O SENTIDO MÍTICO DAS FOLIAS DE REIS DO VALE DO MUCURI
Cláudio Eduardo Rodrigues*
Cristina Xavier Cordeiro**
RESUMO
Entre as ricas e variadas manifestações culturais religiosas do Vale do Mucuri (nordeste de
Minas Gerais), as Folias de Reis destacam-se pela sua capacidade de gerar e fortalecer a vida,
a coesão e a identidade comunitária da região. Por meio de cânticos, danças, comidas e tantos
outros símbolos, elas congregam pessoas para preservarem suas memórias dos tempos
remotos do nascimento de Cristo e celebrarem a esperança de um novo mundo. A partir dessa
caracterização, verificou-se a existência de uma íntima relação entre as práticas dessa
expressão cultural e as vivências míticas, que conferem sentido à realidade e preservam a
identidade de diversos povos. Nessa perspectiva, o presente texto inicialmente aborda os
conceitos de Mito e a Folia de Reis, no intuito de estabelecer uma ligação entre eles e
posteriormente apresenta as particularidades dessa relação no Vale do Mucuri.
Palavras-chave: Mito. Cultura. Folias de Reis. Vale do Mucuri.
INTRODUÇÃO
Em meio às diversificadas manifestações culturais populares do Vale do Mucuri –
nordeste de Minas Gerais - as Folias de Reis destacam-se por sua capacidade de fortalecer os
vínculos sociais, a memória e a identidade das comunidades, por meio de suas cantigas,
contos, rituais, danças, símbolos e outros elementos rememorativos da época do nascimento
de Cristo. A partir dessa caracterização, verificou-se uma relação entre as práticas dessa
expressão cultural e as vivências míticas que conferem sentido à realidade e preservam a
identidade de diversos povos.
Frente a isso, propõe-se no presente texto, em um primeiro momento, uma discussão
teórica a cerca dos conceitos de Mito e Folias de Reis à luz das teorias estudadas, no intuito
de entender como esses conceitos estão relacionados, e em segundo momento analisar os
*
Doutor em Filosofia pela UFSCAR. Professor Adjunto da UFVJM - Universidade Federal dos Vales do
Jequitinhonha e Mucuri, atuando nas áreas de Filosofia, Ética, Filosofia da Educação e Metodologia Científica.
Clá[email protected].
**
Graduanda do Curso de Serviço Social da UFVJM (Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e
Mucuri. Bolsista do Projeto de Iniciação Científica (PIBIC/FAPEMIG-UFVJM): Fundamentos Míticos das
Folias de Reis do Vale do Mucuri. [email protected].
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fundamentos míticos que sustentam as Folias de Reis do Vale do Mucuri, bem como os
modos pelos quais eles são rememorados e reatualizados.
1 - Mito: o conceito
O mito é narrativa, história primordial e sagrada, relato que orienta comportamentos e
confere sentido à existência, proposta de vida, possibilidade de transcendência da realidade,
enfim um termo complexo e de difícil definição. Autores como Crippa, 1975, Ruthven, 1997
e Eliade, 2006 reconhecem a complexidade de conceituação do mito. Para Crippa 1975, tratase uma manifestação primordial que “para quem o vive é uma forma de realidade e para o
mundo inteligível que dele nasce, uma totalidade indefinível.” (p. 15).
Em sintonia com tais estudiosos, Rocha, 1999, argumenta que o mito é um termo que
esconde diversos sentidos, que pode representar diversas idéias e ser usado em diversos
contextos, por isso, ele é tão difícil de ser definido.
Frente a essa dificuldade de conceituação do mito, os especialistas tendem a concordar
que ele é tipo específico de narrativa das origens. Nessa perspectiva, Rocha, 1999, assegura
que o mito é um discurso, uma fala, uma possibilidade de reflexão sobre a vida humana e
sobre as relações que os homens mantêm entre si e o mundo. Ele revela as formas de pensar
de uma sociedade, suas concepções de ser e existir.
A partir desse conceito, Eliade, 2006, afirma que “o mito conta uma história sagrada;
ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do princípio”,
(p. 11). Assim, pode se dizer que os mitos são narrativas que, a partir da ação de entes
supremos, revela como uma realidade, uma ação social ou cultural passou a existir.
Se o mito é uma narrativa, qual então é a função dele? Os mitos revelam o mistério das
origens, os modos de ação e relação dos antepassados, por tal característica, eles têm o papel
de orientar os comportamentos humanos, pois “assim como fizeram nossos ancestrais na
antiguidade, assim fazemos hoje” (ELIADE, 1999, p. 12). O autor acrescenta que a principal
função dos mitos consiste em revelar esses modelos exemplares que fundamentam rituais,
atividades e interações humanas.
Além disso, os mitos têm uma função cultural, eles são guardiões das nossas tradições,
memórias e identidade, pois, na medida em que possibilitam aos homens reviverem
momentos passados e experiências ancestrais, os mitos favorecem a recuperação dos antigos
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valores e costumes de um grupo, satisfazendo assim, suas necessidades culturais, sociais e
religiosas.
Crippa,1975, ressalta que os mitos não são apenas narrativas que orientam ações, eles
são também uma experiência de realidade que confere sentido ao mundo e permite ao homem
entender sua própria existência. Sendo assim, por se tratar de uma realidade vivida, algo que
realmente existiu num passado remoto, Eliade 1999, afirma que os mitos não podem ser
confundidos com lendas, assim como não podem ser vistos como algo falacioso, falso,
mentira.
2 – Folias de Reis: rituais sagrados
A origem das Folias de Reis não se sabe ao certo, para alguns grupos de reisado essa
festividade começou com o nascimento de Cristo, enquanto que para alguns autores ela surgiu
por volta do século XVI como um ritual utilizado por camponeses portugueses para pedir
proteção contra as pragas que atacavam suas plantações.
Segundo Gomes e Pereira, 1995, a Folia de Reis nasce como um costume ibérico, e se
desenvolve no Brasil através da ação dos padres jesuítas, que as utilizavam como mecanismo
de catequização dos nativos. No Brasil a Folia ganha novos contornos, novas cores, ritmos,
danças, e diferentes formas de lidar com o sagrado. Aqui ela inculturou-se, agregando
elementos e práticas culturais indígenas e afro-brasileiras, expressando em seus ritos a
diversidade do povo brasileiro.
A Folia de Reis é um ritual que celebra o nascimento de Cristo e que rememora e
atualiza a caminhada dos Reis Magos ao encontro daquele recém nascido. Anualmente
diversos fiéis de Santo Reis se reúnem para recordar e reviver essa cena memorável do
cristianismo. Geralmente os devotos e os grupos de Reisado iniciam suas festividades no dia
25 de dezembro, data que, segundo as tradições orais, seria o dia do nascimento do menino
Jesus, e arrematam a festa no dia 06 de janeiro, dia em que os reis Magos finalmente teriam
encontrado o Menino1.
1
Essa é uma das possíveis explicações para as práticas dos Foliões, muitos grupos utilizam-se desse princípio,
mas há grupos que celebram no dia seis de janeiro o retorno dos reis Magos as suas terras de origem. Por se
tratar de relatos orais, as histórias, os significados dos gestos, assim como os fundamentos das datas são
constantemente re–interpretadas e re-significadas a partir do contexto e das vivências de cada grupo. Há também
histórias diferentes dentro do mesmo grupo, pois cada folião carrega consigo uma história de vida e uma forma
de ver o mundo que lhe é particular, e, portanto, uma forma de interpretar as coisas também particular.
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No período entre o dia 25 ao dia 06 os foliões saem pelas ruas e estradas peregrinando.
Visitam a casa de parentes e amigos num gesto de rememoração e atualização à cena sagrada
da caminhada dos três magos no Oriente em busca do Salvador do mundo.
Além desse momento religioso, voltado para o fortalecimento da fé, as Folias de Reis
têm também uma parte lúdica dedicada à folia – festa - um momento de descontração em que
antigos amigos e parentes se encontram, dançam batuques e caitiras, cantam músicas
tradicionais, fazem brincadeiras com as crianças e recordam histórias passadas. Nessa troca de
experiências eles reforçam antigos valores, fortalecem a identidade do grupo e seus laços de
companheirismo.
Núbia e Pereira, 1995 analisam esses dois momentos da Folia de Reis da seguinte
forma: existe uma espécie de “jogo” entre o lúdico e o sagrado, pois o momento festivo é
também um ritual sagrado.
Habituamo-nos a ver uma oposição entre o sagrado e o divertimento, pela seriedade atribuída
ao plano espiritual ou mesmo por uma visão dicotômica entre sacralidade e divertimento. A
Cultura popular, no entanto, (...) integra alegria e sacralidade: por esse motivo se canta e se
dança para Deus, numa atividade simultaneamente religiosa e lúdica. (NÚBIA e PEREIRA,
1995, p. 105-106)
No Grupo Pai João Preto 2, o instante dedicado à festa, ao batuque, não é considerado
um momento profano, segundo Dona Augusta, foliona do grupo, dança e canta-se em louvor
ao nascimento do menino Jesus. Em seu momento lúdico, o grupo recorda cantigas e as
danças de seus antepassados, buscam repetir gestos ancestrais. Por essas características,
Crippa, 1975, defende que esse instante é também considerado sagrado, pois sagrado é tudo
aquilo que segue um modelo primordial, é tudo aquilo que está vinculado às atividades
exemplares das origens.
As Folias de Reis em geral possuem esses dois momentos distintos e complementares,
porém, em cada lugar elas adquirem características próprias, em que as narrativas bíblicas são
ampliadas pelo que é mais significativo para os grupos de Folias e para as comunidades, seja
pelo recorte de algumas passagens, pela incorporação de histórias particulares de seu contexto
social e cultural-religioso, pela agregação de danças e gestos comuns ao seu cotidiano. Assim,
cada um desses grupos garante a identidade própria.
2
O Grupo Pai João Preto é formada por moradores e ex- moradores da Comunidade Remanescente
de Quilombo São Julião II, localizada no município de Teófilo Otoni, Vale do Mucuri – nordeste de
Minas Gerais.
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Essa contextualização das festas ocorre sem perder o significado original da Folia. Isso
nos remete a idéia de “circularidade contida no mundo dos significados e das resignificações que estão sempre em processo dinâmico de movimento” (MENDES, 2007. p.
46), no qual preserva-se elementos antigos e incorpora novas vivências e experiências
cotidianas do grupo. Assim, a tradição e a memória se mantêm vivas, pois elas se renovam a
cada festa.
3 - Relação entre mito e rito
A partir dessa caracterização do Mito e das Folias de Reis, busca-se compreender a
relação entre mito e rito na tentativa de estabelecer uma ligação entre os relatos e vivências
míticas e as práticas das Folias de Reis 3.
Eliade, 1969 argumenta que os homens ao realizarem seus rituais, buscam repetir atos
exemplares das origens, “todos os rituais têm um modelo divino, um arquétipo, (...), devemos
fazer assim como os deuses fizeram no principio” (p. 36), pois ao repetirem esses atos
primordiais os homens revivem eventos míticos e garantem sentido às suas práticas
ritualísticas.
Em sintonia com Eliade, 1969, Crippa, 1975, afirma que o sentido de um ritual é
garantido pelos mitos. São eles que “garantem a eficácia dos gestos rituais, (...) o mito
garante o rito, o rito reafirma o mito” (CRIPPA, 1975, p. 160). Nesse sentido, nota-se que
existe uma relação entre os mitos e os ritos, pois na medida em que os mitos fundamentam os
ritos, os ritos mantêm vivas as experiências míticas.
A respeito disso, Gomes e Pereira, 1995, em seus estudos sobre Folias de Reis
afirmam que os mitos definem e dão sentido às práticas religiosas dos foliões.
Além disso, tais pesquisas nos possibilitam verificar que as festas de Reis podem ser
analisadas em dois momentos, a saber, o primeiro quando o evento mítico da peregrinação
dos Reis Magos em direção á Belém aconteceu, e o segundo quando se ritualiza esse evento,
quando se rememora (recordar) e reatualiza (repetir) essa experiência sagrada por meio das
Folias de Reis.
3
Alguns estudiosos como Crippa, 1975, Ruthven, 1997 e Eliade, 1969 desenvolveram diversas pesquisas sobre a
relação mito/rito, no intuito de entender se é o mito que deriva do rito ou o contrário. Os ritualistas defendem que
o mito surge como uma explicação do rito, o que é contestado por outros autores que afirmam a existência de
mitos anteriores aos ritos. Nesse sentido, Ruthven sustenta que uma posição moderada seria a tese de que o mito
existe à nível do conceito enquanto que o rito existe a nível de ação.
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4 – A fundamentação mítica das Folias de Reis do Vale do Mucuri
Se os mitos conferem sentido aos rituais, qual seriam então as histórias que
fundamentam as Folias de Reis? A narrativa tradicional que sustenta as Folias de Reis de
modo geral se encontra nos escritos bíblicos de Mateus, 2: 1 – 12, que narram o nascimento
de Cristo, a viagem dos magos e o encontro dos três reis com o Menino.
Tendo, pois, nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que Magos vieram do
oriente a Jerusalém. Perguntaram a êles: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?
Vimos a sua estrêla no Oriente e viemos adorá-lo”. A esta notícia, o rei Herodes ficou
perturbado e toda Jerusalém com êle. Convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do
povo e indagou dêles onde havia de nascer o Cristo. Disseram-lhe: “Em Belém, na Judéia,
porque assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a
menor entre as cidades de Judá, porque de ti sairá o chefe que governará Israel, meu povo
(Miq. 5,2)”. Herodes, então, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sôbre a e época
exata em que o astro lhes tinha aparecido. E enviando-os a Belém disse: “Ide e informai-vos
bem a respeito do menino. Quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também
vá adorá-lo”. Tendo êles ouvido as palavras do rei, partiram.
E eis que a estrêla, que tinha visto no Oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde
estava o menino, e ali parou. A aparição daquela estrêla os encheu de profunda alegria.
Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostando-se diante dêle, o
adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhes como presentes: ouro, incenso e
mirra. Avisados em sonhos de não tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro
caminho. (p. 1286)
Ao se realizar a Folia de Reis, preserva-se a história original do nascimento de Cristo e
ao mesmo tempo amplia-se essa narrativa agregando elementos comuns a cada grupo. “Cada
Folia recriou o evento mítico segundo a situação vivencial do agrupamento (...) e hoje temos
processos rituais diversos” (GOMES e PEREIRA, 1995, p. 67).
Neste sentido, Dona Tiana, foliona do Grupo da Dona Joaninha, argumenta que as
Folias de Reis têm diferença porque “as coisas mudam. Mas a história é a mesma, a do
nascimento do Menino Jesus”.
Um fator que contribui para essa contextualização das Folias trata-se da interpretação
dos relatos sagrados, pois como são narrativas míticas, e o “mito não é objetivo, (...), fala
enviesado,(...), fala poético. Fala sério sem ser direto e óbvio” (ROCHA, 1999, p. 10), suas
narrativas estão sujeitas a variadas interpretações e (re)interpretações.
Uma dessas (re) interpretações é o fato de que a tradição popular atribuir a
denominação de “reis” aos magos. Para os estudiosos da bíblia, provavelmente seriam sábios,
astrólogos ou astrônomos. Outra questão trata-se da santificação dos reis magos pela
religiosidade popular. Muitos devotos de Santo Reis fazem promessas, oferendas, acreditando
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no poder milagroso dos santos, é inclusive em torno dessa crença que as Folias se renovam e
perduram. A cada sete anos um fiel estabelece um acordo simbólico com os santos reis, na
qual o devoto roga por um milagre ou uma graça e em troca assume a responsabilidade de
organizar a Folia durante sete anos.
Durante o acompanhamento das Folias de Reis do Vale do Mucuri: Grupo Folclórico
Folia de Santo Reis Imaculada Conceição, popularmente conhecido como Grupo da Dona
Joaninha – nome da mestra da Folia - e Grupo Pai João Preto, verificou-se que esses grupos
buscam preservar os mitos originais das Folias, porém contam a mesma história de modo
diferente, reatualizam aquela narrativa sagrada a partir de gestos, danças, cores específicas de
cada Folia.
O Grupo Pai João Preto se baseia nos relatos de São Mateus para fundamentar suas
festividades de Reis, dona Augusta – mestra da Folia – ressalta em suas histórias o papel da
estrela guia, o símbolo que, segundo ela, guiou os Magos no Oriente e possibilitou que eles
voltassem para suas terras sem serem vistos por Herodes. Ela conta que Herodes chegou a
prender os Magos no intuito de ver se a estrela iria brilhar e qual a direção que ela apontava.
Porém, o rei Herodes não sabia que somente os santos reis podiam vê-la, porque eles foram
escolhidos por Deus. Esse poder atribuído aos magos, em partes, justifica a santificação deles
pelo catolicismo popular.
A estrela representa o elo de comunicação entre o mundo natural e o sobrenatural, foi
por meio dela que Deus transmitiu sua mensagem aos magos, foi graças a ela que a profecia
do nascimento do Salvador pode se realizar. Por essa razão, a estrela é entendida como um
símbolo sagrado que “ilumina” e norteia, assim como oriente, a peregrinação dos foliões representantes dos Magos.
Esse sentido da estrela transcende o momento festivo-religioso das Folias e adquire
poder simbólico na vida cotidiana dos fiéis do Grupo Pai João Preto, muitos pedem a estrela
guia que oriente seus passos e norteei suas decisões e a de seus familiares ao longo de suas
vidas. Além disso, esse simbolismo e destaque à estrela se justificam pelo fato desse grupo ser
organizado na zona rural, onde as luzes celestes desempenham também o papel de iluminar os
passeios noturnos dos moradores da região.
O Grupo Folclórico Folia de Santo Reis Imaculada Conceição também acredita que
aquela narrativa bíblica fundamenta e confere sentido às práticas dos foliões. Dona Tiana,
foliona do grupo, argumenta que a Folia de Reis é uma celebração ao nascimento de Jesus.
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Segundo ela, a história conta que naquele tempo em que o Menino Jesus nasceu ele foi
escondido na Lapinha porque estava sendo perseguido, vieram, então, os Reis Magos e Maria
Madalena para protegerem o Menino.
Nota-se que o grupo interpreta a história sagrada a seu modo e acrescenta a
personagem Maria Madalena aos mitos fundantes da Folia. Provavelmente o fato de o grupo
ser formado em sua maioria por mulheres, fez com que buscasse ampliar aquele relato
primordial no intuito de se ter um personagem feminino a ser representado no ritual.
4.1 – Rememoração e reatualização mítica nas Folias de Reis
As Folias de Reis buscam não somente rememorar suas narrativas fundantes, mas
também reatualizá-las e revivê-las, por meio de seus símbolos, ritos, gestos, cantos, ritmo e
cor. Cada elemento da Folia possui um sentido mítico, uma explicação que se remete àquela
história sagrada do nascimento de Cristo.
Os elementos das Folias de Reis possibilitam aos seus devotos retornarem
simbolicamente ao tempo fabuloso do nascimento de Cristo e com isso reviverem aquelas
experiências míticas, reintegrando assim, espaço e momento presente ao passado. “Numa
fórmula sumária poderíamos dizer que ao ‘viver’ os mitos, sai-se do tempo profano,
cronológico, integrando-se num tempo qualitativamente diferente, um tempo ‘sagrado’, ao
mesmo tempo primordial e indefinidamente recuperável”. (ELIADE, 2006, p. 21).
Essa reintegração ocorre por meio da rememoração e reatualização mítica, isto é,
através da “contação” de histórias e da repetição dos gestos realizados por entes sagrados
naquele tempo, pois, o que aconteceu ‘ab origine’ pode ser repetido através dos ritos (...) ao
rememorar os mitos e reatualizá-los, ele [o homem] é capaz de repetir o que os deuses, os
Heróis ou os Ancestrais fizeram ‘ab origine’ ” (ELIADE, 2006, p. 17).
Nesse enfoque, verificou-se que as Folias de Reis do Vale do Mucuri buscam reviver a
história sagrada dos Reis Magos em três momentos: a caminhada, a visita e a despedida.
A) No primeiro momento, os foliões, guiados pela bandeira do grupo, caminham pelos
campos e ruas em direção às casas de parentes e amigos. A tradição diz que os foliões buscam
repetir o mesmo gesto dos Magos, saem à noite e em silêncio como se estivessem escondendo
do próprio rei Herodes, e chegam de surpresa na casa dos devotos, pois “santo reis é
surpresa, não avisa que vai chegá” (Dona Zinha). Fazem isso no intuito de reviverem aquele
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instante sagrado e de serem abençoados por Deus, assim como os Magos foram. Dona
Augusta assegura que agem assim “é porque os três magos andavam acompanhando a estrela
e ia até onde que Jesus nasceu. Precisava acolher ele porque senão o Herodes matava ele.”
B) Onde a bandeira parar os foliões se organizam para começar o segundo momento: a
visitação. Os reiseiros se dirigem á casa e cantam pedindo para entrar:
Boa noite meu sinhô, aqui cheguemos cantando, isso são vésperas de festa, entrada do novo
ano,(...) O santo Reis verdadeiro aqui veio lhes visitar, vem trazer muita saudade sua esmola
veio buscar... .Aqui estão belas pastoras que vem lá do oriente, visitar o Deus Menino que os
ama docemente (Música do grupo Pai João Preto)
Nesse momento observa-se a transfiguração dos foliões nos reis magos e as folionas
nas pastoras que, segundo Dona Augusta, também foram visitar Jesus. Ao se transfigurarem,
seres supremos passam a agir através desses fiéis, forças misteriosas passam a orientar os
gestos desses reiseiros e reiseiras, eles se sentem como se fossem os próprios entes sagrados.
A incorporação daquelas figuras míticas possibilita aos foliões se inserirem no espaço das
sacralidades e reviverem a experiência dos magos no oriente.
Em seguida, eles cantam em torno do presépio – Lapinha. Oferecem seus cantos e sua
devoção em rememoração ao ouro, incenso e mirra que foram ofertados pelos magos e
louvam o (re) nascimento de Cristo e encontro dos reis magos com Menino:
Vinte e cinco de dezembro, meia noite deu sinal, renasceu o menino Deus numa noite de natal.
Os três reis quando souberam viajaram sem parar, cada um trouxe um presente para o
Menino Deus louvar (Música do Grupo Folclórico Folia de Santo Imaculada Conceição).
C) Após visitarem o Menino Jesus representado no presépio, os foliões se despedem
dos donos da casa e saem cantando e reatualizando o retorno dos magos às suas terras.
A bandeira vai se embora, as fitas vai voando,
se despede dos festeiros para voltar no outro ano.
5 – Elementos simbólicos nas Folias de Reis
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Além desses ritos, os mitos das Folias de Reis são rememorados e reatualizados por
meio de símbolos como a bandeira, o presépio, as rezas do terço, as danças e cores utilizadas
nas festas.
5.1 – O Presépio
O presépio é uma armação no formato de gruta que representa a Lapinha de Belém,
cenário ideal de visitação dos foliões. Cada devoto arma seu presépio agregando elementos e
símbolos importantes no seu contexto religioso. Geralmente encontra-se a figura da Sagrada
Família, Santos Reis, animais, velas e plantas que vivificam aquele espaço. De acordo com a
história oral, esses elementos compunham o cenário sagrado da lapinha. Mendes, 2007
conclui que o presépio surge então como uma “representação material” do contexto bíblico.
Segundo Zorra, 2009, folião do grupo “Pai João Preto” o presépio:
Tem toda essa simbologia. O Reis é uma louvação no presépio, né, é uma visita dos Reis e
depois uma louvação, louvar onde que o Menino Deus está deitado. Então todo reis é contado
essa história, né, quem cantar o verso dos Reis é falando isso, desde a viagem deles até o
nascimento, você revive essa história do nascimento de Deus.
Assim, ao se aproximarem desse cenário sagrado, os fiéis tiram os chapéus e se
ajoelham em sinal de respeito e devoção. Rogam seus pedidos a Cristo e a Santo Reis, pois
acreditam que quando estão próximos do presépio estão também mais perto dos Santos e de
Cristo. Para eles aqueles símbolos e imagens contidos no presépio não são apenas objetos do
seu cotidiano, eles representam algo pra além daquilo que é visível aos olhos, eles são
verdadeiras expressões do sagrado. Nesse sentido, Crippa, 1975, assevera que ao nos
aproximarmos de símbolos significativos, estamos nos aproximando também do sagrado.
Dona Joaninha fala que quando a casa tem presépio, “graças a Deus! Ela está
abençoada”, pois o presépio é carregado de elementos que têm o poder de sacralizar e
abençoar a casa. Crente nesse mistério do presépio, Dona Augusta, 2009 conta que reza diante
do presépio, porque:
Alí eu estou fazendo uma contemplação de mostrar que um recém nascido está alí. Aí a gente
pede pra toda família paz e amor. A gente está conversando, com ele nascido, mesmo que a
gente sabe, oh! Quantos anos isso faz, mas a gente fica repetindo, e repeti, toda vida, e só assim
a gente recebe muita paz.
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O que confere essa sacralidade ao presépio é exatamente a diversidade de símbolos
rememorativos daquele evento mítico que ele congrega, pois como afirma Eliade, 1969,
sagrado é tudo aquilo que segue um modelo primordial, é tudo aquilo que tem um sentido
mítico.
Nesse sentido, nota-se que o presépio é um cenário repleto de hierofanias, isto é, ele é
carregado de objetos que dentro desse tempo e espaço significativo adquirem sentidos
diversos. De acordo com Crippa, 1975, hierofania, consiste nas múltiplas expressões e
modalidades do sagrado.
Em sintonia com Crippa, 1975, Eliade, 1992, afirma que hirofania é “manifestação de
algo de ordem diferente – de uma realidade que não pertence ao nosso mundo - em objetos
que fazem parte do nosso mundo, natural” (p. 13). E quando o sagrado se manifesta em
objetos cotidianos, eles adquirem novos sentidos, “a pedra sagrada, a árvore sagrada, não
são adoradas como pedra e árvore, são-no justamente porque são ‘hierofanias’, porque
mostram qualquer coisa, que já não é pedra nem árvore, mas o sagrado, o ‘ganz andere’”
(ELIADE, 1992, p.13). Contudo, o autor acrescenta que toda hierofania apresenta um
paradoxo, pois tanto a pedra, quanto a árvore continuam com suas formas materiais de pedra e
árvore, “um objeto qualquer torna-se outra coisa, e continua a ser ele mesmo”, porque
continua sendo parte desse espaço natural.
5.2 – A Bandeira
Um outro elemento hierofânico importante dentro desse universo religioso das Folias
de Reis do Vale do Mucuri é a bandeira. Geralmente ela é carregada por um alfer e segue
sempre à frente dos fiéis, orientando a peregrinação dos “reiseiros” até os presépios. Cada
bandeira é carregada de alegorias que a identificam, tais como: o nome do grupo, as imagens
da sagrada família e dos três Reis Magos, as fitas coloridas e a figura da estrela guia. Esses
elementos recordam os personagens que estavam com Jesus na Lapinha.
Os devotos contam que não podem passar na frente da bandeira, pois podem ser
amaldiçoados, e o lugar que ela parar, é o lugar que os foliões devem cantar. Isso porque “a
bandeira é a vela que ilumina a fé dos foliões e, simultaneamente, a estrela que os conduz em
sua peregrinação em busca do sagrado.” (GOMES e PEREIRA, 1995, p. 129).
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Outro símbolo importante nas bandeiras é figura dos Santos Reis e da Sagrada família.
A representação desses personagens possibilita aos devotos se comunicarem com aqueles
entes supremos, fazendo seus pedidos e recebendo suas bênçãos e milagres. Pois, enquanto
uma hierofania, a bandeira serve como mecanismo de ligação entre o mundo humano e o
mundo transcendental.
Segundo Dona Joaninha, a tradição da Folia diz que os devotos beijam a bandeira,
passam-na em suas cabeças, fazem seus pedidos e recebem as bênçãos dos santos, isso
“porque ela é sagrada, pra quem considera, pra quem tem Santo Reis no coração, ela é
sagrada, não pode nem colocar a bandeira em qualquer lugar”. Assim, com os sentimentos
despertados, os devotos comunicam-se espontaneamente com os símbolos que a bandeira
carrega, afirma Gomes e Pereira, 1995.
5.3 – Cores e Rezas
Os foliões do Vale do Mucuri buscam também rememorar e reatualizar aquele
acontecido mítico por meio das cores.
O Grupo da Dona Joaninha usa em suas indumentárias o azul e o branco que
simbolizam as cores do manto que Maria usou ao dar a luz a seu filho Jesus. Em relação aos
adereços, tanto este grupo, quanto o Grupo Pai João Preto utilizam muitas fitas coloridas e
brilhosas, com destaque ao amarelo e dourado que simbolizam a vida e o brilho da estrela
guia.
Além disso, os grupos buscam preservar crenças e costumes do catolicismo popular,
assim como fortalecer a fé dos fiéis através das rezas do terço, que por meio das ave-marias e
santa-marias rememoram a peregrinação da mãe do Salvador a procura de um lugar para dar a
luz a seu filho. Tanto o Grupo da Dona Joaninha quanto o Pai João Preto rezam o terço,
porém no primeiro grupo isso ocorre na festa de arremate da folia, enquanto que no segundo o
terço é rezado todos os dias antes dos foliões saírem, num gesto de renovação das tradições.
6 - Conclusão
Frente ao avanço da racionalidade científica, a análise das Folias de Reis a partir de
uma perspectiva mítica contribui para uma ampla compreensão delas enquanto expressão
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cultural que recupera elementos da vivência humana e da identidade de diversos grupos
culturais, bem como possibilita a construção de um conhecimento que gere respeito e
valorização dessas experiências culturais.
Ao analisar os fundamentos míticos das Folias de Reis do Vale do Mucuri, verificouse também que elas possuem um caráter social, pois na medida em reforçam crenças
populares, elas favorecem o encontro de pessoas, geram divisão social do trabalho e partilha
de bens, possibilitando aos devotos trocarem experiências e fortalecerem relações sociais.
Com isso essas festividades têm reforçado a identidade comunitária e favorecido a luta social
entre seus membros.
Nesse enfoque cabe salientar a força e relevância sócio-cultural dessa Festa popular,
que em meio ao cientificismo e à massificação da cultura, se mantêm vivas, sustentando a
identidade de diversas comunidades do Vale do Mucuri.
7 - REFERÊNCIAS
BÍBLIA SAGRADA. Edição Claretiana. Tradução do Centro Bíblico Católico. São Paulo:
Ave Maria, 1989.
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O SENTIDO MÍTICO DAS FOLIAS DE REIS DO VALE DO MUCURI