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O EXPRESSO DOS INCONFORMADOS
OU
O CIRCUITO DAS TERCEIRAS OPÇÕES
MARIA DA CONCEIÇÃO DUARTE PEREIRA*
I PARTE
A CANÍCULA E A “LAVRA” DO VESÚVIO...
Não há duas sem três. É o que costuma dizer-se. Não sem um fundo de
verdade, é certo. Pelo menos, connosco, assim foi. Acreditem ou não, só ao terceiro
circuito escolhido tivemos luz verde para embarcar. Nem mesmo quando sinalizamos o
segundo tivemos essa garantia.
Frustração atirada para trás das costas, um ou outro sapito engolido e aí vamos
nós de abalada para mais uma aventura! Melhor dizendo, para uma sucessão de
aventuras. Sim, porque, onde nós estamos, está o desassossego. Graças a Deus! Antes
viajar do que ficar em casa. A mofar, a fossilizar e a carpir mágoas ao fim de quase um
ano de trabalho. Por sinal, desgastante e demolidor de sucos gástricos de incautos e
mais frágeis estômagos...
Eis-nos de novo, malas aviadas e à espera que nos viessem buscar cá ao burgo.
É verdade, este ano, até tivemos direito a que nos viessem buscar. À hora marcada, isto
é, um pouquito depois, mas ainda dentro do tal quarto de hora pedagógico, eis que nos
surge o autocarro. Bagagem arrumada e lá vamos nós. Ainda bem que é gente nova! Foi
a frase que se fez ouvir quando entrámos e tomámos o nosso lugar. Como sempre, a
nossa primeira tarefa foi olhar em redor e apreciar os companheiros de peregrinação.
Para não variar, era um punhado de peculiares espécimes, na sua grande maioria
geriátricos. Aliás, como já estamos habituados de há uns anos a esta parte. Particular
destaque para os provenientes das regiões autónomas. Aquele sotaque, meu Deus!
Aqueles guturais sons que nos entravam pelos tímpanos e não nos deixavam, sequer,
passar pelas brasas... Quase todos bem providos de carnes, melhor dizendo, de sebo,
badanecas e pelancas, que, no entanto, não os impedia de se apetrecharem de eróticas
roupas. Nomeadamente uns bem aventurados calções cor-de-rosa. Para já não falar na
criancinha que os acompanhava. Um verdadeiro torresmo com braços. O que
vulgarmente se chama de pote de unto!... Uma reboludinha Miss Piggy! Também,
*
Assistente Administrativa Especialista do Instituto Superior Politécnico de Viseu.
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pudera, passou a viagem a enfardar!... Batatas fritas - daquelas com sabor a presunto -,
gelados, todo o tipo de bolos e um sem número de lambareirices que pelo mercado
proliferam... Mas nem todos eram disformes. Também lá ia uma modernaça, de corte e
cor de cabelo radical e seca de carnes.
Mas há mais! Umas manas de provecta idade e que, face aos adereços com que
se adornavam, nomeadamente uns monumentais óculos escuros com as iniciais CD,
deveriam ser cheias da nota. Só mais para diante, por terras helvéticas, confirmámos
este pressuposto quando as vimos, num vulgaríssimo restaurante de fast-food, sacar de
um Visa Gold... Aqueles rostos eram dignos de um catálogo de uma qualquer
prestigiada marca de cosméticos, tal a máscara que os cobria. Mas eram simpáticas e,
no final do périplo, até vieram despedir-se de nós! Isto sem esquecer um sui generis
casal oriundo da área metropolitana de Lisboa. Ela, ligada aos serviços de saúde,
presumimos que enfermeira. Ele, não sabemos. Só sabemos que iam bem sortidos de
euritos e comeres. Nomeadamente bolachinhas e perinhos, que, no entanto, nunca
comeram sós. Muito pelo contrário! Fizeram sempre questão de oferecer a merenda, alto
e em bom som, a todos os viajantes. Faziam-se acompanhar por mais duas amigas cinco
estrelas. Uma delas, farrusquita, de uma comicidade contagiante e uma permanente boa
disposição. Mesmo quando acordava estremunhada, depois de ter sido torturada com
cócegas nos desnudos pés. A outra, também castiça mas mais reservada, chamou-nos a
atenção porque, todos os dias, e de acordo com a indumentária, cingia o cabelo com um
laçarote de cor a condizer. Já na parte final do périplo, ficámos a saber que é irmã de um
nome grande dos tempos idos do nosso meio artístico, de origem africana, agora mais
no esquecimento face à pimbalhada que nos invade. Curioso o facto de, a esmagadora
maioria dos viajantes, estar a fazer este circuito só para não ficar em casa. Tal como
nós, também só à segunda ou terceira opção conseguiram embarcar. Uma palavra final
para o nosso guia. Alto, magro, diríamos mesmo franzino, fumador inveterado e que,
por acaso até simpatizou connosco. Dizemos isto porque, durante toda a viagem, fez
questão de o demonstrar. Dirigia-se sempre a nós logo pela manhã e fazia questão de
nos cumprimentar efusivamente. Conversava, trocava impressões, enfim, apesar de
repararmos que para todos tinha sempre uma palavra amiga. Contudo, para nós, essa
palavra era não só mais afectuosa como se fazia acompanhar por a mão nas costas ou no
ombro. Impressionou-nos sobremaneira com os seus comentários e pontos de vista.
Alguns bem ácidos, corrosivos e acutilantes. Mas sempre realistas.
Pois bem, depois deste intróito em jeito de prólogo, vamos aos pormenores. A
primeira paragem foi para o almoço, ainda por terras lusas, para as bandas de Celorico
da Beira e numa área de serviços, sob um calor abrasador e um sol escaldante. Da
ementa escolhemos uma salada fria que acompanhava uns filetes de pescada, depois
melão, e, por fim, um cafézito. Prosseguimos, e, lá mais para diante, já em terras
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hispânicas, ao redor de Salamanca, fizemos uma pequena paragem técnica. Num hotel
com nome daquele sumo de uma coisa que muitos homens não têm, mas algumas
mulheres têm!... Depois do xixi - que por acaso até foi na casa de banho dos homens
porque a das mulheres estava entupida de bexigas aflitas - fomos até ao bar e
retemperámos forças com um sumo de laranja natural. Daqueles que saem directamente
da laranja, esmagada por uma maquineta, e não de uma garrafa que nos é impingida
como sendo supostamente natural. Dali seguimos rumo a Burgos, beirando Valladolid,
não sem antes cruzarmos a incontornável Cabezón de Pissuerga...
Estamos, uma vez mais, na cidade de El Cid. E por acaso até num hotel já
nosso conhecido. Com uma pequena diferença em relação aos anos transactos. Desta
vez, ao invés do frio que nos envolve sempre que chegamos a esta cidade, é um calor
quase sufocante que nos recebe. Descemos para jantar, numa sala que já nos é familiar
e, até como entrada, é-nos servido um prato que aqui já tínhamos provado. Nada mais
nada menos do que uma macarronada com enchidos e pimentos. Depois um frango
estufado, aos quartos, que acompanhava uma macedónia de legumes salteados,
composta de batata, cenoura, ervilha e feijão verde. Como sobremesa foi-nos servido
gelado de chocolate e baunilha, guarnecido com meia pêra em calda.
Depois do repasto e porque tínhamos em mente andar no chiquitren - o
comboiozinho turístico - coisa que nunca tínhamos conseguido fazer nos anos
anteriores, fomos para a praça principal em busca do dito. Até porque sabíamos que a
última partida era às 23 horas e ainda faltavam alguns minutos. Chegámos e demos de
caras não com um, mas com dois chiquitrens. Rasgou-se-nos um sorriso de orelha a
orelha. Era desta que íamos passear! Acelerámos o passo e toca de arranjar lugar
sentado. Quando finalmente o fizemos, alguém nos disse que teríamos que ir comprar os
bilhetes à delegação de turismo que ficava mesmo em frente. Saltámos do comboio e,
em passo de corrida, lá fomos comprar o bendito bilhete. Não queríamos acreditar
quando nos disseram que a lotação já estava esgotada. Não era possível, mas, uma vez
mais, e pela quarta vez consecutiva, não andámos no chiquitren de Burgos. Só podia ser
maldição. De El Cid, quem sabe!... Conformados, fomos passear pela cidade. Pelo
menos pelo centro histórico ao redor da catedral, pelos bares e pubs, apreciando a
gentinha que fervilhava pelas ruas em noite de sexta-feira. Como estava calor, vinha
mesmo a calhar uma cervejinha fresca. Foi o que fizemos. No pub Carpatia
Companhia, servidos por uma empregada toda práfrentex, de curtíssimos cabelos ruivos
e martirizadas orelhas de piercings cravejadas. Uma Miller bem fresquinha, que por
acaso até foi bebida por engano. Isto porque, quando pedimos uma rubia, fizemo-lo
com a convicção de que estávamos a pedir uma cerveja ruiva ou preta. Esquecemo-nos
que rubia, em espanhol, quer dizer loira e não ruiva... Mas lá se bebeu e até soube bem.
Depois disto, fomos dormir. O dia estava no fim e era preciso preparar o corpo para
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mais um chá de autocarro. Agora rumo a França, tendo como destino final a belíssima
Carcassonne.
Após o pequeno almoço, e ainda antes de seguimos viagem, demos um pulinho
à catedral, àquela hora ainda fechada ao turismo mas já aberta para o culto. Depois
tomámos um café num pequeno boteco onde pudemos apreciar os pacotes de açúcar,
que tinham a particularidade de ser alusivos ao signos do horóscopo chinês. Já em
viagem, de repente, eis que nos surge por diante aquilo que nos pareceu ser uma grande
fumarada proveniente de um incêndio. Como estávamos enganados! Mais não era do
que um carro que circulava em sentido contrário ao nosso e que, certamente por via da
alta velocidade com que rodava, numa curva mais apertada despistou-se e capotou
mesmo nas nossas barbas... Valeu-nos a estupenda auto-estrada e o seu quase
monumental separador central, uma pequena via de terra batido que, deste modo,
absorveu o impacto do carro e impediu que este se estatelasse contra nós. Lá seguimos
viagem sob o eco, ainda que por pouco tempo, daquele infeliz acidente.
Pelos arredores de Victoria (Gasteiz), já no coração do País Basco, a tal
senhora que fazia questão de oferecer os perinhos e as bolachinhas, vai de começar-nos
a contar as suas aventuras de turista por essa Europa fora. Melhor dizendo, os seus actos
de bravura em prol dos outros. Como, por exemplo, no seu dizer, protegeu uma
velhinha de voar pelos ares numa montanha russa da Eurodisney. Ou, ainda, quando
uma vez amparou um pobre ancião com cataratas. Enfim, mais ou menos a contragosto
lá ouvimos os relatos daquela autêntica Indiana Jones de saias. Já em Victoria, assim
chamada em homenagem à princesa espanhola que dizem ter inventado a moda do
veraneio em S. Sebastian, quando passámos pelo aeroporto, pudemos apreciar um
enorme 747 de carga que se fazia à pista. Dali a Donostia (S. Sebastian) foi um pulinho.
Pelo menos assim nos pareceu. Parámos por pouco tempo, o necessário para dar uma
sempre fascinante vista de olhos pelas praias da Concha e da Ondarreta e para beber um
cappuccino numa pequena gelataria, com nome da cidade das gôndolas, repleta de
opíparas iguarias. À saída, ainda houve tempo para comprar uns obesos alperces que se
estavam a rir para nós... Lá mais para diante, quase a roçar a fronteira com a França,
parámos numa apinhada área de serviços para o almoço. Degustámos uma baguete de
crocante pão espanhol recheada com um belo naco de jamón ibérico, e bebemos um
refrescante sumo de laranja natural. Antes de sairmos, ainda demos um pulinho à loja
adjacente e comprámos um livro que nos pareceu interessante: Las Mujeres de los
Nazis...
Umas boas centenas de quilómetros adiante, já em terras gaulesas, era hora de
mais uma paragem técnica. Foi no Pic du Midi. À laia de lanche improvisado, tomámos
um café au lait. Aquilo que por cá chamamos simplesmente uma meia de leite... De
novo na estrada, lembrou-se a pequena betoneirita insular de ir cantar ao microfone do
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autocarro. Qual mico de circo amestrado, aí vai ela, autocarro fora, bamboleantes carnes
e sebos a chocalhar, certamente fruto de overdoses de hidratos de carbono e açúcares,
sob o olhar embevecido dos progenitores. Finda a récita, explodem os aplausos e
irrompem os mais rasgados elogios à criaturita. Ninguém mais pôde dormir ou, sequer,
pesar figos naquela viatura, tal era a arruaça e as ruidosas gargalhadas. Mas enfim, com
mais ou menos descanso, lá fomos dormitando a sono solto. Quando demos conta,
estávamos nos arredores de Toulouse. A cidade espacial como é considerada. São aqui
fabricados os aviões da Air Bus e os Concorde, agora retirados de cena, sem esquecer o
Ariane, foguetão construído pela agência espacial europeia, rival da americaníssima
NASA. Pelo fim da tarde chegámos a Carcassonne. Ainda antes do jantar, eis que o
primeiro acidente de percurso faz a sua aparição. Já tardava! Desta vez foi uma cama
partida, logo que um de nós se lá sentou. Para o jantar, e como entrada, uma salada de
queijo chèvre e tomate aos cubos, regado com molho vinagreta. Como prato principal
boeuf bourguignon. Que é como quem diz, carne de bovino cozinhada em vinho tinto.
Acompanhava massa cotovelinho cozida e alface roxa. Para sobremesa uma aquosa
salada de frutas, que, de imediato, baptizámos de sopa de frutas. Mas estava boa!
Depois do jantar fomos visitar a cidade intra muros, que já conhecíamos, mas que é
sempre misteriosa e tem sempre coisas novas para descobrir. Ou, pelo, menos, para ver
com outros olhos. Comprámos t’shirts,
magnets para o frigorífico, saquinhos de
ervas aromáticas e, para acabar a noite em
beleza, no bar A Vins bebemos uma
cerveja preta bem geladinha. Uma
Pelforth Brune, garrafa de 33 cl e com
6,5% de graduação. As pernas desde logo
acusaram o toque... A cama foi a melhor
opção. No dia seguinte, depois do
pequeno-almoço, às 7 da manhã, ainda
houve tempo para uma sessão de
fotografias mais ou menos artísticoacrobáticas. Primeiro nas muralhas da
cidade e depois junto à estátua de Dame
Carcas, a heroína local.
Conta a lenda que, durante um
longo cerco a que a cidade foi sujeita, em
tempos medievais, esta valente e decerto bigoduda mulher, lançou muralhas abaixo um
bem nutrido suíno. Apesar da penúria em que a cidade se encontrava, para não dizer
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míngua. Com isto, os sitiados e quase moribundos habitantes enganaram os invasores,
que, julgando restar ainda muitos mantimentos nas depauperadas despensas, abriram
alas e levantaram o cerco. Em euforia, a multidão tocou os sinos a rebate e, assim se diz,
nasceu o nome da cidade. O gesto da senhora Carcas fez com que os sinos tocassem de
júbilo. Assim, Carcas mais sonne (tocar em francês) deu Carcassonne, o nome desta
bonita e ancestral cidade que, se quisermos, podemos dizer corresponde à nossa vetusta
Óbidos. Só que em ponto maior...
Dali só parámos em Nîmes. Mesmo junto à antiga arena romana, ainda em
óptimo estado de conservação.
Primeiro para andarmos no comboio turístico, que nos deu a conhecer um
pouquinho da cidade, e depois para almoçar. Para melhor aproveitar o tempo fomos ao
Quick, uma espécie de sucedâneo do MacDonald’s. Comemos um long chicken, com as
indispensáveis batatas fritas e bebemos uma coca-cola light. Depois fomos visitar a
arena. Primeiro por fora e depois os bastidores, onde vimos o vomitorium. Vá-se lá
saber o que isto era. Por fim, a arena propriamente dita. Aqui só demos uma
espreitadela. O calor tórrido depressa nos desencorajou a avançar mais. Já cá fora,
passámos por uma esplanada onde, os seus proprietários, colocaram gigantescas
ventoinhas equipadas com um dispositivo que borrifava água sobre os clientes nela
instalados. Uma bênção face à canícula que se fazia sentir. É caso para dizer que, a
cabeça, não serve só para coçar os piolhos ou para pôr o chapéu... Haja imaginação!...
Fomos depois para Marselha, onde chegámos ao fim da tarde. Ainda antes do jantar,
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fomos até ao velho Porto e espreitámos o tenebroso Chateaux d’If. Pena que a névoa de
fim de tarde que envolvia a cidade não no-lo deixou ver por completo. Mas imaginámolo. Até porque já lá tínhamos estado e já o tínhamos visto antes. Em jeito de aperitivo,
fomos até ao bar do hotel beber um sumo de laranja natural e bem fresquinho. Ao jantar,
e como entrada, foi-nos servido um prato de charcutarias provençais. Havia patês, um
dos quais em aspic em caixa de massa quebrada, também fiambre, presunto, pepinos em
conserva, tomate e molho vinagreta. Curioso que o prato vinha polvilhado de paprika.
Coincidência das coincidências, voltámos a ter a tal carne de bovino estufada com
vinho. Desta vez com o pomposo nome de sauté de boeuf bourguignon. Assim vinha
escarrapachado na ementa que estava distribuída pelas mesas e dava as boas-vindas ao
grupo. Desta vez a carne era acompanhada de fininhos fetuccini bicolores. Para
sobremesa veio uma normanda tarte de maçã, regada com crème anglais e molho de
framboesas. Depois do jantar fomos novamente até ao porto, agora fervilhante de gente
e tingido de miríades luzes neon. Contudo, o calor e os pés massacrados fizeram-nos
recolher ao hotel. No bar, envolvidos por um potente ar condicionado, degustámos uma
Pelforth Brune. A tal cerveja negra com 6,5% de graduação que tem um pelicano no
rótulo, e que já havíamos provado em Carcassonne. Depois disto, fomos dormir.
No dia seguinte, após o pequeno almoço, rumámos à Côte d’Azur. Íamos para
Cannes, onde faríamos a nossa primeira paragem, que incluía o almoço. Como já lá
tínhamos estado, já sabíamos onde era a rua das principais lojas de souvenirs.
Nomeadamente das fabulosas t’shirts, alusivas, umas, ao Festival de Cinema, outras, à
vida estival desta concorrida estância balnear. Não resistimos e comprámos duas. Cada
uma dedicada ao seu tema. Depois de passearmos pelas ruas e jardins da cidade, que,
apesar do sufocante calor, formigavam de gente. Um ronco no estômago fez-nos
perceber que já era hora de almoço. O olfacto levou-nos a uma pequena padaria - pelo
menos tinha exposto todo o tipo de pães e bolos - de nome Le Pain d’Olivier.
Escolhemos uma baguete de pão com azeitonas. Deliciosa e recheada com uma pasta de
atum, maionese, rodelas de tomate e azeitonas verdes descaroçadas. Para escorregar
melhor, bebemos uma fresquíssima coca-cola light estupidamente gelada. Os olhos
quase nos saltaram das órbitas perante a extasiante visão das fatias de tarte e dos
bolinhos de todos os tamanhos, sabores e feitios, expostos nos escaparates. Mas
resistimos! A ameaça de pelancas falou mais alto!... Depois fomos passear até à hora de
voltar a embarcar. Percorremos a croisette de Cannes, espreitámos as lojas de marca –
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Yves Saint-Laurent, Louis Vuitton, Cartier, Dior – e tirámos as fotografias da praxe. Na
passadeira vermelha do palácio dos festivais, nas mãos das estrelas impressas num
quadrado ocre de cimento que fazia lembrar um ladrilho, e onde descortinámos as
minúsculas palmas da nossa Maria de Medeiros.
Por fim fomos até ao celebérrimo Carlton. Antes de seguirmos viagem, ainda
houve tempo para um expresso no Palm Square, um exótico café de oriental decoração.
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De volta à estrada, rumámos a Saint-Paul de Vence, a tipicazinha cidade
provençal inspiração de nomes grandes do Impressionismo. Percorremos as ruas
estreitas calçadas de seixos, absorvemos os aromas de alfazema que impregnam o ar e
escutámos a infernal cantilena das cigarras. Tão típicas da Provence e que ecoavam
pelos ares. Decidimos ir até ao cemitério, em busca do túmulo de Chagall. Não o
encontrámos. Apesar de termos percorrido demoradamente esta típica necrópole,
construída no sopé do burgo em jeito de socalco. Descemos pelo menos três conjuntos
de escadinhas, e nada. Vimos, sim, inúmeros túmulos judaicos, facilmente identificados.
Primeiro, pelos característicos nomes dos seus ocupantes. Depois, pelas pedras
arredondadas que os enfeitavam. O calor, tórrido, fez-nos interromper a busca. Mais
tarde foi-nos dito ser impossível de descobrir, pelo menos para quem não sabe onde
fica, porquanto está anónimo. Dali seguimos para Nice. Depois de um banho refrescante
que, embora temporariamente, aplacou o infernal calor que nos atormentava, saímos
para jantar e explorar a cidade. Comemos uma baguete de frango, tomate e alface e
bebemos uma coca-cola light. Passeámos pelo elitista Promenade des Anglais e
apreciámos os artistas de rua que debitavam as suas performances perante os
embasbacados turistas. Transpirados até à medula, entrámos num pequeno pub árabe
que, contudo, pasme-se, tinha nome latino - La Flordita. Bebemos uma cerveja fresca e
retomámos a marcha. O corpo, outra vez peganhento e lambuzado de suor, já pedia
nova barrela. Antes, fomos a uma pastelaria e comprámos merenda para a ceia. Um mil
folhas de chocolate e uma bebida fresca.
Já novo dia, vamos agora de visita ao Principado do Mónaco. Antes, fomos
visitar a fábrica de perfumes Fragonard. Uma roliça e simpática guia, com o cabelo
apanhado em de rabo-de-cavalo e expressando-se numa mistura de castelhano e italiano,
lá nos mostrou a fábrica e explicou todas as fases de fabrico dos perfumes e sabonetes
comercializados sob esta griffe. Saímos de lá empestados de múltiplos aromas com que
íamos sendo bombardeados ao longo da visita. Uns mais eróticos, outros mais
apimentados, outros, ainda, mais adocicados. Mas todos anestesiantes! À chegada a
solo monegasco, onde ficaríamos um bom par de horas e almoçaríamos, fomos,
primeiro, andar no petit train. O tal comboizinho turístico que nos levou pelas ruas do
principado, desde o rochedo onde está o Palácio Real, até ao cosmopolita Monte Carlo,
onde está o Casino e o Hotel de Paris. Decidimos, depois, ir ver a Catedral de SaintNicholas. À nossa direita, logo à entrada, começámos por ver as relíquias de Santa
Devota, Padroeira do Mónaco, da família real e da Diocese. Depois, uma Santa Teresa
do Menino Jesus talhada em mármore branco. Seguindo, sempre pela direita, vemos
Saint Roman (Romanus) soldado mártir e protector do principado. Vem a seguir Santa
Rita (1381-1457), depois um óleo do Padre Pio (1887-1968), o capuchinho elevado aos
altares no pontificado de João Paulo II. Agora um Sagrado Coração de Jesus, a que se
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segue um retábulo de Santa Devota e depois a capela do Santo Sacramento com um
expressivo e impressionante crucifixo. Vemos agora uma pequena estátua da Padroeira,
oferecida por Rainier III aquando das celebrações dos 700 anos dos Grimaldi. Está
ajoelhada sobre um barco e solta aos céus uma pomba. A seguir vem uma estátua de
Charles Barromée (1538-1584), patrono das obras da catequese local. Pelo menos assim
é identificado. Vimos, depois, S. José com o Menino ao colo, Santa Maria, a Gloriosa e
o mártir S. Jorge quando se aprestava a matar o temível dragão. Depois Saint-Nicholas
IV, Patrono das Escolas Marinhas e co-titular da catedral. Depois de circundarmos a
nave principal do templo, temos, à nossa esquerda, os túmulos dos antecessores dos
Grimaldi no trono monegasco. O último pertence a Grace Patrícia Kelly, a norte
americana convertida Grace Grimaldi do Mónaco pelo casamento com Rainier. Depois
desta tumba está outra, vazia. Aguarda, pela ordem natural da vida e da lógica, o actual
regente do principado, o quase octogenário Rainier, mui amado viúvo de Grace...
Prosseguindo a visita, temos agora uma Pietá, depois o “nosso” Santo António, aqui
identificado como sendo de Pádua – Saint Antoine de Padoue (1195-1231). Mais
adiante Saint Bénoît, Saint Jean-Baptista de la Salle (1651-1719) e, finalmente, já perto
da saída, a capela da Pia Baptismal. Ainda tivemos tempo para apreciar uma mostra
fotográfica alusiva a uma expedição a África, algures a território Massai.
Já fora da Sé e quando íamos em busca de almoço, fomos apreciando a
existência de um certo “linguajar” monegasco, expresso nas placas toponímicas. Por
exemplo, para Rue de l’Église , temos Carrugiu d’a Geija!... A fome já apertava e
decidimos fazer piquenique. Comprámos um Panini au jambon e uma coca-cola light e
acampámos perto da Catedral. Depois do repasto, fomos passear. O sol, inclemente,
torrava-nos as costas. E não só... Fomos até ao Palácio Real, demos uma espreitadela ao
render da guarda e coscuvilhámos as lojas de souvenirs. Com os corpos em brasa e a
língua de fora, decidimos refugiar-nos num local que tivesse ar condicionado. E, se bem
o pensámos, melhor o fizemos. Foi na Chocolaterie de Monaco, um paraíso para os
viciados neste puro ouro castanho. Principescamente instalados, como no Éden,
pedimos um café e uma fatia de tiramissu. Pagámos cara a brincadeira. Também, quem
nos manda armar ao fino, como diria a saudosa Ivone Silva.
De regresso a Nice, ao fim da tarde, fomos até às afamadas Galerias La
Fayette e depois ao centro comercial Étoile. Aí comemos, em jeito de lanche, uma
refrescante salada de frutas. Voltámos ao hotel, que até era perto, para um merecido
repouso e arrefecer os corpos incandescentes pela canícula no ar condicionado do
quarto. Só saímos à noite, para jantar. Apeteceu-nos pizza e lá foi uma napolitana, no
restaurante Stekia. Depois fomos até à beira-mar. Percorremos as várias praias, umas a
seguir às outras, ao longo do Quai des États Unis – Miami Plage, Florida Plage,
Neptune Plage e espreitámos a alta finança hospedada no Negresco. Ficámos pasmados
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com um belo espécime masculino que, ao som de Conquest of Paradise, de Vangelis,
contorcia-se e rebolava pelo chão, ensaiando verdadeiras poses de Ioga ou Tai Chi.
Soberbo! Lá mais para o centro da cidade, abrimos a boca de espanto perante os
expedientes que se arranjam para sacar dinheiro ao incauto turista!... É o homem estátua
que, vestido à Mozart e completamente pintado de dourado - corpo e roupas - está
imóvel por tempos intermináveis. É o cavalheiro que, com uma gigantesca jibóia e uma
polaroid, cobra 9 euros por uma foto com a bichinha às costas... Ainda uns gatos
amestrados por um pouco escrupuloso dono que, ao elevá-los ao alto, obriga-os às mais
mirabolantes acrobacias. Ainda um pobre coitado com um par de filhotes de coelho num
cesto, salpicado de rodelitas de cenoura, que espera pelas moedas de quem, comovido
pela visão dos animalitos, as deixa cair numa caixa estrategicamente colocado ao lado.
Enfim, a imaginação não tem limites e tudo é permitido. De volta ao hotel, ainda fomos
à Praça Massena e comprámos uma iguaria para a ceia, que devorámos depois de um
retemperador banho. Desta vez foi uma tarte de banana com chocolate. Era tempo de
mergulhar nos lençóis e repousar o corpo.
Eis-nos de novo na estrada, agora a caminho de Milão. Pela Auto-Estrada das
Flores chegámos à fronteira que separa a França da Itália. Já em terras transalpinas
cruzámos Génova, para, nos arredores da cidade de Colombo, ficarmos parados no
trânsito mesmo à entrada de um dos inúmeros túneis rasgados na montanha que tivemos
que atravessar, por via de um forte incêndio que lavrava mesmo por cima de nós.
Depois de helicópteros e aviões terem milimetricamente largado litradas de água, lá nos
foi permitido prosseguir a viagem. A paisagem até Milão era desoladora e árida, com
alguns rios, ribeiros e cursos de água quase secos. Atravessámos a Liguria, o Piemonte
e a Lombardia e chegámos a Milão. Parámos mesmo em frente à Catedral - Il Duomo!
Já eram horas de almoço e, em plena Piazza del Duomo, num bem aprazível local,
comemos um menu pizza/fruta. Pizza margherita, coca-cola e salada de frutas. Depois
fomos visitar a catedral, gigantesca, não sem antes termos sidos convidados a abrir os
nossos sacos por dois corpulentos polícias, que, deste modo, fizeram a parte da
segurança. Limitaram-se a dar uma espreitadela lá para dentro, sem, contudo,
observarem o seu conteúdo. Mas tinham detectores de metais!... Coisas das conjunturas
internacionais... Afinal, este nosso mundo nunca mais foi o mesmo depois do 11 de
Setembro de má memória!... Dentro do templo, depois de o apreciarmos
demoradamente, deixámos uma vela por intenção dos que nos são queridos. Familiares,
colegas e amigos. Demos depois um salto às galerias Vittorio Emanuelle e ao La Scalla
que, infelizmente, estava encerrado para obras de conservação ou transformação. Ainda
não foi desta que o vimos por dentro. Tal como não o vimos em 98, aquando da nossa
primeira visita a Milão. Pela Corso Vittorio Emanuelle chegámos à Corso Venezzia,
onde fomos dar uma espreitadela, ainda que tímida, à loja Dolce & Gabbanna. De volta
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ao autocarro, agora em trânsito para Como, ainda parámos no castelo dos Sforzza para
uma fotografia final.
Chegámos a Como ao fim da tarde e ficámos num hotel muito bonito. O
Grande Hotel di Como. Curiosamente, mais perto de um lugarejo de nome Cernobbio
do que de Como. Aqui íamos ficar dois dias, 6 e 7 de Agosto. Depois de um breve
descanso, fomos jantar. Um espectáculo! Como entrada, pasta com molho de carne –
Pennette al ragù di carne. É preciso ver que estamos em Itália. Depois um bife de vitela
no forno, à moda de S. Daniel, com batatas assadas e tomate gratinado – Carrè di vitello
al forno alla S. Daniele, patate arrosto, pomodoro gratinato. À sobremesa, gelado com
uma rodela de ananás, polvilhados de açúcar em pó e salpicados de pistachio triturado –
ananas com gelato. Depois do jantar fomos até Cernobbio, a tal localidade mais perto
do hotel. Passeámos à beira do lago de Como, um oásis de frescura a contrastar com a
canícula que até aí sobre nós se tinha abatido e, sentados num aprazível banco de
jardim, bebemos uma fresca coca-cola e comemos um monumental gelado. Acabámos
um dia e começámos o outro no pub HP, com uma enorme Lowenbrau preta bem
geladinha. Era tempo de ir dormir. O dia prometia ser cheio e repleto de emoções fortes.
Entre outras coisas, íamos fazer um cruzeiro pelo Lago de Como.
Depois do pequeno almoço rumámos a Stresa, onde nos aguardava uma lancha
que nos levaria à Isola Bela, em português Ilha Isabel, para visitar o Palácio dos
Barromeu. Esta ilha foi presente do conde Barromeu à sua amantíssima esposa, de
nome Isabel. Daí o nome de Isola (ilha) Bela (Isabel). Pelo menos assim a descreve a
guia que nos orientou nesta visita ao palácio. Lindíssimo, por sinal, e cheio de história.
Por exemplo, no dia 11 de Abril de 1935, aqui teve lugar uma conferência entre
Mussolini e uma alta patente militar norte americana, de nome McDonald. Para debater,
pasme-se o avanço de Hitler. Mais concretamente o facto de este estar a formar um
exército próprio, contrariamente ao que havia ficado estipulado aquando do armistício
que pôs fim à I Guerra Mundial. Com esta atitude pretendia-se pôr travão ao
expansionismo alemão e, consequentemente, à II Guerra Mundial. Curiosamente, anos
mais tarde, Mussolini não só criou o seu exército como invadiu a Etiópia e,
posteriormente, foi acérrimo apoiante de Hitler. Na sala onde decorreu o encontro
existe, inclusive, um exemplar do protocolo firmado e onde se reconhece, claramente, a
assinatura de Benito Mussolini. Também vimos um imponente quarto onde Napoleão e
a sua adorada Josefina dormiram quando visitaram o palácio de surpresa e por lá
apareceram com um séquito de 60 criaturas. Dizem as más línguas que, para alimentar
tantas bocas famintas, foram-se todas as provisões da despensa... Ao que nos foi dito,
Josefina adorou estas paragens e quis voltar. Contudo, teve receio que a água do lago
causasse danos à sua fina cútis. Ao que o conde replicou que esta era perfeitamente
inofensiva e de primeira qualidade e que, sempre que quisesse, seria bem vida à casa.
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Desde que não trouxesse o marido e os seus acólitos. Descendo à parte mais baixa do
palácio, visitámos umas fabulosas grutas, decoradas com seixos do lago, mármore e,
espanto dos espantos, lava proveniente do Vesúvio. Lavra, no dizer de umas velhotas do
nosso grupo!...
Finda a visita ao palácio e antes de embarcarmos na lancha que nos levaria de
volta a Stresa, ainda tivemos tempo para tomarmos café no Caffe Lago, junto ao cais de
embarque. Todo alusivo ao rock, ostentava nas paredes vitrinas com fotografias e
guitarras autografadas, discos de ouro e platina, supostamente originais e conquistados
por grandes nomes do mundo da Pop. Lou Reed, Bruce Springsteen, Aerosmith. São
apenas alguns. Já no autocarro, circundámos o Lago Maggiore e chegámos a Lugano, na
Suíça, por volta da hora do almoço, com uma temperatura de 36 graus. Um sufoco! À
chegada, somos confrontados com o facto de nem todas as casas comerciais,
nomeadamente restaurantes, aceitarem euros. Valeu-nos uma casa de câmbio das
imediações, onde aproveitámos para trocar alguns euros por francos suíços. Já de posse
da moeda local, fomos almoçar a um MacDonald’s que ficava por perto. Comemos um
Big Mac Large e fomos gastar os francos que nos restavam. Um pequeno São-Bernado
de pelúcia, um pacote de chicletes e um gelado de chocolate foram suficientes para
fazer desaparecer o resto dos francos... Depois fomos dar uma curva até um centro
comercial. Ficaram-nos por lá os olhos, numas hilariantes t’shirts . Contudo,
continuaram nos escaparates porque não entrámos no jogo dos mal intencionados
proprietários. Eu explico! Aceitavam euros, mas, o troco, se o houvesse, teria que ser
em francos suíços. E mais: euros só aceitavam as notas... Perante tamanha prepotência,
só pudemos recusar ser cúmplices desta trafulhice. Não eram obrigados a aceitar os
euros, é um facto, mas só aceitarem notas e, ainda por cima, darem-nos o troco em
francos suíços já era pretenciosismo a mais para o nosso gosto...
De volta ao lago de Como, deixámos a Suíça de má memória pela fronteira de
Chiasso, apreciando, contudo, a sua esplêndida paisagem. O lago Lugano e o verde das
montanhas a contrastar com os coloridos de alguns parapentes que por lá se viam. O
cruzeiro no lago foi, de facto, muito engraçado. A começar pelo barco que nos
transportou. Datado de 1926, a vapor, à imagem e semelhança dos velhos barcos do
Mississipi. Se espreitássemos para a casa das máquinas, quase podíamos imaginar que a
embarcação era conduzida por Mark Twain com seu farfalhudo bigode, coadjuvado por
Tom Sawyer e Huckleberry Finn. Quando demos conta, estávamos de novo no nosso
maravilhoso hotel, a retemperar forças e arrefecer os ânimos e os corpos no potente ar
condicionado do quarto. Dali só saímos para jantar. Como entrada, ou antipasto, como
dizem os italianos, comemos o célebre arroz doce salgado que já havíamos provado em
98, em Nápoles. Um arroz de grão pequeno (risotto) cozinhado com vinho italiano e
limão – Risottino al limone e Prosecco. Como prato principal, uma posta de espadarte
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(baptizado de peixe espada) grelhado, acompanhado de batatas cozidas e courgettes
salteadas – Trancio di pesce spada al salmoriglio, patate naturale e zucchine trifolate.
Para sobremesa, panna cota (quitute da doçaria italiana) de café com molho de
baunilha, num prato enfeitado com riscas de chocolate derretido e polvilhado de cacau
em pó – Panna cota al caffè com salsa vaniglia. Se na noite anterior tínhamos ido para
Cernobbio, faltava agora Como. Para onde fomos. A pé. Depois de mais de uma hora de
caminho, à beira da estrada, lá chegámos. Mas não era tão animado como Cernobbio.
Fomos aos magnets, aos postais e ao sempre delicioso gelado italiano. Voltámos ao
hotel e já passava da uma da manhã quando chegámos. Mais mortos do que vivos e
transpirados até à medula. Depois de um bom duche, fomos dormir.
Após o pequeno almoço, retornámos a França. O nosso destino final era, agora,
Aix-en-Provence. Entre Génova e Nice passámos por 55 quilómetros de túneis debaixo
de terra, escavados nas esventradas montanhas rochosas. Os Apeninos faziam-nos agora
companhia. Depois de Génova, cruzámos a fronteira de Ventimiglia para entrarmos em
França. Não sem antes termos cruzado a Auto-Estrada das Flores (Auto Strada dei
Fiori) e cruzarmos a estância balnear de Varese. Parámos algures pelos Alpes para
almoçar, numa área de serviço. Comemos uma tripla sanduíche de pão de forma com
atum, alface, tomate, pepino e maionese e bebemos sumo de laranja, não natural mas
minuit maid. Em jeito de remate, um expresso tirado de uma maquineta a troco de um
euro. Com a Côte d’Azur à nossa esquerda, lá continuámos até Aix-en-Provence, onde
chegámos por volta das cinco da tarde e com indícios de chuva. Ainda antes do jantar,
fomos até ao centro da cidade para lhe tomarmos o pulso. Só depois fomos comer.
Como entrada, um prato de carnes frias, patês e alface. Como segundo prato, pasme-se,
voltámos a comer, pela terceira vez nesta viagem, o bovino estufado com vinho, o
célebre boeuf bourguignon, acompanhado de tagliatelli. Como havia uma aniversariante
no grupo, uma das integrantes do grupo das ilhas, a sobremesa foi transformada em bolo
de aniversário. Com velas e cantar de parabéns e tudo. Como era um semi-frio de
chocolate montado numa caixa de massa de bolachas e cortado em fatias, foi fácil
remontá-lo e transformá-lo num bolo inteiriço. Depois do jantar, fomos passear até ao
centro da cidade, onde decorria uma mostra de típicos produtos. Nomeadamente
saquinhos de lavanda e as típicas cigarras talhadas em pedra da região. Antes de
voltarmos para o hotel, bebemos um espectacular batido de frutas, temperado de açúcar
mascavado e refrescado com gelo picado. Uma verdadeira delícia vitamínica!... De
regresso ao hotel e ainda antes de dormirmos, somos confrontados com a notícia da
morte de Marie Trintignat, filha do actor Jean-Louis e da realizadora Nadine Trintignat,
brutalmente agredida por um energúmeno que se disse ser seu namorado(?), vocalista
de uma banda rock de nome, imagine-se Désir Noir!... Como se não bastasse a agressão,
Marie foi deixada em coma horas a fio até que o bicho resolveu chamar por socorro.
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Quando já nada havia a fazer. Foi em Vilnius, na Lituânia, aquando da rodagem de
Collette, que a actriz interpretava sob a direcção de sua mãe. Transferida para Paris,
onde novamente foi operada, desta vez por um reputado neurocirurgião, viria, contudo,
a falecer. Repousa em Pére Lachaise, junto a nomes grandes como Alphonse Daudet,
Jim Morrison e a mesmíssima Collette, sua derradeira personagem na tela. Ironias do
destino!...
Após o pequeno almoço, rumámos a Montpellier. Para fugirmos ao infernal
trânsito de fim de semana, deixámos a auto-estrada e fomos por uma via secundária, por
entre povoações de casinhas térreas cobertas de trepadeiras. Contudo, para entrarmos
em Montpellier, tivemos que retomar a auto-estrada e aguentar com o trânsito e as
intermináveis filas de carros oriundos de vários sítios. É preciso não esquecer que, neste
itinerário, desemboca todo o tráfego proveniente do norte e do sul do país. Como se isso
não bastasse, aqui vêm parar todos os automobilistas provenientes de Paris. Ainda por
cima é um Sábado de Agosto. O mês de férias por excelência. Já apeados, começámos
por comer uma deliciosa fatia de tarte de chocolate e tomar um café, para depois irmos
até mais adiante em busca de postais e magnets. De volta ao ponto de encontro com o
restante grupo, fomos tirar fotografias num parque próximo e sob a estátua equestre de
um tal de Ludovico Magno. Vestido de centurião romano, calça sandálias de tiras,
enverga uma coroa de louros a cingir-lhe a fronte e, na mão direita em riste, segura
qualquer coisa como um bastão ou um documento enrolado. Continuando a caminhar,
vamos ter a um torreão de pedra que vai dar ao aqueduto da cidade.
Prosseguindo a nossa viagem, infernizada pelo colossal trânsito, parámos
algures no Canal du Midi para um frugal almoço. Uma simples baguette au jambon e
um sumo de laranja. Passámos depois ao largo de Norbonne, vislumbrando a imponente
catedral de S. Justo que domina a cidade, inacabada desde o século 13. Prosseguimos
viagem por entre vinhedos e alcançámos os Pirinéus. Pela fronteira de La Jonquera,
entrámos em território espanhol pela região da Catalunha. Íamos para Saragoça. À nossa
esquerda, apreciámos a antiga fortaleza desta localidade e demos conta que as placas
toponímicas assinalavam as localidades primeiro em castelhano e depois em catalão.
Por exemplo salida - sortida; atención - atenció; dirección - direció. Ainda botiga, para
assinalar uma loja... Por volta das 18.30 horas ladeámos Barcelona e, ao fim de muitas
horas de viagem, agravadas pelos colossais engarrafamentos, lá chegámos a Saragoça,
capital da província de Aragão, de onde é oriunda a nossa Rainha Santa - D. Isabel de
Aragão. Dado o adiantado da hora, de imediato passámos ao comedor para jantar.
Melhor dizendo, àquela hora já era ceia... Nem houve tempo para um apetecido banho.
Como entrada, serviram-nos umas postas de pescada (merluza) frita, ainda fumegante,
acompanhadas por uma salada de tomate, alface, atum e azeitonas verdes. Depois, fatias
finas de carne assada, com batatas fritas e pimentos assados. Para sobremesa, um bolo
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de massa folhada enfeitado com maçã e cereja em calda, recheado com creme de
pasteleiro e polvilhado de coco ralado. Já era tarde quando acabámos a refeição, mas,
ainda assim, fomos dar um passeio. Necessariamente curto face à hora que os relógios
faziam questão de marcar. Mas era preciso fazer a digestão. Fomos até à esplanada da
Basílica de Nossa Senhora del Pilar. Magnífica. O calor, infernal, fez sair de casa umas
largas dezenas de pessoas, entre adultos e crianças, que, desprovidas de falsos pudores,
se refrescavam nos repuxos e cascatas existentes na praça do templo. Que inveja!... No
dia seguinte, antes de prosseguirmos viagem, tínhamos programado uma visita à
basílica que, haviam-nos dito, abria às seis da manhã. Para acordar a tempo e cumprir a
visita que nos tínhamos proposto fazer, vai de pormos o telemóvel a despertar quase ao
nascer da aurora. Assim, teríamos tempo de nos prepararmos e ir à basílica, ainda antes
do pequeno-almoço. Esquecemo-nos apenas de um pequeno, contudo grande pormenor.
Acertar a hora do portátil pela hora local, uma vez que ainda estava pela hora de
Portugal. Resultado, quando o alarme nos fez despertar era apenas mais uma hora do
que pensávamos ser. Até já nos tinham ido bater à porta do quarto para recolher as
malas. Escusado será dizer que, quando demos conta da verdadeira hora, precipitámonos para fora do quarto e galgámos as escadas de malas na mão. Valeu-nos o facto de a
rua do hotel estar toda esventrada e esburacada para obras. Deste modo, as malas tinham
que ser transportadas, de carrinho, em grupos pequenos, até ao autocarro que se
encontrava a uma distância considerável. Malas entregues e lá vão eles rumo à sala do
pequeno-almoço para o dito, engolido à pressa depois de duas ou três apressadas
mastigadelas. A mania de cumprir horários junto de quem os não cumpre sempre nos
trouxe dissabores. Para não fazermos ninguém esperar, prescindimos da visita à
catedral. Como nos arrependemos! Ainda esperámos uma boa hora que, bem gerida,
tinha-nos proporcionado uma calma visita à basílica. Resta-nos a consolação de que fica
para uma nova oportunidade. Assim o permita Nossa Senhora del Pilar!...
De regresso a terras lusas, por entre campos de girassol e grandes propriedades
cerealíferas já ceifadas, ladeámos Madrid e, ainda antes de cruzarmos a fronteira,
parámos para almoçar. Não sem antes termos passado por Alcalá de Henares, terra natal
de Miguel de Cervantes, pai do cavaleiro da triste figura, para a história celebrizado
como D. Quijote de la Mancha. O almoço foi na localidade de Maqueda, bem próximo
do seu castelo. Melhor dizendo, do que dele ainda sobra. Comemos caneloni e bebemos
água fresca. Depois desta refeição, mais italiana do que espanhola, lá seguimos rumo a
Badajoz para entrarmos em Portugal. Pela fronteira do Caia, já em final de tarde,
chegámos à santa terrinha. Que diferença, meu Deus! É por isso que uns países
evoluem e outros não passam da cepa torta!... Andámos por terras de Espanha, França,
Itália e Suíça e pudemos ver a abissal diferença que nos separa destas nações. Contudo,
apesar de insignificantes e minúsculos, damo-nos a ares de grandes! É a velha fábula
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do sapo que, para impressionar o boi, inflou até rebentar. Até arder na sua fogueirazinha
de vaidade e presunção... Chegámos a Lisboa já lusco fusco. Quase à hora de jantar.
Estava terminada a primeira etapa do périplo. Curiosamente, no dia seguinte, íamos
fazer este mesmo percurso. Aguardavam-nos cinco dias em Madrid, que, face ao menu,
prometiam ser em cheio... É que não era só a capital madrilena. Tínhamos também o
Escorial, o Vale dos Caídos, Toledo e o Parque da Warner Brothers. Supimpo!...
II PARTE
A CANÍCULA, A PICK-UP E O CARRAÇA...
Manhã cedo, depois de um pequeno-almoço engolido à pressa, lá estávamos à
hora marcada no local indicado. O autocarro, espanhol, já nos aguardava. Depois do
check-in , lá nos instalámos e vai de passarmos os olhos pela viatura para apreciarmos a
fauna que nos acompanhava. Cedo percebemos que éramos os únicos portugueses
naquele verdadeiro melting pot. Indianos, latino-americanos e sabe-se lá que mais. O
guia que nos acompanhava – pelo menos disso fazia papel – era espanhol. Careca, barba
de meia dúzia de dias, expressava-se num algo perceptível portunhol. Foi-nos logo
perguntando se éramos brasileiros. Cedo nos apercebemos do barrete que nos tinham
enfiado! Íamos nitidamente de penetras numa excursão para Espanha. Fomos enfiados
naquele autocarro com o único propósito de apanharmos boleia até Madrid. Todos os
outros iam em passeio, com todas as despesas incluídas. Nomeadamente uma visita às
ruínas romanas em Mérida, onde faríamos um paragem para almoço, também já pago
pelos outros excursionistas. Como se isso não bastasse, ainda teríamos aqui que mudar
de autocarro. Esta viagem tinha como destino final Sevilha e não Madrid. Lá seguimos
viagem como cobra se arrastando pelo chão, no dizer da canção da tropicalíssima
Simone. Chegados a Mérida, sob um calor abrasador, foi-nos dado algum tempo para a
visita às ruínas romanas, que incluem o mais bem conservado teatro de toda a Europa. É
claro que nós, os penetras, se as quiséssemos ver teríamos que pagar a entrada. A
canícula depressa nos desencorajou a fazê-lo e optámos por uma bebida fresca num café
com ar condicionado. Depois de substancialmente inflaccionada a hora de espera, fomos
para o hotel onde seria servido o almoço. Claro que aos outros excursionistas, não a nós.
Uma vez mais nos apercebemos da nossa insignificância. Totalmente ignorados e
jogados às traças. Se queríamos informações tínhamos que andar a mendigá-las.
Sentimo-nos uns autênticos pedintes junto de tanto chileno, venezuelano e sabe-se lá
que mais, mas pagantes em dólares!... Depois de mais um chá de espera e de um menu
mal tragado num MacDonald’s , eis que o nosso guia nos apresenta uma figurinha, com
ar de gigolô. Cabelos pelos ombros, barbicha à italiana, camisa preta de manga cavada,
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calça branca a arrastar pelo chão e chinelas pretas de enfiar o dedo!... Digna
personagem de um qualquer filme de Scorsese ou Coppolla. Esto lles vá a levar a
Madrid! Disse-nos de uma assentada. Se a coisa já estava mal, passou a estar péssima.
Fomos metidos numa Ford de 11 lugares, no que vulgarmente se chama uma pick-up,
prensados, espartilhados e distribuídos pelos lugares existentes. Nós, mais três
venezuelanos e dois brasileiros. Com um calor infernal e um ar condicionado que mal
cumpria a sua missão, lá fizemos as quase quatro horas que nos separavam de Madrid.
Ainda houve tempo para uma breve paragem em Talavera de la Reina, para um sumo
de laranja natural e uma apressada ida à casa de banho. Chegámos por volta das 19
horas, com uma temperatura de 41 graus. Um horror! Depressa nos vimos no
paradisíaco ar condicionado do nosso quarto do hotel, a um passo da Gran Via, o grande
centro da animação e diversão nocturna da cidade com os seus teatros e cinemas. Quase
porta sim, porta sim.
Saímos para jantar e tomar o pulso a esta fantástica metrópole. Mesmo ao lado
do hotel, comemos bifinhos de frango, batatas fritas, pimentos assados e croquetes de
batata com bacon. Depois fomos passear. No Teatro Lope de Vega, estava em cartaz
uma adaptação da mega obra de Andrew Lloyd Webber, O Fantasma da Ópera – El
Fantasma de la Opera. Esta peça nasceu da profícua mente de Webber e do seu amigo e
colaborador Cameron Mackintosh que, durante uma conversa informal, resolveram
fazer um musical baseado no filme homónimo. Começaram, primeiro, por visionar a
versão muda da película, protagonizada por Lon Chaney, para depois, insatisfeitos,
verem a versão da Claude Raines. Como nenhuma destas adaptações foi so seu agrado,
resolveram basear-se directamente na obra de Gaston Leroux (1868-1927). Como dados
curiosos da encenação madrilena dizemos que, por exemplo, a réplica do gigantesco
lustre do teatro da ópera de Paris, é composta por 6.000 lâmpadas agrupadas em cordéis
de 35 luzes cada um deles. Mede três metros e pesa uma tonelada. Na cena da queda
desce dois metros e meio por segundo. Em palco estão 40 actores, que vestem e despem
um total de 230 trajes e o cenário muda 22 vezes. Decidimos partilhar convosco estas
informações, depois de as termos lido num folheto que surripiámos no hall do hotel.
Não fomos ver este fantasma amistoso porque, apesar de já estar em cena há uns tempos
valentes, os bilhetes eram rapidamente esgotados pelas monumentais bichas de
potenciais compradores.
Continuámos a nossa visita de Madrid by night descendo a Gran Via, na
direcção das Cibeles. À nossa direita, junto ao hotel Senator, com a maior das latas,
trabalhadoras do sexo aguardam os seus fogosos e mais ou menos babosos clientes. Vêse de tudo! Homens, mulheres, gordas, magras, esqueléticas e outras mais ou menos
espalmadas. Também meninos artilhados a preceito, peitudos e de sinuosas curvas, de
fazer inveja a muita presumida fêmea que por aí se bamboleia... Mas, quem está, está, e
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quem vai, vai! Foi o que fizemos. Já na Plaza de Calao, decidimos dar um pulo ao El
Corte Inglés e dar uma cheirada nas fragrâncias de nomeada, a preços convidativos e
que, por terras lusas, não se encontram. Descemos depois o resto da avenida e eis-nos
em frente às Cibeles e ao Palácio dos Correios, sempre magnífico, à luz do sol ou da
lua. Voltámos para trás e fizemos o sentido inverso. Depois de uma subida em passo de
turista, fomos dar à Plaza de España. É quase meia-noite e os termómetros ainda
marcam 33 graus. Para refrescar, bebemos uma fresca coca-cola e sentámo-nos num
banco, não sem antes termos mirado Don Quijote e o seu fiel escudeiro, o obeso Sancho
Panza, sob o olhar atento do seu criador, Miguel de Cervantes. Mesmo em frente, o
hotel Crowne Plaza. O corpo já pedia descanso. Amanhã havia mais. A começar pela
visita panorâmica da cidade, como as zonas monumentais dos bairros chiques e as suas
ancestrais construções.
Depois do pequeno-almoço, fomos recolhidos no hotel por um autocarro
repleto de turistas de fala hispânica, acompanhados por uma guia local de nome
Cristina. Desde o Paseo de la Castellana à Plaza de Colón, fomos arreganhando o
olho. Primeira paragem: Palácio del Oriente. Antiga residência de monarcas espanhóis,
data do século XVIII. Depois de convidados a tomar uma sangria numa loja de
recuerdos, decerto escolhida a preceito para a turistada largar as lecas, fomos até à
estátua equestre de Filipe IV para as fotografias da praxe. Curiosa e peculiar, porquanto,
o cavalo do monarca está assente só nas patas traseiras. Continuámos para, mais adiante,
nos determos no Planet Hollywood.
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Certamente também escolhido a dedo e onde nos foi oferecida uma bebida à escolha.
Desde água à sempre incontornável coca-cola. Quando demos por isso, estávamos outra
vez na Gran Via. No fim do périplo fomos almoçar. Esparguete à Bolonhesa, que nos
soube pelas almas. Para fazer a digestão e aplacar o calor dos 44 graus que nos derretia
as entranhas, fomos para o El Corte Inglés da Plaza de Calao, para o seu agressivo mas
sempre delicioso ar condicionado. Depois das compras, fomos para o hotel descansar o
esqueleto, já quase liquefeito com tanta canícula... Fomos depois até à Plaza Mayor
apreciar os típicos restaurantes e bares de tapas com os seus exóticos e um tudo nada
asquerosos petiscos expostos nas montras. Por entre ruas e vielas fomos de novo dar à
Gran Via, que descemos, para, numa zona rumo à Moncloa, bebermos um refrescante
sumo de laranja natural. Num simpático local de nome Café e Té e servidos por um
empregado oriental artilhado com umas monumentais socas de madeira que arrastava
pelo chão do estabelecimento. Por ser servido à mesa, o nosso sumo foi acrescido de
mais 15% em relação ao seu preço real. Como o calor continuava impiedoso, fomos de
novo até ao hotel recarregar baterias. De onde só saímos para jantar. Agora comemos
uma Salada Beatriz. Tinha batata, frango, maçã, tomate, alface, cogumelos e espargos.
Tudo envolto numa acidulada maionese. Foi no mesmo sítio do dia anterior, no Café
Restaurante Via 59, assim chamado, certamente, porque ficava no número 59 desta
concorrida artéria. Depois da janta, veio o passeio. De novo descemos até à Plaza de
Calao. Lá estavam as marafonas da noite anterior, hoje mais grotescas do que ontem.
Não eram ainda dez da noite e já o local fervilhava de agitação e por ali pululavam as
mais estranhas criaturas. Apesar do esforço, não conseguimos descortinar a que sexo
pertenciam. Enfim, modernices!... Continuámos a descer e decidimos virar à direita,
rumo à Plaza Mayor. Se no dia anterior fôramos para a esquerda, até às Cibeles, hoje
impunha-se que fizéssemos o oposto. Assim foi. Antes, ainda apreciámos a Puerta del
Sol, o local de eleição dos madrilenos para todas as comemorações. Por aqui
deambulavam milhares de almas, bem dispostas e sequiosas, que, comendo gelados ou
sorvendo frescas bebidas, tentavam aplacar a sede e refrescar o corpo. Numa tentativa
frenética de abafar os sufocantes 36 graus que, apesar do adiantado da hora, ainda se
faziam sentir. A velha plaza, antigo local de actos públicos, como touradas ou autos de
fé, tinha agora outra vivência. Gentes de apetite voraz deglutiam iguarias, ou,
simplesmente, sorviam vinho ao som das doces melodias de um tocador de guitarra
clássica. Passámos pelo Convento das Descalzas Reales e, indo sempre em frente,
fomos dar à Plaza de Calao. Subimos a Gran Via e decidimos recolher-nos. O corpo
assim o pedia. Apesar de ainda ser relativamente cedo, o ar condicionado do quarto era
mais convidativo. O dia seguinte prometia ser em cheio. Era uma visita de dia inteiro ao
Parque da Warner Brothers.
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Depois do pequeno almoço, foram-nos buscar ao hotel. Pasme-se, aguardavanos um autocarro de cinquenta lugares, com guia incluída, para nos levar ao parque.
Não há fome que não dê em fartura. Para Madrid viemos como sardinha na lata, numa
pick-up. Agora, para uma distância de pouco mais de meia hora, ia um autocarro
enorme para levar três gatos pingados...
Quando lá chegámos, foi-nos entregue um mapa e um horário dos espectáculos
a que podíamos assistir. Prometia ser de papo cheio. E foi, como vereis pela descrição
que agora se inicia. O parque está dividido por cinco grandes áreas temáticas –
Hollywood Boulevard, Warner Brothers Studios, Super Heroes World, Old West
Territory e o Cartoon Village.
Entrámos por Hollywood Boulevard e, à laia de aperitivo, fomos a uma espécie
de réplica do hollywoodesco Chinese Theatre assistir a um divertido filme em três
dimensões – Marvin el Marciano. Depois passámos à segunda área temática. Ao
Warner Brothers Studios, para começarmos por uma atracção do outro mundo. Fomos
ao Hotel Assombrado - El Hotel Embrujado. Lá dentro, começamos por assistir a uma
fantasmagórica conversa entabulada por duas ectoplásmicas figuras. Dali passamos a
uma hipotética sala de jantar, onde, um espectro feminino de nome Isabel, vestida de
noiva, toma sozinha uma refeição numa monumental mesa. Sentámo-nos em bancos
corridos e descem sobre nós umas barras metálicas para protecção. Somos avisados de
que deveremos manter-nos sentados durante o show e que, se sofrermos de vertigens ou
de claustrofobia, deveremos de imediato abandonar o local. É que, uma vez fechadas as
portas, não podemos sair dos nossos lugares. Findos os avisos, damos conta de que os
bancos começam a mover-se e a inclinar-se sobre o cenário. Depois o tecto começa a
revirar-se e a tomar o lugar do chão, deixando-nos completamente abananados e à beira
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de uma síncope. Não com medo de fantasmas, mas de um qualquer outro pavor difícil
de explicar por palavras. A gritaria inundou a sala mas, felizmente, o espectáculo foi de
curta duração. Depois demos uma vista de olhos pelo Super Heroes World, mas fugimos
das suas monstruosas diversões. Tipo El Invertidor de Lex Luthor, com os seus
diabólicos movimentos giratórios e vibratórios; La Fabrica de Hielo de Mr. Freeze,
umas aterradoras cadeiras voadoras; La Venganza del Enigma, uma torre de onde se cai
abruptamente, em picado, de uma altura de 100 metros. Passámos pelo Old West
Territory e fomos apreciando as suas atracções mais ou menos inofensivas, contudo,
repletas de surpresas, umas mais molhadas que outras. Como La Montaña Rusa de Wild
Wild West, onde carros de madeira são propulsados a toda a velocidade; La Aventura de
Rio Bravo, onde, uma aventura numa velha mina de carvão nos deixa ensopados até à
medula; Cataratas Selvajes, uma mescla de velocidade, água e o velho oeste de uma só
assentada. Ainda demos um pulinho ao Cartoon Village antes do almoço. Mas
preferimos ir comer quando ainda havia pouca gente nos restaurantes. No Valentino’s ,
comemos um Menu Combo. Uma enorme pizza Margherita, rectangular, com dois pães
de alho e uma fresca coca-cola light. Voltamos ao Warner Brothers Studios. A partir de
agora, uma da tarde, tínhamos que estar atentos aos horários dos espectáculos que se
seguiam uns aos outros. O primeiro foi Los Efectos Especiales de Hollywood, onde, de
forma divertida e despretensiosa, nos foram mostrados alguns truques da sétima arte.
Nomeadamente ao nível da caracterização. Depois de um breve intróito e de um
pequeno filme alusivo, mostrado em televisores estrategicamente colocados, foi-nos
dado um par de óculos para visão em três dimensões e fomos encaminhados para um
enorme auditório. Como anfitrião tivemos nada mais nada menos que o Stanley Ipkiss,
já na pele de A Máscara. Um verdadeiro show de diversão. Em jeito de epílogo, já com
os óculos postos, somos convidados a ver um hilariante filme animado que tem como
protagonista esta divertida personagem que, a páginas tantas, quando nos deita a língua
de fora e nos brinda com uma sessão de gafanhotos no écran, qual não é o nosso
espanto quando, sobre nós, de imediato chovem milhares de gotículas de água.
Simulação mais que perfeita dos ditos perdigotos. Um espectáculo! Ainda a rir de tanta
paródia, fomos ver El Show de Arma Letal. Um autêntico espectáculo ao vivo, pleno de
acção, efeitos especiais, explosões, tiros e acrobáticos saltos. Martin Riggs e o seu
companheiro Roger Murtaugh, para quem viu Lethal Weapon – Arma Mortífera vividos na tela por Mel Gibson e Danny Glover, derrotam à nossa frente e sob um
escaldante sol de início de tarde, um bando de malfeitores. Iates e motas de água são
alguns dos veículos que se deslocam num enorme lago, sem esquecer uma sanita
voadora que, durante uma monumental deflagração, sai disparada de uma casa. Depois
foi correr para ver El Show de Loca Academia de Polícia. Uma barrigada de riso e de
efeitos especiais, onde, por entre explosões e acrobáticas conduções de motas e carros
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de polícia, os pupilos do Comandante Lassard caçam uns assaltantes de bancos que
pretendiam escapulir-se com o produto do roubo. Até um helicóptero por lá se vê em
perseguição dos bandidos. Porque o tempo urge, vai de corrermos para o Super Heroes
World. Está na hora de El Show de Batman. O alado herói, de parceria com o seu fiel
Robin – o Duo Dinâmico - deitam mão ao pérfido Jocker que faz mais uma das suas.
Detonações em catadupa, lutas impecavelmente coreografadas e minuciosamente
ensaiadas dão brilho a mais este espectáculo. Só ensombrado pelo calor que quase nos
derrete os miolos. E de espectáculos estávamos conversados! Quase em fim de festa,
fomos andar nos pueris carroceis do Cartoon Village. Os únicos inofensivos. Como Las
Tazas de Té de Scooby Doo ou El Paseo en Autobús de Piolin y Silvestre. Para acabar
em beleza, El Correo Aéreo de Los Looney Tunes. Numa espécie de arredondada
barcaça, com capacidade para pouco mais de meia dúzia de ocupantes, vamos
percorrendo um calminho rio, para, de quando em vez, sermos presenteados com uma
valente molhadela que nos ensopa até aos ossos. Diga-se de passagem que, face ao calor
infernal, era uma bênção sempre que umas litradas de água nos caíam pela cabeça
abaixo. Por todo o recinto, estrategicamente colocadas acima das cabeças dos visitantes,
dispositivos salpicavam com água fresca os transeuntes à sua passagem. Regressámos
ao hotel por volta das 19 horas, depois de um dia bem passado e assaz divertido.
Depois de um reconfortante banho, saímos para jantar. Foi no Vip’s Plaza de
España, sito ao número 65 da Gran Via, bem juntinho ao nosso hotel. Comemos uma
deliciosa Salada César, com tiras de frango crocante e bebemos água fresca.
Rematámos com uma salada de fruta de sobremesa. Depois, fomos passear para ajudar à
digestão. Descemos a Gran Via e, na Plaza de España, rumámos à esquerda em
direcção ao Palácio del Oriente. Passámos pela Catedral de Nuestra Señora de
Almudena, a padroeira da cidade. Sempre em frente, cruzámos a Iglesia de San
Francisco El Grande e fomos dar à Puerta de Toledo. Já era tarde e o dia fora longo.
Decidimos regressar ao hotel para um repouso mais do que merecido. As pernas,
gelatinosas, assim o exigiam.
Após o pequeno-almoço, saímos para uma excursão de dia inteiro que nos
levaria, primeiro, ao Escorial e ao Vale dos Caídos. Isto de manhã. Da parte da tarde,
iríamos até Toledo. Tínhamos como guia o que vulgarmente se convencionou chamar
de uma coroa enxuta. Uma respeitável e bonita senhora de meia idade, de nome Lola,
impecavelmente vestida de corsários e camisa de meia manga verde seco por cima de
uma blusa rendada. Descemos a Gran Via até à Moncloa, depois o campus da
Universidade Complutense de Madrid que, curiosamente, foi fundada em Alcalá de
Henares e só depois transferida para a capital. Prosseguimos rumo à auto-estrada
número seis, que nos levou ao Mosteiro de São Lourenço. Construído na pequena
localidade do Escorial, esta magnífica construção do século XVI, foi mandada erigir por
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Filipe II, que aqui morreu em 1598 aos 71 anos. Na sua maior parte, foi obra do grande
arquitecto Juan Herrera e está considerada a oitava maravilha do mundo (será?). Se
assim é, têm toda a razão! Comemora a vitória na batalha de S. Quentin, contra as
tropas de Henrique II de França. Actualmente, para além de mosteiro habitado por
monges Agostinhos, é um colégio. Mais importante, ainda, é o panteão da família real
espanhola. Aqui estão sepultados reis e rainhas das duas dinastias que reinaram em
Espanha – os Habsburgo e os Bourbon. À entrada somos sujeitos a rigoroso controlo de
segurança, à semelhança dos aeroportos, com os nossos pertences a passarem pelo
scanner e nós pelo detector de metais. Já lá dentro, começamos por apreciar salas e
quartos de decorações extremamente simples, com paredes e tectos pintados de branco e
azulejos azuis e brancos até cerca de um metro de altura. Contudo, as portas são
autênticas obras de arte. Profusamente decoradas, são feitas de madeira nobre com
artísticos desenhos em três dimensões. Chegámos, depois, ao quarto outrora habitado
por Filipe II, já enfermo de gota. Do lado direito, na direcção da cabeceira, umas portas
de vidro dão directamente para o altar-mor da basílica. No fim da vida, já recolhido ao
leito e impossibilitado de se movimentar, todos os dias assim assistia à celebração
eucarística.
Dali descemos à cripta, para visitar o Panteão dos reis de Espanha. Que
diferença! O que era simplicidade de decoração é agora luxo. Descemos a pique, por um
corredor forrado a mármore nos tectos e paredes, que a penumbra nos faz suspeitar ser
verde. Já lá em baixo, sentimos um baque que nos tira o fôlego!... Circular, com uma
cúpula belíssima, exibe alinhados em prateleiras inúmeros túmulos de ancestrais
monarcas. Todos identificados, à excepção de três, vazios, mas já com dono. Um para a
avó de Juan Carlos, o actual rei de Espanha, casada com o último rei aqui sepultado. Os
outros dois são para os seus pais. Todos os reis aqui sepultados só para lá foram
trasladados decorridos cerca de vinte ou trinta anos após sua morte. Os espaços são
pequenos e, assim sendo, há que esperar que, dos corpos, já só restem as ossadas. Essas
sim, são colocadas em pequenas tumbas de mármore e trasladadas para o local de
repouso eterno. Dali, passámos aos monumentais frescos e pinturas de El Greco e
Vellasquez e depois à basílica. Monumental, à semelhança da de S. Pedro, no Vaticano.
O altar-mor encimado por um Cristo crucificado, está decorado com fabulosos frescos e
colossais pinturas, que só nos são permitidas ver na penumbra em que o templo se
encontra. Em tempos era possível ver todo o seu esplendor, colocando uma moeda
numa maquineta que acendia automaticamente umas luzes que permitiam ter uma
melhor visibilidade. Contudo, face ao degradar das ditas, agora só à média luz é
permitido apreciá-las. Do lado esquerdo do altar, lá vimos as tais portas de vidro que
vão dão ao quarto de Filipe II e que permitiam que, deste modo, pudesse assistir à missa
diariamente celebrada neste templo.
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Finda esta visita, fomos para o Vale dos Caídos. Aguardava-nos mais uma
espantosa surpresa para os olhos. Íamos ver este impressionante monumento, mandado
erigir por Francisco Franco em memória de quantos tombaram na Guerra Civil
Espanhola de 1936-1939. Após a sua morte, todas as exéquias aqui decorreram e aqui
está sepultado. Situa-se na serra de Guadarrama, no vale de Cuelgamuros, a uma
altitude aproximada de 1.300 metros. A sua impressionante basílica foi construída na
rocha, escavada 600 metros adentro da montanha, e a monumental cruz que a encima
tem 150 metros de altura.
Estima-se que aqui estejam os restos de cerca de 45 mil combatentes que
pereceram na guerra civil espanhola. Somos sufocados por tanta imensidão e
simultaneamente paz. Como foi possível um ditador ter mandado construir uma obra tão
bela e tão fantástica? Na base da monumental cruz podemos ver quatro evangelistas,
também eles de uma grandiosidade impressionante. Descendo umas escadas, quedámonos na grandiosa esplanada que rodeia o monumento e apreciámo-lo demoradamente.
As arcadas que o circundam, à semelhança da Praça de S. Pedro, no Vaticano, parecem
braços abertos que nos envolvem carinhosamente. No topo, uma espantosa e gigantesca
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Pietà. Depois de mais um rigoroso controlo de segurança, com scanner e detectores de
metais, percorremos com calma o interior da basílica, sempre na penumbra. À esquerda
e à direita, enormes anjos empunham uma espada. No centro do altar encontra-se um
colossal crucifixo e uma cúpula policromada exibe cenas do Juízo Final. A sua
construção iniciou-se em 1940, logo após o fim da guerra, e prolongou-se por quase
uma década. Rodeiam o altar mor quatro grandiosos anjos. À frente, em campa rasa, um
túmulo identificado como sendo de José António que, em conversa com a nossa guia,
soubemos ter sido o fundador das Falanges. À sua morte, em 1936, Franco toma o seu
lugar. Mas, dizem os verdadeiros falangistas, usurpou os verdadeiros ideais do
fundador. Atrás do altar está o túmulo do Generalíssimo.
Finda a visita da basílica, rumámos a Madrid para o almoço. Da parte da tarde,
íamos para Toledo. Comemos num restaurante mesmo ao lado do local de partida, ou
seja, ao lado do terminal da agência de viagens, no Restaurante Marisquera Pleamar.
Como entrada, comemos paella. Como prato principal, um bife de vitela com batatas
fritas. À sobremesa, uma fatia de tarte de Santiago, a deliciosa iguaria galega. Nada
mais nada menos do que uma tarte de amêndoa, só que esta era regada com licor de
amêndoa amarga. Por volta das três da tarde, seguimos viagem para Toledo. Rumámos a
sul cruzando o rio Manzanares que banha Madrid e, mais adiante, passávamos pelo
estádio do Atlético de Madrid - Estádio Vicente Calderón. Apercebemo-nos de uma
particularidade interessante. Uma das suas bancadas fica por cima da avenida por onde
passámos. Mas era Toledo que nos aguardava. A capital religiosa de Espanha, onde se
encontram as três grandes religiões monoteístas – Judaica, Muçulmana e Cristã. Foi
capital de Espanha até que, em 1561, Filipe II transfere-a para Madrid. Começa, então, a
perder a sua importância política, mantendo, no entanto, um estatuto cultural que ainda
hoje detém. Nomeadamente a nível artístico. É capital da região de Castilla La Mancha
e património da Humanidade. Aqui podem encontrar-se construções de vários estilos,
desde o barroco ao árabe. Dentro do autocarro, quando nos aprestávamos a sair,
disseram-nos que, lá fora, só estavam 43 graus. E nós lá dentro, no paraíso!... Mas
tínhamos uma interessante visita para fazer e tínhamos que despachar-nos. O programa
das festas, pelo menos, assim prometia. Iríamos visitar a Catedral, a Igreja de S. Tomé onde apreciaríamos uma fabulosa obra de El Greco - depois o bairro Judeu - para ver a
ancestral Sinagoga de Santa Maria - após o que iríamos a uma Fábrica de
Damasquinados. Uma espécie de artesanato, assim chamado porque teve a sua origem
na cidade de Damasco. A primeira visão que se tem, logo que nos abeiramos da cidade,
é do velho e sobranceiro Alcazar. Imponente, está encerrado para obras pois, segundo
nos foi dito, vai ser transformado e adaptado para qualquer coisa como torre de armas
ou museu de armaria.
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Começámos pela Catedral, construída entre 1526 e 1730. Vimos o coro, todo
feito em alabastro ricamente elaborado e as cadeiras, de madeira trabalhada à mão, que
exibem cenas da conquista de Granada aos Árabes. Por cima de cada uma delas vimos
uma lindíssima cúpula de um rendilhado deslumbrante. No altar-mor há uma imagem
da Virgen de Almudena e, a toda a volta, ricos vitrais banham o templo de uma
policromada penumbra. Chamou-nos particular atenção os monumentais e fabulosos
órgãos de tubos que, durante as cerimónias mais importantes da Igreja Católica, como a
Festa do Corpo de Deus, tocam em uníssono. Dali passámos a uma espécie de sacristia,
ricamente decorada com fabulosas pinturas de El Greco, Caravaggio, Rafael e Tiziano.
Ficámos a saber que El Greco, assim chamado por ser de origem helénica, passou por
duas importantes fases na sua prolífica vida artística. A primeira, dos garridos
vermelhos e azuis, cores mais alegres, quando ainda jovem esteve em Itália e privou
com Tiziano, que depois seguiu. A dos negros e cinzas, um El Greco já velho e
residente em Espanha, onde morreu. Precisamente aqui, em Toledo. Vimos isso numa
pintura de Cristo, trajando uma túnica de um vermelho sanguíneo. Espantosa! O tecto
deste compartimento, exibindo magníficos frescos pintados pelo italiano Luca
Giordanno, fez-nos lembrar a estonteante Capela Sistina. Salvaguardando as devidas
proporções, bem entendido! Vimos, ainda deste pintor, duas espantosas colecções, por
assim dizer, de Apóstolos pintados com expressões doentias, que, à época, despertaram
um chorrilho de críticas. Já cá fora, pela Câmara Municipal, fomos subindo por entre
túneis de construção tipicamente árabe com paredes revestidas a tijolo ocre, e subimos
uma calçada revestida de seixos rolados. Na calle Santo André, vimos uma espectacular
casa tipicamente medieval e, quase em todas as lojas, bolos de maçapão e artísticas
peças de damasquinados esparrama-se pelas montras. Chegámos à Igreja de São Tomé,
onde fomos ver a obra de El Greco – O Enterro do Senhor de Orgaz. Retrata as
exéquias deste nobre Toledano, um Conde, especialmente benquisto junto dos populares
por via das obras de misericórdia que patrocinava. À hora da morte foi, inclusive,
considerado Santo. O túmulo está precisamente sob esta pintura, em campa rasa e à
entrada da Igreja. Nesta obra voltámos a ver a assinatura de El Greco, agora com o seu
nome de baptismo. No quadro podemos ver, em baixo, a morte do Conde e, em cima, a
sua ascensão aos céus. Nesta pintura voltámos a ver a tal diferença cromática das duas
fases de El Greco. Em cima, os azuis e os vermelhos. Em baixo, os cinzas e os pretos.
Neste quadro, foi-nos chamada a atenção para o facto de, entre todos os intervenientes,
apenas dois nos olharem de frente. O pintor, aqui em auto-retrato, e uma criança que se
diz ser o filho do pintor. No bolso deste, do lado inferior direito, pende um lenço branco
onde se pode ver a assinatura do artista. Precisamente com o seu verdadeiro nome Domenikos Theotocopoulos.
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Dali fomos para o bairro judeu ver a velha Sinagoga. Sempre a descer,
reparámos nas inúmeras lojas de cutelarias. Na ancestral Sinagoga, de seu nome
verdadeiro Santa Maria la Blanca, reparámos que, no cimo, no local destinados às
mulheres no culto judaico, se encontravam arcos agora encerrados. Este templo, o mais
antigo de índole judaica em Espanha, foi construído no século XII. Curiosamente pelos
Árabes que o ofertaram aos Judeus. Posteriormente, foi transformado pelos Católicos e
adaptado para o culto cristão. Daí a presença do crucifixo e do nome da Virgem.
Virando à direita da Sinagoga, seguimos depois para o Mosteiro Franciscano de S. Juan
de los Reys. À entrada, mesmo no cimo da enorme porta de madeira, jaz um esqueleto
deitado de lado, com a mão direita a segurar a cabeça e parecendo dizer-nos: cá vos
espero! Passámos ao claustro interior todo decorado com estátuas trabalhadas e colunas
torneadas. Contudo, a igreja que alberga no seu interior, é de uma simplicidade
espantosa. O altar é uma cópia e a pintura que o encima não tem mais de trinta anos. O
nome deste convento, construído naquele que ficou conhecido como o estilo gótico
tardio, deriva do facto de ter sido construído para sepultar os reis católicos Fernando e
Isabel que, no entanto, repousam em Granada. Foi-nos dito que, nesta igreja, ocorrem
mais de 90% dos casamentos da cidade. Já cá fora, fomos apreciar uma vista
panorâmica do Tejo – El Tajo – na sua viagem rumo a Lisboa. Descemos depois pela
direita sempre a pique, e passámos por uma entrada encimada por lindíssimos torreões
árabes – La Puerta de San Juan de los Reys. Dali avista-se não só o Tejo como,
inclusive, a parte moderna da cidade. Vamos agora para o autocarro, um oásis face à
sufocante temperatura exterior. Decerto não longe dos 50 graus. Aqui terminou um
périplo a pé pela cidade, que durou mais de duas horas. Agora é a vez da visita à fábrica
dos damasquinados. Aqui vimos, para além de pendentes para fios com ouro incrustado,
pratos ricamente decorados, caixinhas para comprimidos, navalhas, adagas e punhais de
todos os tamanhos e feitios, bem como réplicas de ancestrais espadas. Para além das
famigeradas homónimas utilizadas pelos toureiros nas suas lides, para a estocada final
aos infelizes bovinos sacrificados nas touradas para gáudio dos sedentos de sangue
aficcionados... Deixámos Toledo ao fim da tarde, sob um medonho céu cor de chumbo e
uma ameaça de chuva que, no entanto, não se concretizou. Também aqui ficámos a
saber que hoje, dia 14 de Agosto, em Sevilha, a temperatura atingira os 52 graus...
À chegada a Madrid os estômagos já reclamavam, como que dizendo estou que
nem posso!... A fome é negra. Fomos de novo ao Vip da Gran Via e, desta vez,
comemos uma Salada Louisiana. Alface, cenoura, pimento, bacon, e frango marinado
em molho de soja. Uma delícia. Tudo regado com água fresca. Depois do jantar
descemos a Gran Via até à Plaza de España. Virámos à esquerda e fomos em busca de
uns vendedores ambulantes que havíamos visto no dia da nossa chegada a Madrid e que
nos pareceu terem à venda umas carteiras e mochilas, pirateadas de uma conhecida
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marca de elite, identificada, apenas, por duas consoantes: LV! Dá para perceber, não?
Sabíamos que estavam no passeio em frente ao hotel Florida Norte. Desgraçadamente,
por certo devido ao avançado da hora, não os vimos por lá. Voltámos para trás e
retornámos à Gran Via para as despedidas. No dia seguinte, a partir das 8 da manhã - e
sabe Deus até que horas - faríamos a viagem de regresso a Portugal. Será que era como
a vinda? Seríamos novamente penetras, agora de uma excursão para Portugal?
Mistério!...
Após o pequeno almoço, e depois de esperarmos mais do que o combinado, lá
nos vieram buscar. Confirmaram-se as nossas suspeitas! Fomos, uma vez mais, metidos
à pressão numa excursão organizada. Iam repetir-se todas as cenas do primeiro filme.
Uma sequela à boa maneira de Hollywood!... Lá fomos até Mérida, dali distando cerca
de 400 quilómetros e, uma vez mais, considerados brasileiros no meio de venezuelanos,
chilenos e, desta vez, norte-americanos. Pelo menos uma, que até meteu conversa
connosco e nos contou como tinha sido aldrabada em grande por quem lhe vendeu
aquela viagem, supostamente de sonho, via net. Afinal, não são só os portugas - alguns
portugas - que vivem de expedientes mais ou menos trafulhitas!... Mas como era mulher
de fibra, e de peso - uma vez que pesava seguramente mais de cem quilos - logo que
chegasse a Portugal iria cancelar o pagamento que já havia efectuado através de cartão
de crédito.
Vamos agora à guia que nos acompanhava. Loura, com um postiço de tranças
afro, vomitou-nos atoardas do início ao fim da viagem. O que vale é que, a maioria dos
viajantes, decerto, nem conhece Portugal e não faz a mínima ideia de que o que estava a
ser relatado era um perfeito e despudorado logro. Desde Sinta e Cascais tidos como
povoados mais típicos de Portugal(?)... Ou a sopa verde (presumimos que estava a
referir-se ao caldo verde) como sendo a mais tradicional(?) sopa de Portugal. Aqui até
talvez nem estivesse muito errada, mas então e a sopa da pedra? Demos-lhe o benefício
da dúvida... O fado era o folclore(?) mais tradicional de Portugal(?)... Iam a uma noite
de fados ao Bairro Alto e foi dito que Lisboa pouco mais tinha que ver. Até porque
Portugal era um país pouco desenvolvido (aqui, lamentavelmente, tivemos que dar-lhe
razão e concordar com ela) e, imagine-se, só tinha República desde a Revolução de
1974. Até então, tinha tido uma monarquia, à semelhança de Espanha. Sem
comentários!...
Chegámos a Mérida por volta da hora do almoço. Antiga Emerida Augusta de
seu nome romano, capital da Lusitânia, foi a capital romana da Espanha. Começou a
senhora por nos dizer que, para quem havia visto o filme O Gladiador, aqui morava a
personagem interpretada por Carraça(?!) Assim nos soou o nome vociferado pela
menina. Carraça? Que diabo queria dizer? Depois de muito puxarmos pela cabeça,
percebemos que o Carraça só poderia ser Kurt Russell, pronunciado, contudo, com um
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péssimo sotaque castelhano. Mas não é o Kurt Russell que protagoniza este filme, mas
sim o Russell Crowe. Enfim, foi mais uma. Ah! e também nos disse que, grande partes
das cenas deste épico, aqui foram rodadas. Quando é sabido que foi tudo reconstituído
em estúdio e, graças ao miraculoso computador, até o velhinho Coliseu de Roma
renasceu das cinzas... Voltámos ao MacDonald’s e, uma vez mais, fomos os filhos de
um deus menor!... Entrámos em Portugal pela fronteira de Badajoz, curiosamente
acompanhados por uma guia que dormia profundamente. Nem sequer alertou os
passageiros para o facto de, a partir dali, os relógios marcarem mais uma hora. Foi
caricato. Costuma dizer-se que, em serviço, não se bebe! E dorme-se? Não deveria
aplicar-se aqui a mesma prerrogativa? O motorista, que por acaso até era português,
sabia o caminho, decerto, caso contrário, seria o bom e o bonito e, quem sabe, quando
déssemos conta, estávamos de novo em Espanha!... Nunca, nas nossas já muitas
andanças, vimos coisa igual. Já passámos por algumas, mas, uma guia que se deixou
dormir em pleno serviço, era a primeira vez que víamos... Mas não se ficou por aqui.
Acordada de repente pelo toque de um telemóvel, olha à volta e, quando vislumbrou um
pequeno castelo rodeado de muralhas, logo se apressou a dizer que estávamos em
presença de uma pequena cidade medieval(?). Perspicaz, não?
Chegámos a Lisboa por volta das seis da tarde e, de imediato, fomos para o
Cais do Oriente. Tínhamos que apanhar o intercidades para Viseu, onde chegámos às
onze da noite e onde ficaríamos um fim-de-semana para descanso. Depois retomaríamos
a passeata. A terceira tranche destas bem acidentadas férias...
III PARTE
A CAPITAL, OS “CRAVAS”, A “INBICTA” E O DOURO
Depois de dois dias de ripanço, eis-nos de novo a bordo de um intercidades
rumo à capital da Lusitânia, onde chegámos por volta da hora do almoço. Depois de
termos descarregado as bagagens no hotel, em plena avenida de Roma, fomos almoçar.
Coisa pouca. Uma sopa de espinafres, uma baguete de delícias do mar e uma coca-cola
light. Depois fomos para Sintra. Íamos ver o Castelo dos Mouros, que ainda não
conhecíamos. O péssimo estado de conservação deste espantoso monumento deixou-nos
em choque. A fazer fé nos letreiros que por lá proliferam, o imóvel sofreu obras de
restauro no século XIX(?). Isso mesmo, vai para dois séculos atrás!... Subindo e
descendo a pique, por entre pedras e pedregulhos, vamos tentando compreender um
pouco da história do local onde os encontramos. Vê-se logo que já estamos em
Portugal! Sempre gostávamos de saber para onde vai o dinheiro dos bilhetes cobrados à
entrada! Por lá vimos sepulturas provenientes de antigos cemitérios cristãos e vestígios
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de técnicas árabes de construção, tudo numa amálgama de pedras! Também uma velha
cisterna destinada ao armazenamento das águas pluviais, tão imprescindíveis à vida
durante os prolongados cercos a que o castelo foi sujeito pelos sucessivos invasores.
Corremos tudo. Desde as ameias à porta da traição, assim chamada porque era utilizada
pelos exércitos usurpadores durante as incursões contra o castelo. Mas também era
usada pelos habitantes do interior quando fugiam aos cercos. Terminámos na torre mais
alta, onde está hasteada a bandeira nacional. Agora era só descer por ali abaixo e ir
apanhar o autocarro que nos levaria ao centro da vila. À nossa esquerda, ainda nos
deleitámos com uma magnífica vista de Sinta e do Palácio da Vila. Na descida ainda
vimos a Alcáçova, tida como o local de residência do Alcaide do Castelo. Ainda dentro
do seu recinto, reparámos numa pequena carripana que vendia garrafas de água,
chocolates e, imagine-se, pequenos copos de plástico com Vinho do Porto a 1,25 •. Não
podíamos ir embora sem comer as tradicionais queijadas e outros típicos e não menos
deliciosos bolinhos. Foi na Periquita. Com um sumo de laranja natural bem fresco,
comemos as ditas e, ainda, Croquetes de Coco e Nozes de Cascais. Uma alarvice!... De
volta a Lisboa fomos jantar ao Chiado, num pequeno restaurante situado no agora
renovado edifício dos Grandes Armazéns do Chiado, totalmente destruído pelo incêndio
de Agosto de 1986 e a quem Siza Vieira deu nova cara... Comemos arroz de pato e
salada de frutas. Depois de um saltito ao Bairro Alto, regressámos de metro ao hotel.
Amanhã havia mais.
Após do pequeno almoço, apanhámos o metro até ao Campo Grande para
depois irmos de autocarro até Mafra. Ao Convento e à Tapada Real. Pelo coração da
região saloia, Malveira e Venda do Pinheiro, agora mais conhecida por via das
coscuvilhices Orwellianas, lá chegámos a Mafra. Só não vimos a Beatriz Costa,
encabritada na sua carroça repleta de roupa branca que a freguesa deu ao rol, em plena
disputa com as carroças da viúva e aos tombos montanha abaixo, na cena que ficou nos
anais do cinema português. Quem nunca viu A Aldeia da Roupa Branca, onde, o noivo é
de Caneças e a noiva é da Malveira? Assim rezava a canção entoada por este já falecido
nome grande do meio artístico nacional? Mas era terça-feira e o Convento estava
fechado. Contudo, a basílica aberta, permitiu-nos uma demorada visita ao seu interior.
Antes, numa pequena pastelaria da vila, comemos um bolo de amêndoa das freiras, no
dizer da menina que nos atendeu. Já dentro da basílica, pudemos constatar que, a sua
cúpula, é idêntica não só à da basílica de S. Pedro, em Roma, como à da basílica do
Mosteiro do Escorial, em Madrid. Aqui vimos outra coisa que só se vê em Portugal.
Lamentavelmente. Os restauros serem patrocinados por mecenas, a troco, claro está, de
benefícios fiscais. Aqui, eram os órgãos, à custa de uma entidade bancária de terras de
Isabel II, que é como quem diz, um banco inglês. A nossa pinderiquice chega a irritar!...
ou a nossa chulice!... Uma vez mais não fomos à Tapada. E isto porque para lá não há
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transporte. Disseram-nos que estão a equacionar a hipótese de, para o ano, haver já um
circuito de charrete que faz a viagem de Mafra à Tapada, incluindo a visita ao seu
interior. Hipótese se calhar já não concretizável, a fazer fé nas imagens que nos
entraram casa dentro alusivas aos recentes e criminosos fogos que consumiram mais
esta incomensurável riqueza do nosso património florestal... Depois demos um pulinho
ao parque atrás do Convento e divertimo-nos com os atrevidos esquilos que, com a
maior das sem vergonhices, pedincham comida aos visitantes.
Dali fomos até à Ericeira, onde almoçámos. Um bitoque e uma água, num
restaurante com nome de diminutivo de Francisco, para depois acabarmos numa
gelataria com nome da cidade das gôndolas a comer um gelado de chocolate e
pistachio!... Antes de apanharmos o autocarro para Lisboa, ainda passeámos à beira
mar, do alto das falésias a esboroar-se e, que, a cada passo nosso, ameaçavam
catapultar-nos pelos ares rumo ao Atlântico.
Chegámos à capital ao fim da tarde e apanhámos o metro para a Baixa/Chiado.
Coscuvilhámos as lojas, nomeadamente a Fnac, em busca de novidades, a Sport Zone e
a Bershka. Uma constante foi sempre a presença de pseudo indigentes, que fazem da
pedincha um modo de vida. Dê uma moedinha para uma sopa! Ajude quem precisa!
São as frase que se ouvem amiúde. Por toda a parte! Não diríamos todos, mas, alguns
deles, percebe-se à légua que estão a regar e a tentar levar-nos à certa! Havemos de ser
sempre um país de cravas e de lambões!... Fomos depois a pé até ao Rossio e, nos
Restauradores, demos um pulinho ao recém aberto Hard Rock Café, instalado no
edifício do velho cinema Condes, na Avenida da Liberdade, que ainda tivemos o
privilégio de conhecer e onde vimos Em Buscada Esmeralda Perdida há quase duas
décadas. Mas, como quem vê um vê todos, a visita foi necessariamente breve. Subindo a
avenida, temos à nossa direita o Teatro Tivoli. Em cena As Taradas, movimentada
comédia com nomes grandes do nosso panorama cénico. Sempre a subir, vamos dar ao
Forum Picoas, já no Saldanha, depois ao Campo Pequeno, agora todo coberto para
obras de restauro. Como se por ali tivesse passado Christo, o tal artista a quem dá ganas
de encapotar tudo quando é monumento famoso. Dali subimos até à Avenida de Roma,
para um pequeno descanso no nosso hotel antes do jantar. Que foi nas Amoreiras. Uma
salada fria de polvo, batata, cenoura, feijão-verde, ovo e tomate, tudo coberto de
maionese. Como remate, uma fresca salada de frutas. Depois demos uma vista de olhos
às lojas deste antro do consumismo, para depois sairmos rumo ao Marquês de Pombal.
Contornando o Parque Eduardo VII, subimos ao Saldanha e, pela avenida 5 de Outubro,
acedemos à João XXI para depois entrarmos na avenida de Roma. Já no quarto e como
ainda era cedo, ligamos a televisão e fomos confrontados com a terrível notícia da morte
de Sérgio Vieira Melo, em Bagdad, vitimado por uma monumental explosão no quartel
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general da ONU, perpetrada sabe Deus por quem!... Assim vai o nosso mundo. Cada
vez mais igual a si próprio!...
Já outro dia, depois do pequeno almoço, fomos de metro até ao Rossio e
caminhámos pela baixa até ao Terreiro do Paço. Lá estavam outras vez os cravas! Cada
um mais esperto do que o outro, com elaboradíssimas artimanhas engendradas para dar
a volta aos transeuntes. Cortámos depois à direita, pela rua da Madalena. Íamos para a
Sé que ainda não conhecíamos. Antes, decidimos entrar na Igreja de Santo António,
onde, surpresa das surpresas, decorria uma missa em japonês. Depois da Sé subimos até
ao miradouro da Santa Luzia. Uma vergonha! Repleto de garrafas vazias, lixo, fezes,
animais e humanas certamente, e um cheiro perfeitamente nauseabundo! Era impossível
ali ficar mais tempo. Apesar da magnífica vista, o cenário envolvente era deplorável.
Subimos depois para o Largo da Graça, à Igreja da Graça, para depois descermos à
Igreja de Santa Engrácia - o Panteão Nacional - no Campo de Santa Clara. Tínhamos
que ir ver a Amália, que ali se encontra desde 8 de Julho de 2001, por resolução da
Assembleia da República. E fomos! Antes, ainda nos rimos quando vimos, entre tantos
vultos da nossa cultura e política, os supostos túmulos de Vasco da Gama (?) e de Luís
de Camões (?). Então não estão nos Jerónimos? Ou terão, face à sua estatura, o dom da
ubiquidade? No mínimo, é estranho!... Lá fomos ver a grande senhora do fado, que,
diga-se de passagem, merecia melhor sorte depois de tudo o que fez por Portugal.
Achamos que merece inteiramente repousar no Panteão. Isso nem se discute. Mas, como
mulher do povo, decerto estaria melhor num local mais consentâneo com a sua estranha
forma de vida. Mais perto dos que verdadeiramente a amavam!... Talvez estivesse
melhor e mais feliz no Cemitério dos Prazeres, onde foi sepultada primeiramente.
Descemos depois pela Graça, e, já em pleno coração de Alfama, temos à nossa
direita a travessa do Menino de Deus e, à nossa esquerda, a travessa do Açougue.
Vamos descendo e eis que alguém, decerto alma bem humorada, num pequeno recanto
interior, improvisou uma placa toponímica na parede com os dizeres Jardim das Pichas
Murchas!... Descemos a rua de S. Tomé e, à nossa direita, passámos pela Fundação
Ricardo Espírito-Santo. Ao fundo das Portas do Sol subimos a travessa de Santa Luzia,
rumo ao Castelo de S. Jorge. Contudo não entrámos porquanto já lá tínhamos ido o ano
passado. Descemos depois a rua do Milagre de Santo António, a rua da Saudade e a
Costa do Castelo, antes de cruzarmos o Chapitô. Não vimos por lá a Tété e o seu fiel
galináceo!... Descemos depois por um par de ruelas estreitas com escadas, separadas a
meio por um corrimão metálico. Só nos faltava ir ter ao Pátio das Cantigas e dar de
caras com o Rufino Fino, pai e filho e a senhora D. Rosa acolhendo calorosamente a sua
brasileira e agora cançonetista filha, de nome Gracinha, se a memória nos não falha. À
esquerda, descemos para a rua da Madalena, depois a Praça da Figueira e finalmente o
Chiado. Era hora de almoço e as forças estavam nas lonas... Fomos à Loja das Sopas e
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comemos uma espectacular sopa camponesa. Seguiu-se uma salada oriental, a promoção
da semana. Com alface, cenoura ralada, milho, rebentos de soja e diminutos camarões,
tudo coberto com um molho de ketchup, natas e ervas. Bebemos coca-cola light e, para
sobremesa, comemos uma salada de frutas. Para fazer a digestão descemos até ao Cais
do Sodré. Lá chegámos depois de termos passado pelo edifício da edilidade lisboeta e
cruzado a Rua do Arsenal. Apanhámos depois o comboio para Belém. Começámos por
ver o Mosteiro dos Jerónimos. Primeiro a Igreja, onde vimos, outra vez, os túmulos de
Luís de Camões e de Vasco da Gama. Afinal onde verdadeira estão? No Panteão? Nos
Jerónimos? Ou nem num nem noutro? Entrámos depois no Mosteiro, que nunca
tínhamos visitado. Se o exterior e parte arquitectónica são fantásticos, por via dos seus
fabulosos rendilhados na pedra, o interior deixou-nos desiludidos e um tudo nada
chocados. Começámos pelo coro alto e passámos depois pelos túmulos de Alexandre
Herculano e Fernando Pessoa. Este último, sob a forma de uma coluna quadrada de
mármore, ostenta uma cinta metálica onde se encontram inscritas as datas do seu
nascimento e da sua morte 1888 -1935 e um poema do seu heterónimo Ricardo Reis.
Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe
quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive.
Tem inscrita a data de 14/2/1933. Vimos depois o antigo refeitório do mosteiro, com
paredes revestidas de azulejos que espelham o milagre da multiplicação dos pães e
cenas da vida de José no Egipto. Já cá fora, atravessámos a Praça do Império e subimos
ao Padrão dos Descobrimentos para, do alto, nos deleitarmos com a vista panorâmica e
podermos apreciar o mapa mundo com as conquistas portuguesas de outrora bem
assinaladas, com as respectivas datas. Pela beira-rio fomos depois até à Torre de Belém.
Visitámos o interior da velha torre manuelina, que já foi de tudo um pouco. Desde posto
de vigia a aljube de malfeitores. Fomos depois até à velha fábrica dos pastéis de Belém
trincar os ditos. O dia estava quase no fim e fora muito bom. Pelo menos rico em visitas
e passeatas. Apanhámos o comboio para Lisboa e, uma vez no Cais do Sodré, subimos a
rua do Arsenal. Pela rua do Comércio e rua Áurea acedemos ao Rossio. Apanhámos o
metro até Roma e fomos descansar um pouco para o fresco do ar condicionado do
quarto do hotel.
Saímos para jantar no Vasco da Gama, para onde fomos de metro, pela linha
do Oriente, depois de termos ido até à Alameda e mudado para a linha vermelha. Fomos
outra vez à Loja das Sopas. Agora escolhemos uma sopa de legumes e uma salada de
fusilis tricolores. Depois passeámos pelas lojas do Centro Comercial, algumas de nome
sonante, mas que, face às reduções que praticavam, até deu para fazer o gosto ao dedo.
Melhor dizendo, o gosto à carteira... Voltámos novamente pela linha do Oriente até à
Alameda, onde mudámos para a linha verde que nos levou à avenida de Roma. Por hoje
já chegava!...
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Depois do pequeno almoço, apanhámos o metro novamente até à Alameda,
onde mudámos para a linha amarela. O destino final era o Rato. Íamos para a Rua de
São Bento, visitar a Fundação Amália Rodrigues. Mais concretamente a sua CasaMuseu, a casa amarelo torrado no número 193 da Rua de São Bento, que a diva habitou
por mais de trinta anos e onde a morte a surpreendeu pela manhã do dia 6 de Outubro de
1999. Chegámos por volta das dez horas e foi-nos pedido que aguardássemos um pouco
porquanto havia começado, nesse momento, mais uma visita guiada. Assim sendo,
poderia ser interrompida para que nós integrássemos o grupo de visitantes. Assim foi.
Começámos por subir uma escadaria de madeira, em cujas paredes se viam pinturas a
óleo e tapeçarias. Depois, já no primeiro andar, vimos, à nossa esquerda, primeiro uma
casa de banho, identificada como sendo a das visitas. Simples, sanitários e azulejos
brancos, com uns sapatos no chão e um dos balandraus (a expressão é de Amália) que a
artista costumava usar por casa. Depois um quarto, também identificado como sendo o
das visitas, à semelhança da casa de banho contígua. Também aqui está um dos vestidos
que Amália usou. Depois uma belíssima sala de jantar, com cerejas pintadas nas
paredes, porque, como nos disse a guia que nos mostrava a casa, Amália dizia ter
nascido no tempo das cerejas... Ainda um belíssimo quadro da sua amiga Maluda - uma
vista de Lisboa como só esta pintora sabia retratar. Antes de chegar a uma designada
ante-câmara, onde vimos as jóias de cenas expostas numa vitrine, ainda passámos por
uma estante que exibe os variadíssimos prémios conquistados por Amália. Como o do
saudoso Sete ou o da badaladíssima Nova Gente. Antes do quarto, passámos ainda pela
sala. Linda, toda revestida com um fabuloso lambril de azulejos florais do século XVIII,
tapetes orientais, uma guitarra com granadas e turquesas embutidas sobre um xaile
preto, cómodas portuguesas, peças de fina porcelana da China, um retrato a óleo da
artista da autoria de Eduardo Malta e, ainda, o original do famoso busto de Amália do
escultor Joaquim Valente. Sobre um piano de cauda vimos uma biografia de Anthony
Queen, o grande amigo da fadista. Agora o quarto. Portas abertas de par em par, tem,
sobre a cama, os seus característicos e monumentais óculos do sol, um lenço de mão e o
seu livro de versos. Sobre o lado direito da cama alguns terços, entre os quais um
oferecido por João Paulo II. À esquerda, um oratório e uma imagem de Nossa Senhora
do Carmo, de quem Amália era profundamente devota. A porta da casa de banho, onde
a artista foi encontrada já sem vida, à direita do quarto, encontra-se fechada.
Depois desta emocionante visita, pela Rua de São Bento acedemos à Rua Pedro
Álvares Cabral para depois virarmos em direcção ao Jardim da Estrela. Quando
entrámos na homónima basílica, no relógio da torre soavam as badaladas das onze da
manhã. Percorremos demoradamente este magnífico templo, mandado construir por D.
Maria I e seu local de descanso eterno. Conta-se, até, uma curiosa e algo macabra
história. Para a trasladação dos seus restos mortais do Brasil, onde faleceu, o corpo da
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monarca foi colocado em três urnas, umas dentro das outras, apenas envolto em ervas
aromáticas. Quando estas foram abertas, após vários dias de viagem, dizem, face ao
nauseabundo cheiro que emanava do seu corpo já putrefacto, algumas damas da corte
presentes da cerimónia desmaiaram. Fora da basílica, descemos a Calçada da Estrela e,
à nossa esquerda, sempre a descer, cruzámos o Palácio de São Bento, vulgo Assembleia
da República. Fomos depois dar à Rua do Poço dos Negros, à Calçada do Combo, à
Igreja de Santa Catarina e, virando à esquerda, vimo-nos a subir a pique pela Lisboa
profunda. Se calhar andávamos por zonas por onde muitos lisboetas nunca andaram e,
decerto, até nem sabem que existem. Apesar de alguma degradação e imundície, muito
bonitas e pitorescas. Quando demos conta, estávamos no Largo de Camões, mesmo à
entrada no Bairro Alto. Resolvemos descer, pela direita, para o Cais do Sodré. É que,
num repente, resolvemos ir almoçar a Cascais. Ao Cascais Villa. Se bem o pensámos,
melhor o fizemos. Pela Rua do Alecrim, depressa vimos a estátua do Duque da Terceira,
mesmo em frente à estação do Cais do Sodré.
Chegados a Cascais e porque o estômago já reclamava, fomos logo comer. Um
Spaghetti Carbonara e uma água fresca. Depois, passeámos por esta pitoresca e
simultaneamente cosmopolita vila piscatória e de veraneio e retornámos à capital.
Saímos no metro do Parque e fomos dar uma vista de olhos à quase despudorada, pelo
menos para alguns, obra fálica de Cutileiro que aclama a revolução dos cravos. Dali
fomos à Estufa Fria, que não conhecíamos. Foi uma lufada de ar mais ou menos fresco
face à canícula exterior. Subimos e descemos as várias áreas deste magnífico horto, se
assim o podemos chamar, e até nos surpreendemos com uma pequena mangueira, que,
apesar do seu diminuto porte, estava carregada de mangas, ainda que verdes. Já cá fora,
resolvemos dar um salto ao El Corte Inglés. Até porque era época de saldos e de
promessa de pechinchas... Depois de muito calcorrear e de questionar alguns transeuntes
sobre o seu local exacto, lá o avistámos. Cansados da busca, e antes da coscuvilha,
fomos até ao bar tomar uma bebida fresca. Como já era hora do lanche, aproveitámos, e,
ao café e à água fresca, juntámos um donut. Até soube bem! Mas depressa nos
cansámos de lá andar. Por duas razões básicas. Primeiro, porque quem vê um, já viu
todos. Segundo, porque, afinal, os saldos já não são o que eram e, as pechinchas, a havêlas, não estavam por aquelas bandas. Fomos depois de metro até à estação da
Baixa/Chiado e mudámos para a linha verde que nos levou a Roma, ao nosso hotel, de
onde só saímos para jantar. Precisamente no Chiado. Lá fomos outra vez à Loja das
Sopas. Já estava a tornar-se um vício! Depois de uma sopa juliana, apeteceu-nos um
McChicken Premiére. Depois voltámos para o hotel. O dia fora longo e, no dia seguinte,
tínhamos um comboio para apanhar, bem cedo, rumo à Inbicta...
Manhã cedo, após a primeira refeição do dia, lá apanhámos o metro até à
Alameda, para depois mudarmos para a linha vermelha que nos levaria à Estação do
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Oriente. Íamos apanhar o intercidades para o Porto. Ainda houve tempo para tomar um
cafézito, com a Torre Vasco da Gama e o Oceanário como pano de fundo. Já no trem,
fomos observando a fauna que nos rodeava. O jovem e imberbe marujo que dormia a
sono solto e que só o revisor fez despertar para picar o bilhete. A rapariguinha que,
mesmo ao nosso lado, rezava o terço e dormitava a sono solto. Um pouco mais atrás o
balofo casal de calções que, a meio da viagem, resolveu começar a digladiar-se. Dizia a
mulher, a meio da contenda que, o seu esposo, dava mais trabalho que uma criança
pequena!... Ainda um rapazito que, para não incomodar o energúmeno lhe havia
roubado o lugar para poder ir com uma amiga, foi de pé grande parte da viagem. Até
que um revoltado passageiro de barba rija resolve intervir e pôr o penetra a milhas. Só
assim o legítimo proprietário do lugar pôde recuperar o que era seu por direito. Assim
vai o nosso paízeco, pejado de marialvas e chicos-espertos. Só me apetece parafrasear
uma grande amiga que, com carradas de razão, diz por isso é que uns países evoluem e
outros não...
Na companhia de tão díspares espécimes lá chegámos ao Porto, por volta da
meia hora, como dizem os portistas quando se referem ao meio dia e meia. Depois de
pousarmos as coisas no hotel, situado em plena Praça da Batalha e mesmo ao lado do
Teatro Nacional de São João, fomos almoçar. Pela rua de Santa Catarina fomos até ao
Via Catarina. Comemos uma baguete com hambúrguer grelhado, guarnecido com
pimentos assados e cebola às rodelas e bebemos uma coca-cola. Para sobremesa, uma
salada de frutas. Depois fomos passear pela cidade. Queríamos começar pela Sé, que
nunca tínhamos visitado. Por entre o casario, devido às profundas obras em curso, lá
chegámos ao templo que visitámos demoradamente. Depois, pelas Escadas dos
Vendavais, descemos a pique até à Ribeira, sempre por entre as típicas casinhas,
intercaladas, aqui e ali por pequenos restaurantes e tabernas. Passámos no Senhor de
Boa Fortuna, na Rua do Barredo e, virando à direita, por entre um cheiro a peixe frito e
ao mavioso som das gaivotas, chegámos à Ribeira com a Ponte de D. Luís à nossa
esquerda. Fomos logo assaltados e assediados por angariadores de clientes para os
cruzeiros no Douro, das cinco e das seis Pontes. Havia para todos os gostos e bolsas.
Caminhámos à beira rio e observámos os garotos que, certamente para aplacar o calor
infernal se fazia sentir, ensaiavam acrobáticos saltos para a água. Também os inúmeros
peixes que povoavam a margem. Mesmo em frente, em Gaia, fomos vislumbrando os
nomes das casas, e respectivas famílias, produtoras de vinho do Porto. Quase todas
estrangeiras e necessariamente inglesas – Calem, Sandeman, Taylor’s , Porto Cruz,
Cockburn’s . Resquícios da mais antiga aliança comercial do mundo. Como sempre, e
uma vez mais, ficámos a perder. Mais à frente, à nossa esquerda, detivemo-nos, ainda
que por breves instantes, no memorial que invoca o tristemente célebre Desastre da
Ponte das Barcas, ocorrido aquando das invasões francesas. Por entre o enegrecido das
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velas acesas, descortinámos a data de 1809. Mais adiante, um singelo tributo ao velho
Duque da Ribeira, que tantas vidas resgatou às traiçoeiras águas do Douro. Subimos
agora em direcção ao centro da cidade do Porto. À nossa direita cruzámos a Associação
Comercial e depois a estátua de Mouzinho da Silveira. Rumámos aos Clérigos e ao
quase desértico e homónimo shopping. Antes, ainda demos uma olhadela à velhinha
Livraria Lello e apreciámos a sua monumental escadaria de madeira que conduz ao
primeiro piso. Vamos agora por uma bem remodelada zona pedonal no Campo dos
Mártires da Pátria. Acedemos depois à Praça dos Leões, em obras, para irmos para a rua
de Cedofeita, agora toda atapetada de calçada portuguesa. Sempre em frente, vamos
agora virar à nossa esquerda, rumo à Rua da Boavista, para irmos até ao Brasília. À
direita temos o Hospital Militar e à esquerda o Oporto Medical Centre. Depois de uma
breve visita ao centro comercial, saímos por uma porta que nos levou directamente para
a rotunda da Boavista. Estávamos decididos a visitar os antros do consumismo. Os
arrombadores de bolsas e assassinos de ordenados. Assim sendo, dali passámos ao
Península, outra gigantesca galeria comercial. Depois da bisbilhotice, aproveitámos
para comer um divinal gelado de manga e chocolate. Passámos depois para o Cidade do
Porto. Outro colosso da gastadeira que, apesar dos saldos, tinha as lojas às moscas... É
a crise!... Era hora de lanche. Para isso nos alertou um valente ronco de estômago.
Entrámos na Petúnia, na Rua Júlio Dinis, uma pastelaria que exibia na montra uns
salivantes bolinhos. Comemos uma Glória, um delicioso bolo de massa folhada
recheado de doce de ovos e coberto de açúcar glacê e bebemos um refrescante sumo de
laranja natural. Descemos depois para, de novo, apanharmos a rua de Cedofeita. Pela
rua da Torrinha e pela Praça dos Leões, ora descendo, ora subindo, lá chegámos à rua de
Santa Catarina. Fomos até ao hotel descansar um pouco os massacrados pés e refrescar
as moídas carnes no ar condicionado do quarto do hotel, de onde só já saímos para
jantar.
Fomos outra vez ao Via Catarina. Comemos uma sopa de legumes e decidimos
provar um dos apregoados petiscos pelo Kentucky Fried Chicken. Foi um combi
mcnuggets. Uns pedacinhos de galináceo frito, que até estavam apaladados,
acompanhados pelos sempre presentes batatas fritas. Para desenjoar, comemos uma
salada de frutas. Não podíamos deixar a Invicta sem irmos ao Magestic. Foi o que
fizemos. Bonito, bem decorado e carregadinho de história. Fez-nos lembrar o Café New
York, em Budapeste - Hungaria nos tempos da cortina de ferro... Dali fomos
directinhos para a cama. Se os dias anteriores haviam sido quase fatais, o de hoje não
fugiu à regra. Mas, também, férias são férias e só à custa de alguns sacrifícios se ficam a
conhecer as coisas. Nada que uma boa noite de sono não cure... Os dois dias
subsequentes prometiam ser calmos e pacatos. Eram para fazer um cruzeiro no Douro.
Primeiro de comboio e depois de barco.
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Após o pequeno almoço, descemos para a Estação de São Bento. Antes da
partida, ainda pudemos apreciar a beleza do edifício que, a presença de andaimes,
permite adivinhar obras de restauro. Graças a Deus! Logo no átrio da entrada, antes de
acedermos às linhas do comboio, vemos que as paredes estão forradas de azulejos que, à
esquerda, reproduzem o Torneio de Arcos de Valdevez - século XII e, à direita, retratam
o Infante D. Henrique na Conquista de Ceuta – século XV. Partimos à hora marcada,
pela linha do Tua, rumo à Régua. À nossa direita, ainda nos foi permitida uma última
espreitadela ao Douro e à Ponte D. Luís. Passámos por Paredes, Ermesinde, Penafiel e
Marco de Canaveses, terra da portuguesíssima Carmen Miranda, contudo aclamada em
Hollywood como, pasme-se, brasileira. O sufocante calor que se fazia sentir na
carruagem só era suavizado, de quando em vez, por uma tímida brisa que nos entrava
pela meia janela aberta. Fazia lembrar aqueles velhos comboios que se arrastam
literalmente pelos Andes, por entre montes e vales, salpicados aqui e ali de pequenos
lugarejos. Só faltavam os porcos e as galinhas a saltar dos colos dos passageiros. Daqui
para a frente, a até agora sensaborona paisagem começa a mudar. Surge-nos agora o rio,
serpenteando por entre as montanhas. Estamos no Douro vinhateiro e os socalcos
começam a aparecer. Lá ia o nosso comboio, leve, leve!... Vamos descendo e o rio está
agora quase ao alcance da mão. Já cheira a cruzeiro e já se começam a ver os barcos dos
ditos, rabelos ou não. O Milénio do Douro, o Barcadouro... E o trem lá vai gemendo
sobre os carris, balançando-se e balançando-nos os esqueletos e os alicerces. Rio abaixo
e rio acima só se vêem pequenos iates, barcos a motor e motas de água. Num pequeno
lugarejo, algures pelo caminho, vimos o nome de um restaurante que espelha bem a
realidade gastronómica nacional – Barriga Farta!...
Chegámos à estação da Régua por volta da uma tarde e um autocarro leva-nos
ao Solar da Rede para o apetecido já almoço. Também aqui ficámos a saber que já não
pernoitaríamos em Lamego mas sim em Vila Real. Baita surpresa!... Lá chegámos ao
solar, encarrapitado no alto e bem no meio das vinhas. Cá em baixo, o Douro e vinhas e
mais vinhas. Estamos na localidade da Rede, que dista uma dezena de quilómetros de
Lamego. No velho solar, agora transformado em Pousada, foi-nos servido um lauto
almoço. Primeiro, antes de entrarmos, ainda petiscámos pequenos croquetes e diminutos
rissóis, acompanhados de vinho moscatel e de limonada fresca. Já instalados e
devidamente refrescados pelo potente ar condicionado, serviram-nos, como entrada,
uma salada de atum com cubinhos de pimento - dos verdes, dos amarelos e dos
vermelhos – cebola, tomate e molho vinagreta, devidamente acondicionados numa folha
de massa filo enrolada em cornucópia. Depois veio um lombo de porco recheado com
ameixas, acompanhado de batatas coradas e arroz de forno perfumado com folhas de
hortelã. Para sobremesa, uma generosa fatia de torta de laranja. Tudo devidamente
regado com vinho branco e tinto e fresca água mineral. Ah, já me esquecia que, à laia de
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acompanhamento da refeição, ainda havia repolho salteado com bacon. Estava tudo
divinal. Depois do repasto, retornámos à Régua para depois irmos visitar o Mosteiro de
São João de Tarouca. Ou o que dele resta, a Igreja. Deste, o primeiro da Ordem de
Cister a ser instalado no nosso país, hoje só restam ruínas. O templo até está bem
conservado, depois das obras que experimentou aqui há um bom par de anos. Vimos o
seu magnífico órgão, à direita, onde pudemos apreciar uma figura masculina que,
manobrada pelo tocador, abre e fecha a boca como se estivesse a entoar os cânticos.
Também uma magnífica tela de Vasco Fernandes, vulgo Grão Vasco, muito semelhante
ao S. Pedro no Cadeirão do Papa. Ao invés do Sumo Pontífice, temos a Virgem com o
Menino ao colo. Ainda antes do altar-mor, apreciámos demoradamente o cadeiral do
coro e ficámos a conhecer os truques dos monges quando toda a gente pensava que
tinham que se levantar para cantar. Afinal de contas, estavam, sim, amparados nestes
mesmos cadeirais, com o rabiosque sorrateiramente pousado sobre uma tábua, se assim
lhe podemos chamar, estrategicamente colocada na parte superior do assento da cadeira
quando este está recolhido. Espertinhos!... Ainda lá vimos uma magnífica tela
retratando o arcanjo S. Miguel, obra de discípulos de Grão Vasco. Dos lados do altarmor, apreciámos quatro painéis de azulejos, alusivos precisamente à criação deste
mosteiro. Antes de entrarmos na sacristia, ainda nos foi mostrado o túmulo de D. Pedro,
filho bastardo de D. Dinis, o maior e mais alto existente em Portugal. De facto, é
descomunal. Também lá se encontrava o de sua esposa, mas, em tempos idos, terá
desaparecido de vista. Parece que foi encontrado em casa de um lavrador que entendeu
que era muito mais útil como arca para cereais. A muito custo, lá foi persuadido a
vendê-lo. Hoje pode ser visto no Museu de Lamego. Na sacristia, rica em frescos e
azulejos policromados, ainda nos foi dado ver alguns relicários. Dali demos um salto à
Ucanha, para visitarmos e atravessarmos a pé a sua velha ponte medieval. Para terminar
o dia, antes de seguir viagem para Vila Real, ainda fomos ao Santuário de Nossa
Senhora dos Remédios, em Lamego. Como já conhecíamos, ficámos calmamente a
descansar a uma sombra, enquanto os mais valentes foram convidados a descer as
muitas centenas de escadas deste templo mariano. Pelo menos até ao local onde a
estrada as interrompe. Aí seriam apanhados pelo autocarro. Deve dizer-se que se
contaram pelos dedos de uma das mãos os que aceitaram o repto...
Percorremos agora montes e vales, por uma estrada rasgada por entre fundas
gargantas rochosas. Vinhas a abarrotar de cachos fazem adivinhar estar relativamente
próxima a época das vindimas. Como não podia deixar de ser, por estas bandas
abundam as adegas cooperativas e os grémios de viticultores. A paisagem é medonha!
Bela, mas terrífica. Precipícios e desfiladeiros abruptos, fazem-nos, a cada passo, virar a
cara para o outro lado. O verde é deslumbrante, é certo, mas o cenário tira-nos o fôlego
e faz-nos subir os níveis de adrenalina... Não são propriamente os fiordes da Noruega,
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mas quase!... Chegámos ao nosso hotel - Mira Corgo - por volta da hora do jantar. Que
aconteceu após um breve descanso. Depois de uma sopinha de legumes que nos forrou o
estômago, vieram umas postas de pescada frita, cobertas com um molho de cebolada,
acompanhadas de batata cozida. Também uma refrescante salada de alface, tomate e
pepino, a que se seguiu uma salada de frutas e um café. Depois do jantar, fomos dar
uma volta pela cidade que ainda não conhecíamos. Saímos do hotel e virámos à
esquerda, seguindo uma placa com uma seta que nos indicava o Tribunal e a Sé. Depois
de passarmos o primeiro, lá chegámos a uma igreja. Contudo, ficámos sem saber se era
a Sé. Nada havia a identificá-la. Pareceu-nos pequena demais para ser a Catedral.
Continuámos e, virando à direita, fomos ter ao local de partida. Atravessámos a estrada
e fomos dar ao largo da Câmara Municipal. Repuxos de água, cuidadosamente
iluminados, jorravam alternadamente e aumentavam gradualmente de intensidade. Eram
um convite às crianças presentes para uma valente molha. Só a custo, e quase in
extremis, os pais as conseguiam retirar. Também, o forte calor que se fazia sentir,
ajudava à missa!... Quando demos conta, estávamos numa pequena casinha, toda de
pedra, identificada com uma placa como tendo sido o berço de Diogo Cão, o navegador
que, noutros idos, chegou primeiro à foz do rio Zaire e, consequentemente, descobriu
Angola. Virámos depois à direita e, como ainda era cedo, fomos até ao bar do hotel.
Bebemos uma coca-cola fresca com uma rodela de limão. Depois de dois dedos de
prosa, lá fomos dormir. O dia seguinte, o derradeiro destas já longas férias, estava
destinado para a descida do Douro, agora de barco.
Depois do pequeno almoço, fomos de autocarro até ao cais da Régua onde já
nos aguardava o Princesa do Douro. Começámos a viagem por volta das oito e meia, a
uma velocidade de cruzeiro de 11 nós, que é como quem diz, pouco mais de vinte
quilómetros por hora. Iríamos passar por duas eclusagens, nas barragens do Carrapatelo
e de Crestuma/Lever, respectivamente com 35 e 14 metros de desnível. De forma calma
e pachorrenta, lá fomos avançando pelas calmas águas do Douro. Como um grande e
metálico hipopótamo pelas lamacentas águas de um qualquer rio africano. Ao alto,
pequenas casinhas salpicavam o verde do cenário, por entre os socalcos de vinhas a
perder de vista, como que presas por gigantescos e invisíveis agrafos. À nossa direita,
observámos a estância balnear das Caldas de Moledo e, pelas curvas apertadas da
estrada que serpenteia monte abaixo, carros e autocarros vão certamente fazendo
arregalar o olho dos seus ocupantes, perante tão magníficas, mas também aterradoras,
vistas. De cortar a respiração, mesmo aos mais intrépidos!... Mais adiante, depois de
cruzarmos uma destilaria (?), pelo menos foi-nos apresentada como tal, de vinho do
Porto, o rio estreita o seu curso numa garganta mais estreita, ladeada de grandes
penedos de granito. Aqui fez-nos lembrar o seu congénere Reno. Só faltava o rochedo
de Lorelei... Passamos agora por uma Nossa Senhora da Boa Viagem, imagem de culto
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dos ancestrais marinheiros de outras épocas que cruzavam o Douro com os seus barcos
rabelos. À proa do barco, através das translúcidas águas do rio, de quando em vez
víamos revoadas de peixes que assomavam à tona, como que cumprimentando os
cruzeiristas. Para as bandas de uma pequena localidade de nome Mosteirô, à nossa
esquerda, testemunhámos uma procissão. À distância a que nos encontrávamos, não nos
foi possível identificar os santos que seguiam nos andores que os fiéis transportavam
aos ombros. Já próximo da barragem do Carrapatelo, os passageiros que se encontravam
à proa foram convidados a entrar no barco. Era preciso preparar a embarcação para a
primeira eclusagem. Já na albufeira da barragem, fomos saudados por uma chusma de
motas de água e pequenos barcos a motor. Do alto da barragem, inúmeros mirones,
decerto já sabedores da eminente eclusagem, marcada para as dez e quarenta e cinco,
aguardavam o desenlace das operações. Ainda antes, fomos apresentados à Quinta do
Carrapatelo, famosa por ter sido assaltada pelo Zé do Telhado. O afamado amigo do
alheio que, contudo, tinha a particularidade de roubar aos ricos para dar aos pobres.
Exactamente o contrários dos dias de hoje!... Com o coração nas mãos, assistimos a um
espectáculo ímpar e nunca havíamos experimentado. O barco foi metido numa espécie
de compartimento cheio de água, fechado de ambos os lados, e que, através de um
sistema hidráulico, vai baixando e vazando até o barco descer 35 metros. Só depois é
aberta uma enorme comporta à proa. Como que por milagre já estamos de novo a
navegar. Bonito, mas de cortar à faca, tal o respeitinho que impõe. Somos agora
convidados a beber um cálice de favaios e a provar pequenos rissóis e croquetes. Uma
espécie de aperitivo, antes do almoço. Depressa chegámos ao cais de Bitetos e nos
vimos de novo no autocarro. Íamos agora para o Convento de Alpendurada, e não
Mosteiro como vulgarmente o chamam os fazedores de folhetos turísticos. Uma vez lá
chegados, abrimos a boca de espanto perante tanta beleza. Por corredores lindíssimos,
cobertos de azulejos policromados e enfeitados por monumentais jarrões chineses,
chegámos à sala onde ia ser servida a refeição. Toda de pedra e sob uma deliciosa
penumbra. Começámos por uma sopa de legumes, a que se seguiu uma carne de vitela
assada no forno e acompanhada de batatas assadas e arroz de forno cozinhado em
panelo de barro. Acompanhava uma salada de alface, tomate, cebola e cenoura ralada.
À sobremesa, um leite creme queimado. Sem esquecer a água fresca e o vinho branco e
tinto.
Após o almoço, retornámos ao autocarro que nos levou de novo ao cais de
Bitetos onde nos esperava o nosso barco. Uma vez lá dentro, retomámos a viagem. De
imediato, foi-nos servido o café. À nossa esquerda vimos a foz do rio Paiva, que nos foi
dito ser excelente para a prática de canoagem. O que veio a seguir é que os deixou com
uma lágrima no canto do olho. Passávamos agora por Entre-os-Rios, pelo local da
homónima tragédia. Só depois da casa roubada é que se puseram trancas à porta. Ao
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perspectivas
invés de uma velha e decrépita ponte, vêem-se agora duas. Foi preciso morrer tanto
inocente para, finalmente, quem de direito, arranjar dinheiro para estas infraestruturas!... Também vimos o monumental anjo dourado que, como que soçobrado pela
dor, presta homenagem aos desaparecidos. Prosseguindo, passámos pela curva da
lomba, a mais acentuada do Douro navegável em território luso. Faz um ângulo de 180
graus e nela vimos uma praia fluvial pejada de veraneantes, dentro e fora de água,
apesar do agora pouco convidativo tempo que se fazia sentir. Estava o céu nublado e um
ventinho que cortava. Já depois das quatro e meia da tarde passámos pela eclusagem da
barragem de Crestuma/Lever. Esta muito mais meiga que a primeira, apenas com 14
metros de desnível e a última a ser construída no Douro navegável em Portugal. Mas
igualmente de meter respeito. A seguir veio a foz do rio Sousa, ao que parece óptima
para a prática de actividades desportivas radicais, por via das suas inúmeras quedas de
água. Num ritmo cadenciado e indolente, fizemos o resto do percurso que nos separava
de Vila Nova de Gaia, onde chegámos por volta das dezoito horas. Finava-se o cruzeiro
Douro Monumental que, durante dois dias, nos fez subir e descer o Douro. Faltava
agora o regresso à santa terrinha. Mal sabíamos nós que ainda nos aguardava uma
última e desagradável surpresa! Estávamos no cais de Vila Nova de Gaia, todo
remodelado e com uma magnífica zona pedonal que, sem contar, acabámos por
percorrer e ficar a conhecer. É que, sendo Domingo, não se viam taxis pelas ruas nem
pelo cais. E precisávamos de um que nos levasse até ao local onde iríamos apanhar o
autocarro. Decidimos, então, ir a pé. Arrastando as malas, que felizmente tinham rodas,
lá seguimos até onde fosse preciso. Até ao Porto. Quando nos aprestávamos a cruzar a
Ponte de D. Luís, a nossa sorte mudou. Eis que vimos um bendito taxi vazio, a quem
fizemos sinal de paragem. Lá nos levou à zona da Batalha, onde, numa decrépita,
jurássica e nauseabunda estação de camionagem, digna de um qualquer país do terceiro
mundo, apanhámos um autocarro da mesma estirpe. Imundo e decrépito, para não
destoar da estação. Era o regresso a casa.
Acabavam-se as férias.
Bem vindos ao terceiro mundo, doce ilusão, com ares de primeiro!...
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