Para Vania Mignone, Presente Cotidiano
Frederico Coelho
Como sintetizar mundos em um breve espaço? Como deixar pleno de vida o plano bidimensional da tela? Como atingir
através de uma única imagem o cerne da poesia que circula nos olhos e nas palavras diárias de cada um de nós? A obra de Vania
Mignone nos leva a fazer tais perguntas pois ela se instala aí, nesse espaço limitado, porém contundente da pintura. Em suas telas, o
pouco vira muito, e a geometria do chassi é vazada em prol de amplidões que vão muito além do que supomos ver.
Suas cores dominam as narrativas, mas não escondem o drama latente no jogo entre palavras únicas, frases soltas e
silêncios cromáticos. Sem criar qualquer tipo de hierarquia entre esses elementos, Vania constrói ao longo de sua carreira um
universo próprio, em que, do ponto de vista formal, frente e fundo da tela dialogam intensamente. Tal diálogo pode nos levar a uma
sensação de vertigem durante a busca de um plano estável, de um elemento que nos dê um chão para que tudo em movimento
cesse de engolir nosso olhar. Já no plano temático das telas, suas imensidões da cor se articulam com uma serenidade misteriosa.
Sentimos uma paz entre dentes, um estado de contemplação altivo que alivia os abismos feitos com poucos traços e amplos
espaços plenos de cores.
Quando andamos na rua, vivemos imersos em excessos para nossos sentidos. É cada vez mais raro podermos adentrar
uma zona pessoal de descanso sensório frente aos estímulos frenéticos do dia a dia. Se a arte ainda é um espaço de reinvenção do
olhar viciado sobre as coisas, a pintura de Vania Mignone nos dá um passo além. Como suas plantas que criam raízes nos corpos,
ela nos abraça e nos repousa em uma espécie de paraíso artificial. Cria paisagens solitárias que nos atrai com sua aura de mistério e
imprecisão. Quem são essas pessoas sozinhas? O que querem? Essas palavras, por que não me dão certeza do seu enunciado? De
certa forma, a pintura de Vania nos oferece uma poética da incompletude. Como se tudo ali estivesse já ocorrido e, ao mesmo tempo,
tudo ainda está para ocorrer. Um limiar do tempo da pintura, em que presente, passado e futuro são encapsulados na imprecisão dos
elementos em jogo na imagem. Sua obra nos oferece – ou nos tira, dependendo do ponto de vista de cada um – a possibilidade de
adicionar sentido aos seus temas. São brechas visuais, recortes de longas histórias que começaram antes de olharmos para elas e
que continuarão depois que deixarmos de olhar.
Todo paraíso, porém, traz junto de si seus demônios. Essas telas não nos oferecem melancolias vazias ou naturezas
mortas. Estamos adentrando uma zona cinzenta dos afetos, estamos compartilhando sentimentos inóspitos. As cores destas pinturas
são mais cores que outras. O vermelho diz. O preto olha. O amarelo abraça. O azul, ameaça. São cores que dominam nossos
sentidos e conduzem possíveis narrativas projetadas sobre as figuras estáticas. Na sua pintura, Vânia faz o movimento sutil dos
corpos vibrarem dentro de nós. Há uma ambiência, mesmo quando não há nada entre a palavra e o fundo, entre a figura e o limite da
tela. A água se expande com o bico do pássaro. Os cabelos voam sob o sol-palavra. Os peixes nadam dentro do aquário cheio de ar.
De certa forma, na maioria dos seus trabalhos, Vânia maneja seu repertório pictórico com uma economia exemplar. Seu
forte traço gráfico consegue dar densidade aos temas escolhidos, mesmo com o mínimo necessário para isso. Cores, temas, linhas,
figuras, nada excede o necessário. Suas escolhas mostram uma pintora decidida, se não na sua ação, certamente no seu princípio.
Não se trata de buscar um estilo, mas sim de imprimir uma marca visual. Ao vermos sua obra, criamos uma cumplicidade
permanente com ela. Após conhece-la, um único olhar sobre uma de suas telas é o suficiente para, imediatamente, identificarmos seu
mundo contraditoriamente seco e exuberante.
Esse paradoxo, aliás, é uma das principais marcas de Vania. Tal economia de cores e recursos visuais alimenta uma
exuberante máquina de possibilidades poéticas. Cada tela nos convida para um passeio nos “bosques da ficção”, para usarmos uma
expressão conhecida de Umberto Eco. Mesmo nos dando as vezes muito pouco do ponto de vista da imagem, os amplos espaços a
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redor das figuras e cenários nos abrem pequenas pistas de que há algo muito maior ocorrendo por ali. Na nossa demanda incessante
de narrativas sobre si e sobre o mundo, vasculhamos aquele cenário quase monocromático buscando histórias e tramas.
Pois sentimos que, de alguma forma, elas estão latentes nas telas, estão tenras, prontas para serem defloradas pelas nossas mais
invasivas especulações.
Essa dinâmica entre nosso olhar narrativo e a imprecisão das cenas ganha, em algumas telas, um suplemento. Ciente da
longa cadeia histórica que entrelaça os campos da palavra e da imagem, Vânia nos oferece uma armadilha. Ela nos dá a tentação do
escrito sublinhando a figura, mas eis que a palavra flutua tanto quanto a imagem. Os enunciados são sinuosos, ora flertando de forma
oblíqua com a cena, ora nos deixando ainda mais à deriva. São conversas interrompidas, são obsessões (hoje, hoje, hoje), são
personagens (o homem que voava, o acrobata, o cego). Nenhum deles, porém, precisa corresponder ao seu “nome” (quem nos
garante que a imagem é que diz, e não o leitor das palavras?). Nenhum deles precisa nos dar certeza de que corresponde ao suposto
nome. Seus escritos não são propriamente textos e, ao mesmo tempo, não podemos descarta-los de nossa fruição. Como as
imagens mudas – os personagens estão sempre com suas bocas fechadas – as palavras falam sem dizer.
Mas há ainda mais um aspecto marcante nas telas e na obra de Vania Mignone.: os olhos. Não se trata aqui de me apegar
ao “método de Morelli” que nos conta Carlos Ginzburg ao falar do “paradigma indiciário”. Historiador da arte do século XIX, o italiano
Giovanni Morelli reconhecia autorias de obras perdidas através de detalhes negligenciados pelos estudiosos em geral. O crítico
catalogava, por exemplo, como eram pintados unhas e orelhas nas obras dos grandes artistas do renascimento. Seria ali, nesse
pequeno indício do gênio, que se afirmaria a autoria. Os olhos pintados por Vania não são um índice da especificidade de sua pintura,
mas são uma assinatura indelével de sua obra. Abertos ou fechados, diretos ou oblíquos, para baixo ou para o alto, mudos ou
loquazes, os olhos de seus personagens nos marcam. Pois muitas vezes toda a densidade dramática da tela e de sua trama estão
centralizados nos olhos. A calma de quem mergulha em um rio contrasta com a desilusão de quem observa o vazio da vida. O olho
inquisidor se cruza com o olhar dissimulado. Mas todos, sempre, apresentam a voltagem necessária para que a obra ganhe o tom
exato de sua potencia.
No disco Índia, de 1973, Gal Costa gravou uma música de Luiz Melodia chamada “presente cotidiano”. Nessa canção, a
primeira frase que ouvimos é: “está tudo solto na plataforma do ar”. Essa frase sempre vem na minha cabeça quando vejo o trabalho
de Vania Mignone. Sua pintura nos liberta do chão – do plano, da razão, da gravidade – e nos eleva a outra altura. São telas que
flutuam e deixam flutuar, em que a densidade das microcenas e dos flashs de vida de que testemunhamos ocorressem em outro
tempo-espaço. Quando um artista consegue atingir essa maturidade em sua obra, vemos a plena realização de uma trajetória que se
iniciou ainda na década de 1980. O que estamos vendo hoje nesta exposição é uma pintora no pleno controle de sua técnica. Um
controle que gera a liberdade de se desprender de tendências ou caminhos pré-definidos para afirmar sua beleza particular e sua
força intransferível. Mergulhar nessa obra é se deixar soltar por outros ares do nosso presente cotidiano. Tá tudo aí, tá tudo aí.
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texto - Mercedes Viegas