Agatha Christie HORA ZERO Tradução de JOICE ELIAS COSTA www.lpm.com.br L&PM POCKET 3 PRÓLOGO 19 de novembro O grupo em volta da lareira era quase todo composto por advogados ou por pessoas com algum interesse pelo Direito. Ali estavam Martindale, o procurador, lorde Rufus, conselheiro real, o jovem Daniels, que ficou famoso com o caso Carstairs, alguns outros advogados, o sr. Justice Cleaver, Lewis, da Lewis & Trench, e ainda o velho sr. Treves. Este, com seus quase oitenta anos de maturidade e experiência, era membro de um famoso escritório de advocacia; na verdade, era o sócio mais ilustre da firma. Havia solucionado inúmeros casos difíceis no tribunal e, além de grande criminalista, era considerado, mais do que qualquer outro homem na Inglaterra, um profundo conhecedor dos bastidores da história. Os precipitados afirmavam que o sr. Treves precisava escrever as suas memórias. Mas ele era um homem de bom senso. Estava ciente de que sabia demais. Apesar de estar há muito tempo afastado das atividades profissionais, não havia na Inglaterra homem nenhum cuja opinião fosse tão respeitada pelos colegas. Toda vez que sua voz fina e precisa se levantava, havia um silêncio respeitoso. A conversa agora se referia a um caso muito comentado que tinha sido concluído naquele dia, no Old Bailey. Era um caso de assassinato, e o réu havia sido absolvido. Os presentes ocupavam-se de reexaminar o caso e fazer críticas de ordem técnica. A acusação cometera um erro ao confiar em uma de suas testemunhas – o velho Depleach deveria ter percebido a oportunidade que estava dando à defesa. 9 O jovem Arthur explorou ao máximo o depoimento da empregada. Bentmore, nos seus argumentos finais, situou o caso em sua perspectiva correta, mas naquele momento o dano já estava feito – os jurados acreditaram na moça. Os jurados são engraçados – nunca se sabe o que vão aceitar. Porém, no momento em que botam uma coisa na cabeça, ninguém jamais consegue fazê-los mudar de ideia. Acreditaram que a moça estava falando a verdade sobre o pé de cabra e pronto. O laudo médico estava um pouco além da compreensão deles. Todos aqueles termos técnicos e o jargão científico – péssimas testemunhas esses cientistas, sempre enrolando e sem saber responder sim ou não a uma pergunta óbvia, sempre “sob determinadas circunstâncias isso poderia ter ocorrido” e assim por diante! Pouco a pouco, à medida que se manifestavam e que as observações se tornavam mais arrebatadas e desconexas, crescia uma sensação geral de que alguma coisa estava faltando. Uma após outra, as cabeças voltaram-se para o sr. Treves, uma vez que até então ele não havia feito nenhum comentário. Aos poucos, ficou claro que o grupo esperava a palavra final de seu mais ilustre colega. O sr. Treves, recostado na cadeira, limpava os óculos distraído. Alguma coisa naquele silêncio fez com que levantasse a cabeça de repente. – Hein?! – disse ele. – O que foi? Vocês me perguntaram alguma coisa? O jovem Lewis falou: – Comentávamos sobre o caso Lamorne, senhor. E parou demonstrando expectativa. – Sim, sim – disse o sr. Treves. – Estava pensando nisso. Houve um silêncio respeitoso. – Mas tenho a impressão – ele continuou, ainda limpando os óculos – de que eu estava fantasiando. Sim, fantasiando. Creio que seja em decorrência da velhice. Na 10 minha idade, se quisermos, podemos reivindicar o direito de sermos imaginativos. – Sem dúvida, senhor – comentou o jovem Lewis, que parecia intrigado. – Estava pensando – disse o sr. Treves – não nos vários aspectos da lei levantados, apesar de serem muito interessantes. Caso o veredicto tivesse sido outro, teriam boas bases para apelação, imagino. Mas não quero entrar nessa discussão agora. Estava apenas pensando, como disse, não nos aspectos da lei, mas nas... bem, nas pessoas envolvidas neste caso. Todos pareceram um tanto admirados. Haviam considerado as pessoas envolvidas no caso apenas no que dizia respeito à credibilidade dos seus depoimentos, ou então como meras testemunhas. Nenhum deles sequer arriscou especular sobre se o réu era culpado ou inocente, como o tribunal o havia pronunciado. – Seres humanos, como sabem – falou o sr. Treves pensativo –, seres humanos de todo tipo, espécie, tamanho e forma. Alguns inteligentes e muitos outros não. Vindos de todos os lugares, Lancashire, Escócia, como aquele italiano dono de restaurante e aquela professora vinda de algum lugar do Middle West. Todos apanhados, emaranhados no caso e finalmente reunidos em um tribunal de justiça de Londres num dia cinzento de novembro. Cada um contribuindo com uma pequena parte. E a coisa toda culminando em um julgamento por crime de assassinato. Ele parou e tamborilou de leve no joelho. – Gosto de um bom romance policial – disse ele. – Mas, como se sabe, eles sempre começam do ponto errado! Começam pelo assassinato. Só que o assassinato é o final. A história começa muito antes – muitas vezes, anos antes – com todas as causas e circunstâncias que levam as pessoas a certos lugares, num certo momento e num certo dia. Vejam o depoimento da jovem empregada: se 11 a cozinheira não tivesse roubado o namoradinho dela, ela não teria tido um acesso de raiva e ido à casa dos Lamornes, passando assim a ser a principal testemunha da defesa. Se o tal Giuseppe Antonelli não tivesse chegado para ficar no lugar do irmão por um mês... bem, o irmão é cego como um morcego e não teria visto o que viram os olhos aguçados do Giuseppe. Se o policial não estivesse encantado pela cozinheira do no 48, não teria se atrasado na sua ronda... Balançou a cabeça devagar. – Todos se dirigem a um determinado local... E aí, quando chega a hora: o ponto máximo! A hora zero. Sim, todos convergem para a hora zero... Para a hora zero... – repetiu. Estremeceu ligeiramente. – O senhor está com frio, chegue mais perto da lareira. – Não, não – disse o sr. Treves. – É só alguém andando sobre o meu túmulo, como se diz. Bem, preciso ir para casa. Despediu-se com um aceno cordial e saiu da sala devagar, mas com firmeza. Houve um silêncio vago. Em seguida, lorde Rufus observou que o pobre Treves estava envelhecendo. O sr. William Cleaver comentou: – É uma mente perspicaz, muito perspicaz, porém mostra a idade avançada. – E seu coração está fraco – disse o lorde. – Pode parar a qualquer momento, imagino eu. – Mas ele se cuida muito – afirmou o jovem Lewis. Naquele momento, o sr. Treves entrava com cuidado no seu confortável Daimler, que o levaria até o quarteirão tranquilo onde ficava sua casa. Um mordomo solícito ajudou-o a tirar o casaco. O sr. Treves entrou na biblioteca, onde a lareira ardia. Seu quarto ficava mais 12 adiante no mesmo andar, pois não podia subir escadas por causa do coração. Sentou-se em frente ao fogo e apanhou a correspondência. Sua mente ainda se concentrava na fantasia que esboçara no clube. “Precisamente neste momento”, pensou consigo mesmo o sr. Treves, “algum drama – algum futuro assassinato – está sendo planejado. Se estivesse escrevendo uma dessas pitorescas histórias de crime e sangue, começaria agora com um velho senhor abrindo a sua correspondência em frente à lareira, indo – sem perceber – em direção à hora zero...” Rasgou um envelope e olhou fixo para a folha de papel que retirou dele. Sua expressão mudou de repente. Ele voltou da ficção para a realidade. – Meu Deus! – disse o sr. Treves. – Que desagradável! Realmente muito inoportuno! Depois de todos esses anos! Isto vai alterar os meus planos por completo. 13 “ABRE-SE A PORTA E EIS AS PESSOAS” 11 de janeiro O homem deitado na cama do hospital moveu ligeiramente o corpo e soltou um gemido. A enfermeira responsável pela ala levantou de sua mesa e dirigiu-se até ele. Arrumou os travesseiros e o colocou em uma posição mais confortável. Angus MacWhirter agradeceu apenas com um resmungo. Estava num estado de tempestuosa revolta e amargura. A essa hora já deveria estar tudo acabado. Ele deveria estar livre de tudo! Que árvore maldita e absurda – brotar no penhasco! Malditos namoradinhos intrometidos que encararam o frio de uma noite de inverno para comparecer a um encontro na beira do penhasco. Não fossem eles (e a árvore!), tudo teria terminado – um mergulho na profunda água gelada, talvez uma breve agonia, e depois o esquecimento – o fim de uma vida mal vivida, inútil e vazia. E agora, onde ele estava? Deitado, ridículo, em uma cama de hospital, com um ombro quebrado e com a perspectiva de ser denunciado à justiça pelo crime de tentar tirar a própria vida. Maldição! Era a sua própria vida, não? E, se tivesse conseguido, teriam-no enterrado piedosamente como um sujeito de mente doentia! Doente mental mesmo! Jamais estivera tão lúcido! O suicídio era a alternativa mais lógica e sensata para um homem naquela situação. 14 Completamente falido, com a saúde afetada de forma irreversível e com uma esposa que o deixara por outro homem. Sem emprego, sem afeto, dinheiro, saúde ou esperança; acabar com tudo não era certamente a única solução possível? E agora estava naquela situação ridícula. Em breve seria admoestado por um juiz carola por ter feito a única coisa razoável com um bem que pertencia apenas a ele: a sua vida. Bufou de raiva. Foi invadido por uma onda de ira. A enfermeira estava mais uma vez ao seu lado. Era jovem, ruiva, tinha um rosto bondoso e um ar distraído. – Está com muita dor? – Não, não estou. – Vou lhe dar alguma coisa para dormir. – Você não vai fazer nada disso. – Mas... – Você acha que não consigo suportar um pouco de dor e insônia? Ela sorriu com gentileza e um leve ar de superioridade. – O médico disse que você poderia tomar alguma coisa. – Não me importa o que o médico disse. Ela arrumou as cobertas e colocou o copo de limonada mais perto dele. Um pouco envergonhado, ele falou: – Desculpe, fui grosseiro. – Não. Está tudo bem. Incomodava-lhe o fato de ela permanecer tão completamente impassível diante do seu mau humor. Nada conseguiria penetrar a couraça de indulgente indiferença da enfermeira. Ele era um paciente, não um homem. Ele disse: – Maldita interferência. Toda essa maldita interferência... Ela falou em tom de reprovação: 15 – Ora, ora, isso não foi muito gentil. – Gentil? – respondeu – Gentil? Meu Deus! – Você se sentirá melhor pela manhã – disse ela com calma. Ele engoliu em seco. – Vocês enfermeiras! Enfermeiras! Umas desumanas, é isso o que vocês são! – Nós sabemos o que é melhor para vocês. – Isto é o que mais me irrita em você, nos hospitais, no mundo todo – a interferência contínua! Saber sempre o que é melhor para os outros. Tentei me matar. Você sabe disso, não? Ela fez que sim com a cabeça. – Era um problema só meu me atirar ou não de uma porcaria de penhasco. Para mim, a vida terminara. Eu estava arruinado! A enfermeira fez um estalinho com a língua mostrando compaixão. Ele era um paciente. Ela o acalmava deixando-o desabafar. – Por que não devo me matar se é isso o que eu quero fazer? – perguntou. Ela respondeu com muita seriedade: – Porque é errado. – Errado por quê? Olhou-o em dúvida. Não que aquilo tivesse afetado a sua convicção, mas por ter tanta dificuldade para explicar a sua reação. – Bom, quero dizer, é terrível a pessoa se matar. A gente tem que seguir a vida, quer queira, quer não. – Mas por quê? – Bom, há outras pessoas que precisamos levar em consideração, não é? – Não no meu caso. Não há nenhuma alma neste mundo que fosse sentir a minha morte. – Você não tem parentes? Nem mãe, nem irmãs, nada? 16 – Não. Tive uma esposa, mas ela me deixou. E ela fez a coisa certa! Viu que eu não servia para nada. – Mas, com toda certeza, você tem amigos, não? – Não, não tenho. Não sou do tipo sociável. Olhe aqui, enfermeira, vou lhe contar uma coisa. Já fui um sujeito feliz. Tinha um bom emprego e uma bela mulher. Houve um acidente de carro em que me envolvi. Meu patrão estava dirigindo e eu estava no carro. Ele queria que eu dissesse que ele estava dirigindo a menos de cinquenta quilômetros por hora. Mas não estava. Vínhamos a quase oitenta. Ninguém morreu nem nada, ele só queria estar com a razão por causa do pessoal da seguradora. Bem, eu não disse o que ele queria. Era uma mentira. E eu não minto! A enfermeira falou: – Bom, acho que você estava certo. Totalmente certo. – Você não acha? Pois essa minha teimosia custou o meu emprego. Meu patrão ficou ofendido. Deu um jeito de garantir que eu não conseguisse outro emprego. Minha mulher se cansou de me ver para lá e para cá, incapaz de conseguir um trabalho. Foi embora com um homem que havia sido meu amigo. Ele estava prosperando e subindo na vida. Fiquei à deriva, caindo cada vez mais. Comecei a beber e isso não me ajudou a parar em nenhum emprego. Por fim, acabei adoecendo, acabei com a minha saúde. O médico me disse que eu jamais voltaria a ser uma pessoa saudável. Bom, nessa altura já não havia mais razão para viver. O caminho mais fácil e mais honesto era sumir de vez. Minha vida não valia nada nem para mim nem para mais ninguém. – Você não tem certeza disso – murmurou a jovem enfermeira. Ele riu. Já estava mais bem-humorado. A ingênua obstinação dela o divertia. 17 – Minha querida, qual a utilidade de alguém como eu? Confusa, ela disse: – Você não sabe. Pode ser que algum dia você... – Algum dia? Não vai haver “algum dia”. Na próxima vez, vou garantir que não haja. Ela balançou a cabeça, convicta. – Ah, não! – disse. – Você não vai mais tentar se matar agora. – Por que não? – Vocês nunca tentam! Ele a encarou. “Vocês nunca tentam”. Ele pertencia à categoria dos aspirantes a suicidas. Ao abrir a boca para protestar energicamente, num impulso, sua honestidade inata o impediu. Será que tentaria de novo? Tinha de fato a intenção de tentar? De repente compreendeu que não tentaria. Por nenhum motivo específico. Talvez o motivo preciso fosse o que ela acabara de fornecer com base no seu conhecimento especializado. Os suicidas não tentam outra vez. Além do mais ele estava decidido a forçar uma revelação de ordem ética por parte dela. – De qualquer maneira, tenho o direito de fazer o que quiser com a minha própria vida. – Não, você não tem. – Mas, por que não, minha querida? Por quê? Ela corou. Brincando com a pequena cruz de ouro pendurada em seu pescoço, disse: – Você não entende. Pode ser que Deus precise de você. Ele a encarou, surpreso. Não queria perturbar a sua fé infantil. Falou com ironia: – Suponho que um dia eu deva deter um cavalo desembestado e salvar uma criança de cabelos dourados, não é? É isso? 18