O BESTIÁRIO RUPESTRE DO PARQUE NACIONAL SERRA DA CAPIVARA
Thalison dos SANTOS*
Jorlan da Silva OLIVEIRA**
Lucas Braga da SILVA***
Maxim Simões de Abreu JAFFE****
*Graduando em Arqueologia e Preservação Patrimonial pela Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF,
Técnico do laboratório de Geoprocessamento FUMDHAM/CNPq. [email protected]
**Técnico de Conservação em Arte Rupestre, FUMDHAM/CNPq. [email protected]
***Graduando em Arqueologia e Preservação Patrimonial pela Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF,
Técnico do laboratório de Geoprocessamento FUMDHAM/CNPq. [email protected]
****Graduado em Comportamento Animal, Ecologia e Conservação pela Anglia Ruskin University, Reino Unido
[email protected].
Resumo
O presente texto visa abordar as representações dos animais e as cenas de
caça da Arte Rupestre do Parque Nacional Serra da Capivara como uma
narrativa, nos moldes de um Bestiário. Assim, tenta definir a idéia de um
Bestiário Rupestre Pré-histórico e identifica nas pinturas os seus
componentes básicos, das narrativas identificáveis as narrativas heróicas ,
que terminam sendo manifestações características próprias dos diversos
grupos humanos.
Palavras-chave; Narrativa, Bestiário, Arte Rupestre, Parque Nacional Serra
da Capivara.
Thalison SANTOS, Jorlan OLIVEIRA, Lucas BRAGA & Maxim JAFFE
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Introdução
A arte rupestre tem sido o testemunho mais
fantástico das ações dos nossos antepassados
pré-históricos no mundo. E desde há muitos
anos tem sido estudada, pelos diversos
pesquisadores e especialistas, quando estes,
passaram a acreditar nas capacidades
cognitivas dos homens pré-históricos. Pode-se
destacar que para a arqueologia é indiscutível
o fato de que o estudo da arte rupestre é
extremamente importante para a nossa
sociedade, principalmente, pelo fato, de que
os vários estudos, que têm sido realizados
sobre arte rupestre pré-histórica, e que têm
contribuído parcialmente para a compreensão
do passado ainda se desenvolvem tendo como
base questionamentos de caráter global.
Afinal, por que os homens pré-históricos
pintavam? Que mensagens ou significados
poderiam estar registrados nos suportes
rochosos? Assim, compreender uma pequena
porção do passado pré-histórico, e tendo
como base questionamentos de caráter global,
e compreendendo o Bestiário, ou o livro das
Bestas, tão típico da Idade Média, como uma
manifestação do cognitivo simbólico humano,
é que se tem pretendido desenvolver este
artigo. Pretende-se uma nova forma de
abordar os estudos da Arte Rupestre que há
muito tem sido discutida no mundo dentro de
enfoques no âmbito de sistema de
comunicação,
como
estrutura
do
comportamento humano, xamanismo, mágica
de caça entre outras abordagens.
O Bestiário
Comummente os bestiários eram textos
descritivos de todos os seres reais ou
fantasiosos, alguns, às vezes possuíam
comentários moralizantes, ou também
humorísticos. De acordo com Angélica
Varandas (ano), o Bestiário é uma obra de
características únicas para a literatura da Idade
Média que apresentam aspectos que se
relacionam. São eles; a descrição de espécies
animais, que tenham existido realmente ou
não. A dependência destas descrições às
interpretações de nível simbólico e típico. E a
associação de iluminuras e ornamentação.
Ainda de acordo com Varandas (ano), os
13/ Animais na arte rupestre – Animals in the rock art
Bestiários se estabelecem acerca de pequenas
narrativas que se referem às espécies animais,
com propostas morais e didáticas. Assim, cada
narrativa se divide em dois componentes
distintos: um com caráter descritivo de
significado literal que Varandas se refere
como, a descrição, proprietas ou naturas. E
outro componente de caráter moralizante e
interpretativo teológico com significado
simbólico-alegórico, também designado por
Varandas como moralização, moralitas ou
figuras.
Particularizando o conceito de Bestiário para
ser aplicado à arqueologia, este poderia ser a
descrição narrativa de seres que existiram
realmente ou de seres fantasiosos ligados ao
imaginário e à religiosidade ou crenças dos
grupos pré-históricos. O termo Narrativa está
ligado ao ato de narrar, ou no âmbito da
literatura, pode ser um conto ou uma história.
Quando se utiliza a Narrativa como uma
forma de abordar o Bestiário, no caso, o
Bestiário Rupestre Pré-Histórico se busca dar
originalidade à ação humana, não mais que
legítima, só sendo possível abordar o Bestiário
associado ao homem que o criou. Entretanto,
surgem questionamentos sobre o que o
homem pré-histórico narrava, e até que ponto
se pode mensurar que se trata de aspirações
imaginárias ou reais. No caso do Bestiário
Rupestre Pré-Histórico, poderia ser a partir do
momento em que se observa a semelhança
das representações do passado com os seres
do presente e com a provisão do senso
comum.
Narrativas Identificadas no Bestiário
Rupestre do Parque Nacional Serra da
Capivara
De acordo com análises realizadas sobre a arte
rupestre do Parque Nacional Serra da
Capivara foi possível definir uma primeira
versão do Bestiário Rupestre Pré-Histórico e
como ele se comporta naturalmente,
estabelecendo as seguintes subdivisões:
Narrativas Não-Identificáveis, Narrativas
Identificáveis e as Narrativas Heróicas.
O BESTIARIO RUPESTRE DO PARQUE NACIONAL SERRA DA CAPIVARA.
Narrativas Não-Identificáveis
Define-se a partir das representações com
temáticas abstratas, mas que o senso comum
nos introjeta a sensação de que estas
representações possam ser de animais, porém
desconhecidos, ou que existiram somente no
imaginário ou nas crenças dos Homens préhistóricos, ou que existiram na época e
atualmente estão extintos e seus restos fósseis
não são ou ainda não foram identificados pela
ciência. Como no caso da Figura 1 (abaixo).
toca do Salitre e segundo Morales (2002), esta
pintura poderia representar uma pessoa
vestida de Tamanduá, para um ritual indígena
da tribo.
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Figura1- Toca do Pau Doía (Arquivo FUMDHAM).
Esta pintura é identificada no sítio
arqueológico Toca do Pau Dóia, e pelo senso
comum, apresenta semelhanças com uma
capivara, (observar a representação da face) e
com uma onça, (observar a representação das
patas e das manchas internas do corpo) sendo
chamada de capionça. Porém é a
representação de um animal que não se
assemelha com nenhuma espécie existente
atualmente na região, e não há registros
fósseis que permitam a reconstrução
morfológica desta espécie. Assim, poderíamos
propor a hipótese de que, de acordo com a
representação.
Outra representação deste ser, ele só deveria
existir no universo imaginário ou religioso do
homem pré-histórico. de caráter Não
Identificável é a Figura 2. Embora ela se
assemelhe mais com um antropomorfo com
alguma vestimenta, talvez ritual, ainda
permanece a dúvida quanto ao seu tipo
morfológico. Esta pintura está localizada na
Figura 2 – Toca do Salitre (Arquivo FUMDHAM).
Narrativas Identificáveis
Em seguida o Bestiário pré-histórico
proporciona representações de animais que
possuem traços que projetam sua aparência
morfológica parecida com a dos animais da
atualidade possibilitando, através do senso
comum uma correlação com espécies
existentes. Alguns dos animais identificados
são constantemente representados e outros
raramente. Como por exemplo, no caso dos
cervídeos que segundo Ignácio (2009), são os
mais representados na arte rupestre do Parque
Nacional Serra da Capivara. Na figura 3 podese observar a representação dos cervídeos da
Narrativa Identificável, eles se encontram nos
sítios arqueológicos Toca do Zé Paes, Toca
do Varedão X, Toca do Baixão da Roça do
Tintino I, Toca do Caldeirão dos Canoas IV e
Toca do Morcego (seguindo a ordem da
esquerda para a direita).
Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL
Thalison SANTOS, Jorlan OLIVEIRA, Lucas BRAGA & Maxim JAFFE
Figura 3 - Toca do Zé Paes, Toca do Varedão X, Toca
do Baixão da Roça do Tintino I, Toca do Caldeirão dos
Canoas IV e Toca do Morcego (seguindo a ordem da
esquerda para a direita). Fonte: ArqueoArte
Na figura 4 mais representações que atestam a
abundância morfológica existente, somente
entre as representações de cervídeos.
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As pinturas da figura 4 se encontram nos
sítios Toca da Dama, Toca do Varedão VI,
Toca do Caldeirão do Rodrigues II, Toca do
Varedão VII, Toca do Baixão do Perna II,
Toca do Baixão das Mulheres II e Toca do
Varedão X (seguindo a ordem de cima para
baixo e da esquerda para a direita).
Também dentro das Narrativas Identificáveis
pode-se encontrar a representação de aves,
como as emas que são as mais representadas.
Na figura 5 destacam-se as representações dos
sítios, Toca do Caldeirão dos Canoas II, Toca
do Caldeirão dos Canoas IV e Toca do
Varedão X (seguindo a ordem da esquerda
para a direita).
Na figura 6 destacam-se as representações dos
sítios, Toca do Varedão X, Toca da Entrada
do Baixão da Vaca e Toca da Serrinha II X
(seguindo a ordem da esquerda para a direita).
13/ Animais na arte rupestre – Animals in the rock art
Para as representações de felinos são
analisados principalmente os traços como a
representação das patas, o rabo sempre para
cima, a presença dos caninos. Na figura 7
destacam-se as pinturas dos sítios, Toca da
Roça do Raimundão Ferreira e Toca do
Caldeirão do Gado X (seguindo a ordem da
esquerda para a direita).
Também destacam as representações de
capivaras que também, de acordo com a
morfologia permite uma correlação com as
capivaras atuais. Na figura 8 destaca-se a
pintura do sítio Toca do Caldeirão dos
Rodrigues II.
Figura 4- Toca da Dama, Toca do Varedão VI, Toca do
Caldeirão do Rodrigues II, Toca do Varedão VII, Toca
do Baixão do Perna II, Toca do Baixão das Mulheres II
e Toca do Varedão X (seguindo a ordem de cima para
baixo e da esquerda para a direita). Fonte: Arquivo
FUMDHAM.
O BESTIARIO RUPESTRE DO PARQUE NACIONAL SERRA DA CAPIVARA.
Figura 5 - Toca do Caldeirão dos Canoas II, Toca do
Caldeirão dos Canoas IV e Toca do Varedão X
(seguindo a ordem da esquerda para a direita). Fonte:
ArqueoArte.
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Figura 6 – Toca do Varedão X, Toca da Entrada do
Baixão da Vaca e Toca da Serrinha II X (seguindo a
ordem da esquerda para a direita). Arquivo
FUMDHAM.
Figura 7 - Toca da Roça do Raimundão Ferreira e Toca
do Caldeirão do Gado X (seguindo a ordem da esquerda
para a direita). Fonte: ArqueoArte.
Figura 8 - Toca do Caldeirão dos Rodrigues II.
Fonte: ArqueoArte.
Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL
Thalison SANTOS, Jorlan OLIVEIRA, Lucas BRAGA & Maxim JAFFE
Narrativas Heróicas.
Definem-se
pela
manifestação
de
representações pintadas que podem originar
cenas que nos introjetem a sensação de
grandes caçadas. Geralmente os animais
representados
nestas
cenas,
podem
corresponder aos na Narrativa Identificável e
se apresentam de maneira proporcionalmente
grande, quando correlacionados com as
representações antropomórficas existentes das
cenas.
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Considerações finais
O Bestiário Rupestre Pré-Histórico pode
legitimar as capacidades complexas e abstratas
da cognição dos homens pré-históricos, que
se transportaram através da ação humana de
pintar e que se mostram hoje através das
Narrativas Não-Identificáveis. Entretanto, as
Narrativas Identificáveis também poderiam
indicar tal complexidade humana, pois
poderiam marcar o momento em que o
homem buscava a precisão, as realidades
cotidianas em suas representações. As
Narrativas Heróicas poderiam indicar a
necessidade humana de se afirmar no meio
em que vivia, concernindo natureza, animal,
homem e suas capacidades, legitimando o seu
lugar na natureza e se valorizando
culturalmente. Por fim, podemos afirmar que
há uma riqueza quantitativa e qualitativa
quando tratamos das representações das
figuras zoomórficas pintadas na região do
Parque Nacional Serra da Capivara. Assim,
este trabalho se configura como um primeiro
momento de pesquisa, como uma proposta
que pretende ser pormenorizada em etapas
posteriores, para assim poder compreender
mais sobre o passado e os grupos que o
fizeram.
13/ Animais na arte rupestre – Animals in the rock art
Referências
Varandas, Angélica – A Idade Média e o
Bestiário.
Medievalista
(www.fcsh.unl.pt/iem/medievalista), Instituto
de Estudos Medievais da Universidade Nova
de Lisboa, 2006.
Morales, Reinaldo – The Nordeste
Tradition: Innovation and Continuity in
Brazilian Rock Art. Virginia Commonwealth
University Richmond, Virginia, 2002.
Ignácio, Elaine – A Representação de
Cervídeos no Complexo Rupestre do
Parque Nacional Serra da Capivara:
Morfologias,
Sintaxe
e
Contextos
arqueológicos, Instituto Politécnico de
Tomar - Universidade de Trás-os-Montes e
Alto Douro (Departamento de Geologia da
UTAD – Departamento de Território,
Arqueologia e Património do IPT, Master
Erasmus Mundus em Quaternário e PréHistória), 2009.
Arquivo FUMDHAM.
Arquivo ArqueoArte.
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