1 Revista Betel Apresentação G raças ao nosso Deus e Pai por mais uma edição da Revista Betel. O objetivo é contribuir, segundo a misericórdia do nosso Senhor, que está evidenciado nas palavras de Efésios 4:13. Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo. A finalidade desta divulgação é para que Cristo seja conhecido, e por este conhecimento muitos sejam salvos e edificados. Por isso, pedimos a todos os leitores que orem por este ministério, para que Deus continue usando este pequeno instrumento, na proclamação da boa nova do evangelho e na edificação de Sua Igreja. Para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor. Efésios 4:14-16. 2 Revista Betel “Cristo é tudo em todos” • Ano 4 • Nº 1 • Inverno 2008 Sumário Apresentação, 1 ESTUDO BÍBLICO A Graça na Prática ou a Prática da Graça, 3 Jader Charles Malafaia O Novo Nascimento, 8 Humberto X. Rodrigues Pecado versus Graça, 13 Glênio Fonseca Paranaguá A Religião, a Graça e a Pecadora, 18 Tomaz Germanovix RIQUEZA DA GRAÇA Entristecer o Espírito Santo, 22 Billy Graham Graça, 26 A. T. Pierson Vida em Cristo, 30 Julio Cesar Lucarevski A Solidão de Deus , 36 Arthur W. Pink Enganos Fatais, 40 Sinval Teófilo da Silva LEGADO FÉ Salvadora - Um Dom de Deus, 43 Robert Murray McCheyne Associação Betel, 47 Revista Betel ESTUDO BÍBLICO A Graça na Prática ou a Prática da Graça 3 Jader Charles Malafaia Pois somos feitura dEle, criados em Cristo para as boas obras... Efésios 2:10 É verdade que fomos escolhidos por Deus para a salvação, e que pela Sua misericórdia nos gerou de novo e nos tornou Seus filhos através da ressurreição de Jesus Cristo, conforme 1 Pedro 1:3: Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos. É verdade que o Senhor Deus, o Pai, nos levou a Jesus Cristo: Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia; João 6:44, e é também verdade que quando o Pai nos levou a Jesus Cristo, Ele, o Filho, nos atraiu ao Seu Corpo para fazer da Sua morte, a nossa morte: E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo. João 12:32. É verdade que morremos: porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. Co- 4 ESTUDO BÍBLICO lossenses 3:3. Também sabemos que o corpo do pecado que nos levava a ser pecadores foi totalmente destruído: sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; Romanos 6:6 Quando nos olhamos no espelho, vemos que somos aquela mesma pessoa, pelo menos na aparência, com quem estamos tão acostumados a ver e de quem sabemos toda a história. O fato relevante é que, embora o vaso seja o mesmo e, aparentemente, seja igual, houve uma morte e uma ressurreição dentro desse corpo. O espírito morto, que agora foi vivificado, e essa alma, que traz registrada na memória o período em que estava em trevas e que foi condicionada ao raciocínio da escravidão, experimentam agora a presença santa da vida de Cristo.É preciso, com urgência, ter a mente reciclada para que se possa raciocinar como nova criatura. Isto, portanto, digo e no Senhor testifico que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração, os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza. Mas Revista Betel não foi assim que aprendestes a Cristo, se é que, de fato, o tendes ouvido e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus, no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade. Efésios 4:17-24. O despojar do velho homem deve ser tratado na maneira de pensar como velha criatura, já que, de fato, foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído. Isto significa que os nossos pensamentos têm que ser estabelecidos conforme convém a uma nova criatura. Os pensamentos do homem foram os seus norteadores quando na impiedade: “entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais. Efésios 2:3. Agora, como regenerados, precisamos entender quem realmente é essa nova criatura; não tendo mais passado (no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem), tudo o que se refere a ela, nova criatura, é totalmente novo: E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; Revista Betel ESTUDO BÍBLICO eis que se fizeram novas. 2 Coríntios 5:17. Agora, toda a visão, operação e modo de pensar são diferentes (e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade), pois pela Sua Graça, o Senhor Jesus nos tornou completamente outros; mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção.1 Coríntios 1:30. A prática da nova maneira de pensar leva-nos a uma forte convicção do conhecimento da grandeza e intensidade da obra de Cristo em nós: para que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor, e eles tenham toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo. Colossenses 2:2. Não basta apenas crer na nossa morte e ressurreição juntamente com Cristo, embora sejam os únicos fundamentos realmente válidos. É necessário trazer sempre à memória o fato dessa morte e a nossa identificação nela, para que as nossas mentes e corações sejam impregnados com essa verdade e, em todas as situações que se apresentem, fique evidente essa operação da Graça de Deus em nós. Temos que levar sempre no corpo o morrer de Jesus para que experimen- 5 temos a manifestação de Sua vida em nossos corpos: levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo. 2 Coríntios 4:10. O levar no corpo o morrer de Jesus está intimamente ligado à ação diária de levarmos a cruz de Cristo, que é a nossa cruz: E dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, neguese a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me. Lucas 9:23. E a contínua confissão desse fato, conforme Gálatas 2:20: Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim”. A evocação da realidade da nossa morte e ressurreição juntamente com Cristo faz com que a nossa mente considere que, naquele vaso de barro, há um tesouro inestimável, que é a Vida de Cristo: Temos, porém, esse tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós. 2 Coríntios 4:7. Embora olhemos para nós e consideremos que somos aparentemente os mesmos, o fato é que naquele corpo habita agora toda a Divindade, e a Graça de Deus é que opera em nós é nos faz agir, pensar, vencer, operar, manifestar a Vida de Cristo e refletir a Glória do Senhor: Mas todos nós, 6 ESTUDO BÍBLICO com cara descoberta, refletindo, como um espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor. 2 Coríntios 3:18. O problema que enfrenta o regenerado em tomar posse de todas as bênçãos, que no Senhor Jesus Cristo recebemos, conforme Efésios 1:3, Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo, está na falta de entendimento da plena Graça de Deus. Olhamos para nós e consideramos que, por sermos falhos, não poderia haver uma operação Divina através de nós. Talvez o nosso conhecimento teórico da Graça não se coadune com a sua aplicação prática, visto que sabemos o que é Graça para a salvação, mas não consideramos a sua aplicabilidade no Homem quanto à vida. Deus escolheu aquilo que não tinha valor para que Ele atribuísse o valor à Sua obra: E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são para aniquilar as que são. 1 Coríntios 1:28. Ouvi, meus amados irmãos. Porventura, não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam? Tiago 2:5, Não temas, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o Reino. Lucas 12:32 A confissão diária de nossa morte Revista Betel juntamente com Cristo nos faz ficar mentalmente atentos à realidade da vida de Cristo em nós. Talvez alguns estejam procurando em outros lugares o modo pelo qual “terão” vidas abundantes, por entender que deve acontecer algo sensorial e extraordinário quando essa vida se manifestar, mas a receita da Palavra de Deus é: levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo. É levando no corpo essa morte que a Vida se manifesta, e isso é Graça, quando nada do que fomos interessa, e, aquilo que somos, fazemos, faremos ou seremos, é tão-somente fruto da operação da Graça de Deus em nós e através de nós, tornando-nos operantes para as boas obras que Deus de antemão preparou, para que andássemos nelas: Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas. Efésios 2:10. Seremos capazes de realizar muito mais do que nós imaginamos: Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo. 1 Coríntios 15:10. As nossas mentes, como regeneradas, têm que considerar essa mudança sob pena de não tomar posse de tudo quanto recebemos em Cristo Revista Betel ESTUDO BÍBLICO Jesus, e só com a renovação do nosso entendimento é que poderemos saber a vontade de Deus: E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Romanos 12:2. A Graça, na prática, se manifesta quando olhamos para nós e sabemos que somos regenerados, e consideramos que nada podemos fazer por nós mesmos, mas que n’Ele podemos todas as coisas, exatamente como o Senhor Jesus disse: Eu sou a videira, vós, as varas; quem está em mim, e eu nele, este dá muito fruto, porque sem mim nada podereis fazer. João 15:5 e posso todas as coisas naquele que me fortalece. Filipenses 4:13. Com o nosso entendimento renovado, temos a mente de Cristo: Porque quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós 7 temos a mente de Cristo. 1 Coríntios 2:16. Diferentemente daqueles que viram a regeneração como uma promessa distante, conforme Hebreus 11:13 “Todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas, mas, vendo-as de longe, e crendo nelas, e abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra, agora podemos ter o entendimento de Cristo, e vemos na comparação dos textos de Deuteronômio e o de Mateus, essa introdução do entendimento: Deuteronômio 6:5 Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força., e Mateus 22:37; Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. E, com esse entendimento, pratiquemos a Graça para sermos sal na terra e luz neste mundo e, assim, faremos com vigor a obra do nosso Deus. A natureza da salvação de Cristo é deturpada de forma lamentável pelos “evangelistas” de hoje em dia. Eles anunciam mais um Salvador do inferno do que um Salvador do pecado. E assim é porque muitos estão fatalmente ludibriados, e porque há multidões que desejam escapar do Lago de Fogo, mas sem terem o mínimo desejo de serem libertas da sua própria carnalidade e mundanismo. A primeira coisa dita dEle no Novo Testamento é: A quem chamarás JESUS; porque ele salvará o seu povo (“não da ira vindoura”, mas) dos seus pecados .Mateus 1:21. Cristo é um Salvador para aqueles que percebem algo da excessiva malignidade do pecado, que sentem o terrível fardo dele sobre suas consciências, que se detestam a si mesmos por culpa dele, que desejam serem livres do seu terrível domínio; e um Salvador para ninguém mais. Se realmente Ele “salvasse do inferno” aqueles que ainda amam o pecado, Ele seria um Ministro do pecado, perdoando sua maldade e apoiando-os contra Deus. Que coisa indizivelmente horrível e blasfema com a qual acusam o Santo! -- Arthur W. Pink 8 ESTUDO BÍBLICO O Novo Nascimento Revista Betel Humberto X. Rodrigues A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. João 3:3. O que é o novo nascimento? No Velho Testamento, a definição de novo nascimento é dada como a troca de coração: Darvos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Ezequiel 36:26. Jesus fala de novo nascimento como a troca de vida. Quem acha a sua vida perdêla-á; quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-la-á. Mateus 10:39. Ser regenerado significa possuir, no seu interior, a vida de Cristo. A morte de Cristo é o término da nossa velha vida. E a ressurreição de Cristo é o início da nova vida. Não é mudança da velha natureza, mas a implantação de uma nova vida. Ali, na cruz, foi realizada uma grande transação, perdemos a nossa velha vida e ganhamos a vida de Cristo. O que não é novo nascimento? Não é educação religiosa, não é possuir um diploma de teologia, e nem Revista Betel ESTUDO BÍBLICO um diploma de batismo nas águas, não é ser membro de uma organização religiosa, não é ter justiça própria, que é o ato da velha natureza, tomar os preceitos de Deus e procurar praticá-los, não é a transferência de um grupo para outro, não é reencarnação, em que o indivíduo vai reencarnando até chegar à perfeição, não é ter um comportamento exemplar, ser educado, gentil, prestativo, bondoso, amável... Por que o novo nascimento? Porque, com esta vida espiritual que herdamos em Adão, fica impossível alguém entrar no Reino de Deus. Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus. I Coríntios 6:910. Muitos pensam que, para nascer de novo, basta deixar de fazer coisas erradas e substituí-las por coisas “certas”, porém, não se trata de fazer ou não fazer coisas certas; o problema é que todos os homens já nascem errados. O apóstolo Paulo, em crise, ganha a revelação de que o único problema de sua vida reside numa só coisa: pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. 9 Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Romanos 7: 15-16. Como nascer de novo? A consciência da nossa miserabilidade decorre da revelação de Deus em Sua palavra. Exemplo: desde a planta do pé até à cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, contusões e chagas inflamadas, umas e outras não espremidas, nem atadas, nem amolecidas com óleo. Isaias 1:5. Você vai ao médico para fazer um exame, e, lá, ele descobre a presença de um tumor maligno. Ao ser comunicado do seu estado de saúde, você tem duas opções: ignorar o diagnóstico do médico, ou confiar e se entregar para ser submetido a uma cirurgia. Respondeu-lhes Jesus: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Não vim chamar os justos, e sim pecadores, ao arrependimento. Lucas 5:31. Deus desceu até às profundezas da nossa ruína para nos curar. A cruz revela o juízo de Deus contra toda a carne e, ao mesmo tempo, mostra a Sua salvação para o pecador perdido e culpado. O Pecado é perfeitamente julgado, o pecador é perfeitamente salvo, e Deus é perfeitamente revelado e inteiramente glorificado na cruz. Tudo o que o homem precisa é conhecer a verdade de Deus. Uma simples declaração de Deus é suficiente. A Palavra 10 ESTUDO BÍBLICO de Deus, que é pura, incorruptível e eterna, nos assegura que o sacrifício do Senhor Jesus é o perfeito fundamento de tudo que precisamos para o descanso de nossas almas. Pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente. I Pedro 1:23. Deus o Pai delineou o plano; Deus o Filho lançou o fundamento; e Deus o Espírito Santo é o agente revelador por meio da Palavra. Toda a estrutura está montada para que o homem seja salvo, e, sobre esta estrutura, lê-se a inscrição, pela graça sois salvos. Fé é crer tão-somente no que Deus disse. Fé significa ser governado pelo que Deus disse, e não pelos nossos sentimentos. Porém que se diz? A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a palavra da fé que pregamos. Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação. Porquanto a Escritura diz: Todo aquele que nele crê não será confundido.Romanos 10:8-11. A palavra confessar no grego é homologar e significa concordar com Deus. Quem está dizendo que morremos com Cristo é o próprio Deus, então, morremos. O que é o Reino de Deus? Jesus ao Revista Betel ser questionado pelos fariseus acerca da vinda do reino, responde: Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro em vós. Lucas 17:20-21. Jesus ensinou que o reino de Deus não é um acontecimento futuro, mas um relacionamento íntimo com Ele no presente, dentro em vós. Este reino não está em nenhuma placa denominacional e nem ocupa um espaço geográfico. Este reino é espiritual. Entrar no reino de Deus significa que Cristo vive e reina em nós. A palavra de Deus fala de um reino da graça. Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça, a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor. Romanos 5:20-21. A graça divina não opera em detrimento da justiça, mas a graça reina pela justiça; e é evidente que se a graça “reina”, então ela é soberana. O nascido de novo está sob o reinado da graça, consciente e apoiado na suficiência de Cristo, e seguro de que nada mais tem a fazer, a não ser celebrar a vida. Então, você já nasceu de novo? Está escrito: SENHOR é Revista Betel ESTUDO BÍBLICO tardio em irar-se, mas grande em poder e jamais inocenta o culpado. Naum 1:3. Ninguém nasce neste mundo como um inocente; todos nós somos culpados, e, para o culpado, o remédio é a graça de Deus. “Se você nunca nascer de novo, desejará nunca ter nascido”. Derek Cleave . A definição básica de vida cristã é: não mais eu, mas Cristo. Isto equivale a dizer que a vida cristã é uma vida de substituição. Deus não veio a este mundo com o objetivo de transformar o homem, e sim substituí-lo. Se pegarmos uma barra de chumbo e a transformarmos em uma estatueta, o resultado é uma mudança de forma; contudo a massa, isto é, a essência, continua sendo chumbo. De igual modo, Deus não vai pegar a nossa essência, isto é, a nossa natureza espiritual que é perversa, condenada, sob a sentença de morte, e transformá-la. Por mais gentil, educado, cordial, prestativo, de boa índole que alguém possa ser, está sob sentença de morte. Eis que todas as almas são minhas, como a pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, esta morrerá. Ezequiel 18:4. Nada há que se aproveite no ser humano, nem o próprio Deus viu algo de bom que pudesse ser aproveitado. Quem da imundícia poderá tirar coisa pura? Ninguém. Jó 14:4. A salvação oferecida por Deus não é um 11 aperfeiçoamento da velha vida. Ninguém ousaria lavar e passar uma calça velha para depois jogá-la no lixo. Jesus disse: Ninguém costura remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo novo tira parte da veste velha, e fica maior a rotura. Marcos 2:21. Deus só nos recebe após a cruz. O que isto significa? Que é impossível alguém entrar em comunhão com Deus sem passar por Cristo. Não há possibilidade de alguém acessar o reino de Deus sem primeiro perder a própria vida. Deus não pode aprovar, ou mesmo aproveitar, nada em nós, por mais inocentes que sejamos ou belos que pareçamos aos olhos humanos. Por isso só existe um remédio para o homem: “morte”. Mas o Senhor dos Exércitos se declara aos meus ouvidos, dizendo: Certamente esta maldade não será perdoada, até que morrais, diz o Senhor, o Senhor dos Exércitos. Isaías 22:14. Deus resgata o indivíduo, aniquilando-o, e depois ressuscita-o para uma nova vida. No dizer de Watchman Nee: “Não é uma vida transformada mas sim uma vida substituída. Não é supressão, mas expressão. Essa vida não pode ser produzida por você mesmo, mas é Cristo vivendo em você. Não conquistada por esforço, mas obtida gratuitamente”. Ele vos deu vida, o que isto significa? Substituição: sai a velha nature- 12 ESTUDO BÍBLICO za e entra a nova. Disse Jesus: E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo. Isto dizia, significando de que gênero de morte estava para morrer. João 12:32 e 33. Fomos atraídos em seu corpo no momento da Sua crucificação. Ali, na cruz, perdemos a velha natureza. Mas Cristo não permaneceu na cruz, nem na sepultura, Ele ressuscitou. Assim como fomos incluídos na sua morte, também fomos em sua ressurreição: Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, Assim como a cruz representa o fim do homem, a ressurreição representa o começo de uma nova vida. A cruz representa o fim repentino de nós mesmos. Tozer escreveu: “O homem, na época romana, que tomou a sua cruz e seguiu pela estrada, já se despedira de seus amigos. Ele não mais voltaria. Estava indo para o seu fim. A cruz não fazia acordos, não modificava nem poupava nada; ela acabava completamente com o homem, de uma vez por todas. Não tentava manter bons termos com sua vítima. Golpeava-a cruel e duramen- Revista Betel te e, quando terminava seu trabalho, o homem não mais existia.” Quem quiser possuir a nova vida deve repudiar a sua própria vida e concordar com a justa sentença de Deus. Porque o salário do pecado é a morte. Romanos 6:23a. Feito isto, contemple com confiança o Salvador, pois o poder que levantou o Senhor Jesus dentre os mortos foi o mesmo poder que nos levantou para uma nova vida em Cristo. Fomos substituídos, fomos despedidos; agora, Cristo é a nossa vida. É a manifestação desta nova vida no dia-a-dia do regenerado é natural. Exemplos: Qual é o esforço que fazemos para respirarmos? Qual o esforço que uma laranjeira faz para produzir laranjas? Nenhum. É uma questão de essência: a seiva que passa pelo tronco é a mesma que vai para os ramos. Cristo é a videira, nós os seus ramos. Todo esforço que fizermos para acrescentarmos vida na vida é inútil e desgastante. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. João 7:38 Louvado seja Deus pela salvação que nos foi dada em Cristo. Amém. Judas ouviu todos os sermões de Cristo. -- Thomas Goodwin Revista Betel ESTUDO BÍBLICO Pecado versus Graça 13 Glênio Fonseca Paranaguá Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus. Romanos 5:12 e 3:23. O que é o pecado? Alguns dizem que é orgulho. Outros afirmam que é rebeldia. Há também os que sustentam ser autonomia. Na verdade o pecado foi uma atitude teomaníaca de Adão que originou a sua separação de Deus, bem como de toda a sua descendência. No pecado a criatura fica apartada da comunhão com o seu Criador. O ser humano se torna morto, isto é, separado espiritualmente de Deus. O pecado é uma oposição da criatura ao governo do Criador. O homem criado à imagem e semelhança de Deus não aceita a idéia de não ser como Deus. Essa é a base de toda a rebeldia egoísta do pecado. Somos uma raça contaminada pelo egoísmo e tentamos viver às nossas próprias custas. A trama do pecado propõe a auto-coroação do ser humano como se ele fosse o próprio Deus. O que está latente em todo o comportamento 14 ESTUDO BÍBLICO pecaminoso é a arrogância autônoma de quem quer se dirigir por conta própria. Sendo assim, podemos dizer que o pecado é uma sugestão de independência, em que a criatura tenta viver com os seus recursos naturais. No fundo dessa obstinação reside um sentimento de soberania. O pecado é hereditário e universal. Todos nós nascemos em pecado e ninguém pode dar uma de Joãosem-braço achando-se imaculado. Davi percebeu claramente este fato quando disse: Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe. Salmos 51:5. Isso não significa que o seu nascimento tenha sido adulterino, mas que ele foi gerado no âmbito de uma raça perversa e presunçosa. Todos os seres humanos, exceto Jesus, foram concebidos em pecado. Outrossim, o pecado é sempre uma oposição a Deus. Todo crime é contra a humanidade, mas o pecado é radicalmente contra a Divindade. Apesar de Davi ter cometido dois ou três crimes no contexto desse salmo, ele diz que o seu pecado era somente contra Deus. Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mal perante os teus olhos, de maneira que serás tido por justo no teu falar e puro no teu julgar. Salmos 51:4. A prova de nossa pecaminosidade é a morte. O apóstolo Paulo diz que Revista Betel o único lucro do pecado são os restos mortais. Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor. Romanos 6:23. Todos nós somos pecadores por natureza, não tendo qualquer inclinação natural por Deus. Nenhum pecador busca automaticamente a Deus. Não existe essa disposição espontânea do ser humano procurar o Deus verdadeiro, voluntariamente. Veja como o salmista expõe a tendência humana. Do céu, olha Deus para os filhos dos homens, para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus. Salmos 53:2. E Paulo reitera de modo definitivo: não há quem entenda, não há quem busque a Deus; Romanos 3:11. A proposta do pecado ao ser humano é a sua emancipação de Deus e nunca a sua aproximação dele. Não há interesse instintivo do pecador com relação à intimidade com Deus. Tudo o que o pecador almeja é a sua isenção no que diz respeito à busca pessoal de Deus, pois no íntimo, o pecado propõe que o ser humano seja ele mesmo, o seu deus. Ora, se ninguém busca a Deus naturalmente, quando resolve buscá-lo, quem o fez buscar? Aqui entra a graça. Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a Revista Betel ESTUDO BÍBLICO impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente. Tito 2:11-12. O pecado nos tornou arrogantes e teimosamente rebelados contra Deus. O Deus trino não faz parte da nossa agenda repleta de compromissos. Mas a graça vem em Cristo de um modo polido, e, irresistivelmente nos atrai para o coração do Pai. Somos convidados por um amor incondicional a participar de um relacionamento sem cobranças. Todas as religiões do mundo começam com a iniciativa humana de criar um deus à imagem e semelhança da criatura e de fazê-lo digno de veneração. Nessas religiões vemos a criação construindo seus ídolos e altares como um invento de sua imaginação. Porém, no Cristianismo é o Criador quem empreende a busca da criatura. A boa notícia do Evangelho mostra o eterno Caçador farejando e perseguindo a caça que ele ama com amor integral, até alcançá-la. No Evangelho é a graça que procura o desgraçado. Pecado é tudo o que pretende exaltar a criatura em lugar do Criador. O sentimento que nos enaltece é ameaçador. A carência de elogio ou a cata de um tamanco que nos eleve é muito arriscada, pois podemos torcer o pé. O pecado gosta do culto 15 à personalidade. A graça é a contratura do Criador para obter a cria na dimensão da criatura. Na graça, o Deus absoluto não temeu se reduzir até ao diâmetro de servo com bacia nas mãos e cruz nas costas, pois, antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana. Filipenses 2:7. Se o pecado pode ser definido como a arrogância da teomania humana, a graça pode ser descrita como Deus na estatura de um homem se revelando totalmente favorável àquele que é o mais detestável dos rebeldes. O caráter da graça é a indignidade do indigente. Quanto mais descrédito perante a lei, mais crédito diante da graça. O Evangelho é a boa nova para os canalhas e o habeas-corpus a todos os sentenciados ao inferno. Alguém disse que graça é mais do que favor a quem não merece, é favor cabal àquele que tem completo demérito. A questão não é se a pessoa não tem algum merecimento, mas se ela tem total desmerecimento. A graça só requer integral desonra a fim de poder honrar aquele que é o mais cafajeste dos pecadores. Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça. Romanos 5:20. Jesus mostrou o estilo magnânimo do reino da graça, quando con- 16 ESTUDO BÍBLICO tou uma parábola de um homem rico que preparou uma grande ceia e convidou muita gente. Todavia os convidados não deram bola para o convite nem fizeram caso da festa. Eles eram muito importantes e tinham negócios vantajosos em vista. Talvez aqueles convidados tenham rejeitado o ingresso ao banquete da graça, porque eles eram nobres demais a fim de participar de um festival que não lhes custasse coisa alguma, nem lhes agregasse algum valor especial. A reação daquele senhor perante o promoter é um sintoma do caráter da graça: Voltando o servo, tudo contou ao seu senhor. Então, irado, o dono da casa disse ao seu servo: Sai depressa para as ruas e becos da cidade e traze para aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. Lucas 14:21. A graça não exclui ninguém, todavia tem-se percebido que os ilustres não se sentem à vontade no salão de festas do reino da graça. Aquele chamamento foi ecumênico, mas apenas os deficientes puderam comemorar o evento. O único bloqueio para a celebração do evento é a justiça própria com seus direitos e privilégios. Jesus contou uma outra parábola em que um rei comemorava as bodas do seu filho, quando um penetra tentou fazer uma boquinha livre. Naquela época era costume do dono da festa, que fosse rico, dar as vestes festi- Revista Betel vais para os convidados, a fim de ninguém se sobressair sobre os outros. Contudo, havia alguém naquele banquete destoando. Entrando, porém, o rei para ver os que estavam à mesa, notou ali um homem que não trazia veste nupcial e perguntou-lhe: Amigo, como entraste aqui sem veste nupcial? E ele emudeceu. Mateus 22:11-12. O mérito é o nosso maior problema. Nós não gostamos da graça nem aceitamos com facilidade a dependência divina. Viver tão somente pelo consentimento da opinião do céu é uma dificuldade terrível para os atrevidos da terra. Mas aquele rei não concordou com a permanência daquele abusado que quis ditar as regas da festa com a sua indumentária. Então, ordenou o rei aos serventes: Amarrai-o de pés e mãos e lançai-o para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes. Porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos. Mateus 22:13-14. O traje na Bíblia tipifica a questão da justiça. Aquele intrometido queria ser aceito com a sua justiça e não com a justiça do rei. A graça nunca acolhe quem se traja com a sua justiça, uma vez que os celebrantes da festa do Rei sempre se vestem com as roupas que lhe foram dadas no hall do Palácio. Só a justiça de Cristo pode atender a dignidade do pecador. Assim, ninguém entra no reino de Deus portando sua reputação pessoal. Revista Betel ESTUDO BÍBLICO Um tempo desses, estive numa capital do Nordeste celebrando um casamento. O pai do noivo acabou esquecendo o seu terno na cidade onde mora, bem distante do local da festa, o que causou uma situação embaraçosa. Um dos tios do noivo tinha mais de um terno, que podia emprestá-lo, mas o pai não quis, pois havia alguma diferença na compleição física, e todos nós queremos ficar bem na foto. Ele teve que comprar uma roupa nova, ainda que tivesse um terno de grife, só para ficar confortável na festa. No reino de Deus nós seremos aceitos somente com a vestimenta de Cristo. Ela é a única justiça feita sob medida. Nenhuma indumentária pessoal será admitida nesse aprazível ágape da graça absoluta. Nós só participaremos da festa, se Cristo for a nossa identidade. Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; 17 porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes. Gálatas 3:26-27. Quero apenas lembrar aqui, que este batismo não é em águas, mas na identificação com Cristo. O Pai só nos aceita plenamente na pessoa do seu Filho amado. Sendo assim, não há necessidade de vestuários complementares. O filho pródigo, mendigo maltrapilho, quando foi recebido como fidalgo na casa do seu pai, foi acolhido sob as expensas e os cuidados do tesouro paterno. O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Lucas 15:22. Graça é a coleção de inverno, o guarda-roupa preparado pelo Pai para os filhos malroupidos. É o Pai condecorando os falidos com a excelência da aristocracia. É o pecador sendo recebido no reino de Deus apenas pela justiça de Cristo. O IMPACTO DE UM SERMÃO Campell Morgan é sem dúvida um dos principais expositores da Bíblia deste século, e foi considerado por alguns como: “O príncipe dos expositores”. Um pregador norte-americano disse, certa vez, a respeito dele: Sabe que Campell Morgan veio a este país e pregou um sermão que destruiu todos os sermões que fiz durante quarenta anos? Por quarenta anos eu estive pregando sobre a necessidade do sacrifício: negando coisas a nós mesmos, desistindo disso e daquilo. Nós praticávamos isso em nossa família. Deixávamos de comer manteiga por uma semana para usar o dinheiro de alguma forma que Deus pudesse abençoar. Outra semana, deixávamos outra coisa e assim por diante. Campell Morgan disse que o que nós precisávamos abandonar era o “eu” e não as coisas; e esta fora a única coisa que nós não havíamos abandonado em nosso lar. Nós tínhamos abandonado tudo debaixo do sol, menos o nosso “eu”. Rendei-vos a Deus. Romanos 6:13. -- Weymouth 18 ESTUDO BÍBLICO A Religião, a Graça e a Pecadora Revista Betel Tomaz Germanovix A tua fé te salvou; vai-te em paz. Lucas 7:50 C onvidou-o um dos fariseus para que fosse jantar com ele. Jesus, entrando na casa do fariseu, tomou lugar à mesa. E eis que uma mulher da cidade, pecadora, sabendo que Ele estava à mesa na casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com ungüento; e, estando por detrás, aos seus pés, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com o ungüento. Ao ver isto, o fariseu que o convidara dis- se consigo mesmo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, porque é pecadora. Mas Jesus disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz. Lucas 7:36-39 e 50. A seita dos fariseus já era conhecida há mais de cem anos, antes do nascimento de Jesus. Segundo Melinda Fish, os fariseus eram “um grupo de homens sinceros cujo único desejo era, originalmente, o de fazer com que Israel voltasse à fé no Deus das Escrituras. A obediência à Lei era o Revista Betel ESTUDO BÍBLICO centro de sua doutrina pois criam que, desta forma, ganhariam o favor de Deus, evitando Seu julgamento. Eram pessoas sinceras, preocupadas em agir corretamente”. A mesma escritora também faz a seguinte observação:” Mas, pela época da vinda de Jesus, a seita dos fariseus havia deixado para trás suas origens humildes e se tornara uma força que unia os poderes políticos e religiosos tornando-se, muitas vezes, maior do que sacerdotes e reis. Eles haviam elaborado um sistema religioso que definia, para cada judeu, o que significava ser verdadeiramente espiritual. As massas os temiam. Certas infrações da lei judaica, como heresia, eram punidas com a morte, e o povo os temia por serem, freqüentemente, homens sem misericórdia, que podiam influenciar os poderes governantes a condenar e executar um cidadão comum.” Infelizmente, o espírito do farisaísmo ainda vive no cristianismo hoje. A religião farisaica ensina que somente aqueles que se esforçam bastante, oram muito e praticam todos os deveres religiosos, merecem o amor de Deus. O religioso é crítico e sempre tem preparado muitos textos bíblicos, convenientemente selecionados, para, com eles, defender as suas próprias convicções. Armado de sua munição predileta, o julgamento, está sempre de pron- 19 tidão para atacar todo aquele que não se conforma com os seus rígidos padrões de espiritualidade. Todos aqueles que trilham o caminho de um cristianismo fundamentado no desempenho estão fadados a um esgotamento espiritual. Tornam-se pessoas amarguradas e frustradas consigo mesmas, com os outros e com a própria religião. Em realidade, todo o que se esforça para obter a aprovação dos outros, e de Deus, é um religioso. O fariseu precisa se utilizar de muitas máscaras para poder ser aceito pelos homens e por Deus. O religioso é todo aquele que cria um próprio padrão de retidão moral, tentando, desta maneira, ser aceito por Deus. Ao invés de se render à suficiência da graça para ser aceito por Deus, prefere, como os fariseus da época de Jesus, aumentar o tamanho de seus filactérios e alongar as franjas de seus xales de oração. O religioso tem uma necessidade doentia de fazer alguma coisa para Deus. Completamente cego para a suficiência da graça, precisa se apoiar em alguma coisa que possa fazer com que se sinta merecedor da atenção divina. Todo religioso vive de aparência. A tradição dos homens, a busca da glória e o apego à própria justiça são marcas de todo religioso. Lemos, em Marcos 7:9, João 12:42-43, Lucas 16:15: E disse-lhes ainda: Jeitosamente 20 ESTUDO BÍBLICO rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição. Contudo, muitos dentre as próprias autoridades creram nele, mas, por causa dos fariseus, não o confessavam, para não serem expulsos da sinagoga; porque amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus. Mas Jesus lhes disse: Vós sois os que vos justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece o vosso coração; pois aquilo que é elevado entre os homens é abominação diante de Deus. O fariseu da narrativa de Lucas é um típico religioso da época de Jesus. Consideremos alguns contrastes entre ele e a mulher pecadora: a mulher estava com um vaso de alabastro repleto de um raro perfume, o fariseu estava carregado de preconceito. A mulher derramava lágrimas aos pés de Jesus e os enxugava com os seus próprios cabelos, o fariseu esbanjava falsa espiritualidade e julgava. A mulher ungia os pés de Jesus com o precioso ungüento, o fariseu se orgulhava de sua religião eletiva. A mulher via em Jesus um salvador que a aceitava como ela era, o fariseu criticava e não enxergava em Jesus mais do que um mestre e fazedor de milagres. A mulher estava convicta dos seus muitos pecados, o fariseu achava-se muito justo. No ponto de vista do fariseu, somente os especiais, os morais e os dignos eram amados e Revista Betel aceitos por Deus. Porém, Jesus nos mostra exatamente o contrário. Ele veio para os perdidos, indignos, imorais e malsucedidos. A religião só premia os vencedores. A graça elege somente os fracassados. No mundo religioso, somente os esforçados são recompensados por Deus. No reino da graça, somente os que se vêem miseráveis e indignos recebem o tudo de Deus. O compromisso gracioso de Jesus envolve os desprezados, cansados, rejeitados, oprimidos e falidos, porém a liberdade oferecida pela religião é falsa e mentirosa. A especialidade da religião é frustrar e castrar toda a liberdade do homem. Todo religioso reza numa cartilha especial chamada: “Isto pode, mas isto não pode”. O fermento farisaico produz um sentimento de culpa no homem, pois somente aqueles que se enquadram no duro regime imposto pelo legalismo são aceitos por Deus. Não existe graça e misericórdia na religião. O que impera é um sistema maligno de troca. Faça, e receberás. Jesus, que conhece todas as coisas e sabia o que havia no coração do fariseu, disse o seguinte a ele: Certo credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários, e o outro, cinqüenta. Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Qual deles, portanto, o amará mais? Revista Betel ESTUDO BÍBLICO Respondeu-lhe Simão: Suponho que aquele a quem mais perdoou. Replicoulhe: Julgaste bem. Lucas 7: 41-43. O fariseu foi sábio em sua resposta, porém estava cego em relação ao Senhor Jesus. O fariseu, acorrentado pela sua tradição religiosa, continuava insensível em relação às lágrimas daquela mulher. Não conseguia ver o arrependimento e a sinceridade em sua atitude diante do Senhor. Segundo a tradição daquela época, era sinal de uma boa hospedagem oferecer água para os pés, saudar com ósculo e passar óleo sobre a cabeça dos convidados. Porém, nada disso vemos no fariseu. Então, Jesus, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo; ela, entretanto, desde que entrei não cessa de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com bálsamo, ungiu os meus pés. Lucas 7:44-46. Em seguida estas palavras, Jesus disse ao fariseu: Perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama. Então, disse à mulher: Perdoados são os teus pecados. Lucas 7:47 e 48. A colocação de Jesus provocou um alvoroço 21 entre os outros convidados: Os que estavam com Ele à mesa começaram a dizer entre si: Quem é este que até perdoa pecados? Lucas 7:49. Sem dar atenção àqueles fariseus legalistas, Jesus fala à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz. Lucas 7:50. Sem acusações, sem discursos, sem cobranças, sem críticas, e sem um sermão moral, Jesus despediu aquela mulher. Aquela mulher não precisava ouvir um belo discurso sobre moralidade. Não necessitava saber que não podia freqüentar determinados lugares. Não tinha que ouvir que a sua vida era um poço de lama de imoralidade, pois ela já sabia disso. Ela necessitava desesperadamente ser aceita como ela era. Ela jamais poderia ser aceita no meio religioso, pois, neste lugar, somente os dignos são recebidos. Porém, Jesus Cristo, que é pleno de graça, a recebeu e a salvou perfeitamente. Chegou diante de Jesus cheia de pecados, e foi embora perdoada e repleta de paz. Que todos atendam ao convite de Jesus: Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve. Mateus 11:28-30. 22 RIQUEZA Entristecer o Espírito Santo DA GRAÇA Revista Betel Billy Graham Não apagueis o Espírito. 1 Tessalonicenses 5:19 C hegamos, agora, a dois pecados que podem ser cometidos por entristecer o Espírito Santo e apagar o Espírito. Quase tudo o que nós fazemos de errado pode ser incluído em um destes dois termos. Vejamos, primeiro, o que é entristecer o Espírito. Paulo adverte os seus leitores, em Efésios 4:30: Não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção. É importante e consolador ouvir Paulo dizer que nós fomos selados para o dia da redenção. Isto deixa claro que nós somos e não deixamos de ser cristãos. Ele não está falando de julgamento, no sentido de que o que estamos fazendo aqui está nos separando do amor de Deus e nos fará ir para o inferno. Está, isto sim, falando de coisas que não combinam com a natureza do Espírito Santo, e, por isso, O ferem em Seu ser e entristecem Seu coração. Com o que nós fazemos, po- Revista Betel RIQUEZA demos fazer o Espírito sofrer. “Tristeza” é uma palavra do “amor”. O Espírito Santo nos ama tanto quanto Cristo: Rogo-vos, pois irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e também pelo amor do Espírito, que luteis juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor. Romanos 15:30. Podemos magoar ou irar alguém que não nos tem afeição, mas, entristecer, podemos só quem nos ama. Uma vez , eu ouvi um pai dizendo a seu filho: “Se você não se comportar, eu não vou mais amar você”. Isto foi uma frase infeliz. Ele tinha o direito de exigir bom comportamento do filho, mas não tinha o direito de dizer que não o amaria mais. Um pai tem de amar seu filho sempre, quer ele se comporte bem ou mal. Quando o filho ë mau, então o amor do pai por ele está misturado com sofrimento, tristeza e até angústia. Como alguém pode entristecer o Espírito Santo? Em Efésios 4:20-32, Paulo diz que tudo que não combina com Cristo, em ações, palavras e pensamento, entristece o Espírito da graça. Ruth Paxson diz, em um de seus livros, que nós podemos saber o que entristece o Espírito analisando nossa conduta à luz das palavras que a Escritura usa para caracterizar o Espírito. DA GRAÇA 23 O Espírito Santo é o Espírito da: Verdade – João 14:17; assim, tudo que é falso, enganoso e hipócrita O entristece. Fé – 2 Coríntios 4:13; por isso dúvidas, desconfiança, ansiedades e preocupações O entristecem. Graça – Hebreus 10:29; assim, tudo em nós que é duro, amargo, malicioso, indelicado e indisposto para perdoar e amar O entristece. Santidade – Romanos 1:4; por isso tudo que é impuro, sujo ou degradante O entristece. O que acontece quando nós entristecemos o Espírito Santo? Normalmente Ele gosta de nos revelar o que é de Cristo. Ele também nos proporciona alegria, paz e um coração satisfeito. Mas quando nós O entristecemos, seu ministério fica interrompido. Eu venho de uma região nos Estados Unidos onde predomina a indústria têxtil. Há alguns anos, eu visitei uma fábrica muito grande, onde centenas de teares estavam tecendo tecidos com finíssimos fios de linho. O gerente da fábrica me explicou: “Estas máquinas são tão delicadas que, se um só fio dos trinta mil que estão passando pelas máquinas neste momento se rompesse, todas elas parariam no mesmo Instante”. Para provar, ele foi a uma máquina e cortou um fio. Imediatamente todas as máquinas pararam até que o fio 24 RIQUEZA fosse recolocado; depois continuaram automaticamente. Este milagre mecânico é uma analogia rude “do que é espiritual”. Quando eu peco, desobedeço ou me desvio do caminho claro da vontade e do temor de Deus, então o ministério do Espírito em minha vida está prejudicado. Sua atuação é interrompida, mas Ele continua presente. Ele não é afastado, somente Sua atuação é prejudicada. Assim que o fio partido é restaurado, seu ministério pleno recomeça e Ele ilumina de novo o meu coração, satisfaz as necessidades do meu coração e faz eficaz, em mim, o ministério de Cristo. Mas isto tudo tem um lado glorioso: entristecer o Espírito Santo não implica em perdê-lo. Eu continuo selado por Ele; Ele não deixa de morar em mim. Nenhum crente pode entristecê-lo a ponto de Ele o deixar totalmente. Os hinos de William Cowper, sócio de John Newton, têm me abençoado muito, mas estas linhas têm me perturbado: Retorna, santa Pomba vem, Ó Tu que dás a paz! Odeio o que Te dá pesar E abandonar-me faz. Eu tenho a incômoda impressão de que estas palavras querem dizer mais que isto: que o trabalho do Espírito foi somente interrompido. Elas Implicam em que eu O perdi. Se foi DA GRAÇA Revista Betel isto que Cowper quis dizer, creio que ele estava errado. Deus pode fazer com que não sintamos mais a presença do Espírito Santo. Podemos ver isto no Salmo 51, onde Davi diz: Não retires de mim o teu Santo Espírito (v. 11). Mas não se esqueça que o Espírito Santo selou todos os crentes para o dia da redenção, isto é, a redenção dos nossos corpos (Efésios 1:13, 4:30, Romanos 8:23). Você e eu podemos escorregar, mas isto é bem diferente de cair da graça ou perder o Espírito Santo totalmente. Se o Espírito se retirasse de um crente selado por Ele, não estaria negando todo o plano da salvação? Mas quando nós O entristecemos, Ele retira de nós a alegria e o poder até que renunciemos e confessemos o pecado. Mesmo parecendo contentes externamente, se no interior nos sentimos infelizes, é porque não estamos em comunhão com o Espírito. Não que o Espírito nos tenha abandonado, mas porque Ele nos faz sentir assim até que voltemos a Cristo, humildes, contritos, prontos para confessar. O Salmo 32, muitos acham que foi escrito por Davi depois de pecar com Bate-Seba, é um ótimo exemplo disto: Enquanto não confessei os meus pecados, eu chorava o dia todo, até cansar. De dia e de noite me castigaste, ó Deus, e as minhas forças se acabaram como sereno que seca no calor do ve- Revista Betel RIQUEZA rão. Então eu te confessei os meus pecados, e não escondi a minha maldade. Resolvi confessar tudo a ti, e tu perdoaste as minhas faltas. . . . Todos vocês que são corretos alegrem-se e fiquem contentes pelo que Deus tem feito! Cantem de alegria todos vocês que são honestos de coração! (Sal. 32:3-5,11, BLH). Eu estou convencido que, uma vez batizados no corpo de Cristo, tendo o Espírito Santo em nós, nunca mais seremos abandonados por Ele. Estamos selados para sempre. Ele é a garantia, o penhor do que virá. Sei que muitos dos meus Irmãos na fé têm outro ponto de vista, mas até onde posso ver hoje, tenho certeza que o Espírito Santo nos sustém. Por um lado, o Espírito Santo, que mora em nós, nos guarda para Deus. Isto Ele faz através do sangue de Cristo, em que nós confiamos e sabemos que fomos redimidos. Por outro lado, Ele nos concede alegria contínua por sabermos que somos de Deus; esta DA GRAÇA 25 alegria só cessa quando alguma obra da carne entristece Aquele que nos selou. Ele anseia por nós com ciúme. Tiago 4:5. Eu duvido que, neste lado da eternidade, alguma vez cheguemos a saber que grande força poderíamos ter utilizado: o poder do Espírito Santo, do qual tomamos pequenas amostras, através da oração. Quando nós nos entregarmos totalmente a Cristo, o Senhor, cada momento de cada dia, não será possível descrever o poder (capaz de fazer milagres) e o testemunho do Espírito Santo que estarão em nós.O segredo de pureza, paz e poder está neste momento de entrega. E eu acho que também inclui o que George Cutting costumava chamar de segurança, certeza e contentamento. Engloba também a idéia de realização externa e satisfação interna. Sim, quando nós pecamos, o, Espírito Santo, Espírito de amor, é entristecido, porque Ele nos ama. Tu és meu Salvador, minha força e esteio, A Tua face, oh Senhor, venho buscar; Mesmo dos fracos sendo o mais fraco, A minha força é apenas a Tua graça. -- W.Nee 26 RIQUEZA Graça DA GRAÇA Revista Betel A. T. Pierson Porque todos nós temos recebido de sua plenitude, e graça sobre graça. João 1:16 A palavra graça ocorre cerca de 200 a 300 vezes na Bíblia, mas principalmente no Novo Testamento. Os termos grego e hebraico trazem o mesmo conceito – favor concedido sem mérito por parte do favorecido; incluindo assim a idéia de alegria e gratidão, como é natural quando o bem conferido não se relaciona com o merecimento do recipiente nem tem medida da parte do Doador. Todas essas idéias pertencem ao conceito bíblico da graça, que imediatamente aponta então a liberalidade infinita do doador e a indignidade ilimitada do recipiente. A graça ocupa um lugar de tanto destaque no Novo Testamento que o Evangelho é chamado de a palavra de sua graça. Atos 14:3; o Espírito Santo de Espírito da graça. Hebreus Revista Betel RIQUEZA 10:29. E o próprio Deus de Deus de toda graça. 1 Pedro 5:10. A ênfase principal, no entanto, está nas “riquezas infinitas e indescritíveis ou a abundância da graça”. Para dar expressão a este pensamento, as possibilidades da linguagem são sobrecarregadas ao máximo. Por exemplo, tomemos as seguintes passagens – chave, dispostas em ordem crítica: 1. Efésios 1:7,8 - Segundo a riqueza da sua graça, que Ele nos concedeu gratuitamente... A própria palavra riqueza, como aplicada à graça sugere um suprimento infinito e inesgotável; pois as riquezas de Deus, diferentemente das do homem, não tem absolutamente limite. A palavra grega para riqueza, ploutos, é semelhante a polus, pleion, muito, muito mais, tendo a mesma raiz que expressa a idéia de abundância. O termo inglês rico (rich), vem provavelmente do gótico reiks, um governante, pois apenas ele possuía muitos bens. Mas este conceito não basta; é preciso acrescentar abundantemente; perisseuo significa exceder, ser supérfluo. As riquezas da graça são tão abundantes em nossa direção que chegam a exceder toda demanda feita sobre elas, mesmo levando em conta nossa desmedida falta de merecimento, nosso pecado e necessidade. Este é o grande conceito de DA GRAÇA 27 graça que Paulo tinha sempre diante de si. Romanos 5:15 expressa o mesmo pensamento: muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça... foi abundante sobre muitos. A palavra usada aqui é a mesma. Por maior que seja o número dos que se valem dela, e quanto mais vezes dela nos utilizamos, sua abundância continua infinita. 2. II Coríntios 9:14 – a superabundante graça de Deus – huperballo: de onde vem o termo hipérbole, significando aquilo que passa de um certo limite – como uma flecha que ultrapassa o alvo, ou uma vasilha que ferve e se derrama – transmitindo a idéia daquilo que é excessivo, exagerado, proeminente. 3. I Pedro 4:10 – A multiforme graça – poikilos, literalmente, variegada; isto é, infinita na variação tanto de forma ou aparência como de adequação ou adaptação. Deus na graça como na natureza, um Deus de infinita variedade e adaptabilidade. Sua graça tem infinitas formas de manifestação, como as plantas possuem incontáveis peculiaridades de forma e modelos, tonalidade e fragrância. Para ele, a igreja é um jardim; não existem duas plantas iguais, sendo todavia todas fruto da mesma graça. O mesmo Senhor liberta de toda obra iníqua, qualifica para todo serviço e preserva através 28 RIQUEZA de toda provação e tentação a alma confiante. 4. Efésios 2:7 – A suprema riqueza da sua graça. As duas palavras se conjugam aqui, embora em Efésios 1:7 e II Coríntios 9:14 estejam separadas, com uma ascensão ou acúmulo correspondente de ênfase. Trata-se de graça, riqueza da graça, e suprema riqueza da graça. 5. Efésios 3:8 – insondáveis riquezas – anexichniastos: que não podem ser traçadas – aquilo que desafia a pesquisa ou plena verificação. Compare Romanos 11:33, onde são usados dois termos, sendo ambos praticamente intraduzíveis. Quando pesquisamos os prodígios do trato de Deus com o homem, olhando para baixo, observamos uma profundidade infinita e, alçando os olhos, contemplamos infinitas alturas; sendo que ambas desafiam os nossos mais extremados esforços para verificá-las ou descobrir a sua origem. Só podemos exclamar: “Ó, as profundezas! Ó, as alturas!” 6. I Timóteo 1:14 – Transbordou – huperpleonazo – uma palavra composta, e cada parte transmite a idéia de excesso; pleonazo significa fazer, ou ser, mais do que suficiente, e huper significa excessivamente. Este termo traduz uma idéia de um excesso que ultrapassa o excesso; não um simples transbordar, DA GRAÇA Revista Betel mas um transbordamento copioso - como a abertura das janelas do céu no Dilúvio. O tema em conjunto é irresistível. A graça nos é apresentada como uma benesse pura e generosa – amor – estendendo o seu favor para os que não merecem e os indignos. Nas palavras de Guthrie: “A miséria do homem, e não o seu mérito, é o imã que atrai dos céus o Salvador”. Estamos, pois, preparados para manifestações de perdão incomparáveis. O pecado é apagado, como se os registros estivessem sido cancelados de uma tábula de cera, invertendo o estilo e comprimindo a cera nas cavidades; removido como uma “nuvem pesada” dispersa pelo vento; “cancelado” como o que é colocado “atrás das costas” e não pode ser mais visto, ou “nas profundezas dos mares” de onde não pode ser recuperado. Essa então é a universalidade e liberalidade dos oferecimentos e convites do evangelho. Quem quer que, qualquer que – são esses os termos universais de Deus. Da mesma forma que o mar se acalmou para os marinheiros quando Jonas foi atirado fora do navio, Jesus foi entregue à morte a ao juízo a fim de que não houvesse para nós tempestades de ira divina; tudo, daqui por diante, é paz para o cristão. A abundância da graça é inexpri- Revista Betel RIQUEZA mível e inconcebível. Sua generosidade e magnificência desafiam as palavras. Os persas só podiam dizer a respeito da eternidade de Deus, “zeruane akerene” tempo ilimitado. Pois quanto o céu se alteia, acima da DA GRAÇA 29 terra... quanto dista o Oriente do Ocidente. Salmos 103:12. A Divindade em seu todo se encontra à disposição do cristão. Extraído da Revista À Maturidade. HISTÓRIAS QUE ABREM A JANELA MAIS AMPLA DE DEUS (V.F.Beard) Ainda me lembro de uma noite há vários anos quando visitava uma igreja em Queens, Nova York. Na ocasião, uma carta acabara de chegar da China. Uma irmã de Watchman Nee enviara uma carta que Nee lhe escrevera pouco antes de sua morte. Aqueles que a leram disseram que a grafia dos caracteres era forte, bem como o tom das poucas palavras que escrevera: “Aprendi como manter minha alegria”. Quão freqüentemente nos dias que se seguiram, ao passar uma nuvem negra sobre meu espírito, lembrei-me que, quando aquilo ocorreu, Nee já estivera na prisão por mais de 20 anos. Ainda que estivesse fisicamente fraco, ele se regozijava em seu espírito. Ele aprendeu o segredo de manter a alegria no Senhor. Alegria ou depressão -- a escolha é sempre minha. A cada dia, posso escolher submergir minhas raízes em Teu rio de graça, de forma que minha expressão será de gozo. Vejo, então, que minha escolha é o segredo para manter minha alegria diária. A vida pode parecer difícil, mas Deus é tão bom e misericordioso; A vida pode parecer injusta, mas Deus é tão justo e amoroso; A vida pode parecer imprevisível, mas Deus é tão soberano; A vida pode parecer temporária, mas Deus é eterno. Isso me ajuda a reconhecer que, manter uma perspectiva correta, faz toda a diferença. Se fitar meus olhos naquilo que terei de enfrentar hoje, sucumbirei. Quando contemplo além de hoje para ver o que Deus planejou na eternidade é que posso dizer: Alegria indizível e cheia de glória. 1Pedro 1.8. Hoje você tem a escolha de ser um infeliz, deprimido e viver ao sabor das circunstâncias, de forma que essa atmosfera não apenas o envolverá, como também envolverá outros. Mas você pode escolher ser alegre, de tal maneira contagiante, que outros serão contaminados por sua alegria. Entendo que Jesus era um varão de dores, que conhecia a tristeza por causa da condição ao Seu redor. Mas também estou convicto de que Ele viveu segundo uma perspectiva de longo prazo: Em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz. Hebreus 12.2. Jesus considerou o corredor do tempo para ver o que agradaria Seu Pai, e assim Ele ignorou o que era temporal para viver por aquilo que é eterno. “Pai, somente pela Tua graça é que posso fazer essa mesma escolha”. -- DeVern Fromke, Histórias que Abrem a Janela Mais Ampla de Deus, Edições Tesouro Aberto 30 RIQUEZA Vida em Cristo DA GRAÇA Revista Betel Julio Cesar Lucarevski Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu filho, muito mais, estando já reconciliados com Deus, seremos salvos pela sua vida. Romanos 5:10 O nascimento de uma criança é um verdadeiro milagre. Cada pulsão de vida que entra neste mundo anuncia que o fluxo da criação ainda continua. Para os pais, as quarenta semanas de espera, de repente, se transformam em explosão de alegria contagiante. Para a criança é apenas o início de um tempo repleto de possibilidades de ser, fazer e ter. Um mundo inteiro para ser conhecido e uma vida inteira para ser vivida. Estamos falando do nascimento natural porém, quando se trata do nascimento sobrenatural as coisas não são muito diferentes. A Bíblia afirma que existem dois tipos de nascimento: o terreno e o espiritual. O terreno nos capacita para viver e interagir com o mundo concreto. Enquanto o espiritual nos possibilita viver e agir no mundo sobrenatural. A fonte dessa nova vida está fora e acima de nós, em Deus. A vida cristã é mais do que um sistema ético que nos ensina a viver neste mundo. Trata-se de um relacionamento vivo com Deus. Aquele que está infinitamente acima de nós, passa a estar Revista Betel RIQUEZA também dentro de nós. Ocorre uma vivificação interior que nos coloca em uma realidade totalmente nova. O apóstolo João ao escrever o seu evangelho sobre Jesus deixa bem claro o seu objetivo: Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome. João 20:31. Jesus não apenas nos ensina a vida cristã, Ele a cria em nosso ser pela ação do seu Espírito. Por seu poder nos restaura à semelhança divina e nos faz filhos de Deus. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. João 1:12. Jesus Cristo é a fonte de vida sobrenatural, tanto para trazer libertação do pecado quanto para uma vida de vitória e de ... boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas. Efésios 2:10. No capítulo primeiro do evangelho de João encontramos João Batista apontando Jesus como Salvador. Aquele que iria morrer na cruz como expiação dos pecados. Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! João 1:29. Porém, o mesmo João Batista testificou de Jesus também como Aquele quem dá o Espírito Santo: Aquele sobre quem vires descer DA GRAÇA 31 e pousar o Espírito, esse é o que batiza com o Espírito Santo. João 1:33. Muitas vezes nos fixamos apenas em um dos lados da obra de Cristo. Normalmente enfatizamos a sua morte e deixamos de compreender e experimentar a sua vida de ressurreição. Jesus disse: Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância. João 10:10. A vida que Cristo nos trouxe é a sua própria vida, como Filho de Deus. E, devido à sua ressurreição, recebeu o poder de comunicar a todos nós o seu Espírito. Quando Cristo envia o seu Espírito ao nosso espírito, sua presença é manifestada e torna-se para nós a fonte de vida nova, uma nova identidade e um novo modo de agir. Quando falamos de “vida em Cristo”, segundo a frase de Paulo, eu vivo, não mais eu, mas Cristo que vive em mim. Gálatas 2:20, não estamos falando de auto-alienação, mas da descoberta de nossa verdadeira identidade diante de Deus. Vida centrada em Deus e não em nós mesmos. O pecado trouxe a supremacia do “eu”, a vida humana passou a girar em torno de si mesma. O homem sem a vida de Cristo é um escravo, não tem vontade própria. Ele está entregue às suas compulsões, idiossincrasias e ilusões, de modo que jamais consegue fazer o que realmente quer. Seu espírito não está no comando e, por isso, 32 RIQUEZA não pode dirigir sua própria vida. O apóstolo Paulo descreve os resultados trágicos deste viver sob a escravidão do pecado:Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto... Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim... vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Romanos 7:15-23 O diagnóstico de uma pessoa nãoregenerada, segundo as Escrituras, não é nada animador. Obscurecidos de entendimento, separados da vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração. Efésios 4:18. Quando uma pessoa que está separada da vida de Deus nasce do alto, pela fé em Jesus Cristo, recebe uma nova vida. A salvação é mais que o perdão de pecados. É implantação de uma nova natureza. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo. Efésios 4:4-5. João Wesley afirmou que o novo nascimento é “a grande transformação que Deus opera na alma quando lhe dá vida; quando a tira da morte do pecado para uma vida de justiça”. DA GRAÇA Revista Betel A nova vida surge da morte. Na cruz de Cristo houve o aspecto substitutivo e o aspecto identificatório. A nossa participação na morte com Cristo pôs fim ao reinado do “eu”, enquanto que, a nossa participação na Sua ressurreição, fez do nosso coração lugar de Sua habitação. Porque se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente o seremos também na semelhança da sua ressurreição. Romanos 6:5. Sem a morte de cruz não é possível a vida da ressurreição. A aceitação da cruz por parte do crente, e a morte para o eu que ela inclui, são fatos relacionados ao recebimento do Espírito Santo. Sabendo isto, que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos. Oswaldo Chambers afirma que diante da verdade de nossa co-crucificação com Cristo é preciso uma decisão moral em relação ao pecado. “Terei tomado essa decisão sobre o pecado – que ele deve ser totalmente destruído em mim? Leva muito tempo para chegarmos a uma decisão moral sobre o pecado, mas o grande momento de nossa vida é quando decidimos que, assim como Jesus morreu pelos pecados do mundo, assim também o pecado deve morrer em mim; não apenas re- Revista Betel RIQUEZA freado ou suprimido ou contrariado, mas crucificado”. De fato não é possível ao cristão considerar- se “morto para o pecado” a menos que tenha passado por essa radical decisão da vontade, diante de Deus. Estar crucificado com Cristo é estar identificado com a morte de Jesus, até que não sobre espaço algum para o pecado em sua vida, mas, apenas para a vida de Cristo. A prova de que fui crucificado com Jesus é a gradativa semelhança com Ele. A infusão do Espírito de Jesus em mim ajusta a minha vida com Deus. A ressurreição de Jesus deu ao Espírito autoridade para transmitir–me a vida de Deus, e minha vida, deve ser construída sobre a base da vida Dele. Porque , se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados com Deus, seremos salvos pela sua vida. Romanos 5:10. Posso ter agora a vida ressurreta de Jesus, a qual se manifestará em santidade e frutificação. Para o cristão, a vida da ressurreição é também uma questão de escolha. Isto porque, enquanto em Deus habita a plenitude de toda a realidade e perfeição, em nós não acontece o mesmo. Tendemos para o nada, para a não-existência. Nossa vocação para sermos aquilo a que fomos destinados implica, portanto, uma prova DA GRAÇA 33 de vontade, um teste em que somos interrogados por Deus sobre nossa livre opção. Parece que nossa vida toda será esse teste, ou seja, de escolhas, de optar viver uma vida rasteira ou uma vida em um plano mais alto. Viver como pessoas livres na ordem sobrenatural é fazer escolhas espirituais livres. Isto é possível porque Deus infundiu o Seu Espírito na vida dos seus filhos. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis. Ezequiel 36:27. Agora, podemos obedecer a Deus por amor. Somente compreenderemos a obediência pregada por Cristo se nos lembrarmos sempre de que, Sua obediência não é mera justiça, mas amor. Não é simplesmente a submissão de nossa vontade à autoridade de Deus, mas é a livre união de nossa vontade com o amor de Deus. Jesus é o maior exemplo de obediência de um filho em relação ao Pai celestial. Nosso Pai celestial não está muito interessado no trabalho que realizamos para Ele, mas sim, no tipo de filhos que somos para Ele. Ele nos libertou do cativeiro do pecado e da morte para vivermos sob um novo governo. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. Romanos 8:1-2. O Espírito de vida, não somente dá uma consciência livre da culpa do 34 RIQUEZA pecado, mas também, poder para uma vida de libertação e frutificação. O Espírito Santo purifica a imagem de Deus em minha alma, pela fé. Ele cura minha cegueira espiritual, abre meus olhos para as coisas de Deus. Ele toma posse de minha vontade, de forma que eu não seja mais escravo de minhas paixões e compulsões, podendo agir na tranqüilidade frutífera da liberdade espiritual. Ensinandome gradativamente o amor, ele me aperfeiçoa à semelhança de Deus em minha alma, conformando-me com Cristo. Em tudo isso, Deus tem um propósito. Deus quer se expressar através dos seres humanos, tanto através do cristão quanto pela Igreja. Jesus Cristo nos batiza com seu Espírito a fim de que sejamos testemunhas do caráter e do amor de Deus. Recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas. Atos 1:8. Recebemos a incumbência de tornar Deus conhecido por meio da proclamação do Evangelho, como também pelo nosso estilo de vida. Jesus rogou ao Pai: A fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. João 17.21. Não há como separar regeneração de discipulado, apesar de muitos tentarem. Mas se estamos cansados DA GRAÇA Revista Betel de uma vida cristã de “segunda categoria”, precisamos nos comprometer existencialmente com o Senhor Jesus de corpo, alma e espírito. O Senhor Jesus disse: Se alguém quer ser meu discípulo, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Mateus 16.24. Mais tarde, o apóstolo Paulo reitera o convite com outras palavras: ... levando sempre no corpo o morrer de Jesus para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo. 2 Coríntios 4:10. Se temos dificuldades em nos acertar com Deus é porque não queremos nos decidir definitivamente sobre o pecado. Assim que decidirmos, a vida plena de Deus nos invade. Jesus veio para nos dar todos os suprimentos da vida sobrenatural, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus. O chamado para “viver em Cristo” é um privilégio que demanda uma vida de decisões e escolhas deliberadas. E isto deve ocorrer em todas as circunstâncias do dia a dia: nas alegrias, como também nas tentações, provações e tribulações. Pois, qualquer resquício de nossa própria energia, turva a vida de Jesus. Quando tomamos a decisão moral de, não mais eu, mas Cristo a energia e o poder que se manifestaram em Jesus, manifestar-se-ão em nós, pela ação do Espírito. Temos que estar sempre nos rendendo, para que, lenta e seguramente, a majestosa vida de Revista Betel RIQUEZA Deus inunde cada parte de nosso ser. Assim, não só nós seremos aperfeiçoados, como também outros terão DA GRAÇA 35 o privilégio de conhecer o Senhor Jesus Cristo, redundando em glória para Deus. MINHA GRAÇA É SUFICIENTE PARA TI Peploe Há vinte e um anos passados, minha esposa e eu fomos para a praia. Éramos pobres e tínhamos muitos filhos. Era o ano da Convenção de Oxford; e, no dia da sua abertura, eu encontrei o Sr.Arthur Blackwood, e, após conversarmos um pouco, ele me disse: “Você sabe alguma coisa sobre a Convenção de Oxford?” Eu era um clérigo do interior na época e não tinha ouvido falar dela. Explicou então: “Pessoas vão ali para procurar uma benção e orar pedindo a vida de descanso”.Ele me olhou no rosto e disse: “Você tem descanso?” Eu respondi: “Sim, graças a Deus”.“O que você entende por descanso?” Perguntou. “Entendo que meus pecados estão perdoados, que sou aceito no Amado, que Deus de alguma forma cuidará de mim neste mundo e me receberá quando eu morrer”. Ele replicou: “Eu esperava que você fosse dizer isso; mas sabe o que é ter perfeita paz em meio às responsabilidades e dificuldades, ter uma alegria que é permanente em todos os momentos de sua vida, ter uma calma jamais interrompida e força para cada serviço com um sentimento de repouso no Deus vivo?” Eu disse: “Não; prouvera a Deus que tivesse; é isso que mais anseio”.Respondeu: “Eu também. Vou dizer-lhe o que vou fazer. Um amigo vai enviar-me todos os dias um relatório da Convenção, e toda manhã iremos para a floresta e a leremos. Deus pode abençoar-nos aqui da mesma forma que em Oxford”. Quatro dias depois, meu filhinho que estava conosco na praia adoeceu e morreu. Eu tive de carregar o pequeno caixão nos meus braços por todo o caminho até em casa, onde enterrei meu pequenino com minhas próprias mãos. Voltei do enterro e disse a mim mesmo: “Agora você perdeu suas férias, retornou para casa com problemas e deve falar ao seu povo ao invés de deixar seu auxiliar fazê-lo; seria melhor que lhes contasse sobre Deus e seu amor”. Procurei ver que lição estava designada para o domingo e soube que era o capítulo doze de Segunda Coríntios. Li o nono verso: minha graça é suficiente para ti. E pensei: “este é o verso para ser meditado”. Assentei-me para preparar minhas anotações, mas logo me achei murmurando contra Deus por tudo que ele me levara a suportar. Larguei a caneta, pus-me de joelhos e disse a Deus: “Não é suficiente, não é suficiente! Senhor, permita que a tua graça seja suficiente. Ó Senhor, permita!” Um dia antes de sair de casa, recebi de minha mãe um lindo texto iluminado e pedi à empregada para pendurá-lo na parede sobre minha mesa para que eu o encontrasse lá quando voltasse. Ao abrir meus olhos, eu estava dizendo: “Ó Deus, permita que a tua graça seja suficiente para mim”, e, lá na parede, eu vi. Minha graça é suficiente para ti. A palavra é estava em verde claro, minha em preto, e ti em preto. Minha graça é suficiente para ti. Eu ouvi uma voz que parecia dizer: “Seu tolo, como você ousa pedir a Deus para fazer aquilo que é?! Levante-se e receba e descobrirá a verdade contida nessas palavras. Quando Deus diz é, deve crer nele, e você descobrirá que isso é verdadeiro a cada momento”. Aquele é transformou a minha vida; daquele momento em diante eu podia dizer: “Ó Deus, tudo o que dizes em tua Palavra eu creio, e, se Deus quiser, nela andarei”. -- Extraído da Revista À Maturidade. 36 RIQUEZA DA GRAÇA A Solidão de Deus Revista Betel Arthur W. Pink Ele faz todas as coisas segundo, o conselho da sua vontade. Efésios 1:11 H ouve tempo, se é que se lhe pode chamar “tempo”, em que Deus, na unidade de Sua natureza, habitava só (embora subsistindo igualmente em três pessoas divinas). No princípio... Deus... Não existia o céu, onde agora se manifesta particularmente a Sua glória. Não existia a terra, que Lhe ocupasse a atenção. Não existiam os anjos, que Lhe entoassem louvores, nem o universo, para ser sustentado pela pala- vra do Seu poder. Não havia nada, nem ninguém, senão Deus; e isso, não durante um dia, um ano ou uma época, mas “desde sempre”. Durante uma eternidade passada, Deus esteve só - completo, suficiente, satisfeito em Si mesmo, de nada necessitando. Se um universo, ou anjos, ou seres humanos Lhe fossem necessários de algum modo, teriam sido chamados à existência desde toda a eternidade. Ao serem criados, nada acrescentaram a Deus essencialmente. Ele não Revista Betel RIQUEZA muda (Malaquias 3:6), pelo que, essencialmente, a Sua glória não pode ser aumentada nem diminuída. Deus não estava sob coação, nem obrigação, nem necessidade alguma de criar. Resolver fazê-lo foi um ato puramente soberano de Sua parte, não produzido por nada alheio a Si próprio; não determinado por nada, senão o Seu próprio beneplácito, já que Ele faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade. Efésios 1:11. O fato de criar foi simplesmente para a manifestação da Sua glória. Será que algum dos nossos leitores imagina que fomos além do que nos autorizam as Escrituras? Sabemos que o elevado terreno que estamos pisando é novo e estranho para quase todos os nossos leitores; por esta razão faremos bem em andarmos devagar. Recorramos de novo às Escrituras. No final de Romanos capítulo 11:34-35, onde o apóstolo conclui sua longa argumentação sobre a salvação pela pura e soberana graça, pergunta ele: Por que quem compreendeu o intento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? A importância disto é que é impossível submeter o Todopoderoso a quaisquer obrigações para com a criatura; Deus nada ganha da nossa parte. Se fores justo, que lhe darás, ou que receberá da tua mão? DA GRAÇA 37 A tua impiedade faria mal a outro tal como tu; e a tua justiça aproveitaria a um filho do homem - Jó 35-7-8; mas certamente não pode afetar a Deus, que é bem-aventurado em si mesmo. quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer. Lucas 17:10. Nossa obediência não dá nenhum proveito a Deus. De mais a mais, vamos além: nosso Senhor Jesus Cristo não acrescentou nada a Deus em Seu Ser essencial e à glória essencial do Seu Ser, nem pelo que fez, nem pelo que sofreu. É certo, bendita e gloriosamente certo, que Ele nos manifestou a glória de Deus, porém nada acrescentou a Deus. Ele próprio o declara expressamente, e não há apelação quanto às Suas palavras: não tenho outro bem além de ti - Salmo 16:2; na versão usada pelo autor, literalmente: ... a minha bondade não chega a Ti. Em toda a sua extensão, este é um Salmo sobre Cristo. A bondade e a justiça de Cristo alcançou os Seus santos na terra (Salmo 16:3), mas Deus estava acima e além disso tudo, pois unicamente Deus é “o Bendito” (Marcos 14:61, no grego). É absolutamente certo que Deus é honrado e desonrado pelos homens; não em Seu Ser essencial, mas em Seu caráter oficial. É igualmente certo que Deus tem sido “glorificado” 38 RIQUEZA pela criação, pela providência e pela redenção. Não contestamos isso, e não ousamos fazê-lo nem por um momento. Mas isso tudo tem que ver com a Sua glória declarativa e com o nosso reconhecimento dela. Todavia, se assim Lhe aprouvesse, Deus poderia ter continuado só, por toda a eternidade, sem dar a conhecer a Sua glória a qualquer criatura. Que o fizesse ou não, foi determinado unicamente por Sua própria vontade. Ele era perfeitamente bem-aventurado em Si mesmo antes de ser chamada à existência a primeira criatura. E, que são para Ele todas as Suas criaturas, mesmo agora? Deixemos outra vez que as Escrituras dêem a resposta Eis que as nações são consideradas por ele como a gota dum balde, e como o pó miúdo das balanças. eis que lança por aí as ilhas como a uma coisa pequeníssima. Nem todo o Líbano basta para o fogo, nem os seus animais bastam para holocaustos. Todas as nações são como nada perante ele; ele as considera menos do que nada e como uma coisa vã. A quem pois fareis semelhante a Deus: ou com que o comparareis? Isaías 40:15-18. Esse é o Deus das Escrituras; infelizmente Ele continua sendo o “Deus desconhecido (Atos 17:23) para as multidões desatentas. Ele é o que está assentado sobre o globo da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; ele é o que estende os DA GRAÇA Revista Betel céus como cortina, e os desenrola como tenda para neles habitar; o que faz voltar ao nada os príncipes e torna coisa vã os Juizes da terra. Isaías 40.22-23. Quão imensamente diverso é o Deus das Escrituras do “deus” do púlpito comum! O testemunho do Novo Testamento não tem nenhuma diferença do que vemos no Velho Testamento; como poderia ser, uma vez que ambos têm o mesmo Autor! Ali também lemos. A qual a seu tempo mostrará o bem-aventurado, o único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores; aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver. ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém. 1 Timóteo 6:15-16. O Ser que aí é descrito deve ser reverenciado, cultuado, adorado. Ele é solitário em Sua majestade, único em Sua excelência, incomparável em Suas perfeições. Ele tudo sustenta, mas Ele mesmo é independente de tudo e de todos. Ele dá bens a todos, mas não é enriquecido por ninguém. Um Deus tal não pode ser encontrado mediante investigação; só pode ser conhecido como e quando revelado ao coração pelo Espírito Santo, por meio da Palavra. É verdade que a criação manifesta um Criador, e isso com tanta clareza, que os homens ficam inescusáveis (Romanos 1:20); Revista Betel RIQUEZA contudo, ainda temos que dizer com Ló: Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele! Quem pois entenderia o trovão do seu poder? Jó 26:14. Cremos que o argumento baseado no desígnio, assim chamado, argumento apresentado por “apologetas” bem intencionados, tem causado mais dano que benefício, pois tenta baixar o grande Deus ao nível do entendimento finito e, com isso, perde de vista a Sua singular excelência. Tem-se feito uma analogia com o selvagem que achou um relógio e que, depois de um detido exame, inferiu a existência de um relojoeiro. Até aqui, tudo bem. Tentemos ir mais longe, porém. Suponhamos que o selvagem procure formar uma concepção pessoal desse relojoeiro, de seus afetos pessoais, de suas maneiras; de sua disposição, conhecimentos e caráter moral - de tudo aquilo que se junte para compor uma personalidade. Poderia ele chegar a imaginar ou pensar num homem real - o homem que fabricou o relógio - de modo que pudesse dizer: “Eu o conheço”? Fazer perguntas como esta parece fútil, mas estará o eterno e infinito Deus tanto mais ao alcance da razão humana? Realmente, não. O Deus das Escrituras só pode ser conhecido por aqueles a quem Ele próprio Se dá a DA GRAÇA 39 conhecer. Tampouco o intelecto pode conhecer a Deus. Deus é espírito. . . João 4:24 e, portanto, só pode ser conhecido espiritualmente. Mas o homem decaído não é espiritual; é carnal. Está morto para tudo que é espiritual. A menos que nasça de novo, que seja trazido sobrenaturalmente da morte para a vida, miraculosamente transferido das trevas para a luz, não pode sequer ver as coisas de Deus ( João 3:3), e muito menos entendê-las (1 Coríntios 2:14). É mister que o Espírito Santo brilhe em nossos corações (não no intelecto) para dar-nos o ... conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo. 2 Coríntios 4:6. E até mesmo esse conhecimento espiritual é apenas fragmentário. A alma regenerada terá de crescer na graça e no conhecimento do Senhor Jesus (2 Pedro 3:18). A nossa principal oração e finalidade como cristãos deve ser que possamos ... andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus. Colossenses 1.10 Fonte: Os Atributos de Deus - A. W. Pink (PES - Publicações Evangélicas Selecionadas) 40 RIQUEZA Enganos Fatais DA GRAÇA Revista Betel Sinval Teófilo da Silva Vede que ninguém vos engane. Mateus 24:4 H á enganos que poderão ser corrigidos, outros nunca mais. Se porventura alguém tomar um caminho errado, é possível voltar, tomar o caminho certo e seguir o seu destino. Ao embarcar por engano num ônibus de roteiro não desejado, ainda com certos prejuízos é possível parar, corrigir o erro e retomar o destino pretendido. Tudo isso já aconteceu comigo e com muita gente inexperiente e mal informada. E ele lhes respondeu: Vede que ninguém vos engane. Mateus 24:4 Muitos ainda se lembram da tragédia ocorrida há pouco mais de oito anos, no curto vôo de Marabá a Belém, quando aquele avião mergulhou no meio da mata matando oito pessoas e deixando muitas outras feridas. A causa da tragédia foi um pequeno engano do comandante da aeronave, ao ler o seu plano de vôo. Há caminhos sem volta. Há enganos fatais. O que veremos a seguir Revista Betel RIQUEZA atingiu a humanidade inteira. Respondeu a mulher: a serpente me enganou, e eu comi. Gênesis 3:13 Este engano causou uma grande perda para toda a humanidade e custou a preciosa vida do Filho de Deus para consertar. Podemos também ver em Esaú, como foi desastrosa a sua experiência. Quando por um bocado de comida para satisfazer o seu estômago, ele vendeu o seu direito de primogenitura. Esta negociata o caracterizou como uma pessoa profana, mundana, que não sabe valorizar as coisas sagradas e habitualmente deixa Deus fora de seus planos. Mesmo depois de ter negociado e perdido a bênção, ele a desejou de volta e a buscou ardentemente, até com lágrimas, não lhe sendo possível reavê-la. Nem haja algum impuro, ou profano, como foi Esaú, o qual por um repasto, vendeu o seu direito de primogenitura. Pois, sabeis também que, posteriormente, querendo herdar a bênção, foi rejeitado, pois não achou lugar de arrependimento, embora, com lágrimas, o tivesse buscado.Hebreus 12:16-17 Leia com bastante atenção Mateus 7:21-23 e medite na triste descrição, que Jesus dá, do engano religioso de muita gente. É possível o crente ocupar uma posição de destaque na sua igreja, desenvolver arrojados projetos em diversos ministérios, até mesmo DA GRAÇA 41 ter um certo relacionamento com o nome de Jesus e não ter a experiência de sua própria conversão. Joseph Alleine, com base em Hebreus 6:4-6, dizia:”Por incrível que pareça, o homem pode experimentar a iluminação, provar o dom celestial, receber bênção do Espírito Santo e não ser convertido.” Cuidado para não confundir porta estreita com porta larga, árvore boa com árvore ruim, caminho estreito com caminho largo, fundamento de rocha com fundamento de areia, discernimento com fanatismo, realidade com emoção, evangelho com religião, sabedoria com tolice, o visível com visão, o que faz a vontade de Deus e os que dizem: Senhor, Senhor! Mateus 7:22. A sentença final dos enganados e enganadores é esta: Apartai-vos de mim. Mateus 7:23 Tremenda fatalidade!... Não espere a morte bater à sua porta para procurar o seu novo nascimento. Pode ser muito tarde. Cuidado para não cometer o engano fatal. Na eternidade não tem mais volta. Atenção! Sem o novo nascimento, você está num caminho sem saída! Não fique numa estrada sem retorno, se o seu destino não lhe é desejado. Cuidado que ninguém vos venha a enganar com suas filosofias e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, 42 RIQUEZA conforme os rudimentos do mundo; e não segundo Cristo.Colossenses 2:8 Cuidado com os falsos mestres e com os profetas enganadores! Acautelaivos dos falsos profetas. Mateus 7:15 Assim como no meio do povo surgiram DA GRAÇA Revista Betel falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão dissimuladamente heresias destruidoras... II Pedro 2:1 Levantarse-ão muitos falsos profetas e enganarão a muitos. Mateus 24:11 EXORTAÇÃO AOS HOMENS Quando Deus pôs Adão para que guardasse o jardim, estava reconhecendo a existência de um inimigo de quem o jardim deveria ser guardado. Satanás rondava o jardim de Adão, e este deveria defendê-lo. Assim também, hoje, Satanás ronda o jardim dos filhos de Deus para feri-los novamente. A ferida pode vir –novamente– sobre a mulher, pode vir sobre os filhos, ou sobre os bens. Mas seja como for, é preciso estar conscientes disto: o jardim de cada filho de Deus está na mira de Satanás. As famílias sofrem muitos males e dores hoje em dia por uma falta de cobertura espiritual paterna. Muitas desgraças familiares, acidentes, roubos, fraudes, etc., que atribuímos inadvertidamente a causas naturais, são obras de forças malignas enviadas para destruição das famílias cristãs. E muitas destas coisas acontecem porque os homens descuidaram do exercício de sua autoridade no cuidado do seu jardim. Filhos de Deus,ouçam a advertência profética: “Atentem para as vossas responsabilidades como sacerdotes das suas famílias. Olhem e vejam como Satanás e seus seguidores planejam contra você. Olhem as suas estratégias de alto nível. Isto é o que ele tece secretamente contra vocês. Olhem como aponta as suas setas contra a sua esposa e os seus filhos. Ele conhece todas as artimanhas e sabe como lhes fazer dano. Vocês não poderão lutar contra ele usando a sua vã confiança em vós mesmos ou a vossa astúcia. Nada poderá impedir que vos fira, exceto se orarem. Nada lhes poderá servir neste momento crítico, exceto resistir firmemente às suas perseguições, e desfazer as suas maquinações por meio da oração. Se tão-somente vos levantares cada dia para vos submeteres a Deus e para resistir ao diabo, então ele se afastaria de vós (Tiago 4:7). Todos as suas estratagemas contra vós fracassariam. O seu convite se converteria em armadilha para ele próprio (Rom. 11:9). Se tão-somente vos puseres firmes, saireis vitoriosos”. Muitos filhos de Deus pensam que Deus lhes guardará mesmo que eles adormeçam com respeito ao inimigo. No entanto, a sabedoria de Deus dispôs as coisas de outra maneira. Deus deixou todos os seus recursos nas mãos dos seus filhos, para que estes ajam contra o inimigo. Deus não fará o que nós devemos fazer. “Tomai toda a armadura de Deus...” nos diz Paulo (Ef. 6:13), para em seguida detalhar qual deve ser a nossa atitude e quais são as armas da nossa milícia. “Ao qual (ao Continua na página 46 Revista Betel LEGADO FÉ Salvadora Um Dom de Deus 43 Robert Murray McCheyne Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Efésios 2:8 A maioria dos homens tenta colocar Deus numa posição de débito com relação a sua salvação. Eles trabalham para serem salvos, ao invés de trabalharem por serem salvos. Eles vão procurando estabelecer a sua própria justiça. Romanos 10:3. Deste modo, pessoas mundanas procuram vida eterna - Que faremos para realizar as obras de Deus? João 6:28. Embora, em palavras, renunciem toda pretensão de qualquer mérito neles mesmos ou em suas obras, eles acalentam uma esperança secreta de serem recomendados a Deus por sua decência, sobriedade e performance religiosa. Deste modo, aqueles que tem uma pequena preocupação com suas almas, como o jovem rico, buscam a vida eterna - Mestre, que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna? Mateus 19:16. Seu maior desejo era parecer justo diante de Deus. Assim também, aqueles que experimentam uma inquietação mais profunda, 44 LEGADO freqüentemente vagueiam buscando perdão e paz. Talvez haja traços deste sentimento na pergunta ansiosa do pobre carcereiro - Senhores, que devo fazer para que seja salvo? Atos 16:30; e no grito lancinante do prostrado Saulo - Senhor, que queres que eu faça? Atos9:6. Certamente esta justiça própria é o pior e mais duradouro veneno do coração humano. A maioria dos homens, debaixo de convicção, se mostra relutante em abandonar a confiança que depositam em si mesmos. Eles não estão dispostos a tirar suas esperanças das suas “boas” obras. Eles se assustam com a idéia de estarem perdidos, a despeito de qualquer coisa que façam. Eles não gostam do perigo de jazer sem socorro e sem justificativa, aos pés da soberania de Deus. Quão solene estas palavras deveriam ser, para um pecador neste estado Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Salvação É Pela Graça Quando um homem escolhe uma maçã de uma árvore, ele geralmente escolhe a mais madura, a que parece ser melhor. Não é assim que Deus age na escolha das almas que Ele salva. Ele não salva aqueles que menos pecaram ou aqueles que estão mais dispostos a serem salvos; Ele freqüentemente escolhe os mais Revista Betel vis dentre os homens para o louvor e glória da Sua graça. Efésios 1:6. Isto é provado pelos exemplos dados na Bíblia. Por que Deus escolheu Manassés, que queimou a seus filhos, pôs imagem de escultura na casa de Deus e encheu Jerusalém com o sangue de homens santos, enquanto muitos do seu povo iludido, que pecaram muito menos, pereceram? 2 Crônicas 33. Por que Deus salvou Zaqueu, maioral dos publicanos? Lucas 19:110. Por que Jesus disse aos fariseus, os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus.? Mateus 21:31 Por que Jesus entrou nos portões perolados do paraíso com um pobre ladrão, que nunca tinha feito nada a não ser pecar, até seu último momento? (Lc.23:43 e Mt. 27:44). Por que Ele deixou o outro ladrão, que não era pior do que seu companheiro (ambos merecedores do inferno), cair em perdição, estando ao alcance dos braços do Salvador Todo-Poderoso? Todas estas coisas aconteceram a eles, como exemplos, para nos mostrar que Deus salva de acordo com a Sua boa vontade, não por nossas “boas” obras, mas para mostrar sua adorável e livre graça. A mesma coisa se prova pela experiência de todo filho de Deus. Somente aqueles que “provaram que o Senhor é gracioso” não sentem objeção no seu coração à declaração de Revista Betel LEGADO um simples crente - “Se Deus não tivesse me escolhido antes de eu ter nascido, Ele nunca teria visto motivo para me escolher depois, pois não há nada em mim que atraia o amor de Deus”. Eis que até a lua não resplandece, e as estrelas não são puras aos Seus olhos. E quanto menos o homem, que é um verme, e o filho do homem, que é um vermezinho! Jó 25:5-6. Ele ama o que é puro, santo e perfeito; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Romanos 7:14. Tudo o que há em mim contribui para afastar a Deus. Um Deus que se ira todos os dias contra o mau. Salmos 7:11. Ele estava irado comigo. A Sua natureza me causava aversão, pois eu estava debaixo do pecado de Adão. Fui formado em iniqüidade; cada membro do meu corpo, cada faculdade da minha alma, era servo do pecado. Apesar disto, Ele veio sobre todas estas montanhas para minha alma. Eu disse, vieste aqui atormentar-nos antes do tempo? Mateus 8:29. Eu não desejava conhecer Seus caminhos, mas Ele me fez desejar o dia do Seu poder. Glória, glória, glória ao Pai que me escolheu, ao Filho que morreu por mim e ao Espírito que me vivificou! A salvação é do Senhor e é totalmente por Sua graça. Salvação É Por Meio Da Fé Quando David Brainerd estava 45 sob convicção de pecado, a corrupção existente no seu coração foi terrivelmente incomodada pelo fato de que a única condição para a salvação era a fé. Deste mesmo texto, ele costumava falar –“ Este é um duro discurso, quem pode suportá-lo?” Outra coisa que o mantinha na miséria era que - “eu não descobria o que era fé, ou o que era crer e vir a Cristo. Eu lia os chamados de Cristo aos cansados e sobrecarregados, mas não podia achar o caminho pelo qual eles são dirigidos a Ele”. Esta é uma dificuldade que a maioria dos pecadores inquiridores, sente. É provável que satanás use isto, freqüentemente, como um dardo inflamado, para manter pobres pecadores longe de Cristo. O único modo de saber o que é a fé é experimentando-a. Em uma parte da Palavra, ela é descrita como “conhecimento”: E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. João 17:3. Um verdadeiro conhecimento de Deus e de Cristo, como Seu enviado, é fé salvadora. Eu tenho este conhecimento, ó minha alma? Eu nasci como um potro selvagem. Deus não estava em meus pensamentos. Não queria retê-lO no meu entendimento. Mas Deus se agradou em revelar Seu Filho em mim. Carne e sangue não podiam 46 LEGADO revelá-lo para mim, a não ser meu Pai que está no céu. Ele me abriu o caminho para salvação, de maneira que eu vi sua sabedoria, excelência e libertação; eu nada podia fazer, a não ser crer, e esta humilde confiança, é aquela fé que é dom de Deus. Em outra parte das Escrituras, a fé é descrita como descoberta da beleza e excelência de Cristo: Naquele dia o renovo do Senhor será cheio de beleza e de glória; e o fruto da terra excelente e formoso para os que escaparem de Israel. Isaías 4:2. Uma descoberta real da glória do Senhor Jesus Cristo na alma, de forma correta e libertadora, é fé salvadora. O homem natural sabe o que é chegar a conhecer um semblante bonito, e o coração natural, imediatamente arder em admiração. Ninguém, a não ser os crentes, sabe o que é descobrir a bonita face de Cristo que é mais formoso do que os filhos dos homens. Salmos 45:2, e ter o Revista Betel coração suprido com a alegria e a paz em crer. Já fiz esta descoberta? Eu posso dizer ao qual, não o havendo visto, amais; no qual, não o vendo agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso? 1Pedro 1:8 Outrora não via nenhuma beleza em Jesus que me fizesse desejá-lo. Mas Ele saltou montanhas e montes. Ficou ao lado de nossa parede, olhou para dentro pela janela, se mostrou através da grade. Mostrou-me Suas mãos e Seus pés perfurados por pecadores. Mostrou-me que existe lugar sob Sua justiça. Mostrou Seu coração, que é o mesmo ontem, hoje e para sempre; e agora, eu só posso dizer que Ele é para mim belo e glorioso, excelente e gracioso. Se existisse dez mil maneiras diferentes de perdão, eu as ignoraria e correria para Ele. Ele é completamente gracioso. Isto, eu acredito, é fé salvadora, a qual é dom de Deus. ... continuação da página 44 diabo) resisti firmes na fé” ensina-nos Pedro em outra parte (1ª Pedro 5:9). Deus não substituirá o pai de família na defesa de sua casa. Deus delegou a sua autoridade sobre o pai, e não a retirará. A desarticulação das obras de Satanás, assim como das suas estratégias contra as famílias, está na mão de todo homem que é pai de família. Quaisquer que sejam os intentos que Satanás realize contra os lares cristãos –ainda que se lance como um rio (Is. 59:19)– eles pode ser perfeitamente neutralizados se apenas o homem tomar consciência da autoridade que Deus lhe deu, e a exercer. Assim como ele mesmo está perfeitamente protegido por sua Cabeça, que é Cristo, a mulher e os filhos podem estar, se ele se conduzir com a dignidade de quem é cabeça de sua família. 47 Revista Betel Associação Betel A Associação Betel é uma entidade juridicamente organizada, sem quaisquer vínculos denominacionais ou fins lucrativos, mantida por recursos advindos de colaboração espontânea de pessoas que apóiam seus objetivos, cujo fim é viabilizar a pregação do Evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo. Os objetivos da Associação Betel: a) Apoiar missionários e pregadores (uma vez confirmados em seus compromissos com a verdade do Novo Nascimento pela nossa morte e ressurreição com Cristo) para a pregação do Evangelho de Cristo; b) Produzir e adquirir literatura e material evangelístico para uso dos missionários e dos grupos por eles atendidos, como: folhetos, livretos, estudos dirigidos, livros evangelísticos, Bíblias, fitas de áudio e afins; c) Assistência Social, sempre vinculada ao Evangelismo, pois “a fé sem obras é morta em si mesma”. A Associação Betel é mantida por colaborações espontâneas de pessoas físicas ou jurídicas, que apóiam seus objetivos. São basicamente pessoas regeneradas, contribuintes muitas vezes anônimos, mas que se fazem participantes da pregação, para que também outras pessoas, até mesmo por eles desconhecidas, possam gozar da mesma graça e esperança. São aqueles que compreendem com amor e dedicação as Palavras do Senhor Jesus Cristo: “Indo por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura”. 48 Revista Betel CNPJ 72219207/0001-62 REVISTA BETEL é uma publicação trimestral que visa a edificação dos cristãos. Contém artigos e estudos bíblicos centrados na pessoa do Senhor Jesus Cristo. Esta publicação é sustentada por doações voluntárias de irmãos em Cristo e distribuída aos leitores gratuitamente. Cartas ou e-mails podem ser enviadas ao redator da Revista Betel: Produção: Associação Betel Diagramação André Henrique Santos Impressão Idealiza Gráfica ASSOCIAÇÃO BETEL DE EVANGELISMO E MISSÕES Rua Piauí, 211 - Sala 26/28 CEP 86010-420 - Londrina - Paraná Fone (43) 3321-3488 www.assbetel.com.br e-mail: [email protected] Nenhuma parte desta edição pode ser reproduzida, armazenada ou transmitida por quaisquer meios sem prévia autorização da Associação Betel. 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