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Distribuição dos incêndios florestais no concelho
de Oliveira do Hospital*
Introdução
Os incêndios florestais, como quaisquer outros fenómenos que se
desenrolem à superfície terrestre, são localizáveis.
A sua representação cartográfica, porque permite visualizar a respectiva
distribuição geográfica, pode ser um instrumento muito útil tanto na definição
das áreas ardidas como na prevenção desse mesmo fenómeno, podendo ainda
contribuir para a identificação das eventuais causas e para a explicação do seu
maior ou menor desenvolvimento.
Para comprovar estes possíveis objectivos, cartográfamos, não só os grandes
incêndios florestais (ž 10 ha) ocorridos no concelho de Oliveira do Hospital
nos últimos anos, mas também representámos os fogos detectados nesse
concelho durante a época de 1989.
1. Características físicas
O concelho de Oliveira do Hospital, situado na extremidade oriental do
“Alto Distrito” de Coimbra, apresenta acentuados contrastes altitudinais e
morfológicos, particularmente entre os sectores setentrional e meridional, cuja
divisória coincide com a Estrada da Beira, EN 17.
* Floresta e Ambiente, Parede, 11, 1990, p. 40-2 (agora com a versão completa das figuras, algumas das
quais não foram publicadas).
Resumo da Conferência sobre “Impacte dos incêndios florestais nos ecossistemas do concelho de Oliveira
do Hospital”, proferida no dia 21 de Junho de 1990, na Escola Secundária de Oliveira do Hospital,
integrada na Semana Cultural. Desenhos de VICTOR HUGO FERNANDES.
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A Norte predominam as superfícies aplanadas da Plataforma inclinada da
Beira Alta, recortadas, aqui e além, pelo entalhe vigoroso da rede de drenagem
(Mondego e Seia), enquanto que a Sul, as formas de relevo se apresentam mais
movimentadas. Os vales profundos dos rios Alva e Alvôco aparecem separados
pela Lomba da Carvalha e, na parte mais meridional do concelho, ergue-se,
alterosa, a serra do Colcorinho, que culmina no Cabeço da Senhora das
Necessidades com 1242 metros de altitude (fig. 1).
Estas características morfológicas estabelecem localmente alguma
diferenciação climática, em particular ao nível da precipitação e da
temperatura do ar, que, contudo, não são suficientes para provocar uma grande
diversidade entre as espécies florestais.
Fig. 1 - Corte esquemático do concelho de Oliveira do Hospital.
1 - Áreas não queimadas e 2 - Áreas que foram queimadas.
Na actualidade predomina o pinheiro bravo (Pinus pinaster) a que, por vezes, nas
áreas mais planas, se associa o pinheiro manso (Pinus pinea), em povoamentos de
relativa importância. Recentemente, nas áreas queimadas situadas a sul do concelho,
foi introduzida a monocultura do eucalipto (Eucaliptus globulus). Nesta área ainda se
encontram localmente alguns povoamentos de medronheiros (Arbustus unedo), por
vezes arbóreos, chegam a alcançar 10 metros de altura, e também restos de soutos de
castanheiros (Castanea sativa), vestígios das espécies vegetais que, até meados deste
século, foram dominantes na região.
Desde então, devido ao progressivo abandono dos campos, a área com
aptidão florestal tem vindo a aumentar sem que, no entanto, a superfície
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florestal tenha crescido, antes pelo contrário, pois grande parte das manchas
florestais foram, entretanto, consumidas pelas chamas e, na realidade, o que
aumentou foi a área de incultos.
As condições morfoclimáticas deste concelho fazem dele uma área
dominantemente florestal apresentando uma taxa de arborização(1) de 54,2%
(QUADRO I).
QUADRO I - Ocupação do solo no concelho
Fonte: “Distribuição da Floresta em Portugal Continental. Áreas florestais por concelhos”. Estudos e Informação,
nº. 289, Direcção-Geral de Ordenamento e Gestão Florestal, Ministério da Agricultura e Pescas.
2. Análise estatística dos incêndios florestais
Apesar de um tanto irregular, a evolução do número de incêndios ocorridos
nos últimos anos neste concelho (fig. 2) mostra uma certa propensão para o
registo de uma média anual relativamente elevada, 84 fogos entre 1982 e 1989,
o que, em termos médios, traduz a ocorrência de um incêndio por dia, durante
a “época de fogos”, na floresta do concelho de Oliveira do Hospital.
1
Os valores referem-se a 1974, ano em que foram cartografadas as manchas florestais.
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Fig. 2 - Evolução anual do número de incêndios florestais ocorrido no concelho.
Fig. 3 - Evolução anual das áreas ardidas no concelho.
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No que respeita à área ardida anualmente, dispomos de informações mais
antigas que também apresentam um comportamento com altos e baixos. Os
anos com problemas mais graves foram, neste concelho, os de 1978, 1983 e 1987,
respectivamente com 1110, 1207 e 1601 ha de floresta queimados (fig. 3).
Em termos médios, no período de 1975 a 1989, arderam anualmente 516
ha de floresta e mato no concelho, o que significa uma área ligeiramente
superior a 6 ha por fogo, ou seja, registaram-se muitos incêndios mas a sua
maior parte apresentou pequenas dimensões.
3. Distribuição espacial dos fogos
A apresentação cartográfica dos incêndios florestais ž 10 ha, ocorridos
depois de 1975 no concelho, denota a propensão de certas áreas para o registo
de sinistros com alguma gravidade.
Trata-se, naturalmente, dos locais onde o relevo se apresenta mais
movimentado, logo, onde os declives são mais acentuados e, por isso, onde
existe maior dificuldade de acesso o que dificulta não só o combate às chamas
mas também a própria limpeza das matas.
Verifica-se que existem duas áreas preferenciais para a ocorrência de grandes
incêndios florestais. Uma delas, situada na parte Norte do concelho, desenvolve-se
ao longo dos vales encaixados dos dois principais rios, o Mondego e o Seia.
A outra área, localiza-se a Sul do concelho e engloba tanto o vale do rio
Alva, de vertentes abruptas, como o conjunto montanhoso que lhe fica a Sul,
constituído pela Lomba da Carvalha, correspondente ao interflúvio
Alva/Alvôco, e pela serra do Colcorinho, situada na parte mais meridional do
concelho (figs. 1 e 4).
Deste modo, a repartição espacial das áreas ardidas no concelho de Oliveira
do Hospital, traduz bem o peso das características físicas, em particular do
relevo, que, directa ou indirectamente, são determinantes para a rápida
progressão dos fogos florestais, como se depreende do facto dos maiores
incêndios se terem verificado nas áreas mais montanhosas da serra do
Colcorinho.
Luciano Lourenço
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Rio M
Áreas Ardidas
o ndego
1976
Sem
1977
1978
1979
1980
1981
1982
1983
Seixo da Beira
1984
1985
o Seia
1986
i
R
1987
Sem
1988
1989
Ervedal
Legenda
- 1
Lagares da Beira
- 2
- 3
Meruge
- 4
Travanca de Lagos
- 5
- 6
Lagos da Beira
.1
7
Lajeosa
E. N
Bobadela
OLIVEIRA DO HOSPITAL
S. Paio de Gramaços
Nogueira do Cravo
Lourosa
Penalva de Alva
R io
va
Al
S. Gião
S. Sebastião da Feira
Santa Ovaia
Vila Pouca da Beira
Alvoco das Várzeas
o
Ri
c
Alvo o
Aldeia das Dez
Avô
Escala Gráfica
1000 m
0
1
2
3
4 Km
Fig. 4 - Distribuição espacial dos grandes incêndios florestais (ž 10 ha) registados no concelho.
1 - Sede de concelho; 2 - Sedes de freguesia; 3 - Estrada da Beira (EN 17); 4 - Rios;
5 - Limite do concelho; 6 - Limites das áreas ardidas
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Fig. 5 - Localização dos fogos ocorridos durante a “época de 1989”.
1 - Sede de concelho; 2 - Sedes de freguesia; 3 - Estrada da Beira (EN 17); 4 - Rios;
5 - Limite de concelho; 6 - Fogos florestais.
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4. Situação observada em 1989
A época de 1989 foi, de entre todas aquelas de que há registos, uma das
que, neste concelho, apresentou maior número de incêndios florestais, 129,
tendo sido apenas excedida em 1985, altura em que ocorreram 175 fogos,
embora todos eles fossem de pequenas proporções, pois a área ardida foi das
mais reduzidas.
A cartografia dos focos de incêndios verificados em 1989, mostrou a sua
concentração em certas áreas do concelho (fig. 5).
Este simples facto suscitou-nos algumas dúvidas quanto à origem dos fogos.
Efectivamente, o elevado número de incêndios florestais não poderá ser
atribuído apenas a causas fortuitas, tanto mais que a sua representação
cartográfica mostrou a concentração do fenómeno em determinados locais,
normalmente a menos de um quilómetro dos agregados populacionais. Por
isso, a distribuição espacial dos incêndios florestais, teoricamente aleatória,
acaba por ilustrar a concentração de focos em áreas específicas. Tal facto poderá
ajudar a reflectir sobre algumas das prováveis causas dos incêndios,
nomeadamente sobre as intencionais, pois a concentração dos fogos em
determinadas áreas atesta a sua indubitável origem humana, quer tenha sido
propositada ou não.
Conhecidos os locais de actuação preferencial dos descuidados ou dos
malfeitores, pela repartição de fogos em certos lugares, torna-se necessário
exercer particular vigilância nessas áreas, o que terá um efeito não só dissuador
mas também contribuirá para a identificação de alguns criminosos, além de
que pode auxiliar no combate aos fogos nascentes.
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Conclusões
A cartografia dos incêndios observados na floresta do concelho de Oliveira
do Hospital, durante o ano de 1989, mostrou uma certa concentração dos
incêndios florestais em determinadas áreas, próximas das povoações, o que
pode ajudar a identificar a sua origem.
No entanto, como apenas os grandes incêndios produzem efeitos
calamitosos é nestes que se deve concentrar particular atenção, no sentido de
tentar reduzir as causas que permitem o seu desenvolvimento, de molde a
poderem ser minorados se não mesmo debelados.
Como normalmente ocorrem em áreas de relevo movimentado é necessário
envidar todos os esforços para que os fogos nascentes nessas áreas acidentadas,
sejam sempre controlados rapidamente. Só assim será possível evitar que, todos
os anos, milhares de hectares de floresta continuem a ser incinerados.
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