1234 QUALIDADE DE VIDA E LAZER NO CONTEXTO DA GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM EM UMA UNIVERSIDADE PÚBLICA FEDERAL Fernanda de Oliveira Souza ¹; Josele Rodrigues Farias Santa Bárbara², Aline Macedo Carvalho ³ e Aline Magalhães Bessa 4 1. Voluntária PIBIC (2011-2012), Graduanda em Enfermagem, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, e-mail: [email protected] 2. Orientadora, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, e-mail: [email protected] 3. Voluntária PIBIC (2011-2012), Graduanda em Enfermagem, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, e-mail: [email protected] 4. Voluntária PIBIC (2011-2012), Graduanda em Enfermagem, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, e-mail: [email protected] PALAVRAS-CHAVE: qualidade de vida, lazer, enfermagem. INTRODUÇÃO: Qualidade de vida (QV), atualmente tem sido uma temática bastante comum na sociedade, sendo também um assunto muito discutido e que vem recebendo atenção crescente, não somente da literatura científica, mas também de campanhas publicitárias, nos meios de comunicação, plataformas políticas e outros espaços de discussão (MIYADAHIRA;KAWAKAME, 2005). Embora o número de estudos com estudantes de graduação, em especial, em enfermagem, seja incipiente ou inexistente, alguns sugerem a existência de fadiga neste grupo (AMADUCCI; MOTA; PIMENTA, 2010), o que nessa população, pode limitar o processo de aprendizagem, prejudicar a formação profissional e a qualidade de vida. Como forma de diminuir a sobrecarga de estudos e tarefas, muitos utilizam o lazer como ferramenta de escape. No campo da saúde, muitos acadêmicos/as, docentes, pesquisadores/as e profissionais têm atuado com diversos aspectos do lazer, até mesmo, sem se darem conta disso. Portanto, torna-se importante entender os sentidos que o tema do lazer possui, e vem adquirindo, em cursos de formação na área da saúde para se pensar o processo de formação profissional (GOMES; PINHEIRO, 2011). Alguns documentos públicos, entre eles o artigo 3º da Lei nº. 8.080 (BRASIL, 1990), e a recente Política Nacional de Promoção da Saúde (BRASIL, 2006) tratam e afirmam que o lazer é um dos fatores determinantes e condicionantes da saúde. Embora haja referências legais para a promoção do lazer no âmbito da saúde, Pinto (2009, p. 168) chama a atenção para o fato de que “a formação profissional em saúde pouco esclarece sobre a importância do lazer e sobre as suas contribuições para a vida das pessoas”. Portanto o desafio é tratar deste processo de forma ampliada, reconhecendo o lazer como um dos determinantes da saúde. Para Amaducci; Mota; e Pimenta (2010) o desgaste advindo do curso de enfermagem foi a principal causa de cansaço, e as atividades de lazer as mais importantes estratégias de alívio. Por isso objetivou-se no presente estudo avaliar os hábitos de vida de estudantes de enfermagem que estavam cursando o último ano da graduação no que se refere a qualidade de vida relacionada ao lazer destes indivíduos. A importância do projeto de pesquisa se justifica pela necessidade referida dos estudantes em aumentar a qualidade de vida através de práticas de lazer. METODOLOGIA Trata-se de uma pesquisa de delineamento transversal, descritiva, com abordagem qualitativa. O estudo teve como sujeitos nove estudantes de enfermagem de uma Universidade Pública Federal que aceitaram participar da pesquisa. Foram explicados os 1235 objetivos, levando-se em conta os preceitos éticos regulamentados pela resolução 196/96 de pesquisa envolvendo seres humanos. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa ao qual foi enviado. Como critérios de inclusão, foram utilizados: estudantes de enfermagem que estão no último ano da graduação na universidade; maiores de 18 anos de ambos os sexos; e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido após leitura do mesmo pelo entrevistado. A coleta de dados foi realizada através de entrevista semiestruturada, seguindo um roteiro elaborado previamente, com questões iniciais referentes aos dados de identificação do sujeito e posteriormente perguntas relacionadas aos objetivos específicos propostos. As entrevistas foram analisadas, seguindo o caminho da análise de dados qualitativos proposto por Minayo (2006) através das seguintes etapas: pré-análise, exploração do material, tratamento dos resultados e interpretação. Foram questões norteadoras: Você considera ter hábitos de vida saudáveis? Justifique; Quais são seus hábitos de vida relacionados ao lazer?Como seus hábitos de vida influenciam em sua formação acadêmica? As entrevistas foram agendadas e realizadas em local previamente marcado com os estudantes que aceitaram participar da pesquisa, em ambiente mais cômodo para os mesmos. Assim, foram gravadas com uso de aparelho digital, transcritas e analisadas posteriormente. Após essas etapas foram elencados codinomes para os participantes, sendo os mesmos nomeados como graduandos em forma crescente de enumeração de acordo com a participação na pesquisa. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Ao iniciarmos uma análise sociodemográfica dos dados, observou-se que dos nove sujeitos participantes da pesquisa (77,8%) destes eram predominante do sexo feminino, reforçando a questão do gênero na enfermagem. A idade média dos entrevistados foi de 22 anos, revelando um perfil de jovens entre os sujeitos pesquisados. Em relação aos dados correlacionados aos hábitos de vida, obteve-se o seguinte resultado: apenas um dos entrevistados realizava caminhadas e musculação três vezes por semana, sendo que o restante (88,9%) relataram não praticarem nenhum tipo de atividade física. Relacionado ao tempo de lazer, o resultado encontrado foi que estes estudantes obtêm apenas os finais de semana como tempo livre para realizar outras atividades que proporcione bem estar e consequentemente qualidade de vida. Dentre os diversos conceitos de lazer, Dumazedier (1979) define lazer como o conjunto de ações escolhidas pelo sujeito para diversão, recreação e entretenimento. Apesar do caráter voluntário que este autor oferece para o lazer, acredita-se que este é influenciado pelo modo de viver dos alunos entrevistados, uma vez que para o exercício do lazer é necessário tempo entre as atividades laborais. Ao serem questionados a respeito dos hábitos relacionados ao lazer (viajar, ver familiares e amigos, ir ao shopping) a maioria dos estudantes demonstraram estarem aptos para fazer o que gostam apenas nos finais de semana. Eis alguns exemplos: “Quanto ao lazer, durante a semana não é possível [...] o lazer mesmo que eu tenho é mais no final de semana, onde eu tento curtir um pouco mais o meu tempo quando eu vou para a minha cidade natal” (Graduando 3). “Quanto ao lazer praticamente quando tenho tempo livre, nos finais de semana, fico mais em casa, não sou de viajar [...]” (Graduando 5). “O único lazer que eu tenho, e quando eu tenho, é quando eu viajo, mas isso uma vez ou outra, bem raro e só final de semana” (Graduando 6). 1236 “Lazer só nos finais de semana, considero me divertir quando não estou na faculdade, fora da faculdade” (Graduado 7). Ao longo das entrevistas pôde-se notar que por muitas vezes as falas dos discentes deixam a impressão de que o ambiente acadêmico não oferece nenhum tipo de prazer quando falamos em lazer, uma vez que os mesmos atribuem a este ambiente como um local de estresse e sobrecarga emocional/ intelectual. A qualidade de vida dos discentes é, nas falas, repetidamente influenciada pela universidade de forma negativa, para os hábitos de vida relacionados ao lazer, pois, quase sempre eles atribuem a falta de bons hábitos às demandas da universidade. A procura dos graduandos pelo exercício físico como uma atividade de lazer é um aspecto importante a ser considerado. O mesmo foi observado pelos alunos dos cursos de extensão oferecidos pela Faculdade de Educação Física da UNICAMP (2004). Rufino et al (2000) citam que uma das razões pelas quais as pessoas freqüentam as academias, para a prática do exercício físico, é o lazer associado à socialização. No entanto os discentes entrevistados também não conseguem utilizar o exercício físico como forma de socialização, uma vez que raramente frequentam este ambiente, mais uma vez devido as demandas e sobrecargas que o curso oferece. Apesar de entender que seria importante realizar essa prática, a fala a seguir mostra o entendimento de um dos estudantes: “[...]você não pratica atividade física, você se cansa fácil, você não tem muita disposição” (Graduando 7). As falas revelam que o lazer é entendido pelos participantes como algo importante para a vida, principalmente como forma de descanso para a jornada diária de estudos. Porém ele é escasso na rotina dos estudantes entrevistados, uma vez que só ocorre nos finais de semana. Aqui cabe uma análise até mesmo psicológica desta formação com déficit de lazer, e os prejuízos que podem se instalar nestes estudantes, porém não discutiremos, pois não é o foco do estudo em questão. A fala que se segue demonstra como os participantes da pesquisa tem compreensão a respeito da necessidade de descansar: “[...]se você não consegue dormir bem, por exemplo, no outro dia você não acorda bem e não consegue se desempenhar bem nas suas funções” (Graduando 2). Os alunos referiram o sono e o lazer (estratégias usuais de restauração de energia) como as principais estratégias que utilizam para o alívio da fadiga. Através da análise do currículo de enfermagem da instituição, nas disciplinas consideradas obrigatórias não há presença de nenhuma relacionada a importância do lazer, ou ainda que promova essa prática. Amaducci; Mota; e Pimenta (2010), graduandas de enfermagem constataram em seu estudo que para 44,4% dos estudantes, a principal causa da fadiga relaciona-se às características do curso de enfermagem tais como alta carga horária, quantidade excessiva de disciplinas, trabalhos, provas, aulas cansativas e longas. Sobrecarga diária de atividades e a falta de tempo para realizá-las foram relatadas por 31,2% dos estudantes. No presente estudo, também realizado por graduandas outras causas de prejuízo foram relatadas como: distúrbios de sono; distância entre a casa e a faculdade e condições de transporte; desgastes emocionais; problemas financeiros, inadequação alimentar e principalmente falta de lazer. 1237 CONSIDERAÇÕES FINAIS: O curso de enfermagem nesta universidade parece deixar os seus graduandos em constante conflito pessoal no que diz respeito à qualidade de vida, por isso medidas de prevenção precisam ser implementadas. A direção do centro junto ao colegiado de curso precisam reconhecer os resultados apresentados neste estudo, para formularem medidas de melhor acolhimento a esses graduandos, assim como desenvolvimento de ações voltadas ao incentivo de práticas saudáveis diárias, para diminuir assim a sensação de fadiga diária relatada pelos estudantes devido ao acúmulo de atividades. Os benefícios da prática de lazer para a saúde e qualidade de vida de pessoas de todas as idades estão bem documentados na literatura científica. É fundamental o apoio dos dirigentes universitários na promoção de jogos, programas, campeonatos e eventos esportivos, que além de atuar beneficamente na saúde, agirá na socialização/lazer e consequentemente na qualidade de vida dos participantes. Sugerimos que as Universidades reservem espaços e tempo aos alunos para a prática do esporte, mesmo que para eles existam pressões para não se exercitarem, como o estudo e carga horária excessiva. REFERÊNCIAS: AMADUCCI, C.M; MOTA, D.D.F.C; PIMENTA, C.A.M. 2010. Fadiga entre estudantes de graduação em enfermagem. Rev Esc Enferm USP. 44(4):1052-8. BRASIL. Lei nº 8080 de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Previdência da República: Casa Civil. Brasília, 19 de setembro de 1990. Homepage: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8080.htm>. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Política nacional de promoção da saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. DUMAZEDIER, J. 1979. Sociologia empírica do lazer. Tradução: Silvia Mazza e J. Guinsburg. São Paulo: perspectiva: SESC,. KAWAKAME, P.M.G; MIYADAHIRA A.M.K. 2005. Qualidade de vida de estudantes de graduação em enfermagem. Rev Esc Enferm USP.; 39(2):164-72. MINAYO, MC S. 2006. O Desafio do Conhecimento: Pesquisa Qualitativa em Saúde. 4ª ed. São Paulo: Hercitic, p. 303-309. PINHEIRO M.F.G; GOMES C.L. 2011. Motriz, Rio Claro, v.17, n.4, p.579-590, out./dez. PINTO, G.B. 2009. O lazer em hospitais: realidades e desafios. 2009. Dissertação (Mestrado em Lazer) – Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.