Ao Senhor Bispo do Porto
Carta aberta ao Senhor D. António Francisco,
Bispo do Porto
“Um grupo de indiferentes: não ouvem, pensam que a vida seja o seu
grupinho; estão contentes, surdos ao clamor de tantas pessoas que
precisam de salvação, que precisam da ajuda de Jesus, que têm
necessidade da Igreja… Estas pessoas egoístas, vivem para si
mesmas, são incapazes de ouvir a voz de Jesus.”
Papa Francisco, Meditação Matutina 28/05/2015*
Exmo. Senhor D. António Francisco,
1. Surge a presente carta em dia de Sto. António. Talvez por estar, eu também,
cansado de tentar pregar aos homens o que estes não querem ouvir. Prego
assim, na pessoa de V. Exa., aos peixes que possam navegar pelo mar moderno
que é a internet.
2. Estou há 7 meses a tentar denunciar a prática de crimes de abusos financeiros
sobre idosos e crimes de corrupção, tráfico de influências e outros, praticados à
sombra da Paróquia do Amial e da Ordem dos Capuchinhos, à qual incumbe o
múnus de indicar o pároco daquela Paróquia. As minhas denúncias são todas
documentalmente comprováveis e foram sempre feitas com a minha
identificação, nunca no anonimato.
3. Como V. Exa. bem sabe, os pedidos de socorro que tenho feito (socorro para
os idosos que são, a par das crianças, os elementos mais frágeis da comunidade)
foram primeiramente endereçados ao pároco, depois ao Ministro Provincial dos
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Capuchinhos Portugueses, passaram pela Vigararia Porto-Nascente, pelos
serviços da Diocese do Porto e, por fim, chegaram ao próprio Senhor D. António
Francisco …
4. Sucede que o pároco e o seu staff optaram por caluniar-me e virar-me as
costas, com a particularidade de o senhor Pároco passar a proclamar
publicamente as suas relações ilícitas com a Segurança Social e a Autoridade
Tributária!
5. O Provincial dos Capuchinhos, esse, optou por “fugir” ao assunto, dizendo
“não saber o que fazer” e confessando que não tinha forças para combater os
poderes instalados.
6. O senhor Vigário da Vara escreveu-me a dizer que não tinha tempo a perder!
7. E os serviços da Diocese tudo fizeram para me afastar do Senhor Bispo, não
hesitando em mentir por escrito a este humilde cristão.
8. O que eu não esperava, Senhor D. António Francisco, era que V. Exa.
Reverendíssima, em vez de me ouvir, optasse por maltratar-me e maltratar, na
minha pessoa, aqueles que lhe pedem ajuda para defender os mais frágeis.
9. O que eu não esperava, Senhor D. António Francisco, era que V. Exa.
Reverendíssima optasse por se juntar, com a indiferença, àqueles e àquilo que
eu lhe ia denunciar.
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10. O que eu não esperava, Senhor D. António Francisco, era que V. Exa.
Reverendíssima, para me não deixar falar, optasse por falar de pessoas
ausentes, a quem V. Exa., no mínimo, deve respeito.
11. O que eu não esperava, Senhor D. António Francisco, era ouvir o Bispo do
Porto, presumo que por mau aconselhamento, a repetir falsidades que lhe
foram feitas chegar por alguém que pertence a uma organização orientada para
a prática de atos criminosos.
12. Eu não posso conformar-me com a indiferença do Pastor da minha Diocese
perante “o brado dos muitos que precisam de Jesus”*, como muito bem acusa o
Papa Francisco.
13. Eu não posso conformar-me com a indiferença do Pastor da minha Diocese
perante um pároco por si nomeado que promove a divisão e a discórdia, com a
prepotência de quem afirma publicamente tudo poder porque “tudo controla”:
Diocese, Segurança Social, Autoridade Tributária e sabe Deus que mais …
14. Eu não posso conformar-me com a aprovação do Pastor da minha Diocese
àqueles «que Jesus reprova» porque «carregam tantos pesos sobre os ombros
das pessoas»*. E Jesus dedica-lhes todo o capítulo 23 de São Mateus. A eles
chama «hipócritas, exploradores de pessoas!», «em vez de responderem ao
brado que pede salvação, afastam o povo»*.
15. Eu não posso conformar-me com os «comerciantes sem escrúpulos: eram
religiosos, ao que parece, mas Jesus afastava-os do templo porque faziam
negócios ali, na casa de Deus»*. Trata-se de pessoas «que não ouvem, não
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querem ouvir, o brado de ajuda, mas preferem fazer os seus negócios e usam o
povo de Deus, e usam a Igreja. Também estes comerciantes sem escrúpulos
afastam o povo de Jesus» e não deixam que as pessoas «peçam ajuda»*.
16. Há idosos cujo património é assaltado e sem que haja reação, há influências
movidas na Segurança Social que V. Exas. não quererão terminar, há teias de
interesses que V. Exas. não quererão desmontar, há ignorâncias que V. Exas.
quererão fazer persistir.
17. De hoje em diante, todas as questões que pretendia levar ao conhecimento
do Senhor D. António Francisco terão que ser discutidas publicamente, com a
liberdade que me dá o facto de ninguém na Igreja ter tido a honestidade cristã
de me querer ouvir e de me querer ajudar a ajudar os mais fracos.
18. Usei neste texto, e em abundância, citações do Papa da Igreja Católica,
Apostólica, Romana. Que seja essa a nossa Igreja e que, pelo menos, o Papa
Francisco possa tocar o coração de V. Exa. Reverendíssima e de todos que o
aconselham, já que a mim me não foi dada a hipótese de falar. Quem está a
mais na Igreja não é quem denuncia os crimes, é quem os comete e também
quem os tenta ignorar e silenciar.
19. Por fim, volto a Sto. António:
“Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal
da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o
que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a
terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que
têm o ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta
corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não
deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não
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pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra não se deixa
salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não
querem receber. Ou é porque o sal não salga e os pregadores dizem
uma coisa e fazem outra; ou porque a terra não se deixa salgar, e os
ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que
dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e
não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em
vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto
verdade? Ainda Mal. (...) Isto suposto, quero hoje, à imitação de S.
António, voltar-me da terra ao mar, e já que os homens se não
aproveitam, pregar aos peixes.”
(Extraído de “Sermão de Sto. António aos Peixes”, Padre António Vieira)
Porto, 13 de Junho de 2015, dia de Sto. António
Miguel Andrade
* Meditações Matutinas do Papa Francisco, na capela da Domus Sanctae Marthae, quinta-feira 28 de
Maio de 2015, publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 23 de 4 de Junho de 2015
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