PROJETO AGORA: A PRODUÇÃO DE UMA CULTURA INFORMATIZADA
Luís Henrique Sommer
UFRGS
Este artigo é parte da pesquisa que estou desenvolvendo, intitulada Máquinas e
mentes em conjunção produtiva: a constituição do discurso da informática educativa
em Novo Hamburgo 1. Neste texto, examino o surgimento do Projeto Agora, movimento
comunitário estabelecido naquele município em abril de 1984, que objetivava a
disseminação da tecnologia da informática na cidade. Para tanto, a partir das
contribuições do conturbado e disperso campo dos Estudos Culturais e de uma
perspectiva pós-estruturalista foucaultiana, descrevo e analiso alguns textos publicados
na editoria de informática do jornal NH 2, no período de abril a junho de 1984, o que
corresponde à primeira etapa do Projeto Agora.
Em minha pesquisa estou significando o Projeto Agora como uma das
condições de possibilidade para a emergência do discurso da informática educativa em
Novo Hamburgo. Assim, antes que procurar descrever minuciosamente todas as etapas
de um projeto que objetivava a informatização da cidade, busco examiná-lo em conexão
com o foco de minha pesquisa, qual seja, como emergiu o discurso da informática
educativa em Novo Hamburgo, e por que se deu desta forma? E ainda, que relação há
entre o advento da informática educativa na educação e o governo da subjetividade
infantil? Assim, as próximas linhas pretendem contar algumas histórias 3 sobre o
advento da “cultura da informática” em Novo Hamburgo. Os textos e as imagens foram
selecionados e analisados inspirados na leitura monumental que Foucault empreende
tanto na arqueologia como na genealogia. Isto implica na leitura “feita pela
exterioridade dos textos, sem entrar propriamente na lógica interna dos enunciados, mas
procurando estabelecer as relações entre esses enunciados e aquilo que eles descrevem”
(Veiga-Neto, 1996, p.185).
1
Cidade da região metropolitana de Porto Alegre. População estimada: 220.000 habitantes. Novo
Hamburgo, através do projeto CEPIC (Centro de preparação e iniciação à ciência da informática),
de1985, é considerado o primeiro município da América Latina a introduzir computadores na escola
pública. Hoje o CEPIC sedia um Núcleo de Tecnologia Educacional (NTE) responsável por oitenta e um
laboratórios em escolas municipais e estaduais de Novo Hamburgo e dezesseis cidades vizinhas. Este
núcleo está vinculado ao Programa Nacional de Informática na Educação (PROINFO).
2
Jornal diário produzido pelo Grupo Editorial Sinos  Novo Hamburgo, RS. Tiragem atual: 40.000
exemplares/dia.
3
Uso histórias em oposição à História, no sentido de que não existe uma História, mas sim diferentes
histórias, contadas por diferentes sujeitos sociais que atribuem significados distintos conforme o lugar de
2
Das transformações pela informatização
Entre tantos pensadores que empreenderam reflexões sobre a informática e seus
impactos (ou implicações) na segunda metade do século XX está Lyotard (1998), que
no final dos anos setenta 4 anuncia uma nova época  a pós-modernidade 
determinada pelas novas condições e posições do saber nas sociedades informatizadas.
Segundo ele, esta nova posição do saber, conceptualizada como pós-moderna, “designa
o estado da cultura após as transformações que afetaram as regras dos jogos da ciência,
da literatura e das artes a partir do final do século XIX” (ib., p.XV). Estas
transformações na produção, distribuição e legitimação do saber, que colocam em
conflito a ciência e as metanarrativas 5, teriam sido provocadas pelo desenvolvimento
tecnológico e, nos últimos quarenta anos, acentuadas pela informatização das
sociedades mais desenvolvidas. Para Lyotard (1998), desde a segunda metade do século
XX, estamos presenciando uma mudança no estatuto do saber. De um saber
estabelecido enquanto tal por seu valor de uso, entendido como constitutivo da
formação espiritual das novas gerações  Bildung  e de uma correspondente
pedagogia que, postulando a completude dos saberes dos mestres buscava levar os
alunos à interiorização dos conhecimentos, estaríamos passando a um saber instituído e
definindo relações por seu valor de troca. Em um processo desencadeado pela
informática, responsável por uma explosão na produção e circulação de conhecimentos,
estabelece-se como condição ao saber sua redutibilidade à linguagem de máquina, ao
mesmo tempo em que sua circulação se fará mediada pela relação entre
fornecedores/produtores e usuários/consumidores. Esta transformação no estatuto do
saber ocorreria “ao mesmo tempo que as sociedades entram na idade dita pós-industrial
e as culturas na idade dita pós-moderna” (Lyotard, 1998, p.3) e seria caracterizada por
uma “explosiva exteriorização do saber em relação ao sujeito que sabe (sachant), em
qualquer ponto que este se encontre no processo de conhecimento” (ib., p.4). Esta
onde falam. Concepção tributária da concepção de representação que circula no âmbito dos Estudos
Culturais.
4
Trata-se do livro A condição pós-moderna, publicado na França em 1979.
5
Lyotard (1998) denomina metanarrativas modernas os grandes e eloqüêntes discursos que, no seu
processo de legitimação recorrem a relatos tipicamente modernos “como a dialética do espírito, a
hermenêutica do sentido, a emancipação do sujeito racional ou trabalhador, o desenvolvimento da riqueza
(...)” (ib., p.XV). Em outras palavras, o autor está nos falando das grandes promessas do século XIX,
cujas proveniências estariam na Revolução Francesa e na razão iluminista.
3
mercantilização do saber, o saber elevado ao status de “principal força de produção”
(Lyotard, 1998, p.5), teria um impacto bastante profundo sobre as organizações políticas
e sociais das sociedades contemporâneas, em especial sobre a própria idéia de Estado e
de sua função.
No final do anos oitenta, David Harvey nos apontou que o mundo capitalista
passava por substantivas reformulações político-econômicas desde o início dos anos
setenta: “...a partir dos anos 70, vem ocorrendo algo vital para a nossa experiência do
espaço e do tempo que provocou a virada para o pós-modernismo” (Harvey, 1996,
p.207). O advento das novas tecnologias e o correspondente impacto na produção se
fariam acompanhar por novas significações sociais do tempo e do espaço, o que
implicaria, em última instância, em mudanças na forma de vivermos nossas vidas
individuais. Na dimensão econômica teríamos a passagem do fordismo para a
acumulação flexível e na dimensão política, a passagem do Estado do bem estar social
para o neoliberalismo.
O autor, que considera a modernidade como uma forma histórica de experienciar
o tempo e o espaço, fala-nos da aniquilação do espaço por meio do tempo na
pós-modernidade: “Desejo sugerir que temos vivido nas duas últimas décadas uma
intensa fase de compreessão do tempo-espaço que tem tido um impacto desorientado e
disruptivo sobre as práticas político-econômicas, sobre o equilíbrio do poder de classe,
bem como sobre a vida social e cultural” (ib., p.257). A tese de Harvey é que estamos
presenciando uma transformação brutal nas dimensões culturais, políticas e econômicas,
que estaria conectada a novas formas dominantes de experimentarmos o tempo e o
espaço. Transformações na superfície do capitalismo, pois que sintonizadas às regras
básicas da acumulação capitalista, e não o alvorecer de uma “sociedade pós-capitalista
ou mesmo pós-industrial inteiramente nova” (ib., p.7). O autor está sugerindo que a
singularidade do período iniciado nos anos setenta, reside na “explosão de novos
instrumentos e mercados financeiros, associada à ascensão de sistemas altamente
sofisticados de coordenação financeira em escala global” (ib., p.181), algo inimaginável
sem as novas tecnologias da informação e das telecomunicações, responsáveis pela
produção da síntese do tempo e do espaço, a compressão espaço-temporal 6.
Independente do conjunto de conceptos e relações utilizados por diferentes
autores e autoras para pensar as implicações das novas tecnologias nas organizações
4
humanas, sobretudo no mundo capitalista, é inegável que todos/as enunciam um
panorama definido por grandes transformações impulsionadas pelo advento das novas
tecnologias,
decorrentes,
especialmente,
dos
avanços
da
microeletrônica.
Transformações que na Novo Hamburgo dos primeiros anos da década de oitenta eram
especialmente perceptíveis sobretudo na esfera econômica. Anos dourados (ou melhor,
verdes dos dólares) para a principal indústria local  a produção de calçados  e a
exportação, especialmente para o mercado estadunidense e europeu, além de uma rápida
expansão do mercado de prestação de serviços. Novo Hamburgo sempre falou de si
mesma como uma pujante e empreendedora cidade, e a informática configurava-se
como a mais nova exigência do mundo contemporâneo, o passaporte para o progresso
econômico.
Projeto Agora: a produção de uma necessidade
O inconformismo da nossa comunidade foi fundamental, nos anos 60, quando
decidiu-se a sair em busca dos telefones automáticos, ao invés de ficarmos
aguardando que eles aqui chegassem, natural mas demoradamente. Foi uma
conquista de Novo Hamburgo e aquele equipamento sofisticado que substituiu
os velhos aparelhos à manivela trouxe, de imediato, resultados compensadores.
Na época as lideranças comunitárias sentiram que o esperar corresponderia a
perder precioso e irrecuperável tempo. A campanha, um verdadeiro mutirão,
colocou de uma só vez mais de mil aparelhos automáticos na cidade,
desativando os 318 telefones a magneto. Hoje, com mais de 10 mil telefones em
uso, Novo Hamburgo lidera o panorama regional e é uma das cinco cidades
gaúchas mais bem equipadas. Um outro desafio se apresenta, agora. É a
informática, o processamento de dados, o computador que se afigura como
ferramenta já indispensável a qualquer comunidade que precisa manter seu
desenvolvimento, crescendo. E já existe em Novo Hamburgo quase uma centena
de pessoas manipulando computadores em benefício próprio, direto. E ainda
dezenas de empresas operando aparelhos que racionalizam operações diversas.
Todos esses aparelhos em funcionamento demonstram, por si sós, que o
processo de popularização está desencadeado. Um perfil bem melhor que na
década de 60 quando ninguém, isoladamente, tinha o privilégio de ter em suas
mãos, individualmente, o moderno telefone automático 7.
O documento acima transcrito vai na direção dos discursos que circulam em
Novo Hamburgo dando conta do espírito comunitário e empreendedor dos seus
habitantes. Na década de sessenta foram os telefones automáticos trazidos para a cidade
por força da mobilização da comunidade, depois a consolidação do município como
6
A este respeito ver especialmente A experiência do espaço e do tempo (Harvey, 1996, p.185-277).
Editorial de capa. Jornal NH, 13 de abril de 1984. Fica convencionado que as citações em itálico
referem-se aos textos classificados como material empírico.
7
5
capital nacional do calçado, seguindo-se a condição de grande pólo exportador. Na
metade da década de oitenta temos os computadores nas escolas públicas municipais e,
bem mais recentemente, o encampamento da Companhia Rio Grandense de Saneamento
(Corsan), concomitantemente à instituição da Companhia Municipal de Saneamento
(Comusa) e conseqüente administração da água pelo município. Em todos estes
empreendimentos atribui-se o mérito das conquistas à mobilização da comunidade.
Em 1984, o jornal NH promove uma campanha junto aos seus leitores e leitoras
cujo objetivo era sensibilizar a “comunidade” da necessidade de implantar a
informática 8 na cidade. O movimento, nomeado Projeto Agora, é coordenado por um
dos diretores do jornal, lideranças empresariais e outras pessoas “representativas” da
comunidade:
Ao abrir espaço em suas páginas para uma nova seção, diariamente a partir da
próxima segunda-feira, para o tema informática, o jornal NH marca mais um
pioneirismo na imprensa gaúcha. Mais do que o cumprimento puro e simples
da missão de informar e ilustrar, o jornal NH pretende chamar a atenção e
conscientizar a todos desta realidade irreversível que é o computador. Assim
como nos anos 60, temos convicção de que se faz necessário ir ao encontro
desta arrancada tecnológica que servirá melhor a quem antes puder conhecê-la
e utilizá-la. Com a implantação do “Projeto Agora, A Conquista do
Computador”, o jornal NH associa-se ao esforço já existente do uso da
informática a serviço do bem-estar social da nossa comunidade. Apressar a
popularização do computador, em todos os níveis, por acreditar nos benefícios
que advirão é, agora, uma das nossas metas prioritárias 9.
Inicialmente o jornal cria uma editoria específica de informática com uma
coluna diária ocupando sempre a página dois 10 da edição. À logomarca tradicional do
jornal foram acrescentadas as palavras Projeto Agora: a conquista do computador. De
início, a editoria de informática privilegia o relato de usuários hamburguenses contando
suas experiências com computadores. A seguir, oferece aos leitores e leitoras
informações técnicas: tipos de computadores, o léxico próprio do mundo da informática,
preços de equipamentos e principais usos. Finalmente, em meados de junho de 1984, a
editoria de informática assume uma diagramação padrão que se mantém ao longo de
toda sua existência e que consiste em uma matéria de abertura de página, apontando os
8
Expressão utilizada amplamente na campanha e, sistematicamente, publicada no jornal.
Editorial de capa. Jornal NH, dia 13 de abril de 1984.
10
Saliento que a página dois era, à época, considerada uma das páginas mais lidas do Jornal NH por trazer
a Coluna do Sabe Tudo onde eram, e ainda são, publicadas notas sobre o cotidiano da cidade.
9
6
avanços e resultados da implantação gradativa do Projeto Agora. Outro espaço fixo
desta coluna, presente desde a primeira edição, é denominado Micronotas 11 e consiste
em notas sobre encontros, seminários, avisos gerais acerca de temas relacionados ao uso
da informática e aplicações dos computadores em todo o mundo. O tratamento dado à
editoria de informática, composto pela coluna do Projeto Agora e por Micronotas, 
aliado a sua localização na página dois do jornal, ao lado da coluna mais lida, denota a
produção de um aparato discursivo estratégico.
A primeira parte do Projeto Agora consistiu na organização de um grupo de
trabalho responsabilizado pelo planejamento das ações a serem implementadas, tendo
como foco produzir na comunidade a necessidade, o desejo de abrir-se às “benesses” da
tecnologia da informática. A segunda etapa é marcada pelo contato físico da
“comunidade” com os computadores, momento em que o Projeto Agora abre-se à
participação das “lideranças” comunitárias e representantes de entidades de classe:
Os líderes comunitários e representantes de entidades de classe que se
reuniram, ontem, no Grupo Editorial Sinos, para tomar conhecimento dos
planos para a segunda fase do Projeto Agora, garantiram seu total apoio à
realização do I Ciclo de Encontros de Informática, que inicia no próximo dia 6.
Ficou claro, já nesta primeira reunião, que serão necessários mais dias do que
os inicialmente previstos para atender às expectativas de todas as pessoas que
desejam participar dos encontros que o jornal NH promover. (...) Dos onze
convidados, apenas um não pôde comparecer. Todos os demais estiveram
presentes: professor Ernest Sarlet, secretário municipal de Educação e Cultura
e membro do Conselho de Educação da Igreja Evangélica de Confissão
Luterana no Brasil; professor João Carlos Schmitz, diretor geral da Feevale e
presidente no Rio Grande do Sul da Associação Brasileira de Entidades
Mantenedoras de Ensino Superior; Sérgio Borba, diretor das Lojas CR e
vice-presidente do Clube dos Diretores Lojistas de Novo Hamburgo; dr. José
Selbach, presidente do Sindicato dos Médicos de Novo Hamburgo e membro da
Federação Nacional dos Médicos; dr. Alcione Scur, presidente da subseção de
Novo Hamburgo da Associação Brasileira de Odontologia  Rio Grande do
Sul; Pedro Ênio Schneider, diretor da PS Propaganda e delegado, no Vale do
Rio dos Sinos, do Sindicato das Agências de Publicidade do Rio Grande do Sul;
dr. Ítalo Dalla Barba, presidente da subseção de Novo Hamburgo da Ordem
dos Advogados do Brasil; sra. Elda Jaeger, presidente da Unimães de Novo
Hamburgo; Kurt G. Kirsch, presidente da Associação dos Contabilistas de
Novo Hamburgo e Felipe Berlitz, secretário da Associação dos Engenheiros e
Arquitetos do Vale do Sinos. (...) A reunião foi iniciada com algumas palavras
de Paulo Sérgio Gusmão, diretor do Grupo Editorial Sinos, que explicou a
proposta e o objetivo do Projeto Agora: “A Novo Hamburgo do dia 31 de
11
Este espaço segue o padrão da Coluna do Sabe Tudo.
7
dezembro de 1984 será totalmente diferente do dia 1º de janeiro deste mesmo
ano”, resumiu o jornalista ao concluir sua introdução 12.
No seguimento desta etapa foram feitas reuniões específicas e circunscritas a
cada uma das classes profissionais que estavam representadas no encontro acima
registrado. Cada representante de entidade de classe ficou responsável por convidar
vinte colegas de profissão para participar do I Ciclo de Encontros de Informática.
Importa relembrar que este movimento organizado em prol da informatização,
promovido pelo Projeto Agora, ocorria num momento em que Novo Hamburgo era
considerado um oásis de desenvolvimento devido, sobretudo, à exportação de calçados.
O mercado de prestação de serviços estava em franca expansão e os empregos nas
indústrias de calçados eram fartos e não exigiam qualificação específica, o que
favoreceu o ingresso de uma verdadeira legião de migrantes oriundos do êxodo rural,
que viriam contribuir para o surgimento de um cinturão de pobreza ao redor da cidade.
Os Estudos Culturais possibilitam-me enxergar este aparato discursivo
estratégico como uma narrativa que instaura determinadas políticas de identidade. Ela
produz representações através da instituição de significados pelos discursos. Costa
(1998), inspirada na perspectiva foucaultiana, salienta que os significados são
instituídos “de acordo com critérios de validade e legitimidade estabelecidos segundo
relações de poder” (Costa, 1998, p.41). Tais representações não representam  no
sentido de espelhar o que está já está posto  o “real”  mas constroem uma
comunidade culturalmente homogênea, ao mesmo tempo em que interpelam leitores e
leitoras para que participem da consolidação da informatização da cidade. Segundo
Costa e Silveira (1998), a mídia exerce determinadas ações sobre nós, não de forma
violenta, mas com um componente prazeroso de forma a que internalizemos os
discursos que ela coloca em circulação. Ora, as matérias veiculadas pelo Jornal NH tem,
nesta ótica, um caráter produtivo: ao narrarem determinados acontecimentos, instituem
uma determinada realidade  uma comunidade homogênea e unida na consolidação da
informatização da cidade  ao mesmo tempo em que interpelam leitores e leitoras a
participarem deste processo “irreversível”. Os atores sociais, que são apresentados como
sujeitos dos discursos em circulação  autoridades e lideranças ligadas a instituições
conhecidas do público leitor  contribuem à consolidação dos enunciados como
12
Jornal NH, Editoria de Informática, Coluna Projeto Agora, 1º de junho de 1984.
8
verdades. Segundo Hall (1997), “a mídia é, ao mesmo tempo, uma parte crítica na
infra-estrutura material das sociedades modernas, e, também, um dos principais meios
de circulação das idéias e imagens vigentes nestas sociedades” (ib., p.17). Neste sentido,
os/as leitores/as do jornal podem ser vistos como submetidos a um discurso que coloca
em circulação redes de significados com poder de subjetivação, convidando-os/as a
participarem da história da cidade, a compartilharem de uma nova identidade:
produtores/as de uma comunidade sintonizada com os novos tempos da informação e da
alta tecnologia. Além disso, o discurso recorrente, repetido, reafirmado, trivializa as
assertivas, apresentando-as como algo tão usual, unanimemente aceito e indiscutível que
ninguém ousaria colocar sob suspeita ou colocar em questão a importância e a
necessidade premente da informática e da preparação para fazer uso dela.
Em outras palavras, o jornal poderia ser compreendido como um mecanismo
produtor de uma cultura na medida em que faz circular determinados significados cujo
caráter substantivo lhes é inerente. As matérias diárias na editoria de informática
acabam constituindo-se como condição de possibilidade para a consolidação de um
discurso da informática que acaba disseminando-se amplamente nos mais diversos
setores da comunidade.
Examinando inúmeras matérias da editoria de informática é possível identificar
uma certa regularidade nas representações dos computadores. O computador é
consubstanciado como um objeto fácil de ser operado, estimulador da criatividade,
imprescindível, de arquitetura simples, a serviço da eficiência administrativa,
sintonizado com as exigências da vida moderna e bom para as crianças. A seguir
reproduzo alguns enunciados 13 que apontam na direção das representações acima
descritas:
Roberto Kirsch conta sua
Carlos Hennemann, sem medo do computador
Experiência com computador
“Ele só pensa o que você já
O serviço de uma tarde
pensou, mas é mais rápido”
em apenas dez minutos
(Jornal NH, p.2, 16/04/84)
Madalena Griebler, secretária, garante
13
(ib., 18/04/84)
Três meninas descobrem o computador e o pai
Trata-se sempre do título da matéria da editoria de informática.
9
“É mais fácil operar o computador
Afirma
do que uma máquina de escrever”
A máquina aproxima as crianças
E estimula sua criatividade
(ib., 23/04/84)
(ib., 25/04/84)
Quatro meninos aprendem a operar o computador
“No futuro, será uma
máquina indispensável”
(ib., 01/05/84)
Uma história exemplar de iniciativa e criatividade
Com o menor dos micros,
Bellange Calçados entrou
na era da informática
(ib., 02/05/84)
Alexandre Iserhard, diretor da Instituição Evangélica 14
“O computador já faz
parte da nossa vida”
(ib., 03/05/84)
Conectando as matérias do jornal a algumas outras publicadas posteriormente 15
e ao meu olhar  que é produto de minhas experiências pessoais como habitante de
Novo Hamburgo e participante do processo de implantação do projeto de informática
educativa da cidade  como professor de informática educativa, sustento que o
discurso da informática em Novo Hamburgo pode ser situado numa nova metanarrativa,
entendida por Peters (1994) como característica de uma economia pós-industrial. Esta
metanarrativa é traduzida como “uma história totalizadora e unificadora para legitimar o
prospecto do crescimento econômico e do desenvolvimento, com base no triunvirato da
ciência, da tecnologia e da educação” (Peters,1994, p.222). Este autor sustenta que tal
metanarrativa “está baseada numa nova visão do futuro” (ib.) que utiliza uma linguagem
própria, ao que eu acrescentaria estar perfeitamente identificada com o léxico do
discurso econômico contemporâneo em sua versão neoliberal:
14
15
Tradicional escola confessional privada de Novo Hamburgo.
Trata-se sempre da mesma coluna na editoria de informática do jornal NH.
10
A linguagem utilizada para sustentar essa visão é uma linguagem de
‘excelência’, ‘inovação, melhoria e modernização’, ‘obter mais com menos’,
‘alfabetização tecnológica’, ‘revolução na informação e nas telecomunicações’,
‘marketing e gerência internacionais’, ‘treinamento de habilidades’,
‘desempenho’ e ‘empresa’ (Peters,1994, p.222).
Os apelos ao desenvolvimento econômico, a ênfase na competitividade, o
imperativo da modernização podem ser entendidos como práticas discursivas que
instituem determinados regimes de verdade. É dentro deste regime de verdade que o
discurso da informática de Novo Hamburgo parece circular. Segundo Foucault (1998),
A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e
nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de
verdade, sua ‘política geral’ de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela
acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que
permitem distingüir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se
sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a
obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que
funciona como verdadeiro (ib., p.12).
Tal reflexão reporta-me à noção foucaultiana de episteme que Silva (1995)
traduz como sistemas que regulam nosso pensamento, visão e discurso. Em outros
termos, a “realidade” só tem sentido dentro de uma episteme que “não é sinônimo de
saber, senão que é a expressão de uma ordem, ou melhor dizendo, de um ordenamento
histórico dos saberes, princípio anterior ao ordenamento do discurso efetuado pela
ciência e dele independente” (Machado apud Veiga-Neto, 1995, p.23). Ou seja,
aparentemente é possível conectar o discurso acerca da informática em Novo Hamburgo
e, por conseguinte, seu advento, a uma ordem, a uma episteme 16que vem a ser a mesma
que sustenta o discurso neoliberal circulante em nossos dias.
Valendo-me ainda de Foucault (1998), é possível identificar no discurso que ora
analiso os atributos de uma “ ‘economia política’ da verdade” (ib., p.13) explicitadas
pelo filósofo através de cinco características desenvolvidas em Verdade e Poder. A
saber:
16
Estou usando episteme num sentido um pouco diferente daquele enunciado por Foucault na
Arqueologia. Sem desconsiderar o entendimento de episteme como uma ordem do saber; única e
condicional a todo e qualquer saber de uma determinada época, aplico-a num sentido mais restrito
tentando ressaltar os nexos entre informática e discurso econômico contemporâneo que se pretende
hegemônico.
11
a ‘verdade’ é centrada na forma do discurso científico e nas instituições que o
produzem; está submetida a uma constante incitação econômica e política
(necessidade de verdade tanto para a produção econômica, quanto para o poder
político); é objeto, de várias formas, de uma imensa difusão e de um imenso
consumo (circula nos aparelhos de educação ou de informação, cuja extensão no
corpo social é relativamente grande, não obstante algumas limitações rigorosas);
é produzida e transmitida sob o controle, não exclusivo, mas dominante, de
alguns grandes aparelhos políticos ou econômicos (universidades, exército,
escritura, meios de comunicação); enfim, é objeto de debate político e de
confronto social (as lutas ‘ideológicas’) (Foucault, 1998, p.13).
Ora, na apregoada Conquista do Computador perpetrada por Novo Hamburgo é
possível identificar tais características . Todas as seções do I Ciclo de Encontros de
Informática contaram com uma palestra proferida por pessoas com afinidade e
“legitimidade” no uso do discurso científico: professora do Programa de Pós-Graduação
em Ciências da Computação da UFRGS; mestre em engenharia de sistemas pela
universidade de Newcastle (Inglaterra); médico pesquisador do Laboratório de Estudos
Cognitivos-UFRGS e membro da Sociedade Brasileira de Computação; engenheiro com
grande experiência na aplicação da informática; coordenadora do Laboratório de
Estudos Cognitivos do Departamento de Psicologia da UFRGS, entre outros. No que
tange às esferas econômica e política, um exame cuidadoso poderia demonstrar que as
iniciativas em torno da informatização da cidade foram subordinadas, explicitamente, ao
discurso emergente da globalização econômica apresentada como o devir do mundo
ocidental. Já no que se refere à circulação no âmbito da educação e da informação e da
produção e transmissão, sob tutela das instâncias políticas e sociais, parece-me que
estão imbricadas com a primeira característica, pois a produção da verdade se dá pelos
discursos dos/das especialistas referendadas pelas “renomadas instituições produtoras de
ciência” que eles/elas representam. A circulação das verdades da informática tem lugar
no jornal em foco que acaba constituindo-se no espaço privilegiado do debate político e
ideológico, produtor de representações culturais.
Bibliografia:
COSTA, Marisa V. Currículo e Política Cultural. In: ____. (org.). O currículo nos
limiares
do Contemporâneo. Rio de Janeiro: DP&A, 1998.
12
COSTA, Marisa V. C.; SILVEIRA, Rosa. M. H. Afeto e domesticidade na constituição
das identidades femininas para a docência. Um estudo sobre a revista Nova Escola.
Porto Alegre: 1998, (mimeo). Relatório de Pesquisa.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense-Universitária,
1986.
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Foucault— Uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da
hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
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1998.
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da (org.). O Sujeito da Educação: estudos foucaultianos. Petrópolis: Vozes, 1995.
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Sujeito da Educação: estudos foucaultianos. Petrópolis: Vozes, 1995.
VEIGA-NETO, Alfredo J. Michel Foucault e Educação: há algo de novo sob o sol?
In:____. (org.) Crítica Pós-Estruturalista e Educação. Porto Alegre: Sulina, 1995.
____. A Ordem das disciplinas. Porto Alegre: UFRGS  PPGEDU: 1996. Tese de
Doutorado.
13
PROJETO AGORA: A PRODUÇÃO DE UMA CULTURA INFORMATIZADA
Resumo
O artigo examina o surgimento do Projeto Agora, iniciativa comunitária desenvolvida
em Novo Hamburgo, município da região metropolitana de Porto Alegre, durante os
anos oitenta e que visava a informatização da cidade. Ele é parte da pesquisa que
examina a constituição do discurso da informática educativa naquele município. O
estudo inscreve-se no campo dos Estudos Culturais e agrega contribuições de uma
perspectiva pós-estruturalista foucaultiana. Examino uma seleção de textos publicados
na editoria de informática do jornal local, demonstrando como é instituído um aparato
discursivo estratégico que, produz representações de computadores consubstanciados
como objetos fáceis de serem operados; estimuladores da criatividade; imprescindíveis;
de arquitetura simples; a serviço da eficiência administrativa e sintonizados com as
exigências da vida moderna, além de bons para as crianças e absolutamente
imprescindíveis ao progresso econômico. Ao mesmo tempo procuro demonstrar que
este aparato discursivo ao produzir tais representações, interpela leitores e leitoras a
participarem do processo de informatização da cidade. O texto procura descrever e
analisar o que entendo ser uma das condições de possibilidade para o advento da
informática educativa nas escolas públicas de Novo Hamburgo, considerado o primeiro
município da América Latina a inserir computadores na rede pública de ensino.
Palavras-chave: Cultura, Estudos Culturais, informática
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