UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI MARIA ISABEL SULINO CARVALHO SILVEIRA NO VAI E VEM DO TEAR MANUAL, CARMO DO RIO CLARO POR DESIGNERS E ARTESÃOS SÃO PAULO 2013 MARIA ISABEL SULINO CARVALHO SILVEIRA NO VAI E VEM DO TEAR MANUAL, CARMO DO RIO CLARO POR DESIGNERS E ARTESÃOS Dissertação apresentada ao programa de pós-graduação stricto sensu em Design – Mestrado, da Universidade Anhembi Morumbi, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Design Orientadora: Ana Mae Barbosa, Prof.ª Drª. SÃO PAULO 2013 MARIA ISABEL SULINO CARVALHO SILVEIRA NO VAI E VEM DO TEAR MANUAL, CARMO DO RIO CLARO POR DESIGNERS E ARTESÃOS Dissertação apresentada ao programa de pós-graduação stricto sensu em Design – Mestrado, da Universidade Anhembi Morumbi, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Design Orientadora: Ana Mae Barbosa, Prof.ª Drª. Aprovada em Dra. Sonia Regina Fernandes, examinadora externa; Universidade de São Paulo, Escola de Comunicações e Artes Dra. Agda Regina de Carvalho, examinadora interna Dra. Ana Mae Barbosa, orientadora e presidente da banca SÃO PAULO 2013 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, e a meus pais Jorge Ribeiro de Carvalho (in memoriam) e Sarah Sulino de Carvalho por terem me motivado sempre a adquirir conhecimentos, ressaltando ser esta a minha maior herança. A meu amado marido e companheiro Olney Júnior, pelo amor, amizade, compreensão e tranquilidade durante tantos dias ausente. Mas assim, mesmo distante, sempre pude contar com seu apoio. A minha filha Ana Teresa, que teve de se fazer adulta em minha ausência, assumindo suas atividades com responsabilidade, me tranquilizando, mesmo na saudade. Senti grande orgulho de sua contribuição. A meu animalzinho Duda, receptáculo e símbolo do meu amor pelos animais. A minhas irmãs Ana e Dóra, por serem companheiras, amigas e sempre prontas a dar bons conselhos. A meus sogros pelo apoio incondicional. Quero agradecer à FESP/UEMG pelo apoio, e aos meus colegas de trabalho pelas palavras amigas. E também a meus alunos pelas trocas, em especial Claudiene, Luciana e Silvania pelo companheirismo e amizade. Agradeço a meus colegas de mestrado, que se tornaram amigos, compartilhando as incertezas, o conhecimento e muitas vezes até o mesmo espaço. Em especial, às amigas Joana, Rita e Vanessa. Do mesmo modo, aos professores do mestrado e à secretária Antonia, que desde o início foi tão solícita em me atender. A minha revisora Elidia pela alegria e disponibilidade. Às professoras Drª Agda Carvalho e a Drª Sonia Fernandes por concederem seu tempo e conhecimento para enriquecer meu trabalho. Por fim, à professora e orientadora Drª Ana Mae Barbosa, por ter aceitado orientar meu trabalho, me ajudando a compreender os caminhos que envolvem a pesquisa e, com calma e tranquilidade, fez esse tramado parecer mais simples. DEDICATÓRIA Dedico esta pesquisa aos artesãos da cidade de Carmo do Rio Claro, e também às demais pessoas da cidade, que me acolheram e gentilmente compartilharam comigo suas histórias. Dedico-o especialmente à Mestre Artesã Anésia Rosalina dos Santos, sempre pronta a dividir a sabedoria do fazer artesanal que enredou sua história de vida. Igualmente ao jovem designer João Antonio Soares Freire Pereira, por também estar sempre pronto a compartilhar seu conhecimento e por cultivar o interesse em estabelecer parcerias com os artesãos do Carmo, buscando preservar essa técnica secular que tece a história do município e da região. RESUMO A presente pesquisa visa apresentar o trabalho de um designer e de uma artesã contemporâneos, e também o modo como o desenvolvimento de seus produtos entrelaça a cultura e o design. Para a análise, foram escolhidos o designer de moda João Antonio Pereira, da tecelagem WS, e a artesã Anésia Rosalina dos Santos, ambos naturais e residentes na cidade de Carmo do Rio Claro (MG). O trabalho retrata uma discussão sobre o saber artesanal, seu papel na vida das pessoas e as relações entre designers e artesãos. Com este estudo, buscou-se registrar o processo produtivo e criativo da artesã e do designer nos teares manuais, bem como as influências da cultura local e das infiltrações culturais no produto regional, desenvolvidos por eles com seus códigos estéticos e comunicativos. Palavras-chave: tecelagem manual, design, artesanato, cultura ABSTRACT This research aims to present the work done by two contemporary artists: a designer and an artisan. Also the way through which their products entwine culture and design. For the analysis, fashion designer João Antonio Pereira, from WS weaving workshop, and artisan Anésia Rosalina dos Santos have been chosen, as both are born and resident in the city of Carmo do Rio Claro, in the state of Minas Gerais, Brazil. The text portraits a discussion on arts and crafts, its role in the life of people and in the relations between designers and artisans. This study has sought to record the productive and creative process of artisan and designer in handloom, as well as the influences of local culture and cultural infiltration in regional product, developed by both professionals according to their aesthetic and communicative codes. Keywords: hand weaving, design, crafts, culture [...] situações paradoxais, permeadas de ambiguidades, indispensáveis e imanentes a todo processo social e criativo. Aloisio Magalhães, 1985 são LISTA DE FIGURAS Figura 1: “O irregular” - traços do fazer artesanal .................................... 28 Figura 2: Localização de Carmo do Rio Claro em relação à cidade de São Paulo .................................................................................. 43 Capela do Hospital São Vicente de Paulo e Capela à Praça São Gabriel ................................................................................ 44 Figura 5: Gunta Stolzl, cobertor com franja, materiais lã e seda artificial 55 Figuras 6 e 7: Gertrud Arndt (1923-24), estudos do curso de Klee ................. 56 Figura 8: Questionário feito para contribuir com a coordenação de Kandinsky das cores primárias para formas elementares ........ 58 Figura 9: Artesã Anésia Rosalina dos Santos .......................................... 73 Figura 10: Descaroçador ............................................................................ 74 Figuras 11 e 12: Roca e Carda na oficina de trabalho da D. Anésia ................... 76 Figura 13: “Abrolho” feito por D. Anésia ..................................................... 78 Figura 14: Urdidura ..................................................................................... 79 Figura 15: Anuário Artesãos do Brasil ........................................................ 81 Figura 16: Designer João Antonio Pereira ................................................. 82 Figuras 17 e 18: Jogo americano canudinhos e Jogo americano fitas VHS ........ 85 Figura 19: Processo produtivo da cortina para Casa Cor Campinas ......... 91 Figuras 20 e 21: Cortina para projeto Casa Cor Campinas ................................. 91 Figura 22: Ficha técnica ............................................................................. 93 Figura 23: As lançadeiras têm influência direta nas laterais do tecido ....... 96 Figura 24: Lançadeiras ............................................................................... 97 Figura 25: Pedais responsáveis pelo desenho do tecido ........................... 98 Figura 26: Pente ......................................................................................... 99 Figuras 3 e 4: SUMÁRIO INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 12 CAPÍTULO I: A HISTÓRIA DE CARMO DO RIO CLARO E A ORIGEM DA TECELAGEM MANUAL: ENTRE DESIGN E COMUNIDADE .................................... 22 1.1. O censo de 1837 e os indícios das primeiras tecelagens manuais em Carmo do Rio Claro ................................................................................................................................ 24 1.2. Entre Tramas e Urdumes: alguns apoios à continuidade do artesanato no Carmo ..................................................................................................................................... 26 1.3. Outras "doces" manifestações artesanais e a tecelagem manual em Carmo do Rio Claro ................................................................................................................................ 29 1.4. Carmo do Rio Claro e os teares manuais: uma amostra do trabalho entre artesãos e designers que cultivam esse saber.............................................................. 333 1.5. O fio que movimenta a Associação dos Artesãos em Carmo do Rio Claro ........ 38 1.5.1 As tramas que movimentaram esta pesquisa: uma nova abordagem à Associação dos Artesãos do Carmo ............................................................................. 39 1.6. De Arraial à cidade de Carmo do Rio Claro: ponto de vista entre o design e a tecelagem manual ................................................................................................................ 41 CAPÍTULO 2: A TEIA QUE TECE OS TECIDOS MANUAIS E AS RELAÇÕES DE TRABALHO - AS CORPORAÇÕES DE OFÍCIO E O ARTESANATO ....................... 46 2.1 As Corporações de Ofício e o Artesanato ............................................................... 466 2.2 A Bauhaus: entre Tessituras Manuais e Industriais ................................................. 51 2.2.1 A Bauhaus e os tecidos manuais........................................................................ 53 2.3 Brasil: O Tecido Social Criativo ................................................................................... 60 2.3.1. As tramas suprimidas pelos sinais de liberdade e notoriedade ..................... 62 2.3.2. O Brasil e o caminho para a província de Minas .............................................. 63 2.4. O Capitalismo: uma cultura que aceitava e encorajava a exploração dos artesãos ................................................................................................................................. 65 2.5. Os primeiros Sindicatos ............................................................................................... 68 2.6. Entre Linhas e Panos: pensamentos divergentes ................................................... 70 CAPÍTULO 3: HOMEM E MULHER DE FIBRA: COMO A ARTESÃ ANÉSIA ROSALINA E O DESIGNER JOÃO ANTONIO TECEM SEU PROCESSO CRIATIVO ................................................................................................................................... 72 3.1 A artesã Anésia Rosalina: uma representante dos teares manuais ...................... 73 3.2. O designer João Antonio: da dinastia de artesãos ao universo do design.......... 82 3.3 Os Tecelões: registros desse saber secular em Carmo do Rio Claro .................. 95 3.4. A Artesã e o Designer: o fio da meada que tece uma parceria de ética e aprendizado ......................................................................................................................... 100 CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................... 103 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................... 1077 APÊNDICES ......................................................................................................... 11111 Apêndice 01 – Formulário de Entrevista utilizado para coleta de dados junto aos sujeitos pesquisados: artesã D. Anésia e designer João........................................... 1111 Apêndice 02 – Questionário on-line com respostas do Sr. Thiago Tomaz, Superintendente de Artesanato da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais............................................................................................. 1122 ANEXO 1: Portarias do Artesanato Brasileiro ...................................................... 115 ANEXO 2: Portaria nº 26, de 31 de agosto de 2011 .......................................... 13030 12 INTRODUÇÃO A maior parte dos tecidos utilizados no Brasil é industrializada. No entanto, não se pode ignorar a existência dos tecidos produzidos manualmente – em crochê, macramê, tricô e tecelagem manual. Essa última será o ‘fio’ condutor da presente pesquisa. Redundante e até brincando com as ‘tramas’, o desenrolar deste ‘fio’ surgiu da vontade de conhecer um pouco mais sobre o design dos tecidos artesanais. Para tanto, por fontes históricas, buscou-se entender a prática e o produto final da tecelagem manual. Ao analisar “a história, podemos ver os tipos de tecidos que foram populares em certas épocas. Em geral, relacionam-se a alguma forma de avanço tecnológico ou tendência dentro da sociedade” (UDALE, 2009, p. 12). Então, ao longo da história, é possível conferir as transformações no design têxtil. Por exemplo, a partir da Revolução Industrial, o declínio do artesanato e o fortalecimento da industrialização deram origem à produção seriada e à massificação dos produtos. Mas vale frisar que esta mudança favoreceu inclusive as tecelagens manuais, considerando que mesmo a produção artesanal faz uso de fios construídos em processo industrial. Assim, ao conhecer o processo produtivo artesanal das tecelagens manuais, o designer de moda tem uma possibilidade suplementar de interferir no processo produtivo. E, conjugado com matérias primas tecnológicas, pode obter tecidos tradicionais ou até mesmo dar início a uma ‘moda’. Do tramado feito pelo homo faber às tecelagens manuais de hoje, com seus fios inteligentes, um longo caminho social e histórico foi percorrido em folhas, pelos, peles e ossos, dentre outros materiais utilizados para cobrir o corpo e provocar experiências estéticas. Há indícios de que estes materiais – principalmente as peles – ocuparam lugar de destaque na origem dos tecidos, sendo elas um material acessível ao homo faber, bastante utilizadas como vestimenta. 13 Segundo Boucher (2010), foram encontrados vestígios da forma de preparação dessas peles: o recurso químico para curti-las era o sal de argila e os fios extraídos de nervos de animais eram usados para costurá-las. Isso leva a crer que o homo faber já se preocupava com o conforto e a estética. No entanto, apesar das pesquisas sobre a indumentária pré-histórica, não existe consistência quanto a sua origem e motivações para o uso e ditames. Quanto à tecelagem, alguns historiadores confirmam que se manifestou inicialmente em diversos momentos do período Paleolítico 1 (ibid., p. 23) nas cavernas da Crimeia, onde “foram encontrados teares fabricados com placas de osso crivadas por pequenos orifícios”. Outros registros apontam seu surgimento no final do período Mesolítico, em torno de 5000 a.C. Assim, é difícil precisar a data do aparecimento das tecelagens, uma vez que, nas escavações, os materiais que se mantiveram íntegros foram os de maior resistência ao tempo, como ossos, pedras e bronze. Infelizmente, os materiais que compõem os tecidos, como as fibras2, são mais frágeis e também mais suscetíveis à ação do tempo. Várias foram as descobertas arqueológicas acerca das formas de produção de tecidos na antiguidade e, em suas pesquisas, Liger (2012) apresenta o tear como o meio mais ancestral para essa finalidade. O processo se dá pelo entrelaçamento de fios dispostos em sentidos diferentes; os fios colocados no sentido transversal são chamados de trama e os longitudinais, urdume. Como insumo para esses teares, os fios eram elaborados manualmente e não existem dados históricos precisos a respeito dos tipos de fibras utilizadas. Segundo Chataignier (2006) – que compilou costumes, tradições, arte, tecnologia e ciência – o que se tem conhecimento é que as fibras mais antigas são as de lã (circa 7000 a.C.), seguidas pelo linho, com 1 De 2,5 milhões a.C. até cerca de 10.000 a.C. (BOUCHER, 2010). 2 Define-se o termo fibra como um corpo sólido de forma comprida e delgada com comprimento correspondente a centenas de vezes o diâmetro de sua secção. Parte-se de uma relação comparativa de 700 vezes para a juta até uma relação de cinco mil vezes para a lã Cashmere (DE ZOLT, 1988 apud LIGER, 2012, p. 122). 14 fragmentos encontrados em escavações das mais antigas civilizações lacustres da Ásia central e ocidental (circa 6000 a.C.). Liger relata que a extração da lã natural é feita de duas maneiras: “de tosquia, quando originária de animal vivo, e pelada ou de concha, quando proveniente de animal morto” (2012, p.123). Após várias adaptações feitas ao tear manual, ele passou a funcionar automaticamente, sem ser conduzido por um tecelão: “[...] em 1785, Edmund Cartwright apresentou o primeiro tear mecânico: era o fim da tecelagem manual como se praticava até então [...]” (KUBRUSLY; IMBROISI, 2011, p. 17). Ainda assim, mesmo diante das transformações sofridas desde o Paleolítico, a tecelagem manual persistiu, havendo, hoje, artesãos e designers adeptos de sua utilização. É aí que esses profissionais unem técnicas tradicionais a fios industrializados, projetando tecidos que nutrem um diálogo entre o design e o artesanato. O objeto produzido por esta mistura, segundo Moura (2005 apud ROIZENBRUCH, 2009) pode ser chamado de design híbrido. Segundo Gomes Filho (2006), o termo ‘têxtil’ era, originalmente, usado para definir ‘tecidos planos’ feitos em ‘tear’. Hoje, qualquer material que se transforme em tecido, por qualquer método, recebe esse nome. Os têxteis podem ter várias classificações. Para Edwards (2012, p.12), “[...] podem, basicamente, ser classificados em planos, maquinetados, de laçada, especiais e não tecidos”. As tecelagens manuais se enquadram na classificação de ‘tecidos planos’. No processo de criação dos tecidos, é importante que o designer entenda os princípios básicos do design têxtil. Então, após pesquisa e definição de sua fonte inspiradora (que pode ter várias origens), ele avança para a próxima etapa e descobre uma maneira de expressar suas ideias. Isso pode ser feito através de “desenho, colagem, fotografia ou talvez de trabalho em CAD (computer-aided design)” (UDALE, 2009, p. 24). Pode, ainda, expressar e analisar sua viabilidade, começando pelos materiais que tenha escolhido para 15 compor o tecido, construindo um padrão 3. O tear é o instrumento para essa finalidade, definido por Pezzolo como uma máquina que “permite o entrelaçamento ordenado de dois conjuntos de fios – longitudinais e transversais – para a formação da trama [...]”. (2007, p. 143) Segundo Saló (1998), uma das funções essenciais do tear é manter sob tensão a quantidade de fios colocados nele; a este grupo de fios é dado o nome de urdidura (o mesmo que urdume). Assim Pezzolo descreve o funcionamento do tear manual para a construção do têxtil: O urdume é colocado pelo pente, e seus fios são mantidos com uma tensão constante. O movimento vertical do pente faz surgir a abertura (cala), por onde é passada a trama sucessivamente de um lado para outro, entrelaçando-se, assim, os dois conjuntos de fios (2007, p. 144). O fio é a matéria prima utilizada no desenvolvimento da tecelagem manual. Ele é construído por fibras, filamentos ou outros materiais – naturais ou sintéticos. As fibras, por sua vez, podem ser classificadas em: naturais (vegetais, animais, minerais) e químicas (artificiais e sintéticas). (GOMES FILHO, 2006) A maneira como as fibras são fiadas e/ou fabricadas afeta diretamente o resultado final do tecido. Elas cumprem um papel importante no design têxtil, capazes de definir atributos da aparência e conforto do tecido. Entre as diversas características dos fios para tecelagem manual influenciadas pelas fibras, Gomes Filho enumera: Caimento, que confere beleza ao tecido. Textura, como elemento importante no apelo visual e tátil. Cor, que remete a fatores emotivos, expressivos, psicológicos e funcionais. Capacidade de reter vincos ou pregas. Recuperação ao enrugamento na capacidade de eliminar dobras indesejáveis. Conforto, pela absorção de umidade, que é a capacidade da fibra de absorver umidade do corpo ou de fontes externas. Elasticidade, alusiva à capacidade de o tecido ceder e depois recuperar a forma original (ibid., p. 178). 3 “O modo de tecer os fios determina a estrutura básica de um tecido, ou seja, seu padrão” (PEZZOLO, 2007, p. 153) 16 Como vimos, muitas vezes, a escolha das fibras definirá o design da tecelagem manual. Outro atributo condicionante é o profissional que manuseia o tear e suas escolhas na mistura de fios e outros materiais usados no processo. Esta decisão pode ser atribuída diretamente ao tecelão – quando for responsável por todo o escopo da obra – ou ao designer, quando este não tiver background 4 para a operação do tear ou, ainda, optar por recorrer a tecelões profissionais. Num primeiro exemplo de parceria, o artesão é contratado pelo designer, que o instrui quanto ao resultado esperado de acordo com a identidade 5 visual que busca. Outra possibilidade é que o designer seja contratado como consultor pela comunidade, oficina, ateliê ou artesão(s) para orientar a criação da tecelagem. Isso é feito por meio de laboratórios de criação, que buscam evidenciar a identidade visual do artesão e as características naturais da região e da cultura local. Esta interlocução entre designer, artesão e a técnica artesanal é considerada por pesquisadores de design como um ponto bastante controverso. Alguns pesquisadores receiam que tal parceria cause a corrupção desta e de outras técnicas artesanais. Em um de seus livros, Borges relata o alerta de um leitor “para o perigo de que os designers exerçam uma indesejável ‘interferência’ sobre os artesãos, cuja produção poderia ‘perder a pureza’” (2009, p. 170). Citada por Ramalho e Oliveira (2006, p. 95), Borges, mesmo reconhecendo esse risco e alertando para os cuidados necessários na aproximação de realidades tão diversas, defende a oportunidade de parceria e ressalta a importância do diálogo entre o artesão e o designer. Assim, ela “desmonta esta tese da preservação da ‘pureza’ dos artesãos, mostrando que este patrimônio da identidade cultural não pode ficar congelado, pois seria sua morte”. 4 Background é uma palavra em inglês que pode ter vários significados, entre eles experiência, fundo, antecedentes, plano de fundo, contexto, ambiente, circunstâncias, meio, educação. Neste projeto de pesquisa, usamos a palavra background para fazer referência a “experiência” (nota da pesquisadora). 5 Modos de materialização da identidade do design: (1) Em forma de um grupo de características formais ou cromáticas (stilem). (2) Na estrutura da taxonomia dos produtos, vale dizer, os tipos de produtos característicos de uma cultura, como uma cuia de cabaça criada na cultura guarani. (3) No uso de materiais locais e métodos de fabricação correspondentes. (4) Na aplicação de um método projetual específico – empatia com uma tradição e uso desses atributos arraigados em determinada região. (5) Na temática (necessidade) específica do contexto (BONSIEPE, 2011). 17 Consultor de artesanato, o designer Renato Imbroisi afirma que “levar uma técnica de um lugar para o outro é uma ação que precisa ser feita com critério” (KUBRUSLY; IMBROISI, 2011, p. 37). E conclui que isto pode até acontecer; no entanto, o desenho do produto precisa ser feito no local. Os desenhos da tecelagem manual surgem a partir do entrelaçamento dos fios da trama para construir o têxtil. “Ou seja, em muitos têxteis, a decoração do tecido provém da própria construção do material, que forma a 'padronagem” (EDWARDS, 2012, p. 12). Os tratamentos e acabamentos podem ser inseridos em qualquer fase da fabricação. Eles influenciam características relacionadas à cor e à textura, bem como o efeito visual. E, claro, a maneira como o têxtil é construído também confere a ele uma qualidade particular (UDALE, 2009). São diversas as possibilidades de desenvolvimento de tecidos manuais. Para usá-las em favor da criação de produtos de moda, é necessário conhecer a diversidade de matérias primas que podem ser adotadas. Conforme referido no ARC Design 2013, “o substantivo matéria-prima traz em si a ideia ‘do que vem primeiro’ e é a partir dela que hoje nasce o design” (2013, p. 140). O conhecimento do material que o designer quer inserir na criação da tecelagem manual dá origem ao projeto do têxtil, deixando antever propriedades do produto final, neste caso, a tecelagem manual a ser desenvolvida. Entre elas, figuram: durabilidade ou descarte, utilidade, cor e textura. Os materiais podem ser de qualquer origem: naturais ou sintéticos, híbridos, plásticos etc. Também por meio deles, o designer consegue propor soluções, sejam elas no sentido de cobrir o corpo do frio, administrar medicamento 6 na pele de uma pessoa ou servir a mera função de código comunicativo. As referências para a criação de um tecido manual são infinitas. Assim, ao desenvolver uma tecelagem manual, pensa-se no tecido aliado à matéria prima 6 Com o desenvolvimento de nanotecidos, também conhecidos como ‘tecidos inteligentes’ (UDALE, 2009). Sobre as técnicas de produção dos nanotecidos, Sánchez afirma que podem ser desenvolvidos “[...] mediante o emprego das denominadas fibras inteligentes, e a outra mediante a aplicação posterior de determinados compostos que apresentem os mesmos ou diferentes efeitos do que os obtidos com as fibras inteligentes” (2006, p. 1). 18 que se vai usar na conexão entre materiais industrializados e o fazer artesanal. Durante a fase de desenho, a reflexão busca foco no caimento do tecido, em sua textura, cor, aderência ao corpo, conforto. Desde o início, pensa-se na integração entre o design têxtil e as peças que se vai desenvolver. Assim, para entender o objeto de estudo desta pesquisa, disposto entre a tradição do fazer artesanal e a atualidade dos tecidos construídos nos teares manuais na cidade de Carmo do Rio Claro/MG, iniciaremos o primeiro capítulo com um histórico sucinto do surgimento e do processo que deu origem aos teares manuais e aos próprios artesãos na cidade. Buscando posicionar o desenvolvimento, a metodologia classifica a presente pesquisa como uma abordagem qualitativa, sendo bibliográfica, exploratória, descritiva e História de vida. E para sua concretização, foram utilizadas como instrumento entrevistas na forma livre e semiestruturada, com formulários com ambos os envolvidos, bem como outros artesãos e o secretário de cultura local. Para o registro, utilizou-se de recursos tecnológicos de áudio e vídeo com consentimento informado. Outra forma de coleta de dados utilizada foi a observação não participativa desta pesquisadora que, em visitas às tecelagens, comércio, museus, associação e órgãos públicos, tomou contato com a cultura local. Houve ainda questionário de pesquisa respondida pelo Secretário Estadual do Artesanato de Minas Gerais. Assim, buscou-se investigar o surgimento das tecelagens desde a época em que as tecelãs da cidade criavam os carneiros para tosquiar a lã e tecer as colchas até o processo produtivo atual, em que os fios são sofisticados e chegam até as tecelagens, em sua maioria, industrializados. Apesar da industrialização, o saber tecer e tingir fios fez e continua a fazer parte da cultura da cidade mineira. É um processo transmitido aos jovens pelas mães, tias, pais, avós, desde os primórdios até os dias atuais. No segundo capítulo, para entender o trabalho artesanal, foi tecida uma pesquisa bibliográfica a partir da formação das guildas medievais. Nesse percurso, são transcritos os movimentos opositores à industrialização, como o Arts and Crafts, o Art Nouveau e Werkbund, este último confiante na fusão desses saberes. Passamos pela pedagogia de escolas de design como a 19 Bauhaus, que considerou o artista no processo de industrialização e o design na contramão da fragmentação do trabalho. E chegamos ao Brasil. Quando as guildas em outras partes do mundo já estavam em processo de desintegração, o trabalho aqui funcionava nos moldes dessas corporações europeias, num país cuja população urbana crescia rapidamente, apartada dos conteúdos da população rural. Assistimos a luta dos tecidos manuais pela sobrevivência, quando passamos pela formação, ascensão e repressão das tecelagens – repressão essa ocasionada pelo tratado assinado em 1785 por D. Maria I, rainha de Portugal, exigindo a extinção dos teares manuais no país. Depois, vieram os conflitos interétnicos, a formação da organização do trabalho dos artesãos, as disputas pelo poder; enfim, as contradições que movimentaram esta pesquisa. No terceiro e último capítulo, para entender o fazer artesanal das tecelagens manuais do Carmo, pesquisamos a vida da artesã Anésia Rosalina dos Santos, conhecida como D. Anésia, uma referência nas tecelagens manuais. Hoje aos 83 anos de idade, é citada em livros e revistas7 como exemplo para as artesãs. No site do município de Carmo do Rio Claro8, por exemplo, há uma reportagem dando conta de que ela recebeu o título de Honra ao Mérito sob o projeto de lei 005/2011 9 , em reconhecimento por sua contribuição para a preservação e divulgação da cultura local. Dona Anésia participou de projetos como a novela “Fera Ferida”, da emissora Globo, exibida em 1993/94, tendo realizado oficinas nos estúdios da emissora, ensinando aos atores o processo de tecer. Chegou, inclusive, a participar de 7 Uma das revistas é a CASA CLAUDIA que, no ano de 2012, lançou a segunda edição do catálogo Artesãos do Brasil, coordenada pela editora Regina Galvão. “Muitos dos artistas já tiveram seus trabalhos impressos nas páginas da Casa Claudia e, agora, estão também no livro”, revela Pedro Ariel Santana, diretor de redação da revista. Ele complementa: “O livro é importante por levar aos leitores nuances da arte de um Brasil interiorano, pouco conhecido”. (Disponível em: <www.casa.abril.com.br/materia/artesaos-do-brasil-2-livro-traz-novos-nomes-e-lindas-obras> Acesso: 11/06/2012) As páginas 172/173 da publicação trazem uma reportagem especificamente sobre Dona Anésia e as tecelagens manuais de Carmo do Rio Claro. 8 Disponível em <www.carmodorioclaro.mg.gov.br>. Acesso: 11/06/2012 9 De autoria do vereador Claudinei de Oliveira (PPS). 20 algumas cenas. Ademais, ministrou cursos e palestras em diversos estados, como São Paulo, Goiás e Rio de Janeiro, inclusive em instituições acadêmicas como a Universidade de São Paulo. Nesse capítulo, abordaremos um exemplo do fazer artesanal em sua relação com o design na mesma comunidade. Aqui, o estudo será centrado também no designer João Antonio, pertencente à dinastia de artesãs e artesãos do Carmo. A formação do designer João Antonio Soares Freire Pereira se confunde com a história do artesanato carmelitano: Cresci em meio aos teares manuais, com minha mãe, a Waninha, falecida em 2001, e meu pai Welington. Antes de sair do Carmo para estudar Design de Moda, não valorizava o artesanato da minha cidade. Então saí. Estudei e quando estava em São Paulo, na Universidade Anhembi Morumbi, olhei com outros olhos para os trabalhos desenvolvidos nas tecelagens manuais da minha cidade. Consegui enxergar o valor real dos produtos, a estética, o design. Assim, resolvi voltar em 2011 e trabalhar aqui no Carmo, na tecelagem. (informação verbal)10 Na confirmação do ato de legar para os filhos o ensinamento sobre o tecer de fios, a história do designer João Antonio e sua mãe Silvani Maria Soares Pereira (1969-2001) – a Waninha – é um exemplo. Ela foi uma das tecelãs que mais incentivaram a divulgação e preservação das tecelagens manuais do Carmo. Começou a tecer aos 11 anos de idade, orientada pela madrinha. A ARC Design, revista bimestral de design, arquitetura, interiores e cultura, em uma reportagem de 1999, mostra o artesanato desenvolvido nas tecelagens. No texto, Santuci (1999) revela que a tecelã Waninha assim descrevia seu processo criativo: “os desenhos das tramas são fruto da memória dos habitantes da região, mas adaptados, recriados e tecnicamente atualizados”. Waninha, além de ter desenvolvido produtos comerciais, produziu os tecidos para o figurino da peça teatral “Morte e Vida Severina”, dirigida por Gabriel Vilela. No ano de 2001, vítima de um acidente de carro, Waninha perdeu sua vida, e sua tecelagem – Damas e Rosas – passou para as mãos do marido, 10 PEREIRA, João Antonio. Entrevista concedida a esta pesquisadora em visita exploratória a Carmo do Rio Claro, MG. 1 arq.vídeo (120 min.)16/05/2012 21 Welington Freire Pereira, que já trabalhava com ela; e de seus três filhos, ainda crianças. E assumiu o nome WS tecelagem manual. Essa marca permanece até hoje. Os filhos de Waninha cresceram, e João, o mais velho, estudou Design de Moda e segue em sua profissão à frente do processo criativo da tecelagem. Deste modo, sua trajetória pessoal e como designer é assunto desta pesquisa junto à da artesã Anésia, pois ambos, além de fazerem parte de uma dinastia de artesãos, tecem a cultura da cidade nos teares manuais. 22 CAPÍTULO I: A HISTÓRIA DE CARMO DO RIO CLARO E A ORIGEM DA TECELAGEM MANUAL: ENTRE DESIGN E COMUNIDADE A região onde hoje se situa a cidade de Carmo do Rio Claro pertencia ao estado de São Paulo, originariamente denominada “Quilombo do Cascalho”. Surgiu de um movimento vindo da Província de São Paulo que procurava afastar os nativos, os índios Caiapó. Os nativos resistiram, a princípio, mas acabaram perdendo a luta; uns morreram, outros foram contaminados por doenças trazidas pelos brancos. Na verdade, há contradições quanto à identidade desse grupo indígena nativo na região: segundo o historiador Grilo (1996, p. 21), eram os Caiapó. No entanto, existe um Museu do Índio na cidade onde podem ser observados traços dos primeiros habitantes, por meio da cultura material de objetos e ossos deixados por eles. Segundo Wagner, é necessário entender a cultura do lugar para entender a vida e o trabalho das pessoas, entre outras coisas. Nossa cultura coletiva é um vasto acúmulo de realizações e recursos materiais e espirituais que brotam da conquista da natureza e são necessários à continuidade desse esforço. Ela compreende os alicerces substanciais de nossas cidades e de nossa vida econômica [...] (WAGNER, 2012, p.324). Assim, no processo de entender a cultura coletiva da cidade, esta pesquisadora visitou o Museu do Índio, onde ouviu o seguinte do historiador Junio César de Oliveira, que dirige a instituição: O acervo do Museu é composto de 3.000 peças e conta com a presença das etnias Aratu-Sapucaí, Tupi-Guarani e Neo Brasileira em nosso solo, no sudoeste mineiro. O acervo é composto de igaçabas11, koeres, machadinhas, quebra-cocos, pedras de funda, pontas de lança e de flecha, cauterizadores 11 Grande talha para água; pote de barro para guardar farinha etc.; ou urna funerária dos indígenas. 23 de ferimentos, cachimbos, entre significativas (informação verbal)12 outras tantas peças Deste modo, são as peças do Museu do Índio e os relatos de historiadores e de moradores da cidade que contam a origem e a história do município de Carmo do Rio Claro no período anterior à colonização portuguesa. A partir de documentos escritos sobre a origem do Carmo, consta que o município só deixou de pertencer ao estado de São Paulo em 1764, quando, após uma descoberta de ouro na região de Jacuí (município onde se situava o vilarejo de Carmo do Rio Claro na época), com a expectativa de um novo “ciclo aurífero” no Sul-Sudoeste, o então Governador de Minas, Luís Diogo Lobo da Silva, ocupou militarmente o Arraial de Jacuí, e a região passou a pertencer à Província de Minas, relação que ainda permanece. (GRILO, 1996). Por fim, a constituição da população da cidade de Carmo do Rio Claro se baseou em várias etnias, segundo Grilo (ibid.) – brancos pobres, negros e índios – e seu trabalho era focado na subsistência, sendo a roça a atividade principal. Nessa época, não existia trabalho escravo na região, o que só aconteceria mais tarde. Formada na segunda metade do século XVIII, a cidade do Carmo foi chamada, originalmente, de Quilombo do Cascalho. Depois, Arraial de Nossa Senhora do Monte do Carmo. Mais de duzentos anos depois, não há documentos comprobatórios ou indicativos do nome dos homens ou mesmo das famílias que conviviam com o que restou dos quilombos nesses primeiros tempos do Arraial do Carmo (ibid.). Foi necessário que homens de posses migrassem para a região para que começassem a surgir e ganhar valor documental os primeiros registros das pessoas que ali residiam. Isto porque antes da chegada dos entrantes13, mais ou menos entre 1810 e 1830, a população era mormente 12 OLIVEIRA, Junio César. Entrevista concedida a esta pesquisadora em visita ao Museu do Índio, em Carmo do rio Claro, MG. 1 arq.video (30min) 10/05/2013 13 “Entrantes” era como a população de Carmo do Rio Claro chamava os primeiros fazendeiros que vieram da cidade de São João Del Rei (MG) e ali constituíram famílias e formaram patrimônios materiais. 24 pobre, residindo em casebres e não registrada nem inventariada, sendo que muitos dos moradores nem resistiram ao tempo para contar sua história. Seus utensílios eram poucos e se perderam com o tempo, juntamente com seus usos e costumes, talvez porque também não soubessem ler nem escrever. Sobre a origem dos registros da população do Carmo, Grilo reflete: A primeira estatística a que temos acesso é o Censo de 1837, um pouco tardio, onde há uma proporção de quase 30% de gente cativa. Mas é também correto supor que, a partir da implantação das grandes fazendas – o que ocorreu justamente entre a primeira e segunda décadas do séc. XIX – o número de cativos foi dobrado e redobrado até representar mais da metade da população livre (GRILO, 1996, p.54). 1.1. O censo de 1837 e os indícios das primeiras tecelagens manuais em Carmo do Rio Claro A partir da leitura do censo de 1837, era possível deduzir alguns fatos em relação à origem das tecelagens manuais no Carmo. Também no documento emitido no dia 08 de setembro de 1838, assinado por João Rodrigues Martins, que além de pároco era também o primeiro juiz de paz e o primeiro delegado do Carmo. Na época, o censo foi encaminhado ao Ilmo. e Exmo. Sr. Presidente da Província de Minas Gerais, Manoel Inácio de Melo. O documento enumera todas as casas da cidade, identificando o nome completo do chefe da família, o da esposa, dos filhos e, por fim, dos escravos. O detalhamento incluía nome, cor da pele, condição (pessoa livre ou não), idade, estado civil e profissão (ibid.). O item “profissão” geralmente discriminava habilidades. Na descrição das profissões dos proprietários das casas, quase todo chefe de família (proprietário) aparece como “lavrador” e quase todas as esposas como “fiandeira”. Isso leva a crer que “a habilidade de ‘fiar’, ou seja, a tecelagem constituía a principal e mais significativa das tarefas domésticas. Informação importante porque é a origem de tradição de artesanato” (ibid., p.108). Essa época foi marcada pela multiplicação das fazendas e do regime de trabalho escravo. Com relação a essa mão de obra, pode-se dizer que ela se confunde com a história do objeto de estudo desta pesquisa, a tecelagem 25 manual. Consta que a produção artesanal existe no Carmo desde a segunda metade do século XVIII, quando os escravos faziam o trabalho pesado do plantio e colheita de algodão para produção dos fios para tecidos. A maior parte dos tecidos destinava-se a atender as necessidades da “casa grande”, ou seja, do fazendeiro e sua família. Os poucos tecidos feitos pelas famílias livres, os pobres que trabalhavam como camaradas ou agregados, mal davam para suprir suas próprias necessidades de uso. Esse processo não foi diferente na história das roupas populares no Brasil, uma vez que A confecção era das próprias usuárias, que também fiavam o algodão e colocavam atavios, ou seja, enfeites, ou ainda aviamentos baratos nas roupas. A fiação do algodão e sua tecelagem, que visavam à confecção de roupas brancas masculinas e femininas e às vestimentas dos serviçais, consumiam parte do tempo dedicado ao trabalho doméstico, sobretudo dos escravos [...] (CHATAIGNIER, 2010, pp. 26-27). Depois da assinatura da Lei Áurea – a lei da abolição escravista – em 13 de maio de 1888, seguiu-se certo desenvolvimento do trabalho doméstico, seja pela dedicação exclusiva das famílias ou pela parceria entre famílias de fazendeiros e grupos de famílias livres e pobres. Este fato não foi diferente no Carmo. As mulheres da região não tinham alternativas de lazer; por isso, dedicavam boa parte do tempo ao trabalho de preparar fios e bordados, algo que acabou por se tornar principal entre as atividades domésticas que exerciam. A tecelagem e o bordado ganharam espaço e construíram história hereditária, sendo transmitida a técnica entre as famílias carmelitanas até os dias atuais. Os maiores registros são contados pelos moradores da cidade. A carmelitana Ana Maria da Silva descreve a origem da tecelagem naquela cidade: [...] O tear era peça fundamental em toda moradia. Os membros das famílias, proprietárias ou não, e os escravos nas suas senzalas, todos praticavam a tecelagem, de uma forma chamada de familiar ou doméstica. É dessa prática que se mantiveram em nossa terra o fabrico de mantas, colchas e de peças muito diversas, de gosto aprimorado e técnica primorosa. [...] (GRILO, 1996, p.112) Também a criação de carneiros era comum em todos os sítios e fazendas, assim como o plantio de algodão para extração das fibras – fossem de lã ou 26 algodão. Essas fibras geravam os fios para os tecidos, e o processo manual pode ser descrito pela sequência: lavar as fibras, cardar, fiar e tecer. Com tal histórico, todo o processo de construção da tecelagem no Carmo tornou-se uma produção cultural, ou seja, a tecelagem manual é considerada pelas pessoas da cidade como um meio de produção de cultura material. “A cultura material é um meio de mudança cultural por sua capacidade de incorporar valores simbólicos e mudar ou reforçar esses valores [...]” (CRANE; BOVONE, 2006, apud CRANE; BUENO, 2011, p. 25). Com este olhar, a cultura material pode expressar símbolos e contribuir com discursos e repertórios culturais. No entanto, mesmo conhecedora da importância da tecelagem manual como cultura material no Carmo, esta pesquisadora, na condição de designer e descendente da região, fica apreensiva quanto à perspectiva de preservação dessa memória e à continuidade de tal prática. Como a atividade artesanal, aqui tecelagem manual, sofre impacto direto da massificação dos produtos industrializados, sua preservação e continuidade, na maioria das vezes, passam a depender de apoio governamental em suas diversas esferas (Federal, Estadual e Municipal), seja para a realização de exposições, divulgação, qualificação de mão de obra ou abertura de mercado. E a visão da tecelagem manual como geradora de emprego e renda, além de sua importância para a cultura local, muitas vezes é menosprezada por representantes do povo no poder. Esse risco de cessação é um dos focos de atenção desta pesquisadora. 1.2. Entre Tramas e Urdumes: alguns apoios à continuidade do artesanato no Carmo Entre os apoios políticos para a continuidade do artesanato no Carmo, destaca-se a presença da Sra. Maria Rita Dias de Paula, chefe da Seção de Comércio, Indústria e Prestação de Serviços da prefeitura e também primeira 27 tesoureira da Associação dos Artesãos. Ela confirmou ter recebido apoio do atual prefeito, Sr. Sebastião Cézar Lemos, para a Associação dos Artesãos. Tal apoio será objeto de detalhamento nesta pesquisa. Ela também enfatizou o apoio recebido do Sr. Thiago Tomaz, superintendente de artesanato da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais. A partir de suas declarações, procuramos o Sr. Thiago Tomaz, na tentativa de entender melhor o fazer artesanal no Carmo. Por motivo de agenda, ele nos respondeu via questionário on-line e telefone. Sr. Thiago se mostrou solícito e, além de responder a nossa inquirição, enviou-nos as Portarias em discussão, inerentes à regulamentação da profissão de artesão. Ainda no Brasil não existe uma legislação específica para a atividade artesanal, mas já temos Portarias publicadas pelo Programa do Artesanato Brasileiro, que hoje integra a Secretaria da Micro e Pequena Empresa da Presidência da República. Essas Portarias (anexo nº 2) são o princípio, e bem evoluído, para a regulamentação da política pública federal para os artesãos brasileiros. Já temos pelo PAB 14 , o Sistema de Cadastramento do Artesão Brasileiro – SICAB15, que em Minas Gerais, é gerido pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico – e com o intuito de cadastrar dentro dos critérios do SICAB (que são rigorosos) todos os Artesãos Mineiros, para este ano, começar a emitir a Carteira do Artesão e Trabalhador Manual (Thiago Tomaz, informação on-line). Os detalhes do questionário, respondido em fevereiro de 2013, e as Portarias já publicadas pelo Programa do Artesanato Brasileiro figuram respectivamente no Apêndice 02 e nos Anexos 1 e 2 desta dissertação. Notamos que, mesmo com esses apoios, há um longo caminho a percorrer em busca da preservação artesanal no Carmo, uma vez que existem artesãos que corrompem a própria técnica de tecer, preocupados com a concorrência dos preços causada pelo sistema industrial, adulterando seus tecidos, usando teares industrializados e comercializando os tecidos como manuais. 14 PAB – Programa do Artesanato Brasileiro 15 SICAB – Sistema Nacional de Cadastro do Artesanato Brasileiro 28 Talvez este procedimento de “falsificação do tecido artesanal” pelo artesão decorra do desconhecimento do valor cultural, do trabalho coletivo, da valorização do próprio produto. Ele provavelmente não sabe que características culturais e traços palpáveis como o ‘irregular’ do produto artesanal são inerentes ao tecido manual e lhe conferem ‘status’ de exclusividade e, de certa forma, de arte. A figura nº 1 mostra um detalhe de um tecido manual com um traço de irregularidade apontado pela seta. Figura 1: “o irregular” - traços do fazer artesanal Fonte: Tecelão Alexande Heberte, Carmo do Rio Claro. Disponível em: <http://peixesempeixes.blogspot.com.br/> Acesso: 13/12/2013. Portanto, boa parte dos “artesãos” que fazem uso da técnica industrial e apresentam seu produto como artesanal, corrompendo seu saber, mostra não ter conhecimento do que diferencia ‘objeto artesanal’ de ‘objeto industrial’. Este fato interfere diretamente na valorização do fazer artesanal e, portanto, na perpetuação do saber. Esta concordância e até depreciação do artesanal acontece pela promoção do discurso da cultura de massa, de tal modo que isso “[...] nos leva a reexaminar e autocriticar nossa noção ética ou estética de cultura, 29 e recomeçar a partir de uma cultura em imersão histórica e sociológica: a cultura de massa nos coloca problemas mal formalizados, mal emersos". (MORIN, 1977, p. 20) Assim como os tecidos manuais, outro produto considerado cultural no Carmo são os corantes naturais. No entanto, buscamos conhecer este saber e notamos que uma minoria de artesãs preserva a técnica. Antigamente, além de tecer, as tecedeiras também realizavam o processo de tingimento dos tecidos com raízes, cascas ou folhas de ipê, coqueiro, argila, pau-brasil, picumã, casca de cebola, umbigo de bananinha, quaresminha, entre outras fontes naturais. A cidade preserva outras técnicas artesanais, como os bordados em ponto cruz e os doces esculpidos à mão, aqui apresentados como manifestações dos traços culturais do município. 1.3. Outras "doces" manifestações artesanais e a tecelagem manual em Carmo do Rio Claro Os doces estão entre as tradições artesanais do Carmo. Eles são produzidos desde 1912, tendo surgido no Colégio e Escola Normal Sagrados Corações. Nesse colégio feminino, além das aulas de ciências e matemática, as alunas estudavam etiqueta, música, esportes e trabalhos manuais. Os doces nasceram pelas mãos da estudante Nicota Vilela: o primeiro foi feito de mamão cristalizado, com desenho rudimentar. A aluna mostrou o trabalho para sua mãe, D. Maria de Lima Vilela, residente na fazenda Cafezal, a qual gostou da ideia. Juntas, desenvolveram uma versão mais elaborada do doce. O marido de D. Maria e pai de Nicota também contribuiu, fornecendo ferrinhos de pouco corte para desenhar os doces que, pouco a pouco, passaram a ser esculpidos (GRILO, 1996). Com mais de um século de tradição, esses doces são ainda desenhados manualmente e feitos em tachos de cobre, como esta pesquisadora pode conferir em visita à empresa ArtMinas. Segundo o proprietário, Sr. Ariovaldo Manuel de Moura, entre os clientes e turistas que visitam seu estabelecimento, 30 estão noivos que querem suas iniciais esculpidas em cada doce. Também figura na lista de clientes o Palácio do Itamaraty, em Brasília, para onde são enviados, ao menos uma vez por mês, de 25 a 30 quilos de doces. A destinação da encomenda é o Buffet Porto Vitoria Di Galhard, responsável pelos eventos do Ministério das Relações Exteriores (informação verbal16). A ideia de divulgar os doces, bem como todo o artesanato do Carmo, nasceu no ano de 1968. Naquele mês de julho, aconteceu a I Feira de Trabalhos, como era chamada, no salão nobre do Colégio Sagrados Corações. Na época, os tecidos produzidos pelas fiandeiras eram somente mantas e cortes de lã pura, a partir de lã de carneiro e algodão, e bordados em linho. Os alimentos, vendidos até hoje, consistiam em compotas, cristalizados e picles. A incentivadora da continuidade da feira foi Marilda Carneiro Simões: em 1968, ela era funcionária da empresa ACAR (Associação de Crédito e Assistência Rural), atual EMATER (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Governo do Distrito Federal), na regional da cidade de Passos. Marilda ficou conhecendo o Carmo em um evento do segmento rural, onde fora prestigiar um carmelitano que havia recebido o prêmio nacional de produção de milho. Logo depois, ela foi transferida para o Carmo e, diante da necessidade de adquirir livros para a Escola Estadual Santo Antônio, em parceria com a professora Marlene Lemos, propôs a continuação da feira de artesanato. A feira rendeu frutos e, em 1971, aconteceu a II Feira de Trabalhos, na antiga instalação do Grêmio Esportivo Carmelitano. Desde então, o evento se realiza no mês de julho, em prol da divulgação do artesanato e em benefício da educação. Em 1976, os artesãos do Carmo representaram a cidade na I Feira da Cultura Popular Brasileira, no SESC (Serviço Social do Comércio), em São Paulo. Os habitantes da cidade acreditam no sucesso conquistado pela iniciativa e afirmam “[...] a Feira passou a ser tradicional, recebendo visitantes das mais 16 MOURA, Ariovaldo Manuel. Entrevista concedida a esta pesquisadora, em visita à empresa ArtMinas, em Carmo do Rio Claro, MG. 1 arq.video (20min) 22/01/2012 31 longínquas regiões. E o Carmo, que já era conhecido como a “cidade dos doces”, passou a ser conhecido também pelos trabalhos em tecelagem [...]”.17 A tecelagem tornou-se um segmento de trabalho importante no Carmo, que comemora o dia municipal da tecelagem em 21 de abril. Para os festejos, são promovidos eventos pelos departamentos municipais de Desenvolvimento Local e de Educação, Cultura e Cidadania. No ano de 2012, a cidade preparou uma exposição em frente à sede do CVT/UAITEC 18 , onde foram expostos teares e rodas de fiar, bem como amostras do artesanato ali confeccionado.19 Em maio de 2013, ao visitar os Departamentos de Desenvolvimento Local e de Educação, Cultura e Cidadania da Prefeitura, esta pesquisadora obteve dos funcionários o nome das artesãs precursoras, todas com mais de 75 anos, as quais foram homenageadas na 44ª Feira de Artesanato (2012) com o título de Mestre Tecelã: Anésia Rosalina dos Santos Freire (nascida em 10/09/1928), Julieta Prudenciano de Souza (21/09/1935), Laura Monteiro dos Santos (29/10/1932), Lázara Magalhães Correia (11/09/1936), Teresinha Manoela da Silva (17/06/1932) e Mestre Doceira: Teresa de Carvalho (07/03/1928). Assim, em busca de entender o fazer artesanal no Carmo, esta pesquisadora teve contato com algumas dessas artesãs mais antigas da cidade, dentre as quais Anésia Rosalina dos Santos, estudada nesta pesquisa. Ela tem seu trabalho em destaque no terceiro capítulo. Anésia, além de ser a mais idosa entre as artesãs, é uma referência para os profissionais da cidade, com unânime reconhecimento pelos artesãos entrevistados na pesquisa por sua generosidade em ensinar quem a procura até os dias de hoje, e também porque continua a exercer sua profissão, tecendo e comercializando suas peças, atendendo a pedidos e pronta entrega. Nesse trânsito pelo Carmo, fomos até a casa da artesã Teresa de Carvalho, a Teresa doceira, como ela mesma se apresenta. Nascida em 1928, ela afirma 17 Disponível em <http://www.balaiomineirouai.com.br/carmo-do-rio-claro>. Acesso: 25/04/2013 18 CVT (Centros Vocacionais Tecnológicos). UAITEC (Universidade Aberta e Integrada de Minas Gerais) Fonte: <www.uaitec.mg.gov.br/uaitec> acesso:23/07/2013. 19 Disponível em <http://www.carmodorioclaro.mg.gov.br/noticias.php?idn=943> acesso em: 25/04/2013 32 fazer doces caseiros desde os sete anos de idade. Diz também que esse aprendizado veio da avó, que era doceira e preparava doces para festas. Teresa acompanhava a avó e, assim, aprendeu a fazer doces artesanais. Segundo ela, já chegou a fazer 25.000 doces, por ocasião de um leilão de gado na Fazenda Sabiá, do grupo Mendes Júnior. Seus doces cristalizados são desenhados a mão, um a um. Ela também prepara doces em compota. Sobre sua origem, ela contou: “Sou de família muito pobre. Então, por meio do trabalho com os doces, consegui a casa onde moro, um pequeno sítio e um [automóvel] Corolla que me dei de aniversário quando fiz 80 anos (informação verbal 20 )”. Hoje, ela continua a vender doces por encomenda, embora seja sua empregada, com ela há 27 anos, quem os prepara. Teresa entende que os doces e os tecidos manuais passaram a movimentar a cidade, principalmente após a construção da Hidrelétrica de Furnas, no ano de 1962, como comentaremos adiante. Não foi possível falar com as artesãs Julieta Prudenciano de Souza, Laura Monteiro dos Santos e Lázara Magalhães Correia, que moram na zona rural do Carmo. Além disso, segundo as poucas informações que obtivemos a seu respeito, não se sabe se elas ainda tecem. A respeito da artesã Teresinha Manoela da Silva (17/06/1932), conhecida como D. Teresa, fomos informadas por moradores da cidade que ela não gosta de ser entrevistada, sendo uma pessoa peculiar. Nas palavras da artesã Aline, “ela é perfeita, aprendi muita coisa com ela; para se ter uma noção, quando surgiu a linha Cléa, ela lavava a linha para tecer". (informação verbal)21. No entanto, ela não tece mais. 20 CARVALHO, Teresa. Entrevista concedida a esta pesquisadora em visita a sua residência, em Carmo do Rio Claro, MG. 1 arq.video (40min) 27/01/2014 21 OLIVEIRA, Aline Alves; SOARES JÚNIOR, Jair. Entrevista concedida a esta pesquisadora em visita ao Atelier de Tecelagem Manual Aline e Júnior, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 1 arq.video (125min). 28/01/2014 33 1.4. Carmo do Rio Claro e os teares manuais: uma amostra do trabalho entre artesãos e designers que cultivam esse saber Colocamos em discussão essa arte que acompanha diferentes povos desde os primórdios da civilização, cada qual em sua região, clima e cultura. Buscamos entender um pouco mais sobre esse saber no Carmo, que envolve desde a manufatura de utensílios domésticos até peças decorativas e vestuário. Assim, esta pesquisadora conversou com vários artesãos e pessoas envolvidos nesse processo. Entre eles, podemos citar a entrevista com a artesã Aline Oliveira e o artesão Jair Soares Júnior, que é também ex-secretário de cultura da cidade do Carmo, seu marido e sócio no Atelier de Tecelagem Manual Aline e Júnior. Na urdidura desta história, Aline disse que tece desde 1992, quando começou, ainda jovem. Segundo ela, “não foi bem uma escolha, era o que tinha na época, talvez por questões econômicas" (informação verbal)22. Assim, entendemos que “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado (MARX, 2014, p. 94). Aline e Júnior foram trabalhar com o que lhes foi legado. A mãe de Aline era tecelã, bordadeira e também fazia crochê. Gostava de fazer suas peças do início ao fim: “ela queria fazer os tecidos, bordá-los, fazer todo o processo" (informação verbal)23. Era uma verdadeira artesã, uma vez que A produção artesanal se caracteriza pelo domínio do artesão em todas as fases do processo de produção. Esse processo vai desde a obtenção de matéria-prima, domínio de técnicas de produção e do processo de trabalho até a comercialização do produto ao consumidor (NIEMEYER, 2000, p.29). 22 OLIVEIRA, Aline Alves; SOARES JÚNIOR, Jair. Entrevista concedida a esta pesquisadora em visita ao Atelier de Tecelagem Manual Aline e Júnior, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 1 arq.video (125min). 28/01/2014 23 Ibid. 34 Portanto, quando começaram a tecer em 1992, Aline e Júnior eram adolescentes. Assim, sem os recursos financeiros necessários, a mãe de Aline emprestou o primeiro tear, os primeiros materiais e eles começaram. Aprenderam a base da técnica com ela e buscaram aperfeiçoar-se. No começo, teciam tapetes. Hoje, unem essa a outras técnicas artesanais, produzindo uma variedade de peças decorativas, como cortinas, almofadas, mantas etc. Enquanto buscávamos conhecer a trama da história das tecelagens, Júnior contou uma anedota sobre a chegada do desenvolvimento entre as tecedeiras no Carmo: Eu falo que a linha Cléa foi nossa Revolução Industrial, pois até então, aqui no Carmo, todas faziam os fios, isso até por volta de 1960. Até onde eu sei, a linha Cléa veio pra cá pelas mãos de uma mulher que encomendou para a D. Anésia algumas toalhinhas e pediu que fossem feitas com a linha Cléa. D. Anésia perguntou que linha era essa, a cliente explicou e ela foi até a cidade de Passos comprar (informação verbal)24. Assim, com a fala do artesão Júnior, percebe-se que os avanços tecnológicos que se estenderam mundialmente no setor manufatureiro no século XIX só chegariam às tecelagens manuais do Carmo por volta da década de 1960. E com eles chegou a instituição do domínio no âmbito social, como a apropriação de saberes, uma vez que o [...] saber técnico do trabalhador significava um momento seu de autonomia face ao processo de trabalho. Na fábrica, a divisão social do trabalho, a disciplina, o controle dos meios e da própria produção geravam a alienação dos trabalhadores de seus saberes, transferindo-os para o mando do capitalista (NIEMEYER, 2000, p. 30). Os fios tecnológicos começaram a chegar à cidade, e as artesãs se surpreenderam com a facilidade que ofereciam para o trabalho delas – neste caso, a linha Cléa. E havia profissionais tão ciosas de seu saber que chegavam a lavar a linha Cléa antes de usá-la para tecer. 24 OLIVEIRA, Junio César. Entrevista concedida a esta pesquisadora em visita ao Museu do Índio, em Carmo do rio Claro, MG. 1 arq.video (30min)10/05/2013 35 No decorrer dessa trama, a artesã Aline comentou que também houve interferências externas de designers que iam até o Carmo contratar artesãos para executar os tecidos de seu projeto. Cabe informar que, durante a história, o design tem sido observado por três métodos e conhecimentos. Na primeira, o design é visto como atividade artística, em que é valorizado no profissional o seu compromisso como artífice, com a fruição do uso. Na segunda entende-se o design como um invento, um planejamento em que o designer tem compromisso prioritário com a produtividade do processo de fabricação e com a atualização tecnológica. Finalmente, na terceira, aparece o design como coordenação, onde o designer tem a função de integrar os aportes de diferentes especialistas, desde a especificação da matéria-prima, passando pela produção à utilização e destino final do produto. Neste caso, a interdisciplinaridade é a tônica (ibid., p. 12). No Carmo, o processo de interferência de designers acontece, como podemos observar, sob os três aspectos citados por Niemeyer. Se, de um lado, são tocados pelo cenário cultural da localidade onde desenvolvem seus projetos, também interferem nesse cenário, como demonstram as histórias de vida dos artesãos. Por meio de exemplos, constatamos que a interdisciplinaridade entre designers e artesãos transforma-se no construtor de outros símbolos de cultura para o local onde essa relação se estabelece. Podemos citar a fala da artesã Aline sobre o designer Renato Imbroisi que “inclusive, foi quem nos apresentou os fios da seda, e eu apresentei ao Renato as bordadeiras do Carmo, que desenvolveram trabalhos para ele” (informação verbal)25. Mas nem todos os designers que passam pelos tecidos manuais no Carmo citam essa relação. Nas poucas referências feitas por designers citados nesta pesquisa, podemos exemplificar com uma feita por Imbroisi em seu livro: Embora houvesse muitas tecelãs trabalhando com ele, chegou um momento em que não podiam dar conta do grande pedido de tecidos para uma empresa multinacional. Assim, Renato 25 OLIVEIRA, Aline Alves; SOARES JÚNIOR, Jair. Entrevista concedida a esta pesquisadora em visita ao Atelier de Tecelagem Manual Aline e Júnior, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 1 arq.video (125min). 28/01/2014 36 partiu para outros municípios em busca de mais tecelãs e acabou chegando a Carmo do Rio Claro, também no sul de Minas, onde conheceu outras duas irmãs crocheteiras – com quem trabalha até hoje, também de forma independente: Maria José e Romilda Oliveira. [...] Em Carmo do Rio Claro, portanto, não há um projeto sistematizado, mas muitas artesãs [...] (KUBRUSLY; IMBROISI, 2011, p. 45). Às vezes, percebo que alguns designers não gostam de falar que vêm beber aqui na fonte de Minas" (informação verbal)26. Comentando sobre o trabalho prestados para diversos estilistas, Aline comenta: “[...] chegávamos a pilotar, por coleção, 40 amostras para cada estilista; isso foi ótimo, exercitou bastante" (informação verbal)27. “Mas dentro desse processo, o que foi mais importante pra nós foi a preocupação em criar um produto autoral, com linguagem própria. Nem tudo que sai do tear é criação, existem cópias também. Nós temos, aqui, artesãos que só sabem urdir, outros que só sabem tecer, não sabem o processo inteiro. A gente perdeu boa parte do saber em artesãos que são completos, como por exemplo a D. Anésia e a D. Teresa, porque aceitamos as imposições do mercado" (informação verbal)28. Assim, entre as tessituras de Aline e Júnior, existem hoje no Carmo “artesãos” que não são propriamente “artesãos”, uma vez que não sabem cumprir todo o processo artesanal, que perderam parte do saber. Essa perda do saber artesanal se dá, em grande parte, pela falta de posicionamento do Estado para garantir a preservação da cultura local por meio de políticas públicas de incentivo à tecelagem manual. O desvanecimento desse saber acontece também pelas imposições do mercado, como citou o 26 OLIVEIRA, Junio César. Entrevista concedida a esta pesquisadora em visita ao Museu do Índio, em Carmo do rio Claro, MG. 1 arq.video (30min) 10/05/2013 27 OLIVEIRA, Aline Alves; SOARES JÚNIOR, Jair. Entrevista concedida a esta pesquisadora em visita ao Atelier de Tecelagem Manual Aline e Júnior, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 1 arq.video (125min). 28/01/2014 28 OLIVEIRA, Junio César. Entrevista concedida a esta pesquisadora em visita ao Museu do Índio, em Carmo do rio Claro, MG. 1 arq.video (30min) 10/05/2013 37 artesão Júnior. Porque os artesãos travam uma luta diária pela sobrevivência. Desse modo, entendemos que a divisão do trabalho forçada é, [...] pois, o segundo tipo mórbido que reconhecemos. Mas é preciso não se enganar sobre o sentido dessa palavra. O que faz a coerção não é qualquer espécie de regulamentação, pois, ao contrário [...] a divisão do trabalho não pode dispensar uma regulamentação. Mesmo que as funções se dividam de acordo com as regras preestabelecidas, a divisão não é necessariamente o efeito de uma coerção. [...] A guerra de classes. Ela decorre do fato de o indivíduo não estar em harmonia com sua função, porque esta lhe é imposta por coerção. O que constitui a coerção: é qualquer espécie de desigualdade nas condições exteriores da luta. [...] Numa palavra, o trabalho só se divide espontaneamente se a sociedade for constituída de maneira que as desigualdades sociais exprimam exatamente as desigualdades naturais (DURKHEIM, 1999, pp. 394, 481). Contudo, não temos conhecimento de uma sociedade em que essas desigualdades não sejam encontradas. Acreditamos que a união de saberes entre designers e artesãos seja capaz de diminuir as desigualdades no fazer manual, e acreditamos que essa união seja capaz de preservar os saberes. Assim, se os artesãos tiverem como sobreviver do seu trabalho, não precisarão abandonar as técnicas, ou parte delas, para obter sua renda de outras fontes. O artesanato é cercado de ambiguidades. Em nossas tessituras, notamos um grande incômodo envolvendo as cópias e o trabalho dos artesãos no Carmo. Nesse sentido, entre outros relatos de artesãos, citamos Júnior: Nesse processo de troca entre nós artesãos e os designers, nós aqui no atelier nos preocupamos em criar outra linguagem, e não copiar os outros artesãos. No entanto, tem artesãos que se preocupam em copiar. Nessa história tem um caso engraçado: certa vez, alguém copiou uma manta chamada Marroquina aqui no Carmo, a manta era tão copiada que os artesãos chegaram a se reunir para discutir o preço da manta marroquina, que preço eles iam colocar, pois estavam acontecendo confusões (informação verbal)29. 29 OLIVEIRA, Junio César. Entrevista concedida a esta pesquisadora em visita ao Museu do Índio, em Carmo do rio Claro, MG. 1 arq.video (30min) 10/05/2013 38 Esse fragmento de relato mostra sinais de que hoje já existem artesãos no Carmo que acreditam na produção seriada como meio de sobrevivência. Assumem a produção seriada em detrimento do seu saber artesanal, por lhe permitir a elaboração de um produto único. Para reduzir os riscos de fracassos e descontinuidades, os empreendedores dos negócios artesanais devem exercer a cidadania ativa e, como cidadãos, estimular a agregação de sua rede comunal para o desenvolvimento e a melhoria da produção, contribuindo para a satisfação individual e coletiva (SILVA, 2006, p.19) 1.5. O fio que movimenta a Associação dos Artesãos em Carmo do Rio Claro No ano de 2013, aconteceu a 45ª Feira de Artesanato no Carmo, que surgira com o nome de Feira de Trabalhos, como comentado anteriormente. Essa nova versão aconteceu entre os dias 17 e 21 de julho, com atividades culturais como palestras, apresentações de teatro, desfiles etc. Assim como outras feiras e eventos que acontecem na cidade, foi de iniciativa da Associação dos Artesãos e Produtores Caseiros do Carmo, situada à Avenida Rondon Pacheco, 775, no bairro Santo Antônio e fundada em 1989. As informações a esse respeito são contraditórias: alguns artesãos dizem que ela foi fundada por uma família; outros que foi por um padre que vivia na cidade. É o caso da entrevistada Miriangela. Miriangela começou a tecer na década de 1980 com Waninha, já citada neste texto. Na sexta série do ensino fundamental, elas teciam panos de prato, orientadas pela tia-avó de Miriangela. Naquela época, ela morava na zona rural, onde tecia e de onde trazia seus produtos para serem vendidos no grupo gerido pelo padre. Ela relatou que, no início, participava das reuniões da Associação junto com o Padre Mário, e que ele foi o idealizador e fundador da associação. No começo, o padre comprava os fios e fornecia aos artesãos. Hoje, apesar de alguns terem migrado para os teares industrializados, a Associação só aceita produtos totalmente artesanais. Conta com 30 associados, número que já somou 68. O motivo da evasão, segundo Miriangela, é que, durante a safra de café, muitos partem para o trabalho na 39 colheita, deixam de tecer e vem a falta de mão de obra e de produtos. A Associação tem o projeto de fundar uma escola de tecelagem manual para ensinar os cidadãos do Carmo a tecer e amarrar o abrólio 30 , entre outras práticas artesanais. Estamos pensando em confeccionar uma etiqueta para diferenciar o artesanal e o industrial, pois muitas pessoas na região tecem no tear industrial e alegam ser manual; fazem isto porque, no tear industrial, o produto fica mais barato. A maioria das pessoas que compra tecelagem não sabe diferenciar a tecelagem manual e a industrial. Assim, a etiqueta de 'produto artesanal' valorizaria a mão de obra (informação verbal31). Segundo Miriangela, o grupo já pensou em vários projetos – o problema é que não foram operacionalizados por motivos como: desarticulação do grupo; falta de apoio do governo municipal; falta de informação e inclusive “conchavos políticos”. Junto ao SEBRAE/MG, a tentativa de parceria para capacitação esbarra na exigência de um grupo fixo de, no mínimo, 15 pessoas. 1.5.1 As tramas que movimentaram esta pesquisa: uma nova abordagem à Associação dos Artesãos do Carmo Esta pesquisadora voltou a falar com Miriangela, no dia 30 de janeiro de 2014. A estrutura da Associação tinha se modificado. A partir do dia 30 de outubro, ela própria tinha passado de associada a vice-presidente. Os associados que compõem essa diretoria têm seu mandato por um ano. Segundo documentos apresentados, a diretoria ficou com a seguinte estrutura: Jaqueline Bueno Silva Presidente Miriangela Cruz Saviolli Marques Vice Presidente Magda Maria de Oliveira Santos Primeira Secretária 30 Segundo Miriangela, é uma técnica de acabamento à tecelagem manual. São nós no acabamento final do próprio tecido, que podem ser feitos de várias maneiras, proporcionando efeitos diversos, como franjas maiores ou menores, trançados nas pontas dos tecidos etc. 31 MARQUES, Miriangela Cruz Savioli. Entrevista concedida a esta pesquisadora em visita à Associação de Artesãos, Carmo de Rio Claro, MG. 1 arq.video (30min) 10/05/2013 40 Kátia Patrícia de Melo Segunda Secretária Maria Rita Dias de Paula Primeira Tesoureira Angela Maria Martins Segunda Tesoureira Maria Rita Correa Silva Conselho Fiscal Vilma Aparecida Pereira Suplente Maria Aparecida Freire Marques Suplente Tereza Carvalho Conselho Fiscal Maria Celina Divino Conselho Fiscal Maria Aparecida Carvalho Suplente Elas foram eleitas por unanimidade, tendo sido únicas candidatas. Todas são artesãs, algumas doceiras, outras bordadeiras e tecelãs; todas vivem do fazer artesanal e contribuem para o aumento de renda da região. Salvo Maria Rita Dias de Paula que, além de ser a primeira tesoureira da Associação dos Artesãos, é também chefe da Seção de Comércio, Indústria e Prestação de Serviços na prefeitura, desde 2011 (comentado anteriormente). Doceira há 27 anos, é também instrutora do SENAC/Santo Amaro/SP desde 2008, ministrando o curso “Doces Brasileiros”. No depoimento de Maria Rita, nota-se como base para sua motivação no que diz respeito à associação a possibilidade de influenciar, afiliar e realizar: Hoje eu posso te falar que esse ano que nós pegamos a associação, estamos tendo um bom relacionamento com os turistas, fizemos uma reinauguração, fomos para a feira ExpoMinas em 2013 e estamos com 32 associados (informação verbal)32. Segundo Maria Rita, com essa nova diretoria, a Associação passou a funcionar da seguinte forma: O artesão que é associado paga R$ 50,00 (cinquenta reais) mensais para cobrir as despesas da loja da Associação, como as vendedoras e o aluguel, entre outras coisas, e tem 32 PAULA, Maria Rita Dias de. Entrevista concedida a esta pesquisadora em visita à prefeitura de Carmo do Rio Claro, MG. 1 arq. video (45 min) 23/01/2014 41 benefícios como a carteirinha da associação, que dá direito a descontos na cidade; nos correios tem 45 dias para pagar. A Associação também emite a nota fiscal para o artesão enviar seu produto pelo correio; depois, quem comprou paga para a associação, que repassa para o artesão, descontando o valor do imposto gerado. Já aqueles que não são associados, mas querem vender seu produto pela Associação, a Associação cobra 20% sobre o valor comercializado e desconta os impostos gerados no produto (informação verbal)33. Cabe ressaltar a contribuição da Associação para regularizar a comercialização do fazer manual – legalização, com a geração de receita para o Estado. Maria Rita prosseguiu: “Estou muito animada, vou atrás de verbas, transportes, feiras. Para a ExpoMinas por exemplo, a prefeitura disponibilizou o stand e o transporte para a feira e a Associação custeou a estadia e a alimentação da artesã que foi para vender os artesanatos lá” (informação verbal)34. Assim, em meio às reflexões tecidas por Maria Rita, ela se mostrou animada e demonstrou conhecimento das Portarias (Anexos 1 e 2 desta dissertação) que regulamentam a profissão dos Artesãos. Percebemos que, apesar de a relação entre todos os artesãos da cidade não ser próxima, há cooperativas que se organizam e tentam preservar sua técnica em pequenos grupos, e há artesãos como Maria Rita, que participam da vida política no município a fim de contribuir com sua classe de trabalhadores. 1.6. De Arraial à cidade de Carmo do Rio Claro: ponto de vista entre o design e a tecelagem manual O pedido de emancipação, atribuindo o título de cidade ao Carmo, foi feito na sessão de 19 de julho de 1877 pelo vereador Dias, solicitando à Câmara que fizesse uma representação ao Exmo. Sr. Presidente da Província (cf. Liv. fls. 21 33 Ibid. 34 Ibid. 42 e 22, apud GRILO, 1996, p.131). A aprovação do pedido veio quatro meses depois, sob a Lei nº 2.416 (05/11/1877), quando foi declarada e instalada a Cidade de Carmo do Rio Claro, a qual, até aquele momento tinha passado de Arraial a Vila e finalmente a cidade, como citado anteriormente. Hoje, o Carmo é uma cidade tranquila, situada no sul do Estado de Minas Gerais. E tenta esquecer seu passado de drama e confronto, como a inundação provocada pela construção da Hidrelétrica de Furnas: um período difícil, como descreve a moradora Lucia Carielo: [...] na época, com a inundação de mais ou menos 1/3 das terras que estavam às margens do Rio Sapucaí, foram demolidas fazendas e tornou-se necessária a construção de estradas municipais vicinais para substituir as que foram inundadas. Foram construídas novas moradias para os desabrigados, balsas, telefone interurbano e tudo que fosse necessário para sobrevivência do município (GRILO, 1996, p.35). A partir desse acontecimento, em 1962, modificou-se a hidrografia da região. “O Rio Sapucaí e seus afluentes engrossaram suas águas e inundaram onze mil alqueires de terras férteis, formando o Lago de Furnas” (FERREIRA, s/d, p. 401). O IBGE reporta que, de acordo com as leis que regem a divisa entre os municípios, o Carmo é organizado da seguinte maneira: No quadro fixado pelo referido Decreto-Lei nº 1058 para vigorar no quinquênio 1944-1948, o Município de Carmo do Rio Claro ficou composto dos Distritos de Carmo do Rio Claro e Itaci, e constitui o único termo judiciário da comarca de Carmo do Rio Claro, termo este formado pelos Municípios de Carmo do Rio Claro e Conceição da Aparecida. Permanece composto dos Distritos de Carmo do Rio Claro e Itaci nos quadros fixados pelas Leis nº 336, de 27-XII-1948 e 1039 de 12-XII-1953 para vigorar, respectivamente, nos períodos 1949-1953 e 19541958, comarca de Carmo do Rio Claro. Assim permanecendo em divisão territorial datada de 1-VII-1960 (IBGE, 2013, site) O nome Carmo surgiu da invocação a Nossa Senhora do Monte Carmelo. Rio Claro é uma menção ao rio que passa próximo à Serra da Tormenta, no lado sul, e deságua no Rio Sapucaí. Hoje, vivem em Carmo do Rio Claro 20.426 habitantes, distribuídos nos 1.066 km2 de extensão territorial (IBGE, on-line, 2010). Segue a localização do Carmo em relação a São Paulo, capital. 43 Figura 2: localização de Carmo do Rio Claro em relação à cidade de São Paulo Fonte: Disponível <http://maps.google.com/maps?hl=pt-PT&tab=wl> Acesso: 26/04/2013 Além destes atrativos turísticos, a cidade conta com uma arquitetura peculiar e alguns projetos são ainda conservados, entre os quais o Hospital São Vicente de Paulo, fundado durante a gestão do prefeito Dr. Venerando Domingues dos Reis Jr. (1963/1967). Ao pé da Serra da Tormenta, pode-se observar a capela na Praça São Gabriel – um dos ícones históricos da arquitetura do Carmo – além das muitas casas da cidade que também preservam traços históricos. 44 Figuras 3 e 4: Capela do Hospital São Vicente de Paulo e Capela à Praça São Gabriel Fonte: acervo pessoal Entre a tranquilidade e a memória de uma cidade interiorana, estão as tecelagens manuais do Carmo, divididas entre a tradição do fazer artesanal e a industrialização. Conforme Flusser, estamos vivenciando a terceira Revolução Industrial – “aquela que implica a substituição de máquinas por aparelhos eletrônicos. Ela ainda está em andamento e seu final não é passível de ser visto” (FLUSSER, 2012, p. 38). Neste processo, entendemos que alguns artesãos têm a certeza de uma aproximação entre o artesanato e a industrialização. Assim, amadurecem e fazem uso dessa relação, utilizando em suas tecelagens a mistura de diversas matérias primas industrializadas. Outros preferem se manter na tradição e, de modo inconsciente, compartilham deste diálogo entre o artesanal e o industrial, desenvolvendo tecidos que nutrem tal comunicação. Segundo Bonsiepe (2011), a relação entre design e artesanato pode ser estudada por alguns enfoques, juntos ou separados. 1 – Enfoque conservador. Busca proteger o artesão contra qualquer influência do design vinda de fora [...]. 2 – Enfoque estetizante. Considera os artesãos representantes da cultura popular e eleva seus trabalhos ao status de arte, utilizando o termo “arte popular” em referência à “arte erudita” [...]. 45 3 – Enfoque produtivista. Considera os artesãos como mão de obra qualificada e barata, utilizando suas capacidades para produzir objetos desenvolvidos e assinados pelos designers e artistas [...]. 4 – Enfoque culturalista ou essencialista. Considera os projetos locais dos artesãos como base ou ponto de partida para o verdadeiro design latino-americano ou indo-americano [...]. 5 – Enfoque paternalista. Considera os artesãos, em primeiro lugar, como clientela política de programas assistencialistas e exerce função mediadora entre a produção e a comercialização (marketing), em geral com altas margens de lucros para os vendedores. 6 – Enfoque promotor da inovação. Advoga a autonomia dos artesãos para melhorar suas condições de subsistência, muitas vezes precárias. Neste caso, a participação ativa dos produtores é requerida (BONSIEPE, 2011, pp. 63-64). Em síntese, observamos que, no Carmo, as tecelagens manuais são vividas sob o enfoque ‘conservador’ de algumas pessoas da cidade segundo as quais artesãs como a D. Anésia, que saíram da cidade e foram ensinar esse saber em outros locais, são responsáveis pela corrupção dos tecidos manuais. Há também o enfoque ‘produtivista’ de alguns designers que vão até a cidade em busca de mão-de-obra barata, compram o trabalho dos artesãos, imprimem neles suas assinaturas e nem sequer fazem referência ao lugar ou ao artesão que fez o trabalho. E por fim, existe ainda o enfoque ‘promotor da inovação’, como a Revista Casa Claudia (citada no capítulo 2) e outros que exploram a imagem dos artesãos locais, sem lhes pagar os créditos ou mostrar o que foi feito com sua imagem. 46 CAPÍTULO 2: A TEIA QUE TECE OS TECIDOS MANUAIS E AS RELAÇÕES DE TRABALHO - AS CORPORAÇÕES DE OFÍCIO E O ARTESANATO Quando se fala em criação, fala-se, ainda que vagamente, de coisas que começam. Então, para entender a criação dos tecidos manuais e sua perenidade, faz-se necessário entender seu surgimento, bem como as relações entre os artesãos, os designers, os tecidos manuais e a sociedade em que estão inseridos. Assim, partimos do fio condutor dos tecidos manuais e das relações de trabalho nessa trama. Originariamente, podemos conferir traços dos tecidos na construção das moradias dos nossos ancestrais, os índios. Observamos esses traços no processo de construção de uma maloca indígena, por exemplo, semelhante a uma enorme cestaria. Por meio dos tecidos, podemos também entender o primeiro design, ou o primeiro metadesign, visando à constituição do mundo dos objetos, partindo das marcas do Neolítico, conforme descrito por Pignatari: A fixação à terra e o seu cultivo são marcas características do Neolítico, juntamente com o entrelaçar e o tecer de fibras vegetais para a produção de esteiras e cestos. Se porventura, inicialmente, certas fibras mais flexíveis podem ter permitido desenhos referenciais a elementos naturais (animais, como a serpente, cursos d’água etc.), logo o emprego de materiais mais resistentes criou um padrão reticular e ortogonal, ao qual teve de submeter-se a representação de elementos naturais. Essa tecelagem se constitui no primeiro design, ou melhor, no primeiro metadesign [...] (PIGNATARI, 2004, p. 107). 2.1 As Corporações de Ofício e o Artesanato Segundo Rugiu (1998), o artesanato se consolidou a partir de sistemas formados por “corporações 35 de ofício”, que tiveram forte desenvolvimento a 35 Segundo Rugiu (1998, p. 8), o temo “Corporações”, embora tenha surgido apenas no século passado, é a denominação mais frequentemente utilizada no Brasil para designar as “associações de artesãos”, em 47 partir do século XII, atingiram seu ápice no século XIV e conheceram a extinção no final do século XVIII e início do século XIX. Somente na década de 1960 é que os primeiros indícios de industrialização chegariam à cidade de Carmo do Rio Claro, pelas mãos da artesã Anésia Rosalina dos Santos, sob a forma dos primeiros fios industrializados, como veremos detalhadamente no capítulo 3 desta pesquisa. Em outras partes do mundo, a era industrial chegara no início do século XIX fortalecendo o processo de declínio das Corporações de ofício. Seu desaparecimento deveu-se a vários fatores, dentre eles os conflitos de competência frequentes entre as Corporações; disputando para absorver os ofícios menores e não se organizando de forma independente. Do começo até o momento da maior grandeza do artesão, a totalidade das regalias nas Corporações ultrapassava o peso dos vínculos. Então: [...] à medida que o regime comunal se transforma em senhoria e depois em monarquia, os vínculos se tornam sempre mais preponderantes em relação aos privilégios, sintoma claro de que o modo de produção e as relações sociais típicas das Corporações tornavam-se sempre mais desatualizadas, até o golpe final que sofreram no choque com a irresistível revolução industrial (RUGIU, 1998, p. 24). Isso se consolidou e a revolução industrial inundou o mundo, deixando artistas e artesãos em seca, o que desencadeou, pouco a pouco, movimentos contra essa corrente de industrialização. Dentre eles, podemos citar John Ruskin e William Morris, que criaram o movimento denominado Arts and Crafts, que tinha entre seus questionamentos fundamentais uma crítica à baixa qualidade dos produtos derivados do sistema industrial. Essas escolas também tinham o objetivo de melhorar a mão de obra. Então, Escolas de artes e ofícios para artes aplicadas foram criadas, a princípio na Alemanha. A esse respeito, Gropius (1977, p. 33) afirmaria que “[...] a maioria especial aquelas inerentes ao contexto medieval. Na Grã-Bretanha e nos países alemães, prevaleceram em geral, respectivamente, guilds e Gilden; na península ibérica, grêmios, na França, métiers ou devoirs. 48 só pôde desincumbir-se de seus propósitos pela metade, já que a formação era muito superficial e, do ponto de vista técnico, demasiado diletante para lograr progressos reais”. E concluiu que a indústria lançava no mercado produtos mal modelados, enquanto artistas batalhavam inutilmente por projetos utópicos. Outro movimento importante da época foi o Art Nouveau, nascido na Escócia, que se difundiu por diversas cidades europeias, recebendo variadas denominações, como Liberty na Inglaterra e na Itália, Sezession na Áustria e Jungendstil na Alemanha. Mesmo assim, apresentava em todos os lugares a mesma proposta estética, teórica e cultural. A princípio, o Art Nouveau propunha a libertação dos estilos do passado, como o clássico greco-romano. Assim, artistas e arquitetos buscaram um novo estilo, sem ligações com o academicismo até então praticado (ARGAN, 1992). O artesão ficava deslumbrado com as formas naturais e sinuosas do Art Nouveau. Esse movimento propunha ainda, diante do processo de aglomeração nas grandes cidades como Paris, Londres e Viena, ser um estilo industrializável, pela escolha de materiais como vidro, ferro, bronze e demais metais de fácil reprodução. No que diz respeito à finalidade desse movimento, Moraes (1999, p. 27) frisa que “[...] a verdadeira intenção do Art Nouveau era aquela de unir a originalidade à utilidade, em uma relação mútua e produtiva”. No entanto, buscava também atender as necessidades da burguesia da época, que desejava novidade nos produtos da arte aplicada. O terceiro movimento que marcou o início da industrialização foi o Deutscher Werkbund, surgido em 1907 em Berlim, na Alemanha, e dali para Londres, berço da industrialização e do Arts and Crafts. Esse movimento, segundo Argan (1992), comungava com a primeira manifestação de Morris: fazer o dualismo entre arte pura e arte aplicada. No entanto, não concordava com a segunda contestação, a de ser contrário à industrialização e seus processos. Para Hermann Muthesius, fundador desse movimento, a indústria era parte dos novos tempos e poderia ajudar na formação de um mundo melhor. Assim, propunha que os artistas trabalhassem junto às indústrias no desenvolvimento dos produtos e buscando melhorar a condição de trabalho dos operários. 49 Diante dos vários movimentos surgidos em favor ou contra a industrialização, já nesse início das relações entre a indústria e os artesãos, percebiam-se alguns sinais de conturbações. Na nova era industrial, diferentemente do que acontecia na artesanal, a forma vinha do artista, de suas referências e de suas inspirações. A função cabia ao misto de operário e artesão que tinha somente a função de executar a obra como estabelecida previamente. Dessa maneira, a expectativa social que nasceu com a arte aplicada – proporcionar a aquisição dos produtos a uma quantidade cada vez maior de pessoas – curiosamente, já no seu início, apresentou a distinção de duas classes: uma composta por quem faz a forma, o artista, e a outra por quem a executa, o artesão (MORAES, 1999, p. 30). Então, diante da análise feita por Moraes (ibid.), com base no slogan criado por Louis Sullivan “A forma segue a função”, podemos constatar que desde o início da industrialização, o lugar do ‘artesão’ não foi bem estabelecido; na indústria, ele assumiu um papel técnico que não era seu, foi desqualificado do seu lugar de ‘artista’. Não que seja isento de desempenhar um papel de técnico em suas produções; contudo, viu suprimida sua qualificação de pensador, de criador. Essas relações conturbadas acontecem também no Carmo. Os artesãos Aline e Júnior, também tecelões, percebem uma proximidade entre o trabalho dos designers que trazem seus projetos e o dos artesãos, embora não saibam definir como se dá esse vínculo. Citaram sua relação com vários designers: “O Renato Loureiro trazia a ideia e a gente tinha que desenvolver, passar para o têxtil”. Ao mesmo tempo, falaram de seu trabalho próprio e da troca que existe entre os designers, como Renato Loureiro, Lino Villaventura e André Lima (informação verbal) 36 . Assim, o artesão Júnior ditou seu entendimento: “Nessas relações, fica uma coisa sem rumo. Você tem dois extremos, de um 36 OLIVEIRA, Aline Alves; SOARES JÚNIOR, Jair. Entrevista concedida a esta pesquisadora em visita ao Atelier de Tecelagem Manual Aline e Júnior, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 1 arq.video (125min). 28/01/2014 50 lado um produto mais autoral, do outro um produto massificado, isso é normal, uma questão econômica” (informação verbal)37. Segundo Gropius (1977), a falha nas relações entre indústria e artesãos acontecia porque nenhum dos dois penetrava suficientemente no campo do outro até alcançar uma fusão efetiva dos esforços mútuos. Isso tornava o artesão um apagado símbolo daquele forte e independente representante da cultura medieval, que detinha toda a produção de seu tempo, que sozinho, era técnico, artista e comerciante. Logo, nos permitimos concluir que, a partir da revolução industrial, entre as contestações dos movimentos opositores, trava-se uma briga cultural que persiste até os dias de hoje. Com a multiplicidade das interferências culturais e midiáticas, os artesãos ficam divididos entre desenvolver produtos típicos de sua cultura, trazidos pelo que Canclini (1982) chama de conhecimento selvagem, e desenvolver produtos de moda trazidos na massificação proporcionada pela indústria, chamados pelo mesmo autor de conhecimento científico apresentado pelas escolas de design. Do mesmo modo, há designers que não sabem a real condição de sua profissão – se ela se atém ao intelectual, se à técnica ou a ambas. O autor analisa as relações dos conhecimentos culturais, aos quais ele chama de pensamento selvagem e científico como já comentado. E, citando Lévi-Strauss, ele os descreve: [...] os dois tipos de pensamento – o selvagem e o cientifico – não correspondem a etapas superiores ou inferiores do desenvolvimento humano, mas a distintos 'níveis estratégicos através dos quais a natureza se deixa atacar pelo conhecimento científico, sendo que um deles encontra-se aproximadamente ajustado ao da percepção e da imaginação e o outro, deslocado'. No pensamento selvagem, que é mais ligado a sensibilidade, 'os conceitos estão submersos em imagens'; no pensamento moderno, as imagens, os dados imediatos da sensibilidade e a sua elaboração imaginária estão subordinados aos conceitos (LÉVI-STRAUSS apud. CANCLINI, 1982, p. 21). 37 OLIVEIRA, Junio César. Entrevista concedida a esta pesquisadora em visita ao Museu do Índio, em Carmo do rio Claro, MG. 1 arq.video (30min) 10/05/2013 51 Também Walter Gropius foi adepto da ideia de que não existe pensamento inferior ou superior, e sim complementares, fazendo referência à arte e à indústria. Ele integrou o movimento Werkbund e, em 1919, em Dessau, na Alemanha, inaugurou a Bauhaus, uma escola que marcaria a história do design do século XX. 2.2 A Bauhaus: entre Tessituras Manuais e Industriais Saía de cena a antiga Escola de Artes e Ofícios, e começava a vigorar a Bauhaus, escola que tinha entre os seus objetivos a aproximação entre artesãos e designers. Entre os requisitos para formação na Bauhaus, estavam: A formação artesanal nas oficinas da Bauhaus não constituía um fim em si, mas um meio de educação insubstituível [...]. Cada estudante da Bauhaus tinha de trabalhar no curso de sua formação, em uma oficina por ele escolhida, depois de haver concluído com êxito o preparatório. Ali estudava ao mesmo tempo com dois mestres, um de artesanato e outro de design (GROPIUS, 1977, p. 40). No entanto, as oficinas divulgadas por Gropius no Manifesto só puderam ser preparadas pouco a pouco, pois, além das dificuldades financeiras, “A procura de mestres artesãos (só estes eram qualificados para formar os aprendizes) também demonstrou ser frequentemente difícil” (DROSTE, 1992, p. 34). À medida que as oficinas se constituíam, as aulas eram ministradas por mestres artesãos e designers, com incentivo a experimentações e mistura de materiais nas criações: “Primeiro a formação artística, depois o trabalho nas oficinas complementava o estudo dos alunos com uma formação artesanal” (ON LINE, 2012, p. 1-24). Os experimentos eram uma forma de os alunos adquirirem conhecimentos sobre materiais e processos de trabalho, obtendo condições de influenciar na produção industrial. A finalidade principal de seguir nas oficinas da Bauhaus consistia em aprender o artesanato e o experimento de materiais, para encontrar formas de projetar 52 produtos standard para o uso cotidiano. Esses produtos eram como laboratórios, cuidadosamente desenvolvidos e constantemente aperfeiçoados. Embora esses modelos fossem feitos à mão, os projetistas tinham de fiar-se nos métodos de produção em escala industrial, e por isso, a Bauhaus enviou seus melhores alunos, durante a formação, para um certo período de trabalho prático nas fábricas. Inversamente, das fábricas vinham às oficinas da Bauhaus trabalhadores experientes, a fim de discutir com os professores e estudantes a necessidade da indústria. Desse modo, surgiu uma influência recíproca que encontrou expressão em produções valiosas, cuja qualidade técnica e artística foi reconhecida igualmente pelos produtos e consumidor (GROPIUS, 1977, pp. 40-41). Desse modo, a Bauhaus contava com um diversificado quadro de professores, com várias habilidades profissionais, dentre os quais destacam-se Paul Klee, Johannes Itten, Geog Muche, Oscar Schlemmer, Wassily Kandinsky, Josef Albers, Adolf Meyer, Gunta Stolzl entre outros, contratados por Walter Gropius entre 1919 e 1922. De origens diferentes, esses artistas atuariam como professores nas oficinas subsequentes a um curso preparatório denominado Vorkurs (curso preliminar), desenvolvido por Johannes Itten. A metodologia criada por Itten para o Vorkurs se distinguia dos cursos já existentes, pois as aulas tradicionalmente oferecidas aos estudantes [...] do primeiro ano de qualquer academia ou escola de artes e ofícios convencional consistiam apenas em copiar objetos como figuras de gesso, ornamentos e nus. Assim, os estudantes adquiriam grande parte da sua técnica através da cópia. Itten, por seu lado, ensinava aos alunos as bases da teoria da cor e forma, composição e 'design'. A inspiração para o novo e moderno sistema de ensino provinha das teorias de reforma educacional com as quais Itten estava já familiarizado, e pertencentes aos artistas vanguardistas. As teorias desenvolvidas por Itten tinham igualmente por objetivo o 'eu': os estudantes deviam procurar o seu próprio ritmo e desenvolver uma personalidade harmoniosa (DROSTE, 1992, pp. 30-31). O pintor Johannes Itten não só estruturou o curso preparatório da Bauhaus como muitos de seus ideais metodológicos foram perpetuados e adaptados 53 para uso em escolas de design atuais (DROSTE, 1992). Itten também influenciou as oficinas, tendo dirigido a oficina de tecidos da Bauhaus em seu nascedouro, mais tarde denominada Seção têxtil. Itten foi substituído em 1921 por Georg Muche, e os dois se revezavam nas aulas no Vorkurs. 2.2.1 A Bauhaus e os tecidos manuais Assim como as demais oficinas da Bauhaus, a oficina de tecelagem enfrentou dificuldades em seu início. Durante a Guerra, muitos equipamentos usados nesses espaços, tais como os teares, foram destruídos ou desviados. Como solução, Helene Borner, que lecionava ali na época, já sob a direção de Van de Velde, firmou uma parceria pessoal com a Bauhaus, disponibilizando seus próprios teares para os alunos. Esses aparelhos acabariam sendo adquiridos pela Bauhaus (DROSTE, 1992). Em 1921, Borner também assinou o primeiro “Programa de Ensino para a Formação Artesanal de Técnicas Têxteis”, que abarcava o bordado, o debrum decorativo, o crochê, a costura e o macramê. A tecelagem foi mencionada como uma técnica a ser aprendida. E esse era o prenúncio de todo o conhecimento técnico: [...] as funções do tear, as possibilidades de combinação de fios, o modo de entrada dos fios – tinha que ser aprendido por meio de experiências. Para nós, pobres autodidatas, havia muitos enigmas, e lágrimas também não faltaram (ibid., p. 72). Mas houve um lado positivo na não dominação de todas as técnicas do tear no início das atividades do atelier têxtil na Bauhaus. A falta de experiência trouxe liberdade aos experimentos, viabilizando a criação de produtos inusitados. É o caso de Otti Berger, uma das tecedeiras maior habilidosas, que propunha uma discussão genérica de “materiais no espaço”38. Essa discussão foi aceita 38 Disponível em: <http://bauhaus-online.de/en/atlas/personen/otti-berger> acesso: 15/11/2013 54 na Bauhaus, e foram desenvolvidos tecidos para paredes, mobiliário e cortinas, e desenvolvidas experimentações com novos materiais, como celofane, seda artificial, seda aveludada, entre outros. Uma das produções mais impactantes veio da aluna Anni Albers: [...] que desenvolveu um material em que ambos os lados possuíam propriedades diferentes: um dos lados absorvia o som enquanto o outro refletia a luz. Anni Albers criou este tecido para melhorar a acústica do auditório da escola da Allgemeiner Deutscher Gewerkschaftsbund (ADGB), desenvolvida por Meyer (ibid., p. 184). Na oficina têxtil da Bauhaus, também foram desenvolvidas novas formas e padrões nos processos de tecelagem tradicional. “O uso de formas e cores elementares ensinado no Vorkurs foi uma das linhas estéticas adotadas nesta oficina” (RIBEIRO; LOURENÇO, 2012, p.14), que passou a ser dirigida por Gunta Stolzl, aluna promovida a Jovem Mestre depois que Muche deixou a Bauhaus, no ano de 1927. Apesar de Stolzl ter sido nomeada somente em 1927, já coordenava o curso de tecelagem desde 1925. Ela desempenhou um importante papel na história da tecelagem, estando entre os alunos da Bauhaus que chegaram a ocupar lugares importantes nas indústrias da Alemanha e outros lugares do mundo, o que ajudaria a tornar o nome da Bauhaus conhecido mundialmente. Os projetos de tecelagem desenvolvidos por ela na Bauhaus passaram a ser incluídos na produção industrial, entre eles os tecidos texturizados. A metodologia utilizada por Stolzl foi organizada em três fases, sendo que as duas primeiras fases (1919-1920 e 1920-1925) tinham um caráter auto didatista, baseado nos conhecimentos adquiridos na prática de ateliê, com tentativa e erro, bem como com a experimentação de materiais e técnicas. A terceira fase foi marcada pela produção de protótipos para a indústria, visando alcançar diretamente a sociedade. Assim, primou por um caráter experimental durante todo o seu caminho profissional. 55 Figura 5: Gunta Stolzl, cobertor com franja, materiais lã (baço) e seda artificial (brilhante) Fonte: DROSTE, 1992, p. 74 A presença de Stolzl na história da tecelagem foi uma das mais relevantes contribuições da Bauhaus no que diz respeito a tecidos. Outros artistas também influenciaram a produção têxtil, como Paul Klee, que lecionou com Kandinsky entre os anos de 1917 e 1930. E juntos na disciplina que ministravam, criaram os Cadernos Pedagógicos (1925), segundo eles, a linha em ação que direcionou Klee pelas experiências visuais. Por meio delas, [...] estabelece correspondências com outros elementos geométricos, físicos, químicos e mesmo psíquicos, atribuindolhes valores simbólicos ao apelar para estímulos, sensações visuais como recursos ilustrativos; relaciona entre si linhas, sombras e cores, reforçando aqui, eliminando ali, para obter a sensação de equilíbrio ou correção, que para ele significava encontrar a presença da Forma-Cor ideal (MAC USP, [s.d.] site). Para Klee, a essência era mais importante que a aparência das coisas. Entendia que o artista era o elo entre o ser interior e o mundo que o envolve. Klee ministrava suas aulas partindo do estudo de formas elementares, passando depois para as cores elementares. Vários dos exercícios apreciados 56 hoje derivam dessas primeiras formas. Na figura abaixo, podemos conferir dois exemplos dos exercícios propostos por ele. Na figura à esquerda, veem-se três formas em uma única forma e, à direita, figuras sobrepostas. “Estas encorajavam o sentido pela organização dos espaços e abriam a visão para as infinitas possibilidades do ‘design’ através da proporção, rotação, de reflexões etc.” (DROSTE, 1992, p. 65). Figuras 6 e 7: Gertrud Arndt (1923-24), estudos do curso de Klee Fonte: DROSTE, 1992, p. 64 É importante ressaltar que, além desse pensamento de Klee e também das experiências estéticas como técnicas e experimentos práticos, outra característica residia nos estímulos à imaginação, esta última também aderida por Wassili Kandinsky (1866-1944), o qual tendia ao: [...] percurso da emoção, ao ritmo da cor e à expressão de impulsos individuais, encontra suas matrizes no expressionismo e no fauvismo [...]. Seu movimento em direção à abstração inspirase na música e na defesa de uma orientação espiritual da arte, apoiada na teosofia MAC USP, [s.d.], site). 57 Kandinsky abordava também o “[...] caráter que determinadas cores teriam e os diferentes efeitos que estas produziam em formas diferentes" (DROSTE, 1992, p. 66). No entanto, em sua obra ‘Ponto e Linha sobre Plano’ escrita em 1926, suas ideias podem ser observadas com uma visão espiritual da arte. Em um trecho, propõe que uma obra reflete os sentimentos, de tal modo que: A obra reflete-se na superfície da consciência. Ela encontra-se 'para lá de' e, quando a excitação cessa, desaparece da superfície sem deixar rastro. Existe aí também como que um vidro transparente, mas duro e rígido que impede todo o contato direto e íntimo. Ainda aí temos possibilidade de penetrar na obra, de nos tornarmos ativos e de viver a sua pulsação através de todos os nossos sentidos. Para além do seu valor científico, que depende de um exame dos elementos particulares da arte, a análise dos seus elementos constitui uma ponte em direção à vida interior da obra (MAC USP, [s.d.], site). Suas obras também se aproximavam das obras de Paul Klee, com a geometrização de figuras. E ambos, junto aos demais professores bauhauseanos, mesmo com as contradições internas, quase sempre tinham um objetivo pedagógico comum. Como artista, outro adepto do estilo bauhauseano de Klee – com ênfase na formação pelo informalismo e pelo abstracionismo – foi Aloisio Magalhães, que também defendia o artesanato, bem como todas as formas de manifestações culturais no Brasil (MAGALHÃES, 1985). Na imagem a seguir, observamos um exemplo dos exercícios aplicados por Kandinsky na Bauhaus. 58 Figura 8: Questionário feito para contribuir com a coordenação de Kandinsky das cores primárias para formas elementares. Fonte: DROSTE, 1992, p. 86 Sem abandonar os objetivos citados anteriormente, o programa geral da escola compunha-se de duas linhas de ensino, sendo a primeira a relação de todas as espécies artísticas e de todos os tipos de artesanato sob a supremacia da arquitetura. E a segunda dizia respeito à direção da produção estética conforme as necessidades de uma faixa mais ampla da população, e não de uma classe social e econômica privilegiada (GROPIUS, 1977). O artesanato era imprescindível no método de ensino da Bauhaus, e representava a maneira como o aluno aprendia. Por mais industrializado que 59 estivesse o meio, Walter Gropius acreditava que o artesanato continuava sendo um recurso insubstituível para a aprendizagem (GROPIUS, 1977). É importante ressaltar que, assim como existiram na história e continuam existindo escolas de referência para o design, está ressurgindo a premência de artesãos e designers trabalharem juntos em comunidades como a cidade do Carmo. Entrevistada por esta pesquisadora, a artesã Maria Rita afirmou que o grupo de membros da Associação de Artesãos tem o projeto de criar uma escola para transmitir o fazer manual a mais pessoas, de modo que possa contar com um número maior de profissionais ativos em teares manuais – uma demanda da cidade, diz ela – viabilizando também o trabalho conjunto de artesãos e designers na escola. E assim ela descreve o projeto: “Enxergo positivamente as parcerias entre designers e artesãos, pois acho que é bom para os artesãos entenderem sobre cores, estação e outros produtos por exemplo” (informação verbal)39. Na condição de pesquisadora e defensora dessa relação entre artesãos e designers, incluo meus esforços e expectativas no sentido de que a escola para artesãos e designers do Carmo renda frutos e fique abrigada de ataques políticos, a caminho de um futuro diferente do que teve a Bauhaus. Vale recordar que, durante a sua história, o Conselho de Mestres da Bauhaus sempre recomendou aos alunos que se eximissem de envolvimento em atividades políticas, “para evitar que a escola fosse acusada de propagandear o comunismo” (DROSTE, 1992, p. 49). Seus gestores pregavam a rejeição política mas, ainda assim, a escola se viu tomada por interesses políticos e pessoais, e finalmente acabou fechada em 1933 pelos nazistas. 39 PAULA, Maria Rita Dias de. Entrevista concedida a esta pesquisadora em visita à prefeitura de Carmo do Rio Claro, MG. 1 arq. video (45 min) 23/01/2014 60 2.3 Brasil: O Tecido Social Criativo Antes da Revolução Industrial, os produtos eram cultivados ou produzidos para consumo próprio no Brasil. Havia dois procedimentos básicos de organização industrial: as guildas e o sistema doméstico. Historiadores relatam que as guildas 40 existiram na Europa, principalmente entre os anos 1100 e 1500 (WREN, 2007). O Brasil foi descoberto quando elas já estavam em processo de desintegração em outras partes do mundo. Apesar disso, aqui em nosso país, o trabalho funcionou por um bom tempo ainda organizado conforme o sistema de corporações41, que eram “[...] dirigidas por juízes e escrivães, eleitos por seus pares, e funcionavam no mais, em princípio pelo menos, como suas similares na Europa (PRADO JÚNIOR, 2008, p. 219). No começo, quase não existia fiscalização nas corporações e a regulamentação era frágil, o que facilitava uma liberdade profissional ampla, desconhecida na Europa. Outro fato que contribuiu para essa mudança no Brasil foi a crise de desemprego na passagem do século, na Europa, que nos mandou sete milhões de europeus. Quatro e meio milhões deles se instalaram no Brasil, sobretudo em São Paulo, movimentando a história econômica local. “Eles promoveram um surto de industrialização, que mais tarde se expandiria com a industrialização substitutiva de importações" (RIBEIRO, 2000, p. 194). [...] tanto mais grave porque nenhuma cidade brasileira estava em condições de receber esse contingente espantoso de população. Sua consequência foi a miserabilização da população urbana e uma pressão enorme na competição por empregos. Embora haja variações regionais e São Paulo represente um grande percentual nesse translado, o fenômeno se deu em todo o país (ibid., p. 198). 40 As guildas eram de dois tipos: as mercantis, compradoras e vendedoras de produtos; e as de ofício – ou corporações-, que faziam os produtos (WREN, 2007, p. 34) 41 As corporações eram entidades semipúblicas, e têm as atividades controladas pelo Senado da Câmara de suas sedes respectivas. Por isso aparecem nos documentos dos Senados referências frequentes a elas, e por aí se podem estuda-las. Assim no Registro e Atas da Câmara de São Paulo, que estão publicados, podemos assinalar, entre muitas outras referências: exame oficial alfaiate, carta de confirmação e licença da Câmara, Reg., XII, 117; o mesmo de ferreiro, Reg. XII; eleições para juízes e escrivães, Atas XX, 230 e 232 (1800) e 307 (1801) (PRADO JUNIOR, 2008, p. 219). 61 Ainda segundo relatos de historiadores, quando os portugueses chegaram aqui, por volta de 1500, os índios estavam em um estágio correspondente ao Neolítico. Entretanto, é importante ressaltar que não é desmerecedor para o Brasil ser caracterizado como “neolítico” quando descoberto, uma vez que a revolução neolítica envolveu atividades complexas como a cerâmica, a agricultura e a tecelagem. “Cada uma dessas técnicas supõe séculos de observação ativa e metódica, hipóteses ousadas e controladas, para serem rejeitadas ou comprovadas por meio de experiências incansavelmente repetidas” (CANCLINI, 1982, p. 21). No entanto, para Ribeiro (2000), o Brasil nasceu como uma civilização urbana separada em conteúdos rurais e citadinos, com desempenhos distintos, porém complementares, e governada por grupos eruditos da cidade, uma vez que a independência trouxe milhares de lusitanos, todos mobilizados para o comércio. Já na zona rural: [...] para atender às necessidades de seus numerosos moradores – o proprietário e sua família, escravaria e agregados – torna-se necessário, por motivo das distâncias que os separaram dos centros populosos, mercê da extensão dos domínios, ou por outras considerações de ordem prática e econômica, a presença de toda uma pequena indústria de carpinteiros, ferreiros e outros, bem como, frequentemente, até de manufaturas de pano e vestuário (PRADO JÚNIOR, 2008, p. 218). Essas indústrias caseiras eram confiadas a escravos mais habilidosos ou às mulheres da casa. Assim, outras técnicas eram praticadas, como a fiação, a tecelagem e a costura. No começo, a produção era voltada somente para as próprias residências. Aos poucos, tornaram-se manufaturas próprias com organização comercial. “Isto é particularmente no caso da indústria têxtil. Sobretudo em Minas Gerais, e também na capital do Rio de Janeiro, aparecem na segunda metade do séc. XVIII manufaturas autônomas e relativamente grandes” (ibid., p. 222). A relevância dessas manufaturas têxteis seria motivo de comemoração se o poder público vigente não se sentisse ameaçado. Mas aconteceu aí uma profunda coerção social, pautando em grande parte o futuro das manufaturas têxteis no Brasil. 62 2.3.1. As tramas suprimidas pelos sinais de liberdade e notoriedade Quando as indústrias manufatureiras deram sinais notórios de ascensão, o Marquês do Lavradio42, então Vice-Rei do Rio de Janeiro, advertiu o governo sucessor sobre o risco de tais atividades. Ressaltou que, além de elas fazerem concorrência ao comércio do Reino, também traziam liberdade às pessoas da Colônia. E relatou os casos em que teve que interferir, eliminando fábricas que iam se tornando conhecidas demais, como Pamplona, em Minas Gerais, entre outras (PRADO JÚNIOR, 2008). O alarme do Vice-Rei chegou aos ouvidos de outros interessados no assunto, o que originou um alvará expedido em 05 de janeiro de 1785 por D. Maria I, mandando eliminar todas as manufaturas têxteis da Colônia, e permitindo apenas o fabrico dos tecidos grosseiros em fios de algodão para uso na fabricação das roupas dos escravos ou nas sacarias (JOFFILY, 1999). Este foi um golpe de morte. Somente com a: [...] transladação da corte para o Rio de Janeiro, sorriram dias melhores para a manufatura têxtil brasileira: o alvará de 1 de abril de 1808 revogou a proibição de 1785. Mas já então tinha ela de lutar com fatores adversos muito sérios, de que não foi o menor a concorrência tão bem aparelhada, industrial e comercialmente, dos tecidos ingleses, favorecidos pelo franqueamento do comércio externo da colônia, e pouco depois pelas vantagens apreciáveis que lhes concedeu em 1810 (PRADO JÚNIOR, 2008, p. 223). Assim, percebe-se que um conflito interétnico se processa na formação do Brasil, entre a população original e os invasores que a “chicotearam”, a fim de inserir um novo conceito de sociedade e economia. Em 1892, vigorosa vida urbana emergia no Brasil, consagrando um novo modo de ser das metrópoles. Dentro delas, percebia-se muita pressão, “[...] porque a população deixada ao abandono mantém sua cultura arcaica, mas muito integrada e criativa. Dificulta 42 Marquês do Lavradio, o Vice-Rei do Rio de Janeiro, comentou sobre a notoriedade das indústrias manufatureiras no Relatório que entregou ao governo sucessor, em 1779 (PRADO JUNIOR, 2008). 63 porém, uma verdadeira modernização, porque nenhum governo se ocupa efetivamente da educação popular [...]" (RIBEIRO, 2000, p. 200). A maioria da população também não se comprometia com o trabalho. Nos ofícios urbanos no Brasil, reinavam o amor ao ganho fácil e a instabilidade nas ocupações. Isso ficou patente no fim da era colonial, visto que peças incoerentes eram vendidas nas tendas dos comerciantes: compravam-se ferraduras de um boticário e vomitórios de um ferreiro. E eram raros os casos em que um ofício persistia em uma família por mais de uma geração. “Era esse um dos sérios empecilhos à constituição, entre nós, não só de um verdadeiro artesanato, mais ainda de oficiais suficientemente habilitados para trabalhos que requerem vocação decidida e longo tirocínio” (HOLANDA, 1978, p. 28). Assim, os problemas atuais do artesanato, como a descaracterização dos produtos, a depreciação e a extinção de algumas técnicas estão no cerne da formação do Brasil, que desde o começo esteve voltado para a Europa. A grande ênfase era no externo, visto que a intercomunicação se fazia pelo mar e as pessoas olhavam e se comunicavam através de um círculo comum, aquilo que lhes era oferecido pelo transporte marítimo, pela sociedade dominante; no caso, pela população invasora. “Então a grande ênfase era para fora e portanto, mimética e copiadora” (MAGALHÃES, 1985, p. 96). Desse modo, os ofícios foram organizados no Brasil segundo moldes herdados do reino. Cheio de ambiguidades, o processo era dominado pelo trabalho escravo e a indústria caseira, com o objetivo de garantir a independência dos ricos e polir o comércio, detendo a condição de estimular a liberdade dos artífices. 2.3.2. O Brasil e o caminho para a província de Minas A manufatura têxtil de Minas foi uma das mais reprimidas durante a maior parte do período colonial no Brasil, como não nos deixa esquecer o tratado assinado por D. Maria I, Rainha de Portugal em 1785, comentado acima. Durante a vigência desse alvará, Rocas e teares de madeira eram destruídos nas históricas ladeiras de Minas, mas, simultaneamente, outros destes 64 equipamentos eram construídos por hábeis artesãos, em claro desafio ao absolutismo colonial, e crescia a existência de pequenas unidades fabris nos grotões marginais [...] bem como nas recônditas fazendas localizadas nos sertões e veredas da capitania (GONÇALVES, 2001, pp.99-100). O simples fato de saber tecer ou fundir um metal era motivo para tornar alguém suspeito, dono de ideias perturbadoras. O Reino temia a concorrência, embora tal mercadoria não fosse natural para ele, porque os têxteis e o ferro ofereciam grandes lucros para o seu comércio. O Reino receava também a independência da Colônia, prefácio da política; contudo, tanto na manufatura têxtil quanto na de metal, a Colônia tinha abundância de matéria-prima e um mercado local relevante (PRADO JÚNIOR, 2008). Com a chegada da família real ao Brasil, em 1808, essas restrições foram suplantadas, mais uma vez, por interesses pessoais em fortalecer a economia da antiga Colônia. Nesse período, “D. João VI chegou mesmo a mandar um mestre fabricante de tecidos para demonstrar, em tear que instalou na residência do Governador de Minas, as possibilidades do fabrico de tecidos na região” (GONÇALVES, 2001, pp.99-100). Consequentemente, o cultivo do algodão passou a ser uma importante atividade em Minas, segundo relatos de John Mawe e Luccock43, viajantes e comerciantes. (MAWE, 2013). Como podemos perceber, em meio aos holocaustos históricos provocados pelos jogos de interesses até as contradições contemporâneas, a tradição dos teares manuais continua a sua história secular em Minas. Adeptos dessa técnica acreditam, assim como esta pesquisadora, que é necessário superar a ideia de que a máquina sobrepõe a técnica manual. Ao contrário, são complementares no design dos produtos, “tanto que, hoje designers empregam sofisticadas tecnologias, mas continuam necessitando de habilidades artesanais, da confecção de moldes aos acabamentos de produtos” (MORTEO, 2012, p. 28). 43 Luccock era um mineralogista Inglês, que foi recebido no Rio de Janeiro por Dom João, de quem obteve liberação para visitar as jazidas de diamantes de Minas Gerais, entre os anos de 1809 e 1810 (on-line<http://www.bvambientebf.uerj.br/arquivos/viajantes/jonh_mawe.htm.>acesso: 05/12/2013). 65 2.4. O Capitalismo: uma cultura que aceitava e encorajava a exploração dos artesãos Antes de prosseguirmos, é importante retroceder no tempo para entendermos que as transformações acontecem de forma gradativa e lenta. É uma multiplicidade de fatos e contradições que envolvem o tempo, as relações humanas e a arte. Então, antes de uma crítica à Revolução Industrial, abonando-a com o título de movimento que “furtou” o artesão, é fundamental esclarecer que, mesmo antes desse período, as questões capitalistas traziam tramas às vezes ocultas em seu bojo, e contradições internas já se manifestavam. Antes da era industrial, as organizações existentes resumiamse à casa, à tribo, à Igreja, ao exército e ao governo. Algumas pessoas participavam de empreendimentos econômicos, mas não em escala comparável à que surgiria com a Revolução Industrial. No entanto, era necessário gerir as campanhas militares, a vida doméstica, as atividades governamentais e o funcionamento da Igreja (WREN, 2007, p. 25). Em um rápido panorama no passado, observamos que para chegar aos temas do capitalismo contemporâneo, à queda e, em alguns casos, à extinção do artesanato, é forçoso entendermos como se deu a revolução urbana. Para estudar o artesanato, “Necessitamos, portanto, estudá-lo como um processo e não como um resultado, como produtos inseridos em relações sociais e não como objetos voltados para si mesmos” (CANCLINI, 1982, p. 53). Buscamos perceber também os artesãos hoje, como as relações de trabalho entre eles foram estabelecidas ao longo da história, de forma individual ou coletiva, mesmo após o desaparecimento das corporações de ofício. Como existiam bem antes que se afirmassem as Corporações, assim continuarão a existir, mesmo depois da supressão definitiva do ordenamento corporativo. Também hoje os artesãos existem individualmente ou como normais associações sindicais ou profissionais [...] (RUGIU, 1998, p. 25). Ao regressar no tempo, bem antes que se afirmassem as corporações, por volta de 4000 a.C. no Oriente Médio, nasciam as primeiras cidades e estados. 66 Ali, surgiam uma classe de dirigentes (sacerdotes-reis), a legislação e as classes de funcionários públicos, provocando as primeiras divergências entre os pensamentos sobre autoridade e pagamento de salários: Em 604 a. C., quando Nabucodosor era rei da Babilônia, os tecelões eram pagos com alimento, conforme o que produzissem. Isso aconteceu antes que existisse a ideia bíblica (e talvez a tenha influenciado) de 'quem não quer trabalhar também não há de comer' (2 Ts 3,10), ou, nas palavras do profeta Maomé, 'aquele que não trabalha para si mesmo nem para os outros não receberá a recompensa de Deus'. No caso dos tecelões, a motivação é clara; o Código de Hamurabi, porém, não previa nenhum incentivo para que o trabalhador fizesse mais do que o exigido, já que os salários eram regulamentados (WREN, 2007, p. 26). Simultaneamente na Babilônia e Assíria, além da divisão das formas de trabalho, percebiam-se sinais de alguma estrutura regular de trabalho na área têxtil. Dirime-se que os babilônios usavam as cores para controlar a produção e o estoque nas fábricas de tecidos e celeiros. “O fio para uma semana de produção têxtil era marcado com a cor azul; na semana seguinte, a cor era vermelho. Isso permitia que a administração controlasse o tempo de permanência dos fios no estoque” (MAXIMIANO, 2006, p. 20). No pagamento de salários, observamos outra divergência: os babilônios foram também precursores do incentivo salarial, eles pagavam às mulheres encarregadas da fiação e da tecelagem de acordo com sua produção individual. Começava a surgir a organização do trabalho, de forma que, na Europa medieval, as associações de artesãos, chamadas guildas, controlavam a produção e distribuição de bens: Uma guilda regulamentava o trabalho entre os seus associados, protegendo-os da concorrência por meio de práticas justas de negócios entre eles. As guildas controlavam o treinamento de aprendizes e limitavam o número de artesãos que produziam para mercados locais (ibid., p. 26). Assim, com o avanço da Idade Média para o Renascimento, após os barões feudais terem perdido o poder, acontecia também a primeira onda do avanço 67 burguês e o surgimento e consolidação do Estado moderno. Esse período ainda era movido por valores humanistas, desenvolvimento pessoal e arte. Os artistas eram estimulados pela Igreja, pelo Estado e pelas guildas, tinham reconhecimento público e recompensa financeira (MAXIMIANO, 2007). No entanto, com a crise financeira de 1557-1559 e a alta dos preços, casos de caráter social desencadearam alianças entre as famílias arruinadas da aristocracia e a classe burguesa, estes ocasionalmente tornando-se importantes dignitários reais. Contudo, Boucher ressalta que: [...] o nível de vida dos artesãos, trabalhadores e camponeses, já precário, cai ainda mais, gerando fome e epidemias, sem falar nos distúrbios causados pelas guerras de religião. A pobreza das classes trabalhadoras reflete-se numa roupa simples, mas é muito raramente reproduzida nas artes, com os pintores continuando a nos mostrar os ricos trajes dos círculos da corte e da cidade (BOUCHER, 2010, p. 183). Naquele período, enquanto trabalhadores e artesãos viviam precariamente, a nascente burguesia do período medieval transformava-se em poderosas famílias de comerciantes e banqueiros. Tais famílias formavam uma sociedade anônima com comunhão de interesses. Esse período, conhecido como capitalismo mercantil ou mercantilismo, foi também quando surgiram os intermediários de matérias-primas e mão-de-obra. Em muitos casos, as oficinas artesanais eram substituídas: “A divisão do trabalho se moderniza: alguns produtores ou comerciantes recrutam artesãos; os drapiers-drapants controlam tecelões, pisoeiros e tintureiros e vendem o produto de seu trabalho” (ibid., p. 195). Alguns economistas mais atentos às questões materiais no desenvolvimento social poderiam idolatrar essa corrente, pois a maioria deles possui uma visão teológica do capitalismo “[...] (pensam-no como igual a Deus: onipotente, onisciente, onipresente) e exageram a sua hegemonia até enxergarem tudo que acontece como um efeito mecânico das suas determinações macroestruturais” (CANCLINI, p. 72, 1982). Em sociedades tão complexas como a brasileira, que envolve um forte componente indígena, os processos de comercialização encontram formas de 68 organização comunitária da economia e da cultura, bem como dos resíduos do que aconteceu ancestralmente. Não pode ser observada simplesmente a satisfação capitalista, bem como não devemos nos prender unicamente ao processo cultural. Assim, devemos pensar o artesanato em seu sentido social, abrangendo as estratégias de reprodução e de transformação do capitalismo e sua influência na sua produção, circulação e consumo. Igualmente observar como as modificações estão se operando na estrutura interna de sua produção, como os artesãos estão envolvidos em todo esse processo. 2.5. Os primeiros Sindicatos Muitos anos se passaram após a apresentação do primeiro tear mecânico em 1785, até que começassem a surgir as leis trabalhistas em 1802 na Europa. Segundo Pevsner, Os desenhadores de certo valor não participavam na indústria, os artistas mantinham-se afastados e o trabalhador não tinha direito de pronunciar-se sobre matéria artística. O trabalho era mais gélido do que nunca fora na história da Europa. Trabalhava-se de doze a quatorze horas por dia e as portas e janelas das fábricas ficavam sempre fechadas. Empregavam-se crianças de cinco ou seis anos, cujo horário de trabalho foi reduzido em 1802, depois de grandes lutas, para doze horas por dia (KUBRUSLY; IMBROISI, apud. PEVSNER, 2002, p. 17). Além das cansativas doze horas de trabalho “conquistadas” após uma reforma, os trabalhadores ficavam à disposição do sistema industrial e capitalista. Assim, não podiam reclamar de sujeira, barulho, salários etc. (MAXIMIANO, 2007). No entanto, diante das grandes aglomerações nas fábricas e nas cidades, a comunicação entre os trabalhadores foi promovida, energizando possíveis conflitos com os industriais. Como efeito da fácil comunicação, no começo dos anos de 1800, surgiram os primeiros sindicatos, com o objetivo de proteger os salários dos artesãos. 69 E esses sindicatos já foram restringidos, sendo aceitos primeiramente na Inglaterra, admitidos de forma lenta. Ali mesmo, até o ano de 1875, haviam sido levantadas todas as ressalvas. Na França, isso aconteceria no ano de 1884; depois, foram declarados ilegais em 1869 e legalizados em 1890. Essa ascensão da classe sindicalista, bem como a exaustão no trabalho, se deu a partir da segunda metade do século XVIII com o início da Revolução Industrial. Até aquele momento, as guildas ou corporações 44 de artesãos, constituídas ainda na Idade Média, haviam conseguido que fosse proibida a mecanização, como forma de proteger a profissão dos artesãos (MAXIMIANO, 2006). A Inglaterra além de ser a primeira a sediar os sindicatos, foi também o primeiro país a desrespeitar a legislação que proibia a mecanização. Ao acolher à mecanização, ficou conhecida como o primeiro país a aderir à Revolução Industrial. Em outros países, como a Alemanha, até o final do século XVIII, quem descumprisse essa legislação era contido pela polícia. Então o processo da Revolução Industrial foi gradativamente sendo promulgado – decorrência de um longo processo econômico que promoveu o capitalismo e o declínio da profissão de artesão. Este profissional se viu obrigado a trabalhar nas fábricas, onde seu trabalho foi fragmentado e ele rapidamente perdia o controle sobre os meios de produção e o olhar sobre o conjunto de bens que produzia. A partir de então, a ênfase do trabalho transferiu-se para a quantidade produzida, independente do custo humano e social. Assim, o artesão: Transformou-se no trabalhador especializado na operação de máquinas, o que desumanizou o trabalho. [..]. Os trabalhadores tornaram-se dependentes do emprego oferecido pelas fábricas, numa cultura que aceitava e encorajava a exploração. A desconsideração em relação aos fatores humanos era total (MAXIMIANO, 2007, p. 29). 44 As corporações de ofício organizavam-se em torno de uma hierarquia de mestres, artesãos e aprendizes. O mestre era dono das ferramentas, da matéria-prima e do produto acabado; os artesãos eram trabalhadores pagos que, embora tivessem terminado seu aprendizado, ainda não haviam estabelecido uma oficina própria; e os aprendizes eram os que estavam ainda conhecendo o ofício (WREN, 2007). 70 Se antes, o artesão trabalhava para atender a encomenda de determinado consumidor, em consequência do capitalismo, foi como se o mundo se diluísse numa explosão de moléculas, desintegrando as relações humanas e as relações entre produtor e consumidor, lançando os produtos num mercado anônimo. 2.6. Entre Linhas e Panos: pensamentos divergentes Mesmo sendo o artesanato um dos focos de estudo de uma escola de referência para o design como a Bauhaus, em toda a história têxtil, a preocupação com a alienação artesanal em face da mecanização foi de uma minoria de artistas. É importante deixar claro que, nessa relação entre indústria e artesanato, cada qual tem o seu lugar. O importante é pensar no contexto em que um ou outro está inserido: [...] não existe cultura em geral, tampouco pode-se caracterizar a cultura popular por uma essência ou por um grupo de traços intrínsecos, mas apenas pela oposição diante da cultura dominante, como o resultado da desigualdade e do conflito (CANCLINI, 1983, p.18). Assim enxergamos as máquinas e todo o processo industrial, uma vez que elas surgiram com o intuito de atender a uma necessidade social. Portanto, não vemos como atender a demanda da população de hoje sem o processo industrial. Acreditamos que exista uma comunicação essencial entre o mundo artesanal e industrial. Diante dessa posição, é importante ressaltar o pensamento de Aloísio Magalhães sobre o artesanato como algo não estático, e sim um momento da trajetória: “Eu acho que artesanato é a tecnologia de ponta de um contexto em determinado processo histórico. Quer dizer, a melhor maneira de eu ter um vasilhame é a minha técnica de cerâmica com o meu forno etc." (MAGALHÃES, 1985, p. 172). Desse modo, o caminho é reiterar a trajetória, identificar o fio que a orienta, o fio do desenho do próximo passo, oferecer incentivos para que o artesão localize esse passo, conversando com outras áreas, estabelecendo a troca, e 71 fazendo com que essas áreas também conversem com o artesanato, nesse todo pluralista da cultura dos tempos atuais. [...] etnicamente puros, culturalmente tradicionais e intocados até ontem pelas rupturas da modernidade – é uma fantasia ocidental sobre a “alteridade”: uma “fantasia colonial”, [...] que tende a gostar de seus nativos apenas como “puros” e de seus lugares exóticos apenas como “intocados”. Entretanto, as evidências sugerem que a globalização está tendo efeitos em toda parte [...], e a “periferia” também está vivendo seu efeito pluralizador, embora num ritmo mais lento e desigual (HALL, 2011, p. 80). Todas as culturas, e incluo aqui a cidade do Carmo, por mais simples que sejam, conservam associações. Têm em seu interior, lógica e sentido. Até mesmo “[...] as práticas que nos desconcertam ou que nós rejeitamos (a antropofagia, a poligamia) possuem uma coerência no interior das sociedades que as adotam, são funcionais para a sua existência" (CANCLINI, 1982, p. 19). Isto acontece porque quando nascemos, encontramos um “universo” pronto. Primeiro percebemos o mundo pelo olhar familiar; depois pela escola, religião e sociedade com suas regras e leis que estabelecem padrões de comportamento a ser seguidos. Assim, desejando ou não, de modo inconsciente ou não, vamos ajustando nosso modo de ser e agir a tais regras sociais. E acabamos vestindo “máscaras sociais”, buscando evitar que nossas ações sejam julgadas. E, entremeadas pela cultura do Carmo, tecemos a história da artesã Anésia Rosalina dos Santos e do designer João Antonio Soares Freire Pereira. Durante nossas tessituras, valeu lembrar que tanto a artesã como o designer receberam infiltrações que foram repassadas às criações de seus tecidos. 72 CAPÍTULO 3: HOMEM E MULHER DE FIBRA: COMO A ARTESÃ ANÉSIA ROSALINA E O DESIGNER JOÃO ANTONIO TECEM SEU PROCESSO CRIATIVO A interpretação da história da tecelagem manual na cidade de Carmo do Rio Claro surgiu dos laços pessoais desta pesquisadora de origem mineira com os tecidos manuais. Acreditamos que o interesse pelo tema de pesquisa se deu pelo fato de que seus antecessores circulavam nessa trama de constituição dos tecidos artesanais em Minas. Sua avó materna, Ana Sulino Leite de Araújo e sua mãe, Sarah Sulino de Carvalho, moravam em uma fazenda entre Alpinópolis e Carmo, e integravam o sistema de produção doméstica, desenvolvendo tecidos nos teares manuais para uso próprio e da família. Assim, para esta pesquisadora entrelaçar-se nas fibras tingidas pelos corantes naturais, sentir a textura das mantas que, a princípio, traziam aspereza, e contar os pontos desenhados pelos dias e noites que a avó e a mãe passavam tecendo nos teares manuais, são algumas das lógicas que forram a idealização de uma pesquisa sobre tecidos manuais. Esta pesquisadora, hoje mestranda em Design na Universidade Anhembi Morumbi, com graduação em Administração de Empresas e em Design, atua como professora universitária em Minas Gerais, onde presta também serviços de consultoria no segmento de moda. E se vê dividida entre a gestão das empresas e a criação de objetos. Por ‘hobby’, transita por cidades grandes e pequenas, observando as pessoas, os espaços e os objetos, buscando compreender a transformação do sistema social e de que maneira ele se manifesta nos hábitos cotidianos dos indivíduos. Com base numa pesquisa de campo na cidade do Carmo, mostraremos, neste capítulo, a história de vida da artesã Anésia Rosalina dos Santos e do designer João Antonio Pereira. 73 3.1 A artesã Anésia Rosalina: uma representante dos teares manuais Figura 9: Artesã Anésia Rosalina dos Santos Fonte: Registro fotográfico, acervo pessoal, 01/02/2012 Anésia Rosalina dos Santos, ou D. Anésia, como é carinhosamente chamada pelas pessoas da cidade, nasceu em 10 de setembro de 1928 na zona rural de Carmo. No entanto, conta que foi registrada como se tivesse nascido no dia 30 de setembro de 1928, erro cartorário comum naquela época. Nasceu na zona rural e reside há mais de 30 anos na cidade do Carmo. Ela estudou na escola regular até a 4ª série do ensino fundamental e, ainda criança, teve seu primeiro contato com o processo de tecer. A princípio, foi incentivada pela avó e pela mãe, também tecedeiras. Esse saber é cultural no Carmo, no passado de forma inconsciente, hoje consciente: O comportamento de cada ser humano se molda pelos padrões culturais, históricos, do grupo em que ele, indivíduo, nasce e cresce. Ainda vinculado aos mesmos padrões coletivos, ele se desenvolverá enquanto individualidade, com seu modo pessoal de agir, seus sonhos, suas aspirações e suas eventuais realizações (OSTROWER, 2013, p. 11). 74 D. Anésia também foi ligada a esse saber pela família do pai, constituída por tecelões. Mas seu primeiro contato com os tecidos manuais consistia em limpar a lã com a “carda” e descaroçar o algodão com o “descaroçador”. Figura 10: Descaroçador Fonte: Registro fotográfico, acervo pessoal 30/01/2014 Ela diz: “…minha mãe lavava a lã e eu catava os resíduos que ficavam, como os espinhos. Nessa época, eu tinha doze anos de idade” (informação verbal)45. No começo, ela relata, os tecidos manuais atendiam a maioria das necessidades dos familiares; elas faziam com eles calças e camisas masculinas, lençóis, toalhas e também peças da indumentária feminina, como saias. Inquirida sobre a origem das ideias para confeccionar os tecidos que iam compor as peças de roupas que elas faziam, respondeu: “Minha filha, vinham brotando na cabeça, misturava uma coisa ali, outra aqui" (informação verbal)46. 45 SANTOS, Anésia Rosalina. Entrevista a esta pesquisadora em visita a seu atelier, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 2 arq.video (90 min)15/05/2012 46 Ibid. 75 Neste momento, torna-se oportuno lembrar de um fato importante da história da moda brasileira: Vestes e trajes eram feitos e usados à moda da casa, ou seja, misturando detalhes do povo que vivia ou aparecia por aqui. Deu no que deu. Os resultados mostram que cá entre nós existe, além da identidade étnica, uma identidade estética recheada de formas e cores, bordados e pinturas. Essa é a característica da moda que percorre nossa história. (CHATAIGNIER, 2010, p. 39). D. Anésia conta que sua mãe a colocava para fiar algodão, ajudando na produção dos tecidos; trabalho pelo qual a mãe a remunerava. No entanto, ela confessa aos risos: “quando eu fiava grosso, minha mãe ficava brava" (informação verbal)47. Assim ela segue tecendo sua história sentada em frente ao tear, já inteiramente tomado pelas formas de seu trabalho. [...] o artesão não pensa que está fazendo uma coisa qualquer que deverá ser vendida. Por isso, os aspectos estéticos, isto é, aqueles que agem e orientam a sensibilidade operativa do artesão, como o ritmo, o canto, os reclamos cadenciados etc., podem emergir como elementos primários e fortemente educativos, não puramente recreativos nem instrumentais (RUGIU, 1998, p. 156). A partir desse contar e de simples associações na oficina de trabalho de D. Anésia, podemos ainda viajar no tempo ao mirar a antiga roca que ela ainda usa. A roca é utilizada para fiar fios de lã de carneiro e algodão, os mais comuns na região. Já a carda serve para desfiar e pentear a lã na mesma direção, antes de ser transformada em fios. Aliás, ressalta ela entusiasmada: “meu próximo fazer, minha filha, é tecer 10 colchas de lã de carneiro" (informação verbal)48. Uma parte desse material vemos na imagem a seguir, coletada na visita a sua oficina. 47 SANTOS, Anésia Rosalina. Entrevista a esta pesquisadora em visita a seu atelier, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 2 arq.video (90 min)15/05/2012 48 SANTOS, Anésia Rosalina. Entrevista concedida a esta pesquisadora em nova visita a seu atelier, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 2 arq.vídeo (125 min) 30/01/2014 76 Figuras 11 e 12: Roca e Carda na oficina de trabalho da D. Anésia Fonte: Registro fotográfico, acervo pessoal 15/05/2012 77 Assim, foi tecendo, tecendo, até que se casou aos 23 anos, ainda na zona rural. Naquela época, D. Anésia relata que cumpria as tarefas domésticas e o marido provia o sustento familiar trabalhando na plantação. E assim foi até que, por problemas pessoais, eles tiveram que vender as terras e mudaram-se para a cidade, já com filhos. Em situação precária, a família de D. Anésia não tinha nem toalhas de banho. Além das dificuldades financeiras que enfrentava, o acesso aos produtos de uso básico para a casa era muito difícil, conta, salvo as colchas que eram comuns na região. Foi quando D. Anésia subitamente decidiu comprar fios de algodão das muitas fiandeiras que moravam nas fazendas. Comprou os fios e teceu as primeiras toalhas para sua família. Então, começou a tecer colchas para vender, pensando em prover o sustento dos filhos. Isso também deveu-se ao fato de que, em decorrência de um acidente de trabalho, o marido ficara impossibilitado de desempenhar suas atividades no campo. Nesse afã de fazer as colchas para vender, D. Anésia conta que, certo dia, viu chegarem algumas mulheres de fora da cidade do Carmo para comprar colchas, e viram as toalhas de banho que ela tinha tecido para os filhos. Havia talvez oito unidades. As mulheres pediram a D. Anésia que fizesse toalhas de banho para elas também. Ela reflete que, na época, já amarrava “abrolho” muito bem – processo que dá um bom acabamento às toalhas. D. Anésia o descreve como a técnica que dá forma às pontas dos tecidos manuais, o acabamento, que pode ser com desenhos, franjas etc. A figura 13 apresenta um modelo de “abrolho” feito por D. Anésia, que ela identifica como “rasto de gato”. Ela acredita ser esse o nome correto por descrever um ponto pequeno. O desenho pode ser considerado um “clássico” nas tecelagens manuais do Carmo, repetido à exaustão nas tecelagens manuais da cidade. Segundo a artesã Maria Isabel Freire, filha de D. Anésia e também artesã, a repetição desse ponto acontece devido à facilidade do processo que o envolve e ao bom rendimento do tecido que ele confere. 78 Figura 13: “abrolho” feito por D. Anésia Fonte: Registro fotográfico, acervo pessoal, 01/02/2013 Entre tessituras, pontos e desenhos, as mulheres passaram a comprar suas colchas e toalhas. Uma delas lhe fez um pedido maior: “D. Anésia, quero que a senhora teça pra mim uma colcha com linha da marca Cléa" (informação verbal)49. A tal linha não existia na cidade do Carmo, e D. Anésia se deslocou até a cidade de Passos, comprou a linha, teceu a colcha e, com a sobra, resolveu tecer também um jogo de toalhas. “Com seis filhos pra criar, minha filha, sem ajuda nem de um palito de fósforo, cheguei de Passos com as linhas; urdia, punha no tear e tecia dia e noite" (informação verbal)50. Urdir, D. Anésia conta, é a primeira etapa da criação do tecido manual, é o momento em que o tecelão pensa e põe em ordem os fios ou outros materiais que vão compor o trabalho. É quando o tecelão planeja o tamanho do tecido que vai construir, quanto de material vai usar. 49 SANTOS, Anésia Rosalina. Entrevista a esta pesquisadora em visita a seu atelier, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 2 arq.video (90 min)15/05/2012 50 SANTOS, Anésia Rosalina. Entrevista concedida a esta pesquisadora em nova visita a seu atelier, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 2 arq.vídeo (125 min) 30/01/2014 79 Podemos dizer que é o momento em que se forma a teia, onde o tecelão tem a possibilidade de ordenar seus pensamentos, tramar a história, tecer novas alternativas, refletir – é um processo onde cada matéria pode ser desdobrada de múltiplas maneiras [...] encerra múltiplas possiblidades de indagação. Embora seja o indivíduo que age, escolhe e define as propostas e ainda as elabora e as configura de um modo determinado, trata-se também, talvez antes de tudo, de uma questão cultural. Não só a ação do indivíduo é condicionada pelo meio social, como também as possíveis formas a serem criadas têm que vir ao encontro de conhecimentos existentes, de possíveis técnicas ou tecnologias, respondendo a necessidades sociais e a aspirações culturais (OSTROWER, 2013, p. 40). Figura 14: Urdidura Fonte: Fotografia do processo na oficina de D. Anésia, 15/05/2012, acervo pessoal Então, em meio a técnicas e influências culturais, D. Anésia relatou que as pessoas gostavam cada vez mais das suas tramas manuais, as vizinhas também começaram a gostar dos tecidos e das suas vendas. Ela, 80 generosamente, passou a ensinar as vizinhas e outras pessoas da cidade interessadas. E elas foram aprendendo, vendendo, e algumas delas hoje têm suas próprias tecelagens no Carmo. Um dia o “Bié Vilela”, como ela chamou carinhosamente o produtor de teatro Gabriel Vilela, cidadão carmelitano residente no Rio de Janeiro, indicou-a para uma telenovela denominada Fera Ferida. A partir de então, ficou conhecida e passou a ensinar não só no Carmo, como também no Rio, Mato Grosso, Goiânia e vários outros lugares por onde passou compartilhando esse saber. E ela se tornou uma referência para as tecelãs do Carmo. No entanto, mesmo diante da ascensão que o artesanato proporcionou e proporciona a D. Anésia, bem como para tantos outros artesãos, percebemos que o processo de exploração, ativo desde o tempo da colonização, persiste. Os artesãos continuam a ser explorados. Uma vez, ela mostrou não ter conhecimento das várias publicações encontradas sobre ela. Por exemplo, no anuário de 2012, publicado pela Revista Casa Claudia, intitulado Artesãos do Brasil, onde as páginas 172 e 173 trazem uma matéria sobre ela e os teares manuais. Reconhecemos a importância dessas publicações para a valorização dos artesãos, bem como de seus produtos; no entanto, isso não se dá. No mundo contemporâneo, esta interdependência não é uma relação de reciprocidade igualitária como nas sociedades arcaicas, onde o intercâmbio de alimentos era controlado por princípios que restabeleciam o equilíbrio. A multinacionalização do capital, que é acompanhada pela transnacionalização da cultura, impõe uma troca desigual tanto aos bens materiais quanto aos bens simbólicos (CANCLINI, 1982, p. 26). Esse anuário por exemplo, é ofertado por mais de R$ 90,00 (noventa reais) ao público consumidor e D. Anésia não teve nem conhecimento, nem acesso aos créditos das vendas dessa publicação. 81 Figura 15: Anuário Artesãos do Brasil Fonte: On line < http://loja.abril.com.br/Livro-Artesaos-Do-Brasil---Edicao-2-487868/>, acesso: 08/01/2014 Essa é uma das diversas ocorrências em que pessoas usam gratuitamente a imagem de artesãos para vender revistas ou mesmo produtos artesanais. No entanto, todas as vezes em que comentamos sobre as publicações citando seu nome, as quais ela disse desconhecer, D. Anésia demonstrou conflito entre indignação e felicidade. Indignação porque vão muitas pessoas até sua casa, tiram fotos, coletam dados e depois nem ao menos voltam para mostrar a ela o resultado do que foi feito com sua imagem. Felicidade porque ela gosta de ver sua história publicada, disse que fica grata que as pessoas tenham interesse em saber sua história e tem orgulho disso. Esse relato é um ponto de vista desta pesquisadora, que acredita que não existem verdades absolutas, e sim diálogos, discussões acerca da busca pela valorização da profissão de artesão, visto que foram eles os precursores dos trabalhos, que deram origem a todas as profissões. 82 3.2. O designer João Antonio: da dinastia de artesãos ao universo do design Figura 16: Designer João Antonio Pereira Fonte: Registro fotográfico, acervo pessoal, 01/02/2012 Nascido em 02 de dezembro de 1988 na cidade de Carmo, João Antonio Pereira, a quem trataremos por João, é graduado em Design de Moda na Universidade Anhembi Morumbi. João é hoje o responsável pela área de criação da tecelagem manual denominada por ‘WS’, pertencente a sua família. Todas as vezes que fomos a sua tecelagem, ele nos recebeu com tranquilidade mineira e um “cafézin". Sua história se confunde com os teares 83 manuais da cidade. Sua mãe Waninha, já comentada nesta pesquisa e também uma das precursoras da comercialização dos tecidos manuais do Carmo, levava João ainda bebê para a oficina de tecelagem onde trabalhava, por não ter recursos financeiros para mantê-lo sob os cuidados de uma babá em casa. E, enquanto a mãe tecia, ele tramava brincadeiras. Diante de uma história rodeada de teares, fiquei surpresa ao lhe perguntar da origem de seu interesse pelo trabalho com a tecelagem manual. Ele respondeu: Por incrível que pareça foi bem tarde, já na faculdade, se não me engano no 5º ou 6º período do curso, na disciplina que se chamava “Inter”, com instrução do professor Geraldo. Ele me incentivou, me mostrou o que eu tinha em mãos [referindo-se à importância dessa tradição]. Na verdade, me mudei para São Paulo para fazer Odonto, fiz durante seis meses. Nessa época, pensei: - gente o que é que estou fazendo? Daí tranquei Odonto, me matriculei em Moda, e só comuniquei meu pai depois, que a princípio ficou chocado; mas depois me apoiou bastante (informação verbal)51. Perguntado sobre os aspectos culturais que o influenciaram na opção pelo trabalho com tecidos manuais, João mencionou sua mãe, a vivência na cidade de São Paulo, a ida à casa dos tecelões e o entendimento de como esse trabalho influencia suas vidas. O último é o que mais o motiva a continuar trabalhando com esse saber. Nesse contexto percebemos o artesanato atuante também na área social, uma vez que: Possibilitando ao artesão melhores condições de vida e atuando contra o desemprego, o artesanato pode ser considerado elemento de equilíbrio no país e fator de coesão, de paz social. Conforme se sabe, este sistema de trabalho conta com a participação ativa da família. O lar, então, além de centro de vida é também núcleo de aprendizagem profissional. Outrossim, o mestre-artesão desempenha um papel relevante na comunidade e sua arte é fator de prestígio (JUNKEL; RIBEIRO; RASCOE, [s.d.], site). 51 PEREIRA, João Antonio. Entrevista concedida a esta pesquisadora por ocasião de visita à WS Tecelagem Manual, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 3 arq.video (130min) 31/01/2014 84 Deste modo, João passou a ter outro “olhar” para os teares manuais, formou-se designer e decidiu voltar para o Carmo e trabalhar lá. Perguntado se algum aspecto cultural se sobressai em suas criações, João diz que o que o motiva a criar tecidos manuais são as misturas de elementos, são os “não fios”, como canudinhos, fitas VHS, restos de jeans, que ele usa como fios nas tramas e urdumes para construir os tecidos, e conclui “Olho tudo e vou anotando, sem preconceito nenhum” (informação verbal)52. De acordo com os modos de fazer de João, podemos dizer que ele cria seus tecidos com um olhar que vem de uma cultura pluralista, uma vez que [...] muitos sistemas estéticos diferentes funcionam em cada forma cultural. Em consequência, a qualidade de um dado objeto cultural só pode ser avaliada num sistema estético específico [...]. Nessa situação, não é mais apropriado sustentar que os sistemas estéticos utilizados por determinadas formas de cultura, como as artes, são superiores em relação àqueles utilizados para outras formas, [...]. Em vez disso, como revelaram diversos estudos na sociologia da cultura, os limites entre alta cultura e cultura popular são fluidos; as duas formas de cultura são socialmente construídas (CRANE; BUENO, 2011, p. 30). É seu tecido cultural, onde todas as formas de cultura às quais ele tem acesso ingressam nessa construção. Parte dos materiais utilizados por João no processo de tecer serão aqui chamados de “fios não fios”. Para ilustrar, fotografamos um jogo americano em que ele misturou canudinhos e outro à base de fitas VHS, o qual ganhou a 12ª edição do prêmio House & Gift de Design – categoria menção honrosa, têxtil, decoração, entregue em 22 de agosto do ano de 2011 no Museu de Arte Moderna em São Paulo. 52 PEREIRA, João Antonio. Entrevista concedida a esta pesquisadora por ocasião de visita à WS Tecelagem Manual, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 3 arq.video (130min) 31/01/2014 85 Figuras 17 e 18: Jogo americano com canudinhos e Jogo americano com fitas VHS. 53 Fonte: On line 53 Disponível em: <https://www.facebook.com/tecelagemws/photos_stream>, acesso: 09/01/2014; e <http://mulher.uol.com.br/casa-e-decoracao/album/premio_house_gift_2011_album.htm#fotoNav=2> acesso: 09/09/2011 86 Sobre essa mistura de elementos, João disse que gosta de dar um ‘novo’ sentido, uma ‘nova’ função ao objeto, como quando usou o canudinho como fio. Aprecia também a reutilização, o reaproveitamento, o sustentável. Passamos a considerar um outro ângulo da criatividade, onde o fazer artesanal propicia possibilidades criativas, de tal sorte que: É bem verdade que, no nível da tecnologia moderna e das complexidades de nossa sociedade, exige-se dos indivíduos uma especialização extraordinária. Esta pouco tem de imaginativo. De um modo geral, restringe-se, praticamente em todos os setores de trabalho, a processos de adestramento técnico, ignorando no indivíduo a sensibilidade e a inteligência espontânea do seu fazer. Isso, absolutamente não corresponde ao ser criativo (OSTROWER, 2013, p. 38). Continuando em nossa trama, perguntamos-lhe sobre sua visão do processo criativo, sobre o “criar”. Ele diz que, em seu caso, há várias vertentes. Às vezes, vão surgindo questões inconscientes, que ele acredita serem de sua própria vivência, e às vezes, ele precisa focar, fazer um projeto. E há, ainda, seu gosto por pegar coisas que já existiam na tecelagem, como uma peça clássica, e refazê-la. A esse processo, ele dá o nome de reedição: [...] tenho um baú onde arquivo coisas de quinze, vinte anos atrás e a partir dessas referências, misturo um fio mais moderno, uma cor que está em voga. Faço também umas pastas, tipo um diário de inspirações, onde arquivo imagens com cores, texturas, modelos; depois faço uma triagem desse material para desenvolver as duas coleções da tecelagem que lanço anualmente (informação verbal)54. A partir dessas referências, João projeta suas criações. “Evocando o ontem e projetando-o sobre o amanhã, o homem dispõe em memória de um instrumental para, a tempos vários, integrar experiências já feitas com novas experiências que pretende fazer" (OSTROWER, 2013, p. 18). Quanto às duas coleções anuais, são organizadas em verão e inverno. E para o desenvolvimento delas, ele disse também que tem uma rotina diária de 54 PEREIRA, João Antonio. Entrevista concedida a esta pesquisadora por ocasião de visita à WS Tecelagem Manual, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 3 arq.video (130min) 31/01/2014 87 dedicação. Afinal, seu artesanato gere uma empresa pela qual deve zelar, tanto pensando em sua sobrevivência como nos artesãos que dependem dos recursos vindos da comercialização de seus tecidos. Diante disso, podemos inferir que o artesanato vive um paradoxo: Muitos estudos a respeito das culturas populares surgiram a partir desta pergunta apocalíptica: o que se pode fazer para evitar que o capitalismo acabe com o artesanato e com outras manifestações tradicionais? Antes de procurar a resposta, deve-se perguntar se a pergunta está bem formulada. Ela deve ser repensada com base numa visão mais complexa de como o modo de produção vigente reproduz e renova a sua hegemonia (CANCLINI, 1982, p. 44). Em meio às contradições contemporâneas, João tece a sobrevivência do artesanato. Em suas coleções, costuma eleger temas, visto que, para comercializar, precisa de uma toalha de mesa que combine com o guardanapo, com a almofada, sucessivamente. “É uma parte onde coloco o olhar comercial, preocupo-me com o consumidor que irá adquirir o meu produto”, frisa João. Sobre seu ponto de vista, podemos inferir que a produção é determinada pelo próprio mercado, uma vez que a cultura de massa integra e se integra ao mesmo tempo numa realidade policultural. No entanto, A cultura de massa no universo capitalista não é imposta pelas instituições sociais; ela depende da indústria e do comércio, ela é proposta. Ela se sujeita aos tabus (da religião, do Estado etc.), mas não os cria; ela propõe modelos, mas não ordena nada. Passa sempre pela mediação do produto vendável e por isso mesmo toma emprestadas certas características do produto vendável, como a de se dobrar à lei do mercado, da oferta e da procura. Sua lei fundamental é a do mercado. Daí sua relativa elasticidade. A cultura de massa é o produto de um diálogo entre uma produção e um consumo (MORIN, 1977, p. 46). Assim, se colocamos nosso ponto de vista sobre os próprios mecanismos de consumo e neles conseguimos tecer um produto artesanal que tenha uma dialética entre a produção-consumo, estamos contribuindo para a continuidade desse saber. Ainda sobre os temas que propõe a cada coleção, João diz que é mais uma maneira de não se perder nas formas e cores, pensando mais uma vez em 88 agradar os clientes que procuram combinações para decorar a casa. Mas não chega a trabalhar temas na mídia, como costuma ser feito pela moda vestuário. A partir daí, João segue seu processo com a pesquisa de fios. É quando procura os fornecedores para saber de lançamentos, de algo “novo”. O conceito de “novo”, aqui, não se assemelha à massificação vivida pela moda vestuário: Pode-se mesmo afirmar que, no processo de evolução de uma cultura, nada existe propriamente de “novo”. O “novo” é apenas uma forma transformada do passado, enriquecida na continuidade do processo, ou novamente revelada, de um repertório latente. Na verdade, os elementos são sempre os mesmos, apenas a visão pode ser enriquecida por novas incidências de luz nas diversas faces do mesmo cristal (MAGALHÃES, 1985, p. 45). Segundo João, os fios que compõem os tecidos manuais não têm um giro comercial tão rápido como a maioria dos produtos de hoje, não são produtos populares. Por exemplo, não chegam a ter lançamentos semestrais. Não são como a moda vestuário. “O pessoal agora está procurando azul turquesa, não tem fios, eles só vão aparecer no mercado um ano depois" (informação verbal)55. Depois de terminar essa pesquisa, tendo os fios separados, faz protótipos das amostras dos tecidos que pretende desenvolver. Para isso, ele conta com um tear manual pequeno onde as desenvolve. Os fios, leves ou pesados, são selecionados de acordo com a coleção – verão ou inverno. João destaca uma curiosidade: os fios lançados nos tecidos industriais hoje, só são lançados com as mesmas cores um ano depois. E complementa: “[...] não tenho conhecimento sobre fios lançados nas cores passageiras, como os tons fluorescentes” (informação verbal)56. 55 PEREIRA, João Antonio. Entrevista concedida a esta pesquisadora por ocasião de visita à WS Tecelagem Manual, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 3 arq.video (130min) 31/01/2014 56 Ibid. 89 Afirma também que o público que compra tecidos manuais gosta mais de cores clássicas, como as tonalidades beges e marrons. E ele sempre as privilegia no desenvolvimento dos tecidos. No entanto, às vezes, insere uma cor ousada, alguma novidade. "Os clientes gostam", diz. Nesse tecer, fica evidente que o maior problema reside na dialética entre o sistema de produção artesanal e a demanda dessa produção por parte do mercado consumidor. É uma dialética complexa, tendo, por um lado uma resultante econômica abstrata da lei da oferta e da procura. E por outro lado, as “[...] regras do sistema industrial capitalista pesam sobre o caráter mesmo desse diálogo" (MORIN, 1977, p. 47). Então, quais características ele usaria para definir o público que compra seus tecidos manuais? Engraçado, esse público mudou. De uns quatro anos para cá, tornou-se um público, digamos, um pouco mais extravagante, gostam de algo com brilho. Eu diria que gostam de uma peça com um aspecto artesanal, mas que tenha também um aspecto mais moderno. Tem que ter cuidado para não criar um produto muito folclórico. (informação verbal)57 Ao mesmo tempo, João ressalta com entusiasmo que os produtos que ele considera “folclóricos” são a fonte que ele entende como essenciais para suas criações, onde ele “bebe” referências, diz. Assim, pensamos que a conscientização sobre o uso adequado de nossas fontes culturais é uma forma de preservar as raízes do design brasileiro: Relembrar a importância da continuidade do processo cultural a partir de nossas raízes não representa uma aceitação submissa e passiva dos valores do passado, mas a certeza de que estão ali os elementos básicos com que contamos para a conservação de nossa identidade cultural (MAGALHÃES, 1985, p. 47). 57 PEREIRA, João Antonio. Entrevista concedida a esta pesquisadora por ocasião de visita à WS Tecelagem Manual, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 3 arq.video (130min) 31/01/2014 90 Nessa corrente proposta por Magalhães (1985), sentimos o descongelar do fazer artesanal proposto por João: “[...] deles pego a ideia e misturo com materiais mais globalizados. No entanto, tem produtos com características folclóricas que as pessoas compram, não pelo apelo comercial, mas pela história em si" (informação verbal)58. Esse processo é intitulado por Norman (2013) como Design Reflexivo, quando compramos algo para apoiar uma causa na qual acreditamos; são decisões reflexivas. Os artefatos [...] possuem sua própria especificidade discursiva, ou linguagem, que podemos tentar traduzir para o registro verbal por meio de abordagens como a “semântica do produto”, campo que estuda a “fala” dos objetos, ou seja: como suas características visuais e morfológicas sugerem significados e relações (CARDOSO, 2012, p. 113). E seguimos tecendo com as controvérsias encontradas por João no processo de desenvolvimento dos tecidos. Ele conta que isso acontece após a criação dos protótipos dos tecidos que almeja desenvolver. Para ilustrar tais controvérsias, João relatou o caso de uma cortina com sobras de tecidos: “[...] quando apresentei a ideia, as tecelãs resistiram muito e disseram que não iria dar certo. Ficaram “torcendo o nariz”, diz." (informação verbal)59. A figura número 19 ilustra parte do processo de construção dessa cortina – a chamada “navete”, um processo no qual uma parte do tecido permanece vazada, com apenas algumas partes tecidas e as demais livres. 58 Ibid. 59 Ibid. 91 Figura 19: processo produtivo da cortina para Casa Cor Campinas Fonte: Registro Fotográfico Tecelagem Figuras 20 e 21: Cortina para projeto Casa Cor Campinas Fonte: On line <https://www.facebook.com/tecelagemws/photos_stream>acesso: 09/01/2014 92 João acredita que os profissionais do artesanato necessitam “[...] procurar informação, ou então o artesão vai ficar fazendo o que seus avós faziam, depois o que os pais faziam, o artesão fica viciado. Não é porque ele não tem bom gosto, nada disso. Ele fica viciado, é isso.” (informação verbal) 60. Entre as ambiguidades que envolvem todo o processo artesanal, assim entendemos a afirmação de João. Uma cultura é avaliada no tempo e se insere no processo histórico, não só pela diversidade dos elementos que a constituem, ou pela qualidade de representações que dela emergem, mas sobretudo por sua continuidade. Essa continuidade comporta modificações e alterações num processo aberto e flexível, de constante realimentação, o que garante a uma cultura sua sobrevivência. Para seu desenvolvimento harmonioso, pressupõe a consciência de um largo segmento do passado histórico (MAGALHÃES, 1985, p. 44). Então, na busca pela realimentação do processo artesanal do tecido, depois do protótipo finalizado, João elabora a ficha técnica do produto, guardando uma peça de mostruário de cada produto “novo”, para os casos em que o tecelão não consegue acompanhar a ficha técnica. Mas João manda o protótipo para facilitar a produção do tecido. 60 PEREIRA, João Antonio. Entrevista concedida a esta pesquisadora por ocasião de visita à WS Tecelagem Manual, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 3 arq.video (130min) 31/01/2014 93 Figura 22: Ficha técnica Fonte: Registro fotográfico tecelagem WS A ficha técnica que João desenvolveu para os tecidos manuais contém especificações como, por exemplo, o desenho que vai ser utilizado. A ficha técnica é um item que eu trouxe da indústria para o artesanato e implantei com os artesãos que trabalham comigo. Foi muito importante, pois o cliente pedia uma determinada manta, por exemplo. Daí o artesão fazia, esquecia um desenho, o cliente reclamava. (informação verbal)61 Quanto à ficha técnica, demorou quase um ano para ser implantada, visto que foi necessário inserir itens como o peso de cada trama, de cada urdume, o espaço do detalhe. O mais complicado nesse processo “é a cultura em que 61 PEREIRA, João Antonio. Entrevista concedida a esta pesquisadora por ocasião de visita à WS Tecelagem Manual, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 3 arq.video (130min) 31/01/2014 94 estou inserido. Mas estou trazendo coisinhas; quebrar o que estamos acostumados é difícil” (informação verbal)62. Esses processos de desconforto perante as mudanças descritos por João derivam da formação do sujeito pós-moderno, que não tem identidade fixa, permanente; antes, o sujeito tinha uma identidade que o costurava à estrutura, de modo que tanto o sujeito quanto os mundos culturais que ele habitava eram reciprocamente mais unificados. Hoje, São exatamente essas coisas que agora estão “mudando”. O sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado: composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias e não resolvidas. [...] O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais provisório, variável e problemático (HALL, 2011, p. 12). No entanto, mesmo a modernidade sendo marcada pelas mudanças rápidas, ela não é definida exclusivamente por esse traço, mas também como um tempo altamente reflexivo. Perante a descontinuidade, a fragmentação e as rupturas têm uma linha comum que devemos ter em mente “quando discutirmos o impacto da mudança contemporânea conhecida como “globalização” (HALL apud. GIDDENS; HARVEY; LACLAU, 2011, p. 18). Mesmo quando João comenta que insere materiais mais “globalizados” nos tecidos manuais, tem grande preocupação em não descaracterizar a região. Ele afirma se preocupar em trazer todos os elementos e formas junto com a história. É muito delicado, diz. “Eu digo que é como pisar em ovos" (informação verbal)63. Ele conclui que seu “trunfo” é a história, a tradição, preocupado em não perdêla no meio do caminho. Assim, em todo o processo, não tem grandes problemas. E fala que, nos tecidos manuais, a irregularidade ou o que se definiria como “erro” causa um efeito de que ele gosta. 62 PEREIRA, João Antonio. Entrevista concedida a esta pesquisadora por ocasião de visita à WS Tecelagem Manual, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 3 arq.video (130min) 31/01/2014 63 Ibid. 95 3.3 Os Tecelões: registros desse saber secular em Carmo do Rio Claro Ao falar no trabalho do designer João, não podemos esquecer dos artesãos – pivôs de tudo. São os responsáveis por pensar a ideia junto com João, detentores do saber artesanal nos teares. E é nessa troca, nesse compartilhar de pensamentos que João e os artesãos dão vida aos tecidos manuais, proporcionando continuidade a esse saber. Por essa razão, buscamos registrar o trabalho dos artesãos que trabalham com João diariamente. Perguntamos: E sobre os tecelões que trabalham com você, qual o perfil deles? Todos trabalham da mesma maneira? Ao que ele respondeu: "Cada tecelão tem um perfil, tem tecelão que só tece peças pequenas, outros conseguem tecer peças grandes, mais largas. Não são todos que conseguem tecer peças grandes, como as toalhas; são pouquíssimos. Como pessoas muito baixas, pois o tecelão tem que pisar embaixo e o braço vai de um canto ao outro do tear para passar a lançadeira. Tem também tecelões que são mais lentos para tecer, no entanto são mais detalhistas e me entregam a lateral do tecido bem retinha". (informação verbal) 64 É como se fosse uma assinatura invisível do tecelão: aqueles que tecem lentamente terminam o tecido manual com a lateral reta; no entanto, aqueles que tecem com mais agilidade nem sempre conseguem obter esse acabamento, como ilustra a figura número 23. O ponto ali demonstrado é chamado “liso”, e está entre os pontos mais simples de ser desenhados no tear manual, uma vez que, segundo a artesã Anésia Rosalina, troca-se pouco a posição dos pés no pedal para compor esse desenho. 64 PEREIRA, João Antonio. Entrevista concedida a esta pesquisadora por ocasião de visita à WS Tecelagem Manual, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 3 arq.video (130min) 31/01/2014 96 Figura 23: As lançadeiras têm influência direta nas laterais do tecido Fonte: Registro fotográfico Tecelagem WS Nesse diálogo entre as técnicas tradicionais e o uso de fios industrializados, as lançadeiras têm influência direta sobre o resultado final do tecido – mais aberto ou fechado. São também responsáveis pela precisão na forma das laterais do 97 tecido. “Tem tecelão que não bate muito, e as tramas ficam mais abertas. Quando a gente pega certas peças, sabe quem fez" (informação verbal)65. Na figura número 24, fica visível o ponto que está sendo desenhado nas ‘lançadeiras’ no momento da fotografia. É o ponto ‘doce de leite’, mais complicado, cujo desenho exige muitas trocas de pedal, segundo a artesã Maria Isabel Freire, filha da artesã Anésia, durante a visita ao atelier de sua mãe, em 15 de maio de 2012. Figura 24: lançadeiras Fonte: Registro fotográfico Tecelagem WS A figura número 25 ilustra os pedais do tear, “[...] responsáveis pelo desenho do tecido. Se eu quero algo liso, eu piso de uma forma. Se desenhado, piso de 65 PEREIRA, João Antonio. Entrevista concedida a esta pesquisadora por ocasião de visita à WS Tecelagem Manual, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 3 arq.video (130min) 31/01/2014 98 outra forma. Na hora de tramar, a maneira como se pisa no pedal é que define o desenho". (informação verbal)66. Cada pé em um pedal. Como pesquisadora, faço alusão a esse processo, refletindo que é como a composição de música em um piano, onde cada toque provoca aberturas da urdidura, compondo desenhos. Quanto mais elaborado o desenho, mais vezes o artesão troca os pés nos pedais. Figura 25: Pedais responsáveis pelo desenho do tecido Fonte: Registro fotográfico Tecelagem WS O pente, segundo o artesão João Antonio Pereira (informação verbal)67, 66 PEREIRA, João Antonio. Entrevista concedida a esta pesquisadora por ocasião de visita à WS Tecelagem Manual, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 3 arq.video (130min) 31/01/2014 99 [...] é o espaço por onde passa o fio do urdume, e a lançadeira é por onde passa o fio da trama. O erro mais comum acontece na medida, exatamente pela influência do tecelão. Por exemplo: Eu falo pra ele dar 20 passadas de fio, ele dá. No entanto, tem tecelão que bate mais forte, então as 20 passadas dele vão ficar mais fechadinhas. E outro tecelão faz as mesmas 20 passadas de fios, só que com as batidas mais leves, então o espaçamento fica diferente. Assim, com as tramas mais abertas, no resultado final, o tecido fica com a medida maior. Isso é uma característica do artesanal, cada tecido fica diferente. O ritmo influencia muito na peça final. Ao analisar essa colocação de João, percebemos algo semelhante ao início das oficinas têxteis na Bauhaus, onde as tecedeiras trabalhavam com experimentação. Os teares manuais conservam possiblidades para designers e artesãos criarem tecidos variados com a mesma técnica: por batidas mais fortes ou mais leves, com o mesmo número de fios, o mesmo número de batidas e a mesma cor, por meio de experimentações, o tecelão consegue obter tecidos resultantes diferentes. Figura 26: Pente Fonte: Registro fotográfico Tecelagem WS 67 Ibid. 100 Para finalizar, "[...] todo o arremate do produto no tear manual é feito também manualmente. Como a barra italiana é costurada a mão, as barras com franjas têm que ser enviadas para as “amarradeiras”, como são chamadas as pessoas que fazem este trabalho. A única etapa não manual é a das etiquetas da tecelagem, que são costuradas a máquina”. (informação verbal)68 Todas as partes do processo são um prolongamento do estado do artesão, a especificidade de cada corpo, onde se depende do estado físico, por exemplo, para tecer peças grandes, e de coordenação para manusear os pedais com desenhos mais elaborados. É também prolongamento de seu estado emocional, do modo como o artesão está se sentindo em determinado dia. 3.4. A Artesã e o Designer: o fio da meada que tece uma parceria de ética e aprendizado O caminho que tramou as tessituras do estudo de caso sobre a artesã D. Anésia e o designer João Antonio se deu a partir do momento em que esta pesquisadora, com seu projeto de pesquisa em mãos, no ano de 2012, foi até a cidade de Carmo. Ao chegar lá, num dia frio e chuvoso, fez um longo trânsito pelo local e seguiu para a tecelagem WS, a qual já conhecia, até então como turista e apreciadora desse saber. Entrando lá, foi recebida pelo Sr. Welington, proprietário da empresa e pai do designer João Antonio, aqui observado. Solícito, Welington respondeu algumas perguntas e, após contar sua história com os teares manuais, apresentou João e disse que ele poderia amparar melhor as questões sobre tecidos manuais. E no vai-e-vem da história, João revelou que não conhecia ninguém melhor do que a artesã D. Anésia para falar sobre os teares manuais. Após tecer elogios a ela, mostrou-se disposto a nos apresentar D. Anésia. Em suas palavras: “Tem técnicas nos teares manuais que só D. Anésia sabe. Eu vou lá e a gente 68 PEREIRA, João Antonio. Entrevista concedida a esta pesquisadora por ocasião de visita à WS Tecelagem Manual, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 3 arq.video (130min) 31/01/2014 101 estabelece trocas, eu levo fios diferentes para ela, ela faz alguns trabalhos pra mim”. (informação verbal)69 Então desde a amarração inicial deste estudo, percebemos uma troca entre os dois, cada qual com suas particularidades. Assim, acreditamos que a poética da continuidade do artesanato esteja na junção entre indústria e artesanato, e não na separação desses saberes. Acreditamos que o homem [...] elabora seu potencial criador através do trabalho. É uma experiência vital. Nela o homem encontra sua humanidade ao realizar tarefas essenciais à vida humana e essencialmente humanas. A criação se desdobra no trabalho porquanto este traz em si a necessidade que gera as possíveis soluções criativas. Nem na arte existiria criatividade se não pudéssemos encarar o fazer artístico como trabalho, como um fazer intencional produtivo e necessário que amplia em nós a capacidade de viver. Retirando à arte o caráter de trabalho, ela é reduzida a algo de supérfluo, enfeite talvez, porém, prescindível à existência humana (OSTROWER, 2013, p. 31). Com esse pensamento, acreditamos que, juntos, artesãos e designers construam uma história sólida do design brasileiro. E compartilhem esse universo, estabelecendo trocas e diálogos só possíveis pela fusão. Entretanto, não há respostas definitivas, e sim estudos que mostram os meios, que fornecem elementos para que designers e artesãos enfrentemos nosso tempo, onde os processos são orientados para a massificação dos produtos, alienando o homem do seu trabalho, esmagando seu potencial criativo. Para tecer a malha entre artesãos e designers, o terceiro capítulo seguiu pautado pelas conversas com a artesã e com o designer, orientados pelas perguntas que figuram nos Apêndices 1 e 2 deste texto. Contudo, é importante ressaltar que, neste caminho, respeitou-se a história de cada um com o tear manual, bem como a linguagem local, que direciona a maneira como cada um entende o processo criativo. Para tanto, alguns rumos da conversa foram adaptados à situação. 69 PEREIRA, João Antonio. Entrevista concedida a esta pesquisadora por ocasião de visita à WS Tecelagem Manual, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 3 arq.video (130min) 31/01/2014 102 Podemos dirimir também que as questões que pautaram o estudo podem ser definidas com base em vários conceitos, como o conceito de Norman (2013), quando classifica o ‘design’ em vários tipos emocionais. Nesse sentido, podemos entender que as perguntas do formulário de entrevistas fazem uma linha de estudo do artesanato, envolvidas por emoções, num "design reflexivo": [...] são todas culturais. Não há nada de prático, nada de biológico nas respostas. As respostas são convenções aprendidas não importa em que sociedade você habite. Para alguns de vocês, as respostas serão óbvias; para outros, as perguntas nem sequer farão sentido. Esta é a essência do design reflexivo: tudo está na mente do observador (NORMAN, 2013, p. 111). Com esse pensar, levamos em consideração todos os itens descritos a seguir: História de vida, Processo criativo, Processo produtivo e Passos para chegar ao produto final. Os detalhes podem ser vistos no Apêndice nº 1. 103 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao final desta pesquisa, observamos que não se deve excluir de estudo os problemas fundamentais da sociedade que envolvem os cruzamentos complexos da cultura, pois eles dominam nossos objetivos. Vimos, ao longo do contato com a cronologia do fazer artesanal no Carmo e da história geral, que o fazer artesanal dos tecidos passou por diversas fases envolvendo desde as contradições acerca da identidade dos primeiros nativos da região do Carmo até a inserção de traços dos tecidos na construção das moradias dos nossos antecessores, os índios. A construção dos tecidos manuais passou por várias fases desde o Neolítico; as corporações de ofício, do século XII até sua queda no início do século XIX, desencadeada por conflitos de competência e disputa de poder, tornando-se retrógradas até sofrerem o golpe final da Revolução Industrial. Mas enquanto a Revolução Industrial acontecia no mundo, no século XIX, tal transformação só se manifestaria no Carmo na década de 1960, uma vez que até então, as artesãs locais não conheciam os fios industrializados, operando o processo têxtil inteiramente de forma manual. Essa ocorrência fez com que artesãs como D. Anésia, a pioneira no Carmo no experimento de fios industrializados, passasse a tecer com esses fios, deixando de lado parte do fazer artesanal – os fios industrializados foram vistos pelos artesãos da cidade como um facilitador do trabalho. No entanto, alguns deles, mesmo usando tais fios, desconfiavam de sua qualidade e, de tão cuidadosos com seu saber, lavavam os fios industrializados antes de usá-los. Nesse sentido, observamos D. Anésia sempre pioneira em suas relações, inicialmente usando e compartilhando tecidos manuais e ensinamentos de cunho tradicional, hoje ela troca e compartilha conhecimento com o designer João Antonio. Assim, apesar de ter domínio do saber tradicional, nas contaminações entre ela e João – designer com formação contemporânea, ela aceita o novo, o valor do acaso e das experimentações. 104 De outro lado, João Antonio se mantém tradicional na técnica, mas adotando materiais globalizados que conferem novidade aos tecidos manuais. Adicionalmente, ele respeita e valoriza o potencial de cada artesão, conhecendo o fazer de cada um. A essência desse conhecimento, João provavelmente absorveu de sua mãe, artesã. E posteriormente de D. Anésia, por quem ele nutre profunda admiração. Pessoalmente, tomei contato com esse processo de contaminação cruzada de técnicas e indivíduos, a princípio numa vertente de incentivo. Mas posso afirmar que observação e entendimento me permitiram crescer como designer na área criativa, a partir da noção superficial desse processo com a qual cheguei ao Carmo. Antes do início desta pesquisa, eu visitava a cidade na qualidade de consumidora, influenciada pelo contato familiar com tecidos manuais – as colchas que minha mãe tem guardadas há mais de 30 anos, tecidas por minha avó, hoje falecida. Conquistei outro olhar sobre o processo produtivo, tão importante para o designer na área de criação de produtos. Como pesquisadora, sustentei um olhar de observação, de incentivo à relação entre artesãos e designers; afinal, essas parcerias podem tecer ajudar na preservação do artesanato, dos tecidos manuais especificamente. Eu também, contaminada por essa pesquisa, conheci mais sobre os tecidos manuais, e soube que qualquer fase do processo de construção de um tecido manual pode ser interrompida pelo designer para inserção de outros materiais, transformando o tecido. Isso não acontece na indústria, onde a produção é em série. É importante citar o status de exclusividade que o produto artesanal oferece, uma vez que nenhum tecido sai totalmente igual a outro. Podemos observar isso nos pontos dos tecidos manuais, os quais, mesmo com modelos e cores idênticos, são únicos: um ponto fica mais apertado, outro mais solto; é muito difícil obter tecidos totalmente iguais no processo artesanal, até por essa particularidade ser sua característica. No entanto, mesmo com tantos benefícios no processo artesanal, a preservação desse saber é cheia de ambiguidades. Desde períodos de formação do nosso país, reinava o amor pelo ganho fácil, a população não se 105 preocupava com o trabalho e a instabilidade nas ocupações era frequente. Isso era patente no fim da era colonial, quando peças oferecidas nas tendas dos comerciantes eram incoerentes com o saber técnico dos profissionais. Eram raros os casos em que um saber percolava por mais de uma geração familiar. Esses foram alguns dos motivos pelos quais a construção de um verdadeiro artesanato no Brasil não conseguia uma longa prática. Problemas como a descaracterização dos produtos artesanais, a depreciação e a extinção de alguns saberes estão no centro da formação do Brasil, que, desde o começo, tinha os olhares voltados para a Europa. Uma multiplicidade de fatos e contradições envolveu o tempo, as relações humanas e a arte. E diante desses acontecimentos históricos, mesmo antes da revolução industrial, as questões capitalistas já portavam outras questões intrínsecas, enquanto as contradições já se manifestavam. Era como se o mundo fosse dissolvido em uma explosão de moléculas, desintegrando as relações humanas e as relações entre produtor e consumidor, lançando os produtos em um mercado anônimo – tudo movido por um jogo de interesses e contradições que desestabilizaram a história do artesanato. No entanto, mesmo cientes das ambiguidades e paradoxos envolvendo o artesanato, acreditamos que nele formaremos um conceito para o design brasileiro. É nessa relação que nós, designers pós-modernos, podemos articular projetos em conjunto com os artesãos, partindo de um sistema aberto e dinâmico que articule e respeite as habilidades do design com elementos econômicos, culturais e éticos de uma sociedade. A relação entre artesãos e designers é sempre promissora – apreciação da qual nem todos compartilham. Todavia, foi essa relação que incitou o desenvolvimento da presente pesquisa. Acreditamos ser essa relação que ajuda a promover a continuidade do artesanato. Porém, mais importante que a relação, é ver os profissionais compartilharem estudos sobre suas profissões e serem tratados com respeito neste país. Especialmente os artesãos, que deram sua contribuição a quase, ou talvez a todas as profissões, pois foi pela mão dos artesãos que surgiram as primeiras 106 lapidações de objetos capazes de satisfazer as necessidades sociais. 107 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARGAN, G. C. Arte Moderna. Trad. D.Carotti; D.Bottman. São Paulo: Companhia das Letras. 1992 ARC DESIGN. Anuário do Design Brasileiro: um panorama do design de produtos no Brasil. Ano 1. São Paulo: Roma, 2013. BONSIEPE, G. Design, Cultura e Sociedade. São Paulo: Blucher, 2011. BORGES, A. Designer não é Personal Trainer. 2.ed. São Paulo: Rosari, 2009. BOUCHER, F. História do Vestuário no Ocidente: das origens aos nossos dias. 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Entrevista concedida a esta pesquisadora em nova visita a seu atelier, na cidade de Carmo do Rio Claro, MG. 2 arq.vídeo (125 min) 30/01/2014 SANTUCI, J. A Linguagem das Mãos. Arc Design, n.9. São Paulo: Quadrifoglio, 1999. UDALE, J. Fundamentos de Design de Moda: tecidos e moda. Porto Alegre: Bookman, 2009. WAGNER, R. A Invenção da Cultura. Trad: M.C.Souza e A.Morales. São Paulo: Cosac Naify, 2012. WREN, D. A. Ideias de Administração: o pensamento clássico. São Paulo: Ática, 2007. 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Dimensão: Processo criativo Qual é a sua visão sobre processo criativo? / Como é feito o processo criativo da sua tecelagem (fotografar)?/ Como acontece sua inspiração? / Você faz coleções ou peças individuais? / A tecelagem manual busca tendências? / Tem temas por coleções? / Como escolhe os materiais? / E as cores? / Você faz os desenhos croquis ilustrativos? / Tem desenhos técnicos? / Amostras têxteis? Como é seu processo de converter uma peça única em seriada, pensando no trabalho exclusivo e individualizado das tecelãs? Dimensão: Processo Produtivo Existe modelagem na tecelagem manual? / E pilotagem? / Como são separados os materiais a ser utilizados na peça? / Como é feito o cálculo da quantidade de materiais que vai ser utilizada em determinado produto? Dimensão: Passos até o produto final: Como é feita a montagem dos fios no tear? Qual influência pode ter a pessoa que monta sobre o resultado do produto? / Na moda, o código Pantone uniformiza a comunicação em todos os estados. Especificamente na tecelagem existe algum código comunicativo a todos os tecelões? / Como se prendem os fios no tear? Qual influência tem o tecelão nesta etapa? / Como se faz o cálculo entre os espaços da trama? / Como é feito o manuseio das lançadeiras? Qual influência ela tem no resultado estético do produto? / Como são utilizados os pedais? Qual influência ele tem no resultado do produto? / Como é utilizado o pente? Qual influência ele tem no resultado do produto? / Como são utilizados os freios? Qual é sua influência no resultado do produto? / Quais os erros mais comuns na composição final do tecido? Qual a influência do tecelão no resultado final do produto? / Existe um ritmo adequado para tecer ou isso é indiferente para o resultado final do produto? / Existe algum arremate manual a ser feito quando se termina de tecer? / Quais os passos até o produto final? / Um tecelão que não é do Carmo do Rio Claro vai fazer um produto diferente? / Qual a diferença entre a tecelagem produzida por uma mulher e por um homem? 112 Apêndice 02 – Questionário on-line com respostas do Sr. Thiago Tomaz, Superintendente de Artesanato da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais Sobre o Artesanato e suas potencialidades: 1 - Dentre as atividades econômicas (comércio, indústria, serviços, agropecuária etc.) qual a posição do artesanato com relação à geração de renda, emprego, impacto cultural? Podemos falar que o artesanato tem três pilares de atuação e conceitos na sociedade brasileira, sendo artesanato como inserção social, artesanato como identidade cultural e artesanato como gerador de rendas. E na consolidação destes pilares, temos o artesanato como uma atividade de grande relevância para a economia e a cultura brasileira onde, de um ano para cá, tanto a sociedade pública quanto a privada enxergam a atividade artesanal com mais respeito e dignidade. 2 - É possível promover cultura a partir do artesanato? Como? Com certeza. O artesanato, antes mesmo de ser alavancador da economia como geração de rendas, ele é identidade, manifestação e diversidade cultural dos grupos formadores da sociedade brasileira. Segundo o professor Saul Martins, “Nada é mais folclórico e cultura regional do que o artesanato”. 3 - Em caso afirmativo, existe política cultural no Governo de Minas? Especificamente para promoção cultural estadual, temos a política, temos a Lei de Incentivo à Cultura e Fundo Estadual de Cultura. Ambos são ações da Secretaria de Estado de Cultura e contemplam projetos inscritos em edital anual. E a outra divulgação da cultura através do artesanato e da arte popular é o Centro de Arte Popular – CEMIG. Equipamento museológico que compõe o Circuito Cultural Praça da Liberdade e consiste em um acervo de aproximadamente 800 peças que representam a cultura popular mineira através da arte popular do artesanato nas mais diversas formas, desde esculturas até desenhos e pinturas. 4 - Qual a legislação existente ou em projeto para reconhecimento do trabalho do artesão? Quais aspectos contempla ou contemplará? No Brasil ainda não existe uma legislação específica para a atividade artesanal, mas já temos Portarias publicadas pelo Programa do Artesanato Brasileiro, que hoje 113 integra a Secretaria da Micro e Pequena Empresa da Presidência da República. Essas Portarias (em anexo) são o princípio e bem evoluído para regulamentação da política pública federal para os artesãos brasileiros. Já temos, pelo PAB, o Sistema de Cadastramento do Artesão Brasileiro – SICAB que, em Minas Gerais, é gerido pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico – com o intuito de cadastrar todos os Artesãos Mineiros dentro dos critérios do SICAB (que são rigorosos), para este ano começar a emitir a Carteira do Artesão e Trabalhador Manual. Sobre a relação do artesanato e a produção industrial: 1 - A relação de quantidade para atender a demanda exige da indústria agilidade e, na maioria das vezes, a estratégia a ser seguida é a de custos baixos de produção com uma produção em série, organizada em célula ou linha. Como o senhor enxerga a relação da produção artesanal, que tem em sua essência a diferenciação, ou seja, produtos trabalhados manualmente pelo artesão? Primeiramente, a produção em grande escala já descaracteriza o ofício artesanal. Temos como um grande problema o mercado asiático de mão de obra escrava, com uma produção sem o mínimo controle de qualidade, que, mesmo assim, tem afetado profundamente o artesão brasileiro. Aí entra o papel do poder público, ONGs e iniciativa privada, que divulgam e difundem a cultura artesanal, dando o devido valor cultural e até mesmo o valor comercial, considerando todo o processo de transformação da cadeia produtiva até chegar ao produto artesanal final. 2 - O Município do Carmo do Rio Claro é conhecido por seus teares. A inserção dos teares eletromecânicos pode ser considerada o fim dos teares manuais? É visível a diferença entre os produtos do tear eletromecânicos e do manual. Com isso acredito muito no resgate e na identidade cultural, onde as pessoas valorizam as técnicas tradicionais do artesanato, dando preferência a esses produtos. 3 - Em sua opinião, qual a principal dificuldade na manutenção da atividade artesã nas tecelagens do Carmo do Rio Claro? Quais as possibilidades de superação? Não só os artesãos do Município do Carmo do Rio Claro, mas grande parte dos artesãos brasileiros tem dificuldades em escoar sua produção, e mais uma vez entra a função do poder público em subsidiar novos canais de comercialização. O Governo de Minas, através da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, tem dado esse apoio aos artesãos do Carmo do Rio Claro. Não podemos deixar de salientar o 114 importante apoio da Prefeitura Municipal, onde prefeito e assessores apoiam e são sensíveis a todas as ações de fomento e promoção do artesanato neste município. 115 ANEXO 1: PORTARIAS DO ARTESANATO BRASILEIRO BASE CONCEITUAL DO ARTESANATO BRASILEIRO CAPÍTULO I - DA FINALIDADE Art. 1º A conceituação constante neste documento foi formulada para subsidiar o Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro - SICAB, desenvolvido pelo Programa do Artesanato Brasileiro do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior - PAB/MDIC com o objetivo de coletar informações sobre o setor artesanal e viabilizar o cadastro nacional integrado dos artesãos. § 1º Os conceitos, bem como as informações geradas pelo SICAB, contribuirão para definição de políticas públicas e o planejamento de ações de fomento para o setor. § 2º Este é um trabalho realizado pelo MDIC em parceria com as Coordenações Estaduais do Artesanato, iniciado em 2006, no intuito de definir uma base conceitual que padroniza e estabelece parâmetros de atuação do Programa do Artesanato Brasileiro em todo o território nacional. Além das formulações elaboradas nas reuniões com os coordenadores estaduais, a equipe da Coordenação-Geral do Programa do Artesanato Brasileiro compilou as contribuições encaminhadas pelos Estados, com vistas à complementação dos conceitos utilizados no Sistema. § 3º Novos termos estão sendo identificados nos processos de coleta de dados dos artesãos para cadastramento no SICAB, sendo formulados os conceitos para inclusão neste glossário. § 4º A presente conceituação está organizada em unidades, em conformidade com as tabelas de apoio do SICAB. CAPÍTULO II - DOS CONCEITOS BÁSICOS DO ARTESANATO Art. 2º ARTESÃO - É o trabalhador que de forma individual exerce um ofício manual, transformando a matéria-prima bruta ou manufaturada em produto acabado. Tem o domínio técnico sobre materiais, ferramentas e processos de produção artesanal na sua especialidade, criando ou produzindo trabalhos que tenham dimensão cultural, utilizando técnica predominantemente manual, podendo contar com o auxílio de equipamentos, desde que não sejam automáticos ou duplicadores de peças. 116 § 1º Não é ARTESÃO aquele que: I - Trabalha de forma industrial, com o predomínio da máquina e da divisão do trabalho, do trabalho assalariado e da produção em série industrial; II - Somente realiza um trabalho manual, sem transformação da matéria-prima e fundamentalmente sem desenho próprio, sem qualidade na produção e no acabamento; III - Realiza somente uma parte do processo da produção, desconhecendo o restante. Art. 3º MESTRE ARTESÃO - Indivíduo que se notabilizou em seu ofício, legitimado pela comunidade que representa e/ou reconhecido pela academia, destacando-se através do repasse de conhecimentos fundamentais da sua atividade para novas gerações. Art. 4º ARTESANATO - Artesanato compreende toda a produção resultante da transformação de matérias-primas, com predominância manual, por indivíduo que detenha o domínio integral de uma ou mais técnicas, aliando criatividade, habilidade e valor cultural (possui valor simbólico e identidade cultural), podendo no processo de sua atividade ocorrer o auxílio limitado de máquinas, ferramentas, artefatos e utensílios. § 1º Não é ARTESANATO: I - Trabalho realizado a partir de simples montagem, com peças industrializadas e/ou produzidas por outras pessoas; II - Lapidação de pedras preciosas; III - Fabricação de sabonetes, perfumarias e sais de banho, com exceção daqueles produzidos com essências extraídas de folhas, flores, raízes, frutos e flora nacional. IV - Habilidades aprendidas através de revistas, livros, programas de TV, dentre outros, sem identidade cultural. § 2º No Artesanato, mesmo que as obras sejam criadas com instrumentos e máquinas, a destreza manual do homem é que dará ao objeto uma característica própria e criativa, refletindo a personalidade do artesão e a relação deste, com o contexto sociocultural do qual emerge. Art. 5º ARTE POPULAR - Conjunto de atividades poéticas, musicais, plásticas, dentre outras expressivas que configuram o modo de ser e de viver do povo de um lugar. A arte popular diferencia-se do artesanato a partir do propósito de ambas as atividades. Enquanto o artista popular tem profundo compromisso com a originalidade, para o artesão essa é uma situação meramente eventual. O artista necessita dominar a matéria-prima como o faz o 117 artesão, mas está livre da ação repetitiva frente a um modelo ou protótipo escolhido, partindo sempre para fazer algo que seja de sua própria criação. Já o artesão quando encontra e elege um modelo que o satisfaz quanto à solução e forma, inicia um processo de reprodução a partir da matriz original, obedecendo a um padrão de trabalho que é a afirmação de sua capacidade de expressão. A obra de arte é peça única que pode, em algumas situações, ser tomada como referência e ser reproduzida como artesanato. § 1º Características do Artista e da Arte Popular: I - Pertence ao povo; II - Revela a identidade cultural regional; III - Personifica a peça; IV - Produz obras assinadas; V - Busca a realidade; VI - Traduz o belo; VII - Sozinho realiza a peça; VIII - Apresenta elementos estéticos; IX - Possui maior valor econômico que as peças artesanais; X - Expressa emoção do momento da criação; XI - Revela expansão cultural de um povo; XII - Possui um espaço determinado nas galerias, exposições e eventos; XIII - É auxiliada pelo folclore e pela globalização; XVI - É feita por qualquer pessoa, independente do seu nível econômico ou social; e XV - Requer um olhar diferente para ser entendida. Art. 6º TRABALHOS MANUAIS - Apesar de exigir destreza e habilidade, a matériaprima não passa por transformação. Em geral são utilizados moldes pré-definidos e materiais industrializados. As técnicas são aprendidas em cursos rápidos oferecidos por entidades assistenciais ou fabricantes de linhas, tintas e insumos. § 1º Normalmente é uma ocupação secundária, realizada no intervalo das tarefas domésticas ou como passatempo. Em alguns casos, configura-se como produção terceirizada de grandes comerciantes de peças acabadas que utilizam aplicações de rendas e bordados como elemento de diferenciação comercial. São produtos sem identidade cultural e de baixo valor agregado. 118 § 2º Características dos Trabalhos Manuais: I - Segue moldes e padrões pré-definidos difundidos por matrizes comercializadas e publicações dedicadas exclusivamente a trabalhos manuais; II - Apresenta uma produção assistemática e não prescinde de um processo criativo e efetivo; III - Utiliza matérias e técnicas de domínio público; IV - Produtos baseados em cópias, sem valor cultural que identifique sua região de origem ou o artesão que o produziu; V - Normalmente utiliza matéria-prima industrializada ou semi-industrializada; e IV - Recebe influência global. Art. 7º PRODUTOS TÍPICOS – Considera-se produto, o objeto resultante da atividade ou de trabalhos manuais, respeitando os conceitos referenciados no início deste documento. § 1º São produzidos a partir de matéria-prima regional e em pequena escala. Compreendem: alimentos processados por métodos tradicionais; artigos de perfumaria; cosméticos; e aromáticos. Utilizam embalagens, rótulos e etiquetas artesanais. Devem revelar identidade cultural e observar a legislação vigente que regulamenta a comercialização. § 2º Produtos semi-industriais – Embora tenham uma aparência similar aos produtos artesanais, são produzidos em pequenas fábricas. A característica predominante é o baixo custo de produção, de venda, e saturação do mercado. Normalmente são lembranças, recordações de viagem ou souvenir destinado aos turistas. CAPÍTULO III – DAS FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DO ARTESANATO/ARTESÃOS Art. 8º Núcleo de Artesãos – É um agrupamento de artesãos, com poucos integrantes, organizado formalmente ou não, com objetivo comum de desenvolver e aprimorar temas pertinentes ao artesanato. São atividades do núcleo, entre outras: o manejo, a produção, a divulgação, a comercialização e o ensino. § 1º O Núcleo de Artesãos pode ser classificados em: I - Grupos de produção artesanal - organização informal de artesãos atuando no mesmo segmento artesanal (até duas tipologias); II - Núcleos de produção familiar - A força de trabalho é constituída por membros de uma mesma família, alguns com dedicação integral e outros com dedicação parcial ou esporádica, podendo ser formais ou informais; e 119 III - Núcleos mistos - artesãos que trabalham com diferentes matérias-primas e técnicas de produção, que se unem formalmente ou informalmente, para integrar os processos de desenvolvimento de produtos, buscarem benefícios comuns e estabelecer estratégias conjuntas de promoção e comercialização. Art. 9º Associação - instituição de direito privado, sem fins lucrativos, constituída com o objetivo de defender e zelar pelos interesses de seus associados. Regida por estatuto social, com uma diretoria eleita em assembleia para períodos regulares. A quantidade de sócios é ilimitada. Art. 10. Cooperativa - entidade e/ou instituição autônoma de pessoas que se unem, voluntariamente, com número variável de pessoas, não inferior a 20 participantes, para satisfazer aspirações e necessidades econômicas, sociais e culturais comuns, por meio de uma empresa de propriedade coletiva e democraticamente gerida (CLT). O objetivo essencial de uma cooperativa na área do artesanato é a busca de uma maior eficiência na produção com ganho de qualidade e de competitividade em virtude do ganho de escala, pela otimização e redução de custos na aquisição de matériaprima, no beneficiamento, no transporte, na distribuição e venda dos produtos. Art. 11. Sindicatos - pessoas jurídicas de direito privado que têm base territorial de atuação e são reconhecidas por lei como representantes de categorias de trabalhadores ou econômicas (empregadores). A representação sindical constitui um direito fundamental dos trabalhadores e empregadores nos termos do artigo 8º da Constituição Federal de 1988. Art. 12. Federação - organização que congrega outras associações representativas de atividades idênticas, similares ou conexas, podendo ter base regional ou estadual. Art. 13. Confederação - coligação de federações para um fim comum. CAPÍTULO IV - DAS TIPOLOGIAS DO ARTESANATO Art. 14. Denominação dada ao segmento da produção artesanal, que determina a classificação por gênero, utilizando como referência a matéria-prima predominante, bem como sua funcionalidade. Art. 15. Os materiais recicláveis não constituirão uma tipologia específica, dada a sua diversidade e possibilidade de enquadramento em outras tipologias. § 1º MATÉRIA-PRIMA NATURAL DE ORIGEM ANIMAL, VEGETAL E MINERAL I - AREIA COLORIDA - Técnica de composição de imagens com areia colorida em recipientes transparentes. Em geral são usados sedimentos com pigmento natural ou artificial. 120 II - BORRACHA - Esta tipologia abrange a produção artesanal que utiliza as borrachas naturais, que é o produto sólido obtido pela coagulação de látices de determinados vegetais, sendo o principal a Hevea Brasiliensis. A borracha é um produto natural procedente do látex, de acidez neutra, com grande elasticidade, inodoro e sem resíduo. Ela sofre uma série de preparos para adquirir os requisitos da elasticidade, dureza, resistência etc., o que fazem dela um dos produtos de consumo mais necessários no mundo moderno. No artesanato são considerados os objetos confeccionados a partir da utilização da borracha processada naturalmente. III - CERAS, MASSAS, GESSO E PARAFINA - Nesta tipologia enquadram-se a confecção de objetos a partir de técnicas de modelagem de ceras, massas, gesso e parafina. a. As ceras são matérias-primas maleáveis produzidas tanto por animais, como extraídas de vegetais. Como por exemplo, a cera de abelha, muito utilizada na modelagem de miniaturas de figuras humanas, animais e réplicas de casas. b. A parafina é derivada do petróleo, matéria-prima essencial na fabricação de velas, por sua propriedade combustível. Outras aplicações comuns à parafina incluem: cosméticos, giz de cera, tintas, pinturas, entre outros. c. O gesso é uma substância produzida a partir do mineral gipsita, composto basicamente de sulfato de cálcio hidratado. Normalmente é encontrado na forma de pó branco que, misturado à água, endurece rapidamente, adquirindo forma definitiva de oito a doze minutos. d. As massas são resultantes de misturas de materiais, caracterizadas pela sua consistência pastosa e maleável. Entre as mais usadas na produção artesanal estão: a massa de porcelana fria ou biscuit e as argamassas, que tem como componentes básicos cimento, areia e água. IV - CHIFRES E OSSOS, DENTES E CASCOS - Nesta tipologia são enquadrados os artefatos em que predomina a utilização de chifres, cascos, dentes e ossos como matérias- primas desde que não sejam de espécies constantes na lista oficial da fauna brasileira ameaçada de extinção, e dos anexos I e II do Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES) e órgão ambiental do Estado. V - CONCHAS E ESCAMAS DE PEIXES - Tipologia caracterizada pela utilização dos diversos tipos de conchas e escamas de peixes. São matérias-primas obtidas de animais aquáticos. 121 VI - COURO, PELES, PENAS, CASCAS DE OVOS E CRINA DE CAVALO Compreendem os artigos trabalhados com couro, que é a pele curtida de animais, peles, penas, cascas de ovos e crina de cavalo, utilizados como materiais para a confecção de diversos artefatos para o uso humano, destacando-se os objetos de uso pessoal, utilitários, artigos para decoração e instrumentos musicais. VII - FIBRAS VEGETAIS - Fibra é a denominação genérica de qualquer estrutura filamentosa, geralmente sob forma de feixe, encontrada nos tecidos animais e vegetais ou em algumas substâncias minerais. São matérias-primas moles e flexíveis e que, trançadas, possuem diversos usos, principalmente na manufatura de cestarias e móveis. a. Qualquer produto artesanal que contenha matéria-prima da fauna e da flora silvestre deve conter a informação quanto a sua origem e registro junto ao IBAMA. Todos os produtos de ordem natural devem conter a informação quanto a sua ordem e registro junto ao IBAMA. VIII - FIOS E TECIDOS - Apesar dos fios e tecidos serem produzidos a partir de fibras têxteis, constituirão uma tipologia específica devido à diversidade de produtos confeccionados e técnicas que os utilizam como material básico. a. Os fios e tecidos podem ser confeccionados com fibras: a.1 - Naturais - extraídas da natureza, livres de transformações químicas, e beneficiadas pelo homem. a.2 - De origem animal - seda, lã, peles e couro de animais. a.3 - De origem vegetal - algodão, linho, rami, cânhamo, juta, sisal, paineira, coco, entre outros. IX - MADEIRA - Nesta tipologia serão considerados os produtos confeccionados com madeira e seus derivados (MDF, aglomerados e compensados), compreendendo desde móveis e utilitários produzidos na marcenaria, objetos e adornos feitos com madeiras torneadas e outros decorrentes das diversas técnicas existentes para processamento da mesma, excetuando-se os papéis artesanais que constituem uma tipologia específica. X - METAIS - Entre os metais mais utilizados na produção artesanal encontram-se chapas de ferro galvanizado, folhas de zinco, folha de flandres, alumínio, estanho, bronze, cobre e prata. XI - PAPEL - Apesar de o papel ser um emaranhado de fibras vegetais, será considerado como tipologia específica, devido à multiplicidade do seu uso na 122 produção artesanal. a. Entende-se por trabalhos manuais, nesta tipologia, desde as folhas de papel reciclado e artesanal, bem como os objetos em que predomina o papel como matéria-prima, sejam papéis artesanais ou industrializados, em técnicas de montagem, colagem, dobraduras e modelagem de papel machê. XII - PEDRAS - Enquadra-se nesta tipologia todo objeto resultante de intervenções artesanais utilizando os mais diversos tipos de pedras existentes no Brasil. XIII - SEMENTES, CASCA, RAIZES, FLORES E FOLHAS SECAS - Nesta tipologia serão considerados os produtos confeccionados com produtos florestais nãomadeireiros: sementes, cascas, raízes, flores e folhas secas. XIV - VIDRO - O vidro é uma substância obtida através do resfriamento de uma massa líquida a base de sílica. Em sua forma pura, vidro é um óxido metálico super resfriado, transparente e de elevada dureza. Sua manipulação só é possível enquanto fundido (a 1550ºC), quente e maleável. a - No artesanato a produção predominante é resultante da reciclagem, em que o vidro é derretido a uma temperatura de 850ºC, possibilitando a produção de novos objetos e utensílios. Nos processos de reciclagem os cacos de vidro funcionam como matériaprima balanceada, pois economiza energia já que atinge o ponto de fusão em temperatura menor que a massa a base de sílica. § 2º MATÉRIA-PRIMA DE ORIGEM PROCESSADA - ARTESANAL, INDUSTRIAL E COM PROCESSOS MISTOS I - ARGILA (BARRO) - Enquadram-se nesta tipologia toda espécie de objeto produzido com argilas, decorados ou não. A argila é caracterizada pela textura terrosa, de granulação fina e que adquire plasticidade quando umedecida com água, rigidez após secagem, e dureza após a queima em temperaturas elevadas (cerâmica). São formadas essencialmente por silicatos hidratados de alumínio, ferro e magnésio. Dentre os diversos tipos de argila, as mais utilizadas no artesanato são: a. Argilas de bola (Ball Clay): Argilas muito plásticas, de cor azulada ou negra, apresenta alto grau de contração tanto na secagem quanto na queima. Sua grande plasticidade impede que seja trabalhada sozinha, fica pegajosa com a água. É adicionada em massas cerâmicas para proporcionar maior plasticidade e tenacidade à massa. Vitrifica aos 1300ºC. b. Grés: Argila de grão fino, plástica, sedimentária e refratária - que suporta altas temperaturas. Vitrificam entre 1250 - 1300ºC. Nelas o feldspato atua como material fundente. Após a queima sua coloração é variável, vai do vermelho escuro ao rosado e até mesmo acinzentado do claro ao escuro. Em sua composição não entram argilas 123 tão brancas ou puras como na porcelana o que apresenta possibilidades de coloração avermelhada, branca, cinza, preta, etc. Depois de queimadas são impermeáveis, vitrificadas e opacas. A temperatura de queima vai de 1150ºC a 1300ºC. c. Terracota ou argila vermelha: São plásticas com alto teor de ferro e resistem a temperaturas de até 1100ºC, porém fundem em uma temperatura maior e podem ser utilizadas com vidrados para grés. Quando queimada adquire coloração que vão do creme aos tons avermelhados, o que mostra o maior ou menor grau da percentagem de óxido de ferro. d. Massa para louça (faiança): A massa da louça é menos rica em caulim do que a porcelana, e é associada a argilas mais plásticas. São massas porosas, de coloração branca ou marfim, que requer e precisam de posterior vitrificação. e. Argila de Polímero: Material conhecido no Brasil como cerâmica plástica cuja característica especial é a plasticidade e fácil manuseio. f. Porcelana: Produto branco impermeável e translúcido. Ela se distingue de outros produtos cerâmicos, especialmente, da faiança e da louça, pela sua vitrificação, transparência, resistência, completa isenção de porosidade e sonoridade. II -FIOS E TECIDOS a. Químicos - Fios de tecidos químicos são produzidos a partir de transformações químicas de materiais e são divididos em artificiais e sintéticos. Artificiais - produzidas a partir da celulose, substância fibrosa encontrada na pasta de madeira ou no linter de algodão, daí serem também conhecidas por fibras celulósicas. As fibras artificiais mais conhecidas são viscose, o rayon, acetato e triacetato. b. Sintéticas - São fibras obtidas através de síntese química a partir do petróleo, sendo as mais usuais: poliéster (tergal), polipropileno, a poliamida (nylon), acrílica (dracon), elastano (lycra). Os fios podem ser linhas, cordões, cordas, meadas e tiras. São utilizados, entre outras técnicas, na tecelagem manual, nos bordados, na confecção de rendas, no crochê, no tricô e no macramé. Os tecidos podem ser artesanais e industriais. São empregados em diversas técnicas que utilizam a costura artesanal como técnica básica, na confecção de roupas e acessórios, no patchwork, como base para bordados, na confecção de bonecos, entre outros. III - MATERIAIS SINTÉTICOS - Sua origem é industrial e, geralmente são materiais de baixo preço, com larga distribuição em todo o território nacional, principalmente nos meios urbanos. As diferentes características dos materiais sintéticos são usadas para classificá-los: os deformáveis termicamente são chamados termoplásticos, os 124 resistentes ao calor são chamados termofixos e os materiais elásticos são chamados elastômeros. a. O fator preço, em alguns casos, tem servido para a substituição de matérias-primas naturais pelas sintéticas, mesmo na produção de artesanato tradicional. b. Nesta tipologia serão enquadrados os produtos em que predominam esses materiais. Entre os mais conhecidos estão diversos tipos de espumas, resinas, borrachas, isopor, plásticos, acrílico, fibras acrílicas, massa epóxi. § 3º PRODUTOS QUE EXIGEM CERTIFICAÇÃO DE USO I - ALIMENTOS E BEBIDAS - Esta tipologia compreende a produção de alimentos reconhecidos em seus Estados como típicos, produzidos em pequena escala, de forma artesanal, que utilizam matéria-prima regional e, preferencialmente, sem adição de essências e corantes artificiais. a. De acordo com o disposto na Lei nº 9.782, de 26 de janeiro de 1999, que define o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária, e cria a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), cabe à vigilância sanitária desenvolver um conjunto de ações relacionadas, entre outros, aos alimentos, bebidas, inclusive águas envasadas, insumos, embalagens, aditivos alimentares, limites de contaminantes orgânicos, resíduos de agrotóxicos e de medicamentos veterinários. b. Genericamente, pode-se definir alimento como toda substância utilizada pelo homem como fonte de matéria e energia para realizar suas funções vitais. Podendo ser incluídas substâncias não necessárias às funções biológicas, mas que fazem parte da cultura, como temperos, corantes, etc. A vigilância sanitária, adota o Decreto-Lei nº 986, de 21 de outubro de 1969, que institui normas básicas sobre alimentos, segundo o qual: "alimento é toda substância ou mistura de substâncias, no estado sólido, líquido, pastoso ou qualquer outra forma adequada, destinada a fornecer ao organismo humano os elementos normais à sua formação, manutenção e desenvolvimento". c. O controle sanitário de alimentos e bebidas é competência tanto do setor da saúde como do setor da agricultura, cabendo ao primeiro o controle sanitário e o registro dos produtos alimentícios industrializados, com exceção daqueles de origem animal, e o controle das águas de consumo humano. d. A cadeia de alimentos envolve uma série de etapas: produção, beneficiamento, armazenamento, transporte, industrialização, embalagem, fracionamento, reembalagem, rotulagem, distribuição, comercialização e consumo. Em alguns casos há, ainda, a etapa de registro. 125 e. Para os serviços de alimentação, o Regulamento Técnico sobre Boas Práticas para Serviços de Alimentação (Resolução RDC/Anvisa nº 216, de 15 de setembro de 2004), impõe exigências rígidas, visando garantir a boa prática de manipulação e prevenir a ocorrência de surtos. Os serviços que realizam algumas das seguintes atividades: manipulação, preparação, fracionamento, armazenamento, distribuição, transporte, exposição à venda e entrega de alimentos preparados ao consumo, tais como cantinas, bufês, confeitarias e cozinhas devem dispor de Manual de Boas Práticas e de Procedimentos Operacionais Padronizados e implantar o sistema de Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC). No Brasil, esse método passou a ser exigido, pela Portaria GM/MS n. 1.428/93, a todos os estabelecimentos que desenvolvam atividades relacionadas à alimentação. f. No caso dos produtos de origem animal, a responsabilidade pelas ações de controle sanitário, da produção à distribuição, cabe ao Ministério da Agricultura. Fica a cargo da vigilância sanitária, o controle no comércio atacadista e varejista. Esta divisão de competências encontra-se reafirmada na Lei nº 7.889/89. Quanto ao controle de bebidas, tem sido tradicionalmente de competência do Ministério da Agricultura, embora o atual ordenamento jurídico atribua ao SUS o controle sanitário, tanto dos alimentos, quanto das bebidas, criando conflitos de competência. g. Os serviços de vigilância sanitária também lidam com o mercado informal de alimentos, considerando que esta tem sido uma das estratégias de sobrevivência cada vez mais adotada pela população que não consegue se inserir no mercado formal de trabalho. Este é um dos problemas que merece ação intersetorial, capitaneada pelos estados na busca de soluções viáveis, que minimizem os riscos à saúde e promovam a inserção das pessoas e dos produtos no mercado formal, e a consequente ativação da economia. h. Estados e municípios podem complementar as normas que são emanadas pelo órgão federal, em função de suas especificidades. Programas de monitoramento da qualidade de produtos ou de melhoria dos serviços/ condições de produção, bem como a adesão às boas práticas de fabricação e manipulação devem ser implementados pelos estados, em cooperação com os municípios, e com participação efetiva dos Laboratórios de Saúde Pública. i. Para efetuar o cadastro de artesãos nessa tipologia, deve-se consultar a legislação que regulamenta o setor de alimentação, disponível no sítio www.anvisa.gov.br, especialmente a Resolução nº 23, de 15 de março de 2000, que Dispõe sobre "O Manual de Procedimentos Básicos para Registro e Dispensa da Obrigatoriedade de Registro de Produtos Pertinentes à Área de Alimentos". 126 j. Instrução Normativa nº 55 de 30/10/2008 - MAPA - Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (D.O.U. 31/10/2008), regulamentos técnicos para a fixação dos padrões de identidade e qualidade para as bebidas alcoólicas. l. Aprovar os regulamentos técnicos para a fixação dos padrões de identidade e qualidade para as bebidas alcoólicas por mistura: licor, bebida alcoólica mista, batida, caipirinha, bebida alcoólica composta, aperitivo e aguardente composta. II - AROMATIZANTES DE AMBIENTES E COSMÉTICOS - Trabalhos que envolvem a produção artesanal de aromatizantes (odorizantes) de ambientes e cosméticos, produzidos com essências aromáticas próprias para perfumar o corpo ou o ambiente. As essências são extraídas de flores, folhas, raízes, frutos obtendo-se variedades de fragrâncias e cores. a. O Decreto 79.094/77, que regulamenta a Lei nº 6.360, de 23 de setembro de 1976, submete ao sistema de vigilância sanitária, os medicamentos, insumos farmacêuticos, drogas, correlatos, cosméticos, produtos de higiene, saneantes e outros. O artigo 14 reza: "Nenhum dos produtos submetidos ao regime de vigilância sanitária de que trata este regulamento, poderá ser industrializado, exposto à venda ou entregue ao consumo, antes de registrado no órgão de vigilância sanitária competente do Ministério da Saúde". b. Conforme o Regulamento citado acima, poderão ser considerados produtos artesanais para fins de cadastro no SICAB: i) Produto de higiene; ii) Perfume; e iii) Cosmético. c. Esses produtos deverão ser regularizados de acordo com a legislação disponível na página www.anvisa.gov.br. Destaca-se que o registro de produtos na Anvisa, só pode ser efetuado por empresa que tenha obtido a sua AFE - Autorização de Funcionamento de Empresa. Este procedimento inicia-se localmente, na Vigilância Sanitária Estadual/ Municipal, portanto, a própria fiscalização é que deverá orientar sobre os primeiros passos para obtenção do Alvará/Licença de Funcionamento. III - BRINQUEDOS - Os produtos destinados ao público infantil devem observar a norma de certificação de brinquedos no Brasil, visto seu caráter compulsório (obrigatório), conforme norma brasileira NBR 11786 - Segurança do brinquedo, publicada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e regulamentada pela Portaria Inmetro nº 177, de 30 de novembro de 1998. Portanto, os brinquedos e jogos educativos artesanais, para serem disponibilizados no mercado, devem obter a certificação. CAPÍTULO V - DA CLASSIFICAÇÃO DO ARTESANATO 127 Art. 16. A classificação do produto artesanal está definida conforme a origem, natureza de criação e de produção do artesanato e expressa os valores decorrentes dos modos de produção, das peculiaridades de quem produz e do que o produto potencialmente representa. A classificação do artesanato também determina os valores históricos e culturais do artesanato no tempo e no espaço onde é produzido. § 1º ARTESANATO INDÍGENA - Resultado do trabalho produzido no seio de comunidades e etnias indígenas, onde se identifica o valor de uso, a relação social e cultural da comunidade. Os produtos, em sua maioria, são resultantes de trabalhos coletivos, incorporados ao cotidiano da vida tribal. § 2º ARTESANATOS DE RECICLAGEM - É o resultado do trabalho produzido a partir da utilização de matéria-prima que é reutilizada. A produção do artesanato de reciclagem contribui para a diminuição da extração de recursos naturais, além de desenvolver a conscientização dos cidadãos a respeito do destino de materiais que se destinariam ao lixo. § 3º ARTESANATO TRADICIONAL - Conjunto de artefatos mais expressivos da cultura de um determinado grupo, representativo de suas tradições e incorporados à vida cotidiana, sendo parte integrante e indissociável dos seus usos e costumes. A produção, geralmente de origem familiar ou comunitária, possibilita e favorece a transferência de conhecimentos de técnicas, processos e desenhos originais. Sua importância e valor cultural decorrem do fato de preservar a memória cultural de uma comunidade, transmitida de geração em geração. § 4º ARTESANATO DE REFERÊNCIA CULTURAL - Sua principal característica é o resgate ou releitura de elementos culturais tradicionais da região onde é produzido. Os produtos, em geral, são resultantes de uma intervenção planejada com o objetivo de diversificar os produtos, dinamizar a produção, agregar valor e otimizar custos, preservando os traços culturais com o objetivo de adaptá-lo às exigências do mercado e necessidades do comprador. Os produtos são concebidos a partir de estudos de tendências e de demandas de mercado, revelando-se como um dos mais competitivos do artesanato brasileiro e favorecendo a ampliação da atividade. § 5º ARTESANATO CONTEMPORÂNEO-CONCEITUAL - Objetos resultantes de um projeto deliberado de afirmação de um estilo de vida ou afinidade cultural. A inovação é o elemento principal que distingue este artesanato das demais classificações. Nesta classificação existe uma afirmação sobre estilos de vida e valores. CAPÍTULO VI - DA FUNCIONALIDADE DO ARTESANATO 128 Art. 17. A funcionalidade é definida a partir dos elementos distintivos que qualificam os produtos de acordo com seu uso e destino. § 1º ADORNOS E/OU ACESSÓRIOS ADEREÇOS - Objetos que visam complementar a harmonia do conjunto, tanto no vestuário feminino quanto no masculino. No artesanato normalmente estão inseridos no contexto da moda, compreendendo as joias, bijuterias, cintos, bolsas, fitas, entre outros. § 2º DECORATIVO - A principal característica do objeto decorativo é ornamentar ambientes, dispondo formas e cores. § 3º EDUCATIVO - Objetos, geralmente em forma de jogos, que propõem metodologias inovadoras, em contextos de ensino aprendizagem de abordagem interacionista, e que visam atuar na capacidade do usuário de se modificar, de aprender novas habilidades e assimilar novos conhecimentos. § 4º LÚDICO - Objetos produzidos para o entretenimento e representação do imaginário popular, que tem por finalidade facilitar e tornar aprendizagem prazerosa, além de desenvolver a capacidade criadora e cognitiva. Normalmente se apresentam em forma de jogos, bonecos, máscaras, berimbaus, instrumentos de percussão e brinquedos. § 5º RELIGIOSO/MÍSTICO - Peças que buscam traduzir uma crença ou um conjunto de crenças relacionadas aos cultos e folclore e com aquilo que o artesão considera como sobrenatural, divino e sagrado. Exemplos: amuletos, imagens, altares, oratórios, mandalas, entre outros. § 6º UTILITÁRIO - Peças produzidas para satisfazer as necessidades dos seres humanos sejam no trabalho ou na atividade doméstica. Peças cujo valor é determinado pela importância funcional e não por seu valor simbólico. § 7º PROFANO - Objetos artesanais e/ou de arte popular, que retratam cenas do cotidiano do homem ou animal voltado para sexualidade. § 8º LEMBRANÇAS/SOUVENIR - Objetos representativos de uma região ou evento, adquiridos ou distribuídos com a finalidade de preservar, resgatar memórias e presentear. A aquisição ou distribuição de lembranças/souvenir é prática comum em várias culturas. Sua confecção e comercialização constituem atividade econômica com interface nos setores turístico e de serviços, principalmente os relativos à promoção de eventos. CAPÍTULO VII - DO PRODUTO ARTESANAL 129 Art. 18. Considera-se produto artesanal, o objeto resultante da atividade artesanal ou de trabalhos manuais, respeitando os conceitos referenciados no início deste documento. CAPÍTULO VIII - DA TÉCNICA DE PRODUÇÃO ARTESANAL Art. 19. Considera-se técnica de produção o conjunto ordenado de condutas, habilidades e procedimentos, combinado aos meios de produção (máquinas, ferramentas, instalações físicas, fontes de energia e meios de transporte) e materiais, através do qual é possível obter, voluntariamente, um determinado produto. A técnica artesanal alia forma e função, requerendo destreza manual no emprego das matérias primas, no uso de ferramentas, conforme saberes variados e uso limitado de equipamentos automáticos. CAPÍTULO IX - DA MATÉRIA-PRIMA Art. 20. No artesanato, considera-se matéria-prima toda substância principal, de origem vegetal, animal ou mineral, utilizada na produção artesanal, que sofre tratamento e/ou transformação de natureza física ou química, resultando em bem de consumo. Ela pode ser utilizada em estado natural, depois de processadas artesanalmente/ industrialmente ou serem decorrentes de processo de reciclagem/reutilização. SECRETARIA DE COMÉRCIO E SERVIÇOS MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA E COMÉRCIO EXTERIOR SCS/MDIC 130 ANEXO 2: PORTARIA Nº 26, DE 31 DE AGOSTO DE 2011 Torna pública o rol das técnicas de produção artesanal. O SECRETÁRIO DE COMÉRCIO E SERVIÇOS do MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA E COMÉRCIO EXTERIOR, no uso da atribuição que lhes foram conferidas no art. 23 do Anexo I do Decreto nº 7.096, de 04 de fevereiro de 2010, e tendo em vista o disposto no Decreto nº 1.508, de 31 de maio de 1995, resolve: Art. 1º Tornar pública, na forma de Anexo a esta Portaria, o rol das técnicas de produção artesanais para efeito do disposto no artigo 19 da Portaria nº 29, de 05 de outubro de 2010, da Secretaria de Comércio e Serviços, que torna pública a Base Conceitual do Artesanato Brasileiro. § 1º O rol das técnicas de produção artesanal de que trata o caput deste artigo passará a integrar a Base Conceitual do Artesanato Brasileiro. § 2º O rol das técnicas de produção artesanal servirá para o cadastramento no SICAB - Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro. Art. 2º Para efeito do disposto no caput desta Portaria considera- se técnica de produção artesanal o conjunto ordenado de condutas, habilidades e procedimentos, combinado aos meios de produção (máquinas, ferramentas, instalações físicas, fonte de energia e meio de transporte) e materiais, por meio do qual é possível obter, voluntariamente, um determinado produto. A técnica artesanal alia forma e função, requerendo destreza manual no emprego das matérias- primas e no uso de ferramentas, conforme saberes variados e com uso limitado de equipamentos automáticos. Art. 3º A alteração ou inclusão de qualquer uma das técnicas de produção artesanal poderá ser solicitada ao Programa do Artesanato Brasileiro, por meio da unidade estadual responsável pelo artesanato, com a devida justificativa, definição da técnica e do respectivo processo de produção. 131 Parágrafo único. Caso seja necessário alterar a técnica registrada no cadastro do artesão, esta poderá ser efetuadas imediatamente após a publicação deste instrumento ou por ocasião da renovação da Carteira do Artesão. Art. 4º A Coordenação Estadual do Artesanato, de que trata o Art. 1º da Portaria nº 118, de 21 de dezembro de 2001, fica responsável por informar sobre o conteúdo da base conceitual do artesanato brasileiro aos técnicos que realizam a comprovação do domínio dos saberes e técnicas inerentes ao exercício da atividade artesanal, bem como aos responsáveis pela inserção dos dados cadastrais do artesão no SICAB. Art. 5º Esta Portaria entra em vigor a partir da data de sua publicação. HUMBERTO LUIZ RIBEIRO ANEXO – Portaria nº 26 TÉCNICAS DE PRODUÇÃO ARTESANAL A técnica de produção artesanal consiste num conjunto ordenado de condutas, habilidades e procedimentos, combinado aos meios de produção (máquinas, ferramentas, instalações físicas, fontes de energia e meios de transporte) e materiais, por meio do qual é possível obter-se, voluntariamente, um determinado produto. A técnica artesanal alia forma e função, requerendo destreza manual no emprego das matérias-primas e no uso de ferramentas, conforme saberes variados e com uso limitado de equipamentos automáticos. DESCRIÇÃO DAS TÉCNICAS ARTESANAIS PARA O CADASTRO NO SICAB. 1. AMARRADINHO Consiste em amarrar pequenas tiras de tecidos ou fios sobre uma base de tecido com um nó. Conhecida também como pelego ou puxadinho que se obtém amarrando pedaços de tecidos em talagarças ou teares combinando cores ou formando desenhos 2. ARMARIA DECORATIVA Trata-se aqui, somente das peças decorativas: madeira e bronze. O artesanato da armaria restringe-se à produção das garruchas e pistolas de dois canos, ambos com 132 munição de espoleta. Para o fabrico destas peças, importa ressaltar a confecção das "culatras" que são peças de fundição com que se confeccionam os mecanismos de bronze - canos, gatilhos, etc. 3. BORDADOS Técnica executada sobre tecido ou outro suporte que permita a utilização de agulha e linha e bastidores, podendo ser trabalhada com as mãos ou feita em máquinas de pedal ou de motor elétrico 3.1 ABERTO Ponto de bordado em que se abrem orifícios arredondados arrematados com um ponto cerrado previamente demarcado com alinhavo. 3.2 APLICAÇÃO Bordado em que o ornato não é executado na trama do próprio tecido e sim com aplicação de materiais diversos, desde que atinja 60% do trabalho manual. Aplicação de pedrarias é considerada