O menino e a árvore: uma análise da fotografia por meio do percurso gerativo do sentido na manifestação visual. Érika Patrícia BATISTA 1 Jaqueline Maria Bertoncin TOPPAN2 Resumo O objetivo deste artigo é analisar, a partir da Semiótica Visual Daviliana, a linguagem fotográfica apreendida da produção de Sebastião Salgado, na obra Êxodos. A fotografia foi escolhida por apresentar uma mensagem sugestiva à contemplação e à reflexão, rica em sequências a serem decodificadas. Desse modo, a teoria semiótica da Figuratividade Visual - especificamente o Percurso Gerativo do Sentido na Manifestação Visual - será um importante instrumento no comando à nossa pesquisa por permitir a articulação do sentido no interior do texto, desnudando elementos como: rimas plásticas, rimas poético-míticas, isotopias, síncopa, projeções pardigmáticas, entre outros, cuja elucidação concebemos como pertinente e operatória no decifrar dos códigos que arquiteturam a significação visual. Elaboraremos, dessa forma, uma análise semiótica da relação entre os elementos que compõem a fotografia. Palavras-chave: Semiótica; Imagem; Isotopia; Síncopa, Análise. 1 Jornalista formada pela Universidade de Marília, especialista em Assessoria em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás, atualmente é mestranda em Comunicação Social pela Universidade de Marília (Unimar) - SP 2 Mestranda em Comunicação Social pela Universidade de Marília (Unimar) - SP Introdução O objetivo deste artigo é analisar, a partir da Semiótica Greimasiana e da Teoria Daviliana, a linguagem visual da fotografia produzida por Sebastião Salgado, na obra Êxodos. As fotografias que compõem esse trabalho de Salgado foram produzidas ao longo de sete anos, em 41 países. Uma das propostas era mostrar os milhões de refugiados, migrantes e destituídos do mundo, em busca de melhores condições de vida. Um forte motivador a esses acontecimentos, segundo ele, é a inovação tecnológica que acarreta o desemprego gerando as ondas de migração que movem 120 milhões de pessoas por ano. O trabalho crítico, que revela as muitas faces do submundo, mostra uma realidade triste que suscita reflexão quanto às ações sócio -econômicas do cenário mundial. A escolha do tema abordado neste artigo se configura pela forma com que o fotógrafo utiliza a fotografia para retratar questões sociais. Ao mesmo tempo em que ele se coloca como um fotógrafo reconhecido mundialmente por mostrar bastante expressividade em suas obras, ele se mostra um crítico dos problemas sociais de inúmeros países. A imagem escolhida foi produzida entre 1984 e 1985 em Sahel, na África, onde Salgado fotografou as vítimas da fome entre outras situações. A foto mostra um garoto esquelético parado em um local onde existia o lago Faguibin, o maior da África Ocidental, extinto pela sequidão. Ao fundo uma árvore morta, com galhos secos. A fotografia foi escolhida por apresentar uma seqüência de mensagens não perceptivas em primeira instância, mas que poderão ser decodificadas por meio da teoria Greimasiana e/ou Daviliana. Dessa forma, construiremos uma análise semiótica da relação entre os elementos que compõem a fotografia. A Teoria Semiótica da Figuratividade, especificamente o Percurso Gerativo do Sentido na Manifestação Visual será um importante comando a nossa pesquisa. Para análise nos embasaremos na semiótica, no estudo das significâncias. D’Ávila3 diz que: É necessário termos conhecimento de importantes elementos que constituem parte introdutória dessas teorias destinadas à apreensão do sentido, suas metodologias para posterior articulação por meio do uso de estratégias na aplicação. Estas são diferenciadas de conformidade com cada linguagem colocada frente à abordagem semiótica, cujo instrumental demonstre ter propriedades específicas de valorização que o torne credível e diferenciado segundo suas possibilidades de uso relacionadas à natureza das linguagens em análise (D`ÁVILA. 2008. p 01). Este será o tema abordado no próximo item. Porém, é importante salientar que, neste trabalho será pesquisado somente o figural da fotografia, utilizando então os preceitos da Semiótica Visual que compreende o figural e o figurativo, o caráter viso-estático, como telas, fotos, cerâmicas, esculturas, planilhas etc, conforme descreve D’Ávila. 1- Comunicação visual: a aplicação da teoria semiótica da figuratividade visual ou teoria daviliana O asterisco que acompanha o sobrenome D’Ávila indica elucidações recebidas em sala de aula ou em orientações na disciplina. Unimar 2007/2008 3 A linguagem está imbuída em vários patamares capazes de desenvolver uma comunicação entre elementos de distintas consciências. Melhor dizendo, na forma de expressar está intrínseca a decodificação da linguagem que pode ser verbal, não verbal e sincrética. Porém, neste trabalho analisaremos apenas o discurso não verbal. As mensagens visuais não apreendidas sem que se faça uso de métodos específicos para decodificá-las, quando manifestadas numa fotografia para se ter uma interpretação mais aprofundada necessária se faz uma teorização científica. Para tal, a Teoria Daviliana mostrou-se eficaz, na construção e reconstrução do sentido no discurso. Embasada na de Greimas, vista como a Teoria da Significação, a Semiótica Daviliana vale-se da metodologia descritiva que se destina a interpretação, exploração desconstrução e reconstrução do sentido. A citada teoria nos remete à manifestação visual ponto de partida para que analisemos imagens como; telas, figuras, esculturas, fotografias, enfim, com elementos que necessitem ser interpretados através de exame visual minucioso para a captura dos detalhes inerentes ao objeto analisado. Esta Teoria se configura como Semiótica da 4Figuratividade Visual, possibilitando decodificar sentidos mais profundos e buscando descrever e analisar os elementos que geram os percursos que o sentido desenvolve em relação a níveis de estruturação. Segundo Cláudia Mara Piloto da Silva Parolisi3 a Teoria Semiótica da Figuratividade Visual ou Teoria Daviliana, elaborada pela professora e pesquisadora Dra. Nícia Ribas D’Ávila, teve início em meados dos anos 80 – 90, sintetizada no Percurso Gerativo do Sentido na Manifestação Visual. ...cientificamente inspirada no Percurso Gerativo do Sentido, de Greimas, esta teoria foi elaborada para analisar as manifestações imagéticas, pois dentro dos conceitos que a permeiam a arte é vista como linguagem e o objeto de arte como texto. A imagem enquanto texto é uma unidade de significação (PAROLISI, apud D’Ávila, 2006 ) Ainda seguindo o raciocínio de Nícia D’Ávila, iremos nos valer de suas considerações acerca do modo de significação no que tange a substância do conteúdo. Se, de um lado, a Linguística encarregava-se do estudo de significante (fonética/fonologia), poucos estudos foram outrora realizados no nível do significado em semântica textual visando a elaboração de uma gramática de conteúdo. Essa foi a grande lacuna que, com a existência das teorias de grandes semioticistas, destacando-se, dentre outros, Greimas e Coquet – expoentes máximos no mister da desconstrução do sentido -, hoje contemplarmos sua plena evolução desenvolvida por seus discípulos e seguidores, já não mais constituiu o vazio de outrora. Este, porém, encontra-se em pleno rigor na analise dos conteúdos e significação. Se greimas, com sua teoria objetal ou do descontinuo, preocupava-se mais com o texto em si (enunciado) e a FORMA (da expressão e do conteúdo) do que com a substancia (de ambos), Coquet, em sua teoria subjetval ou do continuo, deu especial atenção aos discursos (enunciação/enunciada), às identidades enunciativo-enunciva do actante sujeito em suas instâncias de produção do sentido e às suas substancias e formas do significante e do significado saussurianos (D’ÁVILA, 2007). 2 – O Asterisco acompanhando termos identifica sua pertença à teoria Semiótica Daviliana. 3 - Cláudia Mara Piloto da Silva Parolisi desenvolveu o trabalho A Teoria Semiótica da Figuratividade na Comercialização de Produtos Turísticos: disponível no site: C:\Documents and Settings\Administrador\Desktop\nicia\MÔNICA LISA – TEORIA SEMIÓTICA DA FIGURATIVIDADE VISUAL, E O MULTILETRAMENTO.htm Para melhor compreendemos a Teoria Semiótica da Figuratividade Visual nos embasaremos na definição de D’Ávila referente aos componentes básicos e estruturais dessa teoria; aos componentes responsáveis pelos patamares da produção do sentido visual ora figural, ora figurativa. Componentes básicos estruturais. Produção do sentido figural mais figurativo em seis etapas 1) FIGURAL I (nuclear) elasticidade (pré/pós) – Nebulosa como esboço, ou arcabouço da forma. Esboço da forma, como um pré-objeto, extraída do bosquejo, do croqui, quando pressupomos o objeto posto. Arcabouço, no objeto posto, quando dele retemos impressões de cor, transparência, textura; na nebulosa ou esboço da forma primitiva. Ambos postos, reais. Num objeto posto, conseguimos antever o pré-recuperar o seu pré-objeto. 2) ZONA INTERMEDIÁRIA – a) classema-a (clas-a); manchas, traços esboçados ou borrões diversos. Um Figural autêntico, uma substância com qualidades não quantificáveis, um figurema; 3) FIGURAL 2 (Classemático b) classema-b (clasb): básicos designativos de primitivos figurativos tais como: círculo triângulo e suas derivadas figuras geométricas. c) classema-c (clas-c): classemas comuns, específicos ao objeto em apreensão, servindo para identificá-lo (Ex.: caricaturas; um gato = 2 triângulos sobre uma circunferência). Cada componente comporta instâncias intermediárias. Na organização da forma, o clas-b é usualmente sucedido pelo clas-c. Ambos necessitam do clas-a – contextualizações fundamentais -, dele dependendo para suas atualizações e realizações. Essas últimas são apreendidas por meio dos acréscimos e decréscimos manifestados que comporão ou decomporão a forma do objeto em questão, tanto na captação e incorporação de classemas que permitirão ao olhar desenvolver o percurso compositivo do pré-objeto ? objeto (motivado pelo meta-querer do destinatário), quanto na supressão e distorção de classemas colhidos no percurso decompositivo pós-objeto ? objeto. 4) NÚCLEO TENSIVO DAS AMBIGUIDADES: Em primeira instância, o pré-objeto que será nomeado encontra-se situado, nesse momento tensivo de espera, no percurso espaçotemporal entre a busca e o encontro do figurativo, efetuados pelos acréscimos de classemas que semantizarão o objeto transformando-o em figurador 1, isto é, em objeto nomeado, designado por correspondência no mundo natural. Em segunda instância, a busca de um objeto novo, criativo, poético como os decréscimos/acréscimos de classemas que dessemantizarão e ressemantizarão o objeto figurativo posto (ou pressuposto), rompendo com o estereótipo e produzindo o “diferente”. 5) FIGURADOR 1 Vertente do logos – O objeto figurativo, nomeado no mundo natural, representativo e semi-simbólico. 6) FIGURADOR 2 – FONTE do mythós - O objeto figurativo que se expande e se acrescenta diante da sensibilidade e criatividade humanas, recendo configurações novas, em função deste notório repertório. Nesta instância detectamos a participação dos (s) referente (s) externo (s) termo assim designado em teoria pirceana. (D’ÁVILA. 2008) Portanto, é preciso compreender os elementos que constituem o visual para entender as particularidades e peculiaridades a fim de interpretar o que se camufla numa foto, ao primeiro olhar; ela esconde muito mais do que mostra. 2- O percurso gerativo do sentido na manifestação não verbal. Ao apontar o percurso do sentido na manifestação não-verbal (visual) como importante fonte de compreensão da significância, a pesquisadora Nícia D’Ávila reuniu elementos importantes para a desconstrução/reconstrução do sentido no texto imagético. Entre eles, no nível do conteúdo, ou seja, do significado extraído do texto visual, agregou à substância do conteúdo (que é variável quanto sua representatividade) e à forma do conteúdo (que é invariável), contribuições indispensáveis ao encenamento da transformação do figural em figurativo. Para melhor compreendermos esta concepção mostraremos o Percurso Gerativo do Sentido na Manifestação Visual mais à frente. Os semas visuais também são imprescindíveis na leitura de uma imagem. De acordo com a Teoria Daviliana, como diz Rozuila Neves Lima (2007), os possíveis semas contextuais a serem detectados, são: a- O punctuema é a unidade mínima significativa da construção do traço. A iteratividade dos tracemas (semas classificatórios do traço), comporá a parcialidade do desenho, conduzindo-nos à isotopia (reiteração simples, classemática). As isotopias serão identificadas quando um caráter formal for predominante ou reiterado na totalidade ou parte do desenho, definindo, também, o sema nuclear. “O punctuema, sema classificatório do punctum (ponto) é observado como unidade absoluta detentora e geradora de qualidades e de quantidades. E' concomitantemente punctual (aspectos incoativo e terminativo), de conformidade com caráter fenomenal (aparência espácio-temporalizada) ; e durativo, de conformidade com sua essência ou natureza esférica do "continuum". Gera o tracema, que poderá apresentar-se como retilíneo, curvilíneo, longitudinal, transversal, diagonal, da coloração, da textura, etc.” b- Os texturemas, termo utilizado pelo GROUPE µ (1992 : 197), aqui definidos como semas contextuais da textura, são gerados pela sobreposição de camadas, propiciando a apreensão da profundidade plástica "palpável" . c- Os densiremas são os traços cerrados, compactos, carregados, contíguos, sem intervalos entre si, apreendidos a partir dos traços demarcatórios da espacialização de volumes, do peso e do equilíbrio das massas formando a densidade do objeto plástico. d- Os larguremas são traços largos ou estreitos obtidos a partir da largura, ou seja, a distância visualizada lado a lado de um volume ou de uma superfície plana. e- Os extensiremas são traços longos ou curtos, extraídos do comprimento. Na Representação, temos o desenho representativo, denominado figurador I, do lógos. Lógos faz-se referencializar pelo lexema “palavra”, que desde 1880 passa a designar o estudo dos significados nas línguas. É por meio da palavra que o destinatário decodifica, da imagem figurativa, sua denominação, seu figurador I. Assim, é estabelecida entre a imagem e a palavra uma relação metafórica (D’ÁVILA apud LIMA). Quadro 1 NÍVEL do CONTEÚDO (O SIGNIFICADO) EXTRAÍDO DO TEXTO VISUAL SUBSTÂNCIA DO CONTEÚDO (Variável) + FORMA DO CONTEÚDO (Invariável) SUBSTÂNCIA FORMA (nível superficial) FORMA (nível profundo) Simbólica (denotativa) Presentificação (Figural 2) Arte abstrata e variantes ************** Semi-simbólicas Representação (conotativa) Figurador I “do lógos” Aquilo que a imagem esta representando; a história retratada com fidelidade ao figurativo e implicação com o semantismo verbal. Re-representação (conotativa) Figurador 2 (do mythós). A representação do objeto é acrescida da subjetividade interpretativa do analista cujos acréscimos fundamenta-se no seu repertório e na criatividade. Denotação –formemas Ritmo e Aspecto – O Ritmo dos espaços (=proxêmica): englobante x englobado simétrico x assimétrico Planos, p1, p2, etc. Espaços: e1, e2; e2’, e2’’, etc. (contorno x contornado) Perspectiva (superficiais e volumes), proporcionalidade, dimensão/posição/orientação rimas plásticas simples e complexas determinantes da natureza dos classemas. Projeções sintagmáticas Planos isotópicos Função de síncopa (figural) Formema total/parcial (ft/fp) ************* Conota ção Implicação verbal=rimas Poético- miticas e funções de síncopa no figurativo Denotação – semas Os semas responsáveis pela qualificação e quantificação da imagem, os ‘punctuema’ ‘tracema’, ‘colorema’, ‘cromema’, ‘texturema’, ‘densirema’, ‘largurema, ‘saturema’,‘formema’, ‘sincopema’, etc., Em articulação nos Quadrados Semióticos para determinação da Forma, abstrata, sistêmica, paradigmática extraída de semas superfícies, volumes e proporcionalidade. Isotopias pelos tracemas Projeções paradigmáticas Por extrapolação da forma da cor Suprassegmentação, ou do pseudo movimento Esta é determinante do Caráter figural, arcabouço de um figurativo qualquer. Estruturas Discursivas – Figural 1 – Nuclear propulsor da Substância do Conteúdo. NÍVEL da EXPRESSÃO (Significante) no Texto Visual Forma (Invariável) Substância (Variável) Os sistemas: viso-plásticos Físico- ótico – química (Ora figulra) (Ora figurativo) Percurso Gerativo do Sentido na Manifestação Não-Verbal 3 - Análise da fotografia Partindo o Percurso Gerativo do Sentido Visual a fotografia analisada faz parte da obra Êxodos, de Sebastião Salgado. Um fotógrafo consagrado em todo o mundo por produzir fotografias capazes de expressar o contexto sócio-econômico de vários países. Com imagens, ele consegue despertar olhar das autoridades governamentais e do cidadão comum sobre fatos que ocorrem em todo o mundo, mas que poucos têm conhecimento. A fotografia foi produzida entre os anos de 1984 e 1985, na África, em Sahel. Salgado retratou um menino migrando em busca de trabalho. Figura 1 Foto de Sebastião Salgado 4- Substância do conteúdo 4.1 - Representação - figurador I “do lógos”. Em primeira instância trata-se de uma substância representativa, pois é um “ver representado”, ou um “ser representado”, portanto uma “representação”, quando encontra-se aglomerados em visão única os elementos que compõem a foto. Ao aprofundarmos nossa análise percebemos que se trata de uma fotografia semi-simbólica, conotativa do figurador 1, do lógos, pois está representando a fidelidade à história de um rapaz muito magro, com os ossos à mostra pela sua deficiência física, pela desnutrição. Com os tracemas visuais configura-se a Isotopia da desnutrição, pela interatividade de categorias sêmicas. A totalidade A e B, representa o local onde o menino está inserido; logo esses espaços conversam, interagem. Assim como a árvore está seca, mas ainda em pé, como se esperasse que a vida lhe fosse devolvida, também o menino se encontra na mesma situação, à espera de algo. Para analisar a imagem com mais precisão é necessário apontar os elementos que constituem a fotografia. Inicialmente a totalidade AB será divida em dois lados. Lado A e lado B. O lado A fica na imparcialidade, retratando o elemento árvore que fica ao fundo. Já o Lado B se mostra parcial representando o elemento de mais destaque na imagem, o menino. Porém, quando um determinado espaço é fixado visualmente no discurso, a totalidade AB é desorganizada, projetando e condensando no olhar do observador no espaço B, momento em que estabelece intimamente, neste local conjunturas, fundamentada em rimas plásticas da “ossificação corporal”, gerando metáforas internas localizadas e compensadas no enunciado. 4.2 - A função de síncopa A função de Síncopa no figurativo é obtida ao analisarmos e compararmos a magreza do menino e a sequidão da árvore. Quando ao observar a foto ocorre um estranhamento, o leitor se fixa num determinado espaço deste discurso visual e desorganiza a totalidade AB. “A quebra de uma reta ou distorção de uma curva que interrompe a continuidade do olhar”, ou seja, a ausência de continuidade do real pretendido pelo olhar do observador quanto a linearidade que até então se desenvolvia. Esta linearidade se desfaz formando assim o não contínuo, a síncopa, a ausência do real esperado. O estranhamento quebra toda a continuidade, por desorganização da totalidade AB. Neste momento ocorre a ruptura, a interrupção, a desorganização da continuidade até então percebida. Ao analisar a foto o leitor é atraído pelo vazio entre as pernas do menino, é puxado para aquele espaço, ou seja, condensa seu olhar no espaço dirigindo-o ao núcleo de tensão marcado no círculo. Assim o leitor é projetado para uma zona de questionamento. E através do surgimento da isotopia da semicircularidade diagonalizada retorna ao texto a totalidade AB, reorganizando-o e cumprindo assim as cinco etapas que compõem a Função de Síncopa: desorganização, projeção, condensação, expansão e reorganização. Figura 2 Totalidade A B 4.3 - Re-representação - figurador 2 “do mythós” A fotografia tem a conotação de um povo que esquecido, vivendo sem perspectiva de melhoria de vida, sem possibilidades concretas, busca oportunidades para garantir um futuro menos sofrido. A imagem retrata, então, a história de milhares de pessoas que vivem em condições subumanas, porém ainda lançam um olhar prospectivo. Isso é visto quando o menino olha para a sua direita, o lado positivo, que se mostra confiante, esperançoso, diferente da sua esquerda que retrata as perdas e a falta de esperança. Figura 2 Figurador 2 do “mythós” 5 - Projeções sintagmáticas Quando se trata da reorganização do discurso não verbal é necessário trabalhar as projeções Sintagmáticas, rimas plásticas e também o ALOP que vem a ser : - Agregação: os elementos punctuais (pixels), por exemplo que se agregam formando cores, formas, linhas, figuras, imagem, etc.; - Luminância: a presença da luz na composição; sem luz não há foto, nem imagens. - Orientação: como os elementos se orientam depois de ligados. - Proxêmica: o posicionamento das imagens e figuras, dos objetos e dos seres a simetria, a roupa, o sorriso, tudo que compõe a atmosfera do espaço temporal da imagem. Figura 4 Síncopa A proxêmica está ligada com a natureza vegetal em equilíbrio na igualdade de condições com a natureza humana por assimetria ritmica. A fotografia analisada encontra-se numa retangularidade englobante, pois temos parcialidades em espaços construídos assimétricos. Já os planos, podemos classificá-los da seguinte forma: P0 é o plano de fundo. P1 está configurando o plano em que árvore se encontra. P2 – onde se configura o cajado que o menino segura. Já P3 é o corpo do garoto e P4 retrata o saco que o menino leva na mão esquerda. Figura 05 Planos Os espaços se condensam nas duas imagens destacadas, na árvore eles aparecem da seguinte forma: e1 parte superior da árvore, e2 o encontro entre os galhos, e3 a parte inferior da árvore. Os espaços encontrados no menino: cabeça e4, corpo e5, e pernas e6. Figura 6 Espaços do discurso visual Já a perspectiva configura-se sob uma direção ascendente com diminuição de elementos nos dois destaques. Ela mostra aquilo que se perde e aquilo que se ganha, pela proporcionalidade da zona imagética em destaque: o menino, como se a foto dissesse eu perco o vegetal, mas ganho a vida. Essa proporcionalidade que retrata as massas e os volumes faz com que tratemos da correlação entre um menino e um galho. A intenção é retratar o espaço preenchido entre as massas. Ou seja, o fotógrafo rompeu o espaço com um volumema* deixando apenas 10% ou 15% da totalidade que lhe pertencia. A dimensão mostra as tonalidades, as nuanças das projeções entre os tons. O menino apresenta mais tons de escuro do que de claro, chamando mais atenção a ele no que se refere à totalidade da fotografia que se apresenta em um plano de menos densirema* , em um plano mais claro e suave. Quanto à projeção e a orientação, teremos um resultado diferente do que o apresentado ao analisar a posição da cabeça. Examinando o contexto, posição e orientação estão voltadas para as perdas, sem expectativas, sem amanhã, sem nada. As rimas plásticas são projeções sintagmáticas colhidas das vértebras (costelas, pernas, nas angularidades, perna mais galho invertidas). O início da angularidade bem pronunciada na função das pernas levemente diagonalizadas, assim como a diagonalidade do bastão representado conjuntamente um psdeudomovimento, denotam projeções paradgmáticas* (ou rimas poético-míticas*), da quase retilineidade diagonalizadas* extrapolação da forma, da cor (nuanças nos coloremas*, formemas*) e do movimento. Comparando os dois objetos semióticos teremos uma semi-circularidade disfarçada, quase se transformando em retilineidade diagonalizada. O Crânio pertence à isotopia da semicircularidade esmaecida, configurando uma pseudo-retilineidade. Isto também é percebido entre os vazios das pernas. A ausência de traços, de volume, ou seja, os volumemas*, os tracemas*, os punctuemas* etc. Assim, temos a isotopia da pseudocircularidade*, diagonalizada em côncavo e convexo, mostrando-nos que aquilo que ainda quer viver, ter força e movimento. Os nós, assim como no joelho e na árvore, são junções que alimentam apresentando-se como rimas poéticas. Figura 7 Pseudo-circularidade e pseudo-retilineidade A rima poético-mítica é aquela que não existe total identidade formal apenas parcial. Não é, por exemplo, uma mão como a outra. Neste caso a árvore e o menino se assemelham pela sequidão. São da mesma espécie viva, mas não da mesma espécie vegetal. Ao visualizarmos os espaços constatamos ainda uma rima poética formada pela parte inferior do galho que parece a tíbia do menino. Ao analisarmos os pés percebemos uma rima plástica entre eles, embora conotada pela deficiência física do garoto que deformou os seus pés, desproporcionando-os sob metamorfose de redução. Figura 8 Rimas Plásticas Os semas são responsáveis pelas qualificações e quantificações das imagens. Na fotografia de Salgado encontram-se séries de punctuemas que originam tracemas, em função do ALOP. Temos então incidências de claros e escuros entre massas e volumes. Nota-se também uma luminância entre a tíbia e a zona lombar torácica. Entre os claros e os escuros aparecem os coloremas com tons acinzentados formando também os cromemas, nas nuances de cinzas. Por fim, todas estas oposições semânticas entre o “ser seca” e “parecer seca” e o “não ser seca” e o “não parecer seca” se explicam nos tracemas apreendidos no decorrer da análise. Assim, podemos configurá-los desta maneira. Figura 9 - QUADRADO SEMIÓTICO DA MANIFESTAÇÃO SINCRÉTICA SECA Verticalidade diagonalizada quase semi-circular “menino” Semi-circularizada Diagonalizada “o galho” segredo Não verticalidade diagonalizada não quase semi-circular Não semi-circularidade diagonalizada NÃO SECA No nível do segredo o resultado apresentado pelo Quadrado Semiótico é a recuperação da vida dada do vegetal para o ganho da vida humana. Finalizando esta análise embora sem esgotá-la, pois a Teoria da Figuratividade nos permite ir muito além, percebermos que a fotografia é PB (preto e branco), o que nos permite entender a essência da obra. O preto e branco nos revela melhor o semas, as isotopias, as formas, os conteúdos, entre outros. Considerações finais Mesmo sabendo que a Teoria Semiótica nos ampara de maneira enriquecedora quando necessitamos analisar discursos, sejam verbais ou não verbais, semioticistas J. A. Greimas e D’Ávila disponibilizam teorias que nos possibilitam explorar elementos que desconstroem e reconstroem o verdadeiro sentido da comunicação nas linguagens que as imagens e as palavras conseguem transmitir. Dessa forma, a imagem de Sebastião Salgado, conhecida como o menino e a árvore, após análise, concluímos que, a fotografia numa rima poético-mítica ligando o menino ao galho, trata da ligação do seco com o vegetal em que ambos luscando pela vida mostram o 1º dependendo do 2º para a perpetuação da espécie. A isotopia é voltada para as perdas, ou seja da semi-circularidade esmaecida, ou uma pseudo-retilineidade formadas em diagonalidades interrompidas. Esta isotopia está clara nos espaços e1 e e2 no vegetal, já no menino se configura nos espaços ab, em que se nota o vazio entre suas pernas que se reproduz em projeção paradigmática espectral*. Figura 10 Referências bibliográficas D’ÁVILA, Nícia. Renart e Chanteclerc - Por uma abordagem semiótica do estatuto do actante-sujeito /RENART/ - conforme teoria de J.-C.COQUET. In: Leopoldianum - Revista de Estudos e Comunicações - Unisantos vol. XVIII (n°52). Santos: Ed. da Unisantos, 1992, p. 65-76. –––––– Semiótica Sincrética Aplicada. Novas tendências. Org e orientação dos trabalhos . São Paulo. Arte e Ciência. Unimar 2007a. ––––––. Sinopse da Teoria Semiótica da Figuratividade Visual, apostila para cursos de pósgraduação da UNIMAR, distribuição em sala de aula, Marília: 2008. ––––––. Semiótica Visual - O ritmo estático, a síncopa e a figuralidade. In: Semiótica & Semiologia. Org. D.Simões. Rio de Janeiro: Dialogarts (UERJ), 1999a, p.101-120. GREIMAS, A. J.; COURTÉS, Joseph. 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