Cultura e identidade cultural no campo do Design Cultura e Identidade cultural no campo do Design Culture and cultural Identity in camp of Design Oliveira, Alexandre Santos de. Mestre. PUC-Rio | FUCAPI | FAPEAM | CAPES [email protected] Resumo Este trabalho apresenta os resultados preliminares da pesquisa que está sendo desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Design - Doutorado na PUC-Rio. O projeto tem como um dos seus objetivos compreender sob que perspectiva têm sido discutidos os conceitos de cultura e identidade cultural no campo do Design. As etapas da pesquisa bibliográfica consistiram em explorar, analisar e interpretar os conceitos, discutindo as categorias e suas implicações, culminando com uma síntese das ideias apresentadas pelos autores de maior representatividade ao abordar o tema em questão. Palavras Chave: Cultura, identidade cultural, Design. Abstract The present paper demonstrates the first accomplishments in the research being made in the Post-graduation program in Design – Doctorate, PUC-RJ. This research seeks to understand around which perspective the base concepts of culture and cultural identity are being discussed within the Design knowledge field. The research stages consisted in analysing, exploring and interpreting these concepts; debating its classes and its implications, culminating in the synthesized form of the ideas from the most influent authors approaching given subject. Keywords: Culture, cultural identity, Design DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º Congresso Nacional de Design Cultura e identidade cultural no campo do Design Introdução Este relato de pesquisa se propõe apresentar os resultados da pesquisa em curso no Programa de Pós-Graduação em Design - Doutorado na PUC-Rio. Um dos objetivos propostos para a primeira etapa da investigação consistiu em compreender sob que perspectiva têm sido discutidos os conceitos referentes às categorias: cultura e identidade cultural no campo do Design. Para dar conta deste objetivo, efetuei uma incursão nos trabalhos publicados nos anais do Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design - P&D e no Congresso Internacional de Pesquisa em Design – CIPED, objetivando verificar os trabalhos que tivessem como tema as referidas categorias, bem como identificar os autores mais representativos no que diz respeito à produção/divulgação de conhecimento científico, produzido sobre este objeto no âmbito do campo do Design. Sendo assim, me proponho apresentar os aspectos gerais do problema da investigação, a metodologia utilizada e os instrumentos de pesquisa para, em seguida, relatar os resultados parciais da coleta de dados e as análises/compreensões preliminares sobre o tema. Identidade cultural: aspectos do problema Os debates sobre a categoria identidade cultural, provocados pela globalização e a emergência da pós-modernidade, tem ganhado destaque em diferentes campos de conhecimento. Hall (2000) ressalta que as discussões com relação à identidade surgem a partir do incômodo que tal fenômeno tem causado às populações e culturas ao redor do globo a partir do movimento de globalização. Nessa perspectiva, estou ancorando o problema da pesquisa nas reflexões de Hall (2000, p. 109), para quem “as identidades são construídas dentro e não fora do discurso”. Ele defende que as identidades precisam ser compreendidas “como produzidas em locais históricos e institucionais específicos, no interior de formações e práticas discursivas específicas, por estratégias e iniciativas específicas”. Assim, procurar entender como se dão as negociações e a ressignificação das identidades culturais na contemporaneidade se constitui uma das interrogações a serem respondidas. Hall (2000) chama a atenção ainda para o fato de que a aparência de unidade/homogeneidade, que o termo identidade assume, constitui-se numa “forma construída de fechamento”. Citando Laclau (1990, apud Hall, 2000), ele reforça ainda que a construção de uma identidade está baseada na exclusão de algo com vistas a estabelecer, por meio de relações de poder, uma forte hierarquia entre os polos resultantes. Todavia, me parece necessário perguntar: numa sociedade periférica em que, cultural e historicamente, o saber do “outro” foi imposta por força da modernização, como separar aquilo que é meu e o que é do outro, se a lógica interna consiste, na aceitação tácita do “outro” como o portador de significados válidos? Esta interrogação se apresenta num momento em que a globalização parece impor às culturas a definição das suas diferenças, através da demarcação de fronteiras culturais que facilitem a percepção das distinções entre “nós” e “eles” (Silva, 2000). Assim, observo que a questão da identidade cultural tem sido tratada sob vários aspectos, a partir da literatura pertinente. Dentre elas se destacam o discurso da tradição, que admite a existência de identidades puras com referências espaço temporais identificáveis, que precisam ser preservadas, numa referência às identidades nostálgicas de que fala Featherstone (1997). DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º Congresso Nacional de Design Cultura e identidade cultural no campo do Design Ortiz (1994), por sua vez, discute a apropriação do discurso da identidade cultural pelo Estado como forma de apresentá-lo folclorizado e como expressão de uma identidade nacional. Para tanto, os recursos midiáticos e as empresas multinacionais passam a tratar o fenômeno sob uma perspectiva mercadológica, com vistas à obtenção de lucro, transportando a identidade da feira livre para as gôndolas dos supermercados. Não obstante que, as concepções acerca da identidade cultural, em determinados momentos da trajetória do Estado moderno, estiveram comprometidas com a manutenção deste Estado, visando à garantia de unidade do território nacional, através de uma perspectiva de integralidade e unidade cultural. É possível compreender que instâncias tais como a ciência, a cultura e em certa medida também o Design, foram organizadas para executar tal projeto de disseminação da ideia de unidade identitária da nação, com consequências diretas para o ensino e prática do Design no Brasil. Porém, com o esvaziamento do Estado-nação, por conta dos movimentos de globalização, observa-se a emergência de outros discursos referentes à(às) identidade(s) cultural(ais), envolvendo a diversidade sócio-cultural, o direito à diferença, as políticas das minorias/maiorias, dentre outras ações que parecem ter como objetivo fortalecer os “vínculos locais” que conferem aos indivíduos os “ícones da cultura do grupo” conforme sinaliza Featherstone (1997 p.149). Por outro lado, e pensando na natureza do trabalho do designer, que se ocupa em equacionar fatores estéticos, funcionais e simbólicos na concepção de produtos e processos, e por ser o campo do Design uma instância de produção cultural e por conseguinte, de tradução identitária, à partir de tais constatações, fui instigado a procurar entender, através da produção conceitual do campo, quais as vertentes teóricas existentes, como tais vertentes negociam suas influências, como o campo tem enfrentado esta questão e com que instrumental teórico. Metodologia Ao considerar o problema da investigação e as categorias envolvidas, ficou evidente a necessidade de uma pesquisa bibliográfica que balizasse e situasse os conceitos chaves bem como as categorias de estudo, necessárias ao entendimento do objeto em questão e que contribuíssem para o alcance do objetivo proposto. Sendo assim, optei pela realização da pesquisa bibliográfica dividida em três etapas, a saber: leitura exploratória, leitura analítica e leitura interpretativa. Leitura exploratória Ao referir-me à leitura exploratória como etapa da pesquisa bibliográfica, estou utilizando o conceito de Gil (1999), que faz referência aos pressupostos norteadores das pesquisas de caráter exploratório. Segundo o autor, este nível de pesquisa tem a finalidade de proporcionar uma visão geral e aproximativa acerca de determinado fato, oportunizando uma compreensão mais clara do problema a ser pesquisado. Para dar conta desta etapa da pesquisa bibliográfica, elaborei o formulário Ficha de Leitura Exploratória (Figura 1). DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º Congresso Nacional de Design Cultura e identidade cultural no campo do Design Figura 1 – Ficha Leitura Exploratória - Fonte: Arquivo do autor Leitura analítica Nesta etapa da pesquisa bibliográfica, o objetivo é apreender, através da interrogação sobre as questões propostas no texto, aquilo que ele tem a dizer, conforme declara Galliano (1986 p.92). O propósito de uma leitura analítica é apreender o conteúdo numa escuta sensível por parte do leitor, etapa esta que envolve descoberta e reflexão. O instrumento utilizado para condução da leitura analítica foi o formulário Ficha de Leitura Analítica (Figura 2). Figura 2 – Ficha Leitura Analítica - Fonte: Arquivo do autor DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º Congresso Nacional de Design Cultura e identidade cultural no campo do Design Leitura interpretativa Se na leitura analítica, a intenção era entender o que o autor tem a dizer, na leitura interpretativa os critérios a serem observados são as relações entre as ideias dos autores e os problemas da investigação por mim delineados. Para Galliano (1986), nesta etapa ocorrem as inferências e interpretações sobre aquilo que foi lido e Lakatos e Marconi (1991 p.21) compreendem o momento da interpretação como aquele no qual é possível “entender a intenção do autor”, o que envolve correlacionar as afirmações e ideias encontradas na fase de leitura analítica com a problemática em questão, bem como o julgamento sobre a pertinência do material analisado. Para esta etapa, utilizei como instrumento o formulário Ficha de Leitura Interpretativa (Figura 3). Figura 3 – Ficha Leitura Interpretativa - Fonte: Arquivo do autor Cultura e identidade cultural no campo do Design Minha preocupação com a necessidade de visitar o campo do Design, surgiu a partir da leitura do texto intitulado Sobre a efetividade de uma teoria do design a partir das sociedades periféricas (Villas-Boas, 2005). Nele o autor pontua, dentre outras questões, a necessidade de tomar como ponto de partida das investigações em Design, as ideias, teorias e reflexões produzidas no campo. Familiarizado com esta ideia e tendo desenvolvido uma investigação que tomou como referência esta postura (Oliveira, et all, 2006), estou recorrendo à produção no campo do Design no que respeita aos conceitos sobre cultura e identidade cultural, objetivando de entender como essas temáticas têm sido discutidas, e sob qual perspectiva, numa tentativa de aproximação que sinalize pistas para pensar o objeto em questão. Para a definição dos autores, alguns critérios foram estabelecidos: o primeiro deles consistiu na seleção de publicações que, no campo do Design, tivessem como tema a cultura e a identidade cultural. Inicialmente priorizei os livros publicados na área e, neste momento, DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º Congresso Nacional de Design Cultura e identidade cultural no campo do Design Maristela Ono, Dijon de Moraes e André Villas-Boas já se apresentavam com um conjunto significativo de estudos sobre essas temáticas. Num segundo momento, optei por investigar as produções impressas e digitais contidas nos anais dos dois maiores eventos científicos em Design no Brasil: o Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design - P&D, e o Congresso Internacional de Pesquisa em Design – CIPED, na expectativa de encontrar trabalhos que apresentassem em seu título, resumo ou palavra-chave, indícios de discussão dos principais conceitos: cultura e identidade cultural. À medida que a busca por publicações foi se desenvolvendo, senti a necessidade de agregar outras palavras-chave, além das categorias principais, cultura e identidade cultural, por perceber que muitos artigos utilizavam outra nomenclatura para referir-se, mesmo de forma indireta, aos conceitos-chave. A lista completa das palavras que nortearam a busca pelas publicações pode ser observada no Quadro 1. Amazonas cultura popular identidade Amazônia cultura material identidade cultural artesanato design brasileiro identidade nacional Brasil diferença memória brasilidade híbrido nacional cultura hibridismo regional Quadro 1 – Palavras que nortearam a busca por artigos nos anais do P&D e CIPED O segundo critério para seleção dos autores se deu por meio do quantitativo de obras publicadas com foco nas categorias de estudo, conforme pode ser observado na Tabela 3. No decorrer do levantamento quantitativo, passei a investigar duas grandes ocorrências: 1) se os autores selecionados, no primeiro momento da investigação, possuíam trabalhos publicados nos anais dos congressos; 2) se os autores eram citados por outros autores, sendo que este último dado passou a compor o critério para seleção e foi considerado como elemento indicativo de que os autores selecionados são (re)conhecidos no campo do Design. DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º Congresso Nacional de Design Cultura e identidade cultural no campo do Design Trabalhos Ano Evento Total do Evento 1994 1996 1998 2000 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 P&D P&D P&D P&D P&D/CIPED CIPED P&D CIPED P&D CIPED P&D CIPED 41 59 119 139 291 153 347 214 580 257 548 286 Cultura e identidade cultural 4 4 4 8 14 9 7 17 31 13 34 18 Tabela 3 – Quantitativo de trabalhos publicados nos anais do P&D e CIPED e ocorrências dos temas cultura e identidade cultural por ano e evento. A partir deste enquadramento, passei a examinar o material consoante a metodologia proposta, o que favoreceu a obtenção do seguinte painel sintético no tocante às ideias e reflexões, tal como são propostas pelos autores. A autora, os autores e suas ideias Maristela Ono Uma incursão pelas ideias de Maristela Ono (2004a, 2006) permitiu perceber que a cultura é vista sob uma perspectiva abrangente e como parte constitutiva das sociedades que englobam as variadas formas de relação que se dão no entorna social. No entanto, e em vários momentos de seus escritos, nos quais há uma tentativa ou intenção de posicionamento, fica claro que Ono entende a cultura como vinculada à interferência do homem na sociedade por meio dos artefatos e dos produtos da “cultura material”. Passeando pelos vários conceitos de cultura e apesar de tocar em categorias tais como: raça, relativismo, universalidade e historicismo cultural, não se compromete com nenhuma dessas abordagens, realçando, ao longo do seu discurso a perspectiva da cultura, vista sob uma ótica de totalidade calcada na teoria interpretativista de Geertz (1989 apud Ono, 2006), na qual a visão de cultura é apresentada como estando interligada através de uma rede de relações dinâmicas de compromissos assumidos entre os indivíduos em suas relações com às sociedades. Esses se constituem os dois grandes aspectos que a autora se apropria e utiliza como embasamento para sua argumentação. Assim, as discussões sobre a dinâmica da cultura material ganham peso nos escritos de Maristela Ono. A natureza de suas pesquisas no tocante ao desenvolvimento dos objetos e os requisitos simbólicos, técnicos e de uso como atributos de uma manifestação de cultura desejável (Ono 2004b.), assim como a responsabilidade do Design e dos designers, conduzem DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º Congresso Nacional de Design Cultura e identidade cultural no campo do Design a discussão para o campo da materialidade dos produtos enquanto portadores de identidade cultural. É importante ressaltar que o termo identidade cultural se constitui numa terminologia recorrente nos trabalhos de Ono (2004a, 2006). A autora contextualiza o conceito e as tendências no âmbito das discussões sobre identidade cultural e a emergência desta no cenário da globalização, constatando a existência de momentos de diferenciação, particularização e individualização, como características do tempo presente e como forma de contraposição à homogeneização cultural, capitaneado pela globalização. Para Ono (2004a, 2004b e 2006), identidade e diversidade cultural apresentam-se como possibilidade de defesa das nações periféricas, diante dos “colossos globais propensos à homogeneização mundial”. Para fazer frente a este projeto, ela aponta para a necessidade de considerar, no âmbito do Design, “hábitos culturais” como diferencial pois, “mediante a valorização e o respeito aos referenciais e contextos culturais locais, é possível fundamentar estética e tecnicamente a diferenciação dos artefatos desenvolvidos para as diversas sociedades”. Dijon de Moraes A partir dos escritos de Dijon de Moraes, que tive a oportunidade de manusear e sobre eles me debruçar de forma exploratória, analítica e interpretativa, foi possível entender que a cultura é vista pelo autor, sob uma perspectiva dinâmica e como um conceito em construção e interligado com as dimensões políticas, econômicas e sociais. Assim, o conceito de cultura se constitui como uma base para pensar as questões contemporâneas do Design e os compromissos deste com outra lógica produtiva que se desloca do centro para a periferia. De sorte que Dijon (Moraes, 1999 e 2006) questiona duas concepções de cultura. A primeira é aquela que, a partir de um olhar externo, apresenta-se sob uma perspectiva elitista e internacionalista que nega a riqueza do conjunto simbólico, os elementos, os fazeres e as possibilidades que as culturas localizadas, em seu caráter híbrido e mestiço produzem. A outra concepção questionada pelo autor é a compreensão interna que, diante do elemento externo, minimiza-se e mimetiza o componente contrário e impeditivo à modernização 1. Em se tratando de identidade cultural, é evidente a identificação por parte do designer da percepção desta como categoria/sinal de distinção entre as culturas (Moraes, 1999, 2004, 2006). Questões sobre a afirmação da “identidade” (Moraes, 2006 p. 69), a denúncia com relação à ausência de unicidade da identidade cultural do Design no Brasil (idem, p.169-170), a necessidade de “valorização dos aspectos locais ou ainda o discurso sobre a identidade cultural dos artefatos industriais” (Moraes, 2008a p. 1045) levam- me a entender o conceito de identidade cultural, tal como proposto pelo autor, sob uma ótica instrumental e como característica a ser impressa em produtos. No entanto, é importante observar que Dijon reconhece a importância das discussões sobre a identidade cultural no campo do Design, tendo em vista as demandas locais e globais, ao tempo que identifica um desafio para o país e para os designers, qual seja a “decodificação dos atributos intangíveis dos bens de produção industrial” (Moraes, 2008b, p.1045). Nesta 1 Sobre esta questão, é importante lembrar a idéia de Silvio Romero que “drenou o pessimismo então reinante e ainda teimoso hoje em dia, de que este país não conseguiria modernizar-se por causa de sua população mestiça e desfibrada” (Dimas, 2009 p. 87), como um dos elementos a que se atribui por muito tempo aos entraves à modernização do Brasil. DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º Congresso Nacional de Design Cultura e identidade cultural no campo do Design perspectiva, o autor pontua ainda a necessidade de formação de profissionais que deem conta das demandas contemporâneas no campo do Design, da cultura e da identidade cultural. André Villas-Boas Diante do conjunto de reflexões empreendidas, a partir dos escritos de André VillasBoas (1994, 1998a, 1999, 2000a, 2002a, 2002b), foi possível constatar que o autor trabalha com três pares dicotômicos bem definidos os quais representam seu posicionamento diante das questões que envolvem o Design Gráfico e sua inserção cultural, a saber: hegemonia/contra-hegemonia; canônico/não-canônico; centro/periferia. Os temas trabalhados pelo autor são controversos e sua abordagem não poderia ser outra. Ao combinar um posicionamento histórico, social e crítico do Design Gráfico, nem sempre o distanciamento do objeto para uma reflexão sobre a prática se constituiu numa equação fácil de resolver. No entanto, ele consegue demarcar os aspectos que norteiam o seu posicionamento através do aprofundamento teórico-conceitual. A preocupação com o Design Gráfico como elemento/instância da cultura é ponto pacífico, no entanto, Villas-Boas entende a dupla inserção da atividade no âmbito da cultura contemporânea, ao considerar as relações entre hegemonia e contra hegemonia como categorias em conflito que regulam as relações, tanto no âmbito da cultura, como no Design Gráfico. Assim, e utilizando-se do Design Gráfico para entender a dinâmica da cultura e o inverso também parece constituir-se numa verdade, entende o trânsito e até a complementaridade entre as duas instâncias sem, contudo, desconsiderar as diferenças internas, os elementos geradores e as relações de poder que as regula. Esse posicionamento leva Villas-Boas a identificar no âmbito e na natureza do Design Gráfico a presença de uma tradição canônica, precedida por outra não-canônica que, segundo ele, é parte intrínseca à natureza do Design Gráfico. Partindo da noção de hegemonia cultural, o autor identifica a ideia de alta cultura como instância de poder, com as feições homogeneizantes e de aculturação que ressoam no campo do Design, através da tradição funcionalista e internacional, ligadas a um projeto de modernidade exógeno e distante da realidade brasileira. Numa outra instância, não muito distante desta, o autor sinaliza como constituinte da natureza do Design Gráfico a existência, também, de uma tradição contra-hegemônica que ele denomina de não-canônica e precursora da atividade do Design Gráfico; ressalta que tal tradição se constitui uma herança da ruptura com as vanguardas estéticas modernistas das quais o Design Gráfico se afasta, quando de sua inserção na esfera produtiva e daí a sua canonização, dada a associação com o funcionalismo. Em síntese, posso ler, a partir de Villas-Boas, mesmo que provisoriamente, a presença de dois conceitos de cultura, qual seja: um hegemônico enquanto comprometido com os cânones da alta cultura e com uma ação homogeneizadora e outro balizado num conceito de cultura como resistência, contra hegemônica, não-canônica, que tem origem nas periferias híbridas e mestiças, tais como o Brasil. No que respeita à identidade cultural, o conceito é tratado como instância de mediação, em contraponto à onda homogeneizante no âmbito do capitalismo mundial. Apesar da identidade cultural se constituir um problema para o Design Gráfico, conforme ressalta o autor, ele parece identificar nesta categoria uma oportunidade para que o campo desenvolva uma autonomia projetual rumo a um Design Gráfico que seja capaz de lidar com os signos da periferia. DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º Congresso Nacional de Design Cultura e identidade cultural no campo do Design Possibilidades de síntese Não tenho a pretensão de esgotar aqui o conjunto das ideias defendidas pelos autores, interessa-me identificar, num primeiro momento, as principais questões que têm sido discutidas a partir da literatura no campo do Design, quando o assunto é a cultura e a identidade cultural. Concepções sobre o tema cultura No que se refere à concepção sobre o fenômeno da cultura, é possível perceber uma compreensão recorrente da cultura como fenômeno mestiço ou como consequência de um processo de canibalização histórica e semiológica conforme indica Moraes (2006), posição esta partilhada em grande medida por Ono (2006). Para ela, trazer à luz as “antigas tradições” funciona como percurso necessário para pensar o hibridismo cultural, resultante dos cruzamentos e contatos entre classes, etnias e nações contemporâneas. É importante salientar que tanto Ono como Moraes utilizam bases teóricas diferentes para pensar o fenômeno da cultura, no entanto, a compreensão oscila entre um conceito de cultura como herança social e total e a perspectiva de que esta herança passa, de tempos em tempos, por variações e reorganizações, o que requisita dos indivíduos ou dos atores culturais novos reposicionamentos. Mais próximo desta perspectiva parece estar Villas-Boas (1994, 1999, 2002a), que ancora a sua concepção acerca da cultura no espaço da sociedade industrial, como produto desta e envolta em relações de poder. Neste sentido, Villas-Boas pactua com Dijon de Moraes e Maristela Ono quanto ao caráter híbrido e mestiço da cultura brasileira. Por outro lado, uma visão crítica no que se refere à cultura, se constitui num aspecto passível de ser percebido no discurso dos autores, talvez Villas-Boas seja o mais enfático ao identificar os conflitos e as relações de poder que movimentam/movem/regulam o jogo da cultura, com destaque para a relação hegemônica exercida pela “alta cultura” e seu aspecto homogeneizador e o hibridismo e a mestiçagem presentes nas periferias como locus de resistência contra-hegemônica e nãocanônica. Moraes (1999, 2006) e Ono (2004b, 2006, 2008) partilham deste olhar quando questionam, no âmbito da cultura brasileira, a dualidade entre uma concepção de cultura que minimiza e mimetiza “o outro” pela reprodução de padrões exógenos à cultura e outra que nega a riqueza do conjunto simbólico presente no caráter mestiço e híbrido desta. Esta dupla concepção esteve atrelada, segundo os autores, a um olhar/postura internacionalista e elitista no tratamento da cultura brasileira como forma de superação do suposto atraso cultural. Concepções sobre o tema identidade cultural No âmbito de uma ideia/conceito/posicionamento quanto à categoria identidade cultural, a posição dos autores oscila entre aproximações e distanciamentos, face às instabilidades conceituais que o termo evoca, como no que respeita ao olhar de estabilidade que permeou os discursos sobre a identidade após a Segunda Guerra Mundial, momento a partir do qual emerge o Estado-nação tal como o conhecemos hoje. No caminho da multidimensionalidade, está Ono (2004a, 2006), que entende a identidade cultural como forma de contraposição ao processo de homogeneização e uniformização. Esta contraposição se dá, na perspectiva da autora, por meio do DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º Congresso Nacional de Design Cultura e identidade cultural no campo do Design reconhecimento e “valorização da diversidade cultural”. Em outra vertente está Moraes (Moraes, 1999, 2004, 2006) que parece movimentar-se entre o reconhecimento do caráter diverso e multifacetado da identidade cultural e a perspectiva de unicidade por ela evocada, questão esta da qual o autor se ressente, quando discute a relação entre identidade cultural e Design no Brasil. Por outro lado, Villas-Boas (1998b, 1999, 2000a, 2002a, 2000b), apesar de entender a identidade cultural como uma oportunidade para que o Design Gráfico desenvolva uma autonomia projetual, não compreende o conceito como fenômeno estático, ele identifica a prevalência de um determinado padrão hegemônico de identidade a serviço da ideia de nação, hegemonia que parece estar em questão face às discussões sobre a condição híbrida suscitada pela identidade cultural, isto sem falar no enfraquecimento do Estado-nação. Tal discurso é visto por Villas-Boas como uma das possibilidades de desenvolvimento de uma postura contra-hegemônica e não-canônica quando a questão é a identidade cultural e sua relação com o Design Gráfico. Três aspectos chamam a atenção no decurso das ideias apresentadas: a crença na possibilidade da identidade vir a se constituir num instrumento de defesa das nações periféricas como propõe Ono, a identidade como decodificação dos atributos intangíveis dos bens da cultural material como quer Moraes; ou tal como propõe Villas-Boas, que observa o reconhecimento da identidade cultural como estratégia de contraposição à tendência homogeneizante capitaneada pela globalização. Por hora e sem querer emitir a palavra final para as questões propostas pelos autores, indico as seguintes interrogações que estão a nortear os desdobramentos da pesquisa: 1. Poderá a identidade cultural, pelas vias do Design, dar conta de um projeto de contraposição hegemônica face aos movimentos de globalização? 2. Quais os riscos de mimetização e cristalização de processos culturais e por conseguinte das culturas que lhes dão suporte, ao utilizar como bandeira, a defesa da preservação das identidades? 3. Que negociações são necessárias ao campo do Design com vistas a possibilitar/fomentar um diálogo mais justo e menos desigual quando o tema é a identidade cultural no Brasil? 4. Frente à impossibilidade de uma síntese cultural, principalmente no que tange às culturas urbanas, estará em emergência um outro desafio epistemológico para o campo do Design, no que concerne aos processos de tradução deste novo paradigma em produtos e processos? Que venham as respostas. Referências DIMAS, A. O turbulento e fecundo Silvio Romero. In BOTELHO, A. e SCHWARCZ, L. M. (org.) Um enigma chamado Brasil: 29 interpretes e um país. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. FEATHERSTONE, M. O desmanche da cultura: globalização, pós-modernismo e identidade. São Paulo: Studio Nobel, 1997. DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º Congresso Nacional de Design Cultura e identidade cultural no campo do Design GALLIANO, A. G. O método científico: teoria e prática. São Paulo: Ed. Harbra Ltda, 1986. GIL, A. C. 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