Comunicação ENSINO E INCLUSÃO ATRAVÉS DE PRÁTICAS DE BANDA OLIVEIRA JUNIOR, Hely Nazareno Pimentel de1 Palavras-chave: Educação, Música, Inclusão. Resumo: O texto trata sobre Projeto voltado para a educação musical. Visa o estudo e a reflexão das diferentes práticas vivenciadas nas três bandas da Escola de Música da Universidade Federal do Pará - EMUFPA, de modo a contribuir para a melhoria dessas práticas na atuação dos regentes no ensino das músicas e, ainda, buscar a inclusão social por meio da profissionalização instrumental. INTRODUÇÃO O Estado do Pará apresenta sua história da música marcada por forte movimento musical de bandas. Desde o século XVIII, as bandas paraenses são mencionadas por pesquisadores, como o musicólogo Vicente Salles (Sociedades de Euterpes, 1985; A música e o tempo no Grão Pará, 1980; entre outras obras do autor). São bandas civis e militares, sempre presente no cotidiano da cidade e do interior do Estado. Algumas delas resistem já centenárias, em franca atividade, como a do Corpo de Bombeiros, a da Polícia Militar e a da Escola Estadual “Lauro Sodré” uma das Bandas Escolares mais antigas do Brasil em franca atividade. As escolas de música locais também possuem suas bandas. A Escola de Música da UFPA – EMUFPA apresenta em seu quadro de grupos artístico-musicais três bandas de destaque nos palcos de Belém: a SAM Band, a Banda de Música Latina e a Banda Jovem da EMUFPA (que, em 2006, recebeu apoio do MEC, por meio do PROEJA). Nelas atuam estudantes jovens e adultos dos cursos básico, técnico de nível médio e de licenciatura da EMUFPA. Essas bandas têm sido espaços distintos de práticas pré-profissionais para os alunos dessa escola. Seus níveis são diferenciados, assim como seus estilos de repertório e, por vezes, seus públicos. Seus regentes apresentam formação distinta, o que oportuniza uma diversidade de experiências pré-profissionais. Estudar essas diferenças e sobre elas refletir é um trabalho que certamente enriquecerá as orientações dos regentes dessas três bandas musicais da EMUFPA, bem como ajudará a melhor nortear a 1 Escola de Música da Universidade Federal do Pará (EMUFPA) 2 definição das práticas pré-profissionais de cada uma delas, visando a humanização e a inclusão social dos alunos que delas participam, por meio de metodologias utilizadas que auxiliam no ensino aprendizagem na educação musical, aproximando o aluno cada vez mais da música instrumental, gerando uma necessidade de aperfeiçoamento. DESENVOLVIMENTO O trabalho com o projeto das Práticas Pré-profissionais das bandas da EMUFPA, onde participam seus alunos dos cursos técnicos e de graduação, é voltado para a educação musical, visando o estudo e a reflexão do ensino musical das diferentes práticas de pré-profissionais vivenciadas nas três bandas da EMUFPA (Sam Band, Banda de Música Latina e Banda Jovem da EMUFPA) e assim contribuir para a melhor atuação dos regentes em relação aos alunos e ao seu aprendizado musical, viabilizando por meio da pré-profissionalização a inclusão social dos alunos que delas participam. Ao observar-se o trabalho desenvolvido, várias questões podem ser levantadas e discutidas como a relação professor x aluno, a inclusão sócioeconômica dos alunos ante a profissionalização musical e instrumental e a maneira como esse trabalho é repassado ao público em programações que ajudam na socialização e humanização dos alunos. Dentre as atividades desenvolvidas pelas bandas da EMUFPA, estão as aulas de linguagem musical, onde os alunos ganham noções de ritmo, solfejo e história da música, e os ensaios didáticos, uma ou duas vezes por semana, dependendo da Banda ou da necessidade de se trabalhar uma determinada música para as apresentações marcadas. Essas apresentações programadas consistem em eventos sócio-culturais em praças da cidade, em que os alunos mostram todo o aprendizado conquistado nos ensaios, levando a música a todo e qualquer ouvinte, desde as camadas mais altas da sociedade até as camadas mais populares, gerando assim apreciadores da música instrumental. Podemos citar o Abril com Bandas nas Praças, projeto no qual as bandas da EMUFPA se apresentaram em praças tradicionais de Belém do Pará, como a centenária Praça da República, ganhando os aplausos e a admiração de quem passeava pelas praças em dias de apresentação, nos domingos do mês de abril. O 3 Abril com Bandas nas Praças ocorreu nos dias 01, 15, 22 e 29, nas praças Dalcídio Jurandir no bairro da Cremação, Praça da República na Campina, Praça Waldemar Henrique no Centro e na Concha Acústica de Nazaré no bairro de Nazaré, envolvendo alunos professores e coordenadores que se esforçavam para apresentar um bom trabalho ao público que prestigiava as apresentações nas praças. Não apenas nas praças as apresentações são feitas, mas em eventos sociais importantes, como a participação da Sam Band no 1º Encontro dos Empresários com a Música, no Crowne Plaza, e no Jantar dos 50 anos da UFPA na Estação das Docas, onde ganhou a admiração do Reitor e demais gestores e professores da UFPA, SESu/ MEC, ANDIFES, CAPES e reitores de outras IFES; e participação da Orquestra de Música Latina na XI Feira Pan-Amazônica do Livro, a quarta feira mais importante do Brasil, e apresentação no Teatro da Paz para o Encontro de Desembargadores do Brasil. Essas programações oportunizam, portanto, a construção de uma credibilidade maior aos músicos e abre um leque de oportunidades que surgem a cada evento programado, inclusive algumas propostas para se apresentarem fora do Pará e do Brasil. Quanto ao aspecto do ensino musical e à educação musical dentro das práticas pré-profissionais das Bandas da EMUFPA, podemos citar o corpo de professores que atuam nas bandas, que possuem níveis diferenciados de formação, o que leva a várias formas de se orientar quanto ao ensino musical. Nesse aspecto, percebemos em alguns ensaios que o ensino não se limita somente ao aprendizado das músicas, mas a outros elementos que estão presentes nas mesmas, como cultura e reflexão. Mas esse enfoque depende muito de professor para professor ou de Banda para banda. Por exemplo, a Banda Jovem, que é rica pela diversidade de se repassar o aprendizado, devido ao fato de que é regida por dois professores e cada professor tem uma maneira diferenciada de ensinar ou até mesmo de analisar o aprendizado dos alunos. Há professores que aplicam um sistema de ensino, onde há oportunidade de analisar e refletir sobre a música ensaiada, vivenciando a música de uma forma que o aluno busca maneiras de se comportar musicalmente. Essa maneira de ensinar deixa os alunos bem mais à vontade e musicalmente conscientes nos ensaios. Desse modo, o aspecto do ensino musical das Práticas Bandas Préprofissionais das Bandas da EMUFPA amplia o universo musical dos alunos em face das abordagens orientação musical que cada professor aplica nos ensaios, 4 viabilizando diferentes performances, explorando as habilidades dos alunos para diversificação da profissionalização. A relação professor-aluno nas Práticas Pré-profissionais das Bandas da EMUFPA também é variada, dependendo do nível de conhecimento pedagógico do professor. A relação professor-aluno tradicional é a mais aplicada, na qual o aluno apenas recebe a informação e aplica do jeito que o professor pediu que fosse feito. Em alguns casos, percebemos uma participação ativa e dinâmica dos alunos, numa relação dialógica onde o professor participa musicalmente com os alunos. Nas relações tradicionais, os alunos apresentam algumas dificuldades quanto ao entendimento musical solicitado pelo professor. Diante disso, o professor cobra mais estudo individual de quem tem dificuldade, principalmente quanto à questão de divisão musical e afinação, nas quais a maioria dos alunos apresentam dificuldade, principalmente os iniciantes. Na relação dialógica, as dificuldades dos alunos são rapidamente sanadas. Um fator interessante é que na relação dialógica, o professor aproxima-se fisicamente dos alunos, fazendo um trabalho minucioso e preciso do que é para ser executado. Dessa maneira, o aprendizado é aprimorado. Os professores seguem uma linha de trabalho de semelhanças e diferenças em alguns aspectos. Não é perda tempo interromper o ensaio por alguns instantes, antes de executar uma determinada música e contar a sua história ou o que determinada música representa. Por exemplo, na música Carmem Suíte, antes de ser executada pela Banda Jovem, um determinado professor explicou cada ato ou cena da ópera Carmem (G. Bizet), solicitando aos alunos que visualizassem as cenas nas mentes e dessa maneira aplicassem a idéia ao instrumento. A semelhança entre os professores está basicamente na organização do trabalho, seguindo uma ordem de passos no ensaio, como: distribuição de partituras, divisão por naipes ou grau de dificuldade que alguns naipes apresentam em algumas músicas. Na questão no trabalho da música, cada professor aplica ou dá ênfase ao mesmo principio, seguindo os mesmos padrões de regência ou condução de ensaios, mas cada qual com um estilo próprio em relação ao aluno, seja tradicional ou não. Observamos nessas questões que a forma tradicional se faz necessário quanto à ordem do ensaio como uma maneira de organização, que, se mesclada com o aspecto dialógico, gera uma melhor aceitação musical por parte do aluno. 5 Os repertórios das bandas da EMUFPA envolvem formas e estilos variados, que vão desde o clássico até a MPB, visando uma melhor profissionalização musical e ao mesmo tempo preparando os alunos para tocarem e se familiarizarem com diversos estilos, o que deve proporcionar um bom desempenho futuro na atuação do músico na sua carreira musical como instrumentista de banda. São explorados inclusive temas regionais como a “Pororoca”, de Tinoco Costa (fenômeno que ocorre na região amazônica, onde se dá o encontro das marés ou de correntes contrárias, como se estas encontrassem um obstáculo que impedisse seu percurso natural; quando ultrapassam esse obstáculo, as águas correm rio a dentro com uma velocidade de 10 a 15 milhas por hora, subindo uma altura de 3 a 6 metros), e a lenda do “Uirapuru”, de Waldemar Henrique (pássaro que não é pássaro, vive a cantar e a atrair com seu canto todos os que o ouvem). Cabe a cada professor selecionar o repertório de cada Banda. Nesse sentido, devemos considerar que o professor, tanto quanto o regente, tem a responsabilidade, enquanto educadores, de selecionar repertório que abranja as mais importantes músicas para a formação de seus alunos-instrumentistas e do público. A Banda Jovem tem um repertório mais eclético, com a maior variedade de músicas, devido ao fato que os professores exploram temas de músicas eruditas e temas brasileiros como o contraste entre a 5º Symphonia, de Beethoven e o Pagode “Batida do Maneco”, de Zeca Pagodinho. A SAM Band e a Banda Latina têm estilos de repertórios direcionados a uma determinada camada de ouvintes que valorizam a MBP, jazz e swing latino. Ambas têm características próprias, como expressam os nomes das mesmas, que dão a idéia dos repertórios utilizados. A SAM Band explora temas brasileiros influenciados pelo jazz norte americano, onde o improviso é bastante valorizado. A Orquestra de Música Latina envolve mais os estilos latinos, explorando também estilos brasileiros, como samba, baião e bossa nova. Um dos objetivos das Práticas Pré-profissionais das Bandas da EMUFPA é a inclusão social dos alunos que delas participam. É fato que a música tem um poder de humanização, e que a nossa sociedade nos últimos tempos tem passado por várias transformações de caráter social, aonde a violência e a criminalidade vêm arrebatando cada vez mais os jovens de todas as camadas da população, 6 especialmente as mais pobres. Diante disso, a música pode atuar como uma forma de valorização dos jovens, por meio de sua inclusão social ante a profissionalização musical/ instrumental. Os jovens que vão se destacando nos seus estudos começam a criar idéias dentro do universo musical e buscam seguir a carreira musical, apesar de alguns alunos terem outras atividades fora da música. São estudantes do ensino médio que muita das vezes estão em busca do primeiro emprego, uns têm que conciliar trabalho e música o que às vezes é bem complicado. Outros recebem convites para participar de outros grupos e para fazer “guigues” remunerados em estúdios. Poucos são dedicados totalmente à formação escolar em música, mesmo se são estudantes de Bacharelado e Licenciatura. Alguns são recém formados que escolheram a área da música como carreira a seguir e buscam nessa área não só como uma forma de “sobrevivência” mas também de realização profissional, inclusive dão aulas particulares em escolas de música de Belém, contribuindo assim para o crescimento da música no Estado. Dentre os jovens que participam das práticas de banda da EMUFPA, poucos tiveram alguma influência da família, porque algum ou outro parente tocava ou não. A maioria resolveu aprender um instrumento ou porque já apreciava outras pessoas tocando ou por influência das amizades de colegas que estavam envolvidos em atividades musicais. O fato é que os alunos são preparados visando o mercado de trabalho musical, recendo auxílios de custos como transporte e cachês em algumas apresentações, o que os entusiasma, fazendo com que busquem aprimoramento – mesmo sem ter tempo para dedicar-se ao estudo, com vontade de seguir a carreira musical. Nesse ponto, a prática de Banda mostra que a música tem um papel fundamental para a inserção social e econômica, vivendo a arte da música, diante do caos social em que vivemos. Alguns alunos, sabendo de sua potencialidade e da importância do trabalho que estão desenvolvendo, criaram um senso crítico, quanto à valorização das bandas, e até mesmo do próprio talento que eles sabem que estão desenvolvendo, buscando um maior reconhecimento do esforço dos que participam das bandas. CONCLUSÃO 7 Esta breve reflexão sobre as diferentes práticas de Banda da EMUFPA serve como uma contribuição para professores e coordenadores no ensino musical, para uma melhor profissionalização instrumental dos alunos e assinala a inclusão social dos mesmos. Que este trabalho possa ganhar proporções maiores e sirva de incentivo para quem pretende ingressar na área da música REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: SALLES, Vicente. A música e o tempo no Grão-Pará. Belém: Conselho Estadual de Cultura, 1980. (Coleção Cultura Paraense. Série Theodoro Braga) _______________. Sociedades de Euterpe. As bandas de música no Grão-Pará. Brasília: edição do autor, 1985.