PADRE ANTÔNIO VIEIRA NA SALA DE AULA: NOTAS DA
PRIMEIRA INVASÃO HOLANDESA AO BRASIL
Glêyse Santos Santana (UFS)
[email protected]
Luiz Carlos Santos Prado (UFS)
[email protected]
Palavras-Chave: Ensino de História, Estudos Culturais, Práticas Educativas.
Segundo Jacques Le Goff, desde a Antiguidade, a ciência histórica reuniu
documentos escritos e fez deles testemunho. [...] Afirma também, que o fato histórico
não é um objeto dado e acabado, pois resulta da construção do historiador. Por sua vez,
o documento não é objetivo e inocente, mas que exprime o poder da sociedade do
passado sobre a memória e o futuro: o documento é monumento. Para ele o processo da
memória no homem faz intervir não só a ordenação de vestígios, mas também a
releitura desses vestígios (1990, p.10-12). Já Paul Veyne ao diferenciar história natural
e história humana, expõe que “o homem delibera, a natureza não; a história seria sem
sentido se negligenciarmos o fato de os homens terem objetivos, fins, intenções”
(VEYNE apud LE GOFF, 1990, p. 12).
Assim, o presente texto, que surgiu a partir de uma experiência docente, tem
como objetivo apresentar as principais representações do padre Antônio Vieira1 acerca
da invasão batava ao Brasil, em contraponto com a historiografia oficial, buscando
aproximações e dissonâncias. A visão do referido religioso sobre o fato, foi cristalizada
na fonte primária: Ânua da Província do Brasil do Colégio da Bahia dos dois anos de
1624 e-16252, enviada à Companhia de Jesus pelo referido clérigo, a 30 de setembro de
1626, e aqui reproduzida como suporte à atividade pretendida.
1
2
- Este ano completando seu quatrocentésimo aniversário.
VIEIRA, Antônio. Ânua da Província do Brasil dos dois anos de 1624 e de 1625 In: História
Administrativa do Brasil; A União Ibérica: Administração do Brasil Holandês. Brasília. Editora
Universidade de Brasília, 1983, p.423.
2
Tal empreitada se justifica como uma proposta mais condizente com as
exigências do processo de ensino e aprendizagem contemporâneo, que tem como uma
de suas bases os PCN´s, além de se justificar também por motivar a compreensão do
documento, seu estatuto de fonte, a reflexão acerca do binômio passado/presente, e
principalmente, longe de se esperar uma conduta de perito por parte dos alunos, visa
propiciar uma aproximação do discente em relação ao labor do historiador.
Dessa maneira, objetivando por em prática tal projeto, foram realizada duas
atividades: uma aula expositiva com o objetivo de apresentar o conteúdo, denominado
Primeira Invasão Holandesa ao Brasil e ligá-lo a biografia do padre Antônio Vieira, que
se encontrava na Bahia à época do fato em questão e do qual foi “testemunha”. Utilizouse para isso duas obras em questão: a História do Brasil de Boris Fausto e a
Nobiliarquia Paulista Histórica e Genealógica; a seguir, empreendeu-se uma leitura
conjunta do documento, que foi dividido em partes e analisado para a elaboração do
resultado final.
O primeiro passo dessa prática foi demonstrar de que forma de cristalizou na
historiografia brasileira a chegada dos holandeses, fato que marcou a vida da Colônia no
ano de 1624. Contudo, se fez também necessário contextualizar o acontecimento nas
relações internacionais. Assim, as invasões holandesas do século XVII marcaram o
Nordeste e, sem dúvida, foram o maior conflito político-militar do período colonial
brasileiro.
Mais do que um simples episódio regional, tal fato está inserido no
complexo quadro de relações internacionais entre os países europeus, revelando a
dimensão do conflito pelo controle do açúcar e do tráfico de escravos à época.
Esse acontecimento histórico liga-se diretamente à União das Coroas Ibéricas e
na medida em que havia um conflito aberto entre Espanha e Países Baixos, o
relacionamento entre Portugal e Espanha iria inevitavelmente mudar. Portugal
anteriormente mantinha boas relações com a Holanda, principalmente no campo
comercial. Vendia-lhe sal, vinho, especiarias orientais e madeira; comprando em troca
tecidos finos, metais e objetos manufaturados em geral. Com o início do domínio
espanhol, esse comércio foi interrompido devido à luta hispano-holandesa. Tal
descontinuidade deixaria seqüelas. Sérios prejuízos deixaram desabastecida à Holanda,
principal distribuidora do açúcar português no norte da Europa. Assim, a União Ibérica
e o desenrolar dos fatos, transformaria os portugueses antes aliados, em inimigos de
seus fregueses e fornecedores.
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A desavença resultou no surgimento da Companhia de Comércio das Índias
Ocidentais (1621), fator determinante para o projeto de invasão do Brasil. Esta empresa
possuía capital do governo e uma cota preenchida por particulares. Seu interesse central:
restabelecer o fornecimento do açúcar brasileiro à Holanda. Dessa forma, a organização
econômica flamenga, decidiu-se pela tomada das terras da Nova Lusitânia. Aqui, o
olhar recairá sobre a primeira invasão dos holandeses ao Brasil em 1624. E é nesse
contexto que se insere a figura do padre Antônio Vieira.
Como planejado, posteriormente apresentou-se uma breve biografia do clérigo e
literato, abordando os seguintes aspectos: o religioso, lisboeta de nascimento
(06/02/1608), chegou ao Brasil, terra da qual nunca se afastaria por completo aos sete
anos de idade. Integrou-se ao Colégio dos Jesuítas e posteriormente a Companhia de
Jesus. Tornou-se grande escritor e orador de seu tempo, qualidade que o fez receber de
Fernando Pessoa a alcunha de “imperador da língua portuguesa” 3. Após a Restauração
de 1640, retorne a Portugal como confessor de D. João IV; exerce a diplomacia em
nome do referido rei; combatente ferrenho da causa dos índios e cristãos-novos é
condenado pelo Tribunal do Santo Ofício. Ao se livrar, embarca mais uma vez para as
terras brasileiras, onde se dedica ao preparo de seus “Sermões” e outras obras. Assim
como outros jesuítas, para Vieira a catequese foi um determinante em sua obra literária.
Contudo, entre seu volumoso acervo, foram encontrados documentos que informavam
aos seus superiores na Europa, o andamento dos trabalhos na Colônia. A Ânua, que
serve de estribo a essa prática é um fragmento representativo de tão considerável
trabalho erudito. Trabalho este que veio a findar-se a 18 de julho de 1697 na mesma
Bahia, que o acolheu em tenra infância.
A invasão holandesa a Bahia se deu no dia 08 de maio de 1624. Nesta data,
aproximadamente 25 velas batavas de alto bordo com lanchas de gávea, abastecidas por
3400 homens, cujo comando estava a cargo do general Jacob Vilhe Khens chegavam à
baía de Todos os Santos. Neste tempo, governava a Bahia, Diogo de Mendonça Furtado
que imediatamente ordenou preparar o ataque ao inimigo. Porém, devido à extensão
costeira da baía, foram os flamengos protegidos dos ataques a canhão promovidos pelos
3
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 4ª ed. São Paulo, EDUSP/FDE, 1996, p.32.
4
colonos. E nem mesmo os três fortes que protegiam a cidade foram capazes de detê-los4.
Nas palavras do Pe. Vieira:
Tocavam-se em todas naus trombetas bastardas a som de guerra, que
com o vermelho dos paveses vinham ao longe publicando sangue.
Divisavam-se as bandeiras holandesas, flâmulas e estandartes que,
ondeando das antenas e mastaréus mais altos, desciam até varrer o mar
com tanta majestade a quem se não temera, podiam fazer uma alegre e
formosa vista [...] (VIEIRA, 1983, p.429)
A primeira dificuldade a ser sanada foi sem dúvida o vocabulário empregado no
texto. Foi necessário que os alunos recorressem ao dicionário – o que se deu em relação
ao texto como um todo – em busca do significado das palavras à época5, sem deixar de
lado a preocupação com a significação atual do vocábulo.
Iniciou-se a partir do excerto acima, a análise do documento. Uma série de
perguntas foi se delineando. Perguntas essas, que o grupo buscou elucidar ao final da
atividade, a partir do confronto entre a historiografia oficial e o testemunho de Vieira. A
primeira delas foi: Por que essa visão tão grandiosa em relação à chegada dos
holandeses? Seriam eles em grande número e realmente bastante armados, ou os
portugueses não possuíam em terras brasileiras forças suficientes para deter um ataque
inimigo?
Segundo Pedro Taques os holandeses entraram na baía sem atirar e hastearam a
bandeira da paz. Contudo, os colonos responderam a este gesto a tiros, o que
desencadeou a luta armada. Em terra, os batavos juntaram pólvora, ferro e fogo ateandoos às árvores secas da costa, causando uma nuvem que impedia visibilidade. Isto
associado à artilharia foi a causa de grande estardalhaço e temor. Comungando de tal
idéia, Vieira descreve esse momento nas seguintes palavras: “[...] o continuo trovão da
artilharia tolhia o uso das línguas e orelhas e tudo junto, de mistura com as trombetas e
mais instrumentos bélicos, era terror a muitos e confusão a todos [...]” (1980, p.250).
4
LEME, Pedro Taques de A. P. Nobiliarquia paulistana Histórica e genealógica. 5ª ed. São Paulo, USP,
1980, Tomo II, p.250.
5
Utilizou-se o Dicionário Houaiss, em virtude de seu maior aprofundamento em relação a Etimologia,
outra preocupação inclusa no referido projeto.
5
Prosseguindo, Fausto relata que mesmo em desvantagem guerreira, os
portugueses persistiram na labuta da guerra. Todavia, enquanto os colonos acuavam-se
em defender a praia, três naus holandesas que ficaram na retaguarda, despejavam
aproximadamente 700 soldados na Ponta de Santo Antônio, fortificação localizada no
oeste baiano, o que causou a retirada de duas companhias portuguesas que retornaram a
cidade. Investiram então os batavos contra as naus portuguesas que se encontravam no
porto. Entretanto, viram lograr seu intento, pois os colonos atearam fogo a elas:
“Debaixo da claridade intensa e intermitente causada pelo fogaréu, o forte foi tomado
ainda na primeira noite, luta na qual sucumbiram os portugueses. Durante a madrugada,
espalhou-se a notícia da entrada dos holandeses a cidade. A população amedrontada
fugiu para as matas vizinhas deixando suas casas e fazendas. O bispo D. Marcos
Teixeira e o governador ainda tentaram persuadir a população. Vendo que nada seria
possível fazer, desistiram do intento. (1980, p.250). Já Vieira ao discorrer sobre essa
noite afirma:
“[...] Mas, que poderá explicar os trabalhos e lástimas desta noite! Não
se ouviam por entre os matos senão ais sentidos e gemidos lastimosos
das mulheres que iam fugindo; as crianças choravam pelas mães, elas
pelos maridos, e todas e todos, segundo a fortuna de cada um,
lamentavam sua sorte miserável [...] (VIEIRA, 1983, p.430).
Assim, aos dias 10 de maio de 1624, os batavos adentraram a cidade e dirigiramse a Casa Real, residência do governador Mendonça Furtado, onde prenderam seu filho
e os oficiais que estavam a serviço, fazendo-os posteriormente de reféns. Daí em diante
expandiu-se o ataque a cidade do São Salvador. Segundo Taques casas foram
saqueadas, seus valores subtraídos. Os templos, por sua vez, não foram exceção.
Imagens e objetos sagrados, quando não destruídos, afanados. Segundo Vieira, “com
extrema violência e heresia”, pois:
[...] As imagens tiram a cabeça, cortam os pés e mãos umas enchem
cutiladas e outras lançam no fogo. Desarvoram em quebrar as cruzes,
profanam altares, vestiduras e vasos sagrados; usando cálices, onde
ontem se consagrou o sangue de Cristo, para em suas desconcertadas
mesas servirem Baco, e dos templos e mosteiros dedicados ao serviço
e ao culto divino para suas abominações e heresias [...] (VIEIRA,
1983, p.429).
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Quanto à população local, agora fugitiva, as matas e praias foram seu “casario”
inicial. À posteriori, seguiram rumo à aldeia do Espírito Santo, cinco ou seis léguas da
cidade. Nela moravam cerca de setenta famílias que socorreram e abrigaram os
fugitivos. (FAUSTO, 1996, p.36). Vieira refere-se a esse episódio da seguinte maneira:
A essa aldeia do Espírito Santo se acolheu e recolheu naqueles
primeiros dias a maior parte da gente a qual acudiu a caridade dos
nossos com o que podia, não faltando a ninguém carne, nem farinha
que era é o pão da terra, e nesse tempo era o maior regalo [...]
(VIEIRA, 1983, p.430).
Durante a leitura de Vieira um ponto é bastante interessante e fundamental para
o tipo de análise que o trabalho em questão propõe: quem são os “heróis” dessa
narrativa. Segundo Vieira, fica claro que alguns nomes se destacam de entre os
anônimos. Dentre eles: Diogo de Mendonça Furtado (governador), os padres Domingos
Coelho e Antônio Matos (deportados para Amsterdã, junto com o referido governador).
O Sr. Matias de Albuquerque, já Governador da capitania de Pernambuco e assume
também o poder local. Comandando as tropas portuguesas, o Dr. Antão de Mesquita
Oliveira, chanceler da Bahia, que pouca sorte logrou em seu posto. Além desses, Vieira
destaca D. Marcos Teixeira, considerado por ele, aquele que “conduzia e organizava as
coisas e armas”. Assim, o Bispo da Bahia, eleito também capitão-mor, proibiu qualquer
contato dos portugueses com os batavos sob pena de morte, arregimentou soldados,
ordenou capitães, repartiu companhia visando retomar a cidade do Salvador. Fizeram
vítimas, retornaram, dando início a uma estratégia de guerrilha. Durante tal período, os
luso-brasileiros reconquistaram o Porto de São Felipe e as ilhas de Itamaracá e Sepetiba.
Vieira descreve em seus escritos essa passagem:
Foi esta vitória tão célebre,e acorbadou tantos contrários que todos os
nossos alegrou e animou grande mente, e em particular a Sua
Senhoria, o qual, além de fazer muitos mimos e honras aos que nela
pelejaram, em especial armou cavaleiros e alguns, com as solenidades
que as leis militantes requerem. (VIEIRA, 1983, p.430).
Contudo, a euforia duraria pouco tempo, pois a oito de outubro de 1624 com
setenta anos completos falecia D. Marcos Teixeira, principal articulador da primeira
fase de resistência luso-brasileira, de uma enfermidade contraída durante o conflito. A
ele Vieira exalta em seu relato:
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Caiu o bom pastor D. Marcos Teixeira em cama, mais de cansaço e
trabalho que de doença. Nela esteve oito dias e em breve foi gozar da
coroa que menos de seis meses mereceu fosse tão acabada e perfeita
como o são as dos outros grandes no céu [...] os índios das nossas
aldeias, em particular choravam mais sua morte, porque de todos eles
era pai, defensor, protetor. [...] Nós os da Companhia tivemos razão
de assentir como sentimos mais que todos, pois na paz e na guerra se
ajudou de nós amorosamente, com benévola e íntima afeição, e nós o
servimos e acompanhamos até a morte, como tínhamos obrigação.
(VIEIRA, 1983, p.433).
Dessa forma após o falecimento de D. Marcos foi designado para o cargo de
capitão-mor o fidalgo Francisco Nunes Marinho de Essa, experiente na arte da guerra.
Segundo Taques, após observar a situação, resolveu retirar-se para Sergipe del´Rei,
cidade distante cem léguas. Contudo, convencido pelos clérigos que a retirada
fortaleceria os inimigos, deixou-se ficar. Vieira aponta seu valor na seguinte afirmação:
E assim a ele se deve depois de Deus o conservar das fazendas, a ele o
apertar e intimidar o inimigo, sendo a uns freio para não o seguirem, e
a outros espora para o perseguirem [...] gastava ainda o pouco que
tinha em premiar os esforçados. A tudo aceitava sempre incansável, a
uns animava, com outros chorava, e a todos mostrava grandes
entranhas e excessos de amor. (VIEIRA, 1983, p.437).
Com essa nova liderança, os luso-brasileiros conseguiram retomar o engenho do
Colégio, outros engenhos na boca de Matoim, rio do recôncavo da Bahia, o forte
Tapagipe, a uma légua da cidade de Salvador, assim como a tomada do Carmo, na qual
os portugueses além de fazerem muitas vítimas, apoderaram-se de grande número de
armas. (FAUSTO, 1996, p.37). Muito contribuiu para a derrota neerlandesa, o papel
desempenhado pelos aborígenes – aliados ou escravos dos portugueses. Para Taques,
estes, incorporados às companhias foi o fator diferencial, graças à lealdade, camuflagem
e habilidade flecheira. (1980, p.253). Vieira não os esquece em seu relato e sobre eles
afirma:
Não ficaram aquém nesta empresa os índios freicheiros das nossas
aldeias; antes eram a principal parte de nosso exército, e que mais
horror metia aos inimigos, porque, quando estes saíam e andavam
pelos caminhos mais armados e ordenados em suas companhias,
estando o sol claro e o céu sereno, viam subitamente sobre si uma
nuvem chovendo frechas que os trespassavam, e como lhes faltava
ânimo de outro Espartano, não se atreviam a resistir, porque, enquanto
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lhes preparavam um tiro de arcabuz ou mosquete já tinham no corpo
despedidas do arco duas frechas sem outro remédio senão o que
davam os pés, virando as costas [...] (VIEIRA, 1983, p.442).
Talvez surpreendidos pela resistência encontrada, pressionados pelas tropas em
seus ataques de guerrilha, os flamengos encurralados no interior da cidade, resolveram
fortificá-la. Reforçaram-se os muros e portas da cidade, levantaram alguns montes de
terra; fizeram sobressair por cima dos muros, pontas unidas de apus, grandes e agudas
para dificultar a subida de alguém. Ao redor dos três grandes montes que cercavam a
cidade, represaram as correntes de algumas fontes, e fizeram um tanque, tão alto e largo,
que se tornou impossível a passagem de qualquer companhia. Levantaram o forte da
praia. Por fim distribuíram ao redor da cidade e dentro dela, uns estepes de ferro que ao
cair, era capaz de aprisionar um homem (TAQUES, 1980, Tomo II, p. 260).
Nessa situação permaneceram até o dia primeiro de abril de 1625, quando a
ajuda por tempos ansiada, chegou a cidade do São Salvador. Compunha-se, em tempos
de União Ibérica, das esquadras da Espanha e Portugal, a Rela de Castela do Estreito e a
Capitania de Nápoles. Auxiliando-os outros galeões e navios. Aproximadamente
sessenta velas. Era comandada por Fradique de Toledo, general real de Castela.
Segundo Taques, as embarcações ao chegarem à costa, “posicionaram-se lado a lado,
formando um semicírculo, tática que impediu a fuga dos inimigos atracados no porto”.
O desembarque foi pacífico, os batavos silenciavam. Os aliados alojaram-se na Casa de
São Bento. Muito próximos do inimigo. O embate não tardou. Os holandeses atacaram
em número considerável e o fogo recrudesceu. O combate estendeu-se e com o auxílio
da “gente da terra”, os aliados conseguiram inúmeras vitórias, o que resultou ao fim de
treze dias, renderam-se (TAQUES, 1980, Tomo II, p. 262). Vieira descreve esses
momentos finais como uma epopéia luso-brasileira no Novo Mundo, a saber:
Os holandeses deram fogo a umas duzentas peças que
espalhando um chuveiro de balas, pregos e ferro miúdo, fizeram
grande estrago em muitos soldados e alguns fidalgos castelhanos
de muita importância na guerra. [...] Passados doze ou treze dias
de bateria, vendo o holandês por terra toda a sua artilharia, e os
mais dos artilheiros mortos, em que principalmente confiava, é
que estavam já quase abarbadas as nossas trincheiras com as
suas, considerando como o resistir lhe custava tanto e rendia tão
pouco, e que se acabavam miseravelmente todos, houveram por
bem a vir a concertos. [...] (VIEIRA, 1983, p.446 - 449).
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A narrativa do padre Antônio Vieira confirma que a bandeira de Portugal e
Castela foi hasteada em primeiro de maio de 1625, quando os aliados retomaram a
cidade do São Salvador da Bahia. Assim encerra-se a sua ânua e versão sobre o fato.
Considerações Finais
Após a atividade os grupos anteriormente designados entregaram suas
conclusões acerca da versão do Padre Vieira em contraposição à Historiografia. Aqui
enunciaremos suas principais conclusões e explicações propostas.
A princípio foi enfatizado pelos grupos, que a invasão dos holandeses ao Brasil,
fazia parte de um complexo maior de interesses entre diferentes nações absolutistas, que
lutavam para angariar riquezas para suas nações. Quanto à invasão, foi levantada a
hipótese que nenhum dos dois exércitos estava realmente preparado. Os portugueses
não conseguiram evitar a chegada dos batavos. Mas, estes também não conheciam
suficientemente a região e não possuíam homens e armas suficientes para
estabelecerem-se no Brasil. Outrossim, também foi destacada a figura do Padre Antônio
Vieira, testemunha (fonte de época) da invasão a Bahia. Seu relato é vivo, como se os
leitores fossem transportados para o momento da guerra. Entretanto, apesar da escrita
poética, como luso-brasileiro ele não foi neutro. Defendeu os portugueses e apontou os
inimigos como covardes, hereges e ardilosos, quando aos portugueses chamavam-nos
de bravos, destemidos e leais súditos da Coroa.
Outro ponto destacado diz respeito aos negros. Estes não foram citados em
nenhum momento do relato na Ânua. Não se afirma em nenhum momento a
participação de escravos. Fica a questão: Por que? O Brasil do século XVII estava
altamente povoado por repatriados africanos, em virtude dos interesses do tráfico e dos
açucarocratas, porque são excluídos no relato? Em contraposição a isso, estão os índios.
Protegidos dos jesuítas é a eles, dedicada por Vieira, menção honrosa. Para o clérigo, os
silvícolas foram heróis que impediram os holandeses de avançar sobre o território, ou
seja, as matas brasileiras, sendo dessa forma fundamentais para a proteção da cidade.
Quanto ao bispo, superior em ordens ao padre Vieira ele dedica passagens de
extremo heroísmo e comando na luta contra o invasor. Mostrou-o inquebrantável,
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vigoroso para sua idade, bondoso em suas ações, mas enérgico em suas atitudes. Mas
sobretudo um herói, que deu sua vida para salvar a terra do estrangeiro herege.
Assim, chegou a cabo a atividade proposta, onde se privilegiou a discussão sobre
a memória, a fonte primária, o uso de documentos escritos para o estudo da história,
visando uma maior aproximação do aluno com a disciplina e com o ofício do
historiador.
Referências Bibliográficas
Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, v.1,0.
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 4ª ed. São Paulo, EDUSP/FDE, 1996, p.32.
LE GOFF, Jacques, História e Memória. Campinas: São Paulo: Editora da UNICAMP,
1990.
LEME, Pedro Taques de A. P. Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica. 5ª
ed. São Paulo, USP, 1980, Tomo II, p.250.
VIEIRA, Antônio. Ânua da Província do Brasil dos dois anos de 1624 e de 1625 In:
História Administrativa do Brasil; A União Ibérica: Administração do Brasil
Holandês. Brasília. Editora Universidade de Brasília, 1983.
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