2011/01/25
A CIMEIRA EUA/CHINA
Alexandre Reis Rodrigues
Não obstante as expectativas de sucesso, a Cimeira entre
Obama e Hu Jintao em Washington, entre 18 e 21 Janeiro,
não trouxe nada substancialmente novo nem qualquer
contribuição relevante para fazer avançar a cooperação entre
as duas potências.
Nem sequer para solução da questão da Coreia do Norte,
um ponto sensível para a estabilidade e paz no mundo, foi
possível descortinar qualquer nova orientação. Sabe-se que
este ponto tem sido debatido internamente em Pequim e
conhecem-se posições de respeitáveis académicos
chineses[1] que defendem que toda a política nessa área
deve ser repensada. Mas, como é habitual, o regime chinês
não tem pressa e prefere manter a tradicional perspectiva de não se impacientar com problemas
que tardam a ser resolvidos. Para Pequim processos demorados e impasses são um percurso
normal de negociações[2]; particularmente agora que o regime está a entrar num processo de
transição de chefias e não deve, por isso, arriscar situações de instabilidade.
Há quem[3], no entanto, detecte um sinal positivo nesta Cimeira: a concordância de Pequim em
mostrar preocupação, ao lado dos EUA, perante a revelação feita por Pyongyang de uma nova infraestrutura de enriquecimento de urânio. Depois de Pequim ter recusado condenar o afundamento da
corveta Cheonan em Março e o bombardeamento da Ilha Yeonpyang em Novembro de 2010 é, de
facto, um desenvolvimento a assinalar mas a verdade é que também ninguém se arrisca a prever
que este passo terá seguimento.
Obama tem procurado melhorar o clima de relacionamento, “fechando os olhos” aos aspectos da
política chinesa que mais ferem os que pensam que a postura americana em relação a outros
países deve manter-se condicionada à forma como aceitam os valores americanos. Mas há
correntes de opinião que, ao contrário da actual administração, prefeririam uma postura mais
“confrontacional”, com menor hesitação em utilizar as “ferramentas” disponíveis para obter
mudanças nas áreas da reavaliação do yuan, na protecção de direitos de propriedade, na adopção
de medidas proteccionistas do comércio, etc.
John Kerry, ex-candidato presidencial e presidente da Comissão de Relações Externas do Senado,
defendeu uma política em relação à China, num discurso a 7 de Dezembro, que alguns
interpretaram como o “estender de uma passadeira vermelha” à então próxima deslocação de Hu
Jintao a Washington. Kerry mostrou-se favorável a uma maior integração das duas economias, como
sugere o elevado grau de interdependência, e ao abandono da estratégia de contenção que, aliás, a
administração Obama nega estar a seguir[4].
No entanto, não obstante a facilidade com que qualquer dos lados pode provocar uma crise, um
clima de confrontação é o que menos interessa a ambas. Não é provável, portanto, que o mundo
corra esse risco. Mas as desconfianças estratégicas vão, com certeza manter-se, com queixas de
ambos os lados e as “respectivas elites a falarem mais frequentemente em conflito do que de
cooperação”[5].
Obama quer recuperar uma presença activa na região, algo que a sua administração considera ter
sido negligenciado por Bush, mas Pequim vê neste movimento uma tentativa de mobilizar parcerias
contra a China, numa espécie de estratégia indirecta de contenção. Os EUA tentam também retomar
o relacionamento militar mas o diálogo está “contaminado” pelas vendas de armamento americano
a Taipé e a realização de exercícios militares que Obama tem reduzido mas que os incidentes entre
as duas Coreias tornaram incontornáveis, como única forma de os EUA mostrarem solidariedade
com a Coreia do Sul. Na visita feita pelo Secretário da Defesa americano a Pequim, no início de
Janeiro deste ano, a proposta americana de dar início a um novo diálogo estratégico de cooperação,
em paralelo com o existente ao nível económico, ainda aguarda resposta das autoridades chinesas.
Recorde-se que Pequim fez coincidir o dia da chegada de Gates com a realização de um teste de
voo do novo bombardeiro J-20, supostamente stealth, assunto a que a imprensa deu larga
cobertura.
Pequim, por outro lado, continua insensível aos apelos dos EUA para que a China assuma as
responsabilidades internacionais inerentes ao estatuto de grande potência, sob a alegação de que o
sistema em que os EUA querem integrar a China foi desenvolvido na sua ausência. Pequim não
parece também querer dar qualquer passo no sentido de tornar mais transparente o processo em
curso de modernização das suas capacidades militares, cuja vertente naval muitos receiam poder
entrar em conflito com os interesses de outras potências regionais, em especial os da Índia no
Índico, e dificultar o papel de estabilizador que a Marinha americana tem desempenhado na região.
Contrariamente às expectativas americanas de que a China evoluiria para uma democracia, Pequim
vai continuar a tentar conciliar o regime comunista com o modelo de “capitalismo autoritário” que
adoptou. Aliás, agora está mais confiante do “acerto” do caminho escolhido, perante a crise
financeira em que os EUA se deixaram envolver em 2009, e esperançado de que as enormes
desigualdades sociais entretanto criadas poderão ser resolvidas por correcção da governação.
Fukuyama não acredita nessa possibilidade antes de o regime evoluir para uma democracia, por
falta de um sistema de responsabilização pública na hierarquia dos quadros do Estado, que evite a
corrupção generalizada que se tem verificado principalmente ao nível local.
Kissinger lembrava recentemente que “a natureza da globalização e o alcance das novas
tecnologias obrigam os dois países a interagir no mundo de uma forma que evite o regresso à
escolha de alinhamentos, deixando de lado os assuntos que precisam de uma solução global”, ou
seja à procura de “uma nova visão comum da ordem no mundo”.[6] No entanto, as possibilidades de
que o relacionamento evolua nesse sentido, à luz das circunstâncias atrás referidas, são com
certeza muito reduzidas.
[1] Por exemplo, os professores universitários Shen Digli e Zu Feng.
[2] Henry Kissinger, “Avoiding a US/China Cold War”, 14 Jan 2011.
[3] Kenneth Lieberthal do Brokings Institute, entre outros analistas especializados na região.
[4] Hilary Clinton: “US not seeking to contain China”
[5] Henry Kissinger, “Avoiding a US/China Cold War”, 14 Jan 2011.
[6] “The nature of globalization and the reach of modern technology oblige the United States and
China to interact around the world. A Cold War between them would bring about an international
choosing of sides, spreading disputes into internal politics of every region at a time when issues
such as nuclear proliferation, the environment, energy and climate require a comprehensive global
solution.”
“On most contemporary issues, the two countries cooperate adequately; what the two countries lack
is an overarching concept for their interaction. During the Cold War, a common adversary supplied the
bond. Common concepts have not yet emerged from the multiplicity of new tasks facing a globalized
world undergoing political, economic and technological upheaval. That is not a simple matter. For it
implies subordinating national aspirations to a vision of a global order”. Henry Kissinger, “Avoiding a
US/China Cold War”, 14 Jan 2011.
32 TEXTOS RELACIONADOS :
2012/04/15
COMO
SAIRÁ A
COREIA DO NORTE
DA HUMILHAÇÃO POR QUE PASSOU?
Alexandre Reis Rodrigues
2012/03/10
COREIA DO NORTE , DE
NOVO NO
“NEGÓCIO” DE
OBTENÇÃO DE AJUDAS
Alexandre Reis Rodrigues
2012/01/08
QUE
CURTO PRAZO PARA A
COREIA DO NORTE ?
Alexandre Reis Rodrigues
2011/08/05
COREIA DO NORTE . O QUE
Alexandre Reis Rodrigues
2010/12/13
A TRAZ DE NOVO AO NOTICIÁRIO INTERNACIONAL?
O IMBRÓGLIO
COREANO
Alexandre Reis Rodrigues
2010/11/29
O ENIGMA DA COREIA DO NORTE
Alexandre Reis Rodrigues
2009/11/22
A DESLOCAÇÃO
DE
OBAMA À ÁSIA ORIENTAL E
O MUNDO PÓS - AMERICANO
Alexandre Reis Rodrigues
2009/08/22
A CHINA E
A SOLUÇÃO DO PROBLEMA NORTE - COREANO
Alexandre Reis Rodrigues
2009/06/15
PORQUE QUER A COREIA DO NORTE
AMEAÇA?
SER UMA POTÊNCIA NUCLEAR?
Alexandre Reis Rodrigues
2008/06/16
A CHINA E
A
GLOBALIZAÇÃO
DO
M UNDO
Alexandre Reis Rodrigues
2008/05/26
R2P
Alexandre Reis Rodrigues
2008/04/30
CHINA: UM PAÍS , DOIS M UNDOS
Fábio Pereira Ribeiro (Brasil)[1]
2008/04/27
VAI
MUDAR A POLÍTICA CHINESA EM RELAÇÃO AO
TIBETE ?
Alexandre Reis Rodrigues
2008/03/31
BREVE APONTAMENTO
DA
HISTÓRIA DO CONFLITO TIBETANO[1]
Alexandre Reis Rodrigues
2008/03/20
O TIBETE
E O
“CRESCIMENTO HARMONIOSO” DA CHINA (1)
Alexandre Reis Rodrigues
2007/09/27
O M ISTERIOSO RAID ISRAELITA (II)
Alexandre Reis Rodrigues
2007/09/22
O M ISTERIOSO RAID ISRAELITA
Alexandre Reis Rodrigues
2007/07/19
COREIA DO NORTE - NUMA ESTRATÉGIA DE
MUDANÇA?
Alexandre Reis Rodrigues
2007/05/15
O CRESCIMENTO
DA
CHINA. AMEAÇA AO M UNDO?
Alexandre Reis Rodrigues
2007/02/28
“UM BOM PRIMEIRO PASSO”?
Alexandre Reis Rodrigues
2007/01/30
O CRESCIMENTO “PACÍFICO” DA CHINA
Alexandre Reis Rodrigues
QUAL A DIMENSÃO
DA SUA
2007/01/11
O M AIOR EXÉRCITO
DO
M UNDO
Alexandre Reis Rodrigues
2006/10/19
O 2º TESTE NUCLEAR DA COREIA DO NORTE
Alexandre Reis Rodrigues
2006/10/09
O ANIVERSÁRIO
DE
KIM JONG II
Alexandre Reis Rodrigues
2006/06/27
A COREIA DO NORTE - ENTRE
ALIMENTAR.
O LANÇAR DE UM MÍSSIL INTERCONTINENTAL E RECEBER AJUDA
Alexandre Reis Rodrigues
2006/02/02
COREIA DO NORTE . ALGUMA ESPERANÇA?
Alexandre Reis Rodrigues
2005/10/28
RUMSFELD E
O
"PERIGO"
CHINÊS
Alexandre Reis Rodrigues
2005/08/10
UM IMPASSE
QUE ESTÁ PARA DURAR
Alexandre Reis Rodrigues
2005/05/02
A QUESTÃO NUCLEAR DA COREIA DO NORTE
Alexandre Reis Rodrigues
2005/03/24
O PERIGO
CHINÊS
Alexandre Reis Rodrigues
2005/02/15
UMA NOVA POTÊNCIA NUCLEAR?
Alexandre Reis Rodrigues
2004/01/12
A CHINA NO SÉCULO XXI
Pedro Conceição Carvalho
Download

2011/01/25 Alexandre Reis Rodrigues Não obstante as