talvez
as mais elementares do trabalho, ou,
pelo menos, os que as praticamos.
(p. 56).
Mas muito somos os que ignoramos
certas condições, talvez as mais
elementares, do trabalho, ou, pelo
menos, mui poucos os que as
praticamos. (p. 31).
45 – Quantos são os que acreditam
(p. 56)
Quantos serão os que acreditem (p.
31)
46 – na minha carreira de estudante.
(p. 57)
na minha estirada carreira de
estudante (p.31)
47 – Mas, do que tenho sabido, a
maior parte devo às manhãs e
madrugadas. (p. 58)
Mas, do que tenho logrado saber, o
melhor devo às manhãs e
madrugadas. (p. 31).
48 – excessos de minha vida
laboriosa. (p. 58)
Excessos da minha vida laboriosa.
(p. 31).
49 – Ao que devo, sim, o melhor
dos frutos do meu trabalho, (p. 5859)
– Ao que devo, sim, o mais dos
frutos do meu trabalho, (p. 32).
50 – a relativa exabundância da sua
fertilidade, (p. 59).
– a relativa exabundância de sua
fertilidade, (p. 32).
51 – e daí avante o observei, sem
cessar, toda a minha vida. (p. 59)
e daí avante o observei, sem
acessar, toda a vida. (p. 32).
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
37
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
52 – a ponto de madrugar
exatamente à hora, que comigo
mesmo assentara ao dormir. (p. 59).
a ponto de espertar exatamente à
hora, que comigo mesmo assentava,
ao dormir. (p. 32).
53 – Sucedia, muito amiúde, encetar
eu e minha banca de estudo à uma
ou às duas da antemanhã. (p. 59)
Sucedia, muito a miúde, encetar eu
e minha solitária banca de estudo a
uma ou às duas da antemanhã. (p.
32)
54 – àquelas amadas lucubrações,
as de que me lembro com mais
doces saudades. (p. 60).
àquelas amadas lucubrações, as de
que me lembro com saudade mais
deleitosa e entranhável. (p. 32).
55 – Tenho ainda hoje, a convicção
de que (p. 60).
Tenho ainda hoje, convicção de que
(p. 32).
56 – bem que largamente cerceado
nas suas imoderações. (p. 60).
bem que largamente cerceado nas
antigas imoderações. (p. 32).
57 – um dos meus raros e modestos
desvanecimentos é o de ser um
grande
madrugador,
um
madrugador impenitente. (p. 61).
um dos meus raros e modestos
desvanecimentos é o de ser grande
madrugador,
madrugador
impenitente. (p. 32).
58 – quanto menos ciência se
apura, mais sábios florescem. (p.
62-63)
quanto menos ciência se apurar,
mais sábios florescem. (p. 33)
59 – é, a pedir de boca, o que se diz
verdadeira
mão
de
pronto
desempenho, (p. 63)
é, a pedir de boca, o que se diz mão
de pronto desempenho, (p. 33)
60 – “Paradiso”, XII, L 62. (p. 64 –
nota)
“Paradiso”, XII, 85. (p. 33 – nota)
61 – se escancaram as cancelas da
fama. (p. 62)
se escancelam os portões da fama.
(p. 34)
62 – Vai-se até ao incrível de se
inculcar “o medo aos preparados”,
havê-los como cidadãos perigosos,
Vai-se, até, ao incrível de se
inculcar “o medo aos preparados”,
de
havê-los
como cidadãos
38
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
e ter por dogma que um homem,
cujos estudos excederem a craveira
vulgar, não poderia ocupar um posto
mais grado no governo em país de
analfabetos (p. 65).
perigosos, e ter-se por dogma que
um homem, cujos estudos passarem
da craveira vulgar, não poderia
ocupar qualquer posto mais grado
no governo, em país de analfabetos
(p. 34).
63 – Se o povo é analfabeto, só um
ignorante estará em termos de o
governar. Nação de analfabetos,
governo de analfabeto. (p. 65).
Se o povo é analfabeto, só
ignorantes estarão em termos de o
governar. Nação de analfabetos,
governo de analfabetos. (p. 34).
64 – Sócrates, um dia, numa das
suas conversações, (p. 66).
Sócrates, certo dia, numa das suas
conversações, (p. 34).
65 – dava uma lição de modéstia ao
seu interlocutor, dizendo-lhe, com a
sua costumada lhaneza: (p. 66).
dava grande lição de modéstia ao
interlocutor, dizendo-lhe, com a
costumada lhaneza: (p. 34).
66 – E não és tu só o que se veja
nessa condição: (p. 66).
E não és tu só o que te vejas nessa
condição: (p. 34).
67 – porque tem frequentado os
filósofos”. (p. 66).
porque tem cursado os filósofos”.
(p. 34).
68 – Vede agora os que intentais
exercitar-vos na ciência das leis, vir
a ser os seus intérpretes, se de tal
jeito é que conceberíeis sabê-las e
executá-las. Deste jeito; isto é: (p.
66-67).
Vede agora os que intentais
exercitar-vos na ciência das leis, e
vir a ser seus intérpretes, se de tal
jeito é que conceberíeis sabê-las, e
executá-las. Desse jeito; isto é: (p.
34-35).
69 – Certa vez, que Alcibíades
discutia com Péricles, numa palestra
registrada por Xenofonte, acertou
de se debater o que é lei, e quando
existe, ou não existe. (p. 67).
Uma vez, que Alcibíades discutia
com Péricles, em palestra registrada
por Xenofonte, acertou de se
debater o que seja “lei”, e quando
exista, ou não exista. (p. 35).
70 “– Certamente que o bem,
mancebo”. (p. 67).
“– Certo que o bem, mancebo”. (p.
35).
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
39
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
71 – “– Mas, quando exíguo número
de cidadãos impõe os seus arbítrios
à multidão, (p. 68).
“– Mas, quando um diminuto
número de cidadãos impõe seus
arbítrios à multidão, (p. 35).
72
–
num
país,
onde
verdadeiramente, não há lei, não o
há, moral, política ou juridicamente
falando. (p. 69).
num país, onde, verdadeiramente,
“não há lei”, não há, moral,
política ou juridicamente falando.
(p. 36).
73 – os que professam a missão dos
sustentáculos e auxiliares da lei. (p.
69)
os que professam a missão de
sustentáculos e auxiliares “da lei”,
seus mestres e executores. (p. 36)
74 – não só pela bastardia da sua
origem, mas pelos horrores de sua
aplicação. (p. 69-70)
não só pela bastardia da origem,
senão ainda pelos horrores da
aplicação. (p. 36)
75 – “Bona este lex, si quis ea
legitime utatur”. (p. 70)
“Bona este lex, si ea legitimè
utatur”. (p. 36)
76 – Ou, mais sinceramente,
pretenderia significar o apóstolo das
gentes que mais vale a lei mal
inexecutada, ou mal executada,
para o bem, que a boa lei,
sofismada e não observada, contra
ele. (p. 70-71)
Ou, mais lisa e claramente, se bem
o entendo, pretenderia significar o
apóstolo das gentes que mais vale a
lei má, quando “inexecutada”, ou
“mal executada” (para o bem), que
a boa lei, sofismada e não
observada (contra ele). (p. 37)
77 – que, por assim dizer, estupendo
e sobre-humano não será, logo, em
tais condições, o papel da justiça!
(p. 71).
que, por assim dizer, estupendo e
sobre-humano logo, não será, em
tais condições, o papel da justiça!
(p. 37).
78 – em sendo justas, lhes manterão
eles a sua justiça, e, em sendo
injustas, lhes poderão moderar, se
não, até, em seu tanto, corrigir a
injustiça. (p. 71).
em sendo justas, lhes manterão eles
a sua justiça, e, injustas, lhes
poderão moderar, se não, até, no seu
tanto, corrigir a injustiça. (p. 37).
79 – “Aí temos a lei”, dizia o
Florentino. “Mas quem as há de
“Aí temos a lei”, dizia o Florentino.
“Mas quem lhes há de ter mão?
40
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
segurar? Ninguém”. (p. 71).
Ninguém”. (p. 37).
80 – Dante: Purgatório, XVII, 21819. (p. 71)
Dante: Purgatório, XVI, 97-98. (p.
37)
81 – a mão sustentadora das leis, aí
está, hoje, entre nós, criada, e tão
grande, (p. 72).
a mão sustentadora das leis, aí a
temos, hoje, criada, e tão grande, (p.
38).
82 – que, em falseando ele ao seu
mister, (p. 73).
que, falseando ele ao seu mister, (p.
38).
83 – ainda que agredida, vacilante e
mal segura. (p. 74).
ainda que agredida, oscilante e mal
segura. (p. 38).
84 – em que mal se conservam
grosseiros traços (p. 74).
em que mal se conservam ligeiros
traços (p. 38).
85 – imensas nas suas dificuldades,
responsabilidades e utilidades. (p.
75).
imensas
nas
dificuldades,
responsabilidades e utilidades. (p.
39).
86 – Metei no seio essas três fés, (p.
76)
Metei no regaço essas três fés, (p.
39)
87 – Não hajais medo que a sorte
vos ludibrie. (p. 76)
Não hajais medo a que a sorte vos
ludibrie. (p. 39)
88 – Tomai a que vos indicarem os
vossos pressentimentos, (p. 76).
Tomai a que vos indicarem vossos
pressentimentos, (p. 39).
89 – Mas não primeiro que hajais
buscado na experiência de outrem
um pouco da que vos é mister, e
ainda não tendes, (p. 77).
Mas não primeiro que hajais
buscado na experiência de outrem
um pouco da que vos é mister, e que
ainda não tendes, (p. 40).
90 – Pelo que me toca,
escassamente avalio até onde, nisso,
vos poderia ser útil, (p. 77).
Pelo que me toca, escassamente
avalio até onde, nisso, vos poderia
eu ser útil, (p. 40).
91 – Como dilatar-me, porém,
Como me dilataria, porém, numa
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
41
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
numa ou noutra coisa, (p. 78).
ou noutra coisa, (p. 40).
92 – Não contarei, pois, senhores, a
minha experiência, (p. 78).
Não recontarei, pois, senhores, a
minha experiência, (p. 40).
93 – se bem que nem todos possam
jurar pelo valor dos conselhos. (p.
79).
se bem que nem todos possam jurar
pelo valor dos seus conselhos. (p.
40).
94
–
São,
talvez,
vulgaridades, (p. 79).
Serão, talvez, meras vulgaridades,
(p. 41).
meras
95 – Exemplo, senhores. (p. 81).
Ponho exemplo, senhores. (p. 41).
96 – chegando as causas a contar a
idade por lustros, em vez de anos.
(p. 81).
Chegando as causas a contar a idade
por lustros, ou décadas, em vez de
anos. (p. 41).
97 – Os juízes retardatários (p. 81).
Os juízes tardinheiros (p. 42).
98 – Mas a sua culpa tresdobra (p.
81-82).
Mas sua culpa tresdobra (p. 42).
99 – os autos penam como as almas
do purgatório, ou as preguiças do
mato. (p. 82).
os autos penam como as almas do
purgatório, ou arrastam sonos
esquecidos como as preguiças do
mato. (p. 42).
100 – a si mesmo põem suspeições
requintadas, (p. 82).
a si mesmo põem suspeições
rebuscadas, (p. 42).
101 – torturando o réu com
severidades inoportunas; (p. 83).
torturando o réu com severidades
inoportunas,
descabidas,
ou
indecentes; (p. 42-43).
102 – não tivesse por sagrado o
homem, sobre quem recai uma
acusação inverificada. (p. 83).
não houvesse por sagrado o homem,
sobre quem recai acusação ainda
inverificada. (p. 43).
103 – para se acreditar com o nome
para se acreditar com o nome de
42
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
de austeros e incorruptíveis. (p. 83).
austeros e ilibados. (p. 43).
104 – uma reputação malignamente
obtida à custa da verdadeira
inteligência dos textos legais. (p.
83).
uma reputação malignamente obtida
em
prejuízo
da
verdadeira
inteligência dos textos legais. (p.
43).
105 – valor das
reivindicadas, (p. 84).
quantias
valor das quantias litigadas, (p. 43).
106 – os menos ajudados da boa
fortuna; (p. 84).
os menos ajudados da fortuna; (fig.
43).
107 – a reparação, que se impõe,
aos lesados. (p. 34).
a reparação, que se demanda (p.
43).
108 – os togados, que contraíram a
doença de acharem sempre razão ao
Estado, ao Governo, à Fazenda,
pelo que os condecora o povo com
o título de “fazendeiros”. (p. 85).
os togados, que contraíram a doença
de achar sempre razão ao Estado,
ao Governo, à Fazenda; por onde os
condecora o povo com o título de
“fazendeiros”. (p. 43).
109 – Antes, se admissível fosse
qualquer presunção, (p. 85).
Antes, se admissível fosse
qualquer presunção, (p. 43).
110 – Pois essas entidades são as
mais
poderosas,
as
mais
irresponsáveis, (p. 85).
pois essas entidades são as mais
irresponsáveis, (p. 43).
111 – (por não serem os
perpetradores de tais atentados os
que por eles pagam), (p. 86).
(por não serem os perpetradores de
tais atentados os que os pagam), (p.
44).
112 – para assegurar ao Fisco uma
situação monstruosa; (p. 87).
para assegurar ao Fisco
situação monstruosa; (p. 44).
113 – e ainda hoje (p. 87).
e que ainda hoje (p. 44).
114 – e os contra cujo direito
conspiram a inferioridade na
condição, com a desigualdade nos
e os contra cujo direito conspiram a
inferioridade na condição com a
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
aí
esta
43
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
recursos, (p. 88).
míngua nos recursos. (p. 44).
115 – preservai as vossas almas
juvenis (p. 88).
preservai vossas almas juvenis (p.
44).
116 – e não conhecer a cobardia. (p.
88).
e não conhecer cobardia. (p. 44).
117 – que a nada se dobra, e de
nada se teme, (p. 88).
que a nada se dobre, e de nada se
tema, (p. 44-45).
118 – Nem receieis (sic) alguma
soberania da terra: a do povo, ou a
do poder. (p. 89).
Nem
receieis
(sic)
alguma
soberanias da terra: nem a do povo,
nem a do poder. (p. 45).
119 – por uma ação magnânima, (p.
89).
pelas ações magnânimas, (p. 45).
120 – não têm (p. 89).
Não terão (p. 45).
121 – são, às vezes, mais
intolerantes com os magistrados ...
que os antigos monarcas absolutos.
(p. 90).
São, às vezes, mais intolerantes com
os magistrados ... do que os antigos
monarcas absolutos. (p. 45).
122 – como se haveriam com
ouvidores e desembargadores d’ElRei (p. 91).
como se haveriam com os ouvidores
e desembargadores d’El-Rei (p. 45).
123 – Bom será que os bárbaros
tivessem deixado lições tão
inesperadas às nossas democracias,
a ver se, barbarizando-se com esses
modelos, anteporiam elas a justiça
ao parentesco, e nos livraram da
peste das parentelas, em matéria de
governo. (p. 92-93).
Bom é que os bárbaros tivessem
deixado lições tão inesperadas às
nossas democracias. Bem poderia
ser que, barbarizando-se com esses
modelos, antepusessem elas, enfim,
a justiça ao parentesco, e nos
livrassem da peste das parentelas,
em matérias de governo. (p. 46).
124 – ando a catar a minha
literatura de hoje (p. 93)
ando a catar minha literatura de
hoje (p. 46)
44
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
125 – Com tão cruel mania
ganharíeis, com razão, o crédito de
mau, e não de reto, (p. 94).
Dados a tão cruel mania,
ganharíeis, com razão, conceito de
maus, e não de retos, (p. 47).
126 – por esse vício lucraríeis a
néscia reputação de original, mas
nunca a de sábio, douto, ou
consciencioso. (p. 94).
Por esse meio lucraríeis a néscia
reputação de originais; mas nunca a
de
sábios,
doutos,
ou
conscienciosos. (p. 47).
127 – venderíeis vossas almas e
famas ao demônio da ambição, da
intriga e da servidão às paixões. (p.
94).
venderíeis as almas e famas ao
demônio da ambição, da intriga e da
servidão
às
paixões
mais
detestáveis. (p. 47).
128 – Fazendo aos vossos colegas
toda a honra, (p. 95).
Fazendo aos colegas toda a honra,
(p. 47).
129 – prestai-lhes todo o crédito, a
que sua dignidade houver direito;
(p. 95).
prestai-lhes o crédito, a que sua
dignidade houver direito; (p. 47).
130 – mas não tanto que delibereis
só de lhes ouvir, (p. 95).
mas não tanto que delibereis só de
os ouvir, (p. 47).
131 – Não prescindais, em suma, do
conhecimento pessoal, (p. 95).
Não prescindais, em suma, do
conhecimento próprio, (p. 47).
132 – De quanto no mundo tenho
visto, o resumo se abrange nestas
CINCO palavras: Não há justiça
sem Deus. (p. 96).
De quanto no mundo tenho visto, o
resumo se abrange nestas CINCO
palavras: Não há justiça, onde não
haja Deus. (p. 47).
133 – Mas seria perder tempo, se
não
encontrardes
a
sua
demonstração (p. 96).
Mas seria perder tempo, se já não
encontrastes a demonstração (p.
47).
134 – A Justiça humana cabe nessa
regeneração um papel essencial. (p.
97).
A Justiça humana cabe, nessa
regeneração, papel essencial. (p.
48).
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
45
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
135 – com a influência dessa
altíssima dignidade, (p. 97).
com a influência da altíssima
dignidade, (p. 48).
136 – com a incompetência de
quem não a exerceu. (p. 97).
com a incompetência de quem não
a tem exercido. (p. 48).
137 – que me não será dado tratar.
(p. 98).
que me não será dado agora tratar.
(p. 48).
138 – Que perdereis, com essa
omissão? Nada. (p. 98).
Mas que perdereis,
omissão? Nada. (p. 48).
139 – Lei e liberdade são as duas
tábuas da vocação do advogado. (p.
98-99).
Legalidade e liberdade são as
tábuas da vocação do advogado. (p.
48).
140 – Não se subtrair à defesa das
causas impopulares, ou das
perigosas, quando justas. (p. 99).
Não se subtrair à defesa das causas
impopulares, ou à das perigosas,
quando justas. (p. 49).
141 – Não fazer da banca balcão, e
da ciência mercatura. (p. 100).
Não fazer da banca balcão, ou da
ciência mercatura. (p. 49).
142 – a invasão germânica ocupava
a terra de França, (p. 101).
a invasão germânica alagava terras
de França, (p. 49).
143 – envolvia culpados e inocentes
numa convulsão, que acreditaríeis
haver despejado o inferno entre as
nações da terra, dando a um
inaudito
fenômeno
humano
proporções quase capazes de o
equivocar, na sua espantosa
imensidade, com um cataclismo
cósmico. (p. 102).
envolvia culpados e inocentes numa
série de convulsões, tal, que
acreditaríeis haver-se despejado o
inferno entre as nações da terra,
dando ao inaudito fenômeno
humano proporções quase capazes
de representar, na sua espantosa
imensidade,
um
cataclismo
cósmico. (p. 50).
144 – Parecia estar-se aniquilando o
mundo. (p. 102).
Parecia estar-se desmanchando e
aniquilando o mundo. (p. 50).
145 – a velha política, desalmada e
a
46
velha
política,
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
com
tal
desalmada,
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
mercantil, (p. 102).
mercantil e cínica, (p. 50).
146 – num ciclone de abominações
inenarráveis, cujo turbilhão bem
depressa viria abranger, como
abrangeu, no círculo das suas
tremendas comoções, e deixar
revolvido o orbe inteiro (p. 103).
num ciclone de abominações
inenarráveis, que bem depressa
abrangeria, como abrangeu, na
zona das suas tremendas comoções,
os outros continentes e deixaria
revolvido o orbe inteiro (p. 50).
147 – O bloco do inexorável
mercantilismo (p. 103).
O
Briaréu
do
mercantilismo (p. 50).
148 – o Brasil da hegemonia sulamericana, estabelecida com a
guerra do Paraguai. (p. 104).
o Brasil “da hegemonia sulamericana”, entreluzida com a
guerra do Paraguai. (p. 50).
149 – não cultivava
veleidades. (p. 104)
não cultivava tais veleidades. (p.
50)
essas
inexorável
150 – Mas, de repente, agora, (p.
105).
mas, de súbito, agora, (p. 51)
151 – Porque a nossa política
descurou dos nossos interesses, e,
com isso, delirando num acesso de
frívolo despeito, (p. 105).
Porque a nossa política nos
descurou dos interesses, e, ante
isso, delirando em acesso de frívolo
despeito, (p. 51).
152 – ao escândalo de se dar à terra
toda como a mais fútil das nações,
uma nação que, (p. 107).
ao escândalo de se dar à terra toda
como a mais fútil das nações, nação
que, (p. 51).
153 – não vamos agora mostrar os
punhos aos irmãos, com que
comungávamos, inda há pouco,
nessa verdadeira cruzada. (p. 107).
não vamos agora mostrar os punhos
contraídos aos irmãos, com que
comungávamos, há pouco, nessa
verdadeira cruzada. (p. 52).
154 – o equilíbrio da nossa
dignidade, por amor de uma disputa
de estreito caráter comercial (p.
107-108).
o equilíbrio da dignidade, por amor
de uma pendência de estreito
caráter comercial (p. 52).
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
47
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
155 – antes de averiguar (p. 108).
antes de averiguarmos (p. 52).
156 – sem quebra da seriedade e
decoro (p. 109).
sem quebra da seriedade e do
decoro (p. 52).
157 – se neles quiséssemos brilhar
melhor do que brilháramos nos atos
da guerra. (p. 109).
se neles quiséssemos brilhar melhor
do que brilháramos nos atos da
guerra, e acabar sem contratempos
ou dissabores. (p. 52).
158 – e, oferecida, incauta, ingênua,
inerme, (p. 110).
e, oferecida, com está, incauta,
ingênua, inerme, (p. 52).
159 – fartar a duas ou três (p. 110).
fartar duas ou três (p. 52).
160 – o que lhe importa, é que dê
começo a se governar a si mesmo;
(p. 110).
o que lhe importa, é que dê começo
a governar-se a si mesmo; (p. 53).
161 – porquanto nenhum dos
árbitros da paz e da guerra leva a
sério
uma
nacionalidade
adormecida (p. 110).
porquanto nenhum dos árbitros da
paz e da guerra leva em conta uma
nacionalidade adormecida (p. 53).
162 – não pode aspirar seriamente,
(p. 110).
não pode almejar seriamente, (p.
53).
163 – manter a sua independência
do estrangeiro. (p. 110).
manter a sua independência para
com o estrangeiro. (p. 53).
164 – essa ressurreição almejada.
(p. 111).
essa ressurreição ansiada. (p. 53).
165 – Assim Deus o queira, (p.
111).
Assim o queira Deus. (p. 53).
48
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
2.2. A língua de rui, gramática da Oração aos Moços
De modo geral, a leitura da Oração aos Moços demonstra o crescente gramaticismo de Rui, depois da Réplica. A par
da ortodoxia gramatical mais extremada, é possível notar-selhe certo empenho de modernidade, desde que não venha esta
implicar desaire do idioma.
Iremos a ver se as notas que seguem confirmam nossa
impressão.
I
É, sem dúvida, incontestável a predileção de Rui à presença do artigo antes dos pronomes possessivos, segundo a lição dos escritores mais recentes:
...os meus cinquenta anos de consagração ao direito... (11)5
...no templo do seu ensino... (11)
...com a vossa admissão ao nosso sacerdócio (11)
...no sacrário do seu peito... (12)
...o aniquilamento da nossa miséria desamparada... (13)
...e aí o sentireis com a sua segunda vista... (14)
ADVERTÊNCIA IMPORTANTE: Indicam páginas da Oração aos Moços os números que
não vierem acompanhados de notas respectivas no rodapé.
5
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
49
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
...com os nossos conviventes... (14)
...com os nossos descendentes e sobreviventes, com os nossos
sucessores e pósteros... (14)
...a colação do vosso grau... (16)
...um como vínculo sagrado entre a vossa existência intelectual,
que se enceta, e a do vosso padrinho em letras, que se acerca do
seu termo. (16)
Aí está o resultado de rápida colheita, apenas em meia
dúzia de páginas. Temos por escusado transcrever, para fundamentar a nossa observação, a totalidade dos exemplos reunidos, os quais andam por uma centena. Ao contrário, aduzimos todos os casos de omissão, como prova da sua relativa escassez:
...quando sua visão tem por limite a do nervo ótico... (13)
Vosso coração, pois, ainda estará incontaminado... (14)
Desta, sobre tudo, é que ele nutre sua vida agitada e criadora.
(14)
...pela grandeza da pátria e suas liberdades, no parlamento. (16)
...o espírito encontrou logo seu equilíbrio... (16)
...reconhecendo a escassez de minhas reservas de energia... (17)
Tenho o consolo de haver dado a meu país tudo o que me estava
ao alcance... (17)
...se quereis honrar vossa vocação... (28)
...dispostos a cavar nos veios de vossa natureza... (28)
...a voz do Senhor, perguntando a seu servo... (30)
...a relativa exabundância de sua fertilidade... (32)
...impõe seus arbítrios à multidão... (35)
50
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
Tomai a que vos indicarem vossos pressentimentos, gostos e explorações, no campo dessas nobres disciplinas... (39)
Preservai, juízes de amanhã, preservai vossas almas... (44)
...um dos mais memoráveis atos de sua vida... (51)
Mãos à obra da reivindicação de nossa perdida autonomia... (53)
E’ importante notar que, no MANUSCRITO, a maioria
dessas frases traziam o artigo, o que revela quanto lhe era espontânea a tendência para o seu emprego. (Cf. os n.ºs 4, 10,
11, 37, 38, 50, 71, 88, 98, 115, 124).
Said Ali, seguro como sempre, informa que
...só de Camões para cá se torna, de século para século, cada vez
mais notória a frequência do possessivo reforçado. Fernão Lopes
poucas vezes se socorria desta forma; e, seus escritos ela figura,
ao lado dos exemplos de possessivo destituído de artigo, em proporção muito pequena: 5% aproximadamente. Já nos Lusíadas
sobe a porcentagem a 30%, na linguagem de Vieira a 70% e finalmente na de Herculano a mais de 90%. (ALI, 1931, p. 99 da
1ª Parte).
Aliás, Rui, quase sempre, fugia o possessivo, quer omitindo-o simplesmente (cf., no MANUSCRITO, os nos 51, 56, 65,
74, 85, 128, 154), quer substituindo-o pelo dativo do pronome
pessoal, como nos mostra, ainda, o n.º 30 do MANUSCRITO. Eis
a redação habitual, na forma definitiva da Oração aos Moços:
...e dando-me a honra de vos ser eu paraninfo... (16)
Já o jurista começava a olhar com os primeiros toques de saudade para o instrumento, que, há dez lustros, lhe vibra entre os dedos... (16)
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
51
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
...antes que o naufrágio me arrancasse das mãos a bandeira sagrada. (17)
...com que habilitar o mísero advogado a sustentar-lhes com alma, com dignidade, com sobrançaria, as desprezadas reivindicações. (17)
Assim que a benção do paraninfo não traz fel. Não lhe encontrareis no fundo nem rancor, nem azedume, nem despeito. (18)
desde que o tempo começou, lento lento, a me decantar o espírito
do sedimento das paixões... (22)
Os governos investem contra a justiça, provocam e desrespeitam
os tribunais; mas, por mais que lhes espumem contra as sentenças... (45)
...sempre que a prova terminante vos esteja ao alcance da vista...
(47)
Não é sonho, meus amigos: bem sinto eu, nas pulsações do sangue, essa ressurreição ansiada. Oxalá não se me fechem os olhos,
antes de lhe ver os primeiros indícios no horizonte. (53)
Procedendo assim, Rui guarda fidelidade ao que sobre o
assunto já ensinara no “Parecer” (BARBOSA, 1902, p. 13-14)
e confirmara na Réplica (BARBOSA, 1904, nº 262).
II
Com respeito ao uso do artigo depois de todo, a indicar
a totalidade numérica, sublinhe-se o mesmo desejo de não
despojar a língua de qualquer das suas variações gramaticais
consagradas pelos bons autores. Contudo, sua preferência,
segundo parece, inclina, ainda uma vez, para o gosto moderno.
(ALI, 1945, p. 53-62)
52
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
1) – sem artigo:
Nem toda ira, pois, é maldade... (19)
Todo pai é conselheiro natural. (40)
2) – com artigo:
Todo o bom magistrado tem muito de heroico em si mesmo.
(44)
No soneto “Lamento”, de Antero de Quental (193, p.
137), cuja linguagem espelha muito ao vivo o estado da língua
em sua época, lê-se o seguinte:
Deus é Pai! Pai de toda a criatura:
E a todo o ser o seu amor assiste:
De seus filhos o mal sempre é lembrado...
Antes de possessivo, também só encontramos a forma
com artigo:
...ainda brilha em toda a sua rutilância o clarão da lâmpada sagrada, ainda arde em toda a sua energia o centro de calor, a que
se aquece a essência d’alma. (14)
Também na expressão “de toda a ordem”:
...consumando lesões de toda a ordem... (44)
E, ainda, em “todo o mundo”:
...e a lei processual, em todo o mundo civilizado...(43)
...bem outros era este país e todo o mundo ocidental... (49)
Todo o mundo vo-lo dará por líquido e certo. (33)
No “Discurso do Colégio Anchieta” (BARBOSA,
1924), escrito pouco tempo depois da Réplica:
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
53
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
E é com essas alturas que se apostou o clero católico, é com elas
que se mede, alargando todo o dia a sua base, elevando todo o
dia os seus topos... (p. 323).
E na formosa “Visita à Terra Natal” (BARBOSA,
1948), que é anterior à polêmica:
...me estendia os braços de toda a parte, no longo amplexo do
horizonte. (p. 6)
...esse leve perfume de gosto, propriedade e elegância discreta,
que, em toda a parte, é um sinal de educação... (p. 43).
III
Outrossim, até + a + artigo definido ocorre mais frequentemente que até + artigo definido. Outro indício de modernidade gramatical?
Exemplos:
...alteia o voo soberbo, além das regiões siderais até aos páramos
indevassáveis do infinito. (23)
...o segredo feliz, não só das minhas primeiras vitórias no trabalho, mas de quantas vantagens alcancei jamais levar aos meus
concorrentes, em todo o andar dos anos, até à velhice. (32)
Nesta frase, aproveitam-se ambas as possibilidades que
a língua oferece:
Tudo assim, desde os astros, no céu, até os micróbios no sangue,
desde as nebulosas no espaço, até aos aljôfares do rocio na relva
dos prados. (25)
54
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
Acrescentem-se, a fim de se patentear quanto campeava
de preferida a combinação das duas preposições, estes exemplos de outras épocas:
...desde as porfias da escola até às meditações do gabinete.
(BARBOSA, 1924, p. 283).
...suas vaias sobem nas escolas até à cátedra dos professores.
(BARBOSA, 1924, p. 284).
...na região onde a consciência estende os seus pensamentos até
às plagas da outra vida... (BARBOSA, 1948, p. 33).
IV
No MANUSCRITO (cf. nº 106), escrevera Rui:
Porque quanto mais armados estão de tais armas os poderosos,
mais inclinados é de recear que sejam à extorsão contra os menos ajudados da boa fortuna.
Ao rever o trabalho, cortou o adjetivo boa. Essa emenda, tê-la-ia ditado o sentimento do valor atual da palavra fortuna?
O certo é que
...era uso comum dos clássicos ajuntar os epítetos correspondentes às palavras que podiam tê-los, conforme os casos; diziam,
pois: a boa fortuna, a má fortuna, boa ou triste ventura, o bom ou
mau ou triste sucesso, o bom gosto ou mau, etc. Hoje, suprimindo-se o epíteto, sempre se estende o bom ou o mais favorável: a
fortuna (isto é, a boa fortuna), o gosto, o sucesso, a ventura. (RIBEIRO, 1905, nota 63)
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
55
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
Ao comentar essa nota da “Seleta Clássica”, assim a enriquece Mário Barreto:
O sentido primitivo da palavra fortuna é o sentido neutro e indiferente de “sorte” ou de “acaso”. Por isso é que os clássicos lhe
ajuntavam um qualificativo que indicasse os sorrisos ou a carranca da sorte: a boa fortuna, a má fortuna, próspera e adversa
fortuna. Dos dois sentidos opostos um desaparece. Vinga de ordinário o sentido otimista, o que só raramente sucede com o sentido depreciativo. Assim é que a palavra fortuna, na língua moderna, se emprega absolutamente, e sempre em acepção benéfica: no sentido contrário, foi substituída por desfortuna, e infortúnio. (BARRETO, 1924, 128-129)
Antônio Ferreira, o doutíssimo defensor da língua no
século XVI, explica, em “A Castro” (vs. 111-118, da edição de
Sousa da Silveira), esse sentido neutro da palavra fortuna:
Mas o espírito inquieto cos clamores
Do povo, e rogos graves, que trabalham
Apartar est’amor, quebrar sua força,
Me traziam medrosa, receando
A volta da fortuna, que ora amiga,
Ora imiga cruel, alça, e derriba...
De desfortuna também usou Rui na Oração aos Moços:
Então vim a perceber vivamente que imensa dúvida cada criatura
da nossa espécie deve aos seus inimigos e desfortunas. (22)
O que ele, com escrúpulo, evitou, foi empregar a palavra no sentido de haveres, riquezas, bens patrimoniais, sentido
recriminado (aliás, sem razão) pelos puristas mais exigentes.
56
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
V
Esteia na melhor tradição a regência dos nomes e a dos
verbos. Nem uma só vez, transigiu Rui com sintaxes menos
puras, ainda que perpetradas esporadicamente por escritores de
nota. Abraçou sempre as construções, por assim dizer, universais nos mestres da língua.
No regime dos substantivos que “significam disposições
do ânimo, ou manifestações de disposições do ânimo em relação a um objeto" (DIAS, 1933, § 206, p. 157)6 vai encontrar-se
absoluta regularidade e obediência aos modelos castiços:
Porque o ódio ao mal é o amor ao bem, e a ira contra o mal, entusiasmo divino. (18)
Agora, alguns verbos:
Aspirar a:
...não me negou senão o a que eu não devia ter tido a inconsciência de aspirar. (11)
Assistir a:
...assistira impassível à entronização dos cálculos dos governos
sobre os direitos dos povos... (50)
Assistir (+ complemento adverbial):
...isto de me achar assistindo, assim, entre os de quem me vejo
separado por distância tão vasta... (12)
6
Ver também, a respeito, BARRETO (1911, p. 348 e 1916, p. 22-26).
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
57
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
Associar-se com:
...associando-se hoje com a vossa admissão ao nosso sacerdócio... (11)
Comparar-se a:
Suas vitórias [as do trabalho] na reconstituição da criatura mal
dotada só se comparam às da oração. (26)
Parece exata a distinção, posto que sutil entre comparar
a (=igualar, assemelhar) e comparar com (=confrontar, pôr em
cortejo as semelhanças, ou diferenças).
Deparar (bitransitivo) = apresentar, proporcionar:
...esta purificação gradual, que nos deparam as vicissitudes cruéis da existência... (22)
Entrar a:
Menino ainda, assim que entrei no colégio... (32)
Em 1907 entrou, pela porta de Haia, ao concerto das nações. (51)
Juntar-se a e com:
Mas, quando o trabalho, se junta à oração, e a oração com o trabalho... (26-27)
Aqui, como sucede tantas vezes, deixa Rui a lição completa. Cf., por exemplo, com respeito ao verbo parecer (-se),
que, nesta mesma Oração aos Moços (p. 25), aparece com a
preposição a:
Não há, no universo, duas coisas iguais. Muitas se parecem umas
às outras. Mas todas entre si diversificam. –,
58
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
a duplicidade de regimes com que ele o usou nas “Orações do
Apóstolo” (BARBOSA, 1923, p. 229-230):
Todavia, pode-se dizer que não teve modelos, e que as raras sugestões que acolheu de outros autores se parecem tanto às composições de Swift como o linho bruto com a cordoalha que dele
se tece.
Também, lado a lado se põem os dois valores semânticos de querer, neste passo da conferência sobre Osvaldo Cruz
(BARBOSA, 1924, p. 161):
Chefe de ideias – como por irrisão me chamaram, convencido
estou, já hoje, de que acabarei sem que as minhas tenham o seu
dia, porque a minha pátria ainda não as quis, nem lhes quer.
A propósito deste verbo, lembre-se que, apesar de haver
tentado defender, aliás, com pouca felicidade, o seu emprego
como transitivo direto na acepção de querer bem, (cf. Réplica,
nº 124) Rui não adotava a sintaxe repreensível. E, quando escreveu:
Querendo com amor o idioma que falamos... (Parecer, p. 3).
frase que deu pretexto a Carneiro Ribeiro para a censura que
lhe fez, em “A Redação do Projeto do Código Civil Brasileiro”, cap. XVI, p. 127-141 –, logo se apressou ele em desculpar-se com “a incorreta reprodução no trabalho da oficina” tipográfica.
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
59
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
Sem embargo de ter justificado a forma vitanda, não a
acolheu jamais, mesmo depois da Réplica. No discurso do Colégio Anchieta (op. cit., p. 277), redigido em 1903, lá está:
Toda a planta quer o húmus, de que se nutre, ao envoltório aéreo,
onde respira, ao pedaço de azul celeste, que lhe sorri e a orvalha.
Prosperar (transitivo direto) = fazer prosperar:
...as leis do bom governo, que prosperam os Estados, moralizam
as sociedades, e honram as nações. (17)
Reagir sobre (= influir em sentido contrário, ter ação
sobre):
...cada um, nos limites da sua energia moral, pode reagir sobre as
desigualdades nativas... (26)
Rivalizar (transitivo direto):
...estimulando os outros a que vos rivalizem no ganho bendito.
(30)
...nada lhe iguala a majestade, nada lhe rivaliza o poder. (38)
Semelhar a:
...a criação do homem pelo homem semelha às vezes, em maravilhas, à criação do homem pelo divino Criador. (27)
Soçobrar (transitivo direto):
...e, na América do Norte, poucos anos antes, a guerra civil limpara da grande república o cativeiro negro, cuja agonia esteve a
pique de a soçobrar despedaçada. (49)
60
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
VI
No emprego do gerúndio não há também a menor eiva
de antivernaculidade. Quando não figura ele em sua função
historicamente legítima, isto é, a função adverbial, aparece
com nítido valor progressivo: preso a um substantivo ou pronome da oração principal (e não a um verbo), indica “um fato
em desenvolvimento”, e não uma “qualidade permanente” do
ser.
Assim, numa frase como:
Vi dois homens brigando na rua,
aquele gerúndio “brigando” só aparentemente está preso ao
substantivo “homens”.
Na realidade, o que aí existe é uma oração adjetiva (que
estavam brigando na rua), na qual se omitiram o pronome relativo e o verbo auxiliar.7 E o gerúndio corresponde a uma expressão de infinitivo precedido de a.
Depois dos estudos de Otoniel Mota, Said Ali e Cláudio
Brandão, ficou comprovada, pelo menos, a frequência com
que em autores portugueses ocorre o gerúndio como forma equivalente do particípio presente latino.
Esta maneira de ver coincide com a de José Oiticica, expressa na última edição do
seu “Manual de Análise” (p. 218).
7
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
61
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
Em lúcido resumo da questão, reconhece Clóvis Monteiro (1943, p. 18-21) que “autores nossos têm abusado do
emprego do gerúndio com função adjetiva, como se fosse ele
sempre indispensável ou insubstituível.” Aí (parece-nos) é que
bate o ponto: – “...como se fosse ele sempre indispensável ou
insubstituível.” Temos que, exceto como forma progressiva, ou
em algumas construções que se cristalizaram na gíria administrativa (...assinou decreto, nomeando fulano de tal...) – repugna à índole do idioma o gerúndio que não modifique diretamente um VERBO anterior.
Mais uma vez, revela-se Rui extremado purista; exemplos:
1) – de gerúndio progressivo:
Vede Jesus despejando os vendilhões do templo, ou Jesus provando a esponja amarga no Gólgota. (18)
Ouvi, no poema de Jó, a voz do Senhor, perguntando a seu servo
onde estava, quando o louvavam as estrelas da manhã... (30)
2) – de gerúndio com função adverbial:
...e, negando-me a divina bondade um momento de tamanha
ventura, não me negou senão o a que eu não devia ter tido a inconsciência de aspirar. (11)
Entrelaçando a colação do vosso grau com a comemoração jubilar da minha, e dando-me a honra de vos ser eu paraninfo, urdis,
desta maneira, no ingresso à carreira que adotastes, um como
vínculo sagrado... (16)
...discernimos a quota de lucro, com que eles, não levando em tal
o sentido, quase sempre nos favorecem. (22-23)
62
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
Bem, poderia ser que, barbarizando-se com esses modelos, antepusessem elas, enfim, a justiça ao parentesco... (46)
...e, em vos sentindo incapazes de uns [postos], buscar outros...
(39)
Eram dois prenúncios de uma alvorada, que doirava os cimos do
mundo cristão, anunciando futuras vitórias da liberdade. (49)
VII
Em matéria de colocação de pronomes átonos, escrupuliza Rui em não delirar do rigorismo gramatical mais severo.
De maneira geral, faz anteceder o pronome ao verbo, nos casos facultativos.
Não querendo alongar esta página, dispensamo-nos de
copiar os numerosos passos da Oração aos Moços (que todos
foram devidamente catalogados), onde se vê, sem exceção, o
pronome átono antes do verbo nas orações negativas e nas subordinadas desenvolvidas de quaisquer espécies. Exagera-se
tanto a observância desse princípio – a anteposição nas orações subordinadas – que mesmo as orações de porque explicativo, 8 nas quais se faculta a posposição, trazem sistematicamente o pronome antes do verbo. Eis os lugares:
A rigor, tais orações são coordenadas, daí, a possibilidade da ênclise. Cf. ALI
(1930, p. 61) e OITICICA (1940, p. 62, nota). Como observação curiosa, consigne-se
que o primeiro autor que tratou de colocação dos pronomes átonos já preconizava a
proposição nas orações de que e porque coordenativos; esse autor foi um velho
gramático do Funchal, ANDRADE JR. (1850).
8
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
63
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
Não é trabalho digno de tal nome o do mau; porque a malícia do
trabalhador o contamina. (26)
Não é oração aceitável a do ocioso; porque a ociosidade o dessagra. (26)
...e proponde-vos caprichar nelas com dobrado rigor; porque, para sermos fiéis no mundo, o devemos ser no pouco. (41)
Decisivo é o trecho seguinte, em virtude do afastamento
ente a conjunção e o pronome:
Que extraordinário, que imensurável, que, por assim dizer, estupendo e sobre-humano, logo, não será, em tais condições, o papel da justiça! Maior que o da própria legislação. Porque, se dignos são os juízes, como parte suprema, que constituem, no executar das leis, – em sendo justas, lhes manterão eles a sua justiça,
e, injustas, lhes poderão moderar, se não, até, no seu tanto, corrigir a injustiça. (37)
Igual cuidado se patenteia nos casos de verbo antecedido de advérbio:
...ainda me consentiu o encanto de vos falar... (11)
Até ontem lhe banhava ela de luz todo esse espaço... (13)
Comumente se acende em sentimentos desumanos e paixões
cruéis. (19)
Então a palavra se eletriza... (20)
Na coordenação – diz Epifânio Dias – os pronomes átonos,
quando pospostos ao verbo, repetem-se junto de cada verbo: depois de saudar-me e abraçar-me; quando antepostos, podem subentender-se do primeiro verbo para o segundo e seguintes: depois de me saudar e abraçar. (DIAS, 1933, § 245, p. 178)
A ênfase é que (assim completa Daltro Santos a lição do mestre português) “leva, às vezes, a repetir-se o pronome átono anteposto”. (BARRETO & LAET, p. 28, nota 6)
Rui, como sempre, explora todos os recursos da língua:
64
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
a) – exemplos de pronome somente junto do primeiro
verbo:
...a lei se deslegitima, anula e torna inexistente... (36)
Destarte se incrementa e desmanda ele... (41)
Mas a geral habitualidade e a conveniência geral o entretêm, inocentam e universalizam. (41)
A intrepidez do juiz, como a bravura do soldado, o arrebatam e
fascinam. (45)
b) – exemplos de repetição do pronome, junto de todos
os verbos:
...sempre o evangelizou com entusiasmo, o procurou com fervor
e o adorou com sinceridade. (22)
...a que ponto o acerbo das paixões a expurga, a tempera, a nobilita, a regenera. (22)
Ao infinito impessoal precedido de preposição se antepõe, em regra, o pronome; (cf. o nº 160 do MANUSCRITO):
...o encanto de vos falar... (11)
...só os ignorantes estarão em termos de o governar. (34)
Os códigos se cansam debalde em o punir. (41)
...em lugar de os ouvir a todos... (42)
...ao escândalo de se dar em espetáculo à terra toda... (51)
Nas expressões dos verbos poder, saber, ir e outros, acompanhados de infinitivo (Cf. ALI, 1930, p. 83 e BARRETO,
1916, p. 78), predominam, também, os casos de anteposição:
Ninguém, cabendo-lhe a vez, se poderá furtar à entrada. (25)
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
65
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
...de uma qualidade, ao menos, me posso abonar a mim mesmo...
(40)
Ninguém vos saberá informar por quê, (33)
...pesai bem que vos ides consagrar à lei... (36)
...nas dificuldades em que se vão enlear os que professam a missão de sustentáculos e auxiliares da lei... (36)
Ninguém... se conseguirá evadir à saída. (25)
...e muito menos tentarei explaná-la. (40)
...os que intentais exercita-vos... (34)
É promíscuo o emprego nas expressões de auxiliar +
gerúndio:
Estou-vos abrindo o livro da minha vida. (21)
...frequentemente acaba o tempo convencendo-me... (23)
A natureza nos está mostrando com exemplos a verdade. (29)
Apontem-se, por termo, os seguintes lusismos:
Quantas [vezes] nos não vem conversar, afável e tranquila, ou
pressurosa e sobressaltada...? (15)
Já me não era pouco a graça... (17)
Mas, se o não soube imitar nas artes medrançosas de político...
(17)
Se me não quiserdes aceitar como expressão fiel da realidade esta versão... (21-22)
...que nos não façam ainda maior bem. (22)
se o veto dos meus adversários, sistemático e pertinaz, me não
houvesse poupado aos tremendos riscos dessas alturas... (23)
...quando o torrão já lhe não está sorrindo entre o sereno da noite
e os alvores do dia. (31)
Mas, se cair em erro, o pior é que se não corrija. (46)
...não sei se a emoção me não atalhará o juízo... (41)
66
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
VIII
Em vez do esquema mandou-o despir as armas, ou
mandou-lhe despir as armas, ou mandou que ele despisse as
armas, encontramos em Rui o tipo menos comum, mas por igual excelente: mandou-lhe que despisse as armas.
Exemplo:
Já o jurista começava a olhar com os primeiros toques de saudade para o instrumento, que, há dez lustros, lhe vibra entre os dedos, lidando pelo direito, quando a consciência lhe mandou que
despisse as modestas armas da sua luta... (16)
Sintaxe idêntica, com outro dos verbos que entram nessas construções, é a destes versos de Cristóvão Falcão (SILVEIRA, 1945, p. 83-84):
Quisera-o eu consolar,
mas em cujo poder ia
não me deu a mais lugar
que ouvir-lhe que dezia:
“O’ Guiomar, Guiomar,
em vós pus minha esperança...”
Tem-se afirmado que, nas construções dos verbos fazer,
deixar, mandar, ouvir e ver ligados a infinitivo, só tem cabimento junto a eles o pronome lhe(s), no caso de ser o infinitivo
acompanhado de objeto direto: “Vi-lhe fazer um gesto.” (ASSIS, s/d., p. 1]
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
67
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
Entretanto, Castilho, em bela passagem do Tratado de
metrificação portuguesa” (Lisboa, Tipografia Nacional, 1889,
p. 48), abona o emprego da forma lhes, pertencente para mandar, não obstante ser destituído de complemento o infinitivo
seguinte.
Exemplo:
Primeiro aprendeu a dar com um pobre lápis algumas retas e
curvas sem significação; boquejou parte por parte, mas desconexas e mortas as feições humanas, depois compôs a cabeça, nela
veio alvorecendo a vida; juntou o corpo e a atitude, compôs os
grupos, mandou-lhes sentir, e falar; às plantas, que vegetassem;
ao céu, que resplandecesse; às correntes, que fugissem; à natureza inteira, que saísse do nada!
IX
Na frase
“Eu me abalanço a lhes dizer e redizer de não.” (12),
surpresa, à primeira vista, (como surpreendera, já o “toleremme o arrojo...”, pouco antes empregado) o pronome lhes, pois
que, em toda a Oração aos Moços, o tratamento usado é o da
2ª pessoa do plural.
Todos sabemos que a mudança de tratamento corresponde, em regra, a variações afetivas do escritor, que ora se
quer mostrar íntimo e compreensivo; ora afeta cerimônia, ou
68
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
sisudez; ora, agressivo, investe; ora suplica; ora castiga; ora
perdoa.
Soberbo exemplo de mudança de tratamento, ditada pelo império tempestuoso da paixão, oferece-no-lo o príncipe do
Romantismo português, no drama “O Alfageme de Santarém”.
Quem fala é o padre Froilão, dirigindo-se a D. Nuno Álvares
Pereira, Condestável do Reino. Froilão, que fora preceptor de
D. Nuno, estava na suposição de que, com a aquiescência deste, ou pelo menos, com o seu conhecimento, é que fora preso,
por traidor, o velho Alfageme de Santarém. E, revoltado, exprobra-lhe publicamente o proceder.
Na violência da sua acusação, trata D. Nuno ora por vós
(quando se dirige à personalidade do poderoso Condestável),
ora por tu (quando, com a autoridade de antigo preceptor, se
dirige amargamente ao amado pupilo de outros tempos):
– “Ouvis bem, Nuno Álvares Pereira? Por traidor o Alfageme de
Santarém, o marido de tua irmã!... E por ordem desse rei, que
vós fizestes rei para nos libertar, para nos catar nossos foros, para nos guardar justiça! Ouves isto, Nuno Álvares Pereira? Ouvis,
senhor Condestável do Reino, senhor conde de Ourém? – Quantos mais títulos e honras e senhorios e mercês e grandezas tendes, para vou eu chamar por eles todos, e vos dizer... para te envergonhar com eles todos, Nuno, e te dizer: “És tudo isso, Nuno,
D. Nuno; olha agora o Alfageme, o homem do povo, e vê o que
lhe fizeste!” (GARRET, p. 146)
Mas o presente caso de Rui, ao nosso parecer, tem outra
explicação; porque o lhes não se refere aos bacharelandos a
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
69
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
quem o orador falava, mas a um sujeito indeterminado, exatamente como Alexandre Herculano, logo no começo de “A
Dama-Pé-de-Cabra’:
Vós os que não credes em bruxas, nem em almas penadas, nem
nas tropelias de Satanás, assentai-vos aqui ao lar, bem juntos ao
pé de mim, e contar-vos-ei a história de D. Diogo Lopes, senhor
de Biscaia.
E não me digam no fim: – “não pode ser” –. Pois eu sei cá inventar coisas destas? Se a conto, é porque a li num livro muito velho, quase tão velho como o nosso Portugal. (HERCULANO,
1877, II, p. 7)
2.3. A construção da frase. Tom explicativo
Na estrutura da frase de Rui, merecem comentados, em
especial, os seguintes aspectos:
I – variedade de processos sintáticos;
II – sábio doseamento do período longo com o curto;
III – predomínio da ordem inversa;
IV – tom acentuadamente explicativo.
I – A própria evidência escusa o fastio de carrear exemplos que documentem a variedade dos processos sintáticos.
Consigne-se tão somente a preferência da subordinação, mo70
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
dalidade mais adequada ao vigor da prosa oratória, por isso
que concorre para a maior amplidão e majestade do período.
Dentre as coordenadas, elegem-se por prediletas as adversativas (mormente com senão) e as alternativas. A atenuar a reiteração dos conetivos, aparece, com relativa insistência, a justaposição.9 Baste um exemplo:
E quando lhe digo, na oração dominical: “Perdoai-nos, Senhor,
as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”, julgo não lhe estar mentindo... (21)
II – Muito característica é a presença, em série, de duas,
três e, às vezes, quatro orações curtas, no meio de períodos
mais ou menos extensos; assim, avultam elas de valor expressivo, não só pelo imprevisto da mudança, senão também pela
pausa maior com que se proferem.
Exemplos:
Era presunção, era temeridade, era inconsciência insistir na insana pretensão da minha fraqueza. Só um predestinado poderia arrostar empresa tamanha. Desde 1892 me empenhava eu em lutar
com esses mares e ventos. Não os venci. Venceram-me eles a
mim. Era natural. Deus nos dá sempre mais do que merecemos.
Já me não era pouco a graça (pela qual erguia as mãos ao céu) de
abrir os olhos à realidade evidente da minha impotência, e poder
recolher as velas, navegante desenganado, antes que o naufrágio
me arrancasse das mãos a bandeira sagrada. (17)
A respeito desse processo de construção do período, veja-se Oiticica (1940, p.
248-250)
9
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
71
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
Estudante sou. Nada mais. Mau sabedor, fraco jurista, mesquinho advogado, pouco mais sei do que saber estudar, saber como
se estuda, e saber que tenho estudado. Nem isso mesmo sei se
saberei bem. Mas, do que tenho logrado saber, o melhor devo às
manhãs e madrugadas.
Muitas lendas se têm inventado, por aí, sobre excessos da minha
vida laboriosa. Deram, nos meus progressos intelectuais, larga
parte ao uso em abuso do café e ao estímulo habitual dos pés
mergulhados na água fria. Contos de imaginadores. Refratário
sou ao café. Nunca recorro a ele como a estimulante cerebral.
Nem uma só vez na minha vida busquei num pedilúvio o espantalho do sono. (31)
III – No ímprobo labor de preservar a boa tradição literária, arrostou Rui o estigma de escritor rebuscado e artificial.
A verdade é que, não obstante haver cultivado com desvelo a
ordem inversa, sua frase jamais deixou de ser inteligível à
primeira leitura.
Escolhamos um, dentre os copiosíssimos exemplos de
inversão:
Quanto é pela minha parte, o melhor do que sou, bem assim o
melhor do que me acontece, frequentemente acaba o tempo convencendo-me de que não me vem das doçuras da fortuna propícia, ou da verdadeira amizade, senão sim que o devo, principalmente, às maquinações dos malévolos e às contradições da sorte
madrasta. (23)
IV – O tom explicativo atravessa, de ponta a ponta, a
Oração aos Moços.
72
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
Dir-se-ia que o orador, afeiçoado aos rigores da dialética, se esmerava em apresentar os pensamentos de forma tal,
que não se lhes pudesse oferecer contestação. Com esclarecêlos e avigorá-los, tornava-os convincentes e indiscutíveis, o
que lhe dava autoridade à pregação, e a íntima certeza de que
ela não deixaria de frutificar.
Exemplos: (com a palavra porque, depois de ponto e
vírgula, ou de ponto):
Mas a comoção foi salutar; porque o espírito encontrou logo seu
equilíbrio na convicção de que, afinal, me chegava eu a conhecer
a mim mesmo... (16-17)
Nem toda ira, pois, é maldade; porque a ira, se, as mais das vezes, rebenta agressiva e daninha, muitas outras, oportuna e necessária, constitui o específico da cura. (19)
Não é trabalho digno de tal nome o do mau; porque a malícia do
trabalhador o contamina. (26)
Não é oração aceitável a do ocioso; porque a ociosidade o dessagra. (26)
Um homem (nessas terras de promissão) que nunca se mostrou
lido ou sabido em coisa nenhuma, tido e havido é por corrente
moente no que quer que seja; porque assim o aclamam as trombetas da política, do elogio mútuo, ou dos corrilhos pessoais, e o
povo subscreve a néscia atoarda. (33)
Moços, se vos ides medir com o direito e o crime na cadeira de
juízes, começai, esquadrinhando as exigências aparentemente
menos altas dos vossos cargos, e proponde-vos caprichar nelas
com dobrado vigor; porque, para sermos fiéis no muito, o devemos ser no pouco. (41)
Antes, com os mais miseráveis é que a justiça deve ser mais atenta, e redobrar de escrúpulo; porque são os mais mal defendidos, os que suscitam menos interesse, e os contra cujo direito
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
73
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
conspiram a inferioridade na condição com a míngua nos recursos. (44)
Melhor será que a sentença não erre. Mas, se cair em erro, o pior
é que se não corrija. E, se o próprio autor do erro o remediar,
tanto melhor; porque tanto mais cresce, com a confissão, em
crédito de justo, o magistrado, e tanto mais se soleniza a reparação dada ao ofendido. (46)
Os “maus” só lhe inspiram tristeza e piedade. Só “o mal” é o que
o inflama em ódio. Porque o ódio ao mal é amor do bem, e a ira
contra o mal, entusiasmo divino. (18)
Que extraordinário, que imenso, que, por assim dizer, estupendo
e sobre-humano, logo, não será, em tais condições, o papel da
justiça! Maior que o da própria legislação. s, se dignos são os juízes, como parte suprema, que constituem, no executar das leis, –
em sendo justas, lhes manterão eles a sua justiça, e, injusta, lhes
poderão moderar, se não, até, no seu tanto, corrigir a injustiça.
(37)
Veja-se, agora, a que ponto lhe ia o cuidado de ser explícito; aprecie-se a exegese que faz (e com que preocupação
de ser bem compreendido o faz) deste lugar de São Paulo:
“Bona est lex si ea legitime utatur” – :
Quereria dizer: Boa é a lei, quando executada com retidão. Isto
é: boa será, em havendo no executor a virtude, que no legislador
não havia. Porque só a moderação, a inteireza e a equidade, no
aplicar das más leis, as poderiam, em certa medida, escoimar da
impureza, dureza e maldade, que encerraram. Ou, mais lisa e
claramente, se bem o entendo, pretenderia significar o apóstolo
das gentes que mais vale a lei má, quando “inexecutada”, ou
“mal executada” (para o bem), que a boa lei, sofismada e não
observada (contra ele). (37)
Ainda com partículas explicativas (isto é, a saber):
Vede agora os que intentais exercitar-vos na ciência das leis, e
vir a ser seus intérpretes, se de tal jeito é que conceberíeis sabêlas e executá-las. Desse jeito; isto é: como as entendiam os políticos da Grécia, pintada pelo mestre de Platão. (34-35)
74
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
– Mas, sendo uma oligarquia quem mande, isto é, um diminuto
número de homens, serão, ainda assim, respeitáveis “as leis”?
(35)
Ora, senhores bacharelandos, pesai bem que vos ides consagrar à
“lei”, num país onde a lei absolutamente não exprime o consentimento “da maioria”, onde são as minorias, as oligarquias mais
acanhadas, mais impopulares e menos respeitáveis, as que põem,
e dispõem, as que mandam, e desmandam em tudo; a saber: num
país, onde, verdadeiramente, “não há lei”, não há, moral, política
ou juridicamente falando. (36)
2.4. Ecos de um passado literário
Arcaização e classicismo, o preciosismo
A Rui, têm-no tachado, muitas vezes, de escritor precioso pela ancianidade da linguagem, condenando-o, assim àquela “fossilização em vida”, contra a qual, ferido da injustiça, ele
protestou tão amargamente da Réplica (nº 483). Se por escritor
arcaizante entendermos aquele que se acastela numa forma anacrônica quase obsoleta, estranho ao gosto e ao sentimento da
sua época – uma voz solitária e distante –, logo sentiremos o
leviano, talvez o malévolo, da acusação. A sua gramática (já o
tentamos demonstrar) propende antes ao contemporâneo; é
límpida a inteligência de sua frase; o vocabulário – abundante
e culto –, literariamente vivo.
Grande pena do seu tempo, mas profundo conhecedor
dos autores portugueses de todos os tempos, logrou realizar o
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
75
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
que somente a poucos teria sido possível: explorou conscientemente o passado literário, como elemento ornamental de estilo. Viu na vetustez uma garantia estética e – artista – não na
quis desprezar:
Guardadas as leis, talvez indefiníveis, mas sentidas e instintivas,
do bom gosto, as da propriedade e conveniência no escolhê-los,
as da moderação no ousá-los, as da oportunidade no tentá-los, as
do tato no expô-los, de modo que a frase, onde se insinuam, ou
encravem, lhes alumie e patenteie o sentido, insigne serviço fazem os bons escritores à sua língua, reempossando-a no gozo de
vocábulos e torneios antigos deixados esquecidos por injustos
desprezos do tempo. (Réplica, nº 491)
A essas “leis, talvez indefiníveis, mas sentidas e instintivas, do bom gosto, as da propriedade e conveniência no escolhê-los...” – às do bom gosto, sobretudo – obedeceu com singular fervor, pouco lhe importando o rigorismo artificial das
fronteiras cronológicas.
Eclético, cultivou formas anteclássicas a par de formas
clássicas, gramática do século XIX ao lado de giros medievais.
Para criar beleza, não perguntava à língua quantos anos tinha:
Usado a buscar nas fontes antigas os veios preciosos do ouro fino, que elas escondem ao modernismo pretensioso e ignaro, amo
e uso também a linguagem de meu tempo, esforçando-me, entretanto, por lhe evitar os defeitos. (Réplica, nº 31)
Para ele, essas “fontes antigas” eram, quase sempre, os
seus queridos clássicos, especialmente os prosadores exemplares do século XVII.
76
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
Vejamos alguns10 dos seus preciosismos sem idade:
ACERTAR + DE + INFINITIVO (= acontecer, suceder):
Uma vez que Alcibíades discutia com Péricles, em palestra registada por Xenofonte, acertou de se debater o que seja “lei”, e
quando exista, ou não exista. (35)
É sintaxe que vem do período anteclássico, frequente na
fase clássica e conservada como preciosismo até os nossos
dias:
Acertei passar hum hora,
Hum serrado de centeo;
E vi dentro gado alheo;
Entrei polo lançar fora. (LOBO, 1928, p. 45)
Machado de Assis, que não era escritor rebuscado, não
lhe conseguiu fugir o império:
Menino escravo que [ela = índia] tinha
Acerta de ali passar;
Niâni atentando nele
Chama-o para o seu lugar. (ASSIS, 1901, p. 212)
...cada um dos presentes acertou de contar uma anedota. (ASSIS,
s/d., p. 150)
ASSIM QUE (= de sorte que):
Assim que não me ides ouvir de longe, como a quem se sente arredado por centenas de quilômetros, mas de ao pé, de em meio a
vós... (12)
Sem outro propósito senão o de mais comodamente se dispor a matéria,
apresentam-se os tópicos em ordem alfabética.
10
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
77
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
Assim que a benção do paraninfo não traz fel. (18)
Enxameiam nos clássicos exemplos dessa conjunção
consecutiva, que depois de ponto, entra também adverbialmente em orações principais, com valor conclusivo. (DIAS, 1933,
p. 284, § 392).
CONSIDERAR EM:
...entrando eu a considerar com filosofia nas leis da natureza
humana... (22)
Considerai, pois, nas dificuldades, em que se vão enlear os que
professam a missão de sustentáculos e auxiliares da “lei”, seus
mestres e executores. (36)
CONVERSAR + OBJETO DIRETO:
Quantas [vezes] nos não vem conversar [uma imagem cara], afável e tranquila, ou pressurosa e sobressaltada...? (15)
Acreditamos que aí venha empregado com a significação de “tratar com familiaridade, frequentar a intimidade, conviver”, segundo uso comum na fase clássica, persistente entre
românticos.
DENTRO EM:
...então (e por isso mesmo) é que mais à vista do coração estamos; não só bem à sua vista, senão bem dentro nele. (12)
Lá está, nos números 367 e 368 da Réplica: “Assim se
escreveu e tem escrito, desde que existe o nosso idioma” – a
que se segue abundante exemplificação.
78
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
“É dentro em locução prepositiva corrente no português
antigo”, confirma o insigne Mário Barreto (1911, p. 281, nota).
DIZER DE NÃO:
Eu me abalanço a lhes dizer e redizer de não. (12)
Fórmula de negar, que corresponde a dizer que não.
Prende-se possivelmente a uma equivalência românica geral
entre que e de. (Cf., em português, a dualidade mais de... mais
que, e ter de... ter que.)
A construção vem do período dos trovadores:
Se lh’al disser’, non me dirá de non. (VASCONCELOS, 1904,
1619)
e non diredes vos por én de non? (VASCONCELOS, 1904,
5329)
Tal companhon foi Deus filhar
no bom rei, a que Deus perdon,
que jamais non disse de non
a nulh’omen por lh’algo dar... (VASCONCELOS, 1904, 10245)
Aprendeu-a Rui provavelmente com Vieira, que lhe deu
a ela gasalhoso acolhimento:
Pois esta é a razão porque Deus, que nos trata como filhos, nos
diz muitas vezes de não, e nos nega o que pedimos. (VIEIRA,
1944, I, p. 338)
...eu, diz o Anjo, não lhe posso conceder o partido, e é força
responder-lhe de não... (VIEIRA, 1944, II, p. 91)
Esse torneio, o dir de nò dos italianos, foi corrente nos
castelhano arcaico e chegou, nessa língua, até o século XVI.
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
79
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
Eis sobre o assunto a informação do ilustre Hayard Keniston
(1933, p. 67): "The use of de for que is extremely rare in the
sixteen century". (Cf. tb. PIDAL, 1945, p. 124):
Loz, 182:
quien diria de no a tales convidadas? (possibly due to Italian influence). Flo, 15: El Rey... siempre dezia de no. (the anecdote is
toldo of Fernando V and may reflect archaic expression).11
Desacerta, portanto, Morais, repetido por Mário Barreto
(1922, tomo II, p. 89), ao dizer que “este é talvez um dos mui
raros italianismos de Vieira...”
HAVER (vários casos):
1) – ...até dardes com os tesoiros, que aí vos haja reservado,
com ânimo benigno, a dadivosa Providência. (28)
Mas não primeiro que hajais buscado na experiência de outrem
um pouco da que vos é mister... (39-40)
...onde vos venha ao encontro o dever, que a Providência vos
haja reservado. (39)
Mas, a par disso, e na mesma página:
Experimentai-o como eu o tenho experimentado. (39)
...como eu as tenho resignado. (39)
O auxiliar haver, que na língua antiga alternava com ter
na formação dos tempos compostos, passou, no português contemporâneo, a pertencer quase exclusivamente “à linguagem
Chaves das siglas: Loz – Francisco Delicado, “Retrato de la Lozana Andaluza”;
Flo – Melchor Santa Cruz, “Floresta Española”.
11
80
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
seleta” (DIAS, 1933, p. 107, p. 139), como sinal de aristocratização do estilo. Sobre o que de “solene e arcaizante” existe
nesse uso, escreveu M. Paiva Boléo (1937, p. 26) interessantes
observações, a propósito da preferência que lhe votava Alexandre Herculano.
2) – Não hajais medo a que a sorte vos ludibrie. (39)
...prestai-lhes o crédito, a que a sua dignidade houver direito.
(47)
...e a lei processual, em todo o mundo civilizado, não houvesse
por sagrado o homem... (43)
Sousa da Silveira (1937, p. 330, § 526, 2.a) anota: “usadíssimo no português de outrora, raro no atual.”
Sem dúvida, são excelentes as abonações clássicas:
Tende sempre mão em mim,
porque hei medo de empeçar
e de cair. (VICENTE, in SILVEIRA, 1945, p. 279)
Hei medo de deixar nome de injusto. (FERREIRA, in SILVEIRA, 1945, p. 199)
E, em Os lusíadas (CAMÕES, 1931):
Hão medo de perder autoridade. (X, 112)
......................................................
Que, havendo por verdade o que dizia,
De nada a forte gente se temia. (I, 97)
E, ainda, nos seguintes lugares: II, 29; VII, 78.
3) – ...até o extremo de se haverem, quando lhes pica o orgulho,
com os juízes vitalícios e inamovíveis de hoje, como se haveriam
com os ouvidores e desembargadores d’El-Rei Nosso Senhor...
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
81
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
(45)
Na forma reflexa, com o valor de proceder, portar-se, é
antiquíssimo o verbo haver. Na Réplica (nº 281), Rui, que o
aponta como um dos substitutos de que dispõe o idioma para
evitar o peregrino agir, apresenta exemplos numerosos, firmados por escritores de todos os séculos (de D. Duarte a Machado de Assis). Contudo, o certo é que o fato tem progressivamente escasseado em nossos dias.
NADO:
Não vos fieis muito de quem esperta já sol nascente, ou sol nado.
(29)
Arcaísmo muito usado por Castilho, e encontradiço,
com relativa raridade, em literatos brasileiros. Gonçalves Dias
(In: BANDEIRA, 1937, p. 76) chega a pô-lo na boca de um
índio velho, em conhecida passagem do “I-Juca Pirama”:
– Tardaste muito!
Não era nado o sol, quanto partiste,
E frouxo o seu calor já sinto agora!
A locução latina rem nata –, cousa nascida, deu origem, no
português arcaico, a rem nada, simplificada em nada, alguma
cousa, que, em orações negativas, tomou a acepção atual; esta,
generalizando-se, passou a ser o sentido único da palavra.
Compare-se, no Cancioneiro da Ajuda, 7249, homem nado,
alguém; 299, 3746: nulh’home nado, ninguém. (MAGNE, 1944,
III, p. 270)
O A QUE, O A QUEM etc...
82
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
Eis torneios meramente literários, nos quais, com se evitar o fraseado comum (é sistemático não aparecer o antecedente “aquele”, ou “aquilo”), se dá ao período certa riqueza de acabamento e nobre dignidade artística:
...e, negando-me a divina bondade um momento de tamanha
ventura, não me negou senão o a que eu não devia ter tido a
inconsciência de aspirar. (11)
Mergulhou-se, então, cada vez mais no estudo; e daí com
estupenda mudança, começa a deixar ver o a que era destinada
aquela extraordinária cabeça... (27)
Todos os pais aconselham, se bem que nem todos possam jurar
pelo valor dos seus conselhos. Os meus serão os a que me julgo
obrigado, na situação em que momentaneamente estou, pelo
vosso arbítrio, de pai espiritual dos meus afilhados em letras,
nesta solenidade. (40)
Assim me perdoem, também, os a quem tenho agravado, os com
quem houver sido injusto, violento, intolerante, maligno, ou
descaridoso. (21)
...antes de averiguarmos se os culpados não se achariam aqui
mesmo, entre os a quem se depara, nestas cegas agitações de
ódio a outros povos, a diversão mais oportuna dos nossos erros e
misérias intestinas. (52)
PRÁTICA: (= conversação, fala):
Quantas outras não somos nós os que vamos chamar esses leais
companheiros de além-mundo, e com eles renovar a prática
interrompida... (15)
Afigura-se-nos, salvo melhor juízo, que a palavra esteja
usada no legítimo sentido antigo, como neste passo de André
de Resende:
Teve o prior prática com os religiosos antíguos e discretos, (=
ponderados, assisados) se o mandaria lá ir, assi por nom estar em
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
83
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
uso sair jamais frei Pedro fora do mõesteiro, como por nom
parecer que folgavam de assoelhar (= divulgar) a santidade que
das portas a dentro tinham. (RESENDE, 1947, p. 153)
PREDICATIVO:
Na construção do predicativo, prevalece o gosto clássico
de antecede-lo de “por”, preferentemente a outras preposições:
...ter-se por dogma que um homem... (34)
...os liberais tinham por artigo do seu programa cercear os
privilégios, já espantosos, da Fazenda Nacional. (44)
...e a lei processual, em todo o mundo civilizado, não houvesse
por sagrado o homem, sobre quem recai acusação ainda
inverificada. (43)
Mas todo o mundo vo-lo dará por líquido e certo. (33)
...quando sua visão tem por limite a do nervo ótico... (13)
Tenham por averiguado que, onde quer que o colocarem, dará
conta o sujeito das mais árduas empresas... (33)
Agora, com “em”:
E, assim, está o coração, cada ano, cada dia, cada hora, sempre
alimentando em contemplar o que não vê, por ter em dote dos
céus a preexcelência de ver... (14)
Repare-se neste elegantíssimo uso de “à conta de”:
Ouvistes o aldrabar da mão oculta, que vos chama ao estudo?
Abri, abri, sem detença. Nem, por vir muito cedo, lho levais a
mal, lho tenhais à conta de importuna. (29)
A par disso, o emprego de “como”, espontâneo e
corrente:
...de havê-los como cidadãos perigosos... (34)
84
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
Também não deixa de figurar o predicativo sem preposição. Por coincidência, nos dois exemplos que ocorrem, o
predicativo pertence para o verbo chamar, o que constitui um
lusismo dos mais característicos:
Como vedes, senhores, para me não chamarem a mim
revolucionário, ando a catar minha literatura de hoje nos livros
religiosos. (46)
– Sim; Vejo agora que errei em chamar “leis” às ordens de um
tirano... (35)
PRIMEIRO QUE:
Ninguém, senhores meus, que empreenda uma jornada
extraordinária, primeiro que meta o pé na estrada, se esquecerá
de entrar em conta com as suas forças por saber se a levarão ao
cabo. (24)
Abraçai a (= estrada) que vos sentirdes indicada pelo
conhecimento de vós mesmos. Mas não primeiro que hajais
buscado na experiência de outrem um pouco da que vos é
mister... (39-40)
Mas, quando se avizinha o volver da luz, muito antes que ela
arraie a natureza, e ainda primeiro que alvoreça no firmamento,
já rompeu na terra em cânticos a alvorada... (29)
Ordinariamente, soma essa conjunção à mera ideia de
relação temporal algo da ideia de intenção, de coisa premeditada. Tal matiz é visível nos dois primeiros trechos de Rui.
Um exemplo de primeiro que, no “Crisfal”: (In SILVEIRA, 1945, p. 120)
Muito vos quis bem primeiro
que de riquezas soubesse;
pois meu amor verdadeiro,
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
85
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
de quem só sois interesse,
quem me faz interesseiro.
SER + O + QUE etc.:
E não és tu só o que te vejas nessa condição... (34)
Quantas outras não somos nós os que vamos chamar esses leais
companheiros de além-mundo...? (15)
Só o mal é o que o inflama em ódio. (18)
– Mas que é o que determina esse povo? O bem, ou o mal?...
(35)
...onde são as minorias, as oligarquias mais acanhadas, mas
impopulares e menos respeitáveis, as que põem, e dispõem, as
que mandam, e desmandam em tudo... (36)
O falar hodierno – diz Said Ali (1931, p. 75 da Parte II) –,
continuando embora a dar ao verbo da segunda oração
terminações de 1ª, 2ª e 3ª pessoa de acordo com o sujeito do
verbo ser, difere todavia da praxe antiga em enunciar o relativo
que prescindindo do antecedente o, a, os, as.
Rui manteve a sintaxe clássica, usada até os fins do século XVIII.
2.5. Valores semânticos do vocabulário
Indignação, resistência e combate. Amor ao grandioso
e do sublime. Misticismo.
O vocabulário de Rui sugere, principalmente, essas quatro atmosferas estilísticas que se apontam por subtítulo.
86
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
A reunião íntima desse tom de indignação e de resistência e combate ao misticismo e ao amor da grandiosidade e do
sublime comunicam à sua prosa aquele profetismo bíblico, que
revoa pelas páginas da Oração aos Moços, num misto de perdão e intolerância, de suavidade e maldição.
1 – palavras ligadas, de qualquer modo, à ideia de “indignação”:
corrupção política (18)
o inflama em ódio (18)
o Jesus iroso (18)
o Jesus do látego inexorável (18)
açoita os maus (18)
a hora da conta e do castigo (20)
expulsar do templo (20)
o renegado, o blasfemo, o profanador, o simoníaco (20)
exterminar da ciência (20)
o apedeuta, o plagiário, o charlatão (20)
banir da sociedade (20)
o imoral, o corruptor, o libertino (20)
varrer dos serviços do Estado (20)
o prevaricador, o concussionário e o ladrão público (20)
prostituição política (20)
rebenta...a indignação(21)
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
87
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
[a ira...rebenta agressiva e daninha]12
golfa a cólera em borbotões (21)
baixos e abomináveis sofismas (44)
a peste das parentelas, em matérias de governo (46)
inexorável mercantilismo (50)
a velha política, desalmada, mercantil e cínica (50)
reinado ímpio da ambição e da força (50)
vil questão de interesses (51)
dos nossos erros e misérias (52)
nobre nação explorada! (53)
2 – palavras que, por uma forma ou por outra, sugerem
as ideias de “resistência e combate”:
o arrojo de afrontar (12)
não hajais medo (39)
fugir do medo (44)
e não conhecer cobardia (44)
a nada se dobre (44)
e de nada se tema (45)
não tergiverseis (45)
não receeis (45)
a intrepidez do juiz (45)
que os enfrentam (45)
a sua autoridade não torça à exigências (45)
não transijais (47)
regeneração (48)
12 Acréscimo
88
a lápis.
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
nem quebrar da verdade ante o poder (48-49)
Amigos meus, não! (51)
Ó, senhores, não, não e não! (51)
Daí não se retrocede facilmente (52)
sem quebra da seriedade e do decoro (52)
Não nos temamos (52)
3 – palavras que, direta ou indiretamente, encerram a
ideia de “grandiosidade” e sublimidade”:
solenidade imponente (11)
assombro fisiológico (13)
prodígio moral (13)
incomensurável desconhecido (13)
pela grandeza da pátria e sua liberdades (16)
jornada extraordinária (24)
o que as ciências cresceram, é incomensurável (28)
a distância é infinita (28)
Que extraordinário, que imensurável, que,
por assim dizer, estupendo e sobre-humano (37)
Essa elevação me impressiona (41)
proporções incalculáveis (41)
espantosa imensidade (5)
cataclismo cósmico (50)
tormentas catastróficas (50)
desmoronamento pavoroso (50)
movimento desvairado (51)
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
89
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
4 – palavras que, com maior ou menor precisão, implicam a ideia de “misticismo”:
grande benção (11)
ao nosso sacerdócio (11)
divina bondade (11)
altares (12)
campanários (12)
orações (12)
credo (12)
verdadeiro milagre (12)
Milagre do maior dos taumaturgos (12)13
Milagre de quem respira entre milagres (12)
Milagre de um santo (12)
sacrário do seu peito (12)
Milagre do coração (12)
a centelha divina (13)
lâmpada sagrada (14)
vínculo sagrado (16)
erguia as mãos ao céu (17)
bandeira sagrada (17)
bênção do paraninfo (18)
Via Dolorosa (18)
a esponja no Gólgota (18)
vendilhões do templo (18)
Na edição de 1949, foi repetida a frase "Milagre de quem respira entre milagres"
no lugar desta.
13
90
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
inspiração religiosa (19)
amor santo (19)
cólera da mansuetude (19)
face também celeste do amor (19)
o púlpito (19)
essas faúlhas da substância divina (19)
consciência religiosa (20)
cólera santa (20)
ira divina (20)
santidade suprema (20)
pela mais sacrílega das opressões (20)
o evangelizou com entusiasmo (22)
o adorou com sinceridade (22)
purificação gradual (22)
divino legislador (22)
catecúmeno (24)
bispos e pontífices (24)
o apóstolo das gentes (37)
carreiras quase sagradas (39)
jurar pelo valor dos seus conselhos (40)
essas três fés, esses três signos santos (39)
verdadeira cruzada (52)
E as referências ao nome de Deus:
Não quis Deus (11)
elevando ao Criador as mesmas orações (12)
outorgou-lhe o Senhor que ainda veja (13)
até Deus mesmo (13)
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
91
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
e Deus assim o preserve (14)
Deus nos dá sempre mais do que merecemos (17)
do que o Deus vivo no de Pilatos (18)
mas da Providência, fatal nas suas soluções (18)
Vede Jesus... Jesus... Cristo... Jesus... Jesus... Jesus... Jesus...
(18)
cólera que reflete a de Deus (19)
do celeste inimigo dos vendilhões... (20)14
Deus me é testemunha de que tudo tenho perdoado. (21)
Perdoai-nos, Senhor (21)
pelo contacto com Deus (26)
O Criador começa, e a criatura acaba a criação de si própria (26)
está em oração ao Senhor (26)
pelo divino Criador (27)
a dadivosa Providência (28)
a voz do Senhor (30)
levantardes mais cedo a Deus a oração do trabalho (30)
quando Deus quer (34)
Não há justiça, onde não haja Deus (47)
está clamando por Deus (48)
guardar fé em Deus (49)
só Deus sabe (50)
Assim o queira Deus. (53)
14 Acréscimo
92
a lápis, no exemplar utilizado, da edição de 1949.
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
2.6. O senso rítmico e a ênfase oratória. Sentimento de
simetria
Por mais que, muitas vezes, apresentem efeitos coincidentes, não é lícito confundir RITMO e METRO. Enquanto este
se caracteriza pela regularidade do intervalo entre dois acentos
(há um número fixo de sílabas entre eles, número previsto para
cada espécie de verso), subordina-se aquele a condição mais
sutil: depende da duração desse intervalo, pouco importando o
número de sílabas entre um e outro. (Cf. GROOT, 1933, p.
326-332)
Muito mais complexa que a harmonia do verso, resultado de uma limitação aos esquemas do METRO, é a harmonia da
prosa, por sua própria liberdade maior. Nesta, o que lhe dá riqueza rítmica é a sucessão das várias unidades melódicas, isto
é, pequenos grupos de forma musical determinada e com uma
significação própria dentro do sentido total da oração.
En la división de un texto en unidades melódicas influyen circunstancias de orden lógico y emocional. El realzar y avalorar
los elementos semánticos de la oración favorece el aumento de
unidades melódicas. Influye, además, como elemento idiomático
particular, el sentimiento de la medida o compás predominante
en la estructura rítmica de cada lengua. (TOMÁS, 1939, p. 3)
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
93
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
Em português, a unidade melódica mais frequente é a de 5 a
10 sílabas, principalmente a de 7, tipo lusitânico por excelência, particularmente adequado aos bailados de roda, o qual se
deve considerar de raiz nacional e popular. Há orações ritmicamente simples, com uma só unidade de entonação; e as há
compostas, com um ramo ascendente (prótase) e outro descendente (apódose). Cada um desses ramos, por seu turno, pode
abranger várias unidades melódicas, em uma infinidade de
combinações.
A construção fonológica da prosa de Rui tende geralmente a criar efeitos de harmonia pela disposição simétrica
das unidades melódicas. Cultivou ele com tanto amor essa
qualidade rítmica da prosa, que acabou por endurentá-la em
paralelismos e antíteses, entrelaçamentos e repetições de
membros similicadentes, processos em que, como nenhum outro prosador de língua portuguesa, exceto Vieira, põe a harmonia a serviço da ênfase oratória.
Antes de apreciarmos esses tão característicos recursos
rítmicos baseados na simetria, mostremos que ele por igual se
preocupou com inserir em sua prosa magníficos exemplos de
metros tradicionais; eis alguns:
Octossílabos:
94
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
...as grandes causas nacionais,
as grandes causas populares,
as grandes causas sociais... (20)
...o vago mistério do espaço. (13)
Eneassílabos:
– A expressão da vontade do povo... (35)
Nem toda ira, pois, é maldade. (19)
Decassílabos:
Milagre do maior dos taumaturgos. (12)
Não há justiça, onde não haja Deus. (47)
Não cortejeis a popularidade. (47)
Confiai, senhores. Ousai. Reagi. (39)
Hendecassílabos:
Tão pouco medeia do Rio a S. Paulo. (16)
Os maus só lhe inspiram tristeza e piedade. (18)
Dodecassílabos:
Dele se retirou a centelha divina. (13)
...presente ao céu e à terra, a todos nós presente. (13)
...as grandes causas da consciência religiosa. (20)
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
95
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
RITMO TERNÁRIO
A sequência de três unidades melódicas é uma das características mais salientes do estilo oratório de Rui,15 Atentese para esta abundante exemplificação16:
1 – nos substantivos:
Pois não sabemos que, com os antepassados, vive ele da memória, do luto e da saudade? (14)
...vive ele de fé, esperança e sonho? (14)
Ausência, pretérito e porvir, tudo lhe é atualidade, tudo presença. (14)
Pobres clientes estas, entre nós, sem armas, nem oiro, nem
consideração... (17)
...com que habilitar o mísero advogado a sustentar-lhes com alma, com dignidade, com sobrançaria, as desprezadas reivindicações. (17)
Não lhe encontrareis no fundo nem rancor, nem azedume, nem
despeito. (18)
Quando verbera o escândalo, a brutalidade, ou o orgulho, não é
agrestia rude, mas exaltação virtuosa... (19)
...cólera que reflete a de Deus, face também celeste do amor, da
misericórdia e da santidade. (19)
“La serie de unidades de cualquier texto presenta las medidas más diferentes sin
la menor apariencia de orden y regularidad en sus combinaciones.” (TOMÁS, 1939,
p. 6-7).
15
O modelo, já o dissemos, era Vieira:
“...e logo perdeu a figura, a ferocidade e a peçonha.” (VIEIRA, 1944, II, 90).
“...que não seja malsoante, áspero e duro.” (Ib.).
“Tão dura, tão áspera, tão injuriosa palavra é um Não”. (Ib.).
“Como havia de estar entre as infelicidades da miséria um Santo tão dotado da
Natureza, tão favorecido da Fortuna e tão mimoso da Graça? (Idem, p. 206).
16
96
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
...exterminar da ciência o apedeuta, o plagiário, o charlatão?
(20)
...banir da sociedade o imoral, o corruptor, o libertino? (20)
...varrer dos serviços do Estado o prevaricador, o concussionário
e o ladrão público? (20)
...precipitar do governo o negocismo, a prostituição política, ou
a tirania? (20)
...arrancar a defesa da pátria à cobardia, à inconfidência, ou à
traição? (20)
...não assenta um rancor, uma inimizade, uma vingança. (21)
Labutastes a semana toda, o vosso curso de cinco anos, com teorias, hipóteses e sistemas, / com princípios, teses e demonstrações, / com leis, códigos e jurisprudências, / com expositores, intérpretes e escolas. (24)
Chegou o momento de... praticardes familiarmente com os vossos afetos, esperanças e propósitos. (24)
Eis ao que vem o padrinho, o velho, o abendiçoador. (24)
...mestre de humildade, arrependimento e desconfiança... (24)
O mais são desvarios da inveja, do orgulho, ou da loucura. (25)
...não são para contempladas num discurso acadêmico, nem para
escutadas entre doutores, lentes e sábios. (31)
Porque só a moderação, a inteireza e a equidade, no aplicar as
más leis, as poderiam, em certa medida, escoimar da impureza,
dureza e maldade, que encerrarem. (37)
...e, tanto uma como a outra, imensas nas dificuldades, responsabilidades e utilidades. (39)
Deus, pátria, e trabalho. Metei no regaço essas três fés, esses
três amores, esses três signos santos. (39)
Não hajais medo a que a sorte vos ludibrie. Mais pode que os
seus azares a constância, a coragem e a virtude. (39)
Tomais a que vos indicarem vossos pressentimentos, gostos e
explorações... (39)
Observar com clareza, com desinteresse, com seleção. (40)
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
97
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
...e generalizando, com pausa, com critério, com desconfiança.
(40)
Baste, porém, que se digam com isenção, com firmeza, com lealdade... (41)
Não cultiveis sistemas, extravagâncias e singularidades. (47)
Por esse meio lucraríeis a néscia reputação de originais; mas
nunca a de sábios, doutos, ou conscienciosos. (47)
2 – nos adjetivos:
...torturando o réu com severidades inoportunas, descabidas, ou
indecentes... (43)
Ora, senhores, esse poder eminencialmente necessário, vital e
salvador... (38)
...o coração não é tão frívolo, tão exterior, tão carnal, quanto se
cuida. (13)
...as que mais abundam em meios de corromper, as que exercem
as perseguições, administrativas, políticas e policiais, as que...
(43)
O Brasil é a mais cobiçável das presas; e, oferecida, como está,
incauta, ingênua, inerme, a todas as ambições... (52)
O mesmo se repete, com assiduidade impressionante, nos grupos
nominais, quer nos de substantivo + adjetivo, ou adjetivo + substantivo, quer
nos de substantivo + adjunto preposicionado; exemplos:
E, assim, está o coração, cada ano, cada dia, cada hora, sempre
alimentado em contemplar o que não vê... (14)
Preguei, demonstrei, honrei a verdade eleitoral, a verdade constitucional, a verdade republicana. (17)
Metei no regaço essas três fés, esses três amores, esse três signos santos. (39)
Mau sabedor, fraco jurista, mesquinho advogado, pouco mais sei
do que saber estudar, saber como se estuda, e saber que tenho estudado. (31)
...o Jesus iroso, o Jesus armado, o Jesus do látego inexorável?
(18)
98
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
3 – nos verbos:
... a preexcelência de ver, ouvir e palpar o que os olhos não divisam, os ouvidos não escutam, e o tato não sente. (14)
e a palavra sai, rechinando, esbraseando, chispando como o metal candente dos seios da fornalha. (21)
Gutierrez animou-o a orar, persistir, e esperar. (27)
Observar, deduzindo, induzindo, e generalizando... (40)
Observar, apurando, contrasteando, e guardando. (40)
Preguei, demonstrei, honrei... (17)
4 – na coordenação de orações:
Ora, [tudo é viver, / previvendo,] [é existir, / preexistindo,] [é
ver, / prevendo.] (14)
...o [que os olhos não divisam,] [os ouvidos não escutam,] [e o
tato não sente.] (14)
...neste regaço interior, [onde os mortos renascem,] [prenascem
os vindoiros], [e os distanciados se ajuntam...] (14)
[Era presunção,] [era temeridade,] [era inconsciência] insistir...
(17)
...as leis do bom governo, [que prosperam os Estados,] [moralizam as sociedades,] [e honram as nações.] (17)
Todos os [que nos dessedentamos nessa fonte,] os [que nos saciamos desse pão,] os [que adoramos esse ideal,] nela vamos buscar a chama incorruptível. (20)
...uma carreira, que poderá ter discrepado, muitas vezes, do bem,
mas sempre [o evangelizou com entusiasmo,] [o procurou com
fervor,] [e o adorou com sinceridade.] (22)
Chegou o momento [de vos assentardes, mão por mão, com os
vossos sentimentos,] [de vos pordes à fala com a vossa consciência,] [de praticardes familiarmente com os vossos afetos, esperanças e propósitos]. (24)
...pois essas entidades são... as que, [demitindo funcionários indemissíveis], [rasgando contratos solenes], [consumando lesões
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
99
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
de toda a ordem] ... acumulam, continuamente, sobre o tesoiro
público terríveis responsabilidades. (44)
(Cf. os nºs 26, 101 e 145 do MANUSCRITO.)
SÉRIES SIMÉTRICAS
Outro recurso esplêndido é o de oposições, recurso para
que apelou Rui em numerosos passos. Distinguiremos, por
amor da sistematização, três espécies de séries simétricas: as
antitéticas, as invertidas e as entrelaçadas.
1 – séries antitéticas17:
...raro nos causam mal tamanho, que nos não faça, ainda maior
bem. (22)
Uns nos querem mal, e fazem-nos bem. Outros nos almejam o
bem, e nos trazem o mal. (23)
...nulo entre os grandes da inteligência, grande entre os experimentados na fraqueza humana. (24)
Não poucas vezes, pois, razão é lastimar o zelo dos amigos, e agradecer a malevolência dos opositores. Estes nos salvam, quando aqueles nos extraviam. (23)
A vida não tem mais que duas portas: uma de entrar, pelo nascimento; outra de sair, pela morte. Ninguém, cabendo-lhe a vez, se
poderá furtar à entrada. Ninguém, desde que entrou, se conseguirá evadir à saída. (24-25)
Não aprendeu nada, e sabe tudo. (33)
Em Vieira (1944, II, p. 337): “Aos homens deu Deus uso de razão, e não aos
peixes: mas neste caso os homens tinham a razão sem o uso, e os peixes o uso
sem a razão”.
17
100
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
E vai por esse tom fora a energia do seu estilo, tecido de
contrastes, quase a beirar o paradoxo, como neste genial trecho:
A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se
acha a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do orgulho, ou da loucura. Tratar com desigualdade a iguais,
ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não
igualdade real. (25)
2 – séries invertidas:
...a doença de achar sempre razão ao Estado, ao Governo, à Fazenda;... nenhuma lei a reconhece à Fazenda, ao Governo, ou o
Estado. (43)
Nest’alma, tantas vezes ferida e traspassada tantas vezes... (21)
...mas presente ao céu e à terra, a todos nós presente... (13)
Mas a geral habitualidade e a conveniência geral o entretêm, inocentam e universalizam. (41)
As mãos já se encontraram. Já num aperto se confundiram as
mãos, que se procuravam. (16)
Mas, quando o trabalho se junta à oração, e a oração com o trabalho... (26-27)
...vê no invisível, e até no infinito vê. (13)
...não pode almejar seriamente, nem seriamente manter a sua independência para com o estrangeiro. (53)
Com o advogado, justiça militante, Justiça imperante, no magistrado. (48)
3 – Agora, uma série entrelaçada, com variação sinonímica:
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
101
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
Para o coração, pois, não há passado, nem futuro, nem ausência.
Ausência, pretérito e porvir, tudo lhe é atualidade, tudo presença.
(14)
A REPETIÇÃO PARALELA
Fundamento de magnificência literária, meio que é de
dar ao período aquela amplidão majestosa dos oradores de estirpe ciceroniana, a repetição paralela sobreexcele como uma
das notas típicas do estilo de Rui.
Como que no desejo de sentir-se a si outra vez, intensifica-se o pensamento, reforça-se de novo, e amplia-se, sob o
império de uma necessidade íntima de repetir-se. A repetição
paralela deve Rui o tom apocalíptico dos seus mais altos momentos de eloquência.
Exemplos:
Mãos à obra da reivindicação de nossa perdida autonomia; mãos
à obra da nossa reconstituição interior; mãos à obra de reconciliarmos a vida nacional com as instituições nacionais; mãos à obra
de substituir pela verdade o simulacro político da nossa existência entre as nações. (53)
Até onde chegam as vibrações do sentimento, até onde se perdem os surtos da poesia, até onde se somem os voos da crença:
até Deus mesmo... (13)
A esses homens-panaceias, a esses empreiteiros de todas as empreitadas, a esses aviadores de todas as encomendas, se escancelam os portões da fama... (34)
Quantas vezes não entrevemos, nesse fundo obscuro e remotíssimo, uma imagem cara? Quantas vezes não a vemos assomar
102
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
nos longes da saudade...? Quantas nos não vem conversar...?
Quantas outras, não somos nós os que vamos chamar esses leais
companheiros de além-mundo...? (15)
Como exemplo desse vigoroso tipo de construção, há de
legar-se à posteridade (é uma das mais soberbas páginas do idioma!) o trecho magnífico em que o velho mestre, com grandílocos acentos de profeta bíblico, prega a santidade da própria
ira, quando ela é a ira dos bons a fulminar os maus:
Quem, senão ela, há de expulsar do templo o renegado, o blasfemo, o profanador, o simoníaco? quem, senão ela, exterminar
da ciência o apedeuta, o plagiário, o charlatão? quem, senão ela,
banir da sociedade o imoral, o corruptor, o libertino? quem, senão ela, varrer dos serviços do Estado o prevaricador, o concussionário e o ladrão público? quem, senão ela, precipitar do governo o negocismo, a prostituição política, ou a tirania? quem,
senão ela, arrancar a defesa da pátria à cobardia, à inconfidência,
ou à traição? Quem, senão ela, ela a cólera do celeste inimigo
dos vendilhões e dos hipócritas? a cólera do justo, crucifixo entre
ladrões? a cólera do Verbo da verdade, negado pelo poder da
mentira? a cólera da santidade suprema, justiçada pela mais sacrílega da opressões? (20)
Por derradeiro, não se deixe de mencionar esta curiosa
modalidade de repetição de sons finais, muito bem achada, e
de grande valor expressivo-fonético:
...e, tanto uma como a outra, imensas nas dificuldades, responsabilidade e utilidades. (39)
Nest’alma, tantas vezes ferida e traspassada tantas vezes, nem de
agressões, nem de infamações, nem de preterições, nem de ingratidões, nem de perseguições, nem de traições, nem de expatriações perdura o menor rasto, a menor ideia de revindita. (21)
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
103
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
Exatamente como Hermes Fontes (1908),18 que assim
terminou um de seus poemas:
– divagações... visões... impressões... sensações... (p. 9, poema
"Estandarte")
E repetiu o processo, no soneto "Espera" (p. 104), de
modo mais completo:
– Esperança... Esperança... Esperança... Esperança...
Também não deveria ficar sem reparo, num capítulo
geral sobre REPETIÇÕES, a presença, em não poucos lugares,
do aposto redundante, com o qual, mais que ao ritmo, se serve
à ênfase:
Em verdade vos digo, jovens amigos meus, que o coincidir desta
existência declinante com essas carreiras nascentes agora, o seu
coincidir num ponto de intercessão tão magnificamente celebrado, era mais do que eu merecia... (11)
...me não houvesse poupado aos tremendos riscos dessas alturas,
“alturas de Satanás”, como as de que fala o Apocalipse... (23)
...um dos meus raros e modestos desvanecimentos é o de ser
grande madrugador, madrugador impertinente... (32)
Pelo contrário, os que se tem por notório e incontestável excederem o nível da instrução ordinária, esses para nada servem. (34)
Veja-se Vieira (1944, II, p. 95): “tantas petições, tantas remissões, tanta
provisões...”
18
104
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
CAPÍTULO III
CONCLUSÃO
Analisados todos esses processos estilísticos, não nos
será impossível tentar estabelecer a unidade do estilo de Rui
na Oração aos Moços e perscrutar a atmosfera espiritual que o
gerou.
A Oração aos Moços é um catecismo. Catecismo de
moral cívica, de moral social, de moral política. Nela se casam, em núpcias de ouro, o esplendor do pensamento e a maturidade do estilo. Não só pelas galas excelsas de forma, senão, principalmente, pelo edificante do valor educativo, pode
haver-se como um magnífico testamento literário e humano: a
lição de um grande escritor e o exemplo de um grande cidadão. Mas, aqui, quem dá conselhos à mocidade que o idolatrava não é o jurista, nem o estadista, nem o polemista, nem o
jornalista sem rival em sua terra: é “o padrinho, o velho, o aCARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
105
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
bendiçoador, carregado de anos e de tradições, versado nas
longas lições do tempo...” (BARBOSA, 1921, p. 24), em suma
– o MESTRE; quem ensina aos moços que “o ódio ao mal é amor do bem e a ira contra o mal, entusiasmo divino” (Ib., p.
18), mas, ao mesmo tempo, confessa não se “ter habituado a
maldizer, senão a perdoar, nem a descrer, senão a esperar,”
(Ib., p. 18) não é tampouco o sábio, nem o diplomata, nem o
constitucionalista insigne: é o missionário, o evangelizador, o
crente, numa palavra – o APÓSTOLO; quem, já no termo dos
seus dias, apesar de ter a alma “tantas vezes ferida e traspassada tantas vezes” (Ib., p. 21) pela incompreensão dos seus contemporâneos, ainda conclama a juventude a “pôr mãos à obra
de substituir pela verdade o simulacro político da nossa existência entre as nações” (Ib., p. 53), não é, também, o internacionalista glorioso, nem o artista da língua, nem o orador de
Haia: é o homem de luta, o patriota, o idealista impenitente,
em resumo – o LIDADOR.
As particularidades do estilo de Rui na Oração aos Moços parece confirmarem esse bosquejo de retrato psicológico:
1º – aquele preciosismo muito seu, o culto do passado literário, a
ortodoxia gramatical, o tom explicativo de sua prosa não refletirão, por ventura, aspectos do seu espírito de guia, de
mentor, de mestre, de alguém que outra coisa não desejou
fazer na vida senão ensinar “com a doutrina e o exemplo,
mas ainda mais com o exemplo que com a doutrina...”? (Id.,
1920, p. 205) Ensinar, no alto e amplo sentido da palavra, lhe
106
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
foi a sagrada vocação e o destino sagrado. Ele, consciente do
valor próprio e do valor das ideias que representava, timbraria de ser, em tudo, o modelo, o paradigma, o exemplo.
2º – o sentimento de simetria, revelado na sucessão dos grupos
ternários, na regularidade das antíteses e no paralelismo das
repetições; o amor do grandioso e do sublime, e os acentos
místicos do seu vocabulário não lhe espelharão, acaso, a alma iluminada de crente e de poeta? Poeta e crente, porque,
sonhando com estruturar a vida social na justiça e na liberdade, fundava a liberdade e a justiça na consciência religiosa: “...a liberdade fortalecida pelo espírito religioso, o espírito religioso expandindo-se clarificado no seio da liberdade...” (Id., 1907, p. 379) Só um poeta e um crente resumiria
sua vida neste cântico:
Não há justiça, onde não haja Deus. (Id., 1921, p. 47)19
3–
por fim, o tom paternal do aconselhador; o tom indignado do
patriota; o tom profético e levemente triste do lutador exausto; o ar de resistência e combate, que lhe transpira do vocabulário, não estarão, talvez, a dizer-nos algo do homem moral, do homem que lutou, e sofreu, e se desencantou muitas
vezes, mas perdoou sempre, e nunca perdeu a fé?
Queira Deus não tenhamos malbaratado, com o desacerto da interpretação, quanta de riqueza espiritual ganhamos, escrevendo este trabalho.
Rio de Janeiro, 31 de janeiro de 1949
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
19
Sobre a evolução do espírito religioso de Rui, cf. Correia (1945, p. 343-361).
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
107
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ACADEMIA Brasileira de Letras. Discursos acadêmicos, vol.
VI (1924-1927), Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936.
ALBALAT, Antoine. La formation du style par l'assimilation
des auteurs. 16. éd. Paris: Librarie Armand Colin, 1948.
ALI, M. Said. Dificuldades da língua portuguesa. 3. ed. Rio
de Janeiro/São Paulo/Belo Horizonte: Francisco Alves, 1930
______. Gramática histórica da língua portuguesa. 2. ed. melh.
e aum. de “Lexeologia” e “Formação de Palavras e Sintaxe do
Português Histórico”. São Paulo: Melhoramentos; Rio de
Janeiro: Caieiras, 1931.
______. Todo o Brasil e todo Portugal. Revista de Cultura, n.
224 a 228. Petrópolis, agosto a dezembro de 1945.
ALONSO, Amado (Dir.). Introducción a la estilística
romance, tomo I da “Colección de Estudios Estilísticos”,
dirigida por Amado Alonso. Tradução e notas de Amado
108
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
Alonso e Raimundo Lida. Buenos Aires, Buenos Aires:
Instituto de Filologia da Facultad de Filosofia y Letras de la
Universidad de Buenos Aires, 1942.
______; LIDA, Raimundo. Adiciones Bibliográficas. In:
Introducción a la estilística romance, tomo I da “Colección de
Estudios Estilísticos”, dirigida por Amado Alonso. Tradução e
notas de Amado Alonso e Raimundo Lida. Buenos Aires,
Buenos Aires: Instituto de Filologia da Facultad de Filosofia y
Letras de la Universidad de Buenos Aires, 1942, p. 219-244.
ANDRADE JR., Francisco Ferreira de. Gramática das
gramáticas da língua portuguesa. Lisboa, 1850.
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Rio de Janeiro/Paris:
Garnier, s/d.
______. Memórias póstumas de Brás Cubas. 4. ed. Rio de
Janeiro/Paris: Garnier, s/d.
______. Poesias completas. 1. ed. Rio de Janeiro: Garnier, 1901.
BALLY, Charles. Le langage et la vie. Bibliothèque
Scientifique. Paris: Payot, 1926.
BALLY, Charles. Traité de stylistique française. 2. éd. Paris:
C. Klincksieck, s./d., vol. I.
BANDEIRA, Manuel. Antologia dos poetas brasileiros da
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
109
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
fase romântica. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1937.
BARBOSA, Rui. A rebenqueida. Diários de Notícias, 21 de
fevereiro de 1912.
______. Discours de Ruy Barbosa à l’Académie Vrédiliense, le
17 mai 1909. Rio de Janeiro: Imprimérie Nationale, MCMIX.
(Edição de luxo, de trezentos exemplares, hoje raríssimos).
______. Discurso na Biblioteca Nacional (por ocasião das
festas do jubileu cívico, em 1918). In: Estante Clássica da
Revista de Língua Portuguesa, dirigida por Laudelino Freire,
vol. I, 1920.
______. Discurso no Senado Federal, em 13 de outubro de
1896. Ouro Preto: Imprensa Oficial do Estado de Minas
Gerais, 1897a.
______. Discurso no Senado Federal. In: Anais do Senado
Federal, 7º vol., 1896.
______. Discurso no Senado Federal. In: Anais do Senado
Federal, 2. vol., 1904.
______. Discursos e conferências. Porto, 1907.
______. Elogios acadêmicos e orações de paraninfo. Rio de
Janeiro: Revista de Língua Portuguesa, 1924.
______. Excursão eleitoral aos Estados de Bahia e Minas.
110
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
Manifestos à Nação. São Paulo: Casa Garraux, 1910.
______. O Partido Republicano Conservador. Rio de Janeiro,
1897b.
______. Oração aos moços. São Paulo: Dionysos, 1921.
______. Orações do Apóstolo. Rio de Janeiro: Revista de
Língua Portuguesa, 1923.
______. Parecer sobre a redação do projeto da Câmara dos
Deputados. In: ___. Trabalhos da Comissão Especial do
Senado, vol. I, Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1902.
______. Porneia. A Imprensa, 12 dez. 1899a.
______. Prece de Natal. A Imprensa, 25 dez. 1898.
______. Problemas de Direito Internacional. Conferência
realizada na Faculdade de Direito de Buenos Aires. Londres:
Jas. Truscott & Son, Ltd., 1916.
______. Queda do Império. In: ___. Obras Completas de Rui
Barbosa, vol. XVI, 1889, dois tomos. Rio de Janeiro:
Ministério da Educação e Saúde/Imprensa Nacional, 1947.
______. Reforma do ensino primário. In: ___. Obras
Completas de Rui Barbosa, vol. X, 1883, tomo II, Rio de Janeiro:
Ministério da Educação e Saúde/Imprensa Nacional. 1946.
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
111
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
______. Saudação aos jangadeiros. O Tempo, n.º 4, de outubro
de 1922.
______. Surrexit. A Imprensa, 02 abr. 1899b.
______. Visita à terra natal. In: ___. Obras completas de Rui
Barbosa, vol. XX, 1893, tomo I. Rio de Janeiro: Ministério da
Educação e Saúde/Imprensa Nacional, 1948.
BARRETO, Fausto; LAET, Carlos de. Antologia Nacional. 26.
ed. adaptada ao programa do 2.º Ciclo pelo Prof. M. Daltro
Santos. Rio de Janeiro/São Paulo/Belo Horizonte. Francisco
Alves.
BARRETO, Mário. De gramática e de linguagem. Rio de
Janeiro: “Revista de Língua Portuguesa”/“O Norte”, 1922.
______. Fatos da língua portuguesa Rio de Janeiro/São
Paulo/Belo Horizonte: Francisco Alves, 1916.
______. Novíssimos estudos da língua portuguesa. 2. ed. rev.
Rio de Janeiro/São Paulo/Belo Horizonte: Francisco Alves, 1924.
______. Novos estudos da língua portuguesa. Rio de
Janeiro/São Paulo/Belo Horizonte: Francisco Alves, 1911,
BOLÉO, M. Paiva. O perfeito e o pretérito em português, em
confronto com as outras línguas românicas. Lisboa, 1937.
CAMÕES, Luís de. Os lusíadas. Edição nacional, que
112
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
reproduz o texto da edição princeps de 1572, com a ortografia
e a pontuação reformadas. Feita por iniciativa de Afonso
Lopes Vieira e revista pelo Dr. José Maria Rodrigues.
Imprensa Nacional de Lisboa, 1931.
CORRÊIA, D. Aquino. O exemplo de Rui Barbosa. In: ___.
Discursos, vol. II, 2. ed. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional,
1945.
DELGADO, Luís. Rui Barbosa. Rio de Janeiro/São Paulo:
José Olympio, 1945.
DIAS, Epifânio. Sintaxe histórica portuguesa. 2. ed. Lisboa:
Clássica, 1933.
FONTES, Hermes. Apoteoses, 1. ed. Rio de Janeiro: Papelaria
Brasil da Costa Pereira, 1908.
GARRET, Almeida. O Alfageme de Santarém. Porto:
Chardron, de Lelo e Irmão.
GROOT, A. W. Le mètre et le rythme du vers. Trad. Melle. G.
Bianquis. Psichologie du langage, reunião dos números 1-4,
de 1933, do Journal de Psychologie. Paris, 1933.
HATZFELD, Helmut. La investigación estilística en las
literaturas románicas. In: Introducción a la estilística romance,
tomo I da “Colección de Estudios Estilísticos”, dirigida por
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
113
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
Amado Alonso. Tradução e notas de Amado Alonso e
Raimundo Lida. Buenos Aires, Buenos Aires: Instituto de
Filología da Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad
de Buenos Aires, 1942.
HERCULANO, Alexandre. Lendas e narrativas. 4. ed. Lisboa,
1877.
KENISTON, Hayard. The Syntax of Castilian Prose – The
Sixteenth Century. Chicago, 1933.
LIMA, Alceu Amoroso. Estética literária. Rio de Janeiro:
Americ, 1943.
LOBO, Rodrigues. Égloglas. Conforme a edição princeps
(1605). Introdução e notas de José Pereira Tavares. Coimbra:
Imprensa da Universidade, 1928.
MAGNE, Augusto (Ed.). A demanda do Santo Graal. Rio de
Janeiro: Imprensa Nacional, 1944, vol. III – Glossário.
MANGABEIRA, João. Rui o estadista da República. 1. ed.
São Paulo: Martins, 1943. [2. ed., 1946].
MONTEIRO, Clóvis. Nova antologia brasileira. 8. ed. Rio de
Janeiro: F. Briguet & Cia., 1943.
OITICICA, José. Manual de análise. 5. ed. Rio de Janeiro/São
Paulo/Belo Horizonte: Francisco Alves, 1940.
114
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
PALHA, Américo. História da vida de Rui Barbosa. Rio de
Janeiro: Minerva, 1948.
PEIXOTO, Afrânio. Dom e Arte de Estilo. Conferência
realizada a 15 de agosto de 1919, no Grêmio Euclides da
Cunha. In: ___. Poeira da estrada: ensaios de crítica e de
história. 3. ed. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1944.
PEREIRA, Batista (Org.). Coletânea Literária. 5. ed.
Organizada, anotada e prefaciada por Batista Pereira. São
Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1945.
PETSCH, Robert. Analisis de la obra literario. In: Filosofía de
la Ciencia Literaria, artigos de vários autores. Trad. Carlos
Silva. México: Fondo de Cultura Económica, 1946.
PIDAL, Menéndez. Poesia juglaresca y juglares. 2. ed.
Buenos Aires: Austral, 1945.
PUJOL, Alfredo (Org.). Machado de Assis, conferências. São
Paulo: Sociedade de Cultura Artística, 1917.
QUEIRÓS, Eça de. A correspondência de Fradique Mendes.
Porto: Lello & Irmão, 1945.
RESENDE, Mestre André de. A santa vida e religiosa
conversação de frei Pedro, porteiro do mosteiro de S.
Domingos de Évora. Edição fac-similada do único exemplar
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
115
(Tentativa de interpretação estilística de Rui Barbosa)
conhecido, acompanhada de transcrição, introdução e notas
por Serafim da Silva Neto. Prefácio-estudo de Jaime Cortesão.
Brasil-Portugal: Dois Mundos, 1947.
RIBEIRO, João. Seleta clássica. Rio de Janeiro/São Paulo/
Belo Horizonte: Francisco Alves, 1905.
SAUSSURE, Ferdinand de. Cours de linguistique générale. 2.
éd. Paris: Payot, 1922.
SÉRGIO, Antônio (Org.). Obras de Antero de Quental. vol. I –
Sonetos. Lisboa, 1943.
SILVEIRA, Sousa da. Lições de português. 3. ed. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1937.
______. Sobre a língua nacional. Língua e Linguagem: revista
da Academia Brasileira de Filologia, Rio de Janeiro: Imprensa
Nacional, n. 1, jan.-fev. 1947.
______. Textos quinhentistas. Rio de Janeiro: Faculdade
Nacional de Filosofia/Imprensa Nacional, 1945. (Coleção
“Textos Antigos e Modernos”, vol. I).
SPITZER, Leo. La interpretación lingüística de las obras
literarias. In: Introducción a la estilística romance, tomo I da
“Colección de Estudios Estilísticos”, dirigida por Amado
Alonso. Tradução e notas de Amado Alonso e Raimundo Lida.
116
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS
Buenos Aires, Buenos Aires: Instituto de Filología da Facultad
de Filosofía y Letras de la Universidad de Buenos Aires, 1942.
TOMÁS, T. Navarro. El grupo fónico como unidad melódica.
Revista de Filología Hispánica, año I, n. 1, enero-marzo,
Buenos Aires/Nueva York, 1939.
VASCONCELOS, Carolina Michaëlis de. Cancioneiro da
Ajuda. Halle, 1904.
VENDRYES, J. Le langage. Paris: La Renaissance du Livre.
1921.
VIANA FILHO, Luís. A vida de Rui Barbosa. São Paulo: Cia.
Ed. Nacional, 1941.
VIEIRA, Antônio (Padre). Serman de S. Antonio/ pregado/ na
cidade de S. Luis do Maranhão, anno de 1654. In: ___.
Sermões do padre Antônio Vieira, vol. II. Reprodução facsimilada da edição de 1682, com prefácio de Augusto Magne.
São Paulo: Anchieta, 1944.
VOSSLER, Karl. Positivismo e idealismo en la lingüística y el
lenguaje como creación y evolutión. Traducción de José
Francisco Pastor. Madrid-Buenos Aires: Poblet, 1929.
CARLOS HENRIQUE DA ROCHA LIMA
117
Download

ATRAVÉS DA ORAÇÃO AOS MOÇOS