Número 16 – dezembro/janeiro/fevereiro 2009 – Salvador – Bahia – Brasil - ISSN 1981-1888
O ENCOBRIMENTO DO REAL: PODER E IDEOLOGIA
NA CONTEMPORANEIDADE
Prof. Jose Luiz Quadros de Magalhães
Mestre e doutor em Direito Constitucional pela UFMG,
Professor da graduação, mestrado e doutorado da
UFMG e PUC-MG, Diretor do Centro de Estudos
Estratégicos em Direito do Estado.
Quais são os reais jogos de poder que se escondem atrás das
representações do mundo contemporâneo? A representação do mundo é
fundamental para a manutenção das relações sociais, desde as comunidades
primitivas até os nossos dias complexos. Representar é significar. Não utilizo o
termo aqui como representação política mas representação como reprodução
do que se pensa; como reprodução do mundo que se vê e se interpreta e logo
como atribuição de significado às coisas. Representação é exibir ou encenar.
A representação pode, portanto, ajudar a compreender as relações de
poder ou pode ajudar a encobri-las. O poder do Estado necessita da
representação para ser exercido e neste caso a representação sempre mostra
algo que não é, algumas vezes do que deveria ser, mas, em geral,
propositalmente o que não é. Representação pode, de um lado, ao distorcer a
aparência revelar o que se esconde atrás desta1 e de outra forma encobrir os
reais jogos de poder, os reais interesses e as reais relações de poder.
1
Carlo Ginsburg menciona o estranhamento e o distanciamento como mecanismos que
permitem enxergar o real escondido pelas representações. No estranhamento, a arte ao
distorcer a imagem do real revela as relações reais escondidas pela imagem. A pompa do
poder, os discursos políticos, a cobertura da mídia e sua pretensa isenção, encobrem a
falibilidade e a insegurança do humano no poder. A oratória e sua forma escondem a ausência
de conteúdo ou um conteúdo que significa o oposto do que diz significar. A isenção da mídia
encobre a distorção dos fatos, a manipulação da opinião. Isto nos leva a pensar porque
exércitos de pessoas ontem e hoje defendem bravamente interesses que não só não são os
seus como são contra os seus. O melhor exemplo é dos cães de guarda do sistema, sempre
tão explorados pelo próprio sistema: mais ou menos como o policial que dá a vida para
proteger a propriedade do latifundiário. A ordem que ele pensa defender não é a sua ordem. A
Várias são as formas de dominação. Tem poder quem domina os
processos de construção dos significados dos significantes2. Tem poder quem
é capaz de tornar as coisas naturais, “a automatização das coisas engole tudo,
coisas, roupas, móveis, a mulher e o medo da guerra.”3 Diariamente repetimos
palavras, gestos, rituais, trabalhamos, sonhamos, muitas vezes sonhos que
não nos pertencem. A repetição interminável de rituais de trabalho, de vida
social e privada nos leva a automação a que se refere Ginsburg. A automação
nos impede de pensar. Repetimos e simplesmente repetimos. Não há tempo
para pensar. Não há porque pensar. Tudo já foi posto e até o sonho já está
pronto. Basta sonha-lo. Basta repetir o roteiro previamente escrito e repetido
pela maioria. Tem poder quem é capaz de construir o senso comum. Tem
poder quem é capaz de construir certezas e logo preconceitos. Se eu tenho
certeza não há discussão. O preconceito surge da simplificação e da certeza.
A dominação passa pela simplificação das coisas: o bem e o mal; darth
vader e lucky skywalker; a democracia e o fundamentalismo; o capitalismo e o
comunismo. Duas técnicas comuns neste processo de dominação são: a
nomeação de grupos, criando identidades ou identificações e a explicação de
uma situação complexa por meio de um fato particular real. O problema não é
que o fato particular seja real, o problema consiste na explicação de algo
complexo com um exemplo particular que mostra uma pequena parte do todo
que ele quer explicar. Comum assistir a este tipo de geração de preconceito na
mídia, diariamente. Um exemplo comum diz respeito a recorrente crítica ao
estado de bem estar social: o estado de bem estar social tem uma história
longa e complexa, que apresentou e apresenta fundamentos, objetivos e
resultados diferentes em momentos da história diferentes e em culturas e
países diferentes. Entretanto é comum ouvirmos, inclusive de intelectuais, que
o estado social é assistencialista (ou pior clientelista) e logo gera pessoas
preguiçosas que não querem trabalhar.
O processo ideológico distorce a realidade e cria certezas construídas
sobre fatos pontuais que procuram explicar uma situação complexa. O
elemento de dominação presente procura construir certezas na opinião pública
ordem que ele pensa defender é contra ele, seus filhos, seus pais, sua mulher e seus sonhos.
Ler GISNSBURG, Carlo. Olhos de madeira, editora Companhia das Letras, São Paulo, 2001.
2
Os significantes são os símbolos. Exemplo: a palavra liberdade é um significante composto de
signos diversos. A combinação das letras LIBERDADE resulta na palavra que ganha sentidos
ou significados diferentes em diferentes épocas e lugares. O texto não existe se não for lido e a
partir do momento que é lido são atribuídos sentidos aos seus significantes. É impossível não
interpretar e interpretar significa atribuir sentido, o que por sua vez significa jogar toda uma
carga de valores, de pré-compreensões que pertencem a uma cultura específica, e mesmo a
pessoas específicas.
3
GINSBURG, Carlo. Olhos de Madeira, ob.cit. pg. 16. Nesta página Gisnsburg cita Chklovski
que diz o seguinte a respeito do estranhamento: “Para ressuscitar nossa percepção da vida,
para tornar sensíveis as coisas, pra fazer da pedra uma pedra, existe o que chamamos de arte.
O propósito da arte é nos dar uma sensação da coisa, uma sensação que deve ser visão e não
apenas reconhecimento. Para obter tal resultado, a arte se serve de dois procedimentos: o
estranhamento das coisas e a complicação da forma, com a que tende a tornar mais difícil a
percepção e prolongar sua duração. Na arte, o processo de percepção é de fato um fim em si
mesmo e deve ser prolongado. A arte é um meio de experimentar o devir de uma coisa; para
ela, o que foi não tem a menor importância.”
2
pois a afirmação vem acompanhada de um fato real que a pessoa pode
constatar e a televisão o faz ao trazer a imagem. Portanto, a partir de uma
situação que efetivamente ocorre mas que de longe não pode ser utilizada para
explicar a complexidade do tema “estado de bem estar social”, quem detém a
mídia constrói certezas e as certezas são o caminho curto para o preconceito.
Quanto mais certezas as pessoas tiverem, quanto mais preconceituosas forem
as pessoas, mas facilmente elas serão manipuladas por quem detém o poder
de criar estas “verdades”. A certeza é inimiga da liberdade de pensamento e da
democracia enquanto exercício permanente do dialogo. Quem detém o poder
de construir os significados de palavras como liberdade, igualdade,
democracia, quem detém o poder de criar os preconceitos e de representar a
realidade a seu modo, tem a possibilidade de dominar e de manter a
dominação.
Entretanto, este poder não é intocável. A dominação tem limites e
estes limites não são ficções cinematográficas.
Este poder encoberto pela representação distorcida (propositalmente
distorcida)4 funda-se em ideologias, em mentiras.5 A grande mentira na qual
estamos mergulhados é a mentira do mercado, da liberdade econômica
fundada numa naturalização da economia como se esta não fosse uma ciência
social mas uma ciência exata. A matematização da economia sustenta a
insanidade vigente.
A força da ideologia se mostra quando ela é capaz de fazer com que
as pessoas, pacificamente, concordem com o assalto privado aos seus bolsos.
É impressionante a incapacidade de reação contra o sistema financeiro que
furta do trabalhador diariamente sem que este esboce alguma reação. A falta
de reação pode se justificar pela incapacidade de perceber a ação ou da
aceitação da ação como algo natural. Tudo isto encontra fundamento em uma
grande capacidade de geração de representações nas quais a pessoas
passam a viver. Viver artificialmente em um mundo que não existe: matrix.
4
Importante lembrar que não negamos a condição autopoiética da vida. Somos seres
interpretativos. Tudo é interpretação e a interpretação é condicionada por cada condição
humana. A representação distorcida com o objetivo de manipulação é feita com este objetivo.
Estamos aqui falando de honestidade nas comunicações. Honestidade dos argumentos
utilizados no diálogo democrático. A representação distorcida que encobre os jogos de poder é
desonesta. O objetivo é dominar, enganar e não dialogar.
5
“...a ideologia oculta o caráter contraditório do padrão essencial oculto, concentrando o foco
na maneira pela qual as relações econômicas aparecem superficialmente. Esse mundo de
aparências constituído pela esfera de circulação não só gera formas econômicas de ideologia,
como também é um verdadeiro Éden dos direitos inatos do homem, onde reinam a liberdade e
igualdade. (O Capital I, cap. VI) “Sob este aspecto, o mercado é também a fonte da ideologia
política burguesa: a igualdade e a liberdade são, assim, não apenas aperfeiçoadas na troca
baseada em valores de troca, como também a troca dos valores de troca é a base produtiva
real de toda igualdade e liberdade. “(Crundise, Capítulo sobre o capital) “Mas é claro que a
ideologia burguesa da liberdade e da igualdade oculta o que ocorre sob o processo superficial
de troca, onde essa aparente igualdade e liberdade individuais desaparecem e revelam-se
como desigualdade e falta de liberdade.” (Dicionário de pensamento marxista editado por Tom
Bottomore, editora Jorge Zahar editor, Rio de Janeiro, 2001, pág.184).
3
Se as pessoas acreditam que a história acabou, que chegamos a um
sistema social, constitucional e econômico para o qual não tem alternativa, pois
ele é natural, não há saída. Para estas pessoas, a alternativa que está gritando
em seus ouvidos não é ouvida, a alternativa que está em seu campo de visão
não é percebida pela retina.
Se a economia não é mais percebida como ciência social, se o status
de suas conclusões passa para o campo da ciência exata, logo a economia
não pode mais ser regulada pelo estado, pelo Direito, pela democracia. Não
posso mudar uma equação física ou matemática com uma lei. De nada vai
adiantar. A matematização da economia é a grande mentira contemporânea.
Se a economia é uma questão de natureza, se a economia não é história,
quem pode decidir sobre a economia são os sábios e jamais o povo. Isto ajuda
a entender, por exemplo, como um governo que se pretendia de esquerda
adota uma política econômica conservadora de direita. Esta é a ideologia que
sustenta um mundo governado pelo desejo cego de poder, dinheiro e sexo. A
razão não manda no mundo, jamais mandou. O desejo conduz o ser humano.
O problema não é o desejo comandar. O problema é que não são os nossos
desejos que comandam, mas os desejos de poucos que nos fazem acreditar
que os seus desejos são os nossos desejos.6
A despolitização do mundo é uma ideologia recorrente utilizada pelo
poder econômico manter sua hegemonia. Nas palavras de Slavoj Zizek “a luta
pela hegemonia ideológico-politica é por conseqüência a luta pela apropriação dos
termos espontaneamente experimentados como apolíticos, como que transcendendo
as clivagens políticas.”7 Uma expressão que ideologicamente o poder insiste em
mostrar como apolítica é a expressão “Direitos Humanos”. Os direitos humanos
são históricos e logo políticos. A naturalização dos Direitos Humanos sempre
foi um perigo pois coloca na boca do poder quem pode dizer o que é natural o
que é natureza humana. Se os direitos humanos não são históricos mas são
direitos naturais quem é capaz de dizer o que é o natural humano em termos
de direitos? Se afirmamos os direitos humanos como históricos, estamos
reconhecendo que nós somos autores da história e logo, o conteúdo destes
6
Algumas palavras problemáticas apareceram no texto: ideologia e desejo. Palavras cheias de
sentidos diversos, localizadas no tempo e no espaço. A palavra ideologia aparece no sentido
marxista: “Duas vertentes do pensamento filosófico crítico influenciaram diretamente o conceito
de ideologia de Marx e de Engels: de um lado, a crítica a religião desenvolvida pelo
materialismo francês e por Feuerbach e, de outro, a crítica da epistemologia tradicional e a
revalorização da atividade do sujeito realizada pela filosofia alemã da consciência (ver
idealismo) e particularmente
por Hegel. Não obstante, enquanto essas críticas não
conseguiram relacionar as distorções religiosas ou metafísicas com condições sociais
especificas, a crítica de Marx e Engels procura mostrar a existência de um ele necessário entre
formas “invertida” de consciência e a existência material dos homens. É esta relação que o
conceito de ideologia expressa, referindo-se a uma distorção do pensamento que nasce das
contradições sociais (ver contradição) e as oculta. Em conseqüência disso, desde o início, a
noção de ideologia apresenta uma clara conotação negativa e critica. .” (Dicionário de
pensamento marxista editado por Tom Bottomore, editora Jorge Zahar editor, Rio de Janeiro,
2001, pág.184).
7
ZIZEK, Slavoj. Plaidoyer en faveur de l´intolérance. Climats, 2004, Paris, pag. 18. Interessante
não apenas ler este livro como a obra deste fascinante pensador esloveno. Vários livros já
foram traduzidos e publicados no Brasil: Bem vindo ao deserto do real e As portas da revolução
são duas obras importantes.
4
direitos são construídos pelas lutas sociais, pelo diálogo aberto no qual todos
possam fazer parte. Ao contrário, se afirmamos estes direitos como naturais
fazemos o que fazem com a economia agora. Retiramos os direitos humanos
do livre uso democrático e transferimos para um outro. Este outro irá dizer o
que é natural. Quem diz o que é natural? Deus? Os sábios? Os filósofos? A
natureza?
1 - PROFANAÇÃO
O pensador Giorgio Agamben8 faz uma importante reflexão a respeito
da construção das representações e da apropriação dos significados, o que o
autor chama de sacralização como mecanismo de subtração do livre uso das
pessoas as palavras e seus significados; coisas e seus usos; pessoas e sua
significação histórica.
O Autor começa por explicar o mecanismo de sacralização na
antiguidade. As coisas consagradas aos deuses são subtraídas do uso comum,
do uso livre das pessoas. Há uma subtração do livre uso e do comércio das
pessoas. A subtração do livre uso é uma forma de poder e de dominação.
Assim consagrar significa retirar do domínio do direito humano sendo sacrilégio
violar a indisponibilidade da coisa consagrada.
Ao contrário profanar significa restituir ao livre uso das pessoas. A
coisa restituída é pura, profana, liberada dos nomes sagrados, e logo, livre para
ser usada por todos. O seu uso e significado não estão condicionados a um
uso especifico separado das pessoas. A coisa restituída ao livre uso é pura no
sentido que não carrega significados aprisionados, sacralizados.
Concebendo a sacralização como subtração do uso livre e comum, a
função da religião é de separação. A religião para o autor não vem de
“religare”, religar, mas de “relegere” que significa uma atitude de escrúpulo e
atenção que deve presidir nossas relações com os deuses. A hesitação
inquietante (ato de relire) que deve ser observada para respeitar a separação
entre o sagrado e o profano. Religio não é o que une os homens aos deuses
mas sim aquilo que quer mantê-los separados. A religião não é religião sem
separação. O que marca a passagem do profano ao sagrado é o sacrifício.
O processo de sacralização ocorre com a junção do rito com o mito. É
pelo rito que simboliza um mito que o profano se transforma em sagrado. Os
sacrifícios são rituais minuciosos onde ocorre a passagem para outra esfera, a
esfera separada. Um ritual sacraliza e um ritual pode devolver ou restituir a
coisa (idéia, palavra, objeto, pessoa) à esfera anterior. Uma forma simples de
8
AGAMBEM, Giorgio. Profanation, Paris, 2005, Editora Payot et Rivages. As reflexões e
interpretações livres desenvolvidas neste tópico são todas a partir do texto do filósofio Giorgio
Agambem.
5
restituir a coisa separada ao livre uso é o toque humano no sagrado. Este
contágio pode restituir o sagrado ao profano.
A função de separação, de consagração, ocorre nas sociedades
contemporâneas em diversas esferas onde o recurso ao mito juntamente com
rito cumpre uma função de separação, de retirada de coisas, idéias, palavras e
pessoas do livre uso, da livre reflexão, da livre interlocução, criando
reconhecimentos sem possibilidade de diálogo. A religião como separação,
como sacralização, há muito invadiu a política, a economia e as relações de
poder na sociedade moderna. O capitalismo de mercado é uma grande religião
que se afirma com a sacralização do mercado e da propriedade privada. As
discussões que ocorrem na esfera econômica são encerradas com o recurso
ao mito para impor uma idéia sacralizada a toda a população. No espaço
religioso do capitalismo não há espaço para a racionalidade discursiva pois
qualquer tentativa de questionar o sagrado é sacrilégio. Não há razão e sim
emoção no espaço sacralizado das discussões de política econômica. Por isto
os proprietários reagem com raiva à tentativa de diálogo, pois para eles este
diálogo é um sacrilégio, questiona coisas e conceitos sacralizados há muito
tempo.
Este recurso está presente no poder do estado e em rituais diários do
poder: a posse de um juiz, de um presidente, a formatura, a ordenação de
padres e outros rituais mágicos transformam as pessoas em poucos minutos,
separando a pessoa de antes do ritual para uma nova pessoa após o ritual. Isto
ganha tanta força no mundo contemporâneo que varias pessoas que
freqüentam um curso superior hoje não pretendem adquirir conhecimentos, o
processo de passagem por um curso não é para adquirir conhecimentos mas
para cumprir créditos (até a linguagem é econômica) para no final passar pelo
rito que o transformará de maneira mágica em uma nova pessoa. O objetivo é
o rito, a certificação da passagem por meio do diploma e não a aquisição do
conhecimento. O espaço universitário está sendo transformado pela religião
capitalista em algo mágico, onde o conhecimento a ser adquirido no decorrer
de um processo que deveria ser transformador perde importância em relação
ao rito (a formatura) e o mito (o diploma).
Como resistir a perda da liberdade. Como resistir a sacralização das
relações sociais, econômicas e logo a perda da possibilidade de fazer
diferente, de fazer livremente o uso das coisas, das palavras, das idéias?
Como se opor à subtração das coisas ao livre uso? Como se opor a
sacralização de parte importante de nosso mundo, de nossa vida? A palavra
que Agambem usa para significar esta possibilidade de libertação é
“negligência” que pode permitir a profanação da coisa sacralizada.
Não é uma atitude de incredulidade e indiferença que ameaça o
sagrado, isto pode até fortalecê-lo. Tampouco o confronto direto. O que
ameaça ao sagrado é uma atitude de negligência. Negligência entendida como
uma atitude, uma conduta simultaneamente livre e distraída face às coisas e
6
seus usos. Não é ignorar a coisa9 sacralizada mas prestar atenção na coisa
sem considerar o mito que sustenta sua sacralização. Negligência neste caso
significa desligar-se das normas para o uso. Adotar um novo uso
descompromissado de sua finalidade sagrada, ou seja, de sua função de
separar. Logo profanar significa liberar a possibilidade de uma forma particular
de negligencia que ignora a separação, ou antes, que faz uso particular da
coisa.
A passagem do sagrado para o profano pode corresponder a uma
reutilização. Muitos jogos infantis (jogo de roda; balão; brincadeiras de roda)
derivam de ritos, de cerimônias para a sacralização como uma cerimônia de
casamento. Os jogos de sorte, de dados, derivam das práticas dos oráculos.
Estes ritos separados de seus mitos ganharam um livre uso para as crianças.
O poder do ato sagrado é a consagração do mito (a estória) e o rito que o
reproduz. O jogo (negligência) desfaz esta ligação. O rito sem o mito vira jogo,
é devolvido ao livre uso das pessoas. O mito sem o rito perde o caráter
sagrado, vira uma estória. Importante lembrar que negligência não significa
falta de atenção. Uma criança quando joga tem toda a atenção no jogo. Ela
apenas negligencia o uso sagrado ou o mito que fundamenta o rito. A criança
negligencia a proibição.
Devemos dessacralizar a economia, o direito, a política devolvendo
estas esferas ao livre uso do povo. Construir novos usos livres.
Numa época onde a dessacralização é fundamental diante da
dimensão que a sacralização tomou, as pessoas, em meio ao desespero,
buscam um retorno ao sagrado em tudo, O jogo como profanação, como uso
livre está hoje decadente. As pessoas parecem incapazes de jogar e isto se
demonstra com a proliferação de jogos prontos, sacralizados, com regras
herméticas, onde os novos usos são quase impossíveis ou invisíveis. Os jogos
televisados como grandes espetáculos de massa acompanham a
profissionalização e a mitificação dos jogadores (os ídolos).
A secularização dos processos de sacralização que dominam as
sociedades contemporâneas permite com que as forças de separação
permaneçam intactas sendo apenas mudadas de lugar. A profanação de
maneira diferente neutraliza a força que subtrai o livre uso, neutraliza a força do
que é profanado. Tratam-se de duas operações políticas: a primeira mantém e
garante o poder por meio da junção do mito e rito agora em outro espaço; a
segunda desativa os dispositivos do poder; separa o rito do mito permitindo o
livre uso.
O capitalismo é mostrado por vários autores como um espaço de
secularização dos processos de sacralização. Max Weber mostra o capitalismo
como secularização da fé protestante; Benjamin demonstra que o capitalismo
se constitui em um fenômeno religioso que se desenvolve de forma parasitária
a partir do cristianismo.
9
Coisa aqui significa idéias, objetos, pessoas, palavras, animais, ritos, danças, etc.
7
Para Giorgio Agambem o capitalismo tem três fortes características
religiosas específicas:
a) É uma religião do culto mais do que qualquer outra. No
capitalismo tudo tem sentido relacionado ao culto e não em relação a
um dogma ou idéia. O culto ao consumo; o culto a beleza; a velocidade;
ao corpo; ao sexo; etc.
b )É um culto permanente sem trégua e sem perdão. Os dias de
festas e de férias não interrompem o culto, mas, ao contrário o reforça.
c) O culto do capitalismo não é consagrado à redenção ou a
expiação da falta uma vez que é o culto da falta. O capitalismo precisa
da falta pra sobreviver. O capitalismo cria a falta para então supri-la
com um novo objeto de consumo. Assim que este objeto é consumido
outra falta aparece para ser suprida. O capitalismo talvez seja o único
caso de um culto que ao expiar a falta mais torna a falta universal.
O capitalismo, por ser o culto, não da redenção e sim da falta, não da
esperança, mas do desespero, faz com que este capitalismo religioso não
tenha como finalidade a transformação do mundo mas sim sua destruição.
Existe no capitalismo um processo incessante de separação única e
multiforme. Cada coisa é separada dela mesma não importando a dimensão
sagrado/profano ou divino/humano. Ocorre uma profanação absoluta sem
nenhum resíduo que coincide com uma consagração vazia e integral. Ou seja,
o capitalismo profana as idéias, objetos, nomes não para permitir o livre uso
mas para ressacralizar imediatamente. Um automóvel não é mais um objeto
que é usado para o transporte mas é um objeto de desejo que oferece para
quem compra status, poder, velocidade, emoção, reconhecimento. O
consumidor em geral não compra o bem que pode transporta-lo. O que o
consumidor compra não pode ser apropriado pois o que é consumível é
inapropriável. O consumidor compra o status, o reconhecimento, a ilusão de
poder, a velocidade, e isto não pode ser apropriado, isto desaparece na medida
em que é consumido. Trata-se de um fetiche incessante. Ao conferir um novo
uso a ser consumido, qualquer uso durável se torna impossível: está é a esfera
do consumismo.
Na lógica da sociedade de consumo a profanação torna-se quase
impossível pois o que se usa não é o uso inicial do objeto mas o novo uso dado
pelo capitalista. Logo o que se consome se extingue e desaparece e, portanto,
não pode ser dado novo uso. Não há possibilidade de liberdade dentro deste
sistema. O novo uso o da liberdade exige enxergarmos este processo de
aprisionamento da lógica capitalista consumista.
8
O consumo pode ser visto como uso puro que leva a destruição da
coisa consumida. O consumo é, portanto, a negação do uso uma vez que há a
negação do uso que pressupõe que a substancia da coisa fique intacta. No
consumo a coisa desaparece no momento do uso.
A propriedade é uma esfera de separação. A propriedade é um
dispositivo que desloca o livre uso das coisas para uma esfera separada que
se converte no estado moderno em direito. Entretanto o que é consumido não
pode ser apropriado. Os consumidores são infelizes nas sociedades de massa
não apenas porque eles consomem objetos que incorporam uma não aptidão
para o uso, mas também, sobretudo, porque eles acreditam exercer sobre
estas coisas consumidas o seu direito de propriedade. Isto é insuportável e
torna o consumo interminável. Como não me aproprio do que consumi tenho
que consumir de novo e de novo para alimentar a ilusão de apropriação. Está
escravidão ocorre pela incapacidade de profanar o bem consumido e pela
incapacidade de enxergar o processo no qual o consumidor está mergulhado
até a cabeça.
2 - O REAL EXISTE
O real existe. O mundo ocidental vem se reencontrando com o seu
passado, quando oriente e ocidente, materialismo e espiritualismo não eram
cuidadosamente separados. Em um destes reencontros, a idéia de autopoiesis
como essencial à vida é retomada. Um destes reencontros está na obra de dois
biólogos chilenos, Humberto Maturana e Francisco Varela, que após
experiências com a visão de animais reconstroem o conceito de autopoiesis
como condição de qualquer ser vivo.
Um pressuposto fático e não apenas teórico, é a condição de que,
enquanto vivos, estarmos condenados a autopoiesis. Somos necessariamente,
enquanto seres vivos, auto-referenciais e auto-reprodutivos, e esta condição se
manifesta também nos sistemas sociais.
Dois cientistas chilenos, Humberto Maturana e Francisco Varela10,
trouxeram uma importante reflexão, que a partir da compreensão da vida na
biologia, resgatam a idéia de auto-referência que se aplica para toda a
ciência.11
10
MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco, El Arbol Del Conoscimiento, Editorial
Universitária, undécima edición, Santiago do Chile, 1994.
11
No livro acima mencionado os pesquisadores chilenos escrevem: “Nosotros tendemos a vivir
un mundo de certidunbre, de solidez percpetual indisputada, donde nuestras convicciones
prueban que las cosas solo son de la manera que las vemos, y lo que nos parece cierto no
puede tener outra alternativa. Es nuestra situación cotidiana, nuestra condición cultural, nuestro
modo corriente de humanos.” Prosseguindo, os autores afirmam escrever o livro justamente
9
Estudando a aparelho ótico de seres vivos12, os cientistas viraram o
globo ocular de um sapo de cabeça para baixo. O resultado lógico foi que o
animal passou a enxergar o mundo também de cabeça para baixo, e sua língua
quando era lançada para pegar uma presa, ia também na direção oposta. O
resultado óbvio demonstra que o aparelho ótico condiciona a tradução do
mundo em volta do sapo.
A partir desta simples experiência temos uma conclusão que pode ser
absolutamente obvia mas que entretanto foi ignorada pelas ciências durante
séculos, ciências que buscavam uma verdade única, ignorando o papel do
observador na construção do resultado.
O fato é que, entre nós e o mundo, existe sempre nós mesmos. Entre
nós e o que está fora de nós existem como que lentes que nos permitem ver de
forma limitada e condicionada pelas possibilidade de tradução de cada uma
destas lentes.
Assim, para percebemos visualmente, ou seja, para interpretarmos e
traduzirmos as imagens do mundo, temos um aparelho ótico limitado, que é
capaz de perceber cores e uma série de coisas mas que não é capaz de
perceber outras, ou por vezes nos engana, fazendo que interpretemos de
forma errada algumas imagens ou cores.
Outras lentes ou instrumentos de compreensão se colocam entre nós e
a realidade. Além do aparelho ótico e de outros sentidos, somos seres
submetidos a reações químicas, e cada vez mais condicionados pela química
das drogas. Assim quando estamos deprimidos percebemos o mundo cinzento,
triste, as coisas e as pessoas perdem a graça e a alegria, e assim passamos a
perceber e interpretar o mundo. De outra forma, quando estamos felizes, ou
quando tomamos drogas como os antidepressivos passamos a ver o mundo de
maneira otimista, positiva, alegre ou mesmo alienada. É como se
selecionássemos as imagens e fatos que queremos perceber e os que não
queremos perceber. Mesmo a nossa história, ou os fatos que presenciamos,
assim como a lembrança dos fatos, passa a ser influenciada por esta condição
química. A cada vez que recordamos um fato, esta condição influencia nossa
lembrança. A percepção diferente do mesmo fato ocorre uma vez que cada
para um convite a afastar, suspender este hábito da certeza, com o qual é impossível o dialógo:
“Pues bien, todo este libro puede ser visto como una invitación a suspender nuestro hábito de
caer em la tentación de la certitumbre.” MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco,
ob.cit.p.5
12
Nas páginas 8 e 9 do livro “El arbol do conoscimiente”os autores propõem aos leitores
experiências visuais de nos demonstram facilmente como a nossa visão pode nos enganar,
revelando o que não existe e não revelando o que esta lá. Nas várias experiências com a visão
das cores nos é mostrado como nossa visão revela percepções diferentes de uma mesma cor.
Mostrando no livro dois círculos cinzas impressos com a mesma cor, mas com fundo diferente
mostra como o circulo cinza com fundo verde parece ligeiramente rosado. Ao final nos faz uma
afirmativa contundente mas importante para tudo que dizemos aqui: “el color no es una
propiedad de las cosas; es inseparable de como estamos constituídos para verlo”.
MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco, ob.cit.p.8
10
observador é um mundo, um sistema auto-referencial formado por
experiências, vivências, conhecimentos diferenciados, que serão determinantes
na valoração do fato, na percepção de determinadas nuanças, e na não
percepção de outras. Nós vemos o mundo a partir de nós mesmos.
Assim podemos dizer que uma outra lente que nos permite traduzir e
interpretar o mundo, é constituída por nossas vivências, nossa história, com
suas alegrias e tristezas, vitórias e frustrações. O que percebemos, traduzimos
e interpretamos do mundo está condicionado por nossa história, que constrói
nosso olhar valorativo do mundo, nossas preferências e preconceitos.
Novas lentes se colocam entre nós e o mundo, novos instrumentos
decodificadores que, ao mesmo tempo que nos revela um mundo, esconde
outros. A cultura condiciona sentimentos e compreensões de conceitos como
liberdade, igualdade, felicidade, autonomia, amor, medo e diversos
comportamentos sociais. Assim o sentir-se livre hoje é diferente do sentir-se
livre a cinqüenta ou cem anos atrás. O sentimento de liberdade para uma
cultura não é o mesmo de outra cultura, mesmo que em um determinado
momento do tempo possamos compartilhar conceitos, que dificilmente são
universalizáveis.
Somos seres autopoiéticos (auto-referenciais e auto-reprodutivos) e
não há como fugir deste fato. Entre nós e o que esta fora de nós sempre
existirá nos mesmos, que nos valemos das lentes, dos instrumentos de
interpretação do mundo para traduzir o que chamamos de realidade. Nós
somos a medida do conhecimento do mundo que nos cerca. Nós somos a
dimensão de nosso mundo.
A linguagem e a série de conceitos que ela traduz é nossa dimensão
da tradução do mundo. Podemos dizer que quanto maior o domínio das formas
de linguagem, quanto mais conceitos e compreensões (que se transformam em
pré-compreensões que carregamos sempre conosco) incorporarmos ao nosso
universo pessoal, mais do mundo nos será revelado.
Assim não podemos falar em uma única verdade. Não há verdades
cientificas absolutas, pois é impossível separar o observador do observado13.
Este universo de relatividade se contrapõe aos dogmas, aos
fundamentalismos, as intolerâncias. A compreensão da autopoiesis significa a
revelação da impossibilidade de verdades absolutas, sendo um apelo a
tolerância, a relatividade, a compreensão e a busca do diálogo. A certeza é
sempre inimiga da democracia. A relatividade é amiga do diálogo, essência da
democracia.
Importante lembrar que o reconhecimento da relatividade do
conhecimento não exclui a existência do real. O real existe além da matrix. O
real é relativo e histórico mas ao mesmo tempo é diferente da mentira que
13
Verificar ainda o seguinte livro: MATURANA, Humberto. Cognição, ciência e vida cotidiana,
organização de textos de Cristina Magro e Victor Paredes, Belo Horizonte, Editora UFMG,
2001.
11
busca propositalmente encobrir o real, é diferente de um mundo construindo
pelo outro com o propósito de encobrir algo. Neste sentido a matrix é real
enquanto algo que encobre propositalmente a possibilidade de intervir na
história, ou provoca intervenções que não intencionalmente levem ao caminho
oposto do desejado. O que chamamos de real são as relações que se
constroem no mundo da vida como possibilidade de dialogo e intervenção na
história não manipulada pelo outro. O real não busca estrategicamente encobrir
os jogos de poder, o real é a revelação dos jogos de poder. A mentira se opôs
ao real ou a uma verdade históricamente construída. Se assistirmos um
assassinato em uma praça podemos encontrar neste fato o real, as verdades e
as mentiras, assim como o encobrimento proposital do real. Assim o real cru
está no corpo inerte, na ausência de vida, na morte de uma pessoa. As
verdades que se constroem nas cabeças das testemunhas não são únicas pois
são interpretações da morte que ocorreu e da pessoa que morreu. As mentiras
intencionais distorceram propositalmente os fatos para manipula-los segundo
interesses diversos. O encobrimento do real foi feito posteriormente com a
noticia não divulgada, a arma do crime adulterada, e provas forjadas. O
encobrimento não é uma simples mentira que altera o fato ou exagera o fato. O
encobrimento tem uma finalidade estratégica. Com este exemplo podemos
dizer de um real, de um encobrimento, de verdades históricas e de mentiras
históricas.
O filme Matrix parte desta compreensão e propõe algo assustador. E
se nossa auto-referência não pertencer mais a nós mesmo, mas alguém,
externo construir nossos limites de compreensão, nossas verdades? A partir
deste universo o filme nos incita a outra reflexão: na medida em que outro
constrói propositalmente mentiras que se transformam em verdades estamos
impossibilitados de perceber o real. Este manipulador externo de nosso mundo
usurpa nossa liberdade.
A partir do momento em que a matrix cria um mundo artificial de
mentiras, propositalmente, para que não enxerguemos o real, podemos dizer
que o real existe e pode ser alcançado. A tentação relativista da compreensão
da autopoiesis pode encontrar um limite real. O real se constitui nas relações
de interpretação e de comunicação fundadas em uma base de honestidade, de
compromisso de busca de uma comunicação que parta de pressupostos de
honestidade. A matrix se constrói sobre a construção proposital da mentira com
fins de manipulação, de dominação e de pacificação pela completa alienação
das condições reais de vida, das reais relações de poder. Alguém
propositalmente me faz acreditar em suas mentiras como sendo verdades. Nas
relações falsamente construídas como sendo reais.
A matrix é real. A manipulação da opinião pública, a distorção
proposital do real, a fabricação de noticias e de fatos que encobrem os fatos, a
criação de fatos falsos está presente. Assistimos golpes midiáticos como a
tentativa de golpe contra o governo constitucional de Hugo Chaves onde a
mídia fabricou fatos, notícias, medos. Assistimos ao golpe midiático nos EUA
com a eleição de Bush e a sustentação de um estado de exceção mantido pela
geração diária do medo pela grande mídia. A matrix está ai, mas seus limites
12
são claros na reação popular ao golpe na Venezuela. A matrix está aí, mas
seus limites existem, e a resistência à manipulação do real conseguiu vencer
as eleições, é certo que de forma apertada, na Itália em abril de 2006.
O interessante do filme é que as agressões no mundo da matrix são
reais. Talvez o único real no mundo da matrix. Uma agressão física virtual
causa feridas reais. Daí que a fuga do real na matrix não garante segurança e
retira liberdade.
A verdade posta no filme está na conexão do eu com o real. Este eu
que interpreta o mundo. Na matrix não há verdade, pois, não há conexão entre
o eu e o real. O real foi subtraído da experiência de vida. A pessoa vive uma
representação criada por outro.
Referência Bibliográfica deste Trabalho:
Conforme a NBR 6023:2002, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT),
este texto científico em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma:
MAGALHÃES, Jose Luiz Quadros de. O ENCOBRIMENTO DO REAL: PODER E
IDEOLOGIA NA CONTEMPORANEIDADE. Revista Eletrônica sobre a Reforma do
Estado (RERE), Salvador, Instituto Brasileiro de Direito Público, nº. 16, dezembro,
janeiro,
fevereiro,
2009.
Disponível
na
Internet:
<http://www.direitodoestado.com.br/rere.asp>. Acesso em: xx de xxxxxx de xxxx
Observações:
1) Substituir “x” na referência bibliográfica por dados da data de efetivo acesso
ao texto.
2) A RERE - Revista Eletrônica sobre a Reforma do Estado - possui registro de
Número Internacional Normalizado para Publicações Seriadas (International
Standard Serial Number), indicador necessário para referência dos artigos em
algumas bases de dados acadêmicas: ISSN 1981-1888
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a instituição universitária a que se vincula o autor.
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