ENCONTRO 3
MOISÉS, UM HOMEM MOLDADO POR DEUS
PARA MEMORIZAR
"Moisés foi fiel como servo em toda a casa de
Deus, dando testemunho do que haveria de
ser dito no futuro, mas Cristo é fiel como Filho
sobre a casa de Deus; e esta casa somos nós,
se é que nos apegamos firmemente à
confiança e à esperança da qual nos
gloriamos" (Hebreus 3.5-6)
PARA PENSAR
A partir do episódio em Mara, saiba que "a
parte mais significativa de qualquer jornada
não é o objetivo -- o fim -- mas, antes, o
processo de chegar lá". 1
PARA VIGIAR
NÃO permitirei que o fracasso de agora ou o
sucesso do momento me deixe exatamente
onde estou.
PARA ALCANÇAR
Já que "todos somos vasos de barro e todos
estamos sendo moldados. E alguns são mais
moldáveis que os outros", 2 eu estarei no
grupo dos que se deixam moldar por Deus.
____________
A longa vida de Moisés (120 anos)3 teve três
períodos distintos, cada um com a mesma
duração de 40 anos. Por isto, podemos
concluir que ele "gastou seus primeiros 40
anos pensando que era alguém. Gastou seus
segundos 40 anos apreendendo que não era
ninguém. Gastou seus terceiros 40 anos
descobrindo o que Deus faz com um
ninguém". (D.L. MOODY) 4
1
!
UMA BOA HISTÓRIA COMEÇA CEDO
Moisés nasceu num contexto adverso. Ele era
egípcio, mas suas origens eram hebreias.
Como egípcio, seu povo era milenar, com uma
história de seis milênios e compunha a mais
adiantada civilização da época, com
realizações que os séculos seguintes não
superariam, como a construção de pirâmides,
a arquitetura de estátuas e a mumificação de
corpos. Sua arte era riquíssima.
C o m o h e b r e u , s e u p o v o e ra r e c e n t e ,
chamando suas raízes a meio milênio, a partir
do patriarca Abraão. Os netos e bisnetos do
patriarca acabaram migrando para o Egito,
vindos de Canaã, ao norte. Foram, num
primeiro momento, favorecidos pelo bisneto
José que obteve permissão para trazer a
família do seu pai (cerca de 70 pessoas -conforme Êxodo 1.5). Quando Moisés nasceu,
a situação política mudara e seus ancestrais
deixaram de ser queridos. A situação
demográfica também mudara, com os 70 se
multiplicando para chegar a milhões.
Foi precisamente esta explosão populacional
que trouxe uma tensão tal que nascer se
tornou um crime. Esse era o método faraônico
para reduzir a taxa de crescimento da
população dos hebreus. O infanticídio era uma
prática comum no mundo antigo. E Moisés
nasceu. O Estado não honrou seus
compromissos, mudando sua política ao sabor
dos interesses e demonstrando que o futuro
nunca está garantido.
Por três meses, e provavelmente já
circuncidado, foi escondido pelos pais Anrão e
Joquebede, do clã (tribo) de Levi, com a ajuda
dos irmãos mais velhos, Miriã e Arão, que
tinha três anos a mais que ele5. Colocado num
barquinho preto, em forma de cesto, boiou
pelo rio Nilo (ou talvez por um braço dele) até
ser encontrado numa praia de águas escuras
pelas empregadas da família real. "Este é o
ponto preciso que a Bíblia tenta nos ensinar.
Mesmo em meio à dificuldade, ao desespero e
ao perigo", os pais de Moisés escolhem
afirmar a vida. E o maior ato de afirmação da
vida é levar mais vida a este mundo, porque
se paramos de pensar sobre isto, em lugar de
MEIER, Levi. Moses: the prince, the prophet. Woodstock: Jewish Lights, 1998.
2
!
STEDMAN, Ray. Citado ad tempora por SWINDOLL, Charles. Moses: a man of selfless dedication.
Nashville: Thomas Nelson, 1998.
3
!
Não há um consenso sobre as datas de Moisés. A mais tradicional para o seu nascimento é 1525 A.C., com a
morte ocorrendo em 1405 A.C..
4
!
MOODY, D.L. Citado por SWINDOLL, Charles, op. cit.
5
!
Cf. Êxodo 7.7.
levar vida nova a este mundo, inevitavelmente
acabaremos (...) levando morte ao mundo". 6
A princesa se apegou ao bebezinho e decidiu
adotá-lo. Esta princesa, que a tradição
rabínica hebraica identifica com Bítia ou
Bitia)7 , contratou, por sugestão de Miriã, a
própria mãe biológica de Moisés (Joquebede),
para ser sua ama-de-leite. Depois que ficou
grande, a princesa mandou buscá-lo e lhe deu
o nome, Moisés, comum entre os egípcios.
Vivendo como membro (adotado) da família
real, foi educado como um egípcio na capital
(Avaris?). A literatura judaica informa que ele
estava sendo preparado para ser o herdeiro do
trono, servindo como um Faraó.
De qualquer modo, estamos diante de uma
cena triste: "Moisés se tornou o filho de outra
mulher com um conjunto de valores
completamente diferentes. Um estranho. Um
idólatra. Um estrangeiro". Suas duas mães
representavam dois mundos: Joquebede (este
era o seu nome) era monoteísta; Bitia (se este
era o seu nome) era politeísta.
Nada mais sabemos de sua vida palaciana,
exceto que foi brilhante nos seus estudos
(Atos 7.22).
ESTRANGEIRO EM SUA TERRA, ESTRANGEIRO
NA TERRA ESTRANHA
Quando ele completou 40 anos, decidiu voltar
a Gósen, onde nascera e viviam seus
familiares. Neste retorno, não há referência a
seus familiares diretos, apenas aos hebreus
em geral, milhões por esta época. Podemos,
no entanto, supor que o filho adotado da
princesa queria se reencontrar com sua mãe
biológica. Adotado, deve ter se sentido
derrotado até compreender que sua dação foi
um ato de amor e sua adoção também. Só sua
mãe poderia revelar este segredo. Encontroua? Estaria ela viva, com seus possíveis mais
de 70 anos de idade?
É possivel que a volta às origens fosse algo
latente no coração de Moisés. É possível que
desejasse se reencontrar com o seu passado?
Não somos informados do que se passava em
seu coração, mas podemos supor que não se
sentia completamente egípcio, como o prova o
partido que tomou na chegada ao território
dos hebreus, para o que se pretendia ser
apenas uma visita. Ele viu um egípcio
espancando um hebreu. Forte (talvez treinado
nas artes da guerra no palácio), defendeu o
mais fraco com tanto vigor que matou o
agressor. Diante do fato não previsto, enterrou
o cadáver do egípcio. Talvez o episódio tenha
6
!
MEIER, Levi, op. cit.
7
!
Cf. 1Crônicas 4.17.
facilitado sua decisão de renunciar à cidadania
egípcia para ser hebreu. (Como lemos, "pela
fé Moisés, já adulto, recusou ser chamado
filho da filha do faraó, preferindo ser
maltratado com o povo de Deus a desfrutar os
prazeres do pecado durante algum tempo" Hebreus 11.24-25). Ele fizera uma escolha e
iria pagar por ela.
Querido no Egito, desconhecido em Gósen,
seu crime foi denunciado. Se voltasse para
casa, seria julgado, seja pela deserção, seja
pelo homicídio. Restou-lhe o autoexílio. Para
onde iria, se o Faraó, rejeitado por ele, era
superpoderoso e sua nação a maior potência
mundial?
Só o deserto lhe oferecia segurança e para lá
Moisés rumou. O deserto ficava na região de
Midiã (no hoje sul da Jordânia e noroeste da
Arábia Saudita).
O menino nascido sob tensão e medo, o
garoto afastado do convívio de sua família, o
adolescente vivendo longe de casa, o jovem
educado para ser o que não queria, agora era
um estrangeiro no deserto, onde não conhecia
ninguém. Estrangeiro e desconhecido, mas
não sozinho. Deus estava com ele, embora
não o sentisse.
Termina aí seu primeiro período de 40 anos,
um período de muitas mudanças, já que a
mudança faz parte da natureza da vida,
queiramos ou não.
Ele mudou de mãe, de família e de casa aos
três meses de idade. Mudou para viver.
Ele mudou, aos 40 anos, do palácio da riqueza
para a pobreza, de uma terra de pessoas
livres para um imenso campo de refugiados
escravos, embora devesse ser por um tempo.
Mudou para se reconciliar com o seu passado
e ficar firme com os seus valores. (Sim, o luxo
carrega junto outros valores. Tê-lo implica em
vender a alma aos seus valores.)
Ele mudou, ainda aos 40, da terra dos seus
ancestrais e familiares para o deserto, no qual
não tinha qualquer laço de parentesco. Mudou
para sobreviver.
Em Midiã, foi acolhido como um pastor de
animais, profissão que nunca exercera, que
seus pais biológicos não conheciam, que seus
urbanos pais adotivos nunca vivenciaram, que
seus ancestrais praticavam séculos antes.
Ser pastor de ovelhas, cabras e carneiros era
o que tinha para fazer. Aceitou o emprego.
Assim, antes de ser chamado por Deus para
tirar o povo do Egito, Moisés trabalhou 40
anos (ou 14.600 dias) para o estrangeiro
Jetro, um Melquisedeque redivivo que mostra
o universalismo da revelação e da graça,
assim como ele repetia seu pai Jacó ao
trabalhar para o sogro.
Nesses 40 anos, teve tempo para refletir sobre
a sua vida. Deus busca os que refletem, os
que fazem perguntas, os que querem mais.
Nesses 40 anos, deve ter pensado sobre a sua
escolha: a de renunciar ao conforto do palácio
e ao futuro certo.
Nesses 40 anos, deve ter refletido sobre a sua
capacidade de reagir com violência às
situações que o desagradam.
Nesses 40 anos, deve ter tirado a lição do
homicídio: um pecado omitido continua sendo
pecado; ah, se ele soubesse antes que a
justiça não deve ser feita com as próprias
mãos.
Nesses 40 anos, deve ter sentido saudade de
sua terra (tanto a palaciana quanto a de seus
pais) e mesmo sofrimento diante do
sofrimento dos seus.
Nesses 40 anos, casou-se e teve dois filhos.
Nesses 40 anos, venceu como pastor de
animais.
Nesses 40 anos, deve ter orado ao Deus de
Abraão, Isaque, Jacó, José e Anrão.
Nesses 40 anos, deve ter-se perguntado se a
sua vida terminava ali.
TIRADO DAS ÁGUAS ONTEM, TIRADO DE
DESERTO HOJE, PARA UMA MISSÃO
Foi no mundo do trabalho que Deus o
encontrou, 40 anos depois. (Não é no mundo
do trabalho que Deus nos encontra?)
Quando Deus o encontrou, Moisés tinha
perdido o senso de missão.
Seu trabalho não só era um deserto como era
feito no deserto. Ele não se encontrou no
deserto, mas foi encontrado nele, não numa
tempestade, como no caso de Jó (Jó 38.1),
mas no meio de uma acácia, árvore até hoje
comum na região e que nasce nos lugares
mais desérticos.
O deserto preparou Moisés para ser
encontrado. É que "no majestoso cenário do
deserto, nossas mentes (...) são levadas para
mais alto e aprendem a perceber a pequenez
das vaidades que a tantos encantam. Ali
aprendemos a nos relacionar com Deus não
em segunda mão, como é comum na
civilização humana, mas diretamente,
enquanto ele nos dispensa o maná com sua
própria mão e faz jorrar da rocha dura as
correntes que satisfazem nossa sede.
Perdemos o luxo que minava e consumia
nossa natureza moral, para nos encontrarmos
abraçados e fortalecidos em cada músculo
pela privação e pela dificuldade. A paciência, a
liberdade, a fé e o espírito peregrino, todas
estas coisas são filhas da peregrinação no
deserto". 8
E Moisés foi encontrado. Ele "saiu da mente
das pessoas por 40 anos e elas não sabiam o
que tinha sido feito dele, mas Deus estava de
olho nele. Ele era o melhor dos homens que
Deus queria". Deus precisava dele. Deus
poderia ter falado ao Faraó sem Moisés. Ele
poderia ter falado numa voz de trovão e
quebrantado o coração do Faraó com uma
fala, se quisesse, mas preferiu tomar um
agente humano. Ele poderia mandar Gabriel
descer, mas sabia que Moisés era o homem
acima de todos os outros, pelo que o
chamou". 9
Moisés não sabia quem era, mas o que
importa é quem Deus é. "Quando os homens
aprendem a lição que nada são e Deus é tudo,
então não existe um lugar em que Deus não
os possa usar', nem mesmo no deserto de
uma vida sem sentido ou no turbilhão de uma
vida marcada por descontroles. Deus usa
homens para falar aos homens; ele trabalha
através de mediadores. Ele poderia ter
realizado o êxodo num relâmpago, mas, em
lugar disto, escolheu enviar um pastor solitário
e desprezado para levar a cabo seu propósito
através da dor e da decepção. Este foi o
caminho de Deus no Antigo Testamento e
também no Novo. Ele enviou seu Filho na
forma de carne pecaminosa para ser o
mediador entre Deus e o homem". 10
Deus sempre nos encontra, se permitirmos.
O encontro de Deus e Moisés não foi um
monólogo, mas um diálogo.
Moisés não conhecia Deus o suficiente. Por
isto, perguntou-lhe o nome.
Moisés tinha uma carreira certa, medíocre,
diante do que poderia fazer, mas certa. Diante
do tamanho da missão que Deus lhe tinha, era
muito melhor ser empregado do sogro. No
entanto, sua resistência não durou muito. A
missão lhe ardeu, como ardia a acácia.
Moisés era tímido, ao ponto de gaguejar nas
horas mais tensas. Na verdade, ele se achava
inferior. Suas palavras são bem reveladores:
"Por favor, Senhor! Eu não sei falar bem.
Nunca tive jeito com as palavras, nem antes
nem depois de teres falado comigo. Eu
gaguejo e sou inseguro para falar” (Êxodo
4.10). Quando lemos os discursos longos de
8
!
MEYER, F.B. The call of Moses. [S.l.:] Light by Design, [s.d.]. Edição eletrônica.
9
!
MOODY, D.L., op. cit.
10
!
MOODY, D.L., op. cit.
Deuteronômio, notamos como Moisés venceu
sua gagueira. Parece que ficou curado logo
após as missões diante do Faraó, porque
depois disto não usou mais Arão como portavoz.
Moisés, preparado no palácio, tinha agora o
palácio como um dos seus locais de trabalho.
Ele conhecia as regras do cerimoniais. Ele
conhecia os atalhos. As coisas não deviam ter
mudado, porque naquele tempo as coisas
mudavam devagar.
M o i s é s n ã o e s t a va p r e p a ra d o a p e n a s
intelectualmente. O encontro com Deus o
preparou espiritualmente e disto a vara na
mão era o símbolo. A vara de Moisés é
também o símbolo que já temos nas mãos os
recursos de que precisamos para realizar a
nossa chamada.
E Moisés vai. Moisés é um homem chamado
(como todos nós) e com a consciência de que
é chamado (como poucos de nós).
E Moisés vai. Protótipo de vidas que mudam,
ele muda de novo, aos 80 anos. Agora, no
caminho inverso, ele marcha do campo para a
cidade. Aos 80 anos, ele se torna um
peregrino.
O peregrino enfrenta o Faraó, mas não o
vence. Quem vence é Deus. O peregrino tem
apenas uma vara. Sem a vara, é
incompetente. Com a vara na mão, é um
guerreiro invencível, embora não branda a
vara. É Deus que convence e vence. Quando
não convence, vence, porque faz o mar se
abrir ao meio.
O Faraó deixa o povo ir. Deus não lhe deixa
escolha. O Faraó não obedece; como muitas
pessoas, cede.
O povo segue em direção à terra prometida, a
mesma prometida e pisada por Abraão, mas
abandonada, por causa da fome, pelos seus
descendentes.
O HOMEM IMPERFEITO
Moisés não era perfeito. A biografia que a
Bíblia lhe traça contém seus fracassos. Por
isto, é chamado de homem, "o homem
Moisés" (Êxodo 11.3).
Ve j a m o s n u m m o s a i c o , a l g u m a s d a s
imperfeições mosaicas:
1. Moisés tinha um complexo de
inferioridade.
Ele não tinha nenhuma razão para isso. Salvo
da fúria insana do Faraó, tornou-se seu neto.
No palácio, era bajulado, como são os ricos e
os príncipes. Assim mesmo, ele se depreciava.
Ele se deixou moldar. Deus fez do tímido um
líder, um líder corajoso.
2. Moisés tinha uma tendência a resolver
seus problemas pela força.
Ele fez isto quando matou um inimigo. Ele fez
isto também quando bateu na Rocha, embora
instruído para lhe falar.
Ele se deixou moldar. Esta foi talvez a maior
transformação ocorrida no seu caráter.
Talvez pelo poder que gozara no palácio real,
qual menino mimado, não podia ser
contrariado. No entanto, a Bíblia o apresenta
como o homem mais manso (ou humilde e
paciente -- Números 12.3) da terra.
3. Moisés precisou aprender a colocar o
trabalho no seu devido lugar.
Quando se tornou pai, priorizou a missão e se
esqueceu de circuncidar um de seus filhos.
Deus, no entanto, põe a família (e não ele
mesmo) em primeiro lugar.
Ele se deixou moldar. Demorou a perceber.
Deus teve que ameaçá-lo (com a perda da
vida) para ele aprender (Êxodo 4.24-26). A
doença o salvou.
Neste mesmo contexto de priorização do
trabalho, ele se achava insubstituível e
cuidava de tudo em Israel, até que Deus
usasse seu sogro para o instruir a delegar
(Êxodo 18).
4. Moisés teve que aprender a lidar com a
crítica e a rebeldia.
Como líder, Moisés era um realizador. Talvez,
no início, fosse um "trator", de olho mais nos
resultados do que nas pessoas. Obviamente,
enfrentou resistências e críticas, inclusive
vindas de seus irmãos, que foram contra o seu
(segundo) casamento com uma mulher de fora
do povo (Números 12.1).
Às vezes, respondeu com indignação e rispidez
(Êxodo 16.20). O temperamento de Moisés foi
sendo controlado por Deus, porque
naturalmente era explosivo. Deus o vinha
ensinando. Quando o povo se levantou cheio
de medo de morrer no deserto, Deus lhe
orientou a que ignorasse (o medo faz parte da
natureza humana) e mandasse o povo
marchar (Êxodo 14.15).
Quando seus irmãos se rebelaram contra ele,
Moisés nada fez. Deixou o assunto por conta
de Deus. Quando Miriã ficou doente por causa
de sua rebeldia, Moisés orou por ela (Números
12.13).
Moisés amava as pessoas. Ele gostava de
pessoas e contava com elas. Quando, por
exemplo, algumas pessoas começaram a se
destacar, ele estimulou a que continuassem,
em lugar de as deter (Número 11.29).
Moisés aprendeu a amar as pessoas.
Enfim, Moisés não era perfeito, mas procurava
viver de modo santo.
O que ele pedia ao povo para fazer ele mesmo
o fazia. Ele se considerava parte de um povo
santo (Êxodo 33.16).
Humano, feriu a rocha quando devia apenas
falar (Números 20.11). O temperamento falou
mais alto. Ele pediu perdão por seu pecado. 11
Mesmo magoado, aprendeu também a não
retaliar. Ele dizia ao povo a como proceder; o
povo fazia o que bem entendia. Assim mesmo
Moisés intercedia pelo povo (Números 21.7).
COMPROMISSOS QUE MOISÉS NOS INSPIRA
Nem todos temos trabalhos de Moisés a
realizar, mas podemos observar o seu
itinerário.
Na vida somos sempre líderes, nem que seja
apenas de nós mesmos.
Moisés foi líder de si mesmo, para ser líder de
um imenso povo.
1. Moisés era um homem de oração.
Afora os inúmeros diálogos diretos que Moisés
travou com Deus, o Pentateuco reproduz
integralmente nove orações que o líder do
êxodo fez (Êxodo 15.6-17, Números 10.35-36
e Deuteronômio 3.24-25, 9.26-29, 21.8,
26.5-10, 26.13-15, 33.7 e 33.8-11).
Seu poder vinha da oração, nunca
burocráticas, algumas sendo autênticos tourde-force com Deus, como Jacó diante do
Jaboque. Numa delas, diz que Deus lhe pode
tirar a vida, se não pode fazer bem o seu
trabalho de líder (Números 11.11-15). Quando
ele levantava suas mãos (num gesto que
demonstra ao mesmo tempo exaltação a Deus
e dependência dele), as coisas corriam bem
para o povo. Interceder era com Moisés
(Êxodo 17.11; Números 21.7). Em outra pede
a presença de Deus com ele, como condição
para continuar seu ministério (Êxodo 33.15).
Pela oração, chegou ao topo. Estando no topo,
não se recusou a descer para servir,
antecipando a orientação que Jesus daria aos
seus discipulos depois da Transfiguração no
monte. A glória de Deus não é para consumo
individual, mas para todos.
Então, como Moisés, mantenha-se em diálogo
com Deus. (Este diálogo tem um nome:
oração!)
2. Moisés tinha uma clara percepção de
sua missão.
Desde quando foi encontrado na tranquilidade
do deserto, Moisés foi colocado no lufa-lufa da
obediência.
Uma pessoa de visão vê o que a maioria não
vê.
Uma pessoa de visão sabe para onde está
indo, embora alguns achem que anda em
círculo.
Para realizar uma missão, uma pessoa precisa
da consciência dela.
Não descobrimos uma missão; somos
expostos a ela por Deus, que espera uma
decisão.
Se queremos uma missão, devemos nos
deixar ser encontrados no vazio do deserto.
Nosso alvo deve ser "trabalhar como parceiros
de Deus no esforço de fazer o mundo um lugar
melhor. E quando o fazemos, nossas faces
irradiam a luz divina".
12
Como Moisés, seja parceiro de Deus. É na
parceria que nossas vidas brilham,
transbordando de qualidade.
3. Moisés aprendeu a lidar com a sua
humanidade.
Moisés não tinha a competência necessária
para o desempenho de sua missão. Ele se
deixou capacitar por Deus, tanto no front
interno quanto no externo.
Internamente, teve que lidar com suas
fragilidades.
Teve que lidar com a sua timidez, que lhe
trazia dificuldades de falar.
Teve que lidar com a sua solidão: em Midiã,
ficou longe da família biológica e da família
adotiva no palácio, e no Egito, de novo, ficou
longe da esposa e dos filhos, que
permaneceram em Midiã por muito tempo.
Teve que lidar com seus rancores, experiência
que levou um rabino psicólogo a oferecer a
seguinte sugestão: "Se nosso ódio não é
enfrentado, ele nos destrói.Logo, o melhor que
podemos fazer é nos lembrar de fazer o bem.
Perdoamos os outros não somente pelo bem
deles, mas também para o nosso. Odiar é
autodestrutivo e desperdiça energia. Uma
divorciada me disse: "Eu não odeio meu exmarido. Se eu agisse assim, continuaria
casada com ele". Ela deu adeus não apenas à
casa que compartilhavam, mas também às
fortes emoções que ele despertava nela". 13
11
!
Não temos um texto bíblico específico que nos autorize a fazer tal afirmativa, mas o contexto geral da história
nos indica fortemente esta possibilidade.
12
!
MEIER, Levi, op. cit.
13
!
MEIER, Levi, op. cit.
Teve que lidar com a tentação de ser vítima.
Expulso de casa quando era bebê, não habitou
em tendas mas nos palácios. Habitante dos
desertos, fez deles palcos da glória de Deus.
Atacado, olhava para sua missão, para não se
ver como uma vítima.
Externamente, enfrentou seus desafios.
Aceitou ajuda (um irmão como porta-voz, um
sogro como conselheiro, uma esposa como
profeta) e foi sendo moldado. Ninguém está
plenamente preparado para sua missão, antes
de começar a realizá-la. É no caminho, com
suas demandas, que somos preparados.
Como Moisés, "saiba que você tem a
capacidade de se transformar na imagem de
Deus". 14
4. Moisés era um homem fiel aos seus
compromissos.
Moisés, porém, não teve dificuldades para
atender o último desejo de José (Gênesis
50.25), que era levar seus ossos para Canaã e
os enterrar em Siquém (Josué 24.32). Ao
levar os ossos na longa peregrinação, Moisés
reconhecia que
tinha agora mais do que
apenas uma equipe a contar para conduzir o
povo. De certo modo, a vara simbolizava o
poder, enquanto os ossos de José, que eram
transportados na arca, era a fonte de sua
força espiritual.
Aqueles ossos eram a lição de vida, porque
eram os ossos de um homem que aprendeu a
perdoar. "Os ossos de José recordavam aos
israelitas sobre a longa jornada adiante, em
que todas as questões de família e todos os
conflitos espoucariam. Tudo deveria ser
resolvido pacificamente pela adoção das
atitudes e da fé demonstradas por José. O
perdão é o único caminho para a terra
prometida. Ingerir a toxidade psíquica dos
outros impede que uma pessoa de lidar com
sua vida". 15
Aqueles ossos eram um elo com o passado,
demonstrando que Deus cumpre as suas
promessas, mesmo que aparentemente tão
tardiamente. Carregar os ossos era agradecer
a Deus. A volta à terra prometida se tornou
possível por causa daquele homem cujos
ossos seguiam com o povo.
Seja fiel aos seus compromissos. Rompa só
aqueles que Deus mesmo desfizer.
14
!
MEIER, Levi, op. cit.
15
!
MEIER, Levi, op. cit.
16
!
MEYER, F.B., op. cit., p. 100.
5. Moisés queria chegar a Canaã.
Moisés agiu para entrar em Canaã. Moisés
orou para entrar em Canaã (Deutornômio
3.23-29). Deus lhe permitiu ver a terra, mas
não entrar nela.
Devemos nos mover pelo mesmo desejo, com
a diferença da certeza que entraremos.
Para todos nós, "Canaã não representa apenas
o descanso que nos espera do outro lado da
morte, onde o desgaste e a irritação da vida
terão desaparecido, mas o descanso que pode
ser experimentado aqui e agora, em que a
alma é libertada da tirania do eu e da
corrupção e frui a paz de Deus que ultrapassa
toda a compreensão. A vida se torna uma
abençoada sucessão de obediência confiante à
vontade de Deus. Somos, então, satisfeitos
com a abundante riqueza guardada para nós
em Deus, que nos faz beber do rio de seu
prazer. Esta é a santa terra da promessa, (...)
que experimentamos quando seguimos a Arca
através do rio da morte à vida centrada e
seguida no solo da ressurreição". 16
Como Moisés, não se contente com a vida que
você leva. Canaã espera por você. Deseje
chegar a Canaã
***
ACORDE
. Autocompreenda-se. Responda a seguinte
pergunta: "Qual é o meu chamado?" Elabore
uma resposta. Tenha-a diante de você, como
se fosse um ímã de geladeira. Não importa
se será compreendido pelos homens, desde
que o seja por quem o chamou.
. Confesse que os seus temperamentos o
controlam. Confesse que, por vezes, você
tem vontade de desistir de lutar contra eles,
como se tivesse perdido.
.
Ore, pedindo capacitação para vencer os
inimigos internos e externos da sua vida. Ore
com fé, que "só é possivel quando estamos
sob o plano de Deus e permanecemos sob as
promessas de Deus. É inútil orar para que a
fé seja aumentada, se não cumprimos as
condições da fé. É igualmente inútil gastar
tempo em lamentos e lágrimas diante dos
fracassos que são devidos à nossa
incredulidade". 17
. Reflita sobre as influências sobre a sua vida.
As luzes do palácio do Faraó não seduziram
Moisés. As estrelas do céu no deserto de
Midiã não encantaram Moisés. E com você?
Quem o influencia? Lembre-se que as vozes
e as influências concorrentes se tornam
menos sedutoras, se nos permitimos ser
completamente receptivos à interação com
Deus. Neste sentido, podemos nos ver a nós
mesmos no Sinai. 18
. Decida recusar o palácio, se morar nele é
estar fora do projeto de Deus para a sua
vida. Decida rejeitar o deserto, senão como
casa provisória, onde é preparado para voltar
ao cenário da vontade de Deus em ação.
. Esforce-se para olhar para sua vida como
Deus a olha, em que cada período é
o
ventre do próximo. É nisto que repousa a sua
fidelidade a ele, como o percebeu o autor aos
Hebreus (Hebreus 3.5-6).
ISRAEL BELO DE AZEVEDO
17
!
MEYER, F.B., op. cit..
18
!
MEIER, Levi, op. cit.
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AA7 3 Moisés