ENCONTRO 3 MOISÉS, UM HOMEM MOLDADO POR DEUS PARA MEMORIZAR "Moisés foi fiel como servo em toda a casa de Deus, dando testemunho do que haveria de ser dito no futuro, mas Cristo é fiel como Filho sobre a casa de Deus; e esta casa somos nós, se é que nos apegamos firmemente à confiança e à esperança da qual nos gloriamos" (Hebreus 3.5-6) PARA PENSAR A partir do episódio em Mara, saiba que "a parte mais significativa de qualquer jornada não é o objetivo -- o fim -- mas, antes, o processo de chegar lá". 1 PARA VIGIAR NÃO permitirei que o fracasso de agora ou o sucesso do momento me deixe exatamente onde estou. PARA ALCANÇAR Já que "todos somos vasos de barro e todos estamos sendo moldados. E alguns são mais moldáveis que os outros", 2 eu estarei no grupo dos que se deixam moldar por Deus. ____________ A longa vida de Moisés (120 anos)3 teve três períodos distintos, cada um com a mesma duração de 40 anos. Por isto, podemos concluir que ele "gastou seus primeiros 40 anos pensando que era alguém. Gastou seus segundos 40 anos apreendendo que não era ninguém. Gastou seus terceiros 40 anos descobrindo o que Deus faz com um ninguém". (D.L. MOODY) 4 1 ! UMA BOA HISTÓRIA COMEÇA CEDO Moisés nasceu num contexto adverso. Ele era egípcio, mas suas origens eram hebreias. Como egípcio, seu povo era milenar, com uma história de seis milênios e compunha a mais adiantada civilização da época, com realizações que os séculos seguintes não superariam, como a construção de pirâmides, a arquitetura de estátuas e a mumificação de corpos. Sua arte era riquíssima. C o m o h e b r e u , s e u p o v o e ra r e c e n t e , chamando suas raízes a meio milênio, a partir do patriarca Abraão. Os netos e bisnetos do patriarca acabaram migrando para o Egito, vindos de Canaã, ao norte. Foram, num primeiro momento, favorecidos pelo bisneto José que obteve permissão para trazer a família do seu pai (cerca de 70 pessoas -conforme Êxodo 1.5). Quando Moisés nasceu, a situação política mudara e seus ancestrais deixaram de ser queridos. A situação demográfica também mudara, com os 70 se multiplicando para chegar a milhões. Foi precisamente esta explosão populacional que trouxe uma tensão tal que nascer se tornou um crime. Esse era o método faraônico para reduzir a taxa de crescimento da população dos hebreus. O infanticídio era uma prática comum no mundo antigo. E Moisés nasceu. O Estado não honrou seus compromissos, mudando sua política ao sabor dos interesses e demonstrando que o futuro nunca está garantido. Por três meses, e provavelmente já circuncidado, foi escondido pelos pais Anrão e Joquebede, do clã (tribo) de Levi, com a ajuda dos irmãos mais velhos, Miriã e Arão, que tinha três anos a mais que ele5. Colocado num barquinho preto, em forma de cesto, boiou pelo rio Nilo (ou talvez por um braço dele) até ser encontrado numa praia de águas escuras pelas empregadas da família real. "Este é o ponto preciso que a Bíblia tenta nos ensinar. Mesmo em meio à dificuldade, ao desespero e ao perigo", os pais de Moisés escolhem afirmar a vida. E o maior ato de afirmação da vida é levar mais vida a este mundo, porque se paramos de pensar sobre isto, em lugar de MEIER, Levi. Moses: the prince, the prophet. Woodstock: Jewish Lights, 1998. 2 ! STEDMAN, Ray. Citado ad tempora por SWINDOLL, Charles. Moses: a man of selfless dedication. Nashville: Thomas Nelson, 1998. 3 ! Não há um consenso sobre as datas de Moisés. A mais tradicional para o seu nascimento é 1525 A.C., com a morte ocorrendo em 1405 A.C.. 4 ! MOODY, D.L. Citado por SWINDOLL, Charles, op. cit. 5 ! Cf. Êxodo 7.7. levar vida nova a este mundo, inevitavelmente acabaremos (...) levando morte ao mundo". 6 A princesa se apegou ao bebezinho e decidiu adotá-lo. Esta princesa, que a tradição rabínica hebraica identifica com Bítia ou Bitia)7 , contratou, por sugestão de Miriã, a própria mãe biológica de Moisés (Joquebede), para ser sua ama-de-leite. Depois que ficou grande, a princesa mandou buscá-lo e lhe deu o nome, Moisés, comum entre os egípcios. Vivendo como membro (adotado) da família real, foi educado como um egípcio na capital (Avaris?). A literatura judaica informa que ele estava sendo preparado para ser o herdeiro do trono, servindo como um Faraó. De qualquer modo, estamos diante de uma cena triste: "Moisés se tornou o filho de outra mulher com um conjunto de valores completamente diferentes. Um estranho. Um idólatra. Um estrangeiro". Suas duas mães representavam dois mundos: Joquebede (este era o seu nome) era monoteísta; Bitia (se este era o seu nome) era politeísta. Nada mais sabemos de sua vida palaciana, exceto que foi brilhante nos seus estudos (Atos 7.22). ESTRANGEIRO EM SUA TERRA, ESTRANGEIRO NA TERRA ESTRANHA Quando ele completou 40 anos, decidiu voltar a Gósen, onde nascera e viviam seus familiares. Neste retorno, não há referência a seus familiares diretos, apenas aos hebreus em geral, milhões por esta época. Podemos, no entanto, supor que o filho adotado da princesa queria se reencontrar com sua mãe biológica. Adotado, deve ter se sentido derrotado até compreender que sua dação foi um ato de amor e sua adoção também. Só sua mãe poderia revelar este segredo. Encontroua? Estaria ela viva, com seus possíveis mais de 70 anos de idade? É possivel que a volta às origens fosse algo latente no coração de Moisés. É possível que desejasse se reencontrar com o seu passado? Não somos informados do que se passava em seu coração, mas podemos supor que não se sentia completamente egípcio, como o prova o partido que tomou na chegada ao território dos hebreus, para o que se pretendia ser apenas uma visita. Ele viu um egípcio espancando um hebreu. Forte (talvez treinado nas artes da guerra no palácio), defendeu o mais fraco com tanto vigor que matou o agressor. Diante do fato não previsto, enterrou o cadáver do egípcio. Talvez o episódio tenha 6 ! MEIER, Levi, op. cit. 7 ! Cf. 1Crônicas 4.17. facilitado sua decisão de renunciar à cidadania egípcia para ser hebreu. (Como lemos, "pela fé Moisés, já adulto, recusou ser chamado filho da filha do faraó, preferindo ser maltratado com o povo de Deus a desfrutar os prazeres do pecado durante algum tempo" Hebreus 11.24-25). Ele fizera uma escolha e iria pagar por ela. Querido no Egito, desconhecido em Gósen, seu crime foi denunciado. Se voltasse para casa, seria julgado, seja pela deserção, seja pelo homicídio. Restou-lhe o autoexílio. Para onde iria, se o Faraó, rejeitado por ele, era superpoderoso e sua nação a maior potência mundial? Só o deserto lhe oferecia segurança e para lá Moisés rumou. O deserto ficava na região de Midiã (no hoje sul da Jordânia e noroeste da Arábia Saudita). O menino nascido sob tensão e medo, o garoto afastado do convívio de sua família, o adolescente vivendo longe de casa, o jovem educado para ser o que não queria, agora era um estrangeiro no deserto, onde não conhecia ninguém. Estrangeiro e desconhecido, mas não sozinho. Deus estava com ele, embora não o sentisse. Termina aí seu primeiro período de 40 anos, um período de muitas mudanças, já que a mudança faz parte da natureza da vida, queiramos ou não. Ele mudou de mãe, de família e de casa aos três meses de idade. Mudou para viver. Ele mudou, aos 40 anos, do palácio da riqueza para a pobreza, de uma terra de pessoas livres para um imenso campo de refugiados escravos, embora devesse ser por um tempo. Mudou para se reconciliar com o seu passado e ficar firme com os seus valores. (Sim, o luxo carrega junto outros valores. Tê-lo implica em vender a alma aos seus valores.) Ele mudou, ainda aos 40, da terra dos seus ancestrais e familiares para o deserto, no qual não tinha qualquer laço de parentesco. Mudou para sobreviver. Em Midiã, foi acolhido como um pastor de animais, profissão que nunca exercera, que seus pais biológicos não conheciam, que seus urbanos pais adotivos nunca vivenciaram, que seus ancestrais praticavam séculos antes. Ser pastor de ovelhas, cabras e carneiros era o que tinha para fazer. Aceitou o emprego. Assim, antes de ser chamado por Deus para tirar o povo do Egito, Moisés trabalhou 40 anos (ou 14.600 dias) para o estrangeiro Jetro, um Melquisedeque redivivo que mostra o universalismo da revelação e da graça, assim como ele repetia seu pai Jacó ao trabalhar para o sogro. Nesses 40 anos, teve tempo para refletir sobre a sua vida. Deus busca os que refletem, os que fazem perguntas, os que querem mais. Nesses 40 anos, deve ter pensado sobre a sua escolha: a de renunciar ao conforto do palácio e ao futuro certo. Nesses 40 anos, deve ter refletido sobre a sua capacidade de reagir com violência às situações que o desagradam. Nesses 40 anos, deve ter tirado a lição do homicídio: um pecado omitido continua sendo pecado; ah, se ele soubesse antes que a justiça não deve ser feita com as próprias mãos. Nesses 40 anos, deve ter sentido saudade de sua terra (tanto a palaciana quanto a de seus pais) e mesmo sofrimento diante do sofrimento dos seus. Nesses 40 anos, casou-se e teve dois filhos. Nesses 40 anos, venceu como pastor de animais. Nesses 40 anos, deve ter orado ao Deus de Abraão, Isaque, Jacó, José e Anrão. Nesses 40 anos, deve ter-se perguntado se a sua vida terminava ali. TIRADO DAS ÁGUAS ONTEM, TIRADO DE DESERTO HOJE, PARA UMA MISSÃO Foi no mundo do trabalho que Deus o encontrou, 40 anos depois. (Não é no mundo do trabalho que Deus nos encontra?) Quando Deus o encontrou, Moisés tinha perdido o senso de missão. Seu trabalho não só era um deserto como era feito no deserto. Ele não se encontrou no deserto, mas foi encontrado nele, não numa tempestade, como no caso de Jó (Jó 38.1), mas no meio de uma acácia, árvore até hoje comum na região e que nasce nos lugares mais desérticos. O deserto preparou Moisés para ser encontrado. É que "no majestoso cenário do deserto, nossas mentes (...) são levadas para mais alto e aprendem a perceber a pequenez das vaidades que a tantos encantam. Ali aprendemos a nos relacionar com Deus não em segunda mão, como é comum na civilização humana, mas diretamente, enquanto ele nos dispensa o maná com sua própria mão e faz jorrar da rocha dura as correntes que satisfazem nossa sede. Perdemos o luxo que minava e consumia nossa natureza moral, para nos encontrarmos abraçados e fortalecidos em cada músculo pela privação e pela dificuldade. A paciência, a liberdade, a fé e o espírito peregrino, todas estas coisas são filhas da peregrinação no deserto". 8 E Moisés foi encontrado. Ele "saiu da mente das pessoas por 40 anos e elas não sabiam o que tinha sido feito dele, mas Deus estava de olho nele. Ele era o melhor dos homens que Deus queria". Deus precisava dele. Deus poderia ter falado ao Faraó sem Moisés. Ele poderia ter falado numa voz de trovão e quebrantado o coração do Faraó com uma fala, se quisesse, mas preferiu tomar um agente humano. Ele poderia mandar Gabriel descer, mas sabia que Moisés era o homem acima de todos os outros, pelo que o chamou". 9 Moisés não sabia quem era, mas o que importa é quem Deus é. "Quando os homens aprendem a lição que nada são e Deus é tudo, então não existe um lugar em que Deus não os possa usar', nem mesmo no deserto de uma vida sem sentido ou no turbilhão de uma vida marcada por descontroles. Deus usa homens para falar aos homens; ele trabalha através de mediadores. Ele poderia ter realizado o êxodo num relâmpago, mas, em lugar disto, escolheu enviar um pastor solitário e desprezado para levar a cabo seu propósito através da dor e da decepção. Este foi o caminho de Deus no Antigo Testamento e também no Novo. Ele enviou seu Filho na forma de carne pecaminosa para ser o mediador entre Deus e o homem". 10 Deus sempre nos encontra, se permitirmos. O encontro de Deus e Moisés não foi um monólogo, mas um diálogo. Moisés não conhecia Deus o suficiente. Por isto, perguntou-lhe o nome. Moisés tinha uma carreira certa, medíocre, diante do que poderia fazer, mas certa. Diante do tamanho da missão que Deus lhe tinha, era muito melhor ser empregado do sogro. No entanto, sua resistência não durou muito. A missão lhe ardeu, como ardia a acácia. Moisés era tímido, ao ponto de gaguejar nas horas mais tensas. Na verdade, ele se achava inferior. Suas palavras são bem reveladores: "Por favor, Senhor! Eu não sei falar bem. Nunca tive jeito com as palavras, nem antes nem depois de teres falado comigo. Eu gaguejo e sou inseguro para falar” (Êxodo 4.10). Quando lemos os discursos longos de 8 ! MEYER, F.B. The call of Moses. [S.l.:] Light by Design, [s.d.]. Edição eletrônica. 9 ! MOODY, D.L., op. cit. 10 ! MOODY, D.L., op. cit. Deuteronômio, notamos como Moisés venceu sua gagueira. Parece que ficou curado logo após as missões diante do Faraó, porque depois disto não usou mais Arão como portavoz. Moisés, preparado no palácio, tinha agora o palácio como um dos seus locais de trabalho. Ele conhecia as regras do cerimoniais. Ele conhecia os atalhos. As coisas não deviam ter mudado, porque naquele tempo as coisas mudavam devagar. M o i s é s n ã o e s t a va p r e p a ra d o a p e n a s intelectualmente. O encontro com Deus o preparou espiritualmente e disto a vara na mão era o símbolo. A vara de Moisés é também o símbolo que já temos nas mãos os recursos de que precisamos para realizar a nossa chamada. E Moisés vai. Moisés é um homem chamado (como todos nós) e com a consciência de que é chamado (como poucos de nós). E Moisés vai. Protótipo de vidas que mudam, ele muda de novo, aos 80 anos. Agora, no caminho inverso, ele marcha do campo para a cidade. Aos 80 anos, ele se torna um peregrino. O peregrino enfrenta o Faraó, mas não o vence. Quem vence é Deus. O peregrino tem apenas uma vara. Sem a vara, é incompetente. Com a vara na mão, é um guerreiro invencível, embora não branda a vara. É Deus que convence e vence. Quando não convence, vence, porque faz o mar se abrir ao meio. O Faraó deixa o povo ir. Deus não lhe deixa escolha. O Faraó não obedece; como muitas pessoas, cede. O povo segue em direção à terra prometida, a mesma prometida e pisada por Abraão, mas abandonada, por causa da fome, pelos seus descendentes. O HOMEM IMPERFEITO Moisés não era perfeito. A biografia que a Bíblia lhe traça contém seus fracassos. Por isto, é chamado de homem, "o homem Moisés" (Êxodo 11.3). Ve j a m o s n u m m o s a i c o , a l g u m a s d a s imperfeições mosaicas: 1. Moisés tinha um complexo de inferioridade. Ele não tinha nenhuma razão para isso. Salvo da fúria insana do Faraó, tornou-se seu neto. No palácio, era bajulado, como são os ricos e os príncipes. Assim mesmo, ele se depreciava. Ele se deixou moldar. Deus fez do tímido um líder, um líder corajoso. 2. Moisés tinha uma tendência a resolver seus problemas pela força. Ele fez isto quando matou um inimigo. Ele fez isto também quando bateu na Rocha, embora instruído para lhe falar. Ele se deixou moldar. Esta foi talvez a maior transformação ocorrida no seu caráter. Talvez pelo poder que gozara no palácio real, qual menino mimado, não podia ser contrariado. No entanto, a Bíblia o apresenta como o homem mais manso (ou humilde e paciente -- Números 12.3) da terra. 3. Moisés precisou aprender a colocar o trabalho no seu devido lugar. Quando se tornou pai, priorizou a missão e se esqueceu de circuncidar um de seus filhos. Deus, no entanto, põe a família (e não ele mesmo) em primeiro lugar. Ele se deixou moldar. Demorou a perceber. Deus teve que ameaçá-lo (com a perda da vida) para ele aprender (Êxodo 4.24-26). A doença o salvou. Neste mesmo contexto de priorização do trabalho, ele se achava insubstituível e cuidava de tudo em Israel, até que Deus usasse seu sogro para o instruir a delegar (Êxodo 18). 4. Moisés teve que aprender a lidar com a crítica e a rebeldia. Como líder, Moisés era um realizador. Talvez, no início, fosse um "trator", de olho mais nos resultados do que nas pessoas. Obviamente, enfrentou resistências e críticas, inclusive vindas de seus irmãos, que foram contra o seu (segundo) casamento com uma mulher de fora do povo (Números 12.1). Às vezes, respondeu com indignação e rispidez (Êxodo 16.20). O temperamento de Moisés foi sendo controlado por Deus, porque naturalmente era explosivo. Deus o vinha ensinando. Quando o povo se levantou cheio de medo de morrer no deserto, Deus lhe orientou a que ignorasse (o medo faz parte da natureza humana) e mandasse o povo marchar (Êxodo 14.15). Quando seus irmãos se rebelaram contra ele, Moisés nada fez. Deixou o assunto por conta de Deus. Quando Miriã ficou doente por causa de sua rebeldia, Moisés orou por ela (Números 12.13). Moisés amava as pessoas. Ele gostava de pessoas e contava com elas. Quando, por exemplo, algumas pessoas começaram a se destacar, ele estimulou a que continuassem, em lugar de as deter (Número 11.29). Moisés aprendeu a amar as pessoas. Enfim, Moisés não era perfeito, mas procurava viver de modo santo. O que ele pedia ao povo para fazer ele mesmo o fazia. Ele se considerava parte de um povo santo (Êxodo 33.16). Humano, feriu a rocha quando devia apenas falar (Números 20.11). O temperamento falou mais alto. Ele pediu perdão por seu pecado. 11 Mesmo magoado, aprendeu também a não retaliar. Ele dizia ao povo a como proceder; o povo fazia o que bem entendia. Assim mesmo Moisés intercedia pelo povo (Números 21.7). COMPROMISSOS QUE MOISÉS NOS INSPIRA Nem todos temos trabalhos de Moisés a realizar, mas podemos observar o seu itinerário. Na vida somos sempre líderes, nem que seja apenas de nós mesmos. Moisés foi líder de si mesmo, para ser líder de um imenso povo. 1. Moisés era um homem de oração. Afora os inúmeros diálogos diretos que Moisés travou com Deus, o Pentateuco reproduz integralmente nove orações que o líder do êxodo fez (Êxodo 15.6-17, Números 10.35-36 e Deuteronômio 3.24-25, 9.26-29, 21.8, 26.5-10, 26.13-15, 33.7 e 33.8-11). Seu poder vinha da oração, nunca burocráticas, algumas sendo autênticos tourde-force com Deus, como Jacó diante do Jaboque. Numa delas, diz que Deus lhe pode tirar a vida, se não pode fazer bem o seu trabalho de líder (Números 11.11-15). Quando ele levantava suas mãos (num gesto que demonstra ao mesmo tempo exaltação a Deus e dependência dele), as coisas corriam bem para o povo. Interceder era com Moisés (Êxodo 17.11; Números 21.7). Em outra pede a presença de Deus com ele, como condição para continuar seu ministério (Êxodo 33.15). Pela oração, chegou ao topo. Estando no topo, não se recusou a descer para servir, antecipando a orientação que Jesus daria aos seus discipulos depois da Transfiguração no monte. A glória de Deus não é para consumo individual, mas para todos. Então, como Moisés, mantenha-se em diálogo com Deus. (Este diálogo tem um nome: oração!) 2. Moisés tinha uma clara percepção de sua missão. Desde quando foi encontrado na tranquilidade do deserto, Moisés foi colocado no lufa-lufa da obediência. Uma pessoa de visão vê o que a maioria não vê. Uma pessoa de visão sabe para onde está indo, embora alguns achem que anda em círculo. Para realizar uma missão, uma pessoa precisa da consciência dela. Não descobrimos uma missão; somos expostos a ela por Deus, que espera uma decisão. Se queremos uma missão, devemos nos deixar ser encontrados no vazio do deserto. Nosso alvo deve ser "trabalhar como parceiros de Deus no esforço de fazer o mundo um lugar melhor. E quando o fazemos, nossas faces irradiam a luz divina". 12 Como Moisés, seja parceiro de Deus. É na parceria que nossas vidas brilham, transbordando de qualidade. 3. Moisés aprendeu a lidar com a sua humanidade. Moisés não tinha a competência necessária para o desempenho de sua missão. Ele se deixou capacitar por Deus, tanto no front interno quanto no externo. Internamente, teve que lidar com suas fragilidades. Teve que lidar com a sua timidez, que lhe trazia dificuldades de falar. Teve que lidar com a sua solidão: em Midiã, ficou longe da família biológica e da família adotiva no palácio, e no Egito, de novo, ficou longe da esposa e dos filhos, que permaneceram em Midiã por muito tempo. Teve que lidar com seus rancores, experiência que levou um rabino psicólogo a oferecer a seguinte sugestão: "Se nosso ódio não é enfrentado, ele nos destrói.Logo, o melhor que podemos fazer é nos lembrar de fazer o bem. Perdoamos os outros não somente pelo bem deles, mas também para o nosso. Odiar é autodestrutivo e desperdiça energia. Uma divorciada me disse: "Eu não odeio meu exmarido. Se eu agisse assim, continuaria casada com ele". Ela deu adeus não apenas à casa que compartilhavam, mas também às fortes emoções que ele despertava nela". 13 11 ! Não temos um texto bíblico específico que nos autorize a fazer tal afirmativa, mas o contexto geral da história nos indica fortemente esta possibilidade. 12 ! MEIER, Levi, op. cit. 13 ! MEIER, Levi, op. cit. Teve que lidar com a tentação de ser vítima. Expulso de casa quando era bebê, não habitou em tendas mas nos palácios. Habitante dos desertos, fez deles palcos da glória de Deus. Atacado, olhava para sua missão, para não se ver como uma vítima. Externamente, enfrentou seus desafios. Aceitou ajuda (um irmão como porta-voz, um sogro como conselheiro, uma esposa como profeta) e foi sendo moldado. Ninguém está plenamente preparado para sua missão, antes de começar a realizá-la. É no caminho, com suas demandas, que somos preparados. Como Moisés, "saiba que você tem a capacidade de se transformar na imagem de Deus". 14 4. Moisés era um homem fiel aos seus compromissos. Moisés, porém, não teve dificuldades para atender o último desejo de José (Gênesis 50.25), que era levar seus ossos para Canaã e os enterrar em Siquém (Josué 24.32). Ao levar os ossos na longa peregrinação, Moisés reconhecia que tinha agora mais do que apenas uma equipe a contar para conduzir o povo. De certo modo, a vara simbolizava o poder, enquanto os ossos de José, que eram transportados na arca, era a fonte de sua força espiritual. Aqueles ossos eram a lição de vida, porque eram os ossos de um homem que aprendeu a perdoar. "Os ossos de José recordavam aos israelitas sobre a longa jornada adiante, em que todas as questões de família e todos os conflitos espoucariam. Tudo deveria ser resolvido pacificamente pela adoção das atitudes e da fé demonstradas por José. O perdão é o único caminho para a terra prometida. Ingerir a toxidade psíquica dos outros impede que uma pessoa de lidar com sua vida". 15 Aqueles ossos eram um elo com o passado, demonstrando que Deus cumpre as suas promessas, mesmo que aparentemente tão tardiamente. Carregar os ossos era agradecer a Deus. A volta à terra prometida se tornou possível por causa daquele homem cujos ossos seguiam com o povo. Seja fiel aos seus compromissos. Rompa só aqueles que Deus mesmo desfizer. 14 ! MEIER, Levi, op. cit. 15 ! MEIER, Levi, op. cit. 16 ! MEYER, F.B., op. cit., p. 100. 5. Moisés queria chegar a Canaã. Moisés agiu para entrar em Canaã. Moisés orou para entrar em Canaã (Deutornômio 3.23-29). Deus lhe permitiu ver a terra, mas não entrar nela. Devemos nos mover pelo mesmo desejo, com a diferença da certeza que entraremos. Para todos nós, "Canaã não representa apenas o descanso que nos espera do outro lado da morte, onde o desgaste e a irritação da vida terão desaparecido, mas o descanso que pode ser experimentado aqui e agora, em que a alma é libertada da tirania do eu e da corrupção e frui a paz de Deus que ultrapassa toda a compreensão. A vida se torna uma abençoada sucessão de obediência confiante à vontade de Deus. Somos, então, satisfeitos com a abundante riqueza guardada para nós em Deus, que nos faz beber do rio de seu prazer. Esta é a santa terra da promessa, (...) que experimentamos quando seguimos a Arca através do rio da morte à vida centrada e seguida no solo da ressurreição". 16 Como Moisés, não se contente com a vida que você leva. Canaã espera por você. Deseje chegar a Canaã *** ACORDE . Autocompreenda-se. Responda a seguinte pergunta: "Qual é o meu chamado?" Elabore uma resposta. Tenha-a diante de você, como se fosse um ímã de geladeira. Não importa se será compreendido pelos homens, desde que o seja por quem o chamou. . Confesse que os seus temperamentos o controlam. Confesse que, por vezes, você tem vontade de desistir de lutar contra eles, como se tivesse perdido. . Ore, pedindo capacitação para vencer os inimigos internos e externos da sua vida. Ore com fé, que "só é possivel quando estamos sob o plano de Deus e permanecemos sob as promessas de Deus. É inútil orar para que a fé seja aumentada, se não cumprimos as condições da fé. É igualmente inútil gastar tempo em lamentos e lágrimas diante dos fracassos que são devidos à nossa incredulidade". 17 . Reflita sobre as influências sobre a sua vida. As luzes do palácio do Faraó não seduziram Moisés. As estrelas do céu no deserto de Midiã não encantaram Moisés. E com você? Quem o influencia? Lembre-se que as vozes e as influências concorrentes se tornam menos sedutoras, se nos permitimos ser completamente receptivos à interação com Deus. Neste sentido, podemos nos ver a nós mesmos no Sinai. 18 . Decida recusar o palácio, se morar nele é estar fora do projeto de Deus para a sua vida. Decida rejeitar o deserto, senão como casa provisória, onde é preparado para voltar ao cenário da vontade de Deus em ação. . Esforce-se para olhar para sua vida como Deus a olha, em que cada período é o ventre do próximo. É nisto que repousa a sua fidelidade a ele, como o percebeu o autor aos Hebreus (Hebreus 3.5-6). ISRAEL BELO DE AZEVEDO 17 ! MEYER, F.B., op. cit.. 18 ! MEIER, Levi, op. cit.