2005/08/24
AFEGANISTÃO. ELEIÇÕES , DE
NOVO !
Alexandre Reis Rodrigues
Há um ano atrás, não havia muita gente a acreditar que
fosse possível realizar eleições no Afeganistão. Quando,
apesar de tudo, foi possível concluir as presidenciais de
forma aceitável para os observadores internacionais então
presentes, o cepticismo virou-se para as eleições
parlamentares que se lhes deviam seguir, então geralmente
consideradas mais complexas e difíceis de proteger.
Estamos, neste momento, a cerca de três semanas e meia
da prova final, com a chamada dos afegãos às urnas, a 18
de Setembro, para escolher os 249 membros da próxima
Assembleia, entre 5800 candidatos (328 mulheres). Dos
249 lugares, um quarto deverão ser preenchidos por
mulheres; dez estão reservados para os nómadas.
A realização de eleições não garante, obviamente, o funcionamento do país segundo regras e
princípios democráticos, nem muito menos a paz e estabilidade necessárias para que possa haver
progresso. Será, em qualquer caso, um passo extremamente importante na legitimação da estrutura
do Estado, na consolidação de um sistema político visando a resolução das divisões étnicas,
regionais e linguísticas sem recurso às confrontações em que o país tem estado continuadamente
mergulhado e na credibilização dos dirigentes dos seus principais órgãos. Um desfecho que não
interessa, portanto, aos sobreviventes dos talib an que até à invasão americana em 2002, detinham
um feroz controlo do país e, naturalmente, esperam poder voltar, um dia, para instalar um regime
islâmico de linha dura.
É neste contexto que, geralmente, se interpreta o recrudescimento de violência que se tem feito
sentir ultimamente, principalmente nas regiões sul e leste do país: 1000 mortos supostamente por
acção directa de talib ans desde Março deste ano, incluindo funcionários do governo de Karzai,
militares e polícias afegãos, trabalhadores de agências não-governamentais de ajuda e 40
soldados americanos. É o próprio Secretário Geral da ONU que reconhece tratar-se do mais sério
recrudescimento de violência, desde a invasão americana no final de 2001.
Recentemente, uma das acções de maior visibilidade internacional incluiu um atentado suicida em
Kandahar que provocou 30 mortos e o assassínio de dez polícias, dos quais seis foram
decapitados. Segundo observadores locais, pode estar-se perante uma renovação da guerrilha
talib an, com reforço de meios humanos e materiais, presumivelmente numa manobra da al Qaeda
visando não só impedir a realização das eleições como também abrir uma nova frente de combate
ás forças americanas. Embora a situação não seja comparável à existente no Iraque, agravam-se as
dificuldades para a realização do acto eleitoral e da campanha que o devia preceder.
Felizmente, não se confirmou a suspeita de que o recente incidente com um helicóptero espanhol, a
16 de Agosto, véspera do início da campanha eleitoral, em que morreram 17 soldados do
contingente de 840 efectivos desse país, era uma repetição do sucedido com um helicóptero
americano, 28 de Junho, abatido por acção dos talib ans (16 mortos) e considerado o seu maior
sucesso militar desde a invasão americana.
As investigações entretanto concluídas já confirmaram ter-se tratado de um acidente; se assim não
fosse estaríamos perante a evidência de que a até aqui relativamente pacata área de Herat, onde o
acidente ocorreu, teria passado a ser área de actuação dos talib ans, geralmente concentrados na
área sul e leste. Esta eventualidade obrigaria a rever o dispositivo da NATO[1] no país, cujos
efectivos não americanos estão primariamente empenhados em tarefas de estabilização e de apoio
à reconstrução do país, em áreas menos exigentes em termos combatentes.
Se a queda do helicóptero espanhol tivesse sido consequência de um ataque, então seria bem
maior a área onde se torna quase impossível haver campanha eleitoral e realizar um processo
eleitoral minimamente seguro. Não é esse o caso, mas, mesmo assim, muitos dos candidatos
estão sob ameaça e não conseguirão fazerem campanha, por falta de condições de segurança.
Presentemente, podemos mesmo falar em dois Afeganistões: o das 24 províncias do norte, oeste e
centro, que regista um baixo nível de violência, e o das 10 províncias do leste e sul, onde grupos de
guerrilha talib ans têm provocado contínuos confrontos com as forças americanas, tornando
praticamente impossível a realização de eleições, mesmo sem terem capacidade de conservar
território sob o seu controlo.
O processo eleitoral não será perfeito, como facilmente se depreende. O caminho percorrido pelo
país também não é tão motivador como seria desejável para suscitar uma plena adesão da
população; na verdade, não tem sido possível ir claramente ao encontro das expectativas de
melhoria de condições – frequentemente, por falta de segurança – e os apoios não têm aparecido
com a celeridade prometida. Se, porém, apesar de tudo, a participação for idêntica à verificada nas
eleições presidenciais – o que não está posto de lado – o Afeganistão terá dado um passo
essencial para a sua própria sobrevivência como estado soberano.
[1] Cerca de 30000 efectivos no total (20000 americanos).
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