ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 À VISTA DO TERRAÇO ONDE NÃO HAVIA NINGUÉM: LEITURA DO CONTO UM LUGAR LIMPO E BEM ILUMINADO, DE HEMINGWAY João Daniel Guimarães Oliveira (UEFS) O presente artigo busca analisar o conto Um lugar limpo e bem iluminado, de autoria do escritor Ernest Hemingway, através de dois aspectos. O primeiro se relaciona com a famosa Teoria do Iceberg do mestre americano: tal como essa massa de gelo, visível apenas pela ponta, mas que esconde um bloco glacial imenso, eis como deve ser o texto literário – dizer com palavras o mínimo, deixar subentendido o máximo. O segundo é o tratamento deste autor para com a questão da paisagem. Costuma-se atribuir o termo simplicidade ao estilo de Hemingway. Enxuto, de poucos adjetivos, sua prosa corre fácil e leve. Mas a sedução do seu texto não se atém apenas – quando os há – aos fatos narrados, a suspenses alimentados, a tensões construídas. É naquele detalhe corriqueiro, naquele parágrafo perdido, quase transparente, naquela elipse sutil, que algo se revela. E este algo, sendo ele ínfimo ou profundo, ou os dois, quando vem à tona de maneira indireta, quando não é entregue de bandeja pelo texto, quando é descoberto ao invés de demonstrado, costuma causar uma agradabilíssima sensação de leitor, que vai da vaidade ao prazer, passando pelo orgulho. Nisso Hemingway é mestre, mas ele o é não por apenas fazê-lo, e sim por despejar, como que a conta-gotas, uma dosagem muito apropriada. Ele adota para si um dos projetos mais ingratos da literatura: derramar no papel uma escrita simples, do ponto de vista linguístico, para tentar atingir a maior profundidade possível. Priva-se de adjetivos, de hermetismos, de inversões sintáticas, de digressões sinuosas, enfim, de todo um arsenal de alta eficiência para com a complexidade, e ainda assim se propõe a contemplá-la. Wood diz que sua suposta simplicidade é “uma forma de riqueza altamente controlada e minimalista, um estilismo de renúncia” (WOOD, 2012, p. 154). Ele renuncia dos mais clássicos aos mais modernos aparatos do discurso. É como se predispor a cavar um túnel e jogar fora todas as picaretas, escavadeiras e britadeiras, e cavá-lo apenas com um 1 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 garfo e uma faca – e ainda assim fazê-lo com delicadeza, tentando manter uma precisão geométrica aparentemente inaceitável. Deve ser mais fácil tentar imitar Breton do que Hemingway. No conto Um lugar limpo e bem iluminado, já temos aí uma ótima definição do seu texto: algo limpo e bem iluminado. O’Faolain afirma que o autor escreve “como um homem que deve enviar telegramas de um campo de batalha a um preço altíssimo por cada palavra” (1962, p. 113). O que chama a atenção é que, se imaginarmos um lugar limpo e bem iluminado, possivelmente não conceberemos nada próximo de uma mansão luxuosa ou de um antro sórdido qualquer; algo limpo e bem iluminado nos parece neutro demais para isso. Nem tanto nem tão pouco: ele nos parece aconchegante, nos parece “na medida certa”. Não nos sentiremos desconfortáveis nele. Algo “limpo e bem iluminado” realmente traz a sensação de praticidade, arejamento, funcionalidade ou discrição. Não é aquela roça dos nossos avós, cheia de muriçocas e pernilongos, com problemas de encanação e eletricidade; não é aquele apartamento da cidade cheio de solidão, concreto, claustrofobia, poluição sonora, visual, auditiva e tátil; é apenas um lugar limpo e bem iluminado. Simples assim. Acontece que, tal como a prosa de Hemingway, que procura atingir a profundidade mais inóspita do iceberg, um lugar limpo e bem iluminado não nos parece destituído de conflito. Por sua neutralidade, sua transparência, um lugar desses pode nos suscitar malogrados monólogos existenciais de si para si. Esse lugar não é desconfortável, mas também não é exatamente agradável. Sua agradabilidade só funciona até o momento em que o esvaziamento do ser, que tal lugar impulsiona, atinge a sua raiz. Daí em diante, o que temos é um sobrepujamento do nada. Aliás, há um salutar trecho do conto que reitera esse fenômeno. A história é simples: dois garçons em um café aguardam um velho solitário, surdo e bêbado, tomar seus lentos tragos. O garçom mais novo está ansioso para ir embora – a madrugada avança –, enquanto o garçom mais velho é um tanto mais paciente. Em dado momento o garçom jovem enxota o bêbado, se 2 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 despede do garçom velho e retira-se rumo à sua casa. A câmera narrativa, por assim dizer, então, segue o garçom velho, que, após despedir-se do seu colega e argumentar em favor dos lugares limpos e bem iluminados, reflete (uma reflexão que começa na primeira pessoa e termina na terceira): “É a luz, sem dúvida, mas é importante que o lugar seja também limpo e agradável. Não se precisa de música ambiente. Quem quer saber de música numa casa como esta? Tudo o que se quer é beber com dignidade, que é exatamente o recomendável nessas horas. Do que é que ele tinha receio? Não se tratava de medo ou pavor, mas daquele nada que ele conhecia muito bem, um nada que estava em tudo e nos homens também. Era só isso, e bastavam a luz, a limpeza e um pouco de ordem para colocar tudo nos eixos. Alguns viviam num ambiente assim e nem se davam conta disso, mas ele sabia muito bem que tudo podia reduzir-se a nada y pues nada y nada pues nada. Nosso nada que estais no nada, nada seja o nome de vosso reino, venha a nós o vosso nada; seja feito o vosso nada assim no nada como no nada; o nada de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos o nosso nada assim como perdoamos os nossos nadas; não nos deixeis nada no nada, mas livrai-nos do nada; pues nada Salve o nada cheio de nada, o nada está convosco”. (HEMINGWAY, 1997, p. 260). Carpeaux acreditava que esse “nada que ele conhecia muito bem” era a base filosófica da literatura de Hemingway. Vem daí a possível “prosa niilista”: mais que as ideias, encontramos “niilismo” até nas construções frasais, no sacrifício de determinadas classes gramaticais e de métodos básicos de ordenação sintática. O niilismo essencial de Hemingway é a base do seu estilo simples, lacônico, abrupto, coloquial, que inúmeros escritores do nosso tempo imitam. [...] uma alta virtude da prosa inglesa: o understatement, o esforço para sempre dizer o que se pensa com o mínimo de palavras, sem eloqüência e sem grandiloqüência, não deixando perceber a emoção íntima. (CARPEAUX, 2005, p. 890). Ao abdicar da eloquência e da grandiloquência, sua prosa passa a costurar uma intimidade natural com o leitor. Ela não nos amedronta, não nos provoca um olhar enviesado – há uma cômoda camaradagem para conosco. Até 3 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 que, fisgados por ela, somos atirados neste poço de nada, e já não há mais volta. Porém, saímos satisfeitos da experiência. Como já mencionado, a aventura para decifrar os subentendidos com os quais Hemingway ornamenta seus textos seduz sobremaneira o leitor. Não estamos falando aqui do estilo policial, ou do suspense, nos quais há mistérios literais a serem resolvidos, até porque a solução final nunca costuma ser previsível; também não me refiro à escola de Henry James, na qual há um jogo psicológico quase sinfônico cheio de detalhes implícitos absurdamente labirínticos. O subentendido de Hemingway é paisagístico. Não há segredo na fórmula: ele apenas confere ao detalhe a sua definição natural. O que é um detalhe? Ora, nada mais é que uma coisinha aqui e outra ali, mas que irrevogavelmente estão ali; são só umas coisinhas, muito embora elas nos toquem; são nada y pues nada y nada pues nada. Um exemplo pode elucidar a ideia. Voltemos ao início do conto, ao café onde os garçons aguardam a saída do velho cliente. Estavam ambos sentados à mesa encostada à parede e próximo da entrada do café, à vista do terraço onde não havia ninguém, a não ser o velho que gozava a fresca da noite sob a folhagem oscilante da árvore. Uma garota e um soldado passaram pela rua, e a luz do poste de iluminação brilhou sobre o número em latão que o soldado ostentava em seu colarinho. A garota apressava os passos para acompanhá-lo e trazia descoberta a cabeça. – A patrulha irá detê-lo – disse um dos garçons. – O que importa isso se ele conseguir realizar o que pretende? – Seja como for, o melhor que ele tem a fazer é dar o fora da rua. A patrulha vai pegá-lo, pois faz cinco minutos que a ronda passou. (HEMINGWAY, 1997, p. 255-256). Logo antes desse trecho os garçons haviam conversado sobre o velho e sobre a tentativa de suicídio deste, datada de uma semana. Uma leitura desatenta pode levar alguém a crer que a observação dos garçons sobre a patrulha se refere ao velho. Claro, não faz muito sentido. Não é difícil perceber que os dois colegas estão se referindo, na verdade, ao soldado que passara. Não é difícil, mas também a informação não foi dada de graça. Há uma sentença óbvia oculta, que antecederia a transcrição das falas acima e que seria mais ou menos 4 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 algo como “O garçom, após observar o casal subindo a rua, disse ao outro garçom”. De repente, nos parece óbvio demais que dois garçons entediados em um café, esperando um velho chato terminar sua bebedeira em plena madrugada, distrair-se-iam com qualquer coisa que passasse na rua, pois isso os ajudaria a matar o tempo. De repente, a presença da frase hipotética que demonstrei acima seria uma agressão ao texto e à capacidade especulativa do leitor. Mas o fato é que muitos escritores optariam por não deixá-la de fora. Alguns, mais cretinos, seriam capazes de adicionar algo como “o casal apaixonado”. Mas, diante do “estilismo de renúncia” de Hemingway – e, afinal de contas, diante da própria ideia de que tal estilo representa, no fundo, um contumaz senso de realismo/realidade, pois é assim que é a vida real, cheia de subentendidos e bem distante do autoexplicativo –, nos sentimos saciados enquanto leitores ao peneirarmos seu texto e chegarmos a diversas conjecturas apenas perante o trecho supracitado. Esse tratamento com os detalhes é atraente, como já dito. Mas, tal característica é tão paisagística, isto é, ela parece estar tão ali, apenas ali, como que sem propósito, que parece até estranho percebê-la enquanto poderosa virtude literária. Ora, a solução do problema se encontra justamente no mesmo ponto em que a dúvida foi semeada: sua face não escancarada é que é o seu diferencial estético. E a dica está no conto. “Alguns viviam num ambiente assim e nem se davam conta disso” (p. 260). Aí está a definição da proposta literária de Hemingway, que já serve de porta de entrada para o conceito de paisagem. De fato, até mesmo a Teoria do Iceberg já possui ressonâncias paisagísticas, e parece dialogar com Foucault, quando este, citado por Duncan (2004), diz que “A ordem visível, com sua grade permanente de distinção, é agora somente um brilho superficial sobre um abismo (p. 99)”. O mesmo Duncan, mais adiante, observa que “Normalmente, as paisagens tendem a parecer naturais ou inevitáveis àqueles que vivem e trabalham nelas (p. 108-109)”. E no conto Um lugar limpo e bem iluminado há um efeito que podemos chamar de metapaisagem: seu texto é 5 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 paisagístico, devido ao estilo hemingwayniano; o foco de sua estória também é, já que se trata de um lugar limpo e bem iluminado e sua relação com alguns indivíduos; e podemos dizer, finalmente, que até os personagens – especificamente o velho solitário – compõem uma espécie de paisagem. Do primeiro aspecto já falamos, voltemo-nos para os outros dois. Dentre os diversos veículos ideologizantes utilizados nas sociedades temos a paisagem, eficaz porque sub-reptícia, sempre presente porque sempre portando as vestes do ausente. Sua poderosa imanência não diminui em nada a meticulosa organização de detalhes da qual ela pode ser composta. Voltemos a Duncan. A paisagem, eu afirmaria, é um dos elementos centrais num sistema cultural, pois, como um conjunto ordenado de objetos, um texto, age como um sistema de criação de signos através do qual um sistema social é transmitido, reproduzido, experimentado e explorado. (DUNCAN, 2004, p. 106). Uma paisagem não poderá jamais ser gratuita. Enquanto “texto”, ela possui um antes, um durante e um depois, e nunca deixa de pulsar. Quando me deparo com uma paisagem e aplico-lhe um golpe de vista, estou ajudando-a a manter sua pulsação. Milton Santos (2009) diz que “A paisagem é história congelada, mas participa da história viva” (p. 107); logo, naquele discreto café limpo e bem iluminado, cada sujeito que nele se detém desenvolve uma relação particular. Santos considerava a paisagem enquanto um conjunto de formas, responsáveis pelas funções sociais imersas no sistema cultural observado por Duncan. “Assim, pode-se falar, com toda legitimidade, de um funcionamento da paisagem” (SANTOS, p. 107): temos um café que desenvolve o seu recorte paisagístico através de suas relações individuais com o velho, os garçons, o soldado e a moça, e também com as relações coletivos entre esses personagens, direta ou indiretamente. A paisagem do café representa, para os garçons, a imutabilidade da rotina, a convivência recorrente – até pelo horário de funcionamento do local – com seres solitários. Eles são acostumados a perceber a solidão de um cliente 6 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 com mais nitidez que o próprio. No garçom mais jovem tal representação produz aflição, pois lhe é penoso conviver num ambiente que remete à solidão e que vara a madrugada, sendo ele um homem que se encontra, pelo que se vê, em um casamento ainda interessante. Mas para o garçom velho o café configura-se enquanto espaço de consolo, quase um santuário; ele chega a afirmar: “Todas as noites reluto em fechar a casa porque pode haver alguém que precise deste café” (p. 259). Seu apreço pela limpeza e pela iluminação do seu local de trabalho é comovente. Até a sombra das folhagens faz, para ele, toda a diferença. Collot afirma que “Sempre me escapará algo da paisagem, que será atributo de um outro olhar” (2010, p. 211), já que “Todo ponto de vista é também um ponto de não visão, toda perspectiva exclui as outras: a paisagem é parcial porque é parcial” (2010, p. 209). O garçom mais jovem talvez nunca tenha observado que a sombra das folhagens dá um toque especial à iluminação do café; e mesmo o garçom velho lhe informando isto, talvez ele continue sem o reparar, pois pouco lhe importa – o café só lhe existe para que ele queira sair dali o mais rápido possível, rumo à sua cama com a esposa. Para o soldado, certamente o café deve representar nada mais que um lembrete da sua contravenção, pois é um lugar que costuma ter gente, e gente que teria potencial para delatá-lo. Quando a luz do poste ilumina exatamente o detalhe de sua vestimenta que mais o identifica (não enquanto soldado, pois a farda está lá pra isso, mas enquanto Soldado Fulano de Tal – sua identidade), talvez ele apresse mais ainda o seu já célere passo. Para a moçoila, talvez o café represente um lugar no qual ela se sentaria com o soldado, para namorar tranquilamente, se o soldado não estivesse com tanta pressa, se o que eles estivessem fazendo naquele momento não fosse proibido. Do ponto de vista espacial essa jovem é a que menos interage com a paisagem do café, mas não é impossível ela ter feito diversas reflexões rápidas. Por exemplo: se estivéssemos livre, poderíamos sentar nesse café e apreciar calmamente o transcorrer da noite; poderíamos ser marido e mulher, um casal “normal”; mas ele vai para a guerra; talvez depois da guerra possamos casar e 7 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 sentar neste café; mas ele pode morrer na guerra, e nunca mais teríamos como sentarmos no café; pior, ele pode me esquecer, voltar da guerra prometido a outra, e sempre que eu passar por esse café, futuramente, será doloroso, pois me lembrarei do soldado, da minha paixão por ele, e dessa noite, quando passei por aqui e desejei que fôssemos casados e tivéssemos um programa romântico neste lugar limpo e bem iluminado. Ora, se, como diz Holzer, “A individualidade da paisagem só é reconhecível quando comparada com outras paisagens” (1999, p. 154), podemos efetivamente identificar tal sintoma nos casos explanados aqui. O garçom novo contrapõe a fria e entediante solidão do café com o aconchego de sua casa; o garçom mais velho compara o lugar limpo e bem iluminado que é o seu café com outros lugares nada eficientes nesse sentido, tais como bodegas e bares; o soldado teme o café, que é mais um dos muitos sinais que não o deixam esquecer-se das suas obrigações militares e da infração que ele comete; a moça que o acompanha faz associações paisagísticas mais temporais que espaciais, e de ordem amorosa. Mas é no velho que encontramos talvez a interação sujeitopaisagem mais profunda do conto. Retornemos a Holzer que, citando Berque, afirma o seguinte: A paisagem não reside somente no objeto, nem somente no sujeito, mas na interação complexa entre os dois termos. Esta relação que coloca em jogo diversas escalas de tempo e de espaço, implica tanto a instituição mental da realidade quanto a constituição material das coisas. (HOLZER, 1999, p. 163). Na “interação complexa” do velho com o café, podemos supor que ocorre um processo lento e contínuo de reificação deste indivíduo. Ele não é o velho bêbado tresloucado, nem o bêbado falastrão, nem o bêbado da filosofia de botequim. Ele é um surdo, lhe parece ser indiferente relacionar-se com outras pessoas, e a recíproca é verdadeira. Reparemos que, em mais de uma ocasião, o narrador coloca-o na condição de exceção. No começo: “Era tarde, e todas as pessoas já haviam deixado o café, salvo aquele velho...” (p. 255); e depois: 8 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 “Estavam ambos [os garçons] sentados à mesa encostada à parede e próximo da entrada do café, à vista do terraço onde não havia ninguém, a não ser o velho...” (p. 255-256). Tal como o café é uma paisagem – relembremos a reflexão do garçom velho na qual ele diz que “Alguns viviam num ambiente assim e nem se davam conta disso” (p. 260) –, o velho passa a sofrer uma transformação paisagística: torna-se um “ambiente” do qual ninguém parece notar sua existência, e, se o nota, não o faz sem conflito (o garçom novo o odeia, sua sobrinha que impede o suicídio deve ter-se enfastiado, o garçom velho entra em conflito consigo próprio). De fato, a terceira idade costuma ser a mais paisagística das fases da vida humana, por uma questão cultural, é claro. E o velho, em sua relação com a paisagem, se depara com implicações sinestésicas: “Durante o dia, a rua era poeirenta, mas, à noite, o orvalho continha o pó, e o velho gostava de ficar ali o quanto pudesse, pois era surdo e, à noite, tudo se acalmando, ele sentia a diferença” (p. 255). É possível que o garçom paciente simpatize com o velho porque, além de outras afinidades, vê nele um sujeito-objeto com características semelhantes às do lugar limpo e bem iluminado que é o café. Em dado momento, quando seu colega comenta que “ser velho assim é sempre uma coisa detestável” (p. 257), ele replica: “Nem sempre! Veja como ele está sempre limpo e bem arrumado. Bebe sem derramar uma gota, nem mesmo quando está bêbado. Repara só (p. 257-258)”. Repara só: aplique um golpe de vista, e contemple aquela paisagem. Não por acaso, o garçom mais novo reclama “Não quero nem olhar para ele!” (p. 258). Ele não quer olhar para aquela paisagem; ela o tortura, tal como o café. Já para o outro garçom, ela conforta. Ela – ele, o velho – é um “lugar” limpo e bem arrumado, tal como o café é um lugar limpo e bem iluminado. Sei que o título do conto se refere ao café. Ou melhor: ao tipo de lugar ideal para o garçom. Mas não posso deixar de crer que o velho também é um lugar limpo e bem iluminado. 9 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 REFERÊNCIAS CARPEAUX, Otto Maria. Vida, obra, morte e glória de Hemingway. In: ______. Ensaios reunidos: 1946-1971. Volume II. Rio de Janeiro: Topbooks, 2005, p.847896. COLLOT, Michel. Do horizonte da paisagem ao horizonte dos poetas. In: ALVES, Ida Ferreira e FEITOSA, Márcia Manir. Literatura e paisagem: perspectivas e diálogos. Trad. 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