MUSEU PEDAGÓGICO DE HISTÓRIA E ENSINO DE HISTÓRIA:
A CONSTRUÇÃO DE UM MUSEU EM SALA DE AULA1
Tatiana Polliana Pinto de Lima2
Resumo: Este artigo pretende relatar e refletir nas páginas a seguir sobre uma
experiência desenvolvida com alunos do curso de Pedagogia que cursaram o
componente Ensino e Aprendizagem em História, ofertado no 6º. Semestre, no
Centro de Formação de Professores da Universidade Federal do Recôncavo da
Bahia: a construção do museu pedagógico de história, as transformações e
permanências na cidade de Amargosa na Bahia ao longo do século XX e início do
século XXI. A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas semi-estruturadas
com familiares de diversas faixas etárias dos discentes e o museu foi composto por
objetos pertencentes aos entrevistados, bem como aos próprios discentes. Esta
experiência não nos fez apreender toda a História, visto que ela chega até nós por
meio de evidências incompletas, parciais: registros documentais, manifestações
religiosas, objetos de arte, vestígios materiais, registros orais, etc... Não podemos
então afirmar que toda a História de Amargosa, ao longo do século XX e início do
século XXI, foi apreendida e trabalhada. Mas, que uma pequena lacuna dela foi
percebida, problematizada, ressignificada.
Palavras-chave: Museu. Formação de Professores. História Local. Memória.
Abstract: This article intends to report and reflect on the following pages about an
experiment conducted with students of the Faculty of Education who attended the
component Teaching and Learning in History offered in the 6th. Semester, the
Center for Teacher Education, Federal University of Bahia Reconcavo: the
construction of the museum of history teaching, the changes and continuities in the
town of Amargosa Bahia along the twentieth and early twenty-first century. The
data were collected through semi-structured interviews with family members of
different age groups of students and the museum was composed of objects
belonging to the respondents as well as the pupils themselves. This experience has
not made us learn all history, because it comes to us by way of incomplete
evidence, partial: documentary records, religious events, art objects, trace
materials, oral records, etc ... We can then say that the whole history of Amargosa
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Recebido em 10/10/2013. Aprovado em 16/11/2013.
Doutoranda em Educação pela UFBA. Mestre em Educação pela UNICAMP. Graduada em História
pela UFRN. Licencianda em Pedagogia pela UNIFACS. Professora Assistente no Centro de Formação
de Professores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. E-mail: [email protected].
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over the twentieth and early twenty-first century was seized and crafted. But a
small gap it was perceived, discussed, re-signified.
Keywords: Museum. Teacher Training. Local History. Memory.
Se encarado como templo, o museu perde a aura de
monumento e o objetivo de tornar-se documento, ou
seja, além de perder o sentido de sinal do passado, deixa
de ser objeto de análise de um conjunto de concepções e
contextos sociais, políticos, técnicos e culturais. (Kátia
Abud, André Silva e Ronaldo Alves)
É a reflexão contida nas palavras acima que gostaríamos de nortear a
leitura das páginas a seguir, pois foi a partir delas que a experiência de construção
de um museu pedagógico de história foi desenvolvida. Pensar em formar
professores requer ir mais além do que meramente transmitir conteúdos. Requer
pensar a sua prática considerando a inconclusão na formação, da qual nos falava
Paulo Freire. Nesta perspectiva iremos relatar e refletir, nas páginas a seguir, sobre
uma experiência desenvolvida com alunos do curso de Pedagogia que cursaram o
componente Ensino e Aprendizagem em História, ofertado no 6º. Semestre, no
Centro de Formação de Professores da Universidade Federal do Recôncavo da
Bahia: a construção do museu pedagógico de história, as transformações e
permanências na cidade de Amargosa na Bahia ao longo do século XX e início do
século XXI.
Claro é que
La historia intenta compreender y explicar cómo y por qué se han
producido los cambios y qué papel han jugado en ellos sus
protagonistas y por qué. Busca los antecedentes de los cambios,
las inter-relaciones entre los fenómenos afectados por los mismos,
y estabelece sus ritmos y sus duraciones. (PAGÉS, 2004, p. 202)
Foi com esta provocação em sala de aula que tudo começou. Mas, antes de
adentrarmos as considerações sobre o tema em si, faremos algumas explanações
sobre o local de onde estamos nos reportando. O curso do qual estamos falando
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Museu pedagógico de história e ensino de história
encontra-se lotado na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Esta
apresenta estrutura multicampi, conferindo ao Centro de Formação de
Professores (CFP), localizado na cidade de Amargosa, Vale do Jiquiriçá, a
responsabilidade pela formação dos profissionais especializados nos processos de
pesquisa, planejamento e gestão da educação para atender demandas regionais e
estaduais, visando o estabelecimento de uma educação de qualidade para todos.
Nesse campus tem-se oito cursos de Licenciatura: filosofia, pedagogia, letras,
educação física, educação do campo, química, física, matemática.
Visto isso, foi com os discentes do curso de Pedagogia que o museu
pedagógico de história foi construído. Entretanto, antes de relatarmos e
refletirmos sobre a criação dele, faz-se mister esclarecer acerca da vontade de
desenvolver com graduandos de Pedagogia, uma licenciatura que irá trabalhar com
a educação infantil e com os anos iniciais do ensino fundamental, o desejo de
construir um museu.
Devemos lembrar que trabalhar com ensino de História nos cursos de
Pedagogia não é meramente trabalhar com sujeitos que não serão professores
especificamente de história, mas serão professores também de história. Afinal, eles
são professores multidisciplinares. É perceber que esses professores dos anos
iniciais e da educação infantil precisam ser considerados como sujeitos basilares
na formação das crianças, futuros adolescentes que chegarão aos anos finais do
ensino fundamental e serão ensinados por professores licenciados em História que
comumente costumam falar que as crianças adentram esta fase sem conhecer os
conceitos básicos da História.
Sob essa ótica, desenvolver um trabalho com museu, a partir da
perspectiva de história local, é considerar as mudanças no ensino de História
ocorridas nos últimos anos no Brasil, levando em conta que a História precisa ser
vista enquanto campo de prazer. Segundo Marcos Silva, devemos ampliar esse
prazer que o historiador sente no manuseio das fontes para uma gama maior de
pessoas. Ora,
... se o conhecimento histórico efetivamente seduz e diverte os
pesquisadores da área, se o contato com livros especializados e
diferentes fontes históricas (documentos governamentais, objetos
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do cotidiano, obras de arte, depoimentos escritos ou orais,
fotografias, caricaturas, etc.) é tão bom para os que estudam
história em profundidade por lhes permitir dialogar com
experiências humanas e interpretar seus trajetos, por que não
expandir efetivamente o universo de pessoas que desfrutam
dessas alegrias? (SILVA, 2003, p. 14)
Contudo, o rigor dos conceitos e saberes históricos não deve ser
desprezado nesta busca. Não deve ser excluído neste processo de sedução. Foi
assim, com este intento firmado, que buscamos a construção do museu cujo
objetivo era aprendermos pela pesquisa dos objetos existentes nos arquivos
familiares dos discentes, as transformações e permanências na cidade de
Amargosa, realizando para isso alguns recortes temáticos.
A intenção era aproximar um dos lugares pelos quais a história (a
produção histórica) circula (no caso os museus) da comunidade do Centro de
Formação de Professores e externa à este centro. É refletir sobre o ensino de
história, objetivando a sua prática permeada de ricas experiências para todos,
ultrapassando o isolamento dos saberes constituídos, construindo pontes entre a
historiografia e os espaços onde ela é constantemente produzida, mesmo
inconscientemente, e por onde ela circula. Nesse sentido, a pesquisa e o ensino
devem caminhar de mãos dadas. São faces de uma mesma moeda.
É evidente que defender a identidade entre ensino e pesquisa não
se confunde com usos vulgarizadores desses termos praticados
em algumas escolas [...] e até em centros de pós-graduação.
Identificar pesquisa e ensino significa preservar o rigor da
produção de saber, próprio à primeira, e o compromisso de sua
presença na cena social ampliada e sob controle de seus agentes,
inerente ao segundo, pensando numa síntese desses atributos.
Nesse sentido, há reciprocidade na aliança (ensino e pesquisa se
iluminam, ampliam e superam simultaneamente) e garantia de
que os atos de pesquisa e ensinar continuam a se questionar
permanentemente em busca de novos horizontes na produção de
saberes. (SILVA, 2003, p. 18-19)
Nessa experiência de construção de museu pedagógico de história em
movimento, a pesquisa foi parte integrante de todo o processo. Aquele foi
inteiramente construído pelos discentes, sob minha orientação, a partir de
entrevistas feitas com os moradores da localidade (12 em média em cada semestre
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Museu pedagógico de história e ensino de história
que a experiência se desenrolou) e com a coleta de objetos representativos das
transformações tecnológicas, de mentalidade, de hábitos e de costumes pelos quais
Amargosa havia passado no século XX e no início do século XXI. A partir de então,
os
discentes
começaram
a
pensar
uma
história
educativa,
formativa,
emancipadora, crítica, libertária. Começaram a ver uma história na qual todos
somos sujeitos dela. Se tornaram, então, os “novos” personagens da história, em
detrimento de uma história que enfatizava os líderes, as revoltas, as batalhas, os
governantes, etc... A história do cotidiano, do local, do regional passou a ser
entendida a partir de temas como moradias, sistema monetário, relações de
namoro e casamento, festas, vestuário, meios de transporte e de comunicação,
alimentação.
Outro objetivo nosso ao desenvolver essa experiência foi romper com a
ideia de que o museu é um local onde se depositam objetos velhos. Foi apresentar
aos graduandos em pedagogia as relações existentes entre museu e ensino de
história.
Fazer relações entre museu e educação, especialmente o ensino de
história, implica reconhecer que, na sua própria definição, o
museu sempre teve o caráter pedagógico – intenção, nem sempre
confessa, de defender e transmitir certa articulação de ideias, seja
o nacionalismo, o regionalismo, a classificação geral dos
elementos da natureza, o elogio a determinadas personalidades, o
conhecimento sobre certo período histórico, a chamada
“consciência crítica”... Qualquer museu é o lugar onde se expõem
objetos, e isso compõe processos comunicativos que
necessariamente se constituem na seleção das peças que devem ir
para o acervo e no modo de ordenar as exposições. Tudo isso
sempre se orienta por determinada postura teórica, que pode ir
dos modelos de doutrinação até parâmetros que estimulam o ato
de reflexão. (RAMOS, 2004, p. 14)
Este era um dos nossos intentos: estimular o ato de reflexão por parte dos
discentes, dos entrevistados, dos visitantes. A reflexão sobre a própria história
deles, sobre o sujeito histórico, sobre a história da sociedade na qual cada um de
nós encontra-se inserido. Era perceber que o museu é um espaço importante nos
processos de renovação pedagógica, possibilitando por meio dos objetos
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conhecidos dos discentes o ato de aprender e a percepção de integração com a
história, com o mundo vivido e o desejo de modificá-lo.
No museu pedagógico de história, a percepção do museu templo de
adoração dos objetos perdeu espaço para a construção do museu-fórum, para a
reflexão crítica, para o ato comunicativo com os objetos expostos.
Atualmente, os debates sobre o papel educativo do museu
afirmam que o objetivo não é mais a celebração de personagens
ou a classificação enciclopédica da natureza, e sim a reflexão
crítica. Se antes os museus eram contemplados, ou analisados,
dentro da suposta “neutralidade científica”, agora devem ser
interpretados. Mudam, portanto, os “argumentos museais”...”
(RAMOS, 2004, p. 20)
Entra em voga o caráter educativo do museu, como o lugar onde os
objetos, neste caso os objetos pertencentes às famílias dos discentes, são expostos,
organizados para compor um argumento, uma reflexão, um pensar sobre o
presente vivido, para entendermos e conhecermos o nosso passado. É o estudo da
história pelos objetos. “Assim, qualquer objeto deve ser tratado como fonte de
reflexão, desde o tronco de prender escravos em exposição no Museu do Ceará até
o copo descartável que faz parte do nosso cotidiano.” (RAMOS, 2004, p. 22). No
caso específico da experiência desenvolvida já há três semestres, os objetos
variaram desde instrumentos de trabalho do trabalhador rural, documentos
pessoais, cartas pessoais, moedas, cédulas, brinquedos, utensílios domésticos,
roupas, até escrituras de terras de final do século XIX.
Estas escolhas didáticas e teóricas foram igualmente norteadas pelo
entendimento da importância de se trabalhar com a história local, com as histórias
de vida, com as memórias individuais e coletivas da cidade de Amargosa a partir da
História Oral, considerando que esta:
... é um recurso moderno usado para a elaboração de documentos,
arquivamento e estudos referentes à vida social das pessoas. Ela é
sempre uma história do tempo presente e também conhecida por
história viva. Como história dos contemporâneos, a história oral
tem de responder a um sentido de utilidade prática e imediata.
Isto não quer dizer que ela se esgote no momento da apreensão e
da eventual análise das entrevistas. Mantém um compromisso de
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Museu pedagógico de história e ensino de história
registro permanente que se projeta para o futuro sugerindo que
outros possam vir a usá-la. (MEIHY, 1996, p. 13)
Ao termos como ponto focal as memórias, as narrativas dos sujeitos
entrevistados, concebia-se que
...o trabalho com a memória pode possibilitar que os alunos
relacionem a fisionomia da localidade e da cidade em que vivem,
suas próprias histórias de vida, suas experiências sociais e suas
lutas cotidianas, bem como experiências sociais e cotidianas de
outras épocas. A memória torna-se, assim, elemento essencial na
busca da identidade individual e coletiva. Lembremo-nos de Le
Goff quando diz que “(...) a memória é um elemento essencial do
que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja
busca é um das atividades fundamentais dos indivíduos e das
sociedades de hoje, na febre e na angústia” (Menezes e Silva, 2007,
p. 220)
Foi assim uma experiência que mexeu com as emoções, com as memórias
que eram de todos, mas também com aquelas que eram particulares, com algumas
lembranças que não mais se queria lembrar. Entretanto, foi também um descobrirse através da viagem no tempo e no espaço. O passado dialogando com o presente
e vice-versa, construindo uma grande temporalidade. Foi uma descoberta de si na
história recheada de prazer tanto por parte dos discentes como por parte dos
visitantes do museu. Foram exposições que desnudaram algumas memórias dos
habitantes da localidade.
Segundo Ricardo Oriá
... é a memória dos habitantes que faz com que eles percebam, na
fisionomia da cidade, sua própria história de vida, suas
experiências sociais e lutas cotidianas. A memória é, pois
imprescindível na medida em que esclarece sobre o vínculo entre
a sucessão de gerações e o tempo histórico que as acompanha.
(ORIÁ, 2004, p. 139)
Todos abrimo-nos para além da sala de aula, alfabetizamos os nossos
olhares para além dos muros da universidade, foi um diálogo produtivo entre
teoria e prática, entre pensamento e ação, favorecendo a autonomia do fazer e do
ser sujeito histórico. Segundo Zamboni (1993)
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O objetivo fundamental da História, no ensino de primeiro grau
(ensino fundamental), é situar o aluno no momento histórico em
que vive... O processo de construção da história de vida do aluno,
de suas relações sociais, situado em contextos mais amplos,
contribui para situá-lo historicamente, em sua formação
intelectual e social, a fim de que seu crescimento social e afetivo
desenvolva-lhe o sentido de pertencer. (p. 7)
A História Local como estratégia pedagógica foi outra percepção que
norteou essa experiência. Através do conhecimento da história da localidade,
entendendo-a como parte de uma sociedade mais ampla, construiríamos olhares
múltiplos da História. Era entender as particulares de cada uma das histórias de
vida, das histórias familiares, não para que elas findassem em si mesmas,
explicassem por si sós a história da cidade, as transformações e permanências.
Mas, sim, que esta última fosse entendida em suas relações constitutivas com
outras localidades, com outras temporalidades, em processos históricos mais
amplos. Foi pensando, desse modo, que cada grupo composto por sete alunos, em
média, ficou responsável por dois temas diretamente. Entretanto, todos os grupos
deveriam pesquisar sobre todos os temas e os dados eram socializados em
momentos de orientação coletiva. A divisão se processou da seguinte forma: cada
grupo se responsabilizou pelas entrevistas com sujeitos (parentes dos discentes)
de variadas faixas etárias:
1- 70 e 90 anos
2- 50 e 69 anos
3- 30 e 49 anos
4- 15 e 29 anos
Esses grupos construíam um instrumento de coleta de dados (um roteiro
de entrevista), cujo objetivo era nortear a entrevista, sem, contudo, deixá-la
engessada. A seguir, um dos roteiros construídos pelas alunas Marly Santos e
Valdicélia Ferreira da Silva como exemplo.
ENTREVISTA COM PESSOAS ENTRE 70 E 80 ANOS
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1-Perfil do entrevistado (idade, sexo, local de moradia).
2-Vestuário:
-Como eram as vestes masculinas e femininas da sua época?
-Quais são as principais diferenças das vestes atuais para as vestes da sua época?
3-Alimentação:
-Quais eram os alimentos mais consumidos?
-Como eram conservados os alimentos?
4- Relação namoro/casamento:
-Como se davam as relações de namoro?
-Qual era e como se dava o processo para se chegar ao casamento?
-Quais são as principais diferenças do namoro dessa época para o namoro na
atualidade?
5-Moradias:
-Como eram as estruturas das casas?
-Quais as principais diferenças das moradias dessa época para as moradias atuais?
6-Meios de transporte:
-Como se dava o transporte de pessoas e mercadorias na sua época?
-Quais são as diferenças do transporte dessa época para os transportes atuais?
-Quais os transportes que foram utilizados na sua época e que ainda continuam
sendo utilizados?
7-Meios de produção:
-Quais eram as principais atividades econômicas desenvolvidas?
-Como se dava o processo de produção e venda de mercadorias?
8-Sistema Monetário:
-Qual a moeda utilizada na sua época?
-Existia algum banco na sua cidade?
-Como funcionava esse banco?
9-Música:
-Quais os estilos de músicas mais ouvidos na sua época?
-Quais as principais festas e em que períodos ocorriam?
-Quais as principais diferenças da música e das festas de sua época das atuais?
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Percebamos que em um primeiro momento as perguntas eram muito
diretivas, sem reflexão. Após debates em sala de aula, as perguntas foram
modificadas paulatinamente pelos grupos que passaram a indagar aos
entrevistados os por quês de, as suas percepções sobre o que estava sendo
relatado. Foi com os dados obtidos com as entrevistas e com os objetos coletados
nos arquivos familiares que o museu foi construído.
Subsidiados, então, pela Pedagogia de Projetos, pudemos de fato
acompanhar a interação dos discentes e perceber a atuação destes no desenrolar
da pesquisa. Ora, pudemos perceber a motivação, o envolvimento nas atividades, o
que permitiu que não empregássemos o nosso tempo enquanto docente do
componente curricular Ensino e Aprendizagem em História não para cronometrar
o tempo e o desempenho quantitativo de cada indivíduo envolvido no projeto, mas,
sim, observar o desempenho qualitativo, os dados trazidos, as discussões e debates
realizados. Segundo Selva Guimarães Fonseca:
A realização de um projeto envolve intenso trabalho de reflexão
para a articulação de conteúdos, grupos e atividades. Aqui, o
processo é privilegiado e não o produto final. Logo, professor e
alunos, não estando pressionados pela necessidade de um
produto imediato – pois vivenciam, refletem na e pela ação ‒,
constroem conhecimentos de uma forma diferente, forma esta que
permitirá aos alunos estarem envolvidos com a realização de uma
atividade que tem significado dentro de um contexto mais amplo.
(FONSECA, 1994, p. 104-105)
A percepção dos discentes ao final foi que o conhecimento histórico é algo
em permanente construção, não podendo ser considerado um fato cristalizado,
verdade absoluta imutável. Perceberam que este conhecimento é acumulado,
apropriado, reproduzido e transformado em diferentes níveis e contextos sociais e
re-significado de diversas maneiras. A experiência fez com que os mesmos
construíssem um relacionamento crítico e ativo com o conhecimento existente.
Fonseca (1994) nos traz que “...assumir a proposição investigativa em sala de aula
implica ousar e construir uma atitude reflexiva e questionadora diante do
conhecimento historicamente produzido” (p. 119). Esta, com certeza, foi a maior
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conquista de todos os envolvidos nesse Projeto: a reconciliação entre ação e
conhecimento, entre a história vivenciada pelo historiador e o conhecimento
cientificamente produzido.
A experiência de construção do museu pedagógico de história facilitou
A construção de problematizações, a apreensão de várias histórias
lidas com base em distintos sujeitos da história, bem como de
histórias que foram silenciadas, isto é, que não foram
institucionalizadas sob a forma de conhecimento histórico.
Ademais, [...] pode favorecer a recuperação de experiências
individuais e coletivas do aluno, fazendo-os vê-las como
constitutivas de uma realidade histórica mais ampla e produzindo
um conhecimento que, ao ser analisado e retrabalhado, contribui
para a construção de sua consciência histórica. (SCHMIDT,
CAINELLI, 2004, p. 114)
Nesse sentido, o objetivo proposto quando do início do Projeto foi
alcançado: a partir de algumas fontes, tais como fontes orais, documentais e
resquícios materiais, conhecer um pouco da sociedade na qual vivemos, quais as
transformações e permanências que puderam e podem ser observadas nesta
mesma sociedade em alguns aspectos: no caso específico, a cidade de Amargosa. É
óbvio que não podemos apreender toda a História, nem é nosso objetivo, visto que
ela chega até nós por meio de evidências incompletas, parciais: registros
documentais, manifestações religiosas, objetos de arte, vestígios materiais,
registros orais, etc... Não podemos, então, afirmar que toda a História de Amargosa,
ao longo do século XX e princípios do século XXI, foi apreendida e trabalhada. Mas,
uma pequena lacuna dela foi percebida, problematizada, ressignificada.
Contribuímos para romper com a história construída somente a partir do aspecto
político, todavia a que se desse destaque e importância à diversidade de
pensamentos,
... dos tipos de organização social, dos valores, dos costumes, dos
hábitos, das práticas e dos símbolos que informaram a vida social
das sociedades do passado, notadamente entre as sociedades que
pretensamente viviam em uma pré-história em relação àqueles
que viviam na história, mas também à diversidade constituinte
das sociedades e culturas de nosso presente, de nosso tempo.
(ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2012, p. 32)
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Esse projeto nos ensinou a prestarmos atenção ao outro, às suas vivências
para aceitá-las na sua essência. Nesse sentido, serviu para nos ajudar a formar
subjetividades, cidadãos conscientes da convivência pública, integrantes deste
espaço público, convivendo em uma realidade constituída por opiniões e
interesses muitas vezes divergentes. Foi a valorização da fala do sujeito “comum”,
do que não é o dirigente político, o prefeito, o líder comunitário, mas é o avô, o
mais idoso do bairro, o pai, a mãe. Encerraremos com a citação de Albuquerque
Júnior (2012) ao nos fazer refletir sobre o sentido da história hoje por entender
que as palavras a seguir nortearam a experiência de construção do museu
pedagógico de história no curso de Pedagogia da UFRB.
A história, ao focalizar inúmeras formas de resistência humana a
realizar um sentido para as suas vidas e para a história, ao trazer
para cena diferentes personagens – aqueles que se singularizam,
que se destacaram, que se tornaram conhecidos, que foram
registrados, escritos, nomeados, punidos e castigados porque
tentaram dar sentidos diversos a sua existência e ao mundo, que
se rebelaram contra Deus, a natureza, o destino, a ordem, o
sistema, as estruturas e contra todas as instituições e categorias
que definiram ao longo da história o que seria o necessário e o
irrecorrível da existência dos homens -, nos propicia o
aprendizado da liberdade, da necessária e constante luta pela
liberdade que, afinal, é o próprio ser de sua existência. A história
serve para que possamos formar subjetividades mais livres, mais
desejosas, preparadas e dispostas a empreender a luta
permanente e diuturna em busca do ser livre, ser que só existe
enquanto prática permanentemente afirmada e retomada.
(ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2012, p. 36)
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ROCHA, Helenice; MONTEIRO, Ana Maria (org.) Qual o valor da história hoje¿ Rio
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MEIHY, José Carlos S. Bom. Manual de Histórial Oral. São Paulo: Loyola, 1996.
MENEZES, Leila Medeiros de; SILVA, Maria Fátima de Souza. Ensinando história
nas séries iniciais: alfabetizando o olhar. In: MONTEIRO, Ana Maria; GASPARELLO,
Arlette Medeiros; MAGALHÃES, Marcelo de Souza (org.) Ensino de história:
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SCHMIDT, Maria Auxiliadora; CAINELLI, Marlene. Ensinar História. São Paulo:
Scipione, 2004.
ZAMBONI, Ernesta. O ensino de história e a construção da identidade. História –
série argumento. São Paulo: SEE-CENP, 1993.
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