UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
ESCOLA DE ENFERMAGEM ANNA NERY
COORDENAÇÃO GERAL DE ENSINO DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA
MESTRADO EM ENFERMAGEM
ALTERAÇÕES PSICOFISIOLÓGICAS DOS
TRABALHADORES DE ENFERMAGEM NO SERVIÇO
NOTURNO
MARCIA MOREIRA DE OLIVEIRA
Rio de Janeiro – RJ
2005
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2
UFRJ
ALTERAÇÕES PSICOFISIOLÓGICAS DOS TRABALHADORES
DE ENFERMAGEM NO SERVIÇO NOTURNO
MARCIA MOREIRA DE OLIVEIRA
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pósgraduação em Enfermagem, Escola de Enfermagem Anna
Nery, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como
parte dos requisitos necessários à obtenção do título de
Mestre em Enfermagem
Orientadora: Profª Drª. Marcia Tereza Luz Lisboa
3
Rio de Janeiro – RJ
2005
Oliveira, Marcia Moreira de.
Alterações psicofisiológicas dos trabalhadores de enfermagem no
serviço noturno / Marcia Moreira de Oliveira. - Rio de Janeiro: UFRJ/
EEAN, 2005.
127f. il.; 31 cm.
Orientador: Marcia Tereza Luz Lisboa
Dissertação (Mestrado) – UFRJ/Escola de Enfermagem Anna Nery/
Programa de pós-graduação em Enfermagem, 2005.
Referências Bibliográficas: f. 106-113.
1. Enfermagem. 2. Saúde Ocupacional. 3. Sono. I. Lisboa, Marcia
Tereza Luz.
II. Universidade Federal do Rio Janeiro, EEAN,
Programa de Pós-graduação em Enfermagem. III. Título.
CDD 610.73
4
ALTERAÇÕES PSICOFISIOLÓGICAS DOS TRABALHADORES DE
ENFERMAGEM NO SERVIÇO NOTURNO
Marcia Moreira de Oliveira
Orientadora: Profª Drª. Marcia Tereza Luz Lisboa
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Enfermagem, Escola
de Enfermagem Anna Nery, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos
requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Enfermagem.
Banca Examinadora:
_________________________________________
Profª. Drª. Marcia Tereza Luz Lisboa
(Presidente)
__________________________________________
Profª. Drª. Maria Yvone Chaves Mauro
(1º Examinadora)
__________________________________________
Profª. Drª. Regina Célia Gollner Zeitoune
(2º Examinadora)
_________________________________________
Prof. Dr. José Antônio Cupello
(Suplente)
_________________________________________
Profª. Drª. Marilurde Donato
(Suplente)
5
Nada é melhor para o homem do que alegrar-se
e procurar o bem-estar durante sua vida; e que
comer, beber e gozar do fruto de seu trabalho é
um dom de Deus.
(Eclesiastes 3:12-13)
6
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus por permitir a conclusão de mais um desafio.
Aos meus familiares, Elpidio, Marina, Monica e Mariana,minha tia e madrinha
Lúcia, parentes e amigos e a todos aqueles que contribuíram para esta Dissertação de
Mestrado, principalmente com sua presença e incentivo.
À Direção do Hospital, Divisão de Enfermagem, Chefia de Enfermagem do Centro de
Terapia Intensiva (CTI) que entenderam a importância da realização da pesquisa e
autorizaramu a execução da mesma. Agradeço pela atenção.
Agradeço ao Sindicato dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem do Rio de Janeiro
(SATEMRJ) pela colaboração.
À Cristiana Casseres, Débora e Vilza, pelo apoio e amizade.
Especialmente a todos os sujeitos desta pesquisa, que se mostraram interessados e
dispostos a colaborar com relatos de suas vivências referente ao estudo.
Aos professores, mestrandos, doutorandos e funcionários da Escola de Enfermagem
Anna Nery, em especial aos funcionários da pós-graduação Jorge Anselmo, Leila
Márcia Pinto Coelho, Maria Cristina Studart, Sônia Xavier e Sylvia Letícia Xavier
pela disponibilidade e atenção que demonstraram neste processo.
Aos professores doutores que fizeram parte das diversas bancas examinadoras durante
este processo, José Antônio Cupello, Maria Yvone Chaves Mauro, Marilurde Donato,
Norma Valéria Dantas de Oliveira Souza e Regina Célia Gollner Zeitoune que
aceitaram o convite contribuindo de modo tão significativo para o estudo.
À Profª. Drª. Marcia Tereza Luz Lisboa pela orientação, atenção, dedicação e
incentivo e conhecimentos que contribuíram muito para o caminhar deste trabalho e
especialmente pela sua amizade no decorrer destes anos. Foi muito proveitoso!
Obrigada.
À Celeste que ajudou na formatação deste trabalho.
À Raphaela Ximenes que realizou a tradução do resumo.
7
RESUMO
OLIVEIRA, Marcia Moreira de. Alterações Psicofisiológicas dos Trabalhadores de
Enfermagem no Serviço Noturno. 2005. Dissertação (Mestrado em Enfermagem) – Escola
de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005.
Trata-se de um estudo descritivo do tipo estudo de caso sobre as alterações psicofisiológicas
dos trabalhadores de enfermagem no serviço noturno que atuam em um Centro de Terapia
Intensiva (CTI). Encontra-se cadastrado no Núcleo de Pesquisa Enfermagem e Saúde do
Trabalhador (NUPENST) EEAN/UFRJ na linha de pesquisa Enfermagem e Saúde do
Trabalhador de Enfermagem. Neste estudo objetivou-se identificar as alterações
psicofisiológicas nos trabalhadores de enfermagem do serviço noturno que atuam em um CTI;
descrever as repercussões que as alterações psicofisiológicas trazem para a saúde do
trabalhador de enfermagem do serviço noturno que atua em um CTI; discutir as estratégias
defensivas utilizadas pelo trabalhador de enfermagem do serviço noturno para lidar com as
alterações psicofisiológicas geradas pelo serviço noturno, com base nos estudos de Dejours
(1992), Yin (2001), Fischer et al. (2004). Utilizou-se as seguintes fontes de evidências:
entrevista semi-estruturada, observação direta e formulário, que foram aplicados em
março/2005. Participaram 14 trabalhadores de enfermagem de um Hospital Público. Atendeuse os aspectos éticos da Resolução 196/96 do CNS/MS. Foram criadas as seguintes categorias
para análise dos dados coletados: alterações psicofisiológicas identificadas, repercussões para
a saúde e estratégias utilizadas pelos trabalhadores de enfermagem. As evidências analisadas
confirmam que existem alterações psicofisiológicas durante o trabalho noturno nestes
trabalhadores e que as repercussões para a saúde são mais visíveis socialmente do que aquelas
relacionadas ao biológico. Concluiu-se que os trabalhadores conhecem os efeitos negativos
que podem ser causados pelo turno de trabalho noturno, mas nem sempre conseguem lidar
com estas situações de forma adequada.
Descritores: Enfermagem, Saúde Ocupacional e Sono.
8
ABSTRACT
OLIVEIRA, Marcia Moreira de. Psychophysiological alterations of the Nursing Workers
in the Nocturnal Service. 2005. Dissertação (Mestrado em Enfermagem) – Escola de
Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005.
It is a descriptive study of the type case study about the psychophysiological alterations of the
nursing workers in the nocturnal service who act in a Center of Intensive Therapy (CTI). It is
registered in the Nucleus of Research Nursing and Health of Worker (NUPENST)
EEAN/UFRJ in the research line Nursing and Health of the Worker of Nursing. In this study
it was objectified to identify the psychophysiological alterations in the workers of nursing of
the nocturnal service who act in a CTI; to describe the repercussions that the
psychophysiological alterations brings for the health of the nursing worker of the nocturnal
service that acts in a CTI; to argue the defensive strategies used by the worker of nursing of
the nocturnal service to deal with the psychophysiological alterations generated by the
nocturnal service, on the basis of the studies of Dejours (1992), Yin (2001), Fischer et al.
(2004). Was used the following sources of evidences: half-structuralized interview, direct
observation and form that had been applied in march/2005. 14 workers of nursing of a Public
Hospital had participated. It was took care of the ethical aspects of the Resolution 196/96 of
the CNS/MS. The following categories for analysis of collected data had been created:
psychophysiological alterations identified, repercussions for the health and strategies used for
the nursing workers. The analyzed evidences confirmed that the psychophysiological
alterations exist during the nocturnal work in these workers and that the repercussions for the
health are more visible socially of that those related to the biological one. It was concluded
that the workers know the negative effect that can be caused by the turn of nocturnal work,
but nor always they could deal with these situations in an adequate way.
Keywords: Nursing, Occupational Health and Sleep.
9
LISTA DE TABELAS
Tabela 1
– Perfil dos Trabalhadores de Enfermagem, segundo a função no setor,
faixa etária, grau de escolaridade, sexo, estado civil, filhos, outro
vínculo empregatício e opção pelo turno de trabalho.
53
10
LISTA DE APÊNDICES
Apêndice A
- Protocolo do Estudo de Caso - (Instrumento de Coleta de Dados)
115
Apêndice B
- Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
(para os trabalhadores de enfermagem)
123
Apêndice C
- Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
(para o presidente do Sindicato SATEMRJ)
124
11
LISTA DE ANEXOS
Anexo A
- Folha de rosto utilizada para a Autorização da Instituição (Hospital)
126
Anexo B
- Aprovação da Pesquisa pelo CEP
127
12
SUMÁRIO
RESUMO
ABSTRACT
LISTA DE TABELAS
LISTA DE APÊNDICES
LISTA DE ANEXOS
CAPITULO I
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
13
1.1 Objeto
13
1.2 Problemática
13
1.3 Questões Norteadoras
19
1.4 Objetivos
20
CAPITULO II
REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Trabalho
22
22
2.1.1 Trabalho de Enfermagem
23
2.1.2 Trabalho em Turnos e Noturno
24
2.1.3 Legislação do Trabalho Noturno
29
2.2 Cronobiologia Humana
31
2.3 Alterações Psicofisiológicas ao Longo do Trabalho Noturno
34
2.4 A Organização do Trabalho e as Estratégias Defensivas
45
CAPITULO III - METODOLOGIA
49
3.1 Tipo de Estudo
49
3.2 Cenário do Estudo
50
3.3 Sujeitos da Pesquisa
53
3.4 Protocolo do Estudo de Caso
55
3.5 Estudo de Caso Piloto
56
3.6 Princípios do Estudo de Caso
56
3.7 Aspectos Éticos
60
13
CAPITULO IV
ANÁLISE FINAL DAS EVIDÊNCIAS
4.1 Alterações Psicofisiológicas Identificadas nos Trabalhadores de Enfermagem
63
63
4.1.1 Déficit ou Perturbação do sono
64
4.1.2 Fadiga
66
4.1.3 Diminuição da concentração
69
4.1.4 Insatisfação
70
4.1.5 Estresse
73
4.1.6 Envelhecimento precoce
77
4.1.7 Obesidade
78
4.2 Repercussões para a Saúde dos Trabalhadores de Enfermagem
80
4.2.1 Inadequação alimentar
80
4.2.2 Necessidade de cumprir com as obrigações logo após chegar em casa
82
4.2.3 Interferência no lazer
84
4.2.4 Interferência no relacionamento familiar
87
4.2.5 Interferência no aprendizado
89
4.2.6 Maior risco para a ocorrência de acidentes
91
4.3 Estratégias Defensivas Utilizadas pelos Trabalhadores de Enfermagem
92
4.3.1 Ignorar a situação
93
4.3.2 Comer demasiadamente
94
4.3.3 Controle do tempo durante a execução das tarefas
95
4.3.4 Pausa programada para o descanso
98
4.3.5 Alteração do plantão
99
CAPITULO V
CONSIDERAÇÕES FINAIS
101
SUGESTÕES
104
REFERÊNCIAS
106
APÊNDICES
114
ANEXOS
125
14
CAPÍTULO I
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Esta pesquisa tem como objeto de estudo as alterações psicofisiológicas que, de
acordo com Costa, F. (2000), são alterações na conexão entre os fenômenos orgânicos e
mentais, ou seja, são processos que estão interligados; e as estratégias utilizadas pelo
profissional de enfermagem do serviço noturno que atua em um Centro de Terapia Intensiva
(CTI). Pretendo, neste capítulo, descrever a minha trajetória acadêmica e profissional que
fundamentou a escolha desta temática.
Iniciei minha graduação em 1996, na Faculdade de Enfermagem da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro, e logo tive a oportunidade de ingressar como bolsista de Estágio
Interno e Iniciação Científica no campo da saúde do trabalhador.
Entre os vários trabalhos que desenvolvi como bolsista de Iniciação Científica, cito “O
Estresse nos acadêmicos de Enfermagem” (não publicado) como aquele que marcou o período
do início da minha preocupação com o bem-estar físico, mental e social do profissional de
enfermagem.
A pesquisa decorrente da bolsa de Iniciação Científica tornou-se minha monografia do
curso de Graduação intitulada: “A Situação de Saúde dos Trabalhadores de Transporte de
Cargas de uma Empresa em Volta Redonda” (2000). Essa pesquisa foi a minha primeira
aproximação com uma abordagem relacionada ao trabalho noturno, onde os trabalhadores
exerciam suas atividades em turnos fixos, dependendo da função exercida.
Em 2000, concluí o curso de Graduação em Enfermagem, iniciando a residência em
enfermagem na qual a escala de trabalho incluiu regime de plantões noturnos, sendo este
também característico do serviço de saúde.
15
No ano seguinte, ingressei como funcionária de um Hospital Público trabalhando em
plantões noturnos no setor de emergência, sendo transferida depois para o CTI onde continuo
atuando até hoje. A partir de várias observações percebi empiricamente algumas alterações
psicofisiológicas (cansaço, irritabilidade, sonolência, insônia, alimentação inadequada e
irregularidade dos horários para a mesma, queixa de constipação intestinal, alteração no peso
e cefaléia) nos profissionais de enfermagem decorrentes e/ou intensificadas pelo trabalho
noturno.
Segundo Fischer et al. (2004), o trabalho noturno interfere no bem estar físico, mental
e social do trabalhador a medida que perturba a homeostase fisiológica (ritmos circadianos,
sono e alimentação).
Fischer et al. (2002) mencionam que entre os mais antigos profissionais que trabalham
em turnos encontram-se os dos serviços de saúde, dentre eles, os enfermeiros e os auxiliares
de enfermagem. Santos e Mattos (2001), afirmam que para a grande maioria desses
profissionais, suas jornadas de trabalho são infinitas, chegando a acumular empregos, por
conta dos baixíssimos salários com execução de 36 a 48 horas consecutivas de trabalho nos
turnos diurnos e noturnos.
Entre as várias situações vivenciadas, gostaria de mencionar que certo dia, estava
muito cansada (tinha vindo de um emprego noturno) e ao iniciar o exame físico em um
paciente acabei dormindo em pé segurando o estetoscópio (aparelho para ausculta pulmonar e
cardíaca) como se estivesse examinando o paciente. Acordei ao ser chamada por outra
enfermeira que percebeu o que estava acontecendo; tive que reiniciar todo exame, pois não
lembrava mais o que havia feito.
O relato acima mostra como o turno de trabalho influencia na saúde do trabalhador e
no desempenho das atividades. Cabe lembrar que ocorre uma influencia do setor onde o
trabalho é desenvolvido.
16
Esta pesquisa foi realizada em um Centro de Terapia Intensiva (CTI) que tem
peculiaridades que diferem de outros setores do hospital, por ser um setor com ritmo de
trabalho elevado, onde a carga física e mental é muito grande. A criação do Centro de Terapia
Intensiva (CTI) ocorreu por volta dos anos 60, quando houve necessidade de atender
pacientes graves com cuidados especializados.
A origem da centralização dos pacientes num único local, com o intuito de melhorar a
prestação da assistência remonta ao século XIX com Florence Nightingale que colocou os
doentes mais graves próximos à central de enfermagem para permitir uma melhor observação
(BENDIXEN & KINNEY, 1979; SHOEMAKER, 1985; TAKITO & TAKITO, 1977 apud
SPINDOLA, 1999). Com o surgimento do CTI foram desenvolvidos a tecnologia e os
cuidados especializados pelos profissionais de saúde com o intuito de prestar melhor
assistência ao paciente.
O CTI pode ser definido, segundo Souza (1985), como sendo o “local destinado à
prestação de assistência especializada para atender pacientes graves, sendo necessário
controle rigoroso de seus parâmetros vitais e assistência de enfermagem contínua e intensiva”.
A mesma autora menciona que, na maioria das vezes, é esquecido o papel fundamental
que o profissional desempenha nesta unidade e que também sofre influência do meio que é
caracterizado por um ritmo intenso de trabalho e refletirá na carga física e mental sofrida por
esse profissional de enfermagem.
O CTI, por suas características, possui várias fontes de estresse, sendo uma delas a
organização do trabalho relacionada ao turno de trabalho (PARAGUAY, 1990 apud
FURLANI, 1999). Assim sendo, conforme Atkinson, Bibbings, Both (1987, 1987, 1988 apud
SPINDOLA, 1999), o estresse é uma resposta (tanto fisiológica como psicológica) do
organismo às pressões externas.
Conforme mencionam Colquhoun e Rutenfranz (1980 apud FISCHER et al., 2004):
17
O Estresse objetivo resultante das modificações e dessincronização dos ritmos
biológicos causados pelo trabalho em turno, as dificuldades e a lentidão de
ressincronização destes ritmos às modificações do ciclo vigília-sono induzem a um
estado de desgaste no trabalhador em turnos que pode afetar sua eficiência no
trabalho, sua saúde física e psicológica, seu bem-estar, sua família e vida social.
Em vários momentos, através de conversas informais com os profissionais de
enfermagem, ouvi queixas de estresse, cansaço, desânimo, dores nas pernas e coluna.
Certa vez um profissional de enfermagem disse:
"[...] Não estou comendo, por que será que estou engordando? Será que é
tireóide?”
Sabe-se que o trabalho noturno altera os hormônios, os hábitos alimentares, logo o
metabolismo, podendo também influenciar no peso corporal.
Um outro fato que pude presenciar foi quando, certa vez, durante um plantão noturno,
enquanto ia ao posto de enfermagem, encontrei um profissional de enfermagem dormindo em
pé, apoiando apenas as mãos na parede. Aproximei-me lentamente para não assustá-lo e o
acordei, o mesmo retornou ao trabalho a seguir, porém muito sonolento.
Os exemplos mencionados mostram que as mudanças nos horários de repouso trazem
alterações à maioria das funções fisiológicas e cognitivas, que se expressam de maneira
rítmica, e são significativamente perturbadas quando a pessoa dorme o sono principal fora do
período normal de repouso, que é o período noturno (FISCHER et al., 2004).
Evidente que a Organização Temporal do trabalho em turnos e noturno traz prejuízos
para a saúde do trabalhador podendo levar à maior morbidade entre os que trabalham no
serviço noturno, com elevados custos econômicos e sociais, tanto para o indivíduo quanto
para a sociedade.
O ambiente hospitalar é macro e diversificado, constituído de vários profissionais e
não somente os de saúde. Na grande maioria do Estado do Rio de Janeiro, as instituições são
públicas e prestam assistência à grande massa da classe trabalhadora tendo, no momento
atual, os males (déficit de material e recursos humanos) próprios dos setores públicos. Por tal
18
motivo, existem vários riscos ocupacionais, podendo levar o profissional ao adoecimento
(SANTOS e MATTOS, 2001).
No cotidiano da prática assistencial, em um centro de terapia intensiva, o desgaste
físico e mental é significante para o profissional de enfermagem, pois os pacientes estão
graves e necessitam de cuidados intensivos. Tal afirmativa é reforçada pelo presidente do
Sindicato dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem (SATEMRJ) quando menciona que o
desgaste físico e mental é muito maior à noite, não dormir é agressivo ao profissional porque
não é possível reparar esta perda.
Como mencionei anteriormente, observei empiricamente que o ritmo acelerado do
trabalho, muitas vezes, faz com que o profissional de enfermagem não atenda suas
necessidades básicas (alimentação, eliminações, sono e repouso,) tendo repercussões
negativas para a sua saúde.
Neste aspecto, o presidente do SATEMRJ diz que o profissional de enfermagem
precisa estar emocionalmente bem, porém os baixos salários, as inadequadas condições de
trabalho e o déficit de recursos humanos e tecnológicos tornam tal situação conflitante. O
trabalho noturno é indispensável para a sociedade, por outro lado viola uma das regras básicas
para o bom funcionamento fisiológico humano, que é o de deslocar os períodos de sono e
vigília (FISCHER et al., 2004).
Muitas das alterações, que podem ser ocasionadas pelo trabalho noturno, não passam
desapercebidas dos trabalhadores. O trabalho noturno, além de alterar o ritmo biológico, causa
também importantes interferências nas relações sociais do trabalhador, isto principalmente
porque a sociedade, como um todo, valoriza os finais de semana (sábado e domingo também)
mais do que qualquer outro dia da semana e o profissional de enfermagem encontra-se
trabalhando nesses dias.
19
Nas pesquisas relacionadas à saúde do trabalhador, as alterações psicofisiológicas são
comentadas nas falas dos profissionais de enfermagem, tanto na avaliação de questões
ergonômicas do trabalho (GUEDES, 2000) quanto nos fatores de estresse (OLIVEIRA, M.,
2002); estes também são mencionados por Meirelles (2002). A mesma refere que algumas
características da organização do trabalho são responsáveis pelo desencadeamento do estresse,
entre elas, as jornadas de trabalho prolongadas e os ritmos acelerados de trabalho.
As alterações psicofisiológicas estarão presentes no trabalhador considerando que o
nosso organismo tem uma necessidade de se adequar às situações do ambiente e tudo que
esteja relacionado a ele, porém isto não quer dizer que tal adequação aconteça.
Quando o profissional demonstra o limite de sua resistência na execução das tarefas
devido à carga psíquica e física estarem elevadas, muitas vezes já ultrapassou a sua
capacidade e começa a apresentar algum sinal e sintoma que o alerta de que é preciso se
cuidar.
França (1999) refere que o ser humano reage como um conjunto complexo, interligado
em profundas e complexas relações que, embora pouco compreendidas, são permanentes e
fundamentais em nossa vida. Essa inter-relação das dimensões biológica, psicológica e social
é inerente a cada ser humano e cada uma dessas características humanas contém aspectos
muito especiais e diferenciam-se em termos de funcionamento e modos de reação, mas são
totalmente interdependentes.
Este estudo justifica-se pela problemática apresentada. É necessário investigar de
maneira científica o que já foi identificado empiricamente, quais são e como se dão as
alterações psicofisiológicas do trabalhador de enfermagem em um CTI no serviço noturno.
Muitas pesquisas sobre o trabalho noturno foram realizadas. Teiger (1988 apud
PITTA, 2003) que compara taxas de mortalidade entre trabalhadores exercendo profissões
20
semelhantes no setor gráfico mostrou que, entre trabalhadores noturnos, a mortalidade era
mais precoce do que a dos trabalhadores diurnos.
A afirmativa anterior pode ser reforçada quando Costa, E. (2000) menciona que
apenas 5% a 10% dos trabalhadores em turnos (incluindo o serviço noturno) não têm
nenhuma queixa de saúde durante sua vida de trabalho.
Segundo Loterio et al. (2004), na última década, o tópico de trabalho em turnos tem
recebido uma significativa parcela de atenção por parte de pesquisadores de todo mundo; um
exemplo é a indústria de aviação que em termos globais, nas oscilações do seu arcabouço
fisiológico, psíquico e social exige 24 horas de atividades para fazer face às demandas
operacionais.
Desta forma, o estudo permitiu uma ampliação da reflexão e discussão sobre as
alterações psicofisiológicas na saúde do trabalhador de enfermagem proveniente do turno
noturno.
Tanto a temática do trabalho no CTI quanto a questão do trabalho noturno já foram
abordadas em outros estudos (FISCHER et al., 2004; PITTA, 2003). Entretanto, existe a
necessidade de investigar no cenário escolhido como a problemática se dá.
Neste sentido, foram elaboradas as seguintes questões norteadoras:
 Quais são as principais alterações psicofisiológicas no profissional de enfermagem
do serviço noturno que atua em um CTI?
 De que maneira as alterações psicofisiológicas repercutem na saúde do
profissional de enfermagem do serviço noturno que atua em um CTI?
 Como o profissional de enfermagem do serviço noturno que atua em um CTI lida
com as alterações psicofisiológicas?
21
Visando alcançar os seguintes objetivos:
 Identificar as alterações psicofisiológicas nos trabalhadores de enfermagem do
serviço noturno que atuam em um CTI;
 Descrever as repercussões que as alterações psicofisiológicas trazem para a saúde
do trabalhador de enfermagem do serviço noturno que atua em um CTI;
 Discutir as estratégias defensivas utilizadas pelo trabalhador de enfermagem do
serviço noturno para lidar com as alterações psicofisiológicas.
Este estudo contribuirá:

Para o ensino: ampliando a discussão dos professores e alunos de graduação e pósgraduação assim como coordenadores dos diversos cursos de enfermagem sobre a
importância de discutir estratégias que amenizem os agravos à saúde, que podem ser
provocados pelas alterações psicofisiológicas decorrentes do trabalho noturno.

Para a pesquisa: ampliando a discussão e reflexões sobre esta temática no campo da
saúde do trabalhador, além de permitir o estudo de outras realidades e possibilitando
criar novas estratégias, aprofundando o conhecimento que amenizem os riscos
existentes levantando propostas de mudanças no ambiente de trabalho, através de
discussões interdisciplinares. Cabe ressaltar que esta dissertação está registrada na
linha de pesquisa Enfermagem e a Saúde do Trabalhador de Enfermagem do Núcleo
de Pesquisa Enfermagem e Saúde do Trabalhador (NUPENST) do Departamento de
Enfermagem de Saúde Pública da Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN) da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para a instituição: permitindo a reflexão relacionada à temática e contribuindo para
a construção de estratégias que amenizem os danos ocasionados pelo serviço
noturno.
22

Para o profissional de enfermagem: permitindo a conscientização desta
problemática e a utilização de mecanismo e/ou estratégias de forma mais consciente,
além de contribuir para uma consciência política da equipe de enfermagem quanto
aos seus direitos.

Para a assistência: trazendo um reflexo direto na assistência, pois quanto melhor o
trabalhador de enfermagem souber lidar com essas alterações, melhor poderá
organizar o seu trabalho, evitar acidentes e oferecer uma assistência de qualidade e
com maior segurança para a população assistida.

Para os sindicatos: contribuir com informações relacionadas ao processo do
trabalho noturno para mudanças na legislação e no processo de conscientização dos
profissionais de enfermagem, visando o fortalecimento da classe na luta pelos seus
direitos.
23
CAPÍTULO II
REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Trabalho
A palavra trabalho e o qualitativo profissional são utilizados em psicologia para
designar toda atividade realizada tecnicamente com a finalidade de conseguir um rendimento
econômico (MAURO et al., 2004).
Segundo a mesma autora, constitui uma das práticas mais importantes da vida do ser
humano porque é dessa atividade que o homem tira os elementos para sua própria subsistência
familiar. Entretanto, o homem não deve trabalhar apenas pelo salário que recebe, mas também
pela satisfação pessoal que deve sentir na sua realização e pelos resultados que colhe através
do seu próprio esforço.
Com o passar dos anos, o progresso e o uso intensivo de tecnologia, baseados na
microeletrônica e nos métodos de informação e de automação, acarretaram, nas últimas
décadas, mudanças drásticas no processo de produção e na organização do trabalho, nas
relações sociais e, especialmente, em termos de qualificação profissional (VALADARES e
VIANA, 2005).
De acordo com as mesmas autoras, foram tão rápidos e freqüentes os avanços
tecnológicos, que impulsionaram os profissionais a atualizarem-se com todas as mudanças
nos diferentes aspectos de sua prática, e isso incluiu os profissionais da saúde que acabaram
dando prioridade às informações com melhor proximidade às necessidades de um tipo
específico de cliente.
24
2.1.1 Trabalho de Enfermagem
Segundo Nunes (2000) o trabalho em saúde caracteriza-se por ser a atividade
profissional que tem como agente o homem e este como sujeito de sua ação. Nesta interação
entre o trabalhador e o trabalho, estabelece-se uma relação estreita, considerando a natureza
de ambos.
A enfermagem nasceu como um serviço organizado, nos primórdios do cristianismo,
através da instituição do diaconato. A partir de então, passou a coexistir com a prática
exercida no interior dos lares, em atendimento às necessidades deste ou daquele de seus
membros. Desde então vem sofrendo uma série de transformações (SILVA G., 1989).
É uma das profissões da área da saúde cuja essência e especificidade é o cuidado ao
ser humano, individualmente, na família ou na comunidade, desenvolvendo atividades de
promoção, prevenção de doenças, recuperação e reabilitação da saúde, atuando em equipes.
O trabalhador de enfermagem responsabiliza-se, através do cuidado, pelo conforto,
acolhimento e bem estar dos pacientes, seja prestando o cuidado, seja coordenando outros
setores para a prestação da assistência e promovendo a autonomia dos pacientes através da
educação em saúde (ROCHA e ALMEIDA, 2000).
As mesmas autoras mencionam que, há cinqüenta anos aproximadamente, a
enfermagem vem revisando seu conhecimento e prática, reconstruindo muitas teorias e
modelos de intervenção em que pesem as diferenças decorrentes do contexto e clientelas para
os quais foram propostas, todas as modalidades de assistência referem-se ao ambiente e seu
impacto no ser humano, ao receptor do cuidado, isto é, o indivíduo, os grupos, a família e à
definição de saúde em que se pauta. A enfermagem é descrita como um processo que pode
integrar a relação entre estes componentes.
25
2.1.2 Trabalho em Turnos e Noturno
Ferreira e Rosa (2004) referem que o trabalho de enfermagem está entre os mais
antigos grupos profissionais que trabalham em sistemas de turnos. As escalas de trabalho em
hospitais são geralmente organizadas em turnos fixos contínuos, uma vez que os serviços
destas instituições exigem um funcionamento ininterrupto durante as 24 horas do dia, sete
dias por semana. No Brasil, já é uma tradição adotar-se, para o corpo de enfermagem, o turno
de 12 horas de trabalho diário (diurno ou noturno), seguido de 36 horas de descanso.
Trabalho em turnos é uma forma de organização da jornada diária de trabalho em que
são realizadas atividades em diferentes horários ou em horário constante, porém incomum. O
serviço noturno é um exemplo (PINTO et al., 2000).
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT) a Convenção 171 de 1990, o
trabalho noturno designa aquele que é realizado durante um período de pelo menos sete horas
consecutivas, que abranja o intervalo compreendido entre a meia noite e cinco horas da
manhã.
Para Fischer et al. (2004), a história da organização do tempo de trabalho pode ser
traçada desde o início da vida. O trabalho noturno é relatado desde o Império Romano até a
época atual.
Nas estreitas ruas das cidades romanas havia grandes congestionamentos durante o dia
de mercadores, camponeses e circulação de veículos. Os imperadores Claudius e Marcus
Aurelius, tanto na Itália como em todas as outras cidades do Império, proibiram algumas
atividades durante o dia. Assim sendo, os trabalhadores que deviam conduzir mercadorias
passaram a trabalhar à noite.
Durante a Idade Média, houve diminuição do trabalho noturno por conta das
migrações populacionais das cidades para os campos e da predominância das atividades dos
artesãos que se dedicavam ao trabalho durante o dia.
26
O trabalho noturno volta a crescer quando inicia a atividade mineira. Logo após ocorre
a Revolução Industrial na Europa. Com as grandes descobertas e necessidade de produção nas
fábricas o trabalho passa a ser realizado durante o dia e durante a noite. No início era comum
empregar homens, mulheres, crianças para trabalharem longas horas.
Uma das limitações do trabalho noturno era a precária iluminação, porém em 1800
surgiu a iluminação a gás, posteriormente, a querosene na metade do século XIX. Quando a
lâmpada elétrica foi inventada por Thomas Edson, aumentou a escala de trabalho para os
horários noturnos.
O grande avanço industrial e do comércio, no final do século XVIII e início do século
XIX, levou milhares de pessoas a migrarem dos campos para as cidades; a duração dos dias
de trabalho teve cada vez menos relação com as horas do dia. Os limites entre o dia e a noite
não eram mais respeitados para a vigília e o descanso dos trabalhadores.
Durante o período da Renascença, o comércio adquiriu importância e o trabalho em
turnos e noturno expandiu com o aumento do transporte de passageiros e de matérias primas.
Ao mesmo tempo, estava acontecendo a evolução cultural, e esta resultou numa maior
conscientização do valor do tempo, o qual tornou-se valioso. Assim, o uso eficiente e
produtivo do tempo transformou-se em prioridade e o trabalho em turnos e noturno passou a
ser uma parte importante no uso do tempo (WAGNER, 1984 apud REGIS, 1998).
Rutenfranz (1989 apud PITTA, 2003) chama a atenção para o fato de que os grupos
profissionais que trabalham em regime de turnos há mais tempo são justamente os dos
serviços de auxílio (enfermeiras, parteiras e médicos) e os de serviços de guarda (vigias,
policiais, bombeiros etc.).
O autor ainda destaca como razões para a organização do trabalho em turnos, na
atualidade, três ordens de justificativas:
27

necessidades de natureza tecnológica: onde em certos ramos da produção a
interrupção do processo produtivo, se respeitadas as jornadas habituais de trabalho,
não se faria sem o prejuízo da qualidade dos produtos, havendo assim necessidade
de operações contínuas;

imposições econômicas: onde o custo do maquinário exige seu uso ininterrupto para
tornar a produção economicamente viável; graças à capacidade industrial de gerar
serviço. Segundo Fischer et al. (2004), os serviços de internet, bem como o aumento
das corporações internacionais que têm escritórios e serviços em vários países do
mundo, foram um importante passo para a expansão do trabalho não diurno, e em
dias tradicionalmente dedicados ao descanso semanal;

atendimento à população: pela procura de determinado produto pela população;
exigências de alguns segmentos do setor de serviços, incluindo-se aqui os serviços
de saúde.
Martinez e Oliveira (1997) comentam que há uma tendência para o aumento do
percentual de mão de obra envolvida em trabalho em turnos.
Pallone (2004) destaca que apesar da comodidade de ter serviços e produção nas 24
horas por dia isto pode implicar em problemas de saúde naqueles que trabalham no período da
noite. Para Coelho (2003), esses profissionais estão mais propensos a manifestar fadiga
crônica, distúrbios digestivos, cardiovasculares e problemas no convívio social.
Atualmente, existem no Brasil cerca de 64 milhões de trabalhadores empregados há 10
anos ou mais em vários tipos de trabalho, conforme dados obtidos pelo recenseamento
realizado no ano 2000. Quase a metade dessa população (cerca de 28 milhões) trabalha mais
que 44 horas semanais, ou seja, além de trabalhar mais que o número de horas semanais
previstas em lei, ainda o faz em horário noturno (FISCHER et al., 2005).
28
Cada vez mais, particularmente nos grandes centros urbanos, vários serviços são
oferecidos nas 24 horas, a fim de atender as necessidades das pessoas (supermercados,
cinemas, restaurantes, academia de ginástica).
Fischer et al. (2004) referem que o trabalho realizado fora dos horários usuais (8hs ou
9hs até 17hs ou 18hs) faz parte do grupo de fatores psicossociais que interagem nos processos
saúde-doença.
Segundo a Fundacentro (1990) a 77º Conferência Internacional do Trabalho discutiu
numerosas proposições sobre o trabalho noturno, estabelecendo recomendações quanto à
duração do trabalho, períodos de descanso, compensações pecuniárias, aspectos relacionados
com a segurança e saúde, serviços sociais, entre outros. Entre as recomendações surge uma
novidade: a necessidade de ser dada uma atenção especial aos efeitos cumulativos originados
por fatores que provocam agravos à saúde, inclusive às formas de organização do trabalho
noturno.
No caso do serviço de saúde, a organização do trabalho ocorre por regime de plantões
que podem ser variados, nos quais a equipe que vai assumindo o trabalho, dá continuidade, e
assim por diante.
Fischer et al. (2004) mencionam que para tolerar trabalho de 12 horas deve-se levar
em conta não somente as alterações do ritmo circadiano, mas também vários outros fatores.
Por exemplo, 12 horas de trabalho em um centro de terapia intensiva (CTI), onde o ritmo de
trabalho é intenso, o paciente encontra-se em estado grave e dependente da vigilância
contínua da equipe de enfermagem, existe uma demanda de carga psíquica e física que pode
gerar um processo de exaustão nestes trabalhadores.
Geralmente, o profissional de enfermagem traz consigo uma carga psíquica que é
acentuada ou amenizada pela questão fisiológica e vice-versa, dificultando a delimitação do
início de uma e o término da outra.
29
Existe uma rede de sociabilidade cujas características tanto podem sobrecarregar o
trabalhador como ao contrário, levá-lo a lidar melhor com o trabalho em turnos.
Cada vez mais estão aumentando os estudos de cronobiologia relacionados à
organização do trabalho e o trabalho noturno. Destaca-se que os sincronizadores individuais
estão invertidos em relação aos sincronizadores sociais, provocando alterações nos ritmos
circadianos, trazendo desordens na esfera biológica, social e psicológica desses trabalhadores.
Deve-se levar em conta os familiares desses trabalhadores que também são atingidos.
Importante enfatizar que a preferência, na maioria das vezes, pelo serviço noturno
ocorre pela perspectiva de novos empregos, permitindo vários empregos e jornadas de
trabalho, o que é comum nos profissionais de enfermagem, a fim de ampliar a renda familiar,
especialmente em um país onde os baixos salários pressionam para tal. Esta prática
potencializa a ação daqueles fatores que por si só danificam suas integridades física e psíquica
(PITTA, 2003).
O trabalho noturno acaba interferindo, também, no aspecto social, ou seja, quando o
trabalhador vai para casa nem sempre descansa, principalmente se esse profissional for do
sexo feminino porque geralmente recai sobre a mulher a responsabilidade do cuidado com o
marido, filhos e tarefas domésticas.
Atualmente, a participação de alguns homens nas atividades do lar é evidente, porém
esta atividade ainda se encontra muito atrelada à figura da mulher, ou seja, cuidar da casa, dos
filhos, do marido.
Thierry e Jansen (1982) afirmam que quanto mais os trabalhadores se queixavam de
problemas sociais e familiares, mais eles manifestavam queixas subjetivas sobre a saúde,
ressaltando a inter-relação existente entre a saúde e a vida sociofamiliar.
Segundo a Convenção 171 (OIT, 1990), relacionada ao trabalho noturno, Art.4, se os
trabalhadores solicitarem, eles poderão ter direito a que seja realizada uma avaliação do seu
30
estado de saúde gratuitamente e a serem assessorados sobre a maneira de atenuarem ou
evitarem problemas relacionados com seu trabalho.
Essa mesma Convenção, no Art. 6, menciona que os trabalhadores noturnos que, por
razões de saúde, sejam declarados não aptos para o trabalho noturno serão colocados, quando
for viável, em função similar para a qual estejam aptos.
A permissão para dormir à noite durante o turno de trabalho é uma medida que visa
reduzir a fadiga e o débito de sono que tendem a se acumular ao longo de várias noites de
trabalho. Esta questão, para Fischer et al. (2004), é controvertida, ressaltando que alguns
autores, como Katutaka Kogi (pesquisador do Instituto de Ciência do Trabalho no Japão),
acreditam que os cochilos reduzem a fadiga. Opiniões contrárias, como a de Donald Tepas
(Pesquisador de Trabalho em Turnos), mencionam que episódios de sono prolongado durante
o trabalho poderiam atrapalhar o repouso após a jornada, pois pode facilitar o sono
involuntário.
2.1.3 Legislação do Trabalho Noturno
Em 12 de maio de 1999, foi publicada, no Diário Oficial da União, a nova
regulamentação acerca das doenças profissionais e doenças relacionadas com o trabalho,
regulamentando o Decreto 3.048, de 6 de maio de 1999. O trabalho em turno e noturno passou
a ser considerado como agente etiológico ou fator de risco de natureza ocupacional, sendo
descrito como má adaptação à organização do horário de trabalho.
Na rede pública, o trabalho noturno possui algumas questões diferenciadas quando é
comparado com o da rede privada. Essa informação também é reforçada pelo SATEMRJ, que
mencionou algumas questões importantes quanto ao adicional noturno, alimentação e
repouso.
31
Em 1994, os profissionais de enfermagem do município do Rio de Janeiro, através de
uma luta política, conseguiram o adicional noturno, que consta na Constituição Federal, no
seu artigo 7º, inciso IX onde estabelece que é direito dos trabalhadores, além de outros,
remuneração do trabalho noturno superior à do diurno (BRASIL, 1988).
O acréscimo (chamado adicional noturno) é de 20% sobre o salário, exceto quando em
revezamento semanal ou quinzenal, percentagem que incide sobre quaisquer valores, tais
como férias, 13º salário, FGTS, etc.
Os profissionais de enfermagem estatutários que trabalham à noite não recebem
complementação salarial noturna porque o artigo relacionado ao adicional consta apenas na
Constituição Estadual, o Poder Legislativo e Executivo ainda não regulamentaram.
Em 2002, o SATEMRJ entrou com uma ação chamada "Mandato de Injução”1 que
geralmente é conhecido como Mandato de Segurança no Superior Tribunal de Justiça (STJ)
no caso das Empresas que não pagam o adicional noturno, com o objetivo de declarar este
direito para os auxiliares e técnicos de enfermagem associados ao Sindicato, já que se trata do
coletivo.
O SATEMRJ define descanso como um local de repouso para deitar, repousar, relaxar
o corpo, a fim de recuperar a energia. Neste aspecto, o SAMTERJ pretendia fazer convenções
coletivas de trabalho com o sindicato dos Hospitais em fevereiro de 2005, com o objetivo de
fiscalizar o descanso (local e duração) dos profissionais de enfermagem no serviço noturno.
No Brasil, o trabalho noturno tem hora de trabalho reduzida, igual a 52 minutos e 30
segundos e tem remuneração 20% superior à hora diurna. Pela legislação brasileira
(Consolidação das Leis do Trabalho, Seção IV, Do trabalho noturno), o trabalho noturno
1
Quando a elaboração da norma regulamentadora for atribuição do Governador, da Mesa da Assembléia
Legislativa, do Tribunal de Contas do Estado, dos Prefeitos e da Mesa da Câmara de Vereadores, bem como
de órgão, entidade ou autoridade das administrações direta ou indireta, estaduais ou municipais (Seção III do
Tribunal de Justiça – art.87).
32
ocorre a partir de 22:00 horas de um dia até, pelo menos, 05:00 horas do dia seguinte
(BRASIL, 1943).
De acordo com o Decreto nº 4.836 de 09 de setembro de 2003, entende-se por período
noturno aquele que ultrapassar as vinte e uma horas (BRASIL, 2003).
2.2 Cronobiologia Humana
O homem ajusta-se a ciclos ambientais como o dia e a noite e as estações do ano.
Quando essas oscilações repetem-se de modo regular denomina-se de ritmos biológicos.
A cronobiologia é um ramo relativamente recente do conhecimento biológico que se
ocupa da dimensão temporal da matéria viva, sendo os ritmos biológicos seus aspectos mais
conhecidos (MARQUES e MENNA-BARRETO, 1997).
Para Ferreira, H. (2005), basicamente cronobiologia é a ciência que estuda os padrões
dos ritmos biológicos do corpo humano.
O primeiro experimento cronobiológico do qual se tem registro data do século XVIII,
quando um astrônomo francês resolveu colocar um vaso de plantas dentro de um baú para ver
se o movimento das folhas (abertas de dia, fechadas à noite) persistiria em uma condição de
isolamento do ciclo dia/noite. Com esse experimento pode-se afirmar que dentro do
organismo acontecia algum fenômeno responsável por essa ritmicidade.
Quando pensamos nos profissionais que trabalham à noite, devemos lembrar que seus
organismos passarão por uma fase de adaptação, pois a espécie humana é diurna. Ocorrem
algumas alterações orgânicas na temperatura, nos hormônios, na psique, no comportamento e
no desempenho.
Os ritmos cronobiológicos influem tanto nos fatores fisiológicos quanto nas
habilidades motoras. Os fatores fisiológicos afetados incluem: força, velocidade, energia e
resistência. As habilidades motoras influenciadas incluem coordenação e tempo de reação.
33
Em adição a estes fatores físicos, um ciclo baixo em seu ritmo cronobiológico pode ter o
efeito indesejado de transformar seu cérebro em mingau com baixos níveis de concentração,
foco, motivação, força mental e resistência à dor (FERREIRA, H., 2005).
As formas de organização do trabalho que não levam em conta a variabilidade do
indivíduo terão repercussões prejudiciais à saúde do mesmo. Portanto, não se pode exigir o
mesmo nível de produtividade desse trabalhador nas 24 horas.
Os ritmos biológicos podem ser divididos em 3 tipos:

Segundo Fischer et al. (2004), o ritmo biológico mais conhecido é aquele que tende
a coincidir com período do ciclo dia/noite de 24 horas. São os chamados ritmos
circadianos, a palavra circadiana foi introduzida por Halberg em 1959 que vem do
latim circa, aproximadamente, diem, dia;

Ultradiano (freqüência maior que no ritmo circadiano, ciclos com duração de
milionésimos de segundos até algumas horas, sempre inferior a 24 horas);

Infradiano (com freqüência menor que no ritmo circadiano, ciclos com duração
superior a 24 horas).
O enfoque desta pesquisa é sobre o ritmo circadiano já que as múltiplas funções
fisiológicas e psicológicas e comportamentais seguem este ritmo biológico.
O ritmo biológico pode ser dividido em duas categorias: os ritmos de economia
externa e os ritmos de economia interna. Os primeiros mantêm relação com os ciclos
ambientais, por exemplo, o ciclo de sono humano/vigília. O ritmo de economia interna não se
relaciona com os ciclos ambientais, por exemplo, o ciclo menstrual.
O nosso organismo segue uma Organização Temporal Interna, por exemplo, no final
de uma noite de sono, a nossa temperatura tende a elevar-se. À medida que acordamos, um
indivíduo sadio preserva essa Organização Temporal Interna. Quando ocorre algum quadro
patológico os eventos fisiológicos não acontecem como deveriam.
34
Também existe a Organização Temporal Externa que se referem às relações que o
organismo estabelece com os ciclos que acontecem no ambiente.
O serviço noturno é um bom exemplo de Organização Temporal Externa e que pode
ou não causar perturbação da Organização Temporal Interna. O que vai influenciar esta
questão é a carga horária trabalhada, a característica do indivíduo (matutinos, vespertinos) e a
demanda do serviço.
Fischer et al. (2004) referem que um indivíduo sadio, do ponto de vista de sua
ritmicidade biológica, é aquele que mantém preservada sua Organização Temporal Interna e
Externa.
O trabalho noturno provoca uma situação de desajuste não só do ponto de vista
psíquico e fisiológico, mas também social desse indivíduo porque geralmente ele vai dormir
quando todos deveriam estar acordados, ou então não dorme porque tem outras atividades
para desempenhar; isto ocorre principalmente quando esse trabalhador é do sexo feminino,
tendo que cuidar do marido, dos filhos e das atividades domésticas.
Alguns ritmos biológicos para se adequarem aos horários são mais lentos como, por
exemplo, a temperatura corporal. Os ritmos mais lentos terão ajustes correspondentes à 1 hora
por dia, ou seja, uma mudança que ocorra no trabalho de 12 horas, levarão 12 dias para serem
ajustadas.
Fischer et al. (2004) destacam algumas diferenças individuais que podem influenciar
na tolerância do trabalho noturno, os principais fatores são: idade, sexo, aptidão física, hábitos
de sono, algumas características de personalidade (introversão/extroversão), característica do
sistema circadiano (matutinidade/vespertidade, reatividade psicofisiológica, respostas aos
estímulos externos) que são extremamente importantes, pois o organismo não se comporta à
noite como se comporta de dia.
35
2.3 Alterações Psicofisiológicas ao Longo do Trabalho Noturno
A organização temporal do trabalho em turnos e noturno causa importantes impactos
no bem-estar físico, mental e social dos trabalhadores (FISCHER et al., 2004).
A organização do trabalho e os fatores individuais influem na tolerância do trabalho
noturno. Segundo Pitta (2003), a exposição a um ou mais fatores que produzam doenças ou
sofrimento no trabalho hospitalar decorre da própria natureza deste trabalho e de sua
organização, evidenciados por sintomas e sinais orgânicos e psíquicos inespecíficos.
Em 1998, o vice-governador em exercício no cargo de governador do Estado de São
Paulo decretou e promulgou a Lei de Estruturação das Atividades e da Organização do
Trabalho dos Riscos no Processo de Produção. Segundo a Lei, a organização do trabalho
deverá adequar-se às condições psicofisiológicas e ergonômicas dos trabalhadores, tendo em
vista as possíveis repercussões negativas sobre a saúde, quer diretamente, através dos fatores
que a caracterizam, quer pela potencialização dos riscos de natureza física, química ou
biológica, presentes no processo de produção, devendo ser objeto de normas técnicas.
A Norma Regulamentadora 17 (NR-17) trata de tal assunto e visa estabelecer
parâmetros que permitam a adaptação das condições de trabalho às características
psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um máximo de conforto,
segurança e desempenho eficiente (HSO, 1990).
Para Ferreira (1987 apud REGIS, 1998), toda vez que a atividade laboral exigir
trabalho em turnos e noturno não importando que seja feito em turno alternado ou fixo, o
trabalhador estará sempre sujeito a uma dessincronização e submetido a um maior risco de
apresentar uma série de distúrbios de ordem fisiológica e psicossocial.
Considerando a afirmativa e levando em consideração que o trabalhador de
enfermagem tem como seu cotidiano o lidar com a dor, o sofrimento e a morte, sem contar
que traz consigo as preocupações do seu dia-a-dia (família, estudos, trabalho); todos estes
36
fatores podem influenciar na saúde desse trabalhador e na qualidade e eficácia do serviço
prestado.
O conhecimento de que o trabalho adoece é milenar. Mesmo leis trabalhistas de vários
países que reconhecem as relações de causa efeito de vários agentes químicos, físicos e
biológicos na produção de doenças, poucos aceitam a forma de organização do trabalho como
fator morbigênico em si.
O serviço noturno acaba exercendo influência no ritmo de trabalho do organismo
(ritmo biológico) interferindo diretamente no ciclo sono/vigília, ocasionando perturbações na
vida familiar, tendências depressivas, problemas gástricos decorrentes das modificações
horárias na ingestão de alimentos, alterações psíquicas (mau humor, tristeza, desânimo,
estresse) e fisiológicas (distúrbios gástricos, cardiovasculares e do sono) para o trabalhador de
enfermagem.
De acordo com Regis (1998), o estresse ligado ao trabalho noturno resulta dos três
fatores gerais: dessincronização do ritmo circadiano, alteração da vida social e familiar. Estes
fatores podem interagir para produzir os efeitos prejudiciais sobre o bem-estar geral
psicológico e físico do trabalhador noturno devido à privação do sono.
O Sono
Segundo Suarez (1999), os transtornos de sono é uma das principais alterações que são
produzidas no trabalho noturno e se manifestam em um déficit de sono e perturbação durante
o mesmo.
No Brasil, campeão mundial de insônia, segundo pesquisa da Escola Paulista de
Medicina, um levantamento efetuado no Hospital das Clínicas de São Paulo revelou que
dormir mal deixa as pessoas mais suscetíveis a doenças, infecções, envelhecimento, alterações
37
do humor, como ansiedade e depressão, distúrbios de memória, mau funcionamento do
aparelho digestivo e até impotência (TAKADA, 2002).
As considerações anteriores são importantes porque a principal queixa dos
trabalhadores noturnos está relacionada ao sono, mesmo os que não têm insônia podem ter os
efeitos negativos mencionados porque têm que mudar as estratégias de sono de acordo com os
períodos de trabalho.
O sono é um estado de adormecimento da consciência, da sensibilidade e da atividade,
após uma jornada diária (COSTA, F., 2000). O sono está associado com uma variedade de
alterações fisiológicas, incluindo respiração, função cardíaca, tônus muscular, temperatura,
secreção hormonal e pressão sanguínea (MANTOVANI e RIBEIRO, 2005).
Acreditava-se que o sono tinha como principal função promover o repouso de todos os
sistemas, atualmente sabe-se que as descargas neurais que ocorrem neste período, muitas
vezes são maiores do que na vigília (FURTADO, 2004).
Pode-se dizer que o sono serve a uma função restauradora e homeostática
(MANTOVANI e RIBEIRO, 2005). Para Furtado (2004), a média diária de sono para um
adulto é de 7,5 a 8 horas. A privação de sono pode causar distúrbios que vão da fadiga intensa
e irritabilidade até alucinações.
Fisiologia do Sono
O núcleo supra quiasmático (NSQ) e a glândula pineal regulam o ritmo biológico. A
glândula pineal, localizada na área dorsal do cérebro, é comandada pelo hipotálamo, tem sua
função regulada pela luminosidade do dia que impede a glândula de produzir a melatonina.
Quando chega à noite, o NSQ recebe informações visuais diretas e a glândula pineal é
desbloqueada, pois a luz artificial é muito fraca para produzir o mesmo efeito, começando a
liberar seu hormônio que, além de induzir o sono, age como uma espécie de indicador para
38
todos os outros ritmos biológicos. Se um nível ótimo de melatonina não é produzido no
período próprio, o trabalhador não poderá experimentar uma qualidade de sono adequada
(REGIS, 1998).
Paralelamente, algumas horas após o início da produção de melatonina, outra glândula,
a hipófise, começa a segregar o chamado hormônio do crescimento (GH), cujo pico no
organismo se dá por volta das 3 horas da madrugada. Esse hormônio é responsável pela
renovação das células, um processo que repete noite após noite, ritmicamente.
O cortisol é produzido pelas glândulas supra-renais pouco antes da pessoa despertar e
prepara o organismo para a atividade, aumentando a resistência ao estresse físico (GUYTON,
1993). Por isso, que exercícios pela manhã cansam menos do que à noite, quando o cortisol
não é produzido. A prolactina é secretada em grande quantidade tanto no sono noturno quanto
no sono diurno.
Segundo Pinto et al. (2000), as principais alterações que ocorrem no organismo
durante as 24 horas são as seguintes:
Meia-Noite: aumenta a produção do hormônio responsável pelo crescimento. Açúcares e
gorduras são armazenados neste horário.
1 hora: as contrações uterinas alcançam seu ritmo máximo de intensidade.
2 horas: cresce o número de glóbulos brancos. O estado de alerta diminui.
3 horas: cai a temperatura corporal. A temperatura corporal sofre variações durante o dia
inteiro, onde ocorre aumento durante o tempo de maior atividade (na parte da tarde)
e depois um declínio considerável na madrugada.
4 horas: horário em que podem ocorrer casos de asma e abortos espontâneos.
5 horas: começam a aumentar as secreções hormonais que chegam a seu ponto máximo às
oito horas.
6 horas: podem surgir dores articulares, que se prolongam até às 8hs.
39
7 horas: os hormônios associados ao estresse têm sua primeira alta; ganham eficácia os
antihistamínicos, remédios que neutralizam as alergias.
8 horas: até às 12hs, aumento do ritmo cardíaco.
9 horas: bom para o trabalho intelectual (até às 11hs) e para cirurgias, devido ao aumento de
substâncias cicatrizantes na circulação.
10 horas: as secreções ácidas do estômago chegam ao seu ponto máximo; o álcool se
concentra mais rapidamente no sangue.
11 horas: podem surgir cansaço e diminuição do estado de alerta.
12 horas: sobem a pressão arterial e a temperatura do corpo.
13 horas: baixa a atenção (até às 15hs).
14 horas: cai a quantidade de glóbulos brancos; a produção de insulina alcança o seu ponto
mais alto.
15 horas: a força muscular está em sua plenitude, não havendo perigo de lesões nas
articulações.
16 horas: a temperatura corporal alcança o ponto máximo (até às 18hs).
17 horas: o rendimento intelectual está favorecido (até às 21hs).
18 horas: a pele está mais receptiva à ação de medicamentos em forma de creme ou gel (até
às 20hs).
19 horas: o organismo absorve melhor antiinflamatórios, remédios para úlcera, asma e artrite
(até às 22hs).
20 e 21 horas: são horas fatídicas, onde geralmente aparecem a angústia e a depressão.
22 horas: diminui o calibre dos brônquios, aumentam, ao mesmo tempo, as dificuldades
respiratórias.
23 horas: baixa o estado de alerta (até a meia noite); também é o período de maior excitação
sexual e fertilidade femininas (até às 2hs da manhã).
40
Neurotransmissores e o Sono
Segundo Regis (1998), participam da regulação do sono, além de vários
neurotransmissores, como serotonina, noradrenalina, acetilcolina, ácido gamabutilico
(GABA), histamina e adenosina, aminoácidos excitatórios como glutamato e aspartato,
peptídeos como interleucina 1, interferon alfa 2, colecistocinina 8, vasopressina e hormônios
(por exemplo: prolactina e hormônios do crescimento). Mesmo com tantas substâncias,
apenas a acetilcolina (Ach) possui uma função claramente definida, mas já é sabido que a
noradrenalina, a serotonina e a acetilcolina, correlacionadas, são de fundamental importância
para o estudo da regulação do sono.
Neurotransmissores que influenciarão no sono, estimulando ou inibindo seu processo:

Serotonina:
reguladora do sono lento (SL), localizada nos núcleos de rafe. A
atividade neste núcleo diminui conforme o sono se instala sendo reduzida a 50% no
SL e 10% no sono onde ocorre o movimento rápido dos olhos (sono REM). A
serotonina está mais relacionada com a regulação de atividade motora e sensorial na
vigília e não no sono, teria então um papel de inibição de neurotransmissores
excitatórios. Para Ferreira, H. (2005), a serotonina exerce grande influência no
estado de humor. Os níveis cerebrais de serotonina são dependentes da ingestão de
alimentos fontes de triptofano (aminoácido precursor da serotonina) e de
carboidratos. O triptofano, uma vez no cérebro, aumenta a produção de serotonina
que é o neurotransmissor capaz de reduzir a sensação de dor, diminuir o apetite,
relaxar e até induzir e melhorar o sono.

Noradrenalina (NA): estimula o sono REM, porém o aumento de NA também leva
a diminuição do sono REM.

Acetilcolina (Ach): tem papel modulador do sono REM.

Ácido gama-aminobutilico (GABA): liberado em maior quantidade no sono REM.
41

Adenosina: aumenta e atrasa o sono profundo (SP).
Estágios do Sono
Martino (2002) afirma que é importante estudar não só a arquitetura do sono, mas
também a estrutura temporal do ciclo sono-vígilia (CVS) e suas alterações. Por arquitetura,
deve-se entender a distribuição das fases do sono no tempo; por estrutura temporal do CVS,
deve-se entender o momento em que ocorrem o sono e a vigília dentro de um espectro de
freqüências que compõem esta alternância.
O ciclo do sono divide-se em 5 fases:
1º fase: com o início da sonolência há uma diminuição global da amplitude das ondas
(ondas tetas), caracterizando a primeira fase do sono;
2º fase: aparecem episódios de atividade de alta freqüência, fusos do sono, ondas
grandes e lentas de ocorrência ocasional (ondas delta). É a fase do sono caracterizado.
3º fase: caracteriza-se pela freqüência com que ocorrem as ondas delta e manutenção
do tônus muscular.
4º fase: há o sono profundo, dominado pelas ondas lentas (ondas delta), redução da
facilidade de acordar, com diminuição do tônus muscular, diminuição de 10 a 30% da
freqüência cardíaca e respiratória e redução da pressão arterial, bem como o metabolismo
basal. Essa fase é denominada de Sono de Ondas Lentas (SOL). É o sono repousante
considerado de recuperação física.
5º fase: a última fase caracteriza-se pelo sono de movimentos rápidos dos olhos (Rapid
Eye Movement – REM), onde o eletroencefalograma (EEG) é semelhante ao de uma pessoa
acordada e relaxada, freqüência cardíaca e respiratória, bem como a pressão arterial
aumentada, porém com baixo tônus muscular. Esta fase é conhecida como Sono Paradoxal
42
(SP), pois é um paradoxo a pessoa está dormindo e mantém acentuada atividade mental
cerebral, sem ter conhecimento do que a cerca.
Nesta 5ª fase, os indivíduos são difíceis de acordar, embora possam acordar
espontaneamente com mais freqüência do que nas fases mais profundas de sono de ondas
lentas. O sono REM está relacionado com a recuperação psíquica. Mello (2005) refere que
esta fase restabelece a parte cognitiva, sendo importante para a consolidação da memória.
Para Moreno et al. (2002), o sono ocorre alternadamente à vigília e em ambas as
situações há uma intensa atividade cerebral, o que suscita a idéia de que é essencial.
Geralmente as pessoas dão maior importância à vigília do que ao sono. No caso dos
profissionais que trabalham à noite, incluindo os trabalhadores de enfermagem onde muitos
dormem conforme seus compromissos sociais. Vários estudos já mostraram que a qualidade
do sono diurno não é a mesma da noite e por tal motivo podem acarretar sérios danos à saúde
desse trabalhador.
A privação do sono, quando excessiva e persistente, pode gerar fadiga, diminuição do
nível de alerta, irritabilidade. De acordo com Lavie (1996), estudos revelam que a privação
total do sono gera uma queda dos níveis funcionais diários, ou seja, diminuição da velocidade
de pensamento e de reações, assim como a ocorrência de alterações de humor e o aumento da
fadiga.
Maia (1999) também menciona que o trabalho noturno compromete a regulação e o
não atendimento à necessidade do sono pode desencadear alterações psíquicas.
A falta de qualidade do sono e a pouca duração faz com que os trabalhadores fiquem
sonolentos, muitas vezes não desempenhando bem suas atividades diárias. Os dados de
Akerstedt indicam que pelo menos 20% dos trabalhadores em geral apresentam um episódio
de sonolência forte o bastante para levá-los a dormir no trabalho (FISCHER et al., 2004).
43
Um outro fator importante é que estudos, segundo Axelsson e col. (1999), mostraram
que trabalhadores com atitudes positivas frente ao turno noturno têm menos problemas
subjetivos relacionados ao sono. Neste caso são os trabalhadores que conseguem adaptar-se
bem ao turno de trabalho em relação aos demais.
No decorrer de uma noite de sono, os sistemas e funções fisiológicas sofrem alterações
acompanhando os ciclos ultradianos. A cada momento do sono as respostas do organismo
serão diferentes. Conhecer a fisiologia do sono permite entender porque ocorrem alterações
orgânicas quando referimos o trabalho de enfermagem em um serviço noturno.
Distúrbios Digestivos
O trabalho noturno interfere com os horários e o conteúdo das refeições, favorecendo,
assim, problemas e transtornos digestivos. Estes se devem ao desequilíbrio entre os horários
das refeições e a secreção e a motilidade gastrintestinal (FISCHER et al., 2004).
As pesquisas têm demonstrado que o uso da cafeína conduz uma melhora da maioria
das medidas do desempenho cognitivo, particularmente o tempo de reação, memória,
vigilância e psicomotricidade. Acredita-se que a cafeína tenha propriedades colinérgicas
relacionadas ao aumento da cognição (FISCHER et al., 2004).
Segundo as mesmas autoras, são freqüentes as queixas dos trabalhadores noturnos de
transtornos de apetite, dificuldades de digestão, azia, dores abdominais e constipação (2070%, comparados a 10-25% dos trabalhadores diurnos) e que podem ainda desenvolver, em
longo prazo, doenças sérias como gastrite crônica (ferida inflamatória da mucosa gástrica),
gastroduodenite (inflamação do estômago e duodeno), úlcera péptica (doença psicossomática
devida à hiperacidez do estômago) e colite (inflamação aguda ou crônica do cólon).
Ferreira (1987 apud MAIA, 1999) afirma que as alterações gastrintestinais descritas
pelos trabalhadores noturnos são comuns. A autora ainda menciona que a nutrição é
44
comprometida à noite, pois a secreção de suco gástrico necessário para a digestão é mínima,
além desta alteração, o horário de dormir, trabalhar e comer estará alterado causando vários
desconfortos gástrico.
Os distúrbios podem estar relacionados à quantidade, à qualidade do sono, ao apetite e
à digestão dos alimentos, conduzindo a problemas estomacais e intestinais. O fato de uma
alimentação ocorrer no meio da noite pode causar problemas; inclusive é um dos fatores que
pode acarretar doenças cardiovasculares.
Distúrbios Cardiovasculares
Constituem a principal causa de morte em quase todo mundo. Outro fator importante é
o estresse no trabalho que pode causar uma ativação neurovegetativa com maior secreção de
hormônios de estresse e os conseqüentes efeitos na pressão arterial, no ritmo cardíaco, nos
processos trombóticos e no metabolismo de lipídios e da glicose. Estes problemas podem
ainda advir da interferência nos mecanismos compensatórios ligados às condições e aos
estilos de vida, por exemplo, tabagismo, ingestão alimentar, transtorno do sono (FISCHER et
al., 2004).
Durante os estágios do sono as funções cardiovasculares sofrem alterações:

A pressão arterial (PA) diminui durante o sono chegando a seu mínimo no sono
lento (SL) (estágio 3 e 4); durante o sono profundo (SP) a PA sofre grandes
variações (até 40mmHg), mas não ultrapassa o mínimo do sono lento. A pressão
arterial recupera seus níveis normais ao despertar independente do seu valor durante
o sono.

A freqüência cardíaca diminui no SL (mínima nos estágios 3 e 4). Já no SP ela se
torna inconstante e relacionada com as mudanças fásicas (movimentos oculares e
movimentos musculares).
45

As alterações no fluxo sanguíneo estão relacionadas com os locais de maior
necessidade metabólica. No SL o fluxo está relacionado com variações metabólicas
regionais e no SP ocorre um aumento significativo do fluxo.
Estresse
Segundo Iida (1992), quando uma pessoa recebe um estímulo qualquer do ambiente
para agir, há, imediatamente, uma preparação psicofisiológica do organismo para essa ação,
mobilizando a energia do corpo e ajustando o nível das funções fisiológicas. Se essa ação não
se completar, por um motivo qualquer, há uma frustração e a energia acumulada deve ser
dissipada, provocando efeitos físicos e psicológicos prejudiciais.
O estado emocional, causado por uma discrepância entre o grau de exigência do
trabalho e os recursos disponíveis para gerenciá-lo, define o estresse do trabalho
(GRANDJEAN, 1998).
As causas do estresse podem ser variadas:

Conteúdo do Trabalho: uma das maiores causas do estresse no trabalho é a pressão
para manter um ritmo de produção. No caso do trabalho noturno, o ritmo de trabalho
rápido ajuda a eliminar a vontade de dormir (AMICI, 2002).

Sentimentos de Incapacidade: o trabalhador pode ter uma percepção de incapacidade
para o trabalho quando não atende a demanda dentro de um prazo estabelecido.

Condições de Trabalho: condições físicas desfavoráveis, como excesso de calor,
frio, ruído exagerado, luzes inadequadas. Segundo uma publicação da BBC
(BRASIL, 2001), a luz artificial pode provocar alterações hormonais durante a noite
aumentando o risco de câncer nas mulheres que estão mais propensas ao mesmo.
46

Fatores Organizacionais: comportamentos com as chefias e demais colegas que
podem ser demasiadamente críticos e exigentes; salários, carreira, horários de
trabalho.

Pressões Econômico-Sociais: a preocupação com as despesas da família.
Fadiga
Para Grandjean (1998), relaciona-se com uma capacidade de produção diminuída e
uma perda de motivação para qualquer atividade. Quando pensamos em fadiga, lembramos
da sensação de cansaço. Não ocorre motivação para o trabalho físico e mental.
O autor ainda comenta que a sensação de cansaço não é desagradável quando o
trabalhador pode descansar. No caso do trabalhador noturno o momento do descanso é
interrompido e nem sempre é possível realizá-lo durante o dia devido os compromissos
sociais.
Santos e Trevizan (2002) mencionam que a fadiga está intimamente relacionada à
irritabilidade, alteração do humor, desgaste mental e físico.
2.4 A Organização do Trabalho e as Estratégias Defensivas
Segundo Shibuya (2004), em recente pesquisa realizada pelo International Stress
Management Association (ISMA) que ouviu mil profissionais de diversos países, o Brasil
liderou o ranking de horas trabalhadas por semana: com 54 horas, contra a média mundial de
41 horas.
A mesma autora menciona que no quesito exaustão física e emocional, que avalia o
nível de estresse do trabalhador, o Brasil registrou o segundo por índice, ficando atrás apenas
do Japão e superando países como China, Estados Unidos e Alemanha.
47
Para Ballone (2005), quanto mais avançam os meios de investigação da patologia,
mais se evidencia relevância dos fatores psicológicos na etiologia e desenvolvimento de um
grande número de doenças até então não consideradas como psicofisiológicas.
Mendes et al. (2002) referem que a organização do trabalho é resultado de um
processo intersubjetivo, no qual encontram-se envolvidos diferentes sujeitos em interação
com uma dada realidade, implicando uma dinâmica de interações própria às situações de
trabalho, enquanto lugar de produção de significações psíquicas e de construção de relações
sociais.
De acordo com Dejours (1992), organização do trabalho não é só a divisão do
trabalho, isto é a divisão de tarefas entre os operadores, os ritmos impostos e os modos
operatórios prescritos, mas também, a divisão de homens para garantir esta divisão de tarefas,
representada pelas hierarquias, as repartições de responsabilidade e os sistemas de controle.
O mesmo autor ainda comenta que quando a organização do trabalho entra em conflito
com o funcionamento psíquico dos homens onde se encontram bloqueadas todas as
possibilidades de adaptação, então surge um sofrimento patogênico. Considerando-se este
processo dinâmico, os sujeitos criam estratégias defensivas para se proteger.
Uma das formas de enfretamento do sofrimento pelo trabalho é a utilização de
estratégias defensivas coletivas. Dejours & Abdoucheli (1990 apud MENDES et al., 2002)
definem estratégias defensivas como os mecanismos utilizados pelos trabalhadores a fim de
negar ou minimizar a percepção da realidade que os faz sofrer.
Dejours (1992) fala sobre um tipo de defesa do subproletariado (que habita a zona
periurbana) que é descrita como ideologia defensiva. Esta se relaciona mais com a doença do
que com a saúde da população.
Seja em relação à prática médica ou à pesquisa a respeito da saúde, uma primeira
observação se impõe de imediato. Quando se está doente tenta-se esconder o fato dos outros,
48
mas também da família e dos vizinhos. Só quando não é possível esconder é que assume
vergonhosamente a vivência da doença – a ideologia da vergonha.
Além da doença, ideologia da vergonha consiste em manter à distância o risco de
afastamento do corpo ao trabalho e, conseqüentemente, a miséria, a subalimentação e à morte.
A principal saída frente à ansiedade concreta da morte é o alcoolismo.
O comportamento dos trabalhadores pode significar uma estratégia de defesa
(isolamentos psicoafetivo e profissional do grupo de trabalho, descrença, renúncia à
participação, indiferença, apatia).
As estratégias têm por objetivo mascarar, conter ou ocultar uma ansiedade
particularmente grave.
Indivíduos dotados de uma sólida estrutura psíquica podem ser
vítimas de uma paralisia mental induzida pela organização do trabalho.
As estratégias defensivas, por sua vez, podem ser utilizadas pela organização do
trabalho para aumentar a produtividade. O CTI por ter um ritmo intenso de trabalho, a carga
psíquica e fisiológica do trabalhador de enfermagem é muito significativa, a questão é saber
se a exploração do sofrimento pode ter repercussões sobre a saúde dos trabalhadores.
Contra a angústia do trabalho, assim como contra a insatisfação, os trabalhadores
elaboram estratégias defensivas, de maneira que o sofrimento não seja imediatamente
identificável. O sofrimento inicialmente fica mascarado e terá uma característica de acordo
com cada profissão, que constitui de certa forma sua sintomatologia.
A estrutura psíquica está intimamente relacionada com a integração do funcionamento
dos órgãos, sua desestruturação repercute sobre a saúde física e sobre a saúde mental do
trabalhador.
Poucos são os trabalhadores e as trabalhadoras que podem organizar o lazer de acordo
com seus desejos e suas necessidades fisiológicas; todavia, alguns dentre eles conseguem usálo harmoniosamente.
49
A questão das estruturas do tempo fora do trabalho é complicada, pois o homem tem
um condicionamento produtivo pela organização, ou seja, o trabalhador fica condicionado ao
ritmo de trabalho. Despersonalizado no trabalho, ele permanecerá despersonalizado em sua
casa.
É muito comum ouvir queixas dos trabalhadores a respeito da saúde física e condições
de trabalho como fonte de perigo para o corpo, sendo mais difícil fazer menção das
repercussões do perigo real a nível mental, da carga (de trabalho) psíquica inerente ao
trabalho.
A organização do trabalho exerce, sobre o homem, uma ação específica, cujo impacto
é o aparelho psíquico. Em certas condições, emerge um sofrimento que pode ser atribuído ao
choque entre uma história individual, portadora de projetos, de esperanças e de desejos, e uma
organização de trabalho que os ignora.
O sofrimento, de natureza mental, inicia quando o homem, no trabalho, já não pode
fazer nenhuma modificação na sua tarefa no sentido de torná-la mais satisfatória às suas
necessidades fisiológicas e seus desejos psicológicos – isto é, quando a relação homemtrabalho é bloqueada (DEJOURS, 1992).
50
CAPÍTULO III
METODOLOGIA
3.1 Tipo de Estudo
A investigação é de natureza qualitativa do tipo estudo de caso descritivo porque com
esta pesquisa analiso um fenômeno contemporâneo como ele realmente acontece.
A pesquisa qualitativa visa a análise sistemática de informações subjetivas, utilizando
procedimentos nos quais a tendência é um mínimo de controle imposto pelo pesquisador,
“enfatiza os aspectos dinâmicos, holísticos e individuais da experiência humana, tentando
apresentar tais aspectos em sua totalidade, no contexto daqueles que estão vivenciando”
(POLIT e HUNGLER, 1995, p. 18).
Lüdke e André (1986) mencionam que o estudo de caso visa à descoberta levando em
conta o contexto em que o objeto se situa. Possibilita ao profissional uma compreensão maior
do fenômeno investigado, através de diferentes maneiras de conhecer (MARTINELLI, 1999).
O trabalho noturno é fruto da necessidade de produção e funcionamento contínuo de
nossa sociedade (FISCHER et al., 2004). Neste sentido, Yin (2001) comenta que o estudo de
caso é adequado para fenômenos contemporâneos dentro do contexto da vida real.
As características do Estudo de Caso se superpõem às características gerais da
pesquisa qualitativa. Entre elas, destacam-se:

Visam à descoberta: mesmo que o investigador parta de alguns pressupostos teóricos
iniciais, o estudo de caso permite que novas descobertas e novas dimensões possam
ser acrescentadas no decorrer do estudo.

Enfatizam a interpretação em contexto: neste caso levou-se em conta o contexto em
que se situa o objeto de estudo, ou seja, permitiu compreender as repercussões das
51
alterações psicofisiológicas nos trabalhadores de enfermagem que atuam no serviço
noturno em um CTI;

Retratam a realidade de forma completa e profunda: teve como objetivo revelar a
multiplicidade de dimensões presentes numa determinada situação ou problema,
analisando-o como um todo. Considerando este aspecto, focalizei as alterações
psicofisiológicas nos trabalhadores de enfermagem dentro de um centro de terapia
intensiva, com os vários elementos que interagem para o surgimento das mesmas.

Usam uma variedade de fontes de informação: utilizei várias fontes de evidências,
permitindo cruzar informações, confirmar ou rejeitar as proposições teóricas.

Revelam experiência vicária2 e permitem generalizações naturalísticas: procurei
relatar as experiências durante o estudo de modo que o leitor possa fazer as suas
generalizações naturalísticas, através da indagação: o que eu posso (ou não) aplicar
deste caso na minha situação?

Representam os diferentes pontos de vista presentes numa situação social: procurei
trazer essas diferentes visões e opiniões a respeito da situação em questão e colocar
também a minha opinião.
Considerando que a pesquisa tem como objeto de estudo as alterações
psicofisiológicas nos trabalhadores de enfermagem do serviço noturno e a pesquisa tem como
interesse documentar este fenômeno, o estudo de caso foi descritivo (YIN, 2001).
3.2 Cenário do Estudo
O estudo foi realizado em um Hospital Público do Estado do Rio de Janeiro, no setor
Centro de Terapia Intensiva (CTI). A escolha do cenário foi porque a observação do
2
Substituto; diz-se do verbo com que se evita repetição de outro (PÂNDU, 1990).
52
fenômeno ocorreu neste setor que possui características dinâmicas, onde o cuidado de
enfermagem é intenso já que se trata de pacientes em estado grave.
O CTI fica situado no 3º andar próximo ao centro cirúrgico, possui 07 leitos (tem 01
leito extra em caso de cirurgia de urgência) que são destinados a receber pacientes admitidos
no setor de emergência e raramente das enfermarias ou de outros hospitais. Pelo quantitativo
de leitos, há uma necessidade muito grande de rodízio dos pacientes a fim de atender a
demanda. São vários os motivos de internação: politraumatismos, acidente vascular encefálico
(AVE), insuficiência respiratória e cardíaca, aneurismas.
Nesse hospital, todos os profissionais de enfermagem que são plantonistas possuem
uma carga horária de 12 x 60 horas. O serviço noturno inicia-se às 19:00h e termina às
07:00h. A equipe de enfermagem é composta, em sua maioria, por profissionais do sexo
feminino (90,2%). Quando a pesquisa teve início cada equipe de enfermagem do serviço
noturno tinha em média sete auxiliares de enfermagem, porém, atuando, tem em média quatro
ou cinco auxiliares de enfermagem, pois alguns se encontram afastados por motivo de licença,
férias, ou remanejamento para outro plantão deste setor que esteja com déficit de pessoal.
O total de enfermeiros é de quatro durante o serviço diurno (sendo uma enfermeira
chefe, uma enfermeira diarista e duas plantonistas). No início da pesquisa todos os plantões
noturnos possuíam dois enfermeiros; agora, ao final, um plantão do serviço noturno
encontrava-se com um enfermeiro.
Durante a noite, alguns serviços são diferenciados em relação ao diurno. Por exemplo,
nesse setor não há maqueiro (profissional que transporta os pacientes, leva exames para os
setores especificados e traz medicações da farmácia), sendo necessário ir alguém da equipe de
enfermagem pessoalmente solicitá-lo no centro cirúrgico. Ele atende tanto o CTI quanto o
Centro Cirúrgico. Dependendo da urgência do serviço o próprio pessoal da enfermagem faz
esse serviço, pois por ser um hospital de emergência, o centro cirúrgico às vezes encontra-se
53
muito sobrecarregado. À noite, fica apenas 01 funcionário de serviços gerais, nesse setor, que
também atende à central de esterilização (ao lado do centro cirúrgico).
O local para passagem de plantão é diante dos leitos, pois permite visualizar os
pacientes, os “drippings” (medicações administradas com o controle do gotejamento) em
bombas infusoras (aparelhos que controlam a velocidade, quantidade e o tempo de infusão das
medicações), a arrumação dos leitos e relacionar com as informações relatadas.
Após tomar ciência das ocorrências, faz-se a escala da equipe de enfermagem que
consta em organizar as atividades a serem executadas.
As atividades desenvolvidas no CTI precisam, às vezes, ser interrompidas para atender
alguma necessidade do paciente. Em alguns momentos, muitas dessas atividades ocorrem
simultaneamente, devido à característica do setor que é dinâmico.
Algumas atividades comumente desenvolvidas no setor pela enfermagem:

Conferência dos carrinhos de Parada Cardio-Respiratória (PCR);

Solicitação de medicamentos, reposição de materiais, encaminhamento de exames
(se houver).

Verificação dos sinais vitais (temperatura, freqüência cardíaca, saturação de
oxigênio, freqüência respiratória, pressão arterial);

Higiene dos pacientes;

Evolução de enfermagem;

Troca de Curativos, aspiração das vias aéreas.
Pela manhã, os funcionários fazem o desjejum no setor ou vão para o refeitório, isto
quando não saem direto para outro emprego, faculdade ou retornam para casa.
54
3.3 Sujeitos da Pesquisa
Como foi mencionado no referencial teórico, o perfil dos sujeitos é de extrema
relevância para analisar os aspectos de alterações psicofisiológicas. Esses dados foram
coletados a partir de um formulário, sendo organizados em uma única tabela para facilitar o
entendimento.
Tabela 1 – Perfil dos Trabalhadores de Enfermagem, segundo a Função no Setor, Faixa
Etária, Grau de Escolaridade, Sexo, Estado Civil, Filhos, Outro Vinculo Empregatício e
Opção pelo Turno de Trabalho
PERFIL
Nº de Trabalhadores
%
Função no Setor
Auxiliar de Enfermagem
Técnico de Enfermagem
Enfermeiro
TOTAL
5
5
4
14
35,7
35,7
28,6
100,0
Faixa Etária
26 – 35
36 – 45
46 – 55
TOTAL
4
8
2
14
28,6
57,1
14,3
100,0
Grau de Escolaridade
2º grau completo
3º grau incompleto
3º grau completo
TOTAL
5
3
6
14
35,7
21,5
42,8
100,0
Sexo
Feminino
Masculino
TOTAL
11
3
14
78,6
21,4
100,0
Estado Civil
Solteiro
Casado
Separado
Outros
TOTAL
7
4
2
1
14
50,0
28,5
14,3
7,2
100,0
Filhos
Sim
Não
TOTAL
9
5
14
64,3
35,7
100,0
1
7
1
9
7,1
50,1
7,1
64,3
Nº de Filhos
Um
Dois
Três
TOTAL
55
PERFIL
Nº de Trabalhadores
%
Faixa Etária dos Filhos
< de10 anos
11 – 15
16 – 20
> de 20 anos
4
2
10
2
22,3
11,1
55,5
11,1
Outro Vínculo Empregatício
Sim
Não
TOTAL
9
5
14
64,3
35,7
100,0
Turno de Trabalho dos que possuem outro Vínculo Empregatício
Diurno
9
Noturno
3
100,0
33,3
Total de Empregos dos Trabalhadores
Dois
Três
TOTAL
6
3
9
66,7
33,3
100,0
12
2
14
85,7
14,3
100,0
Optou pelo Turno de Trabalho
Sim
Não
TOTAL
Os sujeitos da pesquisa foram os trabalhadores de enfermagem (auxiliares de
enfermagem, técnicos de enfermagem e enfermeiros) do serviço noturno que demonstraram
grande interesse pela pesquisa entendendo a relevância do estudo.
Foi realizada uma entrevista com o presidente do SATEMRJ sobre o aspecto legal do
trabalho noturno (alimentação, descanso e adicional noturno) para os trabalhadores de
enfermagem.
O serviço noturno foi escolhido porque as alterações foram observadas de forma
empírica neste turno de trabalho e por ser o turno onde as alterações psicofisiológicas são
mais acentuadas do que no turno diurno, já que o trabalhador de enfermagem precisa se
manter acordado indo contra o seu ritmo biológico.
56
3.4 Protocolo do Estudo de Caso
Yin (2001) menciona que o protocolo é mais do que um instrumento porque ele
contém o instrumento. Sendo assim, o pesquisador deve possuí-lo em qualquer circunstância a
fim de conduzir bem seu estudo de caso.
O protocolo (Apêndice A) foi estruturado com as seguintes seções: teóricos que
sustentam o estudo, objetivos e questões norteadoras da pesquisa, enfatizando as tarefas nos
procedimentos de campo e proposta de análise, aumentando assim a confiabilidade da
pesquisa e servindo de guia para o pesquisador (YIN, 2001).
Foram utilizadas as seguintes categorias:
1 – Alterações Psicofisiológicas identificadas nos Trabalhadores de Enfermagem;
2 – Repercussões para a Saúde dos Trabalhadores de Enfermagem;
3 – Estratégias Defensivas utilizadas pelos Trabalhadores de Enfermagem.
Quanto ao horário das entrevistas, optei em atender conforme a disponibilidade dos
sujeitos, marcando antecipadamente. Por motivo de falta de tempo dos profissionais e até
mesmo o cansaço após o plantão, decidir estabelecer visitas nos plantões noturnos com
permanência integral no setor (19:00h às 07:00h).
Essa estratégia permitiu uma validade maior do estudo. Embora cansativa, foi
imprescindível para observar o trabalhador de enfermagem do serviço noturno desde a sua
chegada no setor até a sua saída, o que foi fundamental para eu perceber como o fenômeno
realmente acontece. Também permitiu que os trabalhadores se organizassem para as
entrevistas de modo que a pesquisa não afetasse o desenvolvimento de suas atividades.
57
3.5 Estudo de Caso Piloto
Elaborei um estudo de caso piloto, a fim de qualificar o instrumento antes da aplicação
definitiva para os sujeitos de pesquisa. Consistiu em avaliar as fontes de evidências no
cenário do estudo.
Foi escolhido um serviço noturno aleatoriamente do próprio hospital em estudo.
Entrevistei 05 trabalhadores de enfermagem, avaliando o entendimento dos mesmos sobre as
questões do estudo e, a partir daí, fiz as modificações necessárias para atender os objetivos
propostos.
Para Yin (2001), o estudo de caso piloto auxilia os pesquisadores na hora de aprimorar
os planos para a coleta de dados tanto em relação ao conteúdo dos dados quanto aos
procedimentos que devem ser seguidos.
3.6 Princípios para o Estudo de Caso
A coleta de dados baseada no princípio de YIN (2001), graduado em História,
presidente de uma empresa de tecnologia de pesquisa e administração especializada em
problemas de política social.
Este autor refere que os benefícios que se pode obter a partir das fontes de evidências
(instrumentos de coleta dos dados) podem ser maximizados e podem ajudar o pesquisador a
fazer frente ao problema, estabelecendo a validade e a confiabilidade de um estudo de caso,
evitando o que Lüdke (2005) chama de contaminação (influência do pesquisador) para o
estudo de caso, principalmente quando o pesquisador conhece o cenário e os sujeitos da
pesquisa.
Foram utilizados os seguintes princípios mencionados por Yin (2001): utilização de
várias fontes de evidências; construção de base de dados e formação de uma cadeia de
evidências.
58
 1º Principio: Utilização de várias fontes de evidências
Segundo Yin (2001), os estudos de caso não precisam ficar limitados a uma única
fonte de evidência. Para atender a este princípio utilizei 03 fontes de evidências (entrevista,
formulário e observação direta).
Entrevista
A escolha desta fonte de evidência ocorreu porque é considerada a principal para um
Estudo de Caso, além de permitir que os sujeitos expressem sua vivência, seus sentimentos,
colaborando para o estudo. Este recurso, certamente, fornece uma expressão mais acurada do
que qualquer outro método (YIN, 2001).
A entrevista permite a captação imediata e corrente da informação desejada,
praticamente com qualquer tipo de informante e sobre os mais variados tópicos (LUDKE &
ANDRÉ, 1986).
A entrevista foi semi-estruturada. Para Trivinos (1992), é aquela que parte de certos
questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses, que interessam à pesquisa e que
oferecem amplo campo de interrogativas que surgem à medida que se recebem as respostas do
informante. Segundo Minayo et al. (2005), esta modalidade de abordagem deve se apoiar nas
variáveis e indicadores considerados essenciais e suficientes para construção de dados
empíricos.
Utilizei para a entrevista: roteiro semi-estruturado, gravador, fita magnética.
Posteriormente, a entrevista foi transcrita. Ao realizar a transcrição, utilizei a letra E
(entrevista) e o número da ordem dos entrevistados (1), como por exemplo: 1º entrevistado
(E1), 2º entrevistado (E2), etc. De um modo geral, as entrevistas constituem uma fonte
essencial de evidências para os estudos de caso, já que a maioria delas trata de questões
humanas.
59
Em seguida realizei a transcrição de 14 entrevistas, necessitando de leituras exaustivas
do material coletado a fim de priorizar o que era essencial ao estudo. Atendendo o que Lüdke
(2005) mencionou: “o estudo de caso é como um filme, sendo necessário selecionar apenas as
cenas importantes”.
As informações da entrevista realizada com o presidente do SATEMRJ foram
transcritas e posteriormente selecionadas para embasar o referencial teórico.
Observação Direta
A observação direta e a entrevista ocupam um lugar privilegiado nas novas abordagens
de pesquisa educacional. A observação possibilita um contato pessoal e estreito do
pesquisador com o fenômeno pesquisado, o que apresenta uma série de vantagens.
Segundo Lüdke e André (1986), a observação direta permite também que o observador
chegue mais perto da “perspectiva dos sujeitos”, um importante alvo nas abordagens
qualitativas.
A visita ao cenário do estudo é uma oportunidade de realizar observação direta.
Através do estudo de caso piloto, foi possível avaliar a incidência de certos comportamentos
dos trabalhadores durante o serviço noturno. Isso ajudou a organizar o que deveria ser
observado.
Formulário
Os fatores individuais implicam nos resultados, por este motivo foi criado um
formulário que constava de aspectos sócio-demográficos dos sujeitos para caracterizar o perfil
dos sujeitos do estudo (idade, sexo, escolaridade, filhos, situação conjugal, opção de trabalhar
no serviço noturno, outro vínculo empregatício).
60
Lakatos & Marconi (1968 apud NOGUEIRA, 1998), definem formulário como “uma
lista formal, catálogo ou inventário destinado a coleta de dados resultantes quer da
observação, quer do interrogatório, cujo preenchimento é feito pelo próprio investigador a
medida que faz as observações, ou recebe as respostas pelo pesquisado sob sua orientação”.
De forma simplificada, diríamos que formulário é um instrumento de coleta de dados onde,
sob a orientação de um roteiro de questões, o pesquisador aborda, questiona-se e registra as
respostas obtidas do contato com base em uma comunicação direta (SELLTIZ, 1965 apud
NOGUEIRA, 1998).
 2º Princípio: Construção de base de dados
Este princípio destinou-se a organizar a análise dos dados a partir das fontes de
evidências (formulário, entrevista e observação). A análise dos dados consistiu em examinar,
categorizar e recombinar as evidências tendo em vista as proposições iniciais do estudo,
conforme Dejours (1992). Optei pela estratégia analítica geral baseada em proposições
teóricas com predominância da técnica de adequação ao padrão.
Para Yin (2001), todo estudo de caso deve seguir uma estratégia analítica geral, antes
mesmo de coletar os dados, a fim de extrair apenas o que for relevante para o estudo. Segundo
o autor, a estratégia baseada em proposição teórica é uma das mais utilizadas no estudo de
caso por conferir uma maior validade para a pesquisa. Permite que o pesquisador confronte os
dados com as proposições teóricas que o levaram ao estudo.
Desta forma, esta estratégia analítica é adequada para este estudo por levar em
consideração os objetivos, as questões da pesquisa, revisão teórica sobre a temática, além de
permitir novas interpretações do fenômeno estudado.
Yin (2001) também menciona que toda estratégia de análise deve ser utilizada através
de uma técnica, sendo assim, optei pela técnica de adequação ao padrão, pois de acordo com o
61
autor, este tipo de técnica é ideal para o estudo de caso descritivo, já que utiliza variáveis
específicas, dependentes entre si, mas não equivalentes.
Neste caso, espera-se que a variável comporte-se como o previsto, de acordo com a
proposição teórica do estudo e possibilite discussão com novas evidências.
O primeiro momento da análise iniciou-se na coleta de dados, com a construção de um
banco de dados. Organizei os dados de acordo com as fontes de evidências e posteriormente
arquivei no computador. Feito isto, iniciei uma pré-análise, tendo um contato mais
aprofundado com o material coletado.
Durante a coleta de evidências e análise dos dados, identifiquei fatores individuais que
atuam na tolerância do trabalho noturno tanto pelas características dos ritmos circadianos,
como pelos fatores situacionais e organizacionais do trabalho.
 3º Princípio: Formação de uma cadeia de evidências
Nesta fase, o estudo de caso consistiu em correlacionar as questões de pesquisa, a
apresentação de evidências até as conclusões finais, deixando claro que as evidências não
foram ignoradas e/ou maculadas por vieses.
Procurei ser como um investigador tentando ligar os fatos através das evidências
encontradas. Segundo Yin (2001), nesta fase o pesquisador deve estar com clareza dos fatos,
como deve ocorrer com as provas criminais que são levadas a um tribunal.
3.7 Aspectos Éticos
Procurei atender os princípios da bioética, a saber: autonomia, beneficência, não
maleficência e justiça. A autonomia dos sujeitos foi garantida pela apresentação do Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice B). O grupo de trabalhadores de enfermagem
62
recebeu o Termo no local da realização da pesquisa (CTI). Esclareci o objeto e os objetivos
da pesquisa, assim como todo o seu procedimento.
Os benefícios foram esclarecidos ao grupo garantindo que ao participar da pesquisa
não estariam correndo nenhum risco (beneficência e não maleficência). Foi importante
esclarecer aos trabalhadores que, mesmo que não quisessem participar, não estariam
comprometidos ou seriam injustiçados em termos de avaliação no seu trabalho (justiça e
equidade). Foi uma participação voluntária dos trabalhadores de enfermagem.
De acordo com a Resolução 196/96 CNS/MS (BRASIL, 1996), para a realização do
estudo foram necessários os seguintes procedimentos:

Solicitação por escrito de autorização da direção do Hospital, Divisão de
Enfermagem e Chefia de Enfermagem (cenário do estudo) para a realização da
pesquisa (Anexo A);

Apresentação do protocolo devidamente instruído ao Comitê de Ética em Pesquisa
(CEP), aguardando o pronunciamento deste, antes de iniciar a coleta de dados. O
parecer foi aprovado (Anexo B);

Solicitação da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para
participação e divulgação dos resultados desta, garantindo o anonimato dos
sujeitos (duas cópias, uma para o trabalhador de enfermagem e uma para a
pesquisadora);

Elaboração e apresentação do relatório parcial e final à Escola de Enfermagem
Anna Nery (UFRJ) e à Instituição onde o estudo está sendo realizado;

Apresentação dos dados solicitados pelo CEP, a qualquer momento.
A Entrevista realizada com o presidente do SATEMRJ atendeu os princípios da
bioética e de acordo com a Resolução 196/96 CNS/MS (Brasil, 1996), foram realizados os
seguintes procedimentos:
63

Solicitação da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
(APÊNDICE C) para a participação e divulgação das informações prestadas pelo
presidente do SATEMRJ, assim como a autorização para citar seus nomes (duas
cópias, uma para o presidente do SAMTERJ e uma para a pesquisadora).
64
CAPÍTULO IV
ANÁLISE FINAL DAS EVIDÊNCIAS
Neste capítulo será abordada a análise das evidências a partir de categorias préestabelecidas, ou seja, alterações psicofisiológicas, repercussões para a saúde e estratégias
defensivas utilizadas pelos trabalhadores de enfermagem, baseadas nas proposições teóricas
do estudo.
O trabalho pode ser fonte de prazer e sofrimento, implicando uma contradição que é
movimentada pela organização do trabalho, pela estrutura ambiental onde se desenvolve e
ainda pela forma de como os indivíduos percebem o processo de realização de suas atividades
(MARTINS, 2005).
4.1 Alterações Psicofisiológicas Identificadas nos Trabalhadores de Enfermagem
A partir das evidências foi possível identificar as seguintes alterações psicofisiológicas
nos trabalhadores de enfermagem: déficit ou perturbação do sono, fadiga, diminuição da
concentração, insatisfação, estresse, envelhecimento precoce e obesidade.
Conforme mencionado no referencial teórico, o serviço noturno é um bom exemplo de
Organização Temporal Externa e que pode ou não causar perturbação da Organização
Temporal Interna.
As evidências coletadas permitiram perceber que uma das principais alterações
relacionadas a esta perturbação da Organização Temporal está intimamente relacionada à
privação do sono, isto porque a Organização Temporal fisiológica humana sofre sérias
transformações, ou seja, o corpo é “obrigado” a trabalhar quando deveria está descansando.
65
Desta forma, o trabalho noturno causa importante impacto maléfico para o bem-estar
físico, mental e social dos trabalhadores porque ocorre estresse resultante da alteração do
relógio biológico, modificando o ciclo sono-vigília induzindo um desgaste no trabalhador.
Fischer et al. (2004) comentam que o desgaste do trabalhador está relacionado aos
fatores de tolerância ao trabalho que são: idade, sexo, condições de saúde, hábitos de sono,
características de personalidade (introversão/extroversão), características do ritmo circadiano.
Por um outro lado as condições de trabalho e a organização do trabalho também influenciam
na tolerância ao trabalho noturno.
Segundo Fischer et al. (2003), particularmente, trabalhar em horários não diurnos pode
levar os trabalhadores a terem pior desempenho nas atividades, aumentando os riscos de
acidente de trabalho e, de forma mais acentuada, a estressores ambientais, que podem levá-los
à incapacidade funcional precoce.
4.1.1 Déficit ou perturbação no sono
O nosso corpo nunca se acostuma com a inversão do dia e da noite. O homem é um ser
de atividade diurna e repouso noturno. Após muitas semanas de trabalho noturno, bastam
poucos dias dormindo à noite e já se observam modificações importantes dos ritmos
biológicos tentando se comportar de forma normal (ANAMT, 2005).
De acordo com a mesma associação, quanto maior o número de noites trabalhadas,
maiores os problemas que a pessoa enfrenta a curto, médio e longo prazo. Maiores serão as
perturbações biológicas e comportamentais.
Quanto ao vínculo empregatício, a maioria (64,3%) possui em média de 2 a 3
empregos. Sendo que, destes profissionais, todos trabalham também no serviço diurno e
33,3% em outro serviço noturno. Este resultado é importante porque significa que o
66
profissional chega a trabalhar duas ou mais noites seguidas aumentando mais ainda o desgaste
psicofisiológico.
Pitta (2003) menciona que o regime de plantões abre a perspectiva de duplos empregos
e jornadas de trabalho, comum entre os trabalhadores de saúde, especialmente num país onde
os baixos salários pressionam para tal. Essa prática potencializa a ação daqueles fatores que
por si só danificam suas integridades física e psíquica.
Suarez (1999) diz que a insuficiência de sono condiciona uma grande parte das
conseqüências patológicas do trabalhador: dorme pouco e dorme mal, é um sono de má
qualidade. A primeira fase do sono permite uma recuperação física e a segunda fase, psíquica.
O indivíduo precisa dormir em média sete horas para ocorrer todas as fases do sono
facilitando a recuperação da fadiga diária e confirmando a importância do sono para a saúde
do individuo.
Na realidade, o trabalhador noturno não consegue recuperar-se totalmente porque o
seu sono encontra-se alterado, pois é necessário que ocorram todas as fases do sono e no
horário adequado para que a recuperação aconteça; portanto, não ocorre nunca uma adaptação
plena pela troca de horário, como mostram os depoimentos a seguir:
Em casa eu tenho que dormir pelo menos umas oito horas, ou então doze horas.
Nem sempre fico mais disposta. (E6)
Meu sono é intranqüilo e quando eu consigo (ainda tem isso), quando eu deito aí
eu quero dormir, eu acho que o sono da gente tem que deitar, descansar até sentir
que o corpo está totalmente restabelecido, mas isso nunca acontece. (E8)
Eu estou sempre sentindo sono, estou sempre comentando: Ai que sono! Né? Eu
sei que existe um sono que realmente eu não consigo repor. (E10)
Mesmo que eu tenha ido pra casa e vá dormir de manhã, se eu dormir uma
horinha, duas horinhas, eu passo o dia todo com sono, não consigo conciliar o
sono e fico sonolenta o dia todo. (E11)
Alguns trabalhadores necessitam de muitas horas de sono e ainda assim mencionam
que nem sempre é o suficiente. De acordo com Fischer et al. (2003), esses tipos de pessoas
67
são chamados de grandes dormidores. Certamente não toleram bem o serviço noturno,
podendo ter um desgaste maior que os demais trabalhadores neste turno.
A importância da privação do sono no serviço noturno é porque além de ocorrer uma
série de alterações, quando excessiva e persistente provoca também outras alterações como
veremos a seguir.
4.1.2 Fadiga
A fadiga foi uma das queixas identificadas nas falas de todos os trabalhadores. O
trabalho de enfermagem, na maior parte do tempo, é executado em pé além das atividades que
demandam de grande esforço físico. Por outro lado, existe a influência de outro vínculo
empregatício e as atividades extralaborais, como mencionado anteriormente.
À medida que vamos ficando mais velhos, o sono diminui. Na idade adulta, o sono é
monofásico (controlado pelo ambiente: claro e escuro) e começa, então, a organização do
nosso padrão biológico (MELLO, 2005).
Os trabalhadores, na maioria das vezes, conseguem perceber que sentem sono e
cansaço durante o serviço noturno, confirmando as observações feitas, ou seja, as alterações
sofridas pelo organismo no decorrer das horas.
Trabalhar à noite pra mim é um esforço, é um esforço, porque é uma coisa que
vai pra mim..., atualmente tá me cansando, é uma coisa que vai além da minha
condição, tá me cansando, porque nós não somos preparados para trabalhar à
noite, na verdade , né ? (E1)
Eu acho curioso que tem um horário mais ou menos entre meia-noite e duas
horas da manhã e entre onze horas da noite e uma hora da manhã mais ou
menos, que o corpo tá assim: eu preciso dormir agora. Se você conseguir superar
essa fase, diminui o sono, acaba que vai embora e você fica até de manhã se for
preciso. Mais tem uma hora que o corpo diz: não! É hora de dormir e como você
começa a não dormir, não dorme hoje, não dorme amanhã, não dorme depois, vai
de um emprego pro outro, aí você começa. (E2)
Até um determinado horário tipo assim uma hora da manhã, eu estou assim, me
sinto ainda firme, depois de uma e meia da manhã já vou começando a ficar mais
cansada, né? (E3)
68
Um trabalhador relacionou o cansaço apenas com a carga física de trabalho do setor,
relata dúvida quanto à influência do trabalho noturno. Referiu-se ao cansaço como sendo
proveniente do volume e ritmo de trabalho.
Aí que a gente não sabe se tem alguma coisa com a fisiologia, que a gente pensa
que é só a sobrecarga de trabalho, não sei o que e de repente é devido ao serviço
noturno. O que vai pesar mais é a sobrecarga do dia-a-dia, sobrecarga de serviço
e a noite se torna mais pesado porque teu organismo já requer um descanso. (E6)
Sabe-se que o trabalhador noturno nem sempre descansa durante as horas livres e a
privação do sono principalmente à noite, quando excessiva e persistente, pode gerar fadiga,
diminuição do nível de alerta e aumento da irritabilidade. Estes sintomas participam do
mesmo modo que a carga física do esgotamento progressivo dos trabalhadores do serviço
noturno, aumentando o risco para a ocorrência de acidentes de trabalho. Deste modo, os
trabalhadores de enfermagem poderiam tornar-se agentes de risco para si e para os outros.
Os depoimentos mostram que o trabalho em determinados horários passa a ser esforço,
isto porque o trabalhador vai contra o seu relógio biológico, onde o metabolismo sofre
modificação. A fase de adaptação ao serviço noturno leva um tempo, porém não impede que o
organismo sofra alterações, e quando isso se torna uma rotina, maior é o risco de efeitos
negativos para a saúde do trabalhador, ou seja, nunca ocorre uma adaptação permanente do
serviço de saúde.
Durante a observação, foi possível verificar que o trabalhador de enfermagem, com
mais de dez anos de experiência no serviço noturno que não conseguiu relacionar a
interferência deste com a fadiga, mostrou-se com o nível de alerta diminuído
significativamente no decorrer do plantão e o mesmo utilizava-se de estratégias junto aos
colegas para tentar suprir sua necessidade de descanso.
Segundo Ferreira, I. (2002), o nível de alerta cai significativamente nos trabalhadores
noturnos. Quanto mais apresentar fadiga menos capacidade para o trabalho.
69
Com o decorrer do horário, o metabolismo do organismo prepara-se para o descanso,
todas as atividades orgânicas ficam reduzidas, principalmente entre meia-noite e três horas da
manhã. A sonolência excessiva afeta o desempenho, alteração do humor e acidentes
(MELLO, 2005).
Durante a observação, pude identificar que o trabalhador geralmente inicia o trabalho
com um ritmo mais acelerado e vai reduzindo gradualmente, o que é justificado pela
Organização Temporal Interna, mencionada no referencial.
Rotenberg et al.(2001) mencionam que a alteração do sono é percebida pelo corpo ou
pela mente. Nesse sentido, os trabalhadores ressaltaram que na luta contra o cansaço chega
um momento que o corpo “fala”.
Você está com sono porque o sono é fisiológico e chega um momento que o corpo
pede pra dormir. Eu fico um pouco cansada, o cansaço às vezes fala mais alto.
(E2)
Porque nós já não corremos, caminhamos, quando se caminha não se caminha,
você anda devagar quase parando, quer dizer o seu ritmo diminui bastante, até
porque você está com o seu corpo cansado, né? Você tem que tentar quer dizer
por mais que você queira ser acelerado, trabalhar num ritmo acelerado e o seu
corpo não te permite. (E3)
No decorrer do plantão o corpo pede que quer sentar, tomar um café, né? (E4)
Fischer et al. (2004) relatam que os jovens podem ter dificuldades para se adaptar ao
serviço noturno já que são mais sensíveis à perda de sono aguda ou porque pode prejudicar a
possibilidade de participação e integração em grupos sociais.
Durante a observação foi possível comprovar que as pessoas mais velhas têm mais
dificuldades em trabalhar à noite, conforme menciona a ANAMT (2005), que os hábitos de
vida tornam-se mais rígidos com a idade, particularmente os hábitos de sono. O
comportamento dos ritmos biológicos de uma pessoa vai se modificando com a idade, e se
tornando menos flexíveis a mudanças bruscas que ocorrem quando a pessoa tem que trabalhar
à noite.
70
Outro aspecto importante é que os depoimentos dos trabalhadores mostraram que não
é o tempo de experiência no serviço noturno que vai garantir uma melhor adaptação neste
turno.
Durante a observação, também foi possível identificar queixas comuns entre os
trabalhadores, independente do tempo de experiência do serviço noturno, a diferença existe na
intensidade das queixas, porém o que vai determinar as repercussões para a saúde deste
trabalhador é a forma como ele lida com tais situações, incluindo sua satisfação ou não de
trabalhar no serviço noturno.
4.1.3 Diminuição da concentração
Dormir bem é indispensável para manter um bom nível de concentração, porque é
neste momento que todo organismo se recupera e renova as funções orgânicas. No caso do
trabalhador noturno, esta recuperação nunca acontece plenamente, pois geralmente o
trabalhador de enfermagem além de possuir outros empregos, possui outras responsabilidades
que dificulta o descanso, principalmente se os trabalhadores estudam e/ou possuem filhos
pequenos.
O que o trabalho noturno influencia em mim é justamente isso: a assimilação,
quando eu começo a fazer leitura, começo a ler qualquer coisa, qualquer texto,
em seguida eu já estou dormindo, eu não me sinto assim disposto à leitura. (E3)
Fisiologicamente eu me sinto extremamente cansada, mentalmente também
muito cansada, eu acho que o serviço noturno ele não te dá aquele é...feed back,
aquele retorno que eu gostaria. (E5)
Eu acho que diminuiu muito o meu poder de concentração. (E7)
Eu me sinto mal porque eu trabalho à noite, aí de dia pego em outro lugar, você
fica mal, afeta a mente, a cabeça. O raciocínio fica mais lento, eu tremo, eu
passei a tremer mais, as mãos ficam trêmulas, isso acontece mais quando eu faço
da noite pro dia. (E14)
Foi possível observar que com o passar das horas não só diminui o ritmo de trabalho,
mas também o nível de concentração. Observei que devido ao cansaço, geralmente o
71
trabalhador vai inúmeras vezes ao leito do paciente porque esqueceu de realizar ou anotar
algo e não se lembra mais.
Segundo Mauro et al. (2004), com o aumento da sonolência e conseqüente queda de
rendimento de algumas funções cognitivas devido à privação de sono podem acarretar
dificuldade de concentração e redução da capacidade crítica.
4.1.4 Insatisfação
Durante a entrevista, muitas vezes, os trabalhadores demonstravam-se insatisfeitos
com a jornada de trabalho aproveitando o momento para desabafar ou reclamar.
Neste sentido, existem várias fontes de insatisfação dos trabalhadores dependendo do
tipo de trabalho que exercem. Iida (1992) refere que estas fontes podem estar relacionadas ao
ambiente físico, psicossocial, remuneração, jornada de trabalho e a organização do trabalho.
Além do mais, o trabalhador pode apresentar maior rigidez ou facilidade nas mudanças do
ritmo biológico, quando é obrigado a trabalhar à noite (FISCHER et al., 2004).
O problema é que o profissional de enfermagem é obrigado a trabalhar em dois,
três, quatro empregos. (E2)
Comecei trabalhar à noite quando eu tive necessidade, quando eu precisei ir pra
faculdade, porque eu mesma paguei meu curso, fui eu que tive que manter a
minha mensalidade, então eu fui obrigada a trabalhar à noite. (E3)
Trabalhar a noite fica mais fácil cuidar dela (familiar) durante o dia, já que à
noite ela dorme, a noite toda. (E4)
Eu trabalhei pelo serviço noturno na época porque eu trabalhava no local X,
então era de segunda a sexta-feira e minha única opção era o serviço noturno,
né? (E5)
A satisfação psíquica individual se fundamenta no provimento das seguintes
necessidades: afeto; noção de pertencer, sentir-se uma peça da engrenagem empresarial;
companhia dos outros; realização; experiências novas; segurança: e fator de otimismo
(MAURO et al., 2004).
72
Quanto à satisfação material, é necessário que o trabalho proporcione o atendimento
das necessidades biológicas primordiais: alimentação, vestuário, habitação, saúde física e
mental, recreação e outras.
Segundo Silva (2002) os trabalhadores de enfermagem optam pelo turno da noite para
conciliarem com o outro emprego que tinham durante o dia. Neste estudo, optaram pelo turno
noturno 85,7%. Segundo os depoimentos dos trabalhadores, os que referiram gostar de
trabalhar neste turno, teve como principal motivo a necessidade de aumentar a renda familiar,
conciliar os estudos e ter mais tempo para cuidar dos filhos, respectivamente.
Para Santos e Trevizan (2002), as pessoas, em sua maioria, procuram o trabalho para
ter condições de atender às necessidades básicas, poder consumir, ter satisfação e realizar-se
profissional e socialmente. Sendo assim, o trabalho é um importante gerador de prazer e
sofrimento o que é influenciado pelos motivos que levaram o trabalhador optar pelo turno de
trabalho.
Alguns trabalhadores dizem que foram obrigados a trabalhar à noite por um
determinado motivo e permanecem neste turno porque foram surgindo outras necessidades,
ou seja, teve trabalhadores que precisaram trabalhar à noite porque os filhos estavam
pequenos e este turno permitia acompanhar a educação dos filhos durante o dia, porém, hoje
os filhos já cresceram e a necessidade do trabalho noturno é um meio de poder oferecer um
futuro melhor (estudos) para os filhos. Desta forma, os profissionais sentem-se frustrados
porque nem sempre conseguem atingir seus objetivos trabalhando à noite.
Segundo Dejours (1992), o salário contém numerosas significações: primeiramente
concretas (sustentar a família, ganhar as férias, pagar as melhorias da casa, pagar as dívidas),
mas também as abstratas na medida em que o salário contém sonhos, fantasias e projetos de
realizações possíveis. Do contrário, o salário veicula todas as significações negativas que
73
implicam as limitações materiais que ele impõe, isso muitas vezes pode trazer insatisfação
profissional.
Agora o lado negativo é aquele, né? Porque é muito complicado você trabalhar
muito, muito e você não ver muito retorno financeiro, principalmente financeiro
que você não ver. Você sabe que tem necessidade, mas você não ver retorno
financeiro. (E3)
Hoje não me traz mais insatisfação. Em alguns momentos existe a insatisfação
que eu queria está em casa e fazer qualquer outra coisa nem que seja dormindo,
muitas vezes, mais não queria está aqui. (E9)
Eu aprendi a gostar, a diferenciar, eu acho assim que é um serviço que é pouco
valorizado, as pessoas do dia não vêem com os mesmos olhos embora eu acho que
de dia você tem uma estrutura melhor. As pessoas tendem a pensar que o
trabalho é menos porque dormem, mesmo que você consiga dormir três horas,
estas três horas não têm pagamento, não têm dinheiro que pague estas três horas
de sono, eu acho assim que o serviço noturno deveria ser muito mais valorizado.
(E11)
Quando o trabalhador diz que o trabalho noturno deveria ser mais valorizado, referese também ao reconhecimento dos colegas e chefia, ou seja, o seu esforço e dedicação.
Geralmente executar uma tarefa sem investimento material ou afetivo exige a
produção de esforço e de vontade, em outras circunstâncias suportadas pela motivação e pelo
desejo. Dessa forma, o profissional executa simplesmente a tarefa, assumindo um
comportamento essencialmente produtivo:
Quando eu entrei de férias tinha dia que eu ia dormir três horas da manhã por
causa do horário de sono igualzinho ao daqui. Fisiologicamente meus níveis
pressóricos aumentaram, tem uma história familiar, mas antes de entrar pra
noite eu nunca tive. (E11)
Quando você tá em casa e de repente você acorda achando que tá dentro do
CTI, isso já aconteceu muito comigo e às vezes até o relógio que apita para eu dá
remédio ao meu filho eu acho que é uma bomba daqui apitando, sabe? (E14)
Mesmo gerando insatisfação, estresse e doenças para a saúde do trabalhador, o
trabalho realizado em horários não usuais (ou anti-sociais), especialmente os noturnos, não
cessa de aumentar em praticamente todos os países do mundo. De fato, em certos casos (por
74
exemplo, os hospitais) há uma necessidade do trabalho noturno porque existe paciente
internado necessitando de cuidados durante 24 horas por dia.
Quanto ao trabalho noturno, devemos discutir como o trabalho está organizado.
Dejours (1992) menciona que é importante interrogar-se sobre o custo humano da
insatisfação. O trabalhador satisfeito contribuirá melhor para a realização do trabalho e terá
uma vida mais saudável.
Neste sentido, é importante a característica onde o trabalho noturno é executado e não
simplesmente a escala de horários. Sendo assim, lembro que este estudo foi realizado em um
CTI, que é um setor especializado, onde os pacientes são graves e possui muitos outros fatores
estressantes que vão de encontro com a vida mental dos trabalhadores.
Tal fato é comprovado quando Oliveira, M. (2002) refere que fatores estressantes
devem-se pela organização do trabalho, tarefas desenvolvidas, ritmo de trabalho, volume de
trabalho, exigência de grande concentração.
Conforme Dejours (1992), na vivência dos trabalhadores, a inadaptação entre as
necessidades provenientes da estrutura mental e o conteúdo ergonômico da tarefa, traduz-se
por uma insatisfação ou por um sofrimento, ou até mesmo um estado de ansiedade, raramente
traduzida em palavras, raramente precisada, raramente explicitada pelo próprio trabalhador.
4.1.5 Estresse
O estresse do trabalho será maior quando houver a presença de alguns fatores
intrínsecos, por exemplo, a personalidade do indivíduo e o cronotipo (matutino, vespertino ou
indiferente). Mello (2005) refere que devido à privação do sono, os trabalhadores noturnos
acordam irritados porque não houve tempo para uma recuperação, os trabalhadores não
dormem a fase profunda do sono (REM).
75
Em mim na verdade quando eu venho do plantão eu não consigo descansar
direito, eu noto uma irritabilidade muito grande, além do normal, esse já é o meu
normal, após ter trabalhado à noite, eu fico num estresse, entendeu?!!! (E1)
Geralmente, este momento de estresse acarreta um mal estar no trabalhador, o que vai
influenciar também no seu comportamento fora do trabalho.
À noite quando eu estou em casa eu durmo normal, graças a Deus, eu durmo a
noite toda, mas quando eu venho do trabalho é muito relativo, às vezes eu
durmo bem, às vezes eu durmo pouco o que acarreta num cansaço maior, às
vezes devido essa falta de ... essa ausência de sono na verdade, de manhã às
vezes. Mexe com o psicofisiológico: racionalmente, irritabilidade, essa falta de
paciência que às vezes a gente tem. (E1)
Só que tem momentos entra o mal humor, o cansaço que às vezes a gente sai
daqui do plantão, quando o plantão está tumultuado, a mente da gente já sai
tumultuada também, então a gente já chega em casa de mal humor. Eu acho que
é estresse, é alguma coisa, eu tenho reclamado muito ultimamente, aí de
esquecimento, sabe? (E8)
Trabalhar á noite me influencia de alguma forma? Totalmente, quando eu saio
do plantão, a forma, a paciência, os desempenhos nas atividades do dia seguinte
ficam totalmente diferentes. (E11)
Eu chego em casa e não consigo dormir de imediato, eu às vezes fico delirando,
falando um monte de abobrinha, assim que chego fico falando um monte de
besteira, parece até que oxigena um pouco o cérebro, eu fico meio...como se fosse
dopado, como se estivesse... a pessoa quando bebe e começa a falar besteira é a
mesma coisa como se eu tivesse bêbado, eu altero o humor totalmente, engraçado
é como se eu tivesse bêbado. Dá uma agonia, uma sensação estranha como se eu
fosse morrer, parece que eu vou morrer, eu não sei explicar direito o que é,
entendeu? Mais eu sei que isso é psicológico. Não sinto uma pressão no coração,
não tem taquicardia, não tem nada. Eu não tenho tido melhora, tenho tido
piora, antes eu sentia uma vez ou outra, agora eu tenho sentido direto, quase
todo dia, eu passo mal, mais passo mal mesmo de ficar de joelhos, é sério mesmo.
Não vejo nada de fisiológico e sim psicológico, psicossomático ou psiquiátrico.
(E12)
O estresse, muitas vezes, é gerado pela própria organização do trabalho, pois se exige
um ritmo de trabalho acelerado para que se cumpram todas as atividades estabelecidas.
Observei que isto acontece quando o profissional não consegue e/ou esquece de realizar as
atividades prescritas devido à grande demanda do serviço, principalmente se ocorre próximo
ao horário da passagem de plantão.
76
Segundo Maia (1999), as condições de trabalho de um CTI envolvem um ambiente
tumultuado, com vários equipamentos especializados, riscos de acidentes, turnos de trabalho e
elevada carga de trabalho. O conteúdo de trabalho interfere como agente estressor através das
inúmeras interferências, manutenção de sua produção, a impossibilidade de se manter o
controle do que vai ocorrer nesta unidade, tanto no inicio, no decorrer ou mesmo no término
de seu plantão, fato que aumenta a responsabilidade gerando maior preocupação quanto a
qualidade da assistência prestada nesta unidade.
Problemas, certas situações que deixam a gente no dia-a-dia assim é com esse
problema de ansiedade, com o desequilíbrio de fazer as coisas sempre certinhas
pra evitar deixar algum problema, evitar que as pessoas venham reclamar ou
falar alguma coisa, isso traz uma ansiedade na vida da gente, isso traz o que
acontece, acaba o trabalho e você leva essa ansiedade pra casa, eu levo, estou
acostumada a levar essa ansiedade pra casa sempre, né? (E8)
Com a observação, percebi que a rotina do setor na passagem do plantão noturno para
o diurno, além da presença dos enfermeiros plantonistas, tem a presença da chefia de
enfermagem do setor, o que acarreta estresse na equipe, uma vez que qualquer falha poderá
ser presenciada pela mesma, ao contrário do serviço noturno que quando recebe o plantão do
serviço diurno não tem a presença da chefia.
Pra mim não seria prazer, seria sofrimento, é eu sei assim que o trabalho noturno
tem a vantagem de não ter tanto a chefia em cima, né? Cobrança tem de
qualquer forma, muitas vezes o trabalho noturno é mais cobrado do que o serviço
diurno é porque o que acontece no serviço diurno, é que a chefia está de um lado,
não percebe. Agora se acontecer no serviço noturno causa, né? Causa um grande
espanto, né? (E5)
No outro emprego embora eu tenha uma chefia flexível, mais me cobra muito
com relação ao horário, até porque eu já venho cobrando de outras pessoas, então
me cobro ainda mais o horário, o nível de estresse meu é mais com relação à isso:
cumprimento dos horários, das normas que eu acho que tem que ser, é muito
importante você ser exemplo, você não pode chegar atrasada no seu trabalho.
(E11)
A falta de chefia durante a noite pode gerar estresse devido a uma maior sobrecarga do
trabalho, como foi mencionado por um dos trabalhadores.
77
Esta ansiedade está relacionada com as relações de trabalho3, mencionada por Dejours
(1992), uma vez que as relações com a hierarquia, com as chefias, com a supervisão, com
outros trabalhadores, muitas vezes, são fontes de ansiedade, pois acabam sendo uma forma
para avaliar o rendimento de cada trabalhador. Por um outro lado, a ausência da chefia
poderia significar desinteresse em relação ao trabalho, o que não deixaria de ser um fator de
ansiedade, pois os trabalhadores poderiam se sentir abandonados.
Pitta (2003) menciona que a presença da chefia pode ser vista como um indicador
clássico de sobrecarga e tensão no trabalho, a presença poderá estar significando uma
sobrecarga de trabalho ou também um abandono das equipes de trabalho à sua própria sorte,
ampliando, em muito, as ansiedades advindas da falta de suporte técnico e administrativo para
que esses trabalhadores correspondam às inúmeras demandas dos pacientes.
Um outro aspecto importante é a violência urbana sofrida pelos trabalhadores que tem
sido uma prática habitual, embora não tenha sido mencionado pelos trabalhadores durante a
entrevista. Identifiquei na observação que este assunto sempre era comentado pelos
trabalhadores, principalmente porque muitos já conhecem ou foram vítimas deste tipo de
violência.
Para Moura e Lisboa (2005), além dos aspectos macro conceituais da violência
imposta aos diversos segmentos populacionais, é igualmente importante aquela diretamente
sofrida pelas pessoas nos locais de trabalho. A violência nos locais de trabalho afeta
indistintamente os trabalhadores em todos os países e se converte em sérias ameaças à saúde.
Segundo Dutra (2005), nos últimos anos a sociedade brasileira entrou no grupo das
sociedades mais violentas do mundo. Hoje, o país tem altíssimos índices de violência urbana
(violências praticadas nas ruas, como assaltos, seqüestros, extermínios, etc.); violência
3
“Relação de Trabalho” - todos os laços humanos criados pela organização de trabalho (Dejours, 1992).
78
doméstica (praticadas no próprio lar); violência familiar e violência contra a mulher, que, em
geral, é praticada pelo marido, namorado, ex-companheiro, etc...
4.1.6 Envelhecimento Precoce
Bulhões (1994), refere que, afora as transformações à curto prazo, nosso estado
funcional também se altera ao longo da vida. Isso ocorre quer sob ação das leis biológicas,
geneticamente inscritas, quer sob os efeitos do meio ambiente, onde as condições de trabalho
podem atuar como agente acelerador. Alguns trabalhadores conseguem perceber a diferença
do trabalho noturno com o passar dos anos.
Segundo Fischer et al. (2003), com o passar dos anos modifica-se o ritmo biológico;
assim, a idade é fator de risco adicional para o desenvolvimento de saúde e do denominado
envelhecimento funcional precoce.
Bento (2004) também afirma que a idade altera os
padrões de sono quantitativa e qualitativamente, os fatores físicos e ambientais que podem ser
potencializados quando somados aos aspectos cronobiológicos.
Eu sempre tive essa agilidade maior quando eu trabalhava à noite, porque
também eu era muito jovem, comecei a trabalhar à noite muito jovem, então eu
acredito que diminui o pique da gente, né? Dá pra notar uma diferença, até por
questão da idade também, vai chegando um tempo que a sua idade e sua
capacidade de desenvolvimento, isso aí realmente diminui, principalmente
quando a gente trabalha à noite. (E3)
Acho que estou com envelhecimento precoce porque as ruguinhas estão todas
aparecendo demais. (E7)
A fala dos trabalhadores mostra uma preocupação com o envelhecimento precoce que
pode ter como contribuinte o serviço noturno. Durante a observação dos trabalhadores, vários
demonstravam uma aparência de cansaço, evidenciando a ausência de um repouso realmente
satisfatório.
79
Neste estudo, a maioria dos profissionais informou experiência em média de 10 anos
no trabalho noturno, ou seja, encontram-se na fase de sensibilização e acumulação 4. Estudos
em hospitais de São Paulo com auxiliares de enfermagem e enfermeiras revelaram um número
significativo de profissionais que relatam sérios problemas de saúde (principalmente músculoesqueléticos e emocionais) que os afastam do trabalho e reduzem sua capacidade de trabalho,
pelo menos temporariamente (FISCHER e BELLUSCI in HORNBERGER et al., 2000;
FISCHER et al., 2002).
O trabalho noturno interfere no relógio biológico pela privação que o trabalhador
noturno sofre em relação ao sono mostrando que as necessidades de sono de um indivíduo
podem ser variáveis. Para alguns o mesmo tempo dormido pode significar muito ou pouco.
Para Fischer et al. (2003), isso ocorre porque o padrão de duração do sono da espécie
humana apresenta frações de sono e vigílias distintas entre os indivíduos. Os trabalhadores de
enfermagem ao chegar em casa, mesmo conseguindo dormir sentem-se indispostos ao
acordar, afetando a realização de outras atividades e a atenção à família.
4.1.7 Obesidade
Segundo Ferreira, H. (2005), especialistas confirmam que a dieta influencia no
processo do sono, tanto sentir fome quanto comer em demasia podem atrapalhar o sono e
causar desconforto e insônia.
Shimizu (2004) afirma que pesquisadores liderados pelo professor Julio Lucínio da
Escola de Medicina David Geffen, da Universidade de Califórnia em Los Angeles (UCLA),
descobriram que, durante a noite, pessoas magras secretam grandes quantidades de grelina
4
Fase de sensibilização: desenvolvimento da carreira, construção do patrimônio, da vida familiar e social; fase
de acumulação: acumulação de riscos ambientais, adoção de estratégias combinadas com os efeitos do processo
biológico de envelhecimento (KOLLER, 1983).
80
(hormônio que estimula a fome), principalmente entre meia-noite a seis da manhã, em nível
tão elevado que supera os valores encontrados antes das refeições.
A grelina ajuda o organismo a controlar o peso como parte de um complexo sistema
que regula a ingestão de alimentos e o consumo de energia. Os indivíduos obesos não
experimentam tal elevação do hormônio, mas a surpresa segundo o pesquisador Licínio foi
ver que isso ocorre principalmente à noite.
Os cientistas da UCLA e da Universidade do Estado da Louisiana pesquisaram sobre o
hormônio leptina (hormônio que produz a sensação de saciação, indicando o momento de
parar de comer) e a adiponectina (hormônio que regula o metabolismo energético). Foi
evidenciado que os obesos, em relação aos magros, além possuírem níveis menores de
grelina, possuem níveis altos de leptina e mais baixo de adiponectina.
Uma explicação, segundo o cientista, é que algo pode estar cancelando a produção do
hormônio da fome nos mais obesos.
Quanto à alimentação, atrapalha muito porque o hábito alimentar muda, muda
porque você passa a não ter um horário correto. No trabalho eu janto? Janto.
Mas no meio da noite você dormindo, você não tem porque comer, nem beber e
acaba a gente praticando isso durante à noite, acaba engordando mais, mexendo
com sua estética, isso aí mexe também com o fator emocional. (E3)
Eu percebo que acabei engordando durante um tempo, ou seja, o fato de você
chegar e querer comer e está cansada, você come o que tá na frente e muitas
vezes você não seleciona. (E10)
Em casa normalmente eu não janto, aqui às vezes eu janto e sinto fome de
madrugada e em casa tenho menos apetite, aqui eu tenho uma fome exagerada.
(E11)
Rutenfranz e col. (1989) ressaltam que o trabalho noturno pode afetar de tal forma o
ritmo circadiano alterando os hábitos alimentares e, conseqüentemente, podem causar efeitos
adversos sobre o metabolismo e o peso corporal:
Eu observei que após arrumar dois ou três empregos noturnos tive um ganho de
peso, eu engordei muito. (E9)
Aqui a gente fica mais acordado e tal, então a rotina é comer sempre muito, mas
em casa não. (E13)
81
A obesidade deve ser avaliada pela genética e pelo estilo de vida porque nem sempre o
trabalhador gasta suas energias conforme o consumo. Neste caso, não é apenas o trabalho,
mas outros aspectos que podem influenciar na obesidade.
4.2 Repercussões para a Saúde dos Trabalhadores de Enfermagem
Quanto às repercussões, foram identificadas as seguintes: inadequação alimentar,
necessidade de cumprir com as obrigações logo após chegar em casa, interfere no lazer, no
relacionamento familiar, no aprendizado, maior risco para a ocorrência de acidentes.
Os trabalhadores de enfermagem que atuam no serviço noturno vivenciam um
cotidiano que difere do padrão de horários adotado socialmente e por tal motivo sofrem
repercussões que muitas vezes são negativas para a sua saúde.
Na opinião de Fischer et al. (2004), as dificuldades sociais dos trabalhadores noturnos
são queixas mais freqüentes do que as relacionadas aos problemas biológicos e, por vezes, são
a principal causa de má adaptação ao turno de trabalho, tendo ainda uma grande influência no
desenvolvimento das alterações psicofisiológicas.
4.2.1 Inadequação Alimentar
Fischer et al. (2004) comentam que a mudança dos hábitos pode ocasionar, por
exemplo, problemas gástricos que estão correlacionados com os hábitos alimentares
(regularidade dos horários, qualidade da alimentação e quantidade). Esta foi uma das queixas
unânimes entre os trabalhadores de enfermagem.
Minhas refeições são normais, sendo que às vezes, o almoço é tarde, já é bem
tarde. Quando eu almoço muitas vezes eu não janto, na verdade no dia que eu
venho do plantão né? Se eu almoçar cinco horas da tarde eu não janto. (E1)
82
Eu tomo café ou almoço aí eu fico...né? Totalmente enrolado. Eu como muita
besteira. Ultimamente eu tenho comido muito fora, na rua. Estou perdendo o
paladar da comida de casa. Eu só como em restaurantes, shoppings, essas coisas,
eu como legumes, verduras, muita mistura de tudo, muita besteira, muita
gordura, sal e tudo de ruim. (E12)
Alguns trabalhadores mencionaram que ficam em torno de doze horas sem
alimentação, ou seja, durante o plantão não se alimentam. Outros ao contrário, comem em
demasiado. Observei que isto ocorre freqüentemente, é uma rotina em todos os plantões
noturnos deste setor. Este resultado vem confirmar que o trabalho noturno tem um enorme
impacto sobre a vida diária do trabalhador.
Quanto às minhas necessidades de alimentação é ruim de tudo (Eu como o que
tiver vontade, tanto faz se eu vou comer uma pizza de manhã). . Primeiro, se eu
tiver a noite em casa, eu não como, aí quando dá três horas da manha que seria o
horário da troca do horário do descanso, eu acordo morta de fome e levanto pra
comer. E já que eu não jantei, eu vou comer, vou acordar de madrugada pra
comer como se eu tivesse tomado café da manhã. E um fato assim, eu acho que
isso aí é superinteressante relatar é que o meu intestino era um reloginho, ele
funcionava todo dia de manhã, agora não, ele só funciona de madrugada. (E2)
Eu passei não ter horário para alimentação, não tava com o organismo
preparado pra trabalhar à noite. (E3)
Pelo serviço noturno meu horário fica totalmente alterado, eu não consigo seguir
aquela alimentação certa, que eu poderia seguir se eu trabalhasse no serviço
diurno. (E5)
A irregularidade nos hábitos alimentares piora quando o trabalhador não possui uma
boa educação alimentar. Fischer et al. (2004) referem que geralmente as refeições do
trabalhador noturno são de preparo rápido e rico em gorduras. Este fato também foi
presenciado durante os plantões, onde geralmente os profissionais comem pizza, hambúrguer,
salgadinhos, bolos de chocolate, biscoitos; em grande quantidade e diversas vezes até o
término do plantão, sendo maior a ocorrência entre meia-noite e três horas da manhã, horário
em que ocorre um declínio do metabolismo orgânico.
Para Smith e cols. (1992 apud FISCHER et al., 2004), as pesquisas sobre a influência
no comportamento alimentar nas funções cognitivas têm utilizado testes que avaliam certas
83
habilidades ou capacidades concernentes às funções de percepção, memória, atenção,
concentração, processamento de informação, precisão e velocidade de movimento.
Os efeitos dos alimentos e seus nutrientes sobre a performance de diversas tarefas
psicomotoras foram demonstrados em pesquisas que avaliaram o efeito da ausência de uma
das refeições principais e a freqüência do consumo de lanches. Outro aspecto nas falas de
alguns sujeitos, é que uma alimentação normal é aquela que faz parte do seu cotidiano, porém
reconhecem que é prejudicial para a saúde, mas nem sempre conseguem evitar.
O comportamento alimentar representa uma combinação de ações que não se
restringem aos aspectos quantitativos e qualitativos dos alimentos ingeridos (FISCHER et al.,
2004). Está relacionado com o lado psíquico, pois muitas vezes o profissional encontra-se tão
cansado que quer dormir e não tem ânimo para se alimentar adequadamente, principalmente
quando é o próprio profissional que precisa preparar sua alimentação. Cabe ressaltar, que a
maioria dos profissionais de enfermagem são mulheres e geralmente ficam encarregadas do
preparo das refeições.
A alimentação envolve um comportamento pré e pós ingestivos que significa atender a
reposição energética que é biológica, participar da regulação afetiva e emocional porque se
constitui em atender uma necessidade básica, sendo assim uma fonte de prazer, além de
manter um vínculo social simbólico.
4.2.2 Necessidade de cumprir com as obrigações logo após chegar em casa
O quantitativo de profissionais de enfermagem do sexo feminino no CTI é de 78,6%.
Este dado afirma uma das características da profissão de enfermagem, um maior número de
trabalhadores do sexo feminino. Neste contexto, cabe ressaltar os papéis sociais exercidos
pelo trabalhador noturno que podem sobrecarregar ou levá-lo a lidar melhor com o trabalho
noturno (FISCHER et al., 2004).
84
Diversos aspectos interferem na qualidade e na quantidade do sono de um trabalhador
do turno noturno. Tais aspectos se articulam, dentro e fora do trabalho, no cotidiano de cada
um, principalmente no que diz respeito à divisão de trabalhos domésticos e responsabilidades
familiares (ROTENBERG et al., 2001).
A autora refere ainda que as demandas do dia-a-dia são de suma importância no que
concerne à possibilidade de dormir e aparecem como o maior divisor de águas entre homens e
mulheres.
Ao analisar as entrevistas, as mulheres geralmente chegam em casa e assumem o
cuidado com a casa e familiares e nem sempre descansam, principalmente se têm filhos
pequenos. Neste sentido, deve-se levar em conta os papéis socialmente atribuídos para os
homens e as mulheres, o que vai influenciar também na sua saúde. Quanto aos homens,
geralmente o trabalho pode ser mais cômodo, neste aspecto, porque são casados ou moram
com suas mães, não tendo a preocupação com o cuidado das atividades domésticas e filhos.
A primeira coisa que eu chego, mesmo tendo trabalhado é colocar tudo em ordem,
porque na hora que eu dormir, eu quero dormir sem que nada esteja me
atrapalhando, sem dormir pensando que eu tenho que fazer isso ou aquilo. (E3)
Saio do plantão e vou diretamente cuidar dela, só depois que eu cuido do banho
e da comida é que vou descansar. (E4)
Eu chego em casa, não chego em casa e deito, descanso, sento, eu chego em casa
aí tem um monte de coisa pra fazer e começo fazendo as coisas. (E8)
Sempre que eu tiver alguma coisa pra resolver como questão de banco, coisas que
eu vou perder o dia todo, eu sempre tento resolver saindo de plantão até porque
o dia geralmente não vai ser muito produtivo mesmo eu vou pra casa dormir,
então eu tenho que perder tempo com coisas chatas da vida. (E9)
Nos trabalhadores de enfermagem deste estudo foi possível identificar, através das
falas, que a responsabilidade com a casa está atrelada ao sexo feminino. Apenas as mulheres
referiram preocupação e cuidado com as atividades domésticas, isto implica no aumento da
fadiga, dificulta a reposição do sono, dificulta o lazer que é indispensável para a saúde do
trabalhador.
85
4.2.3 Interferência no lazer
Segundo Gaspar et al. (1998), é inegável o desgaste produzido pelos plantões, tanto na
esfera profissional como na vida pessoal e familiar. O que geralmente acontece é que o
trabalhador devido à sobrecarga de atividades em casa e no trabalho aproveita o “tempo livre”
(quando consegue) para descansar.
Eu acho que na verdade ele reduziu muito minha vida social, que a gente não
tem muito estímulo pra... né, não tem um estímulo, não tem disposição mesmo
pra sair... sair pra conversar, eu acho que isso é muito reduzido devido aos
efeitos desse sono acumulado na verdade. O sono influencia em toda nossa vida,
na verdade. (E1)
Este trabalhador menciona que quando iniciou no trabalho noturno não percebeu
grandes mudanças como acontece agora, ou seja, com o passar dos anos a influência do
trabalho noturno torna-se mais significativa para o trabalho de enfermagem.
Não vou fazer vinte e quatro horas e depois sair ou ir à praia, já fiz muito isso,
e hoje não faço vinte e quatro de plantão e vou à praia, ou então dançar à noite
toda e chegar no plantão, já fiz hoje não faço mais. (E3)
Muitas vezes eu deixo de ir na casa dos meus pais que eu não vejo sempre, às
vezes fico duas ou três semanas sem tá lá junto com eles, e eles precisam, né?
Então você se afasta e como eu só consigo tá presente mais presente nos meus
pais nos finais de semana. Já aconteceu de várias vezes eu planejar ir lá e não
conseguir, entendeu? Então só falar por telefone: Ah! Hoje eu ia dá até uma
passada aí, mas acabou que eu tava muito cansada e resolvi dormir. Então
outras questões assim, te convidam para alguma coisa e você até pensa: Poxa, eu
poderia ir, mas muitas vezes você prioriza o teu descanso de dia. (E10)
Na Igreja, minha esposa lida com adolescentes, eu participo também, marca
tudo dez horas da manhã, então eu estou saindo de plantão, então eu sempre
perco esses compromissos e falo pra minha esposa: vai que eu não vou não. Às
vezes eu marco a hora que eu vou e chega na hora eu não consigo acordar, não
consigo levantar, então isso atrapalha um pouco, né? O pessoal fala: Ah! Vamos
pra praia, então eu falo tô cansadão, tô quebrado e não consigo me levantar e
assim eu perco a chance. (E12)
Para Leite (2005), apesar de ninguém conhecer direito as funções do sono, alguns
estudos provam que ele é fundamental para manter a boa disposição. O sono age nos arquivos
cerebrais, principalmente nas primeiras 24 horas depois do aprendizado de algo novo.
86
A maioria dos eventos sociais e familiares geralmente ocorre à noite e nos finais de
semana. Como os trabalhadores noturnos atuam neste horário e nos finais de semana, nem
sempre participam das atividades sociais ou familiares. A quantidade de tempo que um
trabalhador noturno passa com sua família e com seus amigos depende da escala de trabalho
(ROSA e COLLIGAN, 2000).
O trabalho de enfermagem nos hospitais caracteriza-se por ser contínuo, com
atividades nas 24 horas, sem descanso, com extensa carga horária semanal, realizada
cotidianamente, incluindo os dias de feriado e festas comemorativas (SPINDOLA e
SANTOS, 2003).
Tudo de bom acontece no dia que você tá de plantão, é o melhor show do ano, é o
casamento da prima mais chegada, pode contar que é o dia que você tá de
plantão, então atrapalha um pouco a vida social sem dúvida também atrapalha
muito. (E2)
Às vezes é um passeio, é um casamento, é fim de ano, é festa de natal, é uma
viagem, assim... quer dizer existe essa cobrança. E quando se trata da noite
normalmente a grande maioria das festas é a noite. (E3)
Essa falta de tempo para sair muitas vezes deve-se aos outros compromissos como, por
exemplo, outro vínculo empregatício.
Eu sou uma pessoa que por ter três empregos, além do trabalho noturno, eu não
consigo ter muito tempo pra família e tão pouco pro lazer. (E5)
Você não tem tempo, porque quem trabalha à noite fica com pouco tempo
durante o dia, então, não tem tempo pra isso, não tem tempo pra aquilo, a vida
fica uma loucura, então nesse sentido é um pouco estressante. (E12)
Tem momentos que eu quero fazer um lazer principalmente à noite quero ficar
um pouco mais tarde com a família numa festividade qualquer, num casamento,
num churrasco, qualquer tipo de festividade, então, como a gente pensa que tem
que vir trabalhar na noite seguinte, às vezes tem uma atividade ou lazer e eu
não posso ir porque a gente tem que vir para a nossa atividade no trabalho à
noite. (E13)
Não tenho tempo nem pra me tratar, tipo ir ao médico, dentista geralmente eu
vou prorrogando até por cansaço, sabe, da noite. (E14)
87
Os problemas sociais vividos pelos que trabalham em turnos, particularmente à noite,
estão relacionados a um cotidiano essencialmente diferente do restante da comunidade em
termos da distribuição temporal de suas atividades (FISCHER et al., 2005).
Segundo a mesma autora, dependendo do esquema de turnos, os trabalhadores podem
enfrentar dificuldades de convivência com familiares e amigos, além da relativa
impossibilidade de participar de cursos ou outros compromissos regulares, levando ao que se
tem designado como isolamento social.
Oliveira, E.M. (1999) relata que o trabalho noturno é sempre nocivo para qualquer
pessoa; no entanto, nem sempre significa só sofrimento, pode, às vezes, significar um
instrumento de romper com a solidão doméstica ou mesmo criar uma identidade de
autonomia.
Eu não estou fazendo nada de positivo assim, pra balancear minha vida com
esse excesso de trabalho que eu me encontro atualmente, infelizmente não tô
tendo vida social, estou tendo uma vida meio solitária, só ouvir música, escutar
música. Eu sou uma pessoa até... já morei sozinha, agora estou morando de
novo, então eu estou até acostumada né? Sei lá, não é legal não. (E1)
Muitos trabalhadores têm a sensação de estarem isolados porque não coincidem suas
atividades com o resto das pessoas que os rodeiam (SUAREZ, 1999).
Em relação a minha família eu acho que afastou um pouquinho, acabou me
afastando um pouco da família, até reuniões da família, com os amigos.
Enquanto final de semana o pessoal tá fazendo churrasco ou tem reunião de
família, alguma coisa, o pessoal me chama, mas eu tô tão cansada que eu quero
dormir durante à tarde. À noite estou trabalhando e de dia se tiver alguma
coisa: um almoço, alguma coisa, eu tô dormindo, então eu não participo das
reuniões da família. (E7)
A minha vida social é uma coisa que inexiste, né? Tudo pra mim que diz respeito
a qualquer tipo de evento, festa...tem que ser algo programado com alguma
antecedência, eu tenho que colocar na agenda. (E9)
Toda vez influencia sim, negativamente, porque as pessoas tendem a achar: Oh!
Que bom que você vai tá em casa hoje, mas tal dia você não vai tá ou então tá
todo mundo planejando fazer alguma coisa e você fica meio esquecida. (E11)
O lazer que conhecemos atualmente surge de forma concomitante com a organização
capitalista do trabalho, especialmente a industrial, e depois se espalha por toda a estrutura
88
social. É nesse momento que o trabalho passa a ser artificialmente controlado, subordinandose a uma lógica e racionalidade próprias. (TURINO, 2005)
4.2.4 Interferência no relacionamento familiar
Essas mulheres trabalhadoras, em sua maioria, são mães (64,3%), possuindo em média
dois filhos (50%) na faixa etária de 16-20 anos (55,5%). Este dado contrapõe ao estudo,
realizado por Rotenberg et al. (2001), em que a maioria tinha filhos de até dez anos. Neste
estudo, 22,3% dos trabalhadores possuem filhos até 10 (dez anos de idade). Este dado é
importante, pois alguns estudos, segundo Fischer et. al. (2004), ressaltam que o impacto do
trabalho noturno nos familiares é muito grande.
Para Marcondes et al. (2003), o cuidado com os filhos possibilitou aprofundar alguns
interessantes aspectos das relações entre homens e mulheres que vivenciam o trabalho
noturno. Como os demais trabalhos domésticos, a atenção às crianças parece constar do
conjunto das atribuições femininas, a tal ponto que o próprio ingresso e/ou a permanência no
turno noturno foram justificados pela possibilidade da mulher cuidar dos filhos durante o dia.
Spíndola e Santos (2003) mencionam, em sua pesquisa, que as mulheres, na maioria
das vezes, sentem-se duplamente culpadas porque não dão a devida atenção (ou julgam ser a
mais adequada) à sua casa e aos seus filhos, como também não conseguem dedicar parcela
maior de tempo para o seu próprio desenvolvimento profissional.
De acordo com as mesmas autoras, essa é uma ocasião importante e crucial para as
mulheres mães que estão inseridas na vida pública com atividades profissionais. A
enfermagem nos dias atuais permanece como profissão essencialmente feminina; assim sendo,
é bem elevado o número de pessoas que vivem essa realidade em seu cotidiano, ou seja,
serem mães e profissionais de enfermagem, englobando toda complexidade que tal situação
comporta.
89
A filha um dia tava chorando, a mais velha tem 17 anos: “mamãe você nunca
faltou ao trabalho pra ver a sessão da tarde comigo”. A minha filha repetiu ano,
porque não tinha assistência. (E2)
Minha filha não gosta que eu trabalhe à noite e ela quer que eu fique em casa.
Se depender dela assim nas vinte e quatro horas eu não preciso trabalhar. Então
ela quer atenção toda pra ela, se eu der carinho pro meu filho ela fica aborrecida,
fica chateada e ela reclama mesmo o direito dela querer minha atenção, ela se
queixa disso pra mim: “Poxa, a senhora passa a noite toda com aquele pessoal lá,
trabalhando e não me dá atenção, eu quero atenção, eu quero atenção, eu quero
atenção, né? Ligue pra mim, brigue comigo, né? Senta aqui vamos brincar”. Meu
filho ele me cobra mais por ele querer sair, né? Se distrair com os outros colegas
que são adolescentes e tudo...aí ele me cobra sim, os dias que eu não tô de
plantão eu tenho que ficar em casa pra ele poder sair com o horário dele livre,
né? (E8)
Observa-se que os filhos cobram a presença da mãe independente da idade. Quanto ao
estado civil, evidenciou-se que 50,1% dos entrevistados são solteiros, 28,5% casados, 14,3%
separados e 7,2% encontram-se na categoria de “outros”. Os depoimentos dos trabalhadores
mostraram que o fato de ser solteiro não significa não ter responsabilidade com a renda
familiar e criação dos filhos.
Alguns profissionais, embora solteiros, mencionam ser o
referencial principal para o sustento da família.
A prerrogativa masculina de não adesão aos trabalhos domésticos estende a eles uma
vantagem significativa para se adaptarem ao trabalho noturno. Trabalhar em casa representa,
para os homens, não estar submetido a esquemas de produção rígidos e controlados, podendo
se organizar com flexibilidade quanto a seus próprios horários e atividades (MARCONDES
et al., 2003).
O mesmo autor refere que a moral do homem, que tem força e disposição para
trabalhar, articula-se à moral do provedor, que traz dinheiro para dentro de casa, imbricandose para definir a autoridade masculina e entrelaçando o sentido do trabalho à família. Para as
mulheres no trabalho noturno que assumiram a atribuição de provedora da família, existe
grande sobrecarga que agrega as tarefas domésticas, a atenção aos filhos, o trabalho noturno e
a responsabilidade de garantir o atendimento às necessidades familiares e da casa.
90
Nem sempre o companheiro/cônjuge terá uma atitude positiva frente ao serviço
noturno. Segundo Rotenberg et al. (2001), no encontro e desencontro entre turnos de trabalho,
a intimidade dos casais que convivem parece ser a mais comprometida.
E agora namorando, o namorado reclama direto, final de semana então é uma
loucura, reclama muito: “ai, isso não tá certo! De novo! Você vai trabalhar
outra vez?” (E2)
Ele reclamava, reclamava mesmo, ele achava independente de eu tá morta,
aparentemente eu não tava morta, né? Fisicamente não, o resto minha filha... eu
já tava já em outra dimensão, mas ele achava que eu tinha que tá disposta à
tudo: sair, se ele quisesse sair, tá com a comida pronta na hora certa, tá com a
casa arrumada, toda pronta, bonitinha, com o cabelo pronto e unha feita, mais
eu já tava um bagaço. Chega uma hora que teu corpo já foi, entendeu? E você
tá ali, só a casca dormindo, não há quem agüente, não há quem suporte isso foi
assim até o fim do casamento, acabou. (E8)
Eles até cobram um pouco, igual hoje minha mãe me ligou pra saber quando eu
vou pra casa essas coisas todas, mas não tem uma cobrança muito grande e a
minha namorada também trabalha no serviço noturno, ela trabalha em média
três noites por semana, então nossos encontros são sempre programados. (E9)
Uma escala de trabalho estressante pode combinar com outros fatores e prejudicar a
saúde. Se uma pessoa tem outros fatores na vida, como um matrimônio conflituoso ou um
familiar doente, o turno de trabalho pode piorar a situação. Se um trabalhador tem maus
hábitos de saúde como fumar, alimentar-se incorretamente, é mais difícil ainda (ROSA e
COLLIGAN, 2000).
4.2.5 Interferência no aprendizado
Um dos motivos mencionados pelos trabalhadores quando optaram pelo serviço
noturno foi para ter tempo para os estudos, porém não têm tempo para se dedicar ao mesmo.
Os motivos são diversos a começar pelo cansaço, outro emprego, responsabilidades
domésticas e com a família.
Afeta a saúde mental do trabalhador gerando estresse e insatisfação por não conseguir
rendimento satisfatório nos estudos.
91
Tempo para estudar eu tenho muito pouco, porque as horas que eu tô em casa ou
é pra descansar ou é pra ficar com a família, foi até o motivo que eu larguei a
residência (curso de especialização), porque não tava dando. (E2)
Por ter três empregos e por ficar muito na prática, na assistência de enfermagem,
infelizmente eu até me cobro por causa disso, eu não consigo estudar. (E5)
Eu estudo mais eu acho sempre que falta tempo pra eu me dedicar porque eu fiz
isso assim: o professor vai jogando matéria então quando ele vai começar algo
que já foi dito eu tento procurar, o que é, do que se trata, ou seja, eu sinto que eu
me perco um pouco nisso, quando você recebe uma orientação né?, Normal, você
vai ter que revisar, recapitular e por falta desse tempo que eu sinto que eu tô
perdendo alguma coisa, entendeu?. (E10)
Com esta falta de tempo para os estudos, o aprendizado fica prejudicado. É bastante
comum a pessoa ter dificuldade para adormecer, e para se manter dormindo; com isso,
reduzindo a duração do sono, particularmente o diurno. As pessoas também podem sentir
bastante sonolência noturna, com dificuldades em manter a concentração, em se lembrar de
fatos recentes, etc (ANAMT, 2005).
Hoje eu vou estudar, aí você começa a ler, quando chega na segunda parte, você
já não lembra o que você leu na primeira. Aí enquanto tá interessante você volta
pra ler, chega uma hora que você fecha o livro e guarda e não lembra nada. (E2)
Uma coisa é você dormir bem e depois você acorda disposto, né? Aí você
consegue ler, você consegue compreender, outra coisa é você está com sono pra
tentar compreender qualquer coisa que esteja lendo. (E3)
Não consigo render, mesmo depois de um sono desse eu quero sentar, ler um
livro, né? Estudar, mas não consigo ler livro, é como se fosse uma noite
extremamente mal dormida. (E5)
Prestar atenção nas aulas torna-se uma tarefa muito difícil porque não houve um
descanso satisfatório durante a noite.
Quando chego na sala de aula é a hora do repouso, quando eu sento, aí bate o
sono, aí vou querendo dormir fazendo o maior esforço pra tentar prestar atenção
nas aulas, mas não é como os outros colegas que não trabalham. (E7)
Me faço só de corpo presente na aula fico olhando o quadro, muita das vezes
tenho a sensação de que eu olho mais não vejo, ouço mais não escuto, me faço só
ir à aula. Eu não tenho paciência pra ficar lendo horas e horas, né? Ou se eu
começar ler, tenho vontade de dormir ou fazer qualquer outra coisa
principalmente quando eu saio de plantão, eu não consigo estudar um dia após o
plantão. (E9)
92
Eu saio daqui vou para a faculdade, eu fico sentada mas ouvindo, né? O
professor falar. O sono vem às vezes até pra ler, tem que ler às vezes um texto
em sala de aula, às vezes é difícil a compreensão, eu percebo isso, mais é porque
parece que faltou o sono, a minha mente fica assim um pouco conturbada, como
se tivesse vários pensamentos ao mesmo tempo, eu percebo isto. (E10)
Só o cérebro adormecido fixa as informações recém-chegadas. Portanto, quem reclama
dos estudos precisa relaxar.
4.2.6 Maior risco para a ocorrência de acidentes
De acordo com Mello et al. (2003), alguns estudos concluem que o erro humano é um
dos maiores determinantes nos acidentes automotivos, falta de atenção, observações
inadequadas e erros cognitivos são responsáveis por aproximadamente 40% dos casos.
Eu dirijo e já passei por alguns sufocos devido a isso, né? Porque eu já senti sono
no volante e por duas vezes eu quase bati com o carro por causa disso, né?
Então mexe totalmente com a minha vida. (E5)
Teve um dia que eu sair do plantão tão cansada que eu cochilei, dormir num
cruzamento, a sorte que eu pisei no freio e tinha poucos carros, era bem cedo
senão eu tinha batido, então eu pensei: onde que eu estou? Em vez de dobrar a
direita, eu fui direto, aí eu olhei pra trás, caraca! Podia alguém ter batido.
Engraçado que quando você cochila você nem percebe, é como se você apagasse,
eu acho que eu nem fechei o olho, eu acho que dormir de olho aberto mesmo, eu
acho que foi Deus que fez o carro parar naquele dia. (E11)
Os mesmos autores mencionam que o sono tem importância fundamental no bom
desempenho profissional, atenção, coordenação motora, ritmo mental e principalmente o
alerta são influenciados pelo estado de fadiga. Além da redução do tempo total de sono e da
diminuição da eficiência de sono nos trabalhadores, um outro fator também se mostra
importante, estudos mais recentes indicam um aumento no risco de acidentes em função do
tempo de trabalho, ou seja, quantas horas consecutivas o trabalhador está desempenhando sua
função sem intervalo.
O acúmulo de serviço que faz essa sobrecarga, então é lógico que tanto em
medicação quanto cuidado, observação e registro, vai chegar um momento que
você vai falhar, mais porque sua cabeça não está mais sustentando você tá
levando o ..., é muito raciocínio e aliado ao fator que você tá sem dormir. (E2)
93
À medida que a pessoa fica privada do sono, maior será o número de erros ou
possibilidade de se está envolvida num acidente, ou seja, a piora no desempenho se acumula
com restrição crônica do sono (MELLO, 2005).
Com a perda do sono, alguns podem dormir facilmente em momentos inapropriados.
Esta condição pode impedir que um trabalhador faça seu trabalho de modo seguro e eficaz. O
cansaço pode afetar o desempenho no trabalho e na vida. Muitas pessoas não se dão conta que
dormiram por pouco tempo. Se ocorrer algum acidente, o trabalhador ou uma outra pessoa
pode se machucar (ROSA e COLLIGAN, 2000).
Durante a observação, pude presenciar outros fatos relacionados ao bem-estar do
profissional, alguns profissionais embora apresentassem sinais e sintomas que precisavam de
avaliação médica tentavam ao máximo resolver o problema por si mesmo e continuavam
trabalhando apesar das queixas.
Conforme Dejours (1992), existe a ideologia da vergonha que refere às atitudes e
comportamentos em relação à doença. O corpo só pode ser aceito no silêncio “dos órgãos”;
somente o corpo que trabalha, o corpo produtivo do homem, é aceito; tanto mais aceitos
quanto menos se tiver necessidade de falar deles. Quando esta dor torna-se insuportável ou
torna impossível o trabalho, somente então se decide consultar um médico.
Através das repercussões identificadas, foi possível observar que o próprio trabalho
noturno, muitas vezes, funciona como uma estratégia para lidar melhor com algumas questões
sociais, porém a relação risco e benefício acabam não sendo proporcional.
4.3 Estratégias Defensivas Utilizadas pelos Trabalhadores de Enfermagem
A ideologia defensiva é dirigida não contra uma angústia proveniente de conflitos
intrapsíquicos de natureza mental, e sim ser destinada a lutar contra um perigo e um risco real.
Por isso tem um caráter vital, fundamental e necessário (DEJOURS, 1992).
94
O mesmo autor refere que nem sempre os mecanismos de defesa utilizados
coletivamente são suficientes na luta contra a angústia e a dor mental, por isso cada operário
deve se defender individualmente dos efeitos penosos da organização do trabalho.
Diante das situações vivenciadas pelos trabalhadores, foi possível identificar
estratégias que são utilizadas durante o trabalho: ignorar a situação, comer demasiadamente,
controle do tempo durante a execução das tarefas, pausa programada para o descanso, trocar
ou pagar plantão.
4.3.1 Ignorar a situação
Segundo Dejours (1992), calar sobre a doença e o sofrimento leva, de maneira
coerente, a recusar os cuidados, a evitar as consultas médicas, a temer as hospitalizações.
Muitas vezes, a ideologia defensiva tem como objetivo mascarar, ocultar uma ansiedade.
Pra mim a diferença que eu tenho aqui com o trabalho diurno com o trabalho
noturno, eu nunca senti muita diferença. (E9)
Mais às vezes eu percebo assim...falta de concentração, né? A gente consegue
perceber essas coisas por mais que a gente tome as coisas com mais naturalidade.
Eu tento driblar a situação, né? Não pensando no problema. (E10)
O sofrimento que é vivenciado, mas não reconhecido, traz mais prejuízos para o
sujeito, pois a função dos mecanismos de defesa é aliviar o sofrimento e isto finda em não
permitir sua visibilidade tornando-o mais difícil de ser solucionado (MARTINS, 2005).
Esta afirmativa pode ser comprovada quando alguns trabalhadores ignoram os efeitos
do trabalho noturno, sendo os que apresentaram maior queixas em relação ao mesmo.
Quando o sofrimento está na fase inicial, dizemos que o indivíduo se encontra numa
fase de alarme. É o momento em o organismo está se preparando para reagir ao estressor. Às
vezes, porém ele fica bem controlado e quase nunca se manifesta tão claramente assim, aí
pensamos que está bem; contudo, aparece uma série de sintomas psicofisiológicos
(BEMSTAR, 2005).
95
Por mais mal humorado que eu chegue aqui ou em qualquer local de trabalho, eu
não deixo transparecer isso pras pessoas, no local de trabalho eu não deixo
transparecer até porque as pessoas não têm culpa disso, então me policio muito.
(E9)
Alguns trabalhadores reconhecem quando estão estressados, mas tentam disfarçar. É
uma estratégia utilizada por alguns, porque dizem que acham que os colegas de trabalho não
têm culpa dos seus problemas. Por outro lado, esses trabalhadores não conseguem disfarçar
muito quando chegam em casa.
4.3.2 Comer demasiadamente
Como foi mencionado anteriormente, é comum entre os trabalhadores noturnos se
alimentarem freqüentemente e com comidas calóricas, principalmente de madrugada.
Esta estratégia deve-se pelo fato dos trabalhadores tentar ficar mais alertas,
principalmente no horário da madrugada onde a sonolência é maior.
Agora durante o serviço existe realmente isso a gente come muito, eu não tenho
hábito de comer à noite e de madrugada aqui a gente come. (E6)
A minha ansiedade é tanta que eu como, como, como, como, eu tô me sentindo,
sabe? Parece que eu comi um boi, eu tô estufadona, aí eu vomito colocando tudo
pra fora, acabei de colocar pra fora, daqui à pouco ou tô lá catando alguma
coisa pra comer de novo, sabe? Eu acho que isso é ansiedade, sabe? (E8)
Este hábito não é benéfico porque são horários inadequados para a alimentação, onde
o metabolismo orgânico está mais diminuído, dificultando a digestão desses alimentos. Outro
aspecto importante é que tal atitude potencializa a chance de desenvolver doenças
cardiovasculares ao longo do tempo.
De acordo com Braile (2005), para a alimentação ser considerada saudável, também
depende de outras questões: o peso, história de doenças, tendências hereditárias para
obesidade.
Necessitamos de dieta variada, que tenha todos os tipos de alimentos, sem abusos e
sem exclusões levando em consideração o horário que as mesmas serão realizadas.
96
4.3.3 Controle do tempo durante a execução das tarefas
Segundo Silva (2002) o controle do tempo e a responsabilidade na execução das
tarefas fazem com que o trabalhador correlacione seu trabalho como maquinizado,
autocontrolável para oferecer o máximo de eficiência, mas nem sempre este controle é
possível pois a condição dos clientes é carregada de intercorrências e imprevisibilidade.
Esta estratégia permite aproveitar o tempo da melhor maneira possível, adiantar as
tarefas enquanto o ritmo de trabalho e a disposição são maiores. Também significa permitir
uma sobra de tempo para sentar, lanchar e realizar todas as atividades, principalmente quando
o plantão está tumultuado.
Segundo Souza R. (2001) o trabalho em terapia intensiva com seus ritmos impostos, a
divisão e o conteúdo das tarefas, causam sobrecarga psíquica que contribui para um estado de
sofrimento psíquico. Dejours (1992) menciona que nesta “aceleração coletiva” dos
trabalhadores quem é desafiado com este comportamento é o tempo, o ritmo e a organização
de trabalho.
No trabalho quando eu tô muito, muito cansada eu tento fazer tudo numa hora
só, num pique só: faz, faz, faz, faz, faz, porque na hora que sentar, senta de
uma vez, porque também se você levanta, faz um pouquinho, aí senta, descansa,
na terceira vez que você sentar, então é melhor fazer o que tem pra fazer de uma
vez e depois sim relaxar um pouquinho o corpo, mesmo que dê um pouco de sono,
um pouco de cansaço, mais eu acho que o ideal é que você faça isso. (E2)
De início eu prefiro fazer todas as minhas atividades que eu tenho pra fazer.
Fazer o livro, fazer a escala do pessoal, fazer a parte do livro que eu tenho que
fazer, olhar os pacientes, avaliar os pacientes, começar a evoluir, né? (E4)
Aqui fico no ritmo de trabalhar, trabalhar, trabalhar. (E7)
Tento terminar tudo o mais cedo possível até após o término das tarefas tudo
que eu tenho que fazer, não tento deixar nada pra depois porque eu sei que se eu
parar eu não vou querer continuar, então eu tento agilizar tudo o mais rápido
possível. (E9)
Aqui eu procuro adiantar as coisas no máximo possível até meia-noite que é a
hora que eu tenho um pique maior, porque de meia-noite às três horas eu deixo as
evoluções, as anotações até às três horas, porque a hora passa mais rápido e por
conta de está cansada se arrasta mais, então eu procuro adiantar. (E11)
97
Graças à realização de táticas operatórias espontâneas, os trabalhadores conseguem
ganhar alguns minutos do ritmo imposto pela organização do trabalho. Um trabalhador pode
sair por alguns instantes para fumar, por exemplo, enquanto os outros trabalhadores
continuam indefinidamente a repetir os mesmos gestos (DEJOURS, 1992). Estes poucos
minutos arrancados do tempo e do ritmo de produção são aproveitados coletivamente.
Quando os trabalhadores conseguem cumprir as atividades em um tempo reduzido, os
mesmos demonstram satisfação. Segundo Linhart apud Dejours (1992), este momento é
vivido com intensa alegria, como uma espécie de vitória coletiva sobre a rigidez e a violência
da organização do trabalho.
A divisão de tarefas do turno da noite difere do turno do dia porque durante a noite
existe uma diminuição do ritmo de trabalho, neste hospital os trabalhadores têm um horário
para descansar. Isto significa que em um certo horário haverá um número reduzido de
trabalhadores no setor, o que pode significar sobrecarga maior se o trabalho não for agilizado.
Os trabalhadores procuram alternar as atividades nos plantões subseqüentes, a fim do
trabalho não ficar sobrecarregado e monótono.
Quando chego no plantão às vezes você pede: “Deixe eu ficar na medicação
hoje?” Como hoje eu falei: hoje eu vou ficar nos cuidados, porque hoje eu prefiro
ficar nos cuidados, acho que tem que ter a integração da equipe, pra isso a equipe
tem que funcionar, né? (E3)
Já vou adiantando medicação, já é a parte mais leve e eu peço pro pessoal pra
ficar na medicação, não pegar nos pacientes que são mais pesados, mais
cansativos, aí eu pego nas medicações que é a parte mais leve dá pra eu sentar
um pouco, porque se eu entrar no salão eu não consigo sentar. (E7)
Em alguns plantões, as atividades ficavam mais concentradas em um determinado
indivíduo, ou porque este gostava mais desta atividade, ou porque chegava primeiro, ou
porque estava cansado. Pude observar em um desses plantões que os próprios trabalhadores
começaram a se queixar desta divisão de trabalho, passaram achar o trabalho monótono ou
sobrecarregado.
98
Eu chego disposta pra trabalhar, é agora antes eu já chegava, já pegava a
medicação, mas como agora tem essa divisão de trabalho, né? Aí eu espero pra
ver o que vai começar a fazer pra mim poder começar. (E8)
Uma estratégia coletiva, utilizada neste setor, é ficar em movimento porque os
trabalhadores dizem que, desta forma, ajuda a “espantar o sono”, conseqüentemente reclamam
de dores nas pernas, coluna. Quando um trabalhador senta, o outro se mantém em movimento,
principalmente depois de meia-noite.
Eu não posso sentar, se eu sentar vai acontecer aquilo que você ta acostumada a
ver (risos), então não posso sentar, eu tenho que ficar com o corpo inteiro em
movimento e não sentar, porque se parar dorme, essa é a realidade. (E2)
Eu tenho que ficar o tempo todo em movimento porque senão o sono bate,
enquanto eu tiver em movimento o sono não bate, se eu parar já me dá sono.
(E7)
Eu faço tudo, porque você tá em movimento, você consegue até superar. A
minha dificuldade é maior quando eu não estou em movimento. Quando o
horário tá tranqüilo, já fiz a maioria das atividades, aí pra escrever, tudo o que
eu tenho menos movimento, né? Eu observo que o sono tira toda concentração,
mas se eu tiver em movimento acontece como se nada tivesse acontecendo, como
se eu tivesse dormido direitinho, entendeu? Parece que é um estado de alerta
ativado né? Tento encarar o que tem pra fazer e também não paro porque seu eu
parar com certeza você cede né, ao cansaço. (E10)
Alguns trabalhadores não permitem se sentar e acham que isso é fazer “corpo mole”,
na realidade o horário da noite foi feito para o descanso, por isso o ritmo de trabalho fica mais
lento e o cansaço é maior. Este trabalhador tem prazer em dizer que agüenta firme o trabalho.
Não pode fazer corpo mole, você ver aí eu não sento nem nada se não se você
ficar sentado você vai cochilar, né? E o sono pega, mas eu não faço isso não.
(E13)
Esta estratégia de ficar em movimento para não dormir muitas vezes acarreta nos
trabalhadores um estado de alerta e observei que alguns não conseguem relaxar em nenhum
momento.
99
4.3.4 Pausa programada para o descanso
Moreira (2005) ressalta que qualquer empregado que labora por mais de seis horas
diárias tem direito a um intervalo de no mínimo uma e no máximo duas horas para refeição e
descanso, salvo quando realizado acordo coletivo para redução ou extensão deste período.
Os trabalhadores não são passivos diante das dificuldades fisiológicas que encontram
quando do trabalho noturno. Suas estratégias não se limitam às modificações de suas ações;
elas podem também conter o planejamento de pequenos repousos, até de períodos de sono
(formais ou não) durante o horário noturno (FISCHER et al., 2004).
O que realmente me ajuda a levar o trabalho é quando eu descanso, tem aquele
período de descanso, aí eu me reanimo, vou lá realmente faço tudo. (E3)
No momento reservado para o descanso, os trabalhadores intercalam os horários, pois
geralmente no inicio da madrugada os trabalhadores não conseguem relaxar e, na maioria das
vezes, todos estão cansados. O rodízio permite que todos tenham a mesma oportunidade para
o descanso, porém não significa que todos têm a mesma oportunidade de ficarem mais
dispostos. Esta estratégia é alterada quando os trabalhadores decidem entre si.
Agora que tem duas enfermeiras, eu conversei com ela, pra ela quando a gente
tiver que dividir o horário, pra ela ficar sempre no primeiro horário, porque eu
não consigo descansar, então...é algo particular, não tem como mesmo. (E4)
O dia que eu tô sentindo mais cansada, eu vou forço um pouquinho a barra
porque eu sei que tem alguém cansado, aí tento ir no primeiro horário, né?
Quando não, eu faço um preparo interior e falo pra mim mesma: “ eu não vou
descansar agora. (E10)
O descanso no serviço noturno ainda é muito discutido, alguns autores acham que
cochilar não é a solução, pois o trabalhador retorna ainda sonolento e mais cansado; outros já
acham que o cochilo serviria para diminuir o prejuízo causado pelo atraso da realização do
sono.
100
4.3.5 Alteração do plantão
A troca ou pagamento de plantão é uma estratégia coletiva que permite com que os
trabalhadores façam o plantão em um outro dia. Este é marcado com antecedência.
Geralmente, os principais motivos para a troca de plantão são: o cansaço, o estresse, outros
compromissos sociais (trabalho, estudo, festas).
Desta forma, os trabalhadores solucionam
seus problemas parcialmente, porque nem sempre poderá ter alguém disponível para a troca o
plantão.
Quer dizer graças à Deus aqui tem a oportunidade da troca, de pagar o
plantão.Temos que ir pra festa, se eu tenho plantão, ou não vou, ou eu tenho
que dá um jeito de trocar esse plantão. Prefiro trocar, pagar o plantão, não vir, a
ter que vir e de repente tá criando um problema, então isso é um lado positivo
que eu sei, que eu procuro reconhecer quando eu estou assim, né? Muito
estressada e que ninguém tem nada a ver com meu problema de estresse, então eu
tento contornar. (E3)
Você tem que saber muito bem te disciplinar teu horário de trabalho e teu
horário de lazer e a facilidade da gente é que pode pagar, trocar, né? (E4)
Não consigo mais me preocupar com isso, ter que vir trabalhar, não ter que vir,
ficar preocupado porque vai ter um evento que eu queira ir, se eu quiser ir eu vou
trocar plantão, eu vou pagar alguém, qualquer outra coisa pra poder ir. (E9)
Esta estratégia também permite ao trabalhador ficar mais tempo com a família e
diminuir as cobranças dos filhos e maridos.
Com relação ao meu marido, ele se habituou porque me conheceu assim, mas ele
já cansou de uns tempos atrás querer que eu pagasse plantões, sabe? Querer que
eu fique mais em casa, não é assim ideal pra ele não, pra ele o ideal à noite seria
eu ficar em casa. (E10)
Eu tento fazer o possível pra que o trabalho noturno não influencie nos meus
filhos, meu marido. Ele me cobra muito a presença, então assim quando tem uma
festa dou preferência em pagar nos finais de semana, pra tá dando uma atenção.
Eu prefiro pagar aqui porque resolve o meu problema na parte familiar, fica
todo mundo mais satisfeito quando eu tô em casa, as coisas andam melhor.
(E11)
Alguns trabalhadores dão preferência em pagar o plantão de modo contínuo, até
mesmo por não conciliar o horário dos outros empregos.
101
Desta maneira, este estudo mostra a necessidade de uma humanização da organização
do trabalho para que este seja sinônimo de prazer e qualidade de vida para o trabalhador de
enfermagem.
102
CAPITULO V
CONSIDERAÇÕES FINAIS
De acordo com as evidências obtidas na investigação sobre as alterações
psicofisiológicas e a repercussão destas para a saúde do trabalhador de enfermagem de um
Centro de Terapia Intensiva, concluiu-se que:
O perfil dos trabalhadores de enfermagem afeta na tolerância do trabalho noturno:
idade, sexo, estado civil, grau de escolaridade, número de filhos, função no setor e opção por
outro emprego. Os trabalhadores deste estudo são, na sua maioria, mulheres confirmando a
predominância do sexo feminino na Enfermagem. Os trabalhadores encontram-se na idade
considerada economicamente ativa o que possibilita ter outros vínculos empregatícios e ajudar
no sustento da família tendo como uma das principais conseqüências o acúmulo de atividades,
levando a uma maior exposição aos riscos decorrentes da organização do trabalho.
Outro aspecto que tem uma forte influência é o ritmo circadiano (hábitos, preferência
da realização de suas atividades durante o dia ou à noite).
A maioria dos trabalhadores escolheu o serviço noturno para suprir suas necessidades,
porém dizem gostar de trabalhar neste turno de trabalho porque já estão acostumados, porém
não significa que estão adaptados.
Destes fatores quanto à tolerância do trabalho noturno interagem entre si aumentando
a maior exposição aos riscos deste tipo de organização de trabalho. Esta possui inúmeros
fatores estressantes onde as responsabilidades pelos cuidados de pacientes graves, o ritmo e o
volume de trabalho atuam como importante fator de carga física e mental para os
trabalhadores, principalmente por ser realizado no serviço noturno onde o trabalhador sofre
alterações no seu ritmo circadiano devido à privação do sono.
103
Neste estudo, as alterações psicofisiológicas identificadas foram: déficit ou
perturbação do sono, fadiga, diminuição da concentração, insatisfação, estresse,
envelhecimento precoce e obesidade.
Constatou-se que o sono, além de sofrer alterações no serviço noturno, desencadeia as
outras alterações psicofisiológicas, que também estão relacionadas entre si.
O sofrimento propiciado no contexto do trabalho está muito relacionado à organização
do trabalho e da história individual dos sujeitos, suas necessidades, suas aspirações e
realizações. A insatisfação do serviço noturno pelos trabalhadores de enfermagem está muito
mais relacionada às repercussões que este turno gera para a sua vida social, principalmente o
relacionamento familiar, do que para as alterações psicofisiológicas, pois nem sempre são
percebidas ou correlacionadas com o turno de trabalho.
As repercussões para a saúde dos trabalhadores são: inadequação alimentar,
necessidade de cumprir com as obrigações logo após chegar em casa, interfere no lazer, no
relacionamento familiar, no aprendizado e maior risco para acidentes.
Mesmo que os trabalhadores percebam mais as repercussões sociais negativas,
certamente esta trará um sofrimento psíquico que acarretará em alteração fisiológica e viceversa.
Eles lidam com estas situações de conflito de forma individual ou coletiva tentando
amenizar os riscos com as seguintes estratégias: comer demasiadamente, controle do tempo
durante a execução das tarefas, pausa programada para o descanso, trocar ou pagar plantão.
Os profissionais comem muito e com grande freqüência durante a noite. Em geral são
alimentos calóricos; o controle do tempo pelos trabalhadores relaciona-se à execução das
atividades o mais rápido possível de maneira ininterrupta e o descanso somente após o
término das atividades. Quando chega o momento da pausa programada pelos trabalhadores,
nem sempre conseguem relaxar, porque ficam neste estado de alerta tendo dificuldades para
104
relaxar; pagar ou trocar plantão muitas vezes serve como fuga do ambiente de trabalho para
aliviar o seu sofrimento.
Após a realização do trabalho, o trabalhador nem sempre vai direto para casa, ou
quando vai, não dorme de imediato devido à responsabilidade com outras atividades,
principalmente domésticas. Então aproveitam para cochilar no trajeto até chegar em casa.
Uma estratégia que está sendo muito utilizada pelos trabalhadores é compensar a
ausência familiar com presentes com algo material. Só que esta compensação na realidade não
pode suprir a ausência do trabalhador, principalmente no caso dos filhos pequenos que
crescem e não lembram da presença dos pais. Um outro fato negativo é que o trabalhador
acaba anulando suas vontades, seus desejos para realizar os dos outros, que nem sempre é
satisfatório.
As estratégias utilizadas pelos trabalhadores nem sempre terão uma repercussão
positiva, ou seja, ajudam a enfrentar uma determinada situação, porém podem interferir na
saúde dos profissionais.
Alguns trabalhadores de enfermagem vêm apresentando importantes sinais e sintomas
como por exemplo: aumento da pressão arterial, aumento da glicemia capilar, dores
abdominais, que em conjunto com fatores individuais, os tornam mais propensos às doenças
relacionadas ao serviço noturno. Isto ocorre porque os trabalhadores não se adaptam às
modificações e não conseguem lidar com os riscos (jornada de trabalho, volume e ritmo de
trabalho).
Cabe, portanto, mobilizar esforços para que a organização do trabalho propicie a
humanização do serviço noturno e seja planejada de modo a oferecer ao trabalhador uma
melhor qualidade de vida.
105
SUGESTÕES
Diante dos resultados obtidos, apresentam-se as sugestões a seguir:
 Para as Instituições de Ensino: uma maior discussão da temática ainda no curso de
graduação, a fim de preparar e conscientizar o profissional sobre os riscos do
serviço noturno e discutir estratégias para reduzir os danos que podem ser
provocados por este;
 Para a Direção e os Supervisores do Hospital: ajudar a conhecer os riscos
inerentes ao trabalho noturno, para atuar de forma preventiva reduzindo os riscos,
conseqüentemente as doenças e o absenteísmo do trabalhador;
 Para os Gestores de Enfermagem: contribuir com informações que ajudem na
organização do trabalho, amenizando, assim, os riscos para a saúde dos
trabalhadores;
 Para a Profissional de Enfermagem: refletir sobre a temática, permitindo a
conscientização e a utilização de estratégias para lidar melhor com as situações de
risco; realizar educação continuada sobre alimentação, incentivar a realização de
exames periódicos, realizar atividades de relaxamento;
 Para a Assistência de Enfermagem: discutir com as equipes questões referentes à
organização do trabalho com objetivo de ter um trabalhador mais saudável e maior
qualidade na assistência prestada;
106
 Para os Sindicatos: contribuir com as informações obtidas nesta pesquisa, para
que sirva de apoio científico nas discussões referentes às propostas da legislação
relacionada ao trabalho noturno.
107
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115
APÊNDICES
APÊNDICE A – PROTOCOLO DO ESTUDO DE CASO
APÊNDICE B – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
(para os trabalhadores de enfermagem)
APÊNDICE C – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
(para o presidente do SATEMRJ)
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
116
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
ESCOLA DE ENFERMAGEM ANNA NERY
NÚCLEO DE PESQUISA
ENFERMAGEM E SAÚDE DO TRABALHADOR (NUPENST)
PROTOCOLO PARA O ESTUDO DE CASO
Título: Alterações Psicofisiológicas dos Trabalhadores de Enfermagem do Serviço Noturno
em um Centro de Terapia Intensiva
Objeto de Estudo: Alterações Psicofisiológicas nos Trabalhadores de Enfermagem
decorrentes do serviço noturno em um CTI
Teóricos: Dejours, Fischer e Yin.
Questões Norteadoras:
1 – Quais são as principais alterações psicofisiológicas no profissional de enfermagem do
serviço noturno em um CTI?
2 – De que maneira as alterações psicofisiológicas repercutem na saúde do profissional de
enfermagem do serviço noturno que atua em um CTI?
3 – Como o profissional de enfermagem do serviço noturno que atua em um CTI lida com as
alterações psicofisiológicas?
Objetivos:
1 – Identificar as alterações psicofisiológicas nos trabalhadores de enfermagem do serviço
noturno que atuam em um CTI;
2 – Descrever as repercussões que as alterações psicofisiológicas trazem para a saúde do
trabalhador de enfermagem do serviço noturno que atua em um CTI;
3 –Discutir as estratégias defensivas utilizadas pelo trabalhador de enfermagem para lidar
com as alterações psicofisiológicas.
117
Procedimentos:

Autorização da Instituição para a realização da pesquisa;

Encaminhamento da pesquisa ao Comitê de Ética da Pesquisa;

Assinatura do TERMO DE CONSENTIMENTO;

Realização das entrevistas no setor de acordo com a disponibilidade dos sujeitos;

Programar a observação no campo onde será realizada a pesquisa;

Materiais necessários (gravador, fita K7, caneta e papel oficio);
Instrumentos de Coleta de Dados:
1 – Formulário
Caracterização dos Sujeitos da Pesquisa
2 – Entrevista

Tipo de entrevista: Semi-Estruturada;

Sujeitos: Equipe de Enfermagem do Serviço Noturno;

Período: Março – Julho/2005;

Local: Centro de Terapia Intensiva (sala do computador);

Horário: De acordo com a disponibilidade dos sujeitos da pesquisa: 24:00h às
02:00h.
3 – Observação Direta
 Nos horários em que não tivesse realizando entrevista. Alternando o horário para o
descanso.
118
4 – Entrevista com o SATEMRJ:

Tipo de entrevista: Semi-Estruturada

Sujeito: Presidente do SATEMRJ

Local: SATEMRJ

Período: Outubro/2004

Horário: 11:00h
Plano de Análise e Relatórios do Estudo de Caso

Estudo de Caso Único

Informações Descritivas

Estratégia Analítica Geral baseada nas Proposições Teóricas
119
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
ESCOLA DE ENFERMAGEM ANNA NERY
NÚCLEO DE PESQUISA
ENFERMAGEM E A SAÚDE DO TRABALHADOR (NUPENST)
FORMULÁRIO
CARACTERIZAÇÃO DOS SUJEITOS DA PESQUISA
1 – Idade:
2 – Sexo:
( ) 20 – 25 anos
( ) Feminino
( ) 26 – 35anos
( ) Masculino
( ) 36 – 45anos
( ) 46 – 55anos
( ) 56 ou mais
3 – Estado Civil:
( ) Solteiro
( ) Casado
( ) 1º grau completo
( ) 2º grau completo
( ) Viúvo
( ) 2º grau incompleto
( ) Divorciado
( ) Outros
( ) 3º grau completo
( ) 3º grau incompleto
5 – Tem filhos:
( ) sim
4 – Grau de Escolaridade:
6 – Função no CTI:________
( ) não
quantos?_________
7 – Você optou pelo turno de trabalho
qual a idade?
noturno? ( ) sim ( ) não
( ) Menos de 10 anos
( ) 11 – 15anos
8 – Tem outro emprego?
( ) 16 – 20 anos
( ) sim ( ) não
( ) mais de 20 anos
Em caso afirmativo: ( ) diurno ( ) noturno
120
ENTREVISTA SEMI-ESTRUTURADA
(ESTUDO DE CASO PILOTO)
1 – O trabalho noturno influencia na sua vida:
a) no desempenho de suas atividades no setor?
b) na sua vida social (família, lazer e estudo):
* Você tem tempo para sua família (conversar, lazer...)?
* O que sua família pensa sobre o horário do seu trabalho?
* Você estuda? Tem tempo suficiente para se dedicar ao estudo?
c) necessidades de sono e alimentação:
* Quantas horas você dorme por dia?
* Estas horas de sono deixa você mais disposto?
* Quando você chega em casa, você consegue dormir?
* Quantas refeições você faz por dia?
* Geralmente em que consiste sua alimentação?
* Você considera sua alimentação saudável?
* Você realiza suas refeições em horário regular?
2– De que forma você lida (estratégias) com estas situações mencionadas acima:
121
ENTREVISTA SEMI-ESTRUTURADA
(ESTUDO DE CASO)
1 – Como você se sente trabalhando à noite?
2 – Trabalhar à noite influencia de alguma forma no desempenho de suas atividades?
3 – O que significa o trabalho noturno para você?
4 - O trabalho noturno influencia na sua vida social (família, lazer, estudo)?
a – Você tem tempo para sua família (conversar, lazer...)?
b – O que sua família pensa sobre o horário do seu trabalho?
c – Você estuda? Tem tempo suficiente para se dedicar ao estudo?
5 – O trabalho noturno influencia no seu sono?
a – Quantas horas você dorme por dia?
b – Estas horas de sono deixa você mais disposto?
c – Quando você chega em casa, você consegue dormir?
6 – O trabalho noturno influencia no seu hábito alimentar?
a – Quantas refeições você faz por dia?
b – Geralmente em que consiste sua alimentação?
c – Você considera sua alimentação saudável?
d – Você realiza suas refeições em horário regular?
7 – De que forma você lida (estratégias) com estas situações mencionadas acima:
122
OBSERVAÇÃO DIRETA
O que observar:

Queixa dos profissionais de enfermagem no setor de trabalho referente ao desgaste
psíquico e fisiológico;

Comportamento dos profissionais no setor:
Isolamento Psicoafetivo (desencorajamento, desmotivação e desânimo);
Isolamento Profissional do Grupo de Trabalho (trabalho individualista);
Renúncia à Participação (não participa das decisões do grupo);
Condutas de Evitação (evita o trabalho, como por exemplo o absenteísmo);
Presença Excessiva no Local de Trabalho (fora do horário do mesmo);
Comportamentos Agressivos;
ROTEIRO DE OBSERVAÇÃO
Data:___/____/____
Horas
QUEIXAS
COMPORTAMENTOS
123
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
ESCOLA DE ENFERMAGEM ANNA NERY
NÚCLEO DE PESQUISA
ENFERMAGEM E A SAÚDE DO TRABALHADOR (NUPENST)
ENTREVISTA PARA O SINDICATO SATEMRJ
Entrevista
Local: _____________________________________________________________
Horas: __________ Data:__________________
Entrevistado:________________________________________________________
Assunto:

Algum projeto lei vem sendo desenvolvido à respeito do trabalho noturno (técnicos e
auxiliares de enfermagem)?

Em relação às leis o que tem de mais recente sobre o trabalho noturno?

Quando foi a última modificação destas leis?

Relacionada as necessidades básicas do trabalhador do serviço noturno, o que tem
relacionado ao: REPOUSO e a ALIMENTAÇÃO?
124
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
ESCOLA DE ENFERMAGEM ANNA NERY
NÚCLEO DE PESQUISA
ENFERMAGEM E A SAÚDE DO TRABALHADOR (NUPENST)
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
Você está sendo convidado para participar da pesquisa intitulada:
Alterações
Psicofisiológicas nos Trabalhadores de Enfermagem do Serviço Noturno em um CTI,
que tem como objetivos: Identificar as alterações psicofisiológicas nos trabalhadores de
enfermagem do serviço noturno que atuam em um CTI; Descrever as repercussões que as
alterações psicofisiológicas trazem para a saúde do trabalhador de enfermagem do serviço
noturno que atua em um CTI; Discutir as estratégias defensivas utilizadas pelo trabalhador de
enfermagem para lidar com as alterações psicofisiológicas. A sua participação não envolve
nenhum custo ou risco para sua pessoa, assim como nenhuma interferência na sua atividade
profissional. Sua identidade será mantida no anonimato. Você tem toda a liberdade de recusar
sua participação. Caso aceite participar, você poderá, a qualquer momento, obter informações
sobre o andamento desta pesquisa e também retirar seu consentimento mesmo que tenha antes
se manifestado favorável.
Pesquisadores:
_____________________________
________________________________
Marcia Moreira de Oliveira
Prof. Dra. Marcia Tereza Luz Lisboa
Tel: 2791 – 6008
Email: [email protected]
(orientadora)
Rio de Janeiro, ________ de _______________de _____________
Declaro estar ciente do inteiro teor deste TERMO DE CONSENTIMENTO e estou de
acordo em participar do estudo proposto, sabendo que dele poderei desistir a qualquer
momento, sem sofrer qualquer tipo de punição ou constrangimento.
___________________________________________
SUJEITO DA PESQUISA
125
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
ESCOLA DE ENFERMAGEM ANNA NERY
NÚCLEO DE PESQUISA
ENFERMAGEM E A SAÚDE DO TRABALHADOR (NUPENST)
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
Venho por meio deste, solicitar a sua autorização para a divulgação das informações
coletadas sobre a Legislação do Trabalho Noturno por meio de entrevista. As informações
darão subsídio à pesquisa intitulada: Alterações Psicofisiológicas nos Trabalhadores de
Enfermagem do Serviço Noturno, que teve como objetivos: Identificar as alterações
psicofisiológicas nos trabalhadores de enfermagem do serviço noturno que atuam em um CTI;
Descrever as repercussões que as alterações psicofisiológicas trazem para a saúde do
trabalhador de enfermagem do serviço noturno que atua em um CTI; Discutir as estratégias
defensivas utilizadas pelo trabalhador de enfermagem para lidar com as alterações
psicofisiológicas. A pesquisa terá duração de 2 (dois) anos. Solicito sua autorização para
identificar o seu nome e do Sindicato dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem do Rio de
Janeiro (SATEMRJ). Os dados coletados serão utilizados apenas nesta pesquisa e os
resultados divulgados em eventos e/ou revistas científicas. A sua participação é voluntária,
isto é, a qualquer momento você pode desistir de participar e retirar seu consentimento. Você
não terá nenhum custo ou quaisquer compensações financeiras. Sua participação não envolve
nenhum risco. O benefício relacionado com sua participação é contribuir com informações
relacionadas ao processo do trabalho noturno para mudanças na legislação e no processo de
conscientização dos profissionais de enfermagem, visando o fortalecimento da classe na luta
pelos seus direitos. Você receberá uma cópia deste termo onde consta o telefone/email do
pesquisador, podendo tirar suas dúvidas sobre o projeto e sua participação, agora ou a
qualquer momento.
Pesquisadores:
_____________________________
Marcia Moreira de Oliveira
Tel: 2791 – 6008
Email: [email protected]
________________________________
Prof. Dra. Marcia Tereza Luz Lisboa
(orientadora)
Rio de Janeiro, _____ de _______________de _____________
Declaro estar ciente do inteiro teor deste TERMO DE CONSENTIMENTO e estou de
acordo em participar do estudo proposto, sabendo que dele poderei desistir a qualquer
momento.
___________________________________________
ASSINATURA
126
ANEXOS
ANEXO A – FOLHA DE ROSTO UTILIZADA PARA A AUTORIZAÇÃO
DA INSTITUIÇÃO
ANEXO B – APROVAÇÃO DA PESQUISA PELO CEP
127
128
Livros Grátis
( http://www.livrosgratis.com.br )
Milhares de Livros para Download:
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