O EXAME VESTIBULAR E O PERFIL SOCIOCULTURAL DO INGRESSANTE: O CASO DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ Vanessa Alves Bertolleti (PG-UEM1) Mário Luiz Neves de Azevedo (PPE-UEM2) Considerações iniciais A universidade brasileira constitui-se em uma instituição necessária e produtora do saber científico (CUNHA, 1980). No entanto, segundo Fausto (1982), sua consolidação no cenário social brasileiro, enquanto campo intelectual, no decorrer do século XX, além de tardia, deparou-se com circunstâncias culturais e sociais adversas, uma vez que seu processo de institucionalização foi amplamente influenciado pelas características econômicas, políticas e sociais da época. Nesse sentido, embora o campo3 universitário tenha se legitimado como uma instituição necessária para a formação da sociedade (TEIXEIRA, 1988), o mesmo permanece constituído como um ambiente heterogêneo e restrito a alguns extratos da sociedade. 1 Bolsista da Capes. Aluna Regular do Programa de Pós-Graduação em Educação: Mestrado em Educação da Universidade Estadual de Maringá. Fone: (44) 3028-6190. E-mail: [email protected] 2 Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM/PPE/DFE). Fone: (44) 3261-3894. E-mail: [email protected] 3 Os campos, de acordo com Bourdieu, são microcosmos que integram algo maior, o macrocosmo, que se localiza em um espaço social maior, a estrutura social. O campo é definido pelo autor como um “[...] microcosmo dotado de suas leis próprias” (BOURDIEU, 2004, p. 27). Os microcosmos são estruturas de relações existentes enquanto espaços dês disputas entre os agentes. O conceito de campo refere-se a uma estrutura especializada na produção de bens materiais ou simbólicos. Desta forma, compreende-se como campo as instituições ou agrupamentos de agentes que objetivam ou geram serviços para uma parcela da sociedade, são eles o campo da religião, do esporte, da educação, da medicina etc.. Dispostos nos espaços de relações entre agentes, os campos são dotados de características únicas, e geram um produto único que os tornam necessários na sociedade. As relações que nele se estabelecem, entre os sujeitos são descritas por Bourdieu como uma forma de jogo, no qual cada integrante opera ações visando preservar sua posição ou até mesmo ascender na estrutura. Podem ser disputados no cerne do campo: posição dentro do campo, poder, reconhecimento, prestígio, capital cultural, econômico. 1 Apesar das políticas públicas e ações governamentais ter caminhado para uma maior abertura e crescimento do ensino superior, a universidade brasileira continuar a ser restrita a uma parcela da população. Diante da heterogeneidade característica da universidade, busca-se compreender e analisar a composição social dos acadêmicos ingressantes no ensino superior, por meio da análise do perfil sociocultural dos aprovados no exame vestibular (verão e inverno) da Universidade Estadual de Maringá, durante o ano de 2006, nos cursos de Medicina, Engenharia civil, Administração (noturno e diurno) e Pedagogia (noturno e diurno). O presente estudo parte do referencial sociológico de Pierre Bourdieu (1930-2002), que é autor de analises acerca dos campos, culturais, sociais e escolares, o qual possui como objeto de investigação as relações objetivas da vida social, em relação à dialética das disposições. Com base nos dados dos questionários sócio-educacionais respondidos durante a inscrição pelos candidatos e, com base nas discussões estabelecidas por Bourdieu e Passeron, em suas obras, bem como seus principais conceitos - habitus4, capital cultural e econômico5 busca-se no transcorrer do texto, compreender o processo de seleção de algumas carreiras de graduação na Universidade Estadual de Maringá, de acordo com a formação cultural e familiar, atentando-se para a trajetória educacional destes indivíduos. Posteriormente, busca-se estabelecer uma análise acerca da formação cultural dos pais dos aprovados, com o intuito de verificar em que medida estas características, de acordo com Bourdieu e 4 O habitus consiste nas características pessoais, que são herdadas e adquiridas pelo sujeito, e modificadas ao serem incorporadas e transmitidas por ele através de suas ações. Estas características individuais encontramse ligadas a toda estrutura que fundamenta a sociedade. O processo de incorporação do habitus inicia-se com as primeiras experiências formativas dos agentes, independente do meio social, por meio da bagagem cultural e de costumes que estão inseridos e são transferidos pela família e adquiridos pelos agentes, que passam ser modificados, transformados e afirmados durante todo sua trajetória social, independente de sua vontade. O habitus se caracteriza por fundamentar a condição em que o sujeitos existe. É ele que gera as práticas através de uma incorporação da estrutura já existente, incorporando costumes gerando a prática correspondente ao que foi adquirido. 5 Os capitais são os responsáveis pelas disputas dentro de um campo. Consistem em instrumentos de acumulação, que de posse dos indivíduos, inseridos em um determinado campo, passam a servir como objetos de diferenciação entre os sujeitos. Entre os capitais destacam-se: os capitais culturais, econômicos, sociais e simbólicos. 2 Passeron (1975), refletem nas escolhas dos ingressantes. O Nível de Instrução dos Pais dos Aprovados: a Influência do Capital Cultural e da Herança Familiar De acordo com Bourdieu e Passeron (1975), entre os aspectos mais relevantes nas escolhas e trajetórias escolares dos jovens, está à influência que a família e o meio exercem nas escolhas dos jovens. Pode-se dizer que as relações estabelecidas entre os membros de uma família, principalmente entre pais e filhos interferem, de certo modo, nas escolhas dos indivíduos. Segundo Bourdieu e Passeron (1975), as famílias transmitem a seus herdeiros mais por vias indiretas que diretas certas práticas e ações que são internalizadas e estruturam suas futuras ações. As relações mantidas com a cultura, bem como as possibilidades culturais as quais possuidores de um capital cultural se permitem como: freqüência em museus, teatros, cinemas, entre outros, geram um contato permanente com a cultura, produzindo em seus possuidores um gosto mais apurado, conhecimentos diversos e uma forma culta de se expressarem, hábito raro em pessoas com menores níveis de escolarização. Entretanto, certas práticas requerem certo capital cultural, ou seja, uma proximidade com a cultura. Esta proximidade é encontrada com maior facilidade em meios de maior escolaridade (NOGUEIRA, 2002). Deste modo, partimos do pressuposto de que a familiaridade com a cultura promove nos sujeitos, uma relação mais estreita com a cultura, principalmente do meio universitário. Nesse sentido, aqueles que possuem e utilizam este capital estrategicamente6, terão maiores oportunidades de serem selecionados a fazerem parte do meio intelectual, e a ocuparem 6 O termo estratégia é utilizado nas produções bourdiesianas para designar as ações, conscientes e inconscietes, dos indivíduos, de acordo com seu campo de inserção, sua posição dentro do campo e seu habitus. 3 posições de maior prestígio, já que de acordo com Bourdieu (1998, p.287), “o jogo de transmissão do capital cultural, faz com que o capital cultural retorne as mãos do capital cultural”. No intuito de compreender a relação entre o capital cultural e a relação com a cultura, analisou-se nos questionários, o nível de instrução dos pais e das mães dos candidatos aprovados. Desse modo, constatou-se determinadas diferenças culturais entre os pais dos aprovados no vestibular: Pode-se dizer que para os cursos de maior concorrência e prestígio social, como os cursos de Medicina, Engenharia Civil e Administração (diurno), os aprovados possuem pais e mães com um capital cultural elevado e com histórico de acesso ao ensino superior. Quanto aos cursos de menor prestígio - Administração (noturno) e Pedagogia (diurno e noturno) -, notou-se um baixo nível de escolaridade dos pais dos aprovados, principalmente em cursos de licenciaturas, como, por exemplo, pedagogia. No entanto, estas diferenças entre os candidatos tornam-se mais evidente se comparado aos cursos noturnos, neste caso, nos cursos de pedagogia e administração, ocorre uma mudança no perfil dos aprovados, com uma diminuição da porcentagem de acesso dos filhos cujos pais não tem diploma de ensino superior. Mesmo com um baixo nível de escolaridade dos pais dos aprovados em cursos menos concorridos, ou noturnos, como é o caso de pedagogia noturno, ainda é baixo o número de aprovados no vestibular cujos pais não possuam nenhum nível de instrução. Percebe-se que quanto maior a concorrência, menor será as oportunidades de acesso a determinados cursos, por exemplo, as profissões liberais. 4 Gráfico 1: Pais que possuem ensino superior completo 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% A dm M ed ic in in is a tra ad çã o m di in ur is tr a no çã o no tu en rn o ge nh ar ia P ed ci vi ag l og ia P di ed ur ag no og ia no tu rn o Pais que possuem ensino superior completo Gráfico 2: Mães que possuem ensino superior completo 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% A dm M ed ic in is in tra a ad çã m o in di is ur tr a no çã o no tu en rn o ge nh ar P ia ed ci ag vi l og i a P di ed ur ag no og ia no tu rn o Mães que possuem ensino superior completo Estas oscilações demonstram que a cultura, bem como o universo cultural das famílias dos aprovados, interfere nas escolhas e oportunidades de acesso ao ensino superior, por parte de seus herdeiros. Conforme os dados do SEADE (1998), as possibilidades de sucesso no meio acadêmico, de certa forma, estão ligadas as oportunidades de acesso ao ensino 5 superior dos pais. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, INEP (2008, p. 271), a possibilidade de uma pessoa progredir na educação formal tem sido considerada aspecto condicionante do nível de escolaridade dos pais. Conforme destacam Bourdieu e Passeron (1975), entender que a cultura transmitida pela família torna-se relevante, quando apenas alguns são dotados dela, é considerar que a família e sua relação próxima com a cultura, bem como a herança cultural transmitida, determinam, de certa forma, o ingresso dos jovens no ensino superior. Segundo Bourdieu (1974), cada família transmite por vias diretas ou indiretas certo capital cultural. O capital cultural corresponde à cultura entendida como erudita, e que é transmitida e legitimada principalmente pela escola. Deter certo capital cultural é possuir além da cultura escolar, a cultura dominante, socialmente concebida como melhor, ou de acordo com os padrões cultos. Ao possuírem esta espécie de capital, os agentes além da cultura, dominam os meios de transformá-la em um determinado tipo de força, ou estratégia com a qual adquirem certas posições no mundo social (BOURDIEU e PASSERON, 2006). As famílias que além de deterem certos capitais culturais, exigidos nas instituições de ensino superior, podem transmiti-los a seus herdeiros, por meio de uma herança cultural. Esta herança cultural é entendida por Bourdieu (1992), como cultura legítima que cada família imprime na formação de seus herdeiros, conforme as oportunidades de acesso e relação com o meio cultural. Tal relação permite aos indivíduos um contato permanente com a erudição, criando em seus possuidores um gosto mais apurado, conhecimentos diversos e uma forma culta de se expressarem, hábito raro em pessoas com menores níveis de escolarização. Embora a cultura escolar seja o requisito principal para os exames de ingresso nas IES, uma relação estreita com a cultura, que vá além do que está implícito e exigido nos processos seletivos determinam quem está mais apto a preencher certas vagas, e que provavelmente aprenderá e reaprenderá, com maior facilidade a mensagem transmitida (BOURDIEU, 1974). 6 Neste entendimento, a cultura transmitida pela família aos seus herdeiros torna-se relevante para a análise do perfil social, cultural e educacional dos que são selecionados a fazerem parte do quadro acadêmico das instituições universitárias públicas brasileiras. Entende-se que os conjuntos de disposições dos sujeitos funcionam como fator importante e relevante para o sucesso dos candidatos no exame vestibular e, também durante a trajetória acadêmica (BOURDIEU e PASSERON, 2006). Contudo, deve-se salientar que estes dados satisfazem apenas uma parcela da realidade encontrada nos meios universitários. Aspectos como cor, raça, sexo, religião, costumes, nacionalidade, também compõem este conjunto de disposições que são considerados imprescindíveis para a compreensão dos componentes políticos, sociais, culturais e econômicos que alicerçam a individualidade dos sujeitos (BOURDIEU e PASSERON, 2006). Por isso, para uma compreensão da análise dos fatores socioculturais e econômicos dos aprovados no vestibular de demais instituições, é necessário compreender também as relações sociais mantidas por estes indivíduos, que interferem direta e indiretamente em sua formação, como as relações sociais, as possibilidades formativas entre outras. O Aprovado e o Capital Cultural Assim como a herança cultural e social transmitida pela família, a relação próxima com a cultura erudita possibilita aos sujeitos, maiores oportunidades em meios que valorizam o saber socialmente legitimado. Em uma análise acerca do perfil cultural e social dos ingressantes na IES, atribui-se a posse do capital cultural (conhecimentos culturais de diversas ordens e a relação com a cultura), certo valor, que propicia vantagens culturais entre os indivíduos, especialmente nos meios em que se valoriza a boa relação com a cultura. Quanto ao capital cultural dos aprovados, os dados acerca da forma como os aprovados 7 realizaram seus estudos de 1º e 2º graus são explícitos nos gráficos a seguir: Entre os aprovados em medicina, mesmo os que cursaram os estudos do 1º grau em escolas públicas, a grande maioria, 87,5%, acabou realizando o 2º grau em escolas particulares. Como constatado anteriormente, em carreiras com menor porcentagem de concorrência, com indivíduos de renda mensal abaixo de cinco salários mínimos, é maior o número de candidatos que cursaram o 2º grau em escolas públicas. Os alunos aprovados em cursos mais disputados, em sua grande maioria cursaram seus estudos em instituições particulares. Gráfico 3: Forma como os aprovados realizaram seus estudos (ensino médio) 100% 80% 60% 40% 20% 0% Cursou ensino médio em escola particular Pedagogia noturno Pedagogia diurno engenharia civil administração noturno Administração diurno Medicina Cursou ensino médio em escola pública 8 Gráfico 4: Forma como os aprovados concluiram seus estudos (ensino fundamental) 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% Pedagogia noturno Pedagogia diurno engenharia civil administração noturno Administração diurno Medicina Cursou ensino fundamental em escola particular Cursou ensino fundamental em escola pública Outro fator que devemos considerar como relevante para a compreensão do perfil sociocultural dos aprovados no vestibular consiste em analisar as oportunidades formativas que estes sujeitos tiveram durante o primeiro e o segundo grau. Atualmente devido desempenho das escolas públicas, sejam elas de 1º ou 2º graus, em preparar os alunos, fornecendo-lhes domínio da cultura e do saber escolar, muitas famílias que possuem meios econômicos favoráveis, matriculam seus filhos em instituições particulares, para lhes possibilita um diferencial na formação destes sujeitos. Este diferencial pode estar na ampla formação dos alunos, pois conforme Bourdieu e Passeron (1975), se caracteriza pelo acesso a melhores meios de tecnologia, cursos de línguas estrangeiras, habilidades lingüísticas, esportes refinados em que se exijam além de preparo físico, habilidades mentais e que estimulem outros sentidos nos educandos, formam-nos mais aptos às situações em que se exija uma destreza com a cultura. Realizando esforços, muitas famílias, principalmente aquelas de classes e grupos médios da sociedade, buscam suprir as carências do ensino público defasado, e matriculam seus herdeiros em instituições de ensino que de certo modo, lhes oferecerão um melhor preparo para a vida acadêmica. Estes sujeitos, devido a esforços maiores, estão entre os aprovados em cursos de maior prestígio e nas melhores instituições (BOURDIEU e PASSERON, 9 1975). Como constatado, os aprovados em carreiras com menor concorrência, são em sua maioria indivíduos com uma renda mensal abaixo de cinco salários mínimos7, e que cursaram o 2º grau em escolas públicas. Isso faz refletir para o fato de que entre os candidatos aprovados, com algumas exceções, a cultura, bem como as relações que os sujeitos mantém com ela, determinam, em grande parcela, as possibilidades e as chances objetivas dos jovens frente ao ensino superior. Deste modo, falar em um maior acesso dos sujeitos no ensino superior consiste em se pensar na democratização da cultura aos meios menos favorecidos. Acerca deste assunto (BOURDIEU e PASSERON, 1975), salientam que, quando o que se busca é uma solução para o sistema de ensino, uma escola democrática, deve beneficiar todas as classes, ou seja, deve-se ter em mente que a única forma para que isso ocorra é criando possibilidades a todos de adquirirem o saber e a cultura erudita, saber este que os autores acreditam que somente seria possível se a escola transmitisse da mesma forma o conhecimento e a cultura, colocando-os no mesmo nível de disputa. Contudo, o que acontece é o inverso. Não se oportuniza a todos as mesmas possibilidades e o que se constata nos exames vestibulares é que se selecionam os melhores não existindo as mesmas chances no sistema, embora sejam vistos como iguais. A Opção do Curso e a Influência do Habitus nas Escolhas dos Ingressantes O que se observa no ensino superior brasileiro é que os cursos de maior prestígio e concorrência continuam sendo freqüentados por indivíduos de meios em que se constata maiores cultura e poder econômico. Mas o que determinaria as escolhas dos jovens por determinadas áreas? Quais seriam os fatores que influenciam? 7 Este cálculo foi feito com base no salário mínimo, que durante o ano de 2006 correspondia a R$: 350,00 reais mensais. 10 Ao analisarmos o perfil sócio-econômico e cultural dos candidatos ás diversas carreiras, observamos que existe um forte viés nessa escolha. Este fenômeno, já descrito em outros contextos sociais, aparece no Brasil de forma extremamente marcada. A cada carreira estão associados candidatos com perfis sócio-econômicos e culturais extremamente definidos. Forma-se assim uma escala de prestígio social das carreiras, com implicações extremamente importantes para a compreensão da estrutura político social do país (RIBEIRO, 1982, p. 3. grifo nosso). Nesta perspectiva considera-se que os jovens, de acordo com suas determinações individuais, tendem a optarem por cursos e áreas mais condizentes com sua realidade e, na maioria das vezes, esta escolha é feita para além da consciência percebida como tal. De acordo com os dados obtidos, observam-se os seguintes resultados: Os aprovados, mesmo sem nenhuma experiência na área de sua escolha, acreditam que determinados cursos os preparam para profissões condizentes com suas aptidões; Mesmo em profissões de maior prestígio, como medicina e engenharia civil, são poucos os candidatos que dizem ter optado pelo curso, seja pela perspectiva de mercado de trabalho, seja pela renda financeira que o mesmo proporcionará. Gráfico 5: Profissão escolhida condiz com suas habilidades e aptidões Profissão escolhida condiz com suas habilidades e aptidões A dm M ed ic in in is tra a ad çã o m in di is ur tr a no çã o no tu rn en o ge nh ar ia P ed ci vi ag l og ia P di ed ur ag no og ia no tu rn o 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% 11 Afinal, o que determina estas escolhas? De acordo com Bourdieu e Passeron (1975), as escolhas individuais, mesmo quando feitas inconscientemente estão apoiadas nas práticas internalizadas pelos sujeitos. Considerando que cada indivíduo possui um conjunto de valores, competências, saberes, habilidades, postura, aspirações, sonhos, projetos, entre outros, que são incorporados durante sua trajetória social, e de acordo com suas experiências e oportunidades, sejam elas de ordem familiar ou não, cada indivíduo age no mundo social, de acordo com estas características adquiridas. Entretanto, não cabe afirmar que todos os sujeitos farão opções por determinados cursos, influenciados por sua realidade socioeconômica e cultural. Afirmar isto seria acreditar que os sujeitos são determinados pelo meio no qual se inserem, ou seja, uma visão objetivista quanto às escolhas de carreira, o que limitaria a compreensão da realidade posta nas universidades hoje (BOURDIEU, 1972). As escolhas são geradas de acordo com Ribeiro (1982, p. 4), “[...] pelas representações criadas pelos indivíduos”, representações estas que resultam da internalização das práticas exteriores aos sujeitos, presentes no mundo social. O processo básico detectado através da interpretação de análises estatísticas multivariadas mostra claramente que existe uma polarização entre um “gostar mais” de ciências e um “gostar mais” de humanidades entre os candidatos. Essa polarização tem pouca contaminação sócio econômica – reminiscência provável da divisão clássico-científico do antigo curso colegial – e constitui a principal “vocação” a nível consciente da maioria dos candidatos. Por hipótese, a escolha de carreira é feita compatibilizando o caráter humanidade ciência de cada carreira com esta “vocação” consciente.É claro que o espectro de carreiras disponíveis para cada indivíduo é fortemente estruturado sócioeconomicamente. É importante notar que para as classes sociais de menor posição a escolha se restringe as carreiras de menos prestígio, porém é interessante frisar também que para as classes altas estas carreiras de baixo prestígio não fazem, em geral, parte do aspectro de carreiras disponíveis para escolhas (RIBEIRO, 1982, P. 4-5 grifo nosso). Por se tratarem de realidades com maiores probabilidades de acesso, e por serem condizentes com a realidade dos indivíduos, os jovens tendem a projetar suas expectativas e 12 escolhas em campos que acreditam deter maiores possibilidades de sucesso. Entre os fatores que, de certa forma, determinam estas escolhas, está seleção anterior e posterior ao exame vestibular. De acordo com Bourdieu (1974), a seleção exercida pelo sistema educacional perpassa a simples seleção institucional, ou aquela realizada institucionalmente. A seleção ocorre antes da seleção propriamente dita, é, por meio dos julgamentos e aspirações individuais, que cada sujeito projeta suas perspectivas e realiza suas escolhas. Los estudiantes más favorecidos no deben sólo a su medio de origen hábitos, entrenamientos y actudes que lês sirven directamente em sus tarefas acadêmicas; heredan también saberes y uno saber-hacer, gustos y un “buen gusto” cuya rentabilidad académica, aun siendo indirecta, no por eso resulta menos evidente (BOURDIEU y PASSERON, 2006, p.32)8. Esta seleção inconsciente das oportunidades objetivas que cada sujeito possui acaba por limitar as possibilidades de escolhas entre os candidatos. Cabe salientar também que a seleção, principalmente o exame vestibular, tende a exigir um maior contato com a cultura daqueles que estão sendo avaliados. A redação e a língua estrangeira escolhida pelos candidatos demonstram isso. Por meio da análise das notas obtidas nas redações por alunos que prestam o vestibular para áreas mais concorridas, por exemplo, é comum observar que as melhores notas, os temas mais elaborados e discutidos, sem contar a elegância textual, estão de posse daqueles que obtiveram um maior acúmulo de saber e que tiveram acesso a um saber para além daquele ensinado na escola, como, por exemplo, um estilo próprio (BOURDIEU e PASSERON, 2006). Contudo, o saber e o bom gosto pertencem àqueles que detém, sobretudo, o domínio sob a cultura erudita e o saber elaborado. Tal domínio é mais bem compreendido quando entendido a forma de aquisição e transmissão do mesmo, tanto pela família, como pelas 8 “Os estudantes mais favorecidos não devem só a seu meio de origem hábitos, treinamentos e atitudes que lhes servem diretamente em suas tarefas acadêmicas; herdam também saberes e um saber-fazer, gostos um” bom gosto “cuja rentabilidade acadêmica, sendo indireta, não por isso resulta menos evidente” (BOURDIEU y PASSERON, 2006, p.32). 13 relações sociais. Para compreender este processo, pode-se observar o nível de instrução dos familiares dos aprovados, bem como as influências dos saberes que são transmitidos inconsciente e conscientemente pelas famílias, de acordo com o nível de instrução dos pais e parentes mais próximos(BOURDIEU e PASSERON, 1975). Considerações Finais Por meio da análise realizada e com base nos dados obtidos nos questionários preenchidos pelos ingressantes nos cursos de Administração (diurno e noturno), Engenharia Civil (integral), Medicina (integral) e Pedagogia (diurno e noturno), constatou-se que as características socioculturais e econômicas, como renda familiar, nível de escolaridade dos pais e outras características presentes no questionário, estão intrinsecamente relacionados às escolhas dos cursos pelos candidatos, demonstrando que existe íntima conexão entre os capitais cultural, social e econômico acumulados pelos candidatos, e a escolha acadêmica e profissional. Generalizar a realidade encontrada nos cursos da IES analisada, a Universidade Estadual de Maringá, para todas as instituições de ensino superior, sejam elas públicas ou privadas, requer certa cautela. As apreciações aqui realizadas tratam-se fatores que estão intrinsecamente relacionados com as realidades socioeconômica dos jovens que buscam no ensino superior uma oportunidade de formação intelectual e profissional. Referências BRASIL. Eqüidade e heterogeneidade no ensino superior brasileiro. BORI, C. M; DURHAM, E. R. Supervisão geral. . Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, 2000. BRASIL. Instituto Brasileiro de Pesquisa Demográfica. Rio de Janeiro, Censo Demográfico 2000: Educação: Resultados da Amostra. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2000/educacao/censo2000_educ. pdf Acesso em: 20 de maio de 2008. 14 BOURDIEU, Pierre. Pierre Bourdieu: sociologia. Renato Ortiz (org). São Paulo: Editora Àtica. 1972. ______, Pierre. A economia das trocas simbólicas. Sergio Miceli (org). São Paulo: Perspectiva, 1974. ______, Pierre; PASSERON, Jean Claude. A reprodução: Elementos para uma teoria do sistema de ensino. 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