1 A PESCa DO DIA T udo começou quando os bigodes de Aldwyn tremeram. Isso sempre acontecia quando ele estava com fome. Nos últimos meses, não estava sendo fácil conseguir comida. Os becos não estavam cheios das vísceras de peixe e moelas de frango de sempre, e um gato de rua tinha de batalhar um pouco mais para conseguir ao menos uma refeição completa por dia. A vibração dos bigodes começou certa manhã, bem cedo, quando ele estava empoleirado num telhado de madeira, olhando a paisagem distraidamente. Seu pelo preto e branco, muito sujo, dava a impressão de nunca ter sido lavado — o que era mais ou menos verdade. Faltava-lhe um pedaço da orelha esquerda, o que lhe servia de lembrança de uma “briguinha” que tivera com um pit bull raivoso, quando ele ainda era pequeno. 9 OS FAMILIARES.indd 9 3/30/11 3:06 PM Seu olhar abrangia toda Bridgetower. Havia fileiras e fileiras de edifícios de pedra de dois andares, ao longo das ruas estreitas, calçadas com pedras. Vestidos com capas, funcionários da prefeitura apressavam-se em terminar suas tarefas antes do amanhecer: um usava um objeto em forma de sino para apagar as velas, colocadas em postes na altura da cintura, que ficavam nos becos mais escuros da cidade; outro espalhava palha pela rua principal, para abafar o martelar das rodas das carroças e dos cascos das mulas, que logo estariam chacoalhando rua afora. Os olhos de Aldwyn foram atraídos pela torre de vigia espiralada de mármore branco polido que, por ser mais alta, destacava-se da linha de edifícios da cidade. Sua guarita estava vazia há mais de meio século, desde que a admirável e nobre Rainha Feiticeira Loranella ajudara a reprimir o Levante do Exército dos Mortos. Uma bandeira tremulava no alto da torre de vigia, ostentando o brasão de Bridgetower: uma águia de duas cabeças, segurando um arco e flecha numa garra, e um cetro na outra. Aldwyn também podia enxergar além das muralhas brancas que rodeavam a cidade: a oeste, beirando a muralha externa, o Rio Ebs; a leste, as Planícies de Aridifian e as florestas do reino. Mas ele nunca tinha saído de Bridgetown, nem tinha intenção de fazê-lo, pois se sentia bastante à vontade nas ruas da cidade, que ele conhecia tão bem. 10 OS FAMILIARES.indd 10 3/30/11 3:06 PM Com o primeiro raio de sol, um sino matinal repicou alegremente, despertando Aldwyn de seu devaneio. Ele voltou a atenção para a porta dos fundos de uma loja de peixes e aves, esperando pacientemente que o peixeiro aparecesse com a pesca do dia. Roubar era uma das estratégias favoritas de Aldwyn para encher a pança, mas ele tinha outros truques. Na noite anterior, arrulhando como um pombo, conseguiu ganhar pedaços de queijo de uma senhora cega que alimentava pássaros no parque. Tal como previsto, lá vinha o peixeiro carregando um pesado saco de algodão para a sua loja, deixando um rastro de pingos pelo caminho. E ainda que Aldwyn não conseguisse ver o que havia dentro do saco, ele sentia o cheiro: linguado de rio! Quando o velho entrou e fechou a porta, Aldwyn começou a contar nos dedos de sua pata. Um... dois... três... quatro... Como toda manhã, na mesmíssima hora, o peixeiro abriu a janela para arejar a cozinha, deixando cair o peixe num balde ao seu lado. Agora Aldwyn podia começar a descer do telhado. Ele desceu pela parede, as unhas deixando marcas na madeira do tapume, e atravessou o beco saltitando, para evitar as poças da chuva que caíra durante a noite. Um guaxinim de orelhas curtas apareceu mancando numa esquina, tentando evitar apoiar o peso numa pata traseira machucada. 11 OS FAMILIARES.indd 11 3/30/11 3:06 PM — Bom dia, Aldwyn — disse o guaxinim. — Ouvi dizer que a carroça do leite vai fazer um desvio para evitar o Festival dos Escudos amanhã e passar pela Praça do Carrasco. — Obrigado pela dica — respondeu Aldwyn. — Vou tentar derrubar um jarro de leite da traseira da carroça quando ela se aproximar da Pedra do Glifo. Trate de estar lá para dar uma lambida! Aldwyn tinha o hábito de pensar nas três refeições seguintes. Ele lançava mão de todo tipo de recurso, desde observação cuidadosa até camaradagem entre os habitantes dos becos. Encontrar comida era um trabalho em horário integral, muito exaustivo por sinal. Uma tremenda chuva de pedra desabara no meio do verão, destruindo boa parte da colheita de outono, normalmente farta, de Bridgetown. Os habitantes da cidade agora comiam as tripas e os miúdos que antes jogavam fora. O guaxinim balançou a cabeça demonstrando satisfação, e logo Aldwyn voltou à tarefa que tinha pela frente. Depois de pular nos engradados empilhados do lado de fora da casa, junto à janela do peixeiro, ficou observando o homem limpar e destripar o linguado. Sem paciência, Aldwyn não conseguiria nada. Ele sabia, por experiência própria, que a certa altura o peixeiro se distrairia: um freguês apressado batendo 12 OS FAMILIARES.indd 12 3/30/11 3:06 PM na porta da frente, um pulinho no banheiro ou uma faca cega precisando ser amolada dariam a Aldwyn a oportunidade que precisava para atacar. — Suba aqui! Tem uma aranha na cama! — gritou uma voz esganiçada no alto da escada. Naquele dia, a distração foi a esposa. O peixeiro largou a faca e saiu correndo da cozinha. — Já estou indo! — gritou. Aldwyn não hesitou. Tão logo o homem sumiu de sua vista, pulou no parapeito da janela e deslizou para dentro. Uma vez na cozinha, examinou rapidamente a confusão de tábuas de cortar carne, facas para limpar peixes e potes medidores de metal manchados pelas vísceras secas em cima da bancada de trabalho. O gato saltou para o assoalho de madeira sob a bancada. O forte cheiro de enguia salgada impregnado nas tábuas do assoalho invadiu as narinas de Aldwyn, fazendo seu estômago roncar de prazer. O avental do peixeiro, lambuzado de marcas de mão, pendia da maçaneta da sala de salga. Há muito que ele precisava de uma boa lavagem no rio. As lojas chiques da rua principal deviam ter balcões mais limpos, mas e daí? O linguado dali era tão gostoso quanto os de lá. Aldwyn avançou resolutamente para o balde e apanhou com a boca um peixe achatado. Logo ele estaria se regalando no sossego lá no alto das chaminés da cidade, desfrutando um belo... 13 OS FAMILIARES.indd 13 3/30/11 3:06 PM Tchac! Uma armadilha para gatos prendeu sua cauda, e só não lhe esmagou o pescoço por uma questão de centímetros. Aldwyn se voltou e viu um anel de metal enroscado em seu pelo. Ele conteve o desejo de soltar um grito ensurdecedor. Em vez disso, enterrou os bigodes na parte de trás da pata dianteira direita, deixando escapar um gemido abafado. Passado o choque inicial, restou apenas uma pergunta em sua mente: desde quando o velho peixeiro preparava armadilhas? Então as coisas foram de mal a pior, porque de detrás da porta da sala de salga surgiu o sombrio e agourento vulto de um homem de capa preta, o rosto coberto de cicatrizes de garras. Ele estava de botas de couro preto, com ferrões de bronze apontando do bico, e trazia uma besta1 a tiracolo. Seus olhos tinham um brilho de crueldade. — Te peguei! — exclamou a figura misteriosa. Desesperado, Aldwyn tentou se livrar da argola de metal enferrujado, usando as pernas traseiras para dar-lhe um empurrão. — Vou ensinar você a não me roubar, gato! — rosnou o peixeiro, aproximando a cabeça com um brilho de satisfação nos olhos. 1 Nota do Editor: Besta (pronuncia-se bésta) ou balestra é uma arma que parece uma espingarda, mas que tem um arco de flechas acoplado que, acionado por um gatilho, dispara dardos. 14 OS FAMILIARES.indd 14 3/30/11 3:06 PM Aldwyn não podia acreditar que caíra direitinho numa armadilha muito bem preparada! Ele, o mais esperto gato de rua de toda Bridgtower, deixou que lhe passassem a perna! Isso só podia acontecer com camundongos e baratas. Com ele, não. O homem de preto deu um passo à frente e sacou uma vara com um anel de corda na ponta. Quando viu a terrível vara com o nó corrediço, o instinto de sobrevivência de Aldwyn falou mais alto. Ele deu um impulso em direção à janela e conseguiu passar metade do corpo pela abertura, mas a armadilha de metal pendurada em sua cauda era grande demais para a estreita fenda. Preso com metade do corpo para dentro e metade para fora, Aldwyn olhou para trás e viu o vulto de capa aproximando-se rapidamente. Suas patas empurraram a parte de baixo da vidraça, tentando levantá-la o bastante para conseguir se livrar. O homem estendeu a mão para agarrá-lo, mas no último segundo a janela se deslocou alguns centímetros para cima, permitindo que Aldwyn passasse com a armadilha pela janela. Ele caiu no beco, longe das garras do homem. Aldwyn caiu de pé — essa é uma das vantagens de ser gato — e se pôs a correr com a armadilha de metal arrastando-se dolorosamente atrás dele. Com o canto do olho, viu o peixeiro aparecer na janela, junto com seu cúmplice de rosto marcado de cicatrizes. 15 OS FAMILIARES.indd 15 3/30/11 3:06 PM — Ele está fugindo! — exclamou o peixeiro. — Bem, ele não vai muito longe — respondeu o homem de botas com ferrões, aparentando não estar nem um pouco preocupado. Aldwyn saiu correndo pelo beco. Fagulhas voavam quando o metal raspava nas pedras do calçamento, e ele fazia muito esforço para manter o equilíbrio. Aldwyn já fora perseguido antes, mas nunca com uma armadilha presa à sua cauda como um caranguejo raivoso. Normalmente, Aldwyn ganharia os telhados para escapar, mas agora ele não podia, não com aquela coisa lhe pesando. Olhou para trás e viu seu perseguidor saindo da peixaria, já sacando a besta. Ainda carregando o peixe na boca, Aldwyn se enfiou entre dois edifícios e se escondeu numa pilha de ferro velho que o fabricante de espadas, que morava nas vizinhanças, tinha jogado fora. Ele abriu caminho entre a sucata e se deixou ficar ali bem quieto. — Ô, bigodudo, qual é o grande lance? — perguntou uma voz atrás dele. Aldwyn se voltou e viu um rato magro roendo um pedaço de pão embolorado, acompanhado de vários outros companheiros roedores. Com o peixe entre os dentes, Aldwyn sussurrou: — Senhores, é um prazer revê-los. Não se preocupem comigo. Estou só de passagem. 16 OS FAMILIARES.indd 16 3/30/11 3:06 PM — Ah, não está, não — disse o rato magro, agora reconhecendo Aldwyn. — Da última vez que você disse isso, trouxe para nossa sucata um açougueiro empunhando uma faca. — “O que, pensando bem, temos de convir que foi muito divertido! — exclamou Aldwyn com um risinho. — Certo? Os ratos limitaram-se a encará-lo friamente, sem achar a menor graça. — Esse é um assunto muito desagradável, podem acreditar. Mas, se vocês concordarem, estou disposto a esquecer tudo o que se passou. Um dos roedores, que era pequeno, robusto e com bigodes encaracolados, baixou o olhar e viu a armadilha para gatos presa à cauda de Aldwyn. — Você está numa enrascada, não é? — perguntou. — O quê? Isto? — respondeu Aldwyn, apontando o anel de metal. — É a última moda. Elas vêm em três tons diferentes de ferrugem. O rato magro pôs a cabeça para fora, depois recuou, o olhar cheio de pânico. — É Grimslade! De repente, Aldwyn se deu conta de que estava de fato numa enrascada: Grimslade era o infame que caçava a troco de recompensas. Havia cartazes em toda a cidade anunciando seus serviços para acabar com pragas e animais predadores em troca de pagamento, 17 OS FAMILIARES.indd 17 3/30/11 3:06 PM que podia ser feito em moedas de ouro ou em joias. Grimslade adorava seu trabalho, principalmente quando tinha de caçar gatos. Diziam que sua bronca contra gatos vinha da infância, quando sua mãe dava mais atenção aos seus cinco abissínios de pelo curto do que a ele. Os gatos de sua mãe podiam se aconchegar na cama quentinha todas as noites, enquanto que o jovem Grimslade era obrigado a dormir no chão do porão. Esses anos em que foi negligenciado transformaram-no num mercenário vingativo e implacável, matador de todas as criaturas que andavam sobre quatro, seis ou oito pernas. Sim, Grimslade significava o pior de todos os pesadelos. E ele estava perseguindo Aldwyn pelas ruas de Bridgetown. O gato tentou manter a calma, mas agora seus olhos revelavam o medo da verdade. Juntos, os ratos começaram a empurrar Aldwyn para fora do esconderijo. — Muito bem, até logo! — disse o rato magro. — Tchauzinho! — Espere! — pediu Aldwyn, tentando se fazer de amigo. — De animal para animal, por favor, me ajudem! Vocês sabem que eu faria o mesmo por vocês! Sem um momento de hesitação, os ratos empurraram-no para fora, colocando-o bem no campo de visão de Grimslade. O caçador apontou e disparou 18 OS FAMILIARES.indd 18 3/30/11 3:06 PM a besta, lançando uma seta que passou zunindo por cima do ombro de Aldwyn. Pelos telhados correra a notícia de que Grimslade tinha uma coleção de patas, de suas caçadas anteriores, mas Aldwyn não queria ter um lugar naquela caixa de troféus. Enquanto Grimslade armava a besta para outro disparo, Aldwyn correu e procurou refugiar-se atrás de um dos postes de luz que havia ao longo da rua. Grimslade disparou novamente. Dessa vez a seta despedaçou o vaso de vidro que protegia a vela, acima da cabeça de Aldwyn, jogando no chão uma chuva de cera ainda quente. Aldwyn ficou ali ofegante, pensando no que fazer em seguida. Então, ouviu o som de metal contra metal, e teve uma ideia. Disparou a correr em direção à oficina do fabricante de espadas, que ficava ali perto. Na oficina coberta de fuligem e cheia de fumaça, um homem corpulento martelava uma espada de folha larga, do tipo usado pelos soldados da rainha quando patrulhavam as ruas para pegar batedores de carteira e desordeiros. O fabricante de espadas, protegido das fagulhas que saltavam da fornalha apenas por um avental de couro, estava coberto de suor devido ao calor das chamas dançantes. Ele continuava martelando a espada, fazendo fagulhas saltarem da bigorna. Aldwyn saltou em direção à mesa de traba19 OS FAMILIARES.indd 19 3/30/11 3:06 PM lho de ferro, posicionando cuidadosamente a cauda entre o martelo que descia e a espada. Com um grande barulho, o martelo caiu direto na armadilha de metal, dividindo-a ao meio e libertando a cauda de Aldwyn. Ele resolveu acrescentar aquilo a sua lista de fugas espetaculares, depois disparou por uma porta lateral antes mesmo que o ferreiro se desse conta do que acabara de fazer. Finalmente livre da armadilha e voltando a correr a toda velocidade, as patas de Aldwyn mal tocavam o chão. Correu por todo o bairro do cobre, onde comerciantes ocupavam-se em expor castiçais e cubas de cozinha na frente de suas lojas. Mas Grimslade apareceu mais uma vez, porque não queria perder seu prêmio. Afinal de contas, aquele era o mesmo homem que, segundo diziam, queimara um edifício inteiro só para acabar com uma única barata. Quando Aldwyn olhou para trás, sentiu-se encorajado pela distância cada vez maior entre ele e seu perseguidor, mas mesmo assim não queria correr nenhum risco. Continuou correndo a toda velocidade. Quando olhou para trás novamente, viu que Grimslade tinha feito algo inesperado: parou de repente. Ele afrouxou os cordões dourados de uma bolsa de couro que pendia de seu cinto, e de dentro saiu um jato de fumaça escura que logo assumiu a forma de um cão. Aldwyn fez um esforço para não entrar 20 OS FAMILIARES.indd 20 3/30/11 3:06 PM em pânico, porque da mesma forma como histórias de suas malvadezas tinham se espalhado pelos becos, também se contavam histórias de seus cães de sombra. Preparadas por meio de magia negra, essas aparições caninas formavam-se a partir de uma mistura de obsidiana, lírio preto e pelo de lobo queimado. Os Xamãs Sem Língua da Caverna de Stalagmos, que criavam aqueles demônios predadores, descobriram que podiam ganhar um bom dinheiro de assassinos como Grimslade, no Mercado dos Esgotos. E eles bem valiam seu preço. Criados inicialmente para guardar as minas de jaspe pretíssimo de Udula, os cães enxergavam na mais completa ausência de luz, e seus dentes podiam cortar cotas de malha. Aquilo era bastante para fazer tremerem as patas de qualquer felino fugitivo. Aldwyn estava começando a se perguntar se o linguado que ele ainda trazia na boca valia mesmo todo aquele sacrifício. O cão fantasma correu atrás dele, evitando os raios da luz matinal. Ele soltou um rugido sobrenatural que fez os pelos da nuca de Aldwyn se arrepiarem. Aumentando a velocidade, Aldwyn seguiu reto para o que parecia ser um beco sem saída: um tapume de quatro metros e meio de altura, que circundava os jardins das rochas sagradas do Templo do Sol de Bridgetower. Com o cão de sombra cada vez mais próximo, Aldwyn pôde ver melhor a fera que corria 21 OS FAMILIARES.indd 21 3/30/11 3:06 PM 22 OS FAMILIARES.indd 22 3/30/11 3:06 PM atrás dele: sem olhos e sem focinho, era apenas uma nuvem negra em movimento, deixando um rastro de fumaça pelo caminho. Correndo, Aldwyn se lançou contra as pranchas de madeira do tapume, as garras impulsionando-o para o alto e por cima do tapume. Ele caiu no jardim de pedras do outro lado, certo de que nenhum cão seria capaz de escalar uma altura daquela. Mas o cão de sombra não era um cachorro comum. Ele atravessou o tapume sob a forma de vapor, retomando sua forma do outro lado. Arregalando os olhos, Aldwyn tratou de fugir novamente, correndo em direção aos degraus da entrada do Templo do Sol. Sem parar para admirar a construção, disparou porta adentro para salvar a pele. Dentro do templo, estavam cidadãos de Bridgetower que tinham vindo rogar ao sol que recuperasse suas plantações arruinadas. Eles estavam ajoelhados diante de uma piscina de meditação, iluminada por espelhos giratórios. Raios do sol matinal entravam por uma abertura na cúpula, refletiam-se nos espelhos e faziam a água brilhar intensamente. Aldwyn passou entre dois vasos votivos de bronze cheios de pétalas de flores e moedas brilhantes. No alto, grandes pinturas em folha de ouro mostravam um guerreiro barbudo a cavalo, puxando o sol pelo céu. Aldwyn esperava atravessar o templo correndo 23 OS FAMILIARES.indd 23 3/30/11 3:06 PM e sair sorrateiramente pelo outro lado, mas as portas de prata ainda não tinham sido abertas. Ele voltou para a entrada e viu o cão fantasma bloqueando sua passagem. Suas patas começaram a suar. — Talvez a gente possa chegar num acordo — propôs Aldwyn, deixando cair o linguado no chão. — O que você acha de dividir esse peixe comigo? Meio a meio! A sombria aparição soltou um silencioso rosnado feroz, lançando tentáculos de névoa em direção a Aldwyn. Ele sentiu um frio terrível quando a névoa lhe envolveu a pata branca, mas os tentáculos se recolheram tão rápido quanto tinham avançado. — Sessenta-quarenta também pode ser —, disse Aldwyn. Alguns fiéis pararam de rezar e ergueram os olhos quando o cão se pôs em posição de ataque. Deixando à mostra os caninos pretos retintos, o monstro saltou para a frente, voando no ar, direto no pescoço de Aldwyn. Aldwyn desviou o corpo e se viu acuado, de costas para um dos grandes espelhos giratórios. No exato instante em que o cão de sombra preparou-se para um novo ataque, Aldwyn pensou rápido. Ele estendeu a pata e golpeou o refletor, fazendo-o girar, e o raio concentrado de luz solar incidiu diretamente na fera de fumaça. A luz abriu um buraco na aparição, e o grito que se ouviu foi de gelar o sangue. Numa ne24 OS FAMILIARES.indd 24 3/30/11 3:06 PM gra explosão, tudo sumiu, sobrando apenas uns restos de obsidiana em pó. Aldwyn respirou fundo, pegou o linguado e saiu do templo com ar arrogante, ignorando a comoção que provocara nos fiéis. Ele atravessou o jardim, subiu numa árvore ali perto e saltou por cima do tapume para a rua próxima. Cruzando a praça do comércio, Aldwyn passou por uma senhora com pelos no queixo, vendendo plantas em vasos que carregava em seu carrinho de mão. Ele olhou em volta e se deu conta de que nunca tinha estado naquele quarteirão antes. À primeira vista, não parecia diferente de qualquer outra quadra de lojas que vendiam caldeirões, condimentos ou livros. Mas Aldwyn nunca vira vapor saindo de um caldeirão vazio nem as páginas de um livro virando sozinhas, embora aquilo bem pudesse ser obra do vento. E pensando bem, por que a velha senhora com pelos no queixo estava vendendo plantas murchas e mortas? Que serventia poderiam ter? Bem, na verdade aquilo não importava, desde que ele tivesse um telhado plano onde pudesse finalmente comer seu linguado em paz e tirar uma boa soneca depois. Zup! Aldwyn sentiu os dentes vibrarem quando o peixe foi arrancado de sua boca por uma flecha disparada pela besta de Grimslade. 25 OS FAMILIARES.indd 25 3/30/11 3:06 PM — Você é um adversário admirável — gritou Grimslade. — Mas a caça termina aqui. Por uma fração de segundo, Aldwyn ficou no dilema de correr para salvar a vida ou recuperar o peixe, que agora estava pregado num barril de madeira pela flecha. Uma segunda flecha, que passou de raspão nos pelos de sua cabeça, apressou sua decisão. Mais que depressa, Aldwyn dobrou a esquina, correu para a primeira janela que achou e pulou dentro dela, sem saber onde estava caindo. 26 OS FAMILIARES.indd 26 3/30/11 3:06 PM