O ATIVISMO DIGITAL E A REPERCUSSÃO ONLINE E OFFLINE DO CASO DA
“MARCHA DAS VADIAS” NO DISTRITO FEDERAL¹
KOECH, Ana Luiza Lopes²; MACHADO, Scheila³; MARONEZE, Mariana Cunha4;
OLIVEIRA, Rafael Santos de5; SALLA, Mariana Fenalti6.
1 Resultados parciais do Projeto de Pesquisa “Ativismo digital e as novas mídias: desafios e
oportunidades da cidadania global”, vinculado ao Núcleo de Direito Informacional (NUDI) e
desenvolvido no Curso de Direito da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
2 Curso de Direito da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil
3 Curso de Direito da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil
4 Curso de Direito da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil
5 Curso de Direito da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil
6 Curso de Direito da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil
E-mail: [email protected]; [email protected]; [email protected];
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RESUMO
O ativismo digital é um fenômeno atual derivado das novas tecnologias de informação e
comunicação, as quais facilitam a comunicação entre indivíduos e, consequentemente, sua
organização em prol de causas de seu interesse. A “Marcha das Vadias” é um movimento pela
igualdade de gênero que surgiu no início de 2011 no Canadá e se espalhou pelo mundo, graças à
rápida comunicação através da Internet. No Brasil, a Marcha ocorreu em várias cidades, organizada
basicamente por meio de redes sociais e blogs. O presente artigo tem como objetivo analisar a
repercussão online e offline da “Marcha das Vadias” no Distrito Federal. Pôde-se concluir que a
Internet efetivamente possibilita que pessoas engajadas se reúnam e coloquem em prática suas
convicções, por meio de ações concretas, fazendo com que o ativismo digital alcance as esferas nãovirtuais e repercuta nas mídias tradicionais, trazendo à tona debates aos quais não era dado espaço
significativo.
Palavras-chave: ativismo digital; marcha das vadias; redes sociais
1. INTRODUÇÃO
Atualmente, o mundo, sobretudo a sociedade ocidental, encontra-se inserido na
chamada “era da globalização e mundialização”, na qual o intercâmbio de informações e de
circulação de pessoas e serviços possuem velocidade instantânea em razão da Internet. A
virtualização dessas informações implica, também, na pluralização da emissão de ideias,
crenças e convicções políticas, que são articuladas e difundidas no ciberespaço em tempo
real.
Conforme observa Dênis de Moraes, “a organização em redes, dentro e fora da
internet, se revela inovadora”, na medida em que as redes virtuais “servem de estatuários
para a defesa de identidades culturais, a promoção de valores éticos e a democratização da
esfera pública” (2001). Emerge, assim, o movimento denominado ciberativismo, também
conhecido como ativismo online ou ativismo digital, utilizado para divulgar causas, fazer
reivindicações e organizar mobilizações em prol da luta por um ou mais direitos que são o
objeto de defesa desse conjunto virtualmente organizado de indivíduos.
A utilização da Internet pelos cibernautas para a dispersão de novas ideias, críticas e
opiniões deve-se às facilidades proporcionadas por esse meio, quais sejam, livre acesso,
ausência de prévio controle sobre o conteúdo veiculado, baixo custo, bem como a forma
instantânea de divulgação das informações e o alcance imediato a inúmeras pessoas em
todo o mundo.
Nesse contexto, os movimentos sociais têm feito uso da rede mundial de
computadores para a disseminação de seus ideais. Relevante, nesse sentido, o estudo da
função desempenhada pelas mídias digitais para agregar pessoas que possuem um
conjunto de pensamentos e reivindicações semelhantes, mas não necessariamente bem
delimitadas. Da mesma forma, busca-se identificar quais implicações e resultados concretos
são obtidos, no plano geográfico, por grupos e manifestações que se organizam,
essencialmente, no espaço virtual.
Para tanto, analisou-se, especificamente, a organização e difusão do movimento que
luta, em seu sentido mais amplo, pela igualdade de gênero das mulheres. Tal movimento,
no Brasil, ficou conhecido como a “Marcha das Vadias.” Desse modo, objetiva-se comparar
a participação online e offline dos internautas, especialmente na rede social Facebook, bem
como analisar as consequências do uso da Internet para o crescimento desse movimento e
da divulgação dos direitos defendidos por esse grupo, particularmente no Distrito Federal.
A pesquisa limita-se à marcha ocorrida no Distrito Federal devido à grande proporção
que o evento tomou e sua repercussão, tornando acessíveis dados específicos que
auxiliaram no desenvolvimento do presente trabalho.
2. METODOLOGIA
Para a realização desta pesquisa, empregou-se o método de abordagem dedutivo,
de modo que se estudou o ativismo digital e, em seguida, analisaram-se as consequências
advindas do uso da Internet na divulgação do ideário do movimento social “Marcha das
Vadias” no Distrito Federal, sobretudo por meio da análise das manifestações veiculadas na
rede social Facebook. Ainda, verificou-se a exteriorização do movimento do âmbito online
para o offline, com a efetiva participação dos internautas na marcha propriamente dita.
A verificação das discussões, opiniões e críticas difundidas na web e da transposição
do movimento para fora do mundo virtual deu-se pela análise sistemática e não participativa
no Facebook.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 Ativismo digital
Em um Estado democrático de direito, a cidadania é um dos maiores bens do
indivíduo. Essa só é plena quando os direitos à informação e à liberdade de expressão são
assegurados, ou seja, quando todo cidadão tem a possibilidade de participação política. A
mídia é fator essencial na comunicação e na política sendo que, até a década de 1980, as
grandes mídias tradicionais predominavam. Por essa razão, na antiga configuração mundial,
mesmo que essas liberdades existissem, as possibilidades de exercê-las eram pequenas,
uma vez que a grande mídia tem como características “a sua unidirecionalidade e produção
centralizada, integrada e padronizada de seus conteúdos.” (LIMA, 2011, p. 152).
No final do século XX, surgiu a “comunicação realizada através da rede mundial de
computadores” (LIMA, 2011, p. 152), a qual se denominou “novas mídias”. Essas ampliam
de maneira significativa a garantia da cidadania, uma vez que qualquer indivíduo com
acesso à Internet pode ser um emissor, ampliando a possibilidade de expressão, informação
e participação popular. Abre-se espaço para o “componente deliberativo que assinala o
surgimento de uma verdadeira esfera pública cidadão, não mediada industrialmente”
(UGARTE, 2008, p. 41).
Desse modo, a Internet possibilita o nascimento de novas lideranças e do
ciberativismo em luta por direitos. Recentemente, com a popularização das redes sociais,
como Facebook e Twitter, o ativismo digital sofreu grande expansão.
David de Ugarte define o ciberativismo como “toda estratégia que persegue a
mudança da agenda pública, a inclusão de um novo tema na ordem do dia da grande
discussão social, mediante a difusão de uma determinada mensagem e sua propagação
através do “boca a boca” multiplicado pelos meios de comunicação e publicação eletrônica
pessoal” (2008, p. 77).
Sob esse mesmo viés, Dênis de Moraes refere-se ao ciberespaço como “uma arena
complementar de mobilização e politização, somando-se a assembléias, passeatas, atos
públicos e panfletos” (2001).
Em meio a esse fenômeno, paira a dúvida acerca da real territorialização desses
movimentos, ou seja, se há ações concretas em ambientes não-virtuais, como reuniões e
passeatas, ou se há uma restrição das discussões ao mundo virtual. Além disso, há a
questão de qual a efetividade dessas manifestações na conquista dos direitos que
reivindicam. Visando a esclarecer esses questionamentos, analisou-se o caso da “Marcha
das Vadias”, especificamente a ocorrida no Distrito Federal.
3.2 “Marcha das Vadias”
A “Marcha das Vadias” é um movimento pela igualdade de gênero que surgiu em
janeiro de 2011, no Canadá, quando cerca de 3 mil pessoas foram às ruas após um policial
canadense afirmar que a motivação para tantos casos de violência sexual era a maneira das
mulheres se vestirem, segundo ele, como “vadias” (FACEBOOK, 2012).
Devido à grande repercussão nas novas mídias, o movimento rapidamente se
expandiu pelo mundo e pelo Brasil, sendo que mais de 200 cidades aderiram à marcha
somente em 2011 (SLUTWALKTORONTO, 2011). As redes sociais foram o alicerce da
organização desse movimento. Tanto na marcha genitora, em Toronto, quanto em dezenas
de outras delas, a página no Facebook (FACEBOOK, 2012) surgiu antes de o evento
ocorrer, auxiliando na sua organização e divulgação. No Brasil, em cerca de três meses, o
movimento ocorreu em mais de 21 cidades (MARCHADASVADIASBR, 2012), sendo que
todos eles tiveram em sua organização o envolvimento de redes sociais, principalmente
Facebook e Twitter.
A notável utilização dessas ferramentas digitais na organização da “Marcha das
Vadias” ocorre pois elas “facilitam a intercomunicação de indivíduos e agrupamentos
heterogêneos que compartilham visões de mundo, sentimentos e desejos” (MORAES,
2001), além de serem “acessíveis, fáceis de usar e gratuitas” (LEMOS e LÉVY, 2010, p.
107). Por meio da página da “Marcha das Vadias” do Distrito Federal no Facebook, foram
convidadas 18.182 pessoas (FACEBOOK, 2012). O gasto, o deslocamento e o tempo que
se despenderia para convidar todas essas pessoas de um modo tradicional, como a
distribuição de panfletos, são incomparáveis com as condições viabilizadas pelas redes
sociais.
Analisando-se os dados das manifestações, percebe-se que essas não se restringem
ao meio virtual. “Nas grandes cidades, o uso de redes eletrônicas está permitindo construir
grupos que, virtuais em seu nascimento, acabam se territorializando, passando da conexão
ao encontro, e do encontro à ação” (BARBERO, 2000 apud MORAES,2001). A “Marcha das
Vadias” do Distrito Federal é exemplo de expressiva territorialização, pois teve 3.622
confirmações de presença no evento criado na página do Facebook (FACEBOOK, 2012) e,
segundo dados da Polícia Militar, foram às ruas cerca de 3.000 pessoas (ARAZAO, 2012).
Uma característica importante das redes sociais é a possibilidade de, mesmo após o
encerramento de uma manifestação, a discussão continuar virtualmente. Essa comunicação
ocorre de forma horizontal (WARREN, 1997 apud MORAES, 2001). Todos possuem a
oportunidade de publicar informações e o direito de resposta é instantâneo. Ademais, a
discussão nessa ágora da sociedade moderna (CASTELLS, 2004) permite reunir uma
quantidade muito maior de pessoas. No caso da “Marcha das Vadias” do Distrito Federal,
durante seu ápice no Facebook (do dia 25 a 31 de maio de 2012), havia 24.087 pessoas
falando sobre o assunto (FACEBOOK, 2012). Outra vantagem da discussão virtual é que,
diferentemente da discussão oral, após o encerramento da conversa ela permanece salva
no que Lévy chama de a “memória da internet”, podendo, a qualquer momento, ser revivida.
CONCLUSÕES
Como já referido, a Internet, por meio das redes sociais como o Facebook e websites
interativos, viabiliza a agregação de pessoas com interesses comuns, bem como a troca
rápida de diversas informações, pensamentos e conteúdos. Uma vez que a reunião e
discussão são facilitadas pelo uso dessa tecnologia, temas latentes e polêmicos passam a
ser debatidos e visualizados por um grande número de pessoas de modo célere e gratuito,
como nunca antes foi imaginado. Dessa forma, inúmeros protestos e reivindicações surgem
no meio virtual, muitas vezes transferindo-se para o mundo físico no formato de marchas. É
o caso da “Marcha das Vadias” ocorrida no Distrito Federal, nesse trabalho analisada, em
que se pôde observar a clara transferência do debate virtual para a ação nas ruas, pois o
número de pessoas que compareceu ao evento foi muito próximo àquele que confirmou
presença através da página do Facebook. Ademais, pode-se verificar a continuidade do
debate online promovendo outras ações relacionadas e discutindo a repercussão da que
passou.
Conclui-se, portanto, que a Internet efetivamente possibilita que as pessoas engajadas
exponham, discutam e, por fim, coloquem em prática seus pensamentos e convicções, por
meio de ações concretas, reunidas com outros agentes interessados nas mesmas causas,
dinamizando as lutas das entidades civis a favor da justiça social (MORAES, 2001). É o
denominado ativismo digital alcançando as esferas não-virtuais e, consequentemente,
repercutindo nas mídias tradicionais para trazer à tona debates que anteriormente eram
velados ou aos quais não era dado espaço significativo.
REFERÊNCIAS
ARAZAO. Disponível em: <http://arazao.com.br/geral/cerca-de-3-mil-brasilienses-protestampor-liberdade-feminina-na-marcha-das-vadias/>. Acesso em 27jun.2012.
CASTELLS, Manuel. A Galáxia Internet: reflexões sobre Internet, Negócios e Sociedade.
Lisboa: Fundação CalousteGulbenkian, 2004.
FACEBOOK. Disponível em: <https://www.facebook.com/events/344865505579051>.
Acesso em: 27 jun.2012.
__________. Disponível em: <https://www.facebook.com/events/384366101598536/>.
Acesso em: 27jun.2012.
__________. Disponível em:<https://www.facebook.com/marchadasvadiasdf/likes>. Acesso
em: 27jun2012.
__________. Disponível em: <https://www.facebook.com/SlutWalkToronto>. Acesso em: 27
jun.2012.
LEMOS, André. LEVY, Pierre. O futuro da internet: em direção a uma ciberdemocracia
planetária. São Paulo: Paulus, 2010.
LIMA, Venício Artur de. 2011. Regulação das comunicações: história, poder e direitos.
São Paulo: Paulus, 2011.
MARCHADASVADIASBR. Disponível em:
<http://marchadasvadiasbr.wordpress.com/calendario/>. Acesso em 27jun.2012.
MORAES, Dênis de. O ativismo digital. Disponível em: <http:www.bocc.ubi.pt/pag/moraesdenis-ativismo-digital.html> Acesso em: 27jun.2012.
SLUTWALKTORONTO. Disponível em: <http://www.slutwalktoronto.com/>. Acesso em
27jun. 2012.
UGARTE, David de. O poder das redes: manual ilustrado para pessoas, organizações e
empresas, chamadas a praticar o ciberativismo. Porto Alegre: EdiPucrs, 2008.
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