Acervo Instituto Memória Brasil – Direção e Autoria: Assis Ângelo
Ano I – nº 9 – 3/12/2012
Faz tempo que o mundo vai acabar...
Previsões sobre o fim do mundo sempre houve. Começaram
provavelmente quando o ser humano dele tomou consciência. A
história está repleta de exemplos. O último, comentadíssimo em
função da rapidez da internet e das comunicações móveis, foi esse
que deveria ter acontecido em 21 de dezembro passado, preten-
samente atribuído aos maias. Em termos de repercussão mundial,
talvez só tenha perdido para o chamado Bug do milênio, outra
previsão catastrófica, igualmente não concretizada, de que todos
os sistemas informatizados do planeta ficariam ensandecidos em
31 de dezembro de 1999, na virada do milênio (para quem não
se lembra dos detalhes, pode conferir mesmo a pouco confiável
Wikipedia: http://migre.me/cF6e0). Como sempre acontece nessas
ocasiões, muitos espertos aproveitaram para ganhar o dinheiro
que os crédulos se dispõem a desembolsar para “evitar o pior”.
Coisas da natureza humana...
Ante a repercussão do fenômeno maia, Assis Ângelo resgatou
do acervo do seu Instituto Memória Brasil um texto, aqui reproduzido, que foi matéria de capa da revista De Repente, de Teresina
(ano XI, nº 45, maio-junho de 2005), no qual faz um balanço do
tema “fim do mundo” na música popular e na literatura brasileira
de cordel. Material precioso, como sempre, e atualíssimo, que ele
enriquece com imagens e novas informações para esta edição nº
9 de Jornalistas&Cia Memória da Cultura Popular.
Vale o registro, pois mesmo passado já algum tempo do “não-fim” o assunto ainda merece reflexão. Vai que... Nunca se sabe,
não é?
Boa leitura!
Assis, no acervo do IMB, com o exemplar da revista De Repente
Eduardo Ribeiro e Wilson Baroncelli
... e o mundo não se acabou!
Por Assis Ângelo - Fotos e reproduções: Clarissa de Assis
Mais uma vez e apesar de tudo, o mundo
não se acabou.
Houve rezas e retiros em torno do mundo, mas o mundo não se acabou.
Houve quem armazenasse joias, dinheiros e alimentos em fortalezas subterrâneas
especialmente construídas para escapar
do fim do mundo, mas o mundo não se
acabou.
Os baianos sabem que o mundo não
vai se acabar numa grande explosão ou
inundação da terra pelos oceanos, tanto
que continuam festejando o evento com
pompas e circunstâncias, incluindo cerveja,
cachaça e axé.
Lá, na Bahia, não há hora para o mundo
acabar.
Aliás, diz velho ditado que baiano quando não está dançando está ensaiando. E o
carnaval se avizinha...
O fato é que muita gente faturou com
essa história toda.
Diário Oficial da União: Supremo Tribunal
Federal condena o fim do mundo.
Notícias Populares, que não existe mais:
Psicopata mata a mãe, degola o pai, estupra
a irmã e fuzila o irmão ao saber que o mundo
vai acabar.
Veja: Exclusivo: entrevista com Deus.
Nova: O melhor do sexo no fim do mundo.
Casa Claudia: Como decorar a sua casa
para o fim do mundo.
Na verdade, o assunto permeia o nosso
imaginário desde tempos em que galinha
tinha dente e gato e cachorro falavam;
desde os tempos de Noé, que foi homem
puro e justo de uma era incerta, narrada
em Gênesis 6:12 (Viu Deus a terra, e eis que
estava corrompida; porque todo ser vivente
havia corrompido o seu caminho na terra)
e 6:13 (Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar
cabo de toda carne, porque a terra está cheia
da violência dos homens; eis que os farei
perecer juntamente com a terra).
Calendário maia
Piadas foram feitas para coroar o calendário maia, de onde saiu a ideia de que o
mundo iria se acabar.
Uma delas dá conta de que o fim do
mundo foi adiado no Brasil; é quando
alguém pergunta a razão disso. Resposta:
O dilúvio universal ou a Arca de Noé – Arthur Rodrigues
da Silva
– Desviaram a verba do evento.
Pela internet circulam manchetes imaginárias.
The New York Times, na 1ª página, em
letras garrafais, anunciaria: O mundo vai
acabar.
E outros jornais, como Times: Rainha
teme ver Diane depois do fim do mundo.
El Pais: Se há governo no outro mundo,
somos contra.
Diário de Lisboa: Leia amanhã como o
mundo acabou hoje.
O Globo: Governo anuncia o fim do
mundo.
Jornal do Brasil: Fim do mundo espalha
terror na zona sul.
Folha de S.Paulo: Saiba como vai ser o
fim do mundo.
Estadão: CUT e PT envolvidos na tragédia
do fim do mundo.
Estado de Minas: Será que o mundo
acaba mesmo?
Noé escapou à ira de Deus e ao dilúvio,
junto com a família e um par de cada animal existente antes do dilúvio bíblico. Ele
escapou com a missão de recriar o mundo
após o fim de tudo.
Escritores nacionais como João Guimarães Rosa e Graciliano Ramos fazem referência à hecatombe em suas obras.
E, naturalmente, não são só os nacionais.
Os estrangeiros também.
O cordelista Arthur Rodrigues da Silva,
de cujas origens nada se sabe, escreveu no
início do século passado o folheto de 16
páginas em sextilhas O dilúvio universal ou
a Arca de Noé. Nele, discorre sobre a escolha
de Noé por Deus para salvar os seres vivos
após o apocalipse.
Lá pras tantas, conta:
A chuva torrencial
Caia de mais a mais
As águas fortes aumentando
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Enchendo todos os canais
O povo todo alarmado:
Noé, o que é que se faz?
Depois de quarenta dias
Todo o povo pereceu
E o dilúvio cessou
E o sol apareceu
O navio flutuando
Sobre as águas se estendeu...
Vozes agourentas, independentemente
do campo de atuação profissional ou amadora, não param de falar
de fim do mundo.
Em novembro
de 1959, ano
em que Luiz
Gonzaga lançava Calango
da lacraia e
Marcha da Petrobras, o baiano Gordurinha
O mundo vai se acabar – Ataíde Pereira
(Waldeck Artur Macedo; 1922-1969) teve
a embolada O mundo vai se acabar (sobre
comportamento humano e de época) lançada ao mercado numa gravação de Ataíde
Pereira pelo selo Chantecler, da extinta
gravadora paulistana Continental.
Diz o refrão, em quadra:
Oh! Minha gente
Me “adesculpe” eu falar
Mas esse mundo véio
Tá perto de se acabar...
No LP Dengo Maior, de 1978, na última
faixa do lado B o Rei do Baião faz também
referência ao fim do mundo na música Pai
nosso, de Janduhy Finizola:
Foi dito, não faz muito, que a terceira
guerra mundial começaria no Oriente Médio, em agosto de 2012. Mas essa guerra
sequer começou... Há, no momento, uma
dúzia e pouco de guerras em andamento.
O poeta repentista pernambucano Oliveira de Panelas escreveu, ainda no tempo
em que Bush era presidente dos Estados
Unidos:
Pode a Terra transformar-se
Num planeta vagabundo
Uma bomba, quando explode,
Sinto um desgosto profundo.
Vendo dois ou três sacanas
Preparando o fim do mundo.
...Que não caia o vaqueiro em tentação
Nem lhe traga perdição, maldição
Corre o tempo e o vento pro fim do mundo
O cavalo abalou, desembestou
Acabou minha vida de vaquejada.
Bush, diga a Tony Blair,
Boneco da Inglaterra,
Que fale a outros babacas,
Falsos senhores da Terra,
Que só os loucos entendem
Que a solução é a guerra.
E assim seguimos, crendo que o planeta
um dia vá pro beleléu.
No ar, a pergunta que fica é:
– E agora, quando o fim do mundo?
(íntegra da matéria de capa publicada na revista De Repente (ano XI,
nº 45, maio-junho de 2005, Teresina, Piauí).
O fim do mundo na
literatura de cordel
Assis Ângelo
O fim dos tempos é anunciado aos quatro ventos desde
o começo dos tempos e à exaustão, como nos faz lembrar
o mestre francês da literatura mundial e humanista Victor
Hugo (1802/85), no seu poema épico e clássico “A Lenda
dos Séculos” (La Légende des Siècles ),
no qual ele cria uma situação deveras
original para que o Demo possa pedir
a Deus perdão por suas diabruras feitas
contra nós.
Situação criada, Deus responde:
– Não, eu não te odeio! (Non, je ne
te hais point!)
Reprodução
da capa e da
matéria de Assis
Capa do livro La Légende des
Siècles – Victor Hugo
De cabelos e barbas negras há muito
por fazer, um homem franzino, de idade e
meia nas costas, cajado mal-amanhado à
mão, trajando farrapos e calçando velhas
sandálias de dedo, seguia a passos lentos,
mas firmes, por uma estrada de barro batido surgida dum nada nas bandas perdidas
dos cafundós da Bahia.
Estrada comprida aquela, aparentemente sem começo nem fim.
Sol escaldante. Suor às bicas. Miséria
à vista.
Enquanto caminhava, o homem prometia em voz alta o céu aos justos e o
inferno aos ímpios; soltava impropérios
e pregava o não pagamento de impostos
ao governo.
Era abusado, aquele homem. Seu
nome: Antônio Vicente Mendes Maciel, o
Conselheiro.
Fim de era, século XIX.
Antes de se tornar o Conselheiro falado, o velho Antônio Vicente abandonara
o pouco que tinha em Quixeramobim,
Ceará – sua terra –, e partira resoluto pelas
brenhas do sertão do deus-dará logo após
saber-se enganado pela única mulher que
amara na vida e a quem, desde então,
procurava esquecer com todas as forças.
Ele virou penitente e pescador de
almas, fazendo do protesto contra o establishment a sua razão de vida e flagelo.
Vida utópica e messiânica aquela que
ele escolhera.
“O sertão vai virar mar!”, ele berrava
raivoso enquanto brandia num gesto
incontido o seu cajado ao ar. “Morte aos
ignaros!”, emendava num grito de guerra.
Nas suas peregrinações, o Conselheiro
dizia com todas as letras que a Monarquia
era abençoada por Deus; e a República,
pelo Demo.
Politicamente, porém, ele jamais chegou a selar qualquer tipo de aliança com
quem quer que fosse.
Os deserdados da vida, que se multiplicavam aos milhares a cada instante, viam nele
o Messias esperado, o enviado de Deus, o
profeta, a salvação da lavoura, o líder, enfim...
Do céu veio uma luz
Que Jesus Cristo mandou
Santo Antônio Aparecido
Dos castigos nos livrou
Quem ouvir e não aprender
Quem souber e não ensinar
No dia do Juízo
A sua alma penará.
O “Santo Antônio Aparecido” dos versos
acima, extraído do cancioneiro popular, é
o Conselheiro tornado santo-mártir em
vida pela boca e crença do povo.
O anti-Cristo nasceu
Para o Brasil governar
Mas aí está o Conselheiro
Para de ele nos livrar.
Conselheiro não pode livrar ninguém
do anti-Cristo que até aqui, aliás, sequer foi
por nós, reles mortais, identificado.
Mas o mundo para ele, o Conselheiro, se
acabou a 22 de setembro de 1897, poucos
dias antes de o brioso Exército brasileiro
tacar fogo em Canudos e assassinar sem
dó nem piedade os seus últimos sobreviventes: um velho, dois homens feitos e
uma criança mirrada, na narração insuspeita do jornalista carioca e republicano
Euclides da Cunha, que por aqueles lados
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e tempos andou colhendo informações
que logo depois passou para os leitores
do jornal O Estado de S.Paulo.
Alguém outrora garantira que tudo se
acabaria pelas peraltices insanas de um
menino-monstro nascido com feições
horripilantes na hora da ameia-noite. Esse
“menino” teria ou terá no cumprimento
dos seus propósitos a ajuda de um endiabrado gigante extraído do ventre bruto de
uma besta-fera.
O anti-Cristo, o príncipe do Inferno de
que tanto se fala, viria ou virá após uma
guerra que faria ou fará em pó Paris e a Itália; de roldão a Santa Sé, depois da posse
do último Papa – o 112º –, de acordo com
os escritos do mago Nostradamus.
João Paulo II (Karol Josef Wojtyla; 19202005), que morreu na tarde do dia 2 de
abril, foi o 110º pontífice...
Ai de nós!
Que Deus nos acuda!
Também foi dito que o mundo se findará com uma enorme bola de fogo rolando
ladeira abaixo ou num dilúvio de proporções jamais imaginadas, vistas ou descritas
que a tudo e a todos engoliria ou engolirá
em frações de segundo, deixando o Sol
voltar a reinar absoluto com seus raios de
ouro no Infinito depois de apagar do mapa
Mercúrio, Vênus e a própria Terra.
Por outro lado e pelas sombras da agonia, algumas vozes agourentas fazem as
contas e apostam que o fim das Eras virá
de um estrondo descomunal (big bang?)
idêntico ao ocorrido há uns 15 bilhões de
anos, quando o Universo desabrochou
para bichos e deuses.
Além dos profetas isolados, independentes ou solitários que pululam por aí
irresponsavelmente em busca de dinheiro
e fama fáceis, há os profetas de seitas –
nem por isso mais sérios – que profetizam
em grupo, unidos.
Exemplo?
As Testemunhas de Jeová, a primeira
seita a prever o fim dos nossos dias.
Para os seguidores de Jeová, que fo-
ram levados a se desfazer de seus bens
materiais para “viverem melhor até o
último momento”, o mundo deveria ter
se acabado em 1914. Depois em 1918,
1925 e 1994.
Para eles, alguma coisa parece ter dado
errado...
E para outros também, que no distante
ano de 1186 já diziam que dali o mundo
não passaria.
É popular a afirmação de que “o ano
1000 chegará”, como chegou; “mas de
1000 os tempos não passarão”.
Passaram.
Depois, a afirmação foi revista: “O ano
2000 não chegará”.
Chegou.
E agora?
O tema é palpitante.
Pelo calendário maia, tudo se acabará
de vez na sexta 21 de dezembro de 2012.
A hora é incerta...
Mas há possibilidades de o fim dos
tempos se arrastar por mais uns tempos.
Pelo calendário cristão ou judeu, ainda
teremos pelo menos mais 7.000 anos de
vida e guerra.
Alguns profetas, mesmo lamentando a
destruição visível que praticamos no dia-a-dia, afirmam que o holocausto virá para
todos só daqui há pelo menos cinco bilhões
de anos, quando o Sol – novamente o Sol –
consumirá o último tico do seu combustível
(que é o hidrogênio, produtor de luz e calor)
e não nos restar sequer uma gotinha de
água doce ou salgada para beber ou lavar
a boca ou os pés sujos já que, a essa altura
dos tristes acontecimentos previstos, até
os oceanos estarão totalmente secos e
estorricados como hoje está boa parte das
terras do Nordeste.
É quando, então, deveremos ajustar as
nossas continhas com Deus, O nosso Senhor.
Uma curiosidade: nas religiões orientais, não se fala em Juízo Final, nem em
Apocalipse.
Enquanto o tão esperado fim catastrófico
não vem, a indústria de entretenimentos e de
armas em todo o mundo fatura e agradece.
Já foram feitos filmes para mostrar que
tudo tem um começo, meio e fim.
Também foram feitos seriados na linha
documental e novelas melosas às dezenas, centenas, que emocionaram pedras,
postes e muita gente rica mundo afora (“É
mais fácil um camelo passar pelo fundo
de uma agulha do que um rico entrar no
Reino de Deus”), lembram-se?
Peças para teatro, romances para cegos
e videntes, tratados e poemas em todas as
línguas a perder a conta já foram publicados e consumidos.
Autores eruditos e populares, gênios e
falastrões já perderam o sono e queimaram pestanas à luz de vela, desperdiçando
neurônios que não tinham, pensando e
escrevendo sobre o assunto.
Na música idem, aqui e além.
Em março de 1938, o baiano Assis Valente compôs o samba-choro ... E o mundo
não se acabou, uma sátira ao tema que
volta e meia vira notícia de jornal e provoca discussões profundas nos botecos e
universidades livres da vida.
O samba de Valente foi gravado pela
portuguesinha naturalizada Carmen Miranda. Começa assim:
Anunciaram e garantiram
Que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente
Lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer
Antes da madrugada
Por causa disso nessa noite
Lá no morro não se fez batucada
Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar
Beijei na boca de quem não devia
Peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô
E o tal do mundo não se acabou...
Tonico (João Salvador Perez; 1919-1994)
e Tinoco, partiu para um poema.
Os versos do Capitão, bem-humorados,
falam de um sujeito do interior que duvida
do que o jornal diz.
Agora quer que a gente acrerdite
Que o mundo é uma bomba donamite
Que vai estourar e avoar tudo em cavaco!...
Tempestade magnética...
Isso é idéia escalafobética
De gente anarfabética...
Esses tá de sábio
Já nem tem o que inventar.
Magina! Ter corage de dizer
Tamanha bobage pros próprio jorná:
“O mundo vai acabar”
Vai acabar...Mas cuuuuuusta!
O sábio só sabe é dar parpite.
Num bastava dizer que
A gente é fio de macaco?
Você sabia?
Que o jornalista e estudioso da cultura popular Assis Ângelo é presidente
do Instituto Memória Brasil, criado
em 2011 para preservar e divulgar o
seu acervo?
A expressão “fim do mundo” também
é lembrada de modo romântico, como
no samba-canção, que virou clássico, No
rancho fundo, de Ary Barroso e Lamartine
Babo, gravado originalmente por Elisa Coelho em junho de 1931, pela extinta Victor:
No rancho fundo
Bem pra lá do fim do mundo
Onde a dor e saudade...
De forma gaiata ou brincalhona, o tema
também é festejado.
Eduardo Dusek diverte e se diverte com
a balada Nostradamus, que ele compôs e
gravou em 1980.
Que o acervo do Instituto Memória
Brasil abriga mais de 150 mil itens,
entre discos de todos os formatos,
partituras, fotos, livros, jornais e revistas antigas?
Vinte e dois anos depois Jorge de Castro, Wilson Batista e José Utrini compuseram a marcha Fim do Mundo para Jorge
Goulart gravar.
Fez sucesso.
Com esse mesmo título, Raimundo Fagner e Fausto Nilo também compuseram
uma canção.
Já o Capitão Furtado (Ariowaldo Pires),
descobridor musical da dupla caipira
Anos antes o cantor e compositor “visionário” Zé Ramalho chamava a atenção
do público ao cantar coisas referentes a
deuses, discos voadores, astronautas... E
fim do mundo.
Numa delas, resultante da parceria com
o repentista Oliveira de Panelas, Do terceiro
milênio para frente, ouve-se:
Quando o último adeus desse milênio
Despedir-se de toda a humanidade
Descerá uma grande novidade
Entre átomos, íons e hidrogênio
Nascerá desse todo um grande gênio
Com enorme cultura diferente
Ensinando pra todos claramente
O porquê de uma causa ter efeito
Estará nosso globo desse jeito
Do terceiro milênio para frente...
Que saiu do acervo do Instituto
Memória Brasil a exposição multimídia Roteiro Musical da Cidade de São
Paulo, que o Sesc Santana instalou em
2012 na sua área de Convivência II?
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Em Eternas ondas, canção de 1982, o
artista popular paraibano mais famoso de
Brejo do Cruz parecia antever a presença e
braveza das gigantescas ondas (tsunami)
que num piscar de olhos emergiram de
sono profundo das entranhas indevassáveis do mar, liberando raiva e energias
de pelo menos 37 bombas idênticas às
atiradas em 1945 pelos Estados Unidos
sobre a população civil (e indefesa) de
Hiroshima, no Japão.
O que os tsunami provocaram em de-
Eternas ondas – Zé Ramalho
zembro do ano passado, num punhado de
países do sudeste da Ásia e leste da África
foi uma verdadeira danação de horror e
morte sem precedentes na História recente da humanidade.
Um sinal do fim dos tempos?
Zé Ramalho:
Quanto tempo temos antes de voltarem
Aquelas ondas
Que vieram como gotas em silêncio
Tão furioso
Derrubando homens entre outros animais
Devastando a sede desses matagais...
Devorando árvores, pensamentos
Seguindo a linha
Do que foi escrito pelo mesmo lábio
Tão furioso
E se o teu amigo vento não te procurar
É porque multidões ele foi arrasar...
A desejada, cantada e decantada volta
à Terra do Salvador Supremo é esperança
corrente entre os poetas populares; esperança essa que parece não morrer nunca.
Na varanda do reino da Justiça
Vê-se o rosto do príncipe da virtude.
No final dos anos 90, Rolando Boldrin,
que é cantor, compositor, ator e instrumentista, gravou dele mesmo e Tom Zé e
E o mar, sim
Depois de encharcar as mais estreitas
veredas
Virará sertão...
Volta logo, Jesus de Nazaré!
Precisamos demais de tua ajuda
Vem Confúcio, vê Brahma, volta Buda!
Para reacender a nossa fé...
Noutro poema, o cantador de Panelas,
Pernambuco, dá mais uma mostra da
crença que nutre por Deus:
Na grandeza do céu misterioso
Onde grande distância nos separa
Há um ser, nosso irmão que nos ampara
Com a ordem do Todo Poderoso
Esse príncipe é arcanjo luminoso
Não aceita a perversa ilicitude
Só não vê o maldito, o bruto, o rude
Avarento afilhado da preguiça
Nesse dia a gente tem que resolver
Que nois temo de esconder
Aquele galo bolinha
Pra despois do fim do mundo
A gente ter um macho pras galinha...
Na obra de Oliveira e Elomar, como na
obra de Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, poeta cearense estudado
na segunda metade dos anos de 1970 na
Cadeira de Literatura Popular Universal
da Sorbonne, Paris, o Criador está sempre
presente:
A frágil humanidade
Relembra os pecados seus
E pede perdão a Deus
No terror da tempestade;
Ante tal calamidade
De momento se desterra
Toda a beleza que encerra
As obras da criação
Foge do sol o clarão
Geme o mar e treme a terra...
O já citado Oliveira de Panelas, reconhecido como o mais importante cantador
repentista do País, ergue a sua obra em
reverência à Natureza e ao Criador, como,
aliás, o faz também, de maneira muito pessoal, o menestrel baiano Elomar Figueira
Mello. Exemplo:
A moda do fim do mundo –
Tom Zé, Rolando Boldrin, Svaniek
Svaniek a cantiga Moda do fim do mundo,
que diz:
Cumpadi, em Brasília espaiaram
Um boato muito chato
Que o mundo vai se acabar...
Vancê fique de oreia no rádio
Vancê fique de oio no jorná
Porque, vou te contar:
No dia que o mundo se acabar
No campo da literatura popular, o assunto é amplamente abordado.
No folheto “O fim do mundo está próximo”, de Manoel Tomaz de Assis, lê-se logo
na abertura:
Mais recentemente, entre este e o ano
passado, os grupos gaúchos Candeeiro e
Sunungaco gravaram com sucesso o forró
xoteado Cá no fim do mundo, que fala ao
que nos remete o título.
No seu primeiro disco, o grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado gravou,
de Lirinha e Clayton Barros, a belíssima
Profecia (ou Testamento da ira).
Na cumeeira da serra Ororubá o velho
profeta já dizia
Uma nova Era se abre com duas vibras
trançadas
Seca e sangue, seca e sangue
Herdeiros do novo milênio
Ninguém tem mais dúvidas
O sertão vai virar mar
res repentistas e cordelistas nordestinos,
no tocante ao tema fim do mundo.
Sobre o “santo padre” do Juazeiro há
inúmeros cordéis destacando as suas
Leitor nosso mundo velho
Já está vai ou não vai
Uma banda está pendurada
E a outra breve cai
Daqui pra 98
Deus arrocha e desta vez
Mostra o castigo de pai
Antes de chegar 90
Se acaba toda a cegueira
Vestido curto e batom
Escândalo e bandalheira
Aviso nos versos meus
Que os soldados de Deus
Já se acham na trincheira...
O fim do mundo está próximo – Manoel Tomaz de Assis
O padre Cícero e o frei Damião são, ao
lado de Lampião e Maria Bonita, alguns
dos nomes mais lembrados pelos cantado-
Os sinais do fim do mundo que Padre Cícero dizia –
Apolônio Alves dos Santos
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“profecias”, como “O último sermão do
Padre Cícero sobre o fim do mundo” (autor
anônimo); “O sonho de um romeiro com
o Padre Cícero profetizando o futuro”, de
Joaquim Luiz Sobrinho; “Os sinais do fim
do mundo que o Padre Cícero dizia”, de
Apolônio Alves dos Santos; “As profecias
do Padre Cícero”, de Abraão Batista; “Profecias do Padre Cícero ou visões até o
ano dois mil”, de João de Barros; “História
das profecias do Padre Cícero Romão
sobre o fim do mundo e o Dia de Juízo”,
de Joaquim Batista de Sena; “Sermão de
Frei Damião referente ao Dia do Juízo”,
de Manoel Camilo dos Santos; “O sermão
profético de Frei Damião”, de Artur Alves
de Oliveira, entre outros.
No folheto “Verdadeira profecia de Frei
Damião”, de José Pedro Pontual, fica-se
sabendo que:
O mundo já deu três tombos
Com outro mais ele vira
Então depois de virado
Ninguém mais desvira
Sagradas Escrituras, vão desde os pecados
cometidos pela mulher que usa minissaia
e maiô, ou biquíni; depila as pernas, pinta
as unhas, se maquia e trai o marido, até
a prática de roubo, assassinato, orgias e
vícios comuns como praticar o jogo do
bicho, fumar maconha e beber cachaça
em casa ou no botequim da esquina, passando pelo filho que bate no pai e violenta
a mãe – esse, dentre todos, o pecado mais
grave. Tudo isso com o Demo de tocaia, à
espreita, pronto para se apossar de mais
uma alma.
No folheto “Os fatos das eras de 1877
ao resumo dos tempos”, de Antônio Caetano de Souza, publicado por iniciativa
do escritor paraibano Ariano Suassuna,
pode-se ler:
Mulher que vive enfeitada
De sobrancelha rapada
Com tinta até nas pestanas
De calça toda imprensada
Cuidado na escuridão
Pra não ser arrebatada.
capa, o autor Téo Azevedo é representado
num desenho tocando viola diante de um
soldado norte-americano armado de metralhadora), há uma passagem em que se lê:
Os desníveis sociais
Que existem neste mundo
Os menos favorecidos
Vivendo no submundo
Os empresários guerreiros
Tranqüilos nos travesseiros
Dormindo o sono profundo.
Em “O conflito do Iraque e os 3 tiranos
da guerra”, de Viana e Geraldo Amâncio,
Você sabia?
Que o Instituto Memória Brasil, por
meio de seu presidente Assis Ângelo,
cedeu informações e material sobre o
Rei do Baião para o documentário e
filme Gonzaga, de Pai pra filho?
Jesus não é vingativo
Porém se enche de ira...
folheto “A vaca misteriosa que falou profetizando” que:
Há mais, muito mais escritos poéticos
assinados pelos cordelistas: “ABC do fim do
mundo”, de Chico Leite; “O fim do mundo
(Os últimos dias da Humanidade)”, de João
Martins de Athayde; “Aviso sobre o fim
do mundo”, de Antônio Batista; “Debate
de Zé Limeira com os profetas do fim do
mundo”, de Arievaldo Viana e Pedro Paulo
Paulino; “Este é o falso profeta”, de Augusto de Sousa Lima; “A terceira profecia do
sábio francês, de 1943 a 1950” (o autor
se identifica pelo pseudônimo de Poeta
Ferro); “Uma nova chuva de sangue em
Minas Gerais e os sinais do fim do mundo”
(autor anônimo); “A vaca misteriosa que
falou profetizando”, de José Costa Leite,
que também escreveu “O fim do mundo
presente” e “A carta do apóstolo Paulo ao
mundo sobre os sinais do fim das eras”, de
Antônio Caetano de Souza.
Após se apresentar ao leitor, José Costa
Leite garante na quarta estrofe do seu
O Diabo é personagem freqüente nos
folhetos que de alguma forma tratam de
“fim do mundo”, “religião”, “carestia”, “corrupção” e “violência”.
Patativa do Assaré escreveu esta quadrinha singela:
Era muito inteligente
Aquele que fez o Diabo
Para fazer medo a gente
Pôs chifre, espora e rabo.
Também são levados em conta o desrespeito e o desamor ao próximo, a ganância,
o desmatamento e a descrença em Deus.
No folheto “A revolta da Natureza”, o
autor Itama Barbosa Vieira constata:
Está escrito nas profecias
Que o homem com eminência
Quer fazer tudo na Terra
Sem medir as conseqüências
Destruindo a Natureza
Através da má ciência.
o tema desenvolvido aparece como meio
caminho para a explosão final do mundo.
Nesse cordel, lê-se:
A vida é dádiva de Deus
Abençoada e tranqüila
Quem perdê-la nunca mais
Poderá adquiri-la
Nenhum ser tem o direito
Nem razão de destruí-la.
A guerra sempre esteve na pauta dos
cordelistas.
Que o acervo do Instituto Memória
Brasil vem sendo formado há 40 anos
e que nele há peças raríssimas que seu
presidente, Assis Ângelo, adquire nas
viagens que faz pelo País e Exterior?
Estamos nos fins dos tempos
Só falta chegar a hora
Cada vez mais se aproxima
Está perto e não demora
Por causa da corrupção
Só haverá confusão
Ninguém espera melhora.
Para a catástrofe não se consumar, ele
arrisca:
Quem pode dar proteção
É a Santa Virgem Maria
O Deus Pai Todo Poderoso
Que a tudo governa e cria
Jesus, Espírito Divino
Que é quem dar o ensino
Da santa sabedoria.
As explicações para a eminência do
fim dos tempos apontadas pelos poetas
de bancada, baseados no que dizem as
Estrofes antes, o poeta anotara:
A seca do Nordeste
É castigo da Natureza
O desmatamento feito
Afastou a chuva com certeza
Afetando a região
Deixando a terra indefesa.
Falando de um certo Gentileza, “profeta da brasilidade”, o cordelista cearense
Antônio Klévisson Viana lembra que ele:
Dizia: – O mundo é um circo
É redondo e perigoso!
O circo pegando fogo
Não acho muito custoso
É o mundo representado
O circo é arredondado
Mas o cão é caviloso!
Os cordelistas são uma espécie de repórter, a cujos olhos não escapam intrigas
domésticas, crimes, guerras, o cotidiano.
No cordel “Os senhores da guerra” (na
Exemplos:
“O terrorista Ali-Bush e o Ladrão de
Bagdá”, de Zé Antônio; “A crueldade de
Osama e a vingança de Bush”, de José Ribamar Alves; “A guerra do fim do mundo
entre o povo talibã e os Estados Unidos,
para eles tidos como o Grande Satã”, de
Marcelo Soares; “Os Estados Unidos em
chamas, um aviso para o mundo”, de
Guaipuan Vieira, entre inúmeros outros
escritos desde que os Estados Unidos
invadiram o Iraque, por exemplo.
Que o Instituto Memória Brasil
preserva o maior acervo de poesias
gravadas em discos de todos os formatos, incluindo os de 78 RPM?
Que o Instituto Memória Brasil tem
aberto seu acervo para estudantes
universitários?
nº 8
3/12/2012
Pág. 6
Eu sinto neste momento
O desgosto mais profundo
Por saber que poucas horas
Faltam para o fim do mundo
Pois vivendo o dia-a-dia
Confesso que nem sabia
Que ele estava moribundo
Embora tantas previsões catastróficas
venham sendo feitas desde os começos
dos tempos, dúvidas ainda permanecem
como mostra o poeta José Severino Cristóvão, no cordel “O mundo foi feito assim”:
Se o Pai Eterno sabe
Do que vai acontecer
Por que ele fez o homem
Depois foi se arrepender?
Por que fez o anjo mau
Só pra lhe ofender?
Pelos meus conhecimentos
Pequenos é bem verdade
Imaginava que ao mundo
Fosse dada eternidade
Ou pelo menos que agora
A Terra, mãe e senhora.
Gozasse de mocidade.
O mesmo Severino Cristóvão, noutro
cordel de sua autoria (“Sinais do fim do
mundo”), decreta:
Faltam 40 primaveras
Para o fim do mundo
Não ficará um vivente
Neste planeta fecundo
Passará a ser habitado
Por força do outro mundo.
Sinais do fim do mundo – José Severino Cristóvão
Os cordelistas Ariovaldo Viana e Pedro
Paulo Paulino, no “Debate de Zé Limeira
com os profetas do fim do mundo”, confessam o seu desconhecimento diante das
profecias arrasadoras:
No folheto “Profecia de Frei Bernardo
descrevendo o fim da era de 1970 a 1984”,
do próprio Bernardo, o fim do mundo é
narrado a galope, o que deixa brecha para
que todos nós, ao fim e ao cabo, escapemos sãos e salvos do Juízo Final.
Menos mal, não é?
Assis Ângelo é paraibano de João Pessoa, jornalista, poeta bissexto e autor de livros sobre música e folclore; acredita em Deus-Pai, o Todo-Poderoso, Criador do Céu e
da Terra. Também acredita nos amigos e no ser humano, até prova em contrário; sem arredar pé da crença de que o mundo finda todo dia. É da vida, acha: morreu, acabou!
Por via das dúvidas, porém, ele está aprendendo a rezar. [email protected]
Expediente – Jornalistas&Cia Especial Memórias da Cultura Popular é uma publicação mensal da Jornalistas Editora Ltda. (Tel. 11-38615280) em parceria com o Instituto Memória Brasil • Diretor: Eduardo Ribeiro ([email protected]) • Produção do conteúdo:
Assis Ângelo ([email protected]) • Editor-executivo: Wilson Baroncelli ([email protected]) • Diagramação e Programação visual: Paulo Sant’Ana ([email protected]). É permitida a reprodução desde que citada a fonte.
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