Universidade Federal do Vales do Jequitinhonha e Mucuri Faculdade de Ciência Agrárias Departamento de Engenharia Florestal Caracterização do Perfil do Consumidor da Castanha-do-Pará. Relatório de estágio curricular Instituto do homem e do meio ambiente da Amazônia - IMAZON Acadêmico: Rogério Loturco Orsi Orientador: José Geraldo Mageste Supervisor: Simone Carolina Bauch Junho/2009 1. Introdução Este trabalho vem com a proposta de mostrar dados do produto como: nomenclatura, a maneira como vem sendo extraído do seu local de origem, a importância de sua produção e comercialização como alternativa sócio-econômica para a região, suas aplicações e utilidades. Assim como, caracterizar o perfil do consumidor da castanha-do-pará através de entrevistas realizadas nas feiras e mercados da cidade de Belém e regiões adjacentes. A Castanheira (Bertholletia excelsa, H. B. K.) é conhecida como Castanha-do Brasil e Castanha-do-Pará. Na 3ª Convenção Mundial de Frutos Secos, ocorrida em 1992, Manaus-AM, com a participação de mais de 300 empresários, convencionou-se chamá-la de Castanha-da-Amazônia. Considera-se um dos principais produtos florestais não madeireiros (PFNM) da biodiversidade da Floresta Amazônica. Tem grande potencial econômico, representando um dos elementos principais para a economia das famílias extrativistas. Segundo Locatelli et al. (2005), após a decadência da borracha, a castanha-do-pará passou a constituir o principal produto extrativo para exportação da Região Norte do Brasil. Seu fruto tem elevado valor econômico como PFNM, porém, o avanço da fronteira agrícola na Amazônia vem reduzindo progressivamente o extrativismo da castanha; sua derrubada pelas frentes madeireiras e da pecuária, vem diminuindo cada vez mais o contato entre o coletador (castanheiro) e os donos das usinas de beneficiamento. A extração do fruto (ouriços) se dá, em sua maioria, através da colheita selvagem e não de plantações. Este modelo vem sendo estimulado como uma maneira de se gerar renda e garantir a sustentabilidade da floresta, mantendo-a em pé. As castanhas são colhidas por trabalhadores conhecidos como castanheiros. Áreas com baixa atividade de colheita de castanhas possuem mais árvores jovens, enquanto sítios com atividade mais intensa praticamente não as possuem, pois, são coletadas um número muito maior de sementes, não possibilitando a regeneração natural desta população. Fonte: www.google.com.br/imagens/castanhadopara A castanheira apresenta várias aplicações, os "ouriços", como combustível ou na confecção de objetos (artesanato); a amêndoa, com grande valor econômico, usada para extração de óleo; do resíduo da extração do óleo obtém-se torta ou farelo usada como misturas em farinhas ou rações; "leite" de castanha, que é de grande valor na culinária regional; e, a madeira, oriunda das castanheiras-do-pará, de boa qualidade (boas propriedades), indicada para reflorestamento e empregada tanto na construção civil como naval, porém a sua retirada de dentro da floresta está proibida por lei, de acordo com o Decreto 1282, de 19 de outubro de 1994. Fonte: www.google.com.br/imagens/castanhadopara A castanha, em especial, possui utilidades bem variadas, o óleo extraído, por exemplo, é usado como lubrificante em relógios, na fabricação de tintas, e na indústria de cosméticos. Porém, sua principal utilização é no setor alimentício. Segundo Pacheco e Scussel (2006 apud SOUZA; MENEZES, 2008) a amêndoa da castanha contém grande quantidade de proteínas, lipídios, fibras, vitamina E e, em ordem decrescente, minerais como fósforo, potássio, magnésio, cálcio e selênio. Este último é um oligo elemento presente em maior quantidade na castanha-do-pará dentre todos os alimentos conhecidos. Segundo Sponchiato, um estudo da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, atesta que a ingestão diária de duas castanhas-do-pará eleva em 65% o teor de selênio no sangue. Esta pequena quantidade garante doses necessárias para que seu corpo preserve cada célula, dando combate ao envelhecimento celular e eliminando as moléculas que danificam as células, os radicais livres. Este mineral também teria um papel fundamental na proteção do cérebro, pois, ao combater os radicais livres, as células nervosas seriam preservadas, evitando surgimento de doenças neurodegenerativas com a idade. A tireóide funcionaria melhor na presença do selênio, isso porque, se não houver esse elemento, ela não consegue produzir/sintetizar direito seus hormônios. O mineral também possui outra função muito importante, está intimamente associado à capacidade de o organismo se livrar de substâncias tóxicas, ajudando-o a expulsar possíveis metais pesados que se aloje nas células, possibilitando assim uma melhor qualidade do organismo e, consequentemente, de vida. Por outro lado, o consumo deve ser moderado, pois esse estudo mostra também que, em excesso, o selênio pode causar dores de cabeça, ficar com as unhas fracas, queda de cabelos e mau hálito. A toxicidade acontece quando a pessoa ingerir mais de 800 microgramas por dia, a recomendação é de que um adulto consuma, no mínimo, 55 microgramas por dia, e uma criança metade de uma castanha. (uma unidade de castanha possui cerca de 200 a 400 microgramas de selênio). Na região Amazônica, onde são encontradas extensas florestas habitadas por seringueiros, grupos indígenas, ribeirinhos e castanheiros, o desafio do desenvolvimento sustentável é de conseguir obter benefícios econômicos através da gestão dos ecossistemas naturais, através do extrativismo sustentável e do manejo florestal de baixo impacto, garantindo para as gerações futuras um capital natural pouco alterado. Fonte: www.google.com.br/imagens/castanhadopara Segundo Becker e Léna (2002), o desafio dos pequenos produtores que habitam a Floresta Amazônica, é reverter o processo de degradação para obter uma agricultura sustentável, reforçando a agricultura familiar, promovendo sua diversificação pela adoção de sistemas agroflorestais (SAFs), a gestão dos recursos florestais remanescentes, a limitação da expansão da pecuária bovina, e a intensificação das práticas em certos casos. A produção, extração racional e beneficiamento de frutos regionais, como a castanha-do-pará, é uma das atividades sugeridas para a manutenção de um ambiente mais sustentável. Diante esta relação homem-natureza, que tem como meio a atividade extrativista, surge um novo movimento que vem se intensificando, juntamente com o crescimento dos núcleos urbanos: os mercados e as feiras. Este setor se torna responsável pela difusão de novas relações entre as áreas rurais e urbanas, contribuindo para criar um tecido sócio-econômico favorável ao surgimento de sinergias e complementaridades. 2. Metodologia Esta pesquisa está sendo realizada a partir da utilização de dados obtidos anualmente através de entrevistas realizadas em Belém, referente a produtos florestais não madeireiros PFNM, entre os anos de 2006 e 2009, totalizando um montante de 2635 consumidores, destes, 408 submetidos ao questionário específico sobre a castanha-dopará, os quais serão utilizados e analisados aqui. Belém foi fundada no século XVII pelo Capitão-mor Francisco Caldeira Castelo Branco, época em que, toda a Amazônia era Província do Pará. Sendo uma capital bastante rica decorrente de intensas explorações as seringueiras. O ciclo da borracha ou era da borracha teve seu ápice entre o fim do século XIX e começo do século XX. Sendo assim, de grande importância comercial para a região, pois, este período foi responsável pela construção de expressivos edifícios no município e forte imigração estrangeira com finalidade de desenvolverem a agricultura nas terras da Zona Bragantina. A cidade possui quarenta e quatro feiras, quatro portos e centenas de mercados, vendedores informais e mercearias. Para este estudo os supermercados foram selecionados baseados em uma amostra aleatória de 20% das três maiores redes de supermercados da cidade. As feiras nas quais foram realizadas as entrevistas foram selecionadas através de uma amostragem aleatória estratificada, visando uma amostragem representativa de feiras com diferentes números de vendedores de produtos florestais. A figura 1 mostra o número de bancas vendendo produtos florestais em cada feira (exceto o ver-o-peso, pois apresenta um número de comerciante superior a 100): Feiras em Belém Número de bancas com PFNM de interesse 80 70 60 50 40 30 20 10 0 1 3 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 25 27 29 31 33 35 37 39 41 43 Feira Figura 1: Número de vendedores de produtos florestais nas feiras de Belém. A amostra de estabelecimentos inclui nove feiras e seis supermercados de Belém, e as entrevistas foram realizadas nos meses de Fevereiro a Abril de 2006, 2007, 2008 e 2009 (que correspondem ao período de safra da maioria dos produtos florestais não-madeireiros). A figura 2 mostra a porcentagem de consumidores entrevistados nas feiras e nos supermercados na região metropolitana de Belém. Figura 2: Porcentagem: 1= Supermercados (24%), 2= Feiras (76%). A figura 3 mostra a porcentagem de homens e mulheres entrevistados na pesquisa. Figura 3: Porcentagem: 1= homens (44%), 2= Mulheres (56%). A escolha dos consumidores nos estabelecimentos visitados se deu por amostragem sistemática. O método de coleta de dados utilizado, o método de survey, apresenta um questionário estruturado de uma amostra da população e é destinado a obter informações específicas dos entrevistados. Baseia-se no interrogatório dos participantes e é direto, ou seja, o objetivo é conhecido pelo respondente (MALHOTRA, 2005). A seguir serão apresentadas as variáveis utilizadas no relatório: (FREQMES) “Freqüência mensal de compra” mostra o número de vezes que o consumidor comprou o produto (castanha-do-pará) no mês, será utilizada nas correlações e como variável dependente na regressão; (GENERO) identifica se o consumidor é homem ou mulher; (IDADE) “Faixa Etária” mostra a idade da pessoa entrevistada, esta variável vai relacionar-se com outras variáveis possibilitando o cálculo da correlação, assim, pode-se obter o grau de relação entre as variáveis de interesse; (RESBELEM) “Tempo de residência em Belém” expressa o número de anos que o indivíduo reside na região metropolitana de Belém, esta variável também será utilizada nas correlações e na regressão, podendo, assim, justificar, uma freqüência maior ou não na compra de castanha; (HHSIZE) “Número de pessoas na casa” mostra o número de pessoas que residem na casa da pessoa entrevistada, esta sendo utilizada para testar a hipótese que: casas com um número maior de pessoas pode comprar ou não, o produto um número de vezes maior no mês, aumentando assim a frequência de compra; (SUPER) esta variável expressa um dos locais de entrevista, o supermercado. Será utilizado para calcular a porcentagem de entrevistas e a freqüência realizadas neste local; (FEIRA) será utilizada mesma maneira que a variável SUPER. Primeiramente, foram calculadas as estatísticas descritivas das variáveis, posteriormente, correlações e regressões lineares foram feitas para poder auxiliar na caracterização do perfil do consumidor de castanha-do-pará, na região metropolitana da cidade de Belém. 3. Resultados e discussões Os dados a seguir são resultados estatísticos descritivos que mostram valores, separadamente, para as variáveis de interesse. Variável FREQMES GENERO IDADE NRPESSOA RESBELEM Descrição Frequência mensal de compra Homem ou mulher Faixa etária Número de pessoas Tempo de residência em Belém Média Desvio Padrão Mínimo Máximo 3.86 6.06 0.04 30 1.43 0.50 0.00 2 40.29 15.87 1.00 81 4.41 2.24 1.00 20 29.19 16.64 1.00 80 Tabela 1: Estatísticas descritivas das variáveis de interesse. A tabela 1 mostra que, em média, a população entrevistada compra entre 3 a 4 vezes o PFNM (castanha-do-pará) por mês. Depois, pode-se verificar que a idade média do público está em torno de 40 anos, a casa das pessoas entrevistadas são habitadas em média por quatro pessoas, e por fim, tem-se uma média de residência dos entrevistados em Belém de 30 anos. A seguir, na tabela 2, são apresentados os valores das correlações entre as variáveis: IDADE -0.0007 1 FREQMES IDADE RESBELEM NRPESSOA RESBELEM 0.02323 0.67511 *** 1 NRPESSOA -0.00763 0.08349 * 0.12475 ** 1 Tabela 2: Correlação entre as varáveis de interesse. As correlações, entre idade e tempo de residência em Belém, são positivas e significativas. Confirmando assim que, pessoas mais velhas geralmente moram a mais tempo na cidade de Belém. Quanto à interação entre idade e o número de pessoas que moram na residência, também se mostrou significativa e positiva, mostrando que pessoas mais velhas tendem a morar em casas com um número maior de pessoas. Por fim, a relação entre o tempo de residência em Belém e o número de pessoas na casa, mostrou-se significativa e positiva. Interpretando-se que há uma relação positiva entre haver um número maior de pessoas na casa e residir a mais tempo em Belém. Por fim, são apresentados os resultados de análises multivariadas. Na tabela 3 são apresentados os resultados da regressão de mínimos quadrados simples tendo como variável dependente (FREQMES) “Freqüência mensal de compra da castanha-do-pará ¨ (R2=0,57% e estatística F não significativa a 1% para o modelo como um todo): Variável INTERCEPT IDADE RESBELEM NRPESSOA Descrição Faixa etária Tempo de residência em Belém Quantas pessoas moram na casa Parâmetro estimado 5.08288 *** -0.04148 0.02967 0.13824 Erro padrão 1.87235 0.05511 0.04802 0.27414 Tabela 3: Resultados da regressão linear para explicar a proporção de acertos em relação a produtos florestais (*** significativo ao nível de significância de 1%; ** significativo ao nível de significância de 5% e * significativo ao nível de significância de 10%). Na tabela 3 pode-se verificar que não houve valores significativos entre as variáveis. 4. Conclusão Este estudo teve como principal objetivo caracterizar o perfil dos consumidores de castanha-do-pará entrevistados entre os anos de 2006 a 2009, na região metropolitana de Belém-PA. Pode-se concluir que a freqüência média mensal que o consumidor compra castanha-do-pará é de 3,86 vezes por mês; ou seja, pelo menos uma vez por semana o consumidor procura o produto nos locais de venda. A média da freqüência de compra do produto, separado, para homens e mulheres é de 3,0 e 2,4 vezes por mês, respectivamente. A idade média do público consumidor é de 40 anos e sua grande maioria vive em Belém há quase 30 anos. 5. Referências bibliográficas BECKER, Bertha K.; LÉNA, Philippe. Pequenos Empreendimentos Alternativos na Amazônia. UFRJ, 2002. CASTELLANI, D. C. . Plantas medicinais e aromáticas: produtos florestais não madeireiros. In: Maria de Fátima Barbosa Coelho; Plácido Costa Júnior; Jeferson Luiz Dallabona Dombroski. (Org.). 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