A EDUCAÇAO E SEU PAPEL DE GARANTIR A ÉTICA Rosa de Lourdes Aguilar Verástegui1 RESUMO: A concepção clássica de excelência incentiva o florescimento de nossos melhores sentimentos e capacidades como a: solidariedade, sinceridade, criatividade, respeito, honestidade e solidariedade entre outros. A excelência não despreza nem o meio nem o fim, ambos estão intimamente relacionados na procura da felicidade. Consideramos a felicidade para toda a sociedade, esse é o ideal de felicidade. Para poder aproximarmo-nos à mencionada felicidade, precisamos um modelo de excelência. Todos produzimos melhor quando estamos em um bom ambiente, com boas condições, partindo deste pressuposto, podemos afirmar que a produção e crescimento de uma sociedade sob este modelo de excelência, que se preocupa pela sociedade como um todo, produzirá melhor. Esta procura pela felicidade nos leva a traçar sempre novas metas que podemos alcançá-las paulatinamente. Essas metas nos inspiraram a trabalhar mais para sua realização. Quanto maior o ideal, maior o incentivo para procurar a excelência em nossas vidas. A ética e a procura da felicidade se alcança unicamente numa sociedade democrática que possibilite o desenvolvimento e a participação de todos seus membros. A falta e a quebra da ética ameaça todos os setores e aspectos da vida e da cultura de um país. Na vida política a falta ou quebra da ética tem o efeito mais destruidor. Nosso maior compromisso deve ser com a sociedade, na vida pública, na política, isto entendemos porque é mais fácil ser solidário e responsável com membros da família que com desconhecidos. Neste contexto a educação tem um papel fundamental, porque transmite valores e os legitima. A educação garante a construção de ma sociedade democrática, com participação, respeito e inclusão. PALAVRAS CHAVES: educação, ética, inclusão. 1 Professora da FASUL. Doutor em Educação. [email protected] 2 INTRODUÇÃO O presente trabalho tem como objetivo apresentar a importância da ética na procura de uma sociedade harmônica e feliz. Porque a ética está ligada à felicidade e à sociedade. Neste âmbito a educação joga um papel fundamental porque ela garante o estabelecimento da ética na sociedade. Uma sociedade que valoriza sua educação será uma sociedade feliz. Para isto, dividimos o trabalho em três partes, na primeira parte observamos a ética como uma constante procura da felicidade, na segunda, vemos a educação como garantia de uma conduta ética e por último, a relação que existe entre a educação e a democracia. A origem da palavra ética, ethos,, em grego designa a morada humana. O ser humano separa uma parte do mundo para moldando-a ao seu jeito, construir um abrigo protetor e permanente. O ser humano está sempre tornando habitável o entorno em que se desenvolve. Se bem o entorno se apresenta feito para o ser humano, ele o vai modificando e adaptando para si. Este significado da ética como forma de morada humana, como forma de habitat vem desde a Grécia antiga. Aristóteles (2000a, p. 147) considera o homem é um animal político (zoon politikon), ele só pode viver em sociedade, fora dela deixa de ser um humano, ou como diz Aristóteles, fora da sociedade quem vive “é uma besta ou é um deus”(Ibid., p.148). O ser humano e seu entorno se confundem, ele é um ser social, que se adapta a sua sociedade e de alguma maneira ele também a influencia e modifica. Ética significa, portanto, tudo aquilo que ajuda a tornar melhor o ambiente para que seja uma moradia saudável: materialmente sustentável, psicologicamente integrada e espiritualmente fecunda (TUGENDHAT, 2000). Ainda que os estudiosos da filosofia moral não fiquem de acordo com o significado e as diferenças ente ética e moral. Nos tomaremos um sentido, já utilizado, para tentar diferenciar ambos termos. Assim, consideraremos a moral como a regulação dos valores e comportamentos considerados legítimos, aceitos por uma determinada sociedade, um povo, uma religião, uma certa tradição cultural etc. Existe uma moral relativa a cada sociedade, a moral trata das regras e normas de conduta. Há morais específicas em grupos sociais mais restritos: uma instituição, um partido político, uma gangue, sem, até os marginais seguem e respeitam determinadas regras de conduta, determinada moral (TUGENDHAT, 2000).Há, 3 portanto, muitas e diversas morais. Isto significa dizer que uma moral é um fenômeno social particular que não tem compromisso com a universalidade, isto é, com o que é válido e de direito para todos os homens. Por outro lado, consideraremos a ética como o estudo que trata dos princípios gerais da conduta humana e que nos diz a todos os seres humanos sem distinção de época, etnia ou gênero. A ética trata de nosso fundamento humanizador, de nossa capacidade de sociabilidade, de nossa dignidade humana. A ética, ou filosofia da moral, é uma teorização sobre a conduta humana tentando apresentar os princípios ou fundamentos dela. Esta distinção nos leva a propor que, se a ética é geral, a moral é particular; se a ética é mais teórica, a moral é mais prática; se a ética tenta ser universal, a moral é relativa. Todos nascemos em uma determinada sociedade, que nos impõe suas normas e exige que nossa conduta seja de acordo a elas. Todos nos adaptamos a uma moral e assumimos esta como válida. Mas, então, como podemos descobrir se algo é moral ou ético? Porque como observarmos moral e ética são dois âmbitos diferentes. Nem todo o moral é ético e, nem todo o ético é considerado moral. Será que todas e quaisquer normas morais são legítimas? Não deveria existir alguma forma de julgamento da validade das morais? Existe, e essa forma é o que chamamos de Ética. A ética é uma reflexão crítica sobre a moralidade. Mas ela não é puramente teoria. A ética é um conjunto de princípios e disposições voltados para a ação, historicamente produzidos, cujo objetivo é balizar as ações humanas. A ética existe como uma referência para os seres humanos em sociedade, de modo tal que a sociedade possa se tornar cada vez mais humana. Mas, a ética, tanto quanto a moral, não é um conjunto de verdades ou regras fixas, imutáveis. A ética se move, historicamente, se amplia e adapta. Para entendermos como isso acontece na história da humanidade, basta lembrarmos que, um dia, a escravidão foi considerada natural. Entre a moral e a ética há uma tensão permanente: a ação moral busca uma compreensão e uma justificação crítica universal, e a ética, por sua vez, exerce uma permanente vigilância crítica sobre a moral, para reforçá-la ou transformá-la. Por que a ética é necessária e importante? A ética tem sido o principal regulador do desenvolvimento histórico-cultural da humanidade. Sem ética, ou seja, sem a referência a 4 princípios humanitários fundamentais comuns a todos os povos, nações, religiões etc, a humanidade já teria se despedaçado até à autodestruição. Uma conduta ética é indispensável para uma convivência harmoniosa, para a sociabilização, o respeito e a integração dos indivíduos. Uma sociedade que tem como moral ou normas de conduta aquelas regras que são afins à ética é um ideal de sociedade (TUGENDHAT, 2000).De fato, como todo ideal, uma sociedade ética não existe pronta, senão que serve de inspiração à construção da sociedade. O ideal é forjar uma sociedade de respeito, de seres diferentes com igualdade de oportunidades, isto é, construir uma sociedade democrática. Também é verdade que a ética não garante o progresso moral da humanidade. O fato de que os seres humanos são capazes de concordar minimamente entre si sobre princípios como justiça, igualdade de direitos, dignidade da pessoa humana, cidadania plena, solidariedade etc., cria chances para que esses princípios possam ser postos em prática, mas não garante o seu cumprimento. 1. A ÉTICA PROCURA A FELICIDADE As nações do mundo já entraram em acordo em torno de muitos princípios éticos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, pela ONU (1948), é uma demonstração de o quanto a ética é necessária e importante. Mas, a ética não basta como teoria, nem como princípios gerais acordados pelas nações, povos, religiões etc. Nem basta que as Constituições dos países reproduzam esses princípios (como a Constituição Brasileira o fez, em 1988). É preciso que, cada cidadão e cidadã incorporem esses princípios como uma atitude prática diante da vida cotidiana, de modo a pautar por eles seu comportamento. Isso traz uma conseqüência inevitável: freqüentemente o exercício pleno da cidadania (ética) entra em colisão frontal com a moral vigente. Até porque a moral vigente, sob pressão dos interesses econômicos e de mercado, está sujeita a freqüentes e graves degenerações. Somos éticos, ou nossa moral guia-se pela ética, quando fazemos pelos outros tudo o que podemos fazer, tudo o que está ao nosso alcance fazer, Ou como Kant diria: faz aos outros aquilo que queres que façam contigo. Então, apesar de que a ética é universal e geral, ela deve guiar nossa conduta particular e concreta. Este imperativo funciona como o ideal platônico. 5 Aquele cuja moral se conduz de acordo à ética, além da satisfação que produz a realização do dever cumprido, alcança a primeira condição para chegar à felicidade. Se quisermos ser indivíduos coerentes, equilibrados, nossa moral tem que estar de acordo com a ética. Quem se ajusta à ética tem a satisfação de respeitar as normas da sociedade em que vive e tem o respeito e o reconhecimento de seus pares. A ética regula-se por médio do reconhecimento público, pela confiança e o respeito. O próprio sujeito ético tem consciência e orgulho de seu papel social e o respeito que com ele atingiu. Aristóteles definiu o homem como animal político, é só na sociedade que podemos desenvolver nossas capacidades pessoais. Então, é impossível imaginar a felicidade unicamente como uma satisfação pessoal, a felicidade é a harmonia e satisfação do indivíduo dentro da sociedade. Sobre a felicidade da sociedade nos diz Platão: Devemos olhar para a cidade como um todo, para que ela alcance esse desiderato, (...) e uma vez organizada e florescente a cidade, deixar que cada classe participe da felicidade a que por natureza tem direito. (Platão, 2000, 421 c) Desde os gregos observamos que, uma sociedade sem harmonia entre seus membros é uma sociedade infeliz, é impossível pensar na felicidade de alguns a custo da infelicidade dos outros. Temos que considerar a felicidade para toda a sociedade, esse é o ideal de felicidade. Para poder aproximarmo-nos à mencionada felicidade, precisamos um modelo de excelência que não seja meramente competitivo, uma excelência, como diz Platão, que nos leve a: Que cada indivíduo não poderá exercer na cidade senão uma única ocupação, a que por natureza se encontre mais habilitado (Platão, 2000, 433a) Assim, entendemos que cada indivíduo deve fazer aquilo que desempenha melhor, de tal maneira que, o próprio trabalho lhe proporcione satisfação e prazer. Ninguém deve ser obrigado a fazer aquilo que não gosta. Todos devemos procurar aquela atividade na qual nos sintamos mais aptos, para podermos desempenhar melhor e render melhores frutos. Para os gregos ter uma conduta ética significava encontrar seu papel na sociedade e cumpri-lo da melhor maneira, a ética como princípios de convívio e sociabilidade exige de cada membro da sociedade o que Aristóteles denominava excelência. A excelência para Aristóteles é a excelência moral, isto é, uma excelência da ação ligada ao conceito de 6 justiça. Para compreender a relevância do conceito de justiça, vejamos o que Aristóteles nos diz: [A justiça] é completa porque aquele que a possui pode exercer sua virtude não só sobre si mesmo, mas também sobre seu próximo (...) , já que muitos homens são capazes de exercer virtude em seus assuntos privados, porém não em suas relações com os outros. (Ibid., 1130 a) Assim, podemos dizer que o exercício da justiça, ao qual se refere Aristóteles, não é um comportamento individual senão social. E, observando a estreita ligação que existe entre justiça e excelência, vemos que o exercício da excelência é uma prática social. Praticar a justiça não significa unicamente ser bom consigo mesmo, é também ser bom para com os demais. Por que e a quem a falta de ética prejudica? A falta de ética prejudica mais a quem tem menos poder (menos poder econômico, menos poder cultural, menos poder político). A transgressão aos princípios éticos acontece sempre que há desigualdade e injustiças na forma de exercer o poder. A falta ou a quebra da ética significa a vitória da injustiça, da desigualdade, da indignidade, da discriminação. A falta de ética prejudica a sociedade que sofre com injustiças entre elas os preconceitos e as exclusões de minorias. A atitude ética, ao contrário, é inclusiva, respeitosa e solidária: não apenas aceita, mas também valoriza e reforça a pluralidade e a diversidade, porque plural e diversa é a condição humana. A falta de ética instaura um estado de guerra e de desagregação, pela exclusão. A falta de ética ameaça à humanidade. A falta e a quebra da ética ameaça todos os setores e aspectos da vida e da cultura de um país. Mas não há como negar que, na vida política, a falta ou quebra da ética tem o efeito mais destruidor. Nosso maior compromisso deve ser com a sociedade, na vida pública, na política, isto entendemos porque é mais fácil ser solidário e responsável com membros da família que com desconhecidos. A política é o ponto de equilíbrio de uma nação. Quando a política não realiza sua função, de ser a instância que faz valer a vontade e o interesse coletivo, rompe-se a confiabilidade e o tecido político e social do país. O mesmo acontece quando a classe política apóia-se no poder público para fazer valer seus interesses privados. A corrupção política só não é mais grave que uma de suas próprias conseqüências: a de converter-se em coisa banal, coisa natural e corriqueira, diante da qual os cidadãos sejam 7 levados a concluir: "sempre foi assim, nada pode fazer isso mudar", "é de praxe" ou coisa ainda pior: "ele rouba, mas faz". A conseqüência da corrupção política é que corrompe a moral da sociedade e como é praticada por personalidades da vida pública sua influencia é maior. Do outro lado, uma vida política saudável, ou seja, uma vida ética tem o poder de promover a autoconfiança de um povo e reerguer um país mesmo aquele que este passando por crise econômica. A ética guia um comportamento social, ninguém é ético no vácuo, ou teoricamente ético. Quem vive numa economia antiética, sob uma prática política antiética e numa sociedade imoral acaba só podendo seguir seus princípios éticos em casa, onde sua prática fica parecendo uma espécie de esquisitice. A grande questão destes tempos degradados é em que medida uma ética pessoal pode praticar-se onde não existe ética social. O lar e o respeito à ética resulta num refúgio, uma resistência ou uma hipocrisia? 2. A EDUCAÇÃO COMO GARANTIA DE UMA CONDUTA ÉTICA A ética pode e deve ser incorporada pelos indivíduos, sob a forma de princípios a serem respeitados. A ética nos proporciona um critério para sermos capaz de julgar a moral vigente. A ética nos dá consciência de que somos humanos na medida em que exercemos nossa condição de indivíduos éticos e políticos. Os princípios éticos têm que ser assumidos como parte de nossa conduta, eles têm que ser reconhecidos como valores, que pretendemos alcançar. E como podemos adquirir tais valores? Como podemos fixá-los em nosso cotidiano? Como podemos direcionar nossa conduta que fica tensa entre a moral vigente e a ética que nos permite ter critérios de escolha? Existe uma necessidade de adquirir valores, os quais atuam como padrões normativos indicadores de por onde e para onde se deve orientar nossa conduta. Esta maneira eficiente de adquirir valores é através da educação. A educação oferece instrumentos críticos para entender as relações sociais, apoiar um modelo de “indivíduo na sociedade” e de “indivíduo na cultura” e, é claro, propiciar em seu próprio ambiente as relações mais convenientes para tudo isso. O papel da educação, como nos comenta Dewey: 8 Desde que a evolução é a característica da vida, a educação está toda no desenvolvimento; outra não é sua finalidade. O valor da educação escolar está na intensidade com que ela cria o desejo de aperfeiçoamento contínuo, proporcionando os meios de concretizá-lo. (EDMAN, 1965, p.154). A educação deve criar as condições para que o próprio aluno senta a necessidade de adquirir novos conceitos ou encontrar novas maneiras de aplicar os antigos. A educação não unicamente nos transmite informações, ela permite nosso desenvolvimento em todo sentido, aperfeiçoa nosso senso crítico, dando-nos valores e vontade de crescer. A educação deve cumprir o papel de uma socialização das novas gerações de uma sociedade e, enquanto tal, conservar o modificar os valores dominantes (a moral) naquela sociedade. A educação é também uma possibilidade e um impulso à transformação: desenvolvimento das potencialidades dos educandos. Toda educação é uma ação interativa: faz-se mediante informações, comunicação, diálogo entre seres humanos. Em toda educação há um outro em relação. Na educação a ética está implícita. Uma educação pode ser eficiente, enquanto processo formativo e ao mesmo tempo eticamente nocivo, como foi a educação nazista, por exemplo. Pode ser boa do ponto de vista da moral vigente e má do ponto de vista ético. A educação ética (ou, a ética na educação) acontece quando os valores no conteúdo e no exercício do ato de educar são valores humanos e humanizadores: a igualdade cívica, a justiça, a dignidade da pessoa, a democracia, a solidariedade, o desenvolvimento integral de cada um e de todos. A educação deve contribuir para assentar e fundamentar estas duas dimensões aparentemente contrárias: ser um instrumento para a conquista da autonomia e da liberdade e, ao mesmo tempo, fomentar o estabelecimento de laços sociais para a aproximação aos demais e para a convivência pacífica com ele, pelo menos. O preço da liberdade e da autonomia individuais não pode ser a desvalorização da sociedade, como tampouco é sua condição de retirada para a vida privada. As aspirações à autonomia e à colaboração não podem ser incompatíveis, porque não podemos renunciar à liberdade, assim como não podemos optar por sermos ou não sociais. Podemos escolher, em troca, as formas de sermos sociáveis e livres. Para Dewey o fim da educação é uma vida progressiva, vida em constante ampliação, em constante ascensão. Uma vida que cresce na medida que aumentamos o 9 conteúdo de nossas experiências, alargando-lhe o sentido, enriquecendo-a com idéias novas, amadurecendo-a, novas distinções e novas percepções. A vida é, pois, tanto melhor quanto mais ampliamos nossas atividades, pondo em exercício todas as nossas capacidades. Esse ideal é não somente individual, como social: o máximo desenvolvimento de cada um dirigido de modo que se assegure o máximo desenvolvimento de todos. A educação é vida e se a vida nos permite realizarmos, não se pode conceber isto sem considerar a sociedade. Muito antes que houvesse escolas, houve uma integração à vida social a partir da educação. Por esse motivo, temos que nos voltar para refletir sobre a educação, para observar se o que aprendemos nos permite uma melhor integração social. Logo desta reflexão sobre a vida, a educação e a sociedade, podemos levantar mais um desafio que tem a educação: a especialização do conhecimento, que o torna desconectado do mundo real, Este problema está diretamente relacionado com a falta de comunicação. Um método crítico na abordagem dos temas iria inevitavelmente melhorar a comunicação. Os assuntos precisam ser dados de forma a serem inteligíveis para mais pessoas, que devam ser discutidos, quer vistos não mais como contidos neles mesmos, mas como parte de um amplo e compartilhado corpo de conhecimento. Porque “somente por meio de lugares comuns e expressões impressionantes é que alguém assimila, imaginariamente, um pouco da experiência alheia, para transmitir inteligentemente a sua própria. Toda a comunicação é uma arte” (EDMAN, 1965, p. 96). A comunicação precisa de compreensão, logo, ao abordar uma ciência precisamos de uma compreensão dos princípios que se escondem por trás das questões a serem formuladas e dos métodos a serem empregados nas suas respostas. Qualquer um que compreenda totalmente um princípio deve ser capaz de expô-lo de tal forma que outras pessoas, não-especialistas, possam ser capazes de entendê-lo também. E, é claro, capacitar as pessoas a expor princípios dessa maneira é uma das principais tarefas da filosofia. Esta tarefa é eminentemente social, neste sentido entendemos que: A atividade da inteligência criadora funciona melhor quando há uma verdadeira e livre influência recíproca entre os indivíduos, uma sociedade em que a vida de cada um é estimulada, varia frutificada pelo contacto com as outras pessoas (EDMAN, 1965, p.27). 10 E assim, quanto menos estreitos forem os limites nos quais as capacidades críticas de um aluno estiverem confinadas dentro das fronteiras de um único conjunto de conceitos ou procedimentos, mais facilmente ele será capaz de se adaptar à vida e mais livre sua imaginação irá se tornar. Os alunos que são capazes de relacionar seus interesses a os interesses dos outros, e demonstrar uma noção de unidade da ciência são capazes de se dedicar a novos assuntos, transformando-se em especialistas, num curto período de tempo, em tópicos que jamais haviam estudado antes. É possível que a erudição chegue mais tarde para eles, mas quando chega, tem uma base mais sólida. E esses profissionais não só almejaram aprimorar seus conhecimentos científicos senão também terão maior responsabilidade social, porque como anota Dewey é papel da filosofia “[...] interpretar os resultados da ciência especializada em relação com o futuro esforço social” (EDMAN, 1965, p. 212). 3. A EDUCAÇÃO E A DEMOCRACIA Dewey acreditava que a educação deveria ser para todos; e parece-me trágico que não tenhamos feito algo mais para mostrar que realmente compartilhamos com essa crença. Nossas escolas são obrigatórias para todas as crianças, mas temos uma noção de educação que ainda é, em grande medida, platônica – os mais favorecidos se dedicando ao pensamento, os menos privilegiados à atividade prática. O caminho a seguir é colocar no centro de nossa reflexão não a distinção entre artes e ciências, mas a distinção entre o prático e o teórico. Acreditamos que esta distinção se manifesta num dualismo que é um problema, como manifesta Dewey: O problema da educação, na sociedade democrática, é abolir o dualismo e construir um método de estudos que faça do pensamento um guia de livre aplicação para todos, tornando o lazer mais uma recompensa pela aceitação da responsabilidade do trabalho do que propriamente o estado de isenção dele. (EDMAN, 1965, p.198). Precisamos então nos assegurar de que todas os estudantes tenham acesso às artes e ás ciências. É apropriado que alguns devam ter uma educação com base numa ou noutra direção: o que importa é assegurar que ambos os aspectos de qualquer assunto sejam oferecidos, e que ambos possam ser seguidos com o mesmo louvor. Os professores devem se adaptar a uma metodologia diferente para todas as suas matérias. Os dias em que se ditavam anotações para uma classe esperando que os alunos 11 fossem capazes de reproduzi-las num discurso já se foram para sempre. É o momento certo para que ambos, o conhecimento filosófico e o prático sejam reconhecidos como os pilares gêmeos das técnicas de ensino. Porque tanto a ciência e a técnica, como a filosofia, são necessárias. Mas como refletir sem filosofia? O professor é o elemento essencial da situação em que o aluno reflete, e sua função é, precisamente, a de orientar, guiar, e estimular a reflexão. A condenação ao sistema tradicional radica neste aspecto de quase não ser crítica. O sistema de educação tradicional permite que se ganhe um saber livresco, tão isolado da vida, que é antes prejudicial do que vantajoso. A nossa proposta aponta uma visão totalmente oposta, de tal maneira que para ela: O conhecimento, o conhecimento fundamental, é ciência; representa objetos que foram identificados, ordenados, dispostos racionalmente. O pensamento por outro lado é relativamente prospectivo. Origina-se da incerteza e viza a dominar uma perturbação. A Filosofia é o pensamento do que as coisas conhecidas exigem de nós e que atitude correspondente reclamam. (EDMAN, 1965, p.208). Além disso, os próprios professores têm sido, há muito, críticos em relação à falta de habilidades práticas de seus alunos como também à reforçada limitação daquilo que eles têm que ensinar. Se não introduzimos no ensino um elemento da filosofia, do geral, do comunicável, e do desinteressado, então continuaremos a fracassar, pois, apenas habilitando a enxergar as matérias numa relação com outras, apenas praticando-as a analisar os princípios da matéria em vez de simplesmente absorver os detalhes, poderemos colocá-las na posição de dirigir sua atenção para outras coisas quando chegar a hora. Precisamos de líderes, gerentes e comunicadores, tanto quanto de trabalhadores. Todos eles irão descobrir no hábito da análise a sua ferramenta mais útil. O papel da educação nesta tarefa é fundamental, assim entendemos a Dewey, quando diz: Daí o dever da educação, num grupo social democrático, lutar contra essa separação para que os vários interesses se possam fortalecer e entrelaçar. [...] Uma educação que pudesse unificar a disposição da sociedade muito faria pela unificação da própria sociedade. (EDMAN, 1965, p.197) Assim, somente por uma reflexão desse tipo de filosofia, poderemos ser capazes de habilitar aqueles que estão na escola a exercitar a sua imaginação e a ter consciência de sua própria liberdade. Pois a imaginação é o poder de ver como as coisas podem ser diferentes, 12 e assim optar por tentar preservá-las como estão ou modificá-las. Se acreditarmos um pouco na democracia, este é o poder que devemos cultivar, como uma questão de responsabilidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS A ética clássica propõe retomar a concepção clássica de excelência, ela cultiva nosso espírito porque incentiva o florescimento de nossos melhores sentimentos e capacidades como a: solidariedade, sinceridade, criatividade, respeito, honestidade, amor etc. Este modelo clássico de excelência, não despreza nem o meio nem o fim, ambos estão intimamente relacionados, isto é, esta excelência propõe que pelos melhores meios alcancemos os melhores fins, isto é, a procura da felicidade. É bem sabido que todos produzimos melhor quando estamos em um bom ambiente, com boas condições, partindo deste pressuposto, podemos afirmar que a produção e crescimento de uma sociedade sob este modelo de excelência, que se preocupa pela sociedade como um todo, produzirá melhor. Esta procura pela felicidade, seguindo o modelo clássico, nos leva a traçar sempre novas metas que podemos alcançá-las paulatinamente. Essas metas nos inspiraram a trabalhar mais para sua realização. Quanto maior o ideal, maior o incentivo para procurar a excelência em nossas vidas. A ética e a procura da felicidade se alcança unicamente numa sociedade democrática que possibilite o desenvolvimento e a participação de todos seus membros. Neste contexto a educação tem um papel fundamental, porque transmite valores e os legitima. A educação garante a construção de ma sociedade democrática, com participação, respeito e inclusão. REFERÊNCIAS ARISTÓTELES, Ética a Nicômacos, Col. Os pensadores, São Paulo: Nova Cultural, 2000. ___________. Política, em Os pensadores, São Paulo, Editora Nova Cultural, 2000a. EDMAN, Irwin. John Dewey: sua contribuição para a tradição americana. Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1965. HABERMAS, Consciência Moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo Universitário, 1989. 13 KANT, Inmanuel, Crítica da razão Pura in Col. Os pensadores, São Paulo: Abril Cultura, 1973. PLATÃO, A república, ou sobre a justiça. Tradução Carlos Alberto Nunes. Belém: Editora UFPA, 2000. TUGENDHAT, E. Lições sobre ética. Petrópolis: Rio de Janeiro, editora vozes, 2000.