I
111TRIMESTRE
IGftEJA
1 985
l UTEftt\I'IA
I
LUTe
85
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.
,
EXPEDIENTE
IGREJA
LUTERANA
Revista Teológico-Pastorai
da igreja Evangélica Luterana do Brasil
Ano:
45
Números:
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li Trimestre de 1985
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r-riragen1: 400
REDAÇAO
CENTRAL
Departamento de Comunicação da IELB
Rev. Nilo L. Figur
Caixa Postal 3019, 90.000 Porto Alegre, RS.
Fone 32-2111, a quem devem ser remetidos os
manuscritos, cartas, críticas e dugestões.
CONSELHO
REDATORIAL
Johannes H. Rottmann,
Acir Raymann
Viison Scholz
EXPEDiÇÃO
coordenador
E ENCOMENDAS:
Concórdia Editora Ltda.
Av. São Pedro, 639
Cx. Postal 3230
90.000 Porto Alegre, RS
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0014121032
ESTUDOS
EU VOS ESCOLHI.
(JOAO 15.16)
REV. VILSON
Introdução
As palavras de Jesus, EU VOS ESCOLHI PARA QUE DEIS FRUTOS
(João 15.16), se aplicam ao povo de
Deus de todos os tempos e poderia
ser colocado como introdução ou subtítulo de toda a Sagrada Escritura.
A Bíblia é, de modo geral, a história
de Deus e seu povo, história cujo
resumo é: Eu vos escolhi para que
deis frutos. Estas palavras se aplicam
a Abraão; ao antigo Israel; ao Servo
do SENHOR, o Messias; aos discípulos e apóstolos de Jesus; à igreja cristã do período do Novo Testamento;
e à igreja de hoje.
Abraão
Para uma melhor compreensão
deste estudo, particularmente o cha-
SCHOLZ
mado de Abraão, é preciso chamar a
atenção para o fato de que no capítulo doze do livro do Gênesis tem
início uma nova história, diferente
daquela apresentada nos primeiros
onze capítulos de Gênesis. Uma história que é exatamente uma resposta
e faz mais sentido à luz do que é
relatado em Gn 1-11.
Gênesls 1-11, a Bíblia antes de
Abraão, é a história de um mundo
amaldiçoado, um mundo dividido,
fragmentado. Tudo teve seu início
quando num mundo que era muito
bom (Gn 1.31), o homem deu ouvidos à tentação de ser "como Deus"
(Gn 3.5) e acabou tornando lamentavelmente miserável sua condição
de criatUla. Não mais podendo ouvir
a voz de Deus de consciência tranqüila, "esconderam-se da presença do
SENHOR Deus, o homem e sua mu~
97
1
lher, por entre as árvores do jardim"
(Gn 3.8).
A partir daí o pecado se alastra. A
família sofre um terrível abalo: Caim
mata seu irmão Abel (Gn 4). A maldade do homem é tão grande que
Deus não vê alternativa senão destruir a humanidade no dilúvio (Gn
6-10). Depois disso vem a torre de
BabeI (Gn 11.1-9): os homens sentem a necessidade de tornar célebre
o seu nome e, em seu juízo, Deus
confundiu a linguagem e os dispersou por toda a superfície da terra.
A história do mundo antes de
Abraão (que é a história do mundo
sem Deus) termina em maldição. As
famílias do mundo estão divididas e
sob o juízo de Deus. A pergunta que
fica no ar, ao final de Gn 11, é esta:
qual será o relacionamento futuro
entre Deus e os homens? Será que
Deus, em sua ira, rejeitou as nações
para sempre?
A resposta a esta pergunta é a escolha de Abraão. Dentre todas as nações Deus escolhe um homem,
Abraão,e faz um novo começo (Gn
12.1). Deus promete engrandecer o
nome de Abraão, dando-lhe aquilo
que os homens de BabeI ambicionavam alcançar por conta própria, e
afirma que nele serão benditas todas
as famílias da terra. Deus não rejeitou as nações para sempre; ele
quer abençoar, não condenar. E aqui
começa a história da Bíblia depois de
Abraão, que vai de Gn 12 até ao Apocalipse, e que se resume na ação de
Deus com vistas ao cumprimento da
promessa feita a Abraão.
Se analisarmos a história de
Abraão, veremos que já aí se aplicam as palavras EU VOS ESCOLHI
PARA QUE DEIS FRUTOS. Deus
escolheu
chamou Abraão (Is 51.2;
98
Hb 11.8). Não foi Abraão quem
"descobriu" o SENHOR ao final de
um longo período de busca espiritual;
Deus descobriu e chamou Abraão.
Não foi Abraão quem decidiu que
ser:a uma boa idéia mudar, adotar
uma nova religião, ser o pai de uma
grande nação; Deus decidiu. Abraão
jamais podia se antecipar a Deus.
Sua obediência, sua esperança, sua
adoração não foram senão resultado
da escolha de Deus feita anteriormente.
A história de Abraão ilustra igualmente que Deus escolhe com um
propósito. No caso de Abraão, para
que nele fossem benditas todas as
famíhas da terra. Deus escolheu
Abraão para que desse fruto.
o
antigo Israel
Em momento algum de sua história o antigo Israel, o povo de Deus
do Antigo Testamento, perdeu de
vista o fato de ser o povo escolhido
do SENHOR. Isto está formulado de
forma bem clara em Deuteronômio
14.2: "Porque sois povo santo ao
SENHOR vosso Deus, e o SENHOR
vos escolheu de todos os povos que
há sobre a face da terra, para lhe
serdes seu povo próprio."
Embora a escolha de Israel remonte a Abraão (i. e., Israel foi escolhido em Abraão), o Antigo Testamento
dá a entender que a escolha como
tal teve lugar por ocasião do êxodo,
a saída do Egito. Este grande feito
de Deus, em que Deus escolheu Israel, ocupa um lugar central na Escritura.
E"pecialmente os profetas
não se cansam de relembrar o êxodo
(ci. Ez 20.5-7; Os 2; Os 11.1; Am 2.911; Mq 6.2-5). O êxodo ilustra de
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quem escolheu o SENHOR, mas que
o SENHOR tomou a iniciativa e escolheu Israel.
Uma pergunta que se impõe - e
que é perfeitamente
válida, j:ois a
própria Escritura a responde - é esta: por que o SENHOR escolheu Israel? A resposta a esta pergunta se
aplica a todos os casos de escolha da
parte de Deus, a todos sem exceção.
Em primeiro lugar, o que não fo~
levado em conta. Pouca ou nenhuma
importância
tiveram a grandeza,
o
poder
econômico
ou político
de
Israel. Deuteronômio
'7.6-8: "O SENHOR teu Deus te escolheu, para
que lhe fosses o seu povo próprio,
de todos os povos que há sobre a terra. Não vos teve o SENHOR afeição,
nem vos escolheu, porque fosseis
mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os
povos ... " Tampouco as virtudes ou
a justiça do povo tiveram influência,
como Moisés deixa claro em Dt 9.4,5:
"Não é por causa da tua just'ça, nem
pela Letitude de teu coração que entras a possuir a sua terra ... " O oposto é que era verdadeiro: tratava-se
de um povo cabeçudo, "povo de dura
cerviz" (Dt 9.6). Ninguém retrata
melhor a indignidade do povo do que
o profeta Ezequiel: "Quanto ao teu
nascimento, no dia em que nasceste
não te foi cortado o umbigo, nem
foste lavada com água para te limpar, nem esfregada com sal, nem envolta em faixas. Não se apiedou de
ti olho algum, para te fazer alguma
destas cousas, compadecido de ti; antes foste lançada em pleno campo, no
dia em que nasceste, porque tiveram
nojo de ti. Passando eu por junto de
ti, vi-te a revolver-te no teu sangue,
e te disse: Ainda que estás no teu
sangue, vive; sim, ainda que estás no
teu sangue, vive." (Ezequiel16 .4-6) .
Em Deuteronômio são mencionados
dois motivos para a escolha de Deus.
Primeiramente,
a promessa feita aos
pais, aos antepassados
(Dt 7.8; cf.
4.7; 10.15), embora isto, num certo
sentido, apenas remete o problema
ao passado, levando-nos a perguntar:
mas e os pais, por que foram eles
escolhidos? Isso nos leva ao segundo
motivo da escolha de Deus, e que é
a única resposta correta e possível a
essa pergunta,
ou seja: a resposta
está em Deus. O SENHOR vos escolheu "porque o SENHOR vos amava"
(Dt 7.8).
O SENHOR
"achou-o
(Jacó, seu povo) numa terra deserta,
e num ermo solitário povoado de uivos; rodeou-o e cuidou dele, guardou-o como a menina dos seus olhos"
(Dt 32.10). "Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei
o meu filho" (Os 11.1).
Mais uma vez é preciso enfatizar
que em Israel não havia nada que
fosse amável, digno do amor de Deus.
O SENHOR amou Israel porque quis
amar, não porque Israel era digno.
Esta é a característica
do amor de
Deus sempre: ele ama aquilo que não
é amável e assim o torna amável.
Este amor (agape) difere - e muito!
- daquele outro tipo de amor (eros),
que é resposta a alguma coisa amávelou atraente no objeto amado.
Também Israel foi escolhido para
dar frutos. Foi escolhido com um
propósito. Não há eleição fechada em
si, mas sempre vocação para uma
missão prevista e para um serviço.
Privilégio, salvação (Gabe) e responsabilidade, missão (Aufgabe) sempre
vão de mãos dadas.
Israel foi escolhido pela mesma razão por que Abraão foi escolhido:
99
para que nele fos;;em benditas todas
as nações da terra. Deus escolheu Israel. e estabeleceu aliança com este
povo, não apenas para lhe conferir
privilégios, mas também para. que levasse o propósito de Deus a todas as
nações. Para ser exato, o movimento
não deveria ser tanto no sentido Israel - nações, e sim no sentido nações - Israel. Em Israel Deus criou,
bem no meio dos povos antigos, um
tipo diferente, novo, de nação. Uma
nação em cuja história Deus demonstrou sua graça e deixou bem claras
suas exigências. O' objetivo era que
as nações viessem a Israel e se juntassem a ele no conhecimento do
Deu's verdadeiro.
Uma outra forma de expressar isso
é dizer que Israel foi escolhido para
ser um reino de sacerdotes, conforme
se lêem Êxodo 19.3-6. Esta expressão "reino de sacerdotes" sem dúvida
designa o que em nossos dias entendemos por "sacerdócio universal de
todos os crentes", que de forma alguma é "inovação" neo-testamentária (1 Pe 2;9); Agora, o contexto de
Êx 19 deixa daro que isso não esgota
o sentido da expressão. Deus fala que
toda a terra é deJe e então acrescenta que os israelitas serão reino de
sacerdotes, o que dá a entender que
Israel foi escolhida para ser a "nação-sacerdote". Um sacerdote é um
mediador: leva o nome de Deus ao
mundo, e as necessidades do mundo
a Deus. Esta deveria ser a função de
Israel. Assim como em Israel os levitas roram separados para o sacerdócio,assim no mundo Israel foi escolhida para ser a nação-sacerdote.
Disto se conclui que Deus eséolheu
Israel, não porque estivesse desinteressadonas demais nações, mas jusCOm
tamenteporquesepreocupava
toda a terra.
Deus· escolheu Israel
para que nele fossem benditas todas
as famílias da terra.
Não se pode fazer ésta afirmação,
é claro, sem logo pensar no Messias.
É a ele que temos de nos voltar agora.
o Servo
do SENHOR,
~ ,'fi.
::I~
:
o Messias
,
O que se disse de Israel se aplica
- ou, para ser mais exato, atinge
seu ponto alto ou cumprimento' no
Servo do SENHOR, o Méssias. Por
um lado é preciso dizer que Israel
foi escolhido com vistas ao Servo. De
outro lado é preciso acrescentar que
o Servo foi escolhido porque Israel
era de todo incapaz de cumprir a
missão para a qual fora escolhido. O
Messias é, então, escolhido para realizar o trabalho que, a princípio, era
de Israel. Neste sentido o Servo reúne em sua pessoa todo o povo, é Israel numa só pessoa. Isto fica claro
tanto no Antigo Testamento, especialmente na segunda parte da profecia de Isaías, quanto no Novo Testamento, como por exemplo em Mt
2.15 (onde o que se diz de Israel
em Os 11.1 é aplicado a Jesus) e em
João 15 (onde Jesus não só diz que
é a videira, que no AT simboliza Israel, mas também que ele éa videira
verdadeira, em contraste com a videira infiel, o antigo Israel).
A figura: do Servo aparece de forma marcalÍte nos capítulos finais de
Isaías, particularmente
nos assimchamados "Cânticos do Servo Sofredor" (Is 42, 49, 53, 61). Ali fica claro
que o Servo é chamado (cf. Is 42.6;
4L8; 43.1,10; 45.3).
O Servo é chamado com um propósito, para serviço. Sua missão é
exatamente aquela que estava reser-
.,. _ Israel
-:' ;:.~.:..::
todas
~::=::-maçao,
-: =.~êssias.
:::::=c:'
ago-
" :=::'2:2
~:-.~:: no
Por
. _-:-:srael
_~:'.:=c.:.
::....
..:::'
.::.:: .: -:-=-;0.
De
.. -:-:::,::~ar que
- ::, : '.:.2 Isra.el
. :::, :'.:.mprir a
:::.:=C:,s:::olhido.O
~: .. ~.: ::.0 para rea~=::-incípio,
era
.:-': ::::::: o Servo reú.:. ':::=:: ::: povo, é Is'::::: :::=C.
Isto fica claro
;:_;.: ~2s:amento, espe:-:-~.::'.::aparte da pro.. ' ='=',
to no Novo Tes:::::::-exemplo em Mt
:: :. = se diz de Israel
:: :=c:::~::=.do
a Jesus) e em
;:-:-,-25'':'3 não só diz que
.. = =-.0 AT simboliza. Is=;: -:-=-. que ele éa videira
-:-.::::ontraste com a vi: =.::tigo Israel).
::: Servo aparece de for:' ::03 capítulos finais de
_::.:.:armente nos assim~ ~=-.ricos do Servo Sofre-::2.53, 61). Ali fica claro
é chamado (d. Is 42.6;
u,
•
:,
0,
: 45.3).
: chamado com um proserviço. Sua missão é
aquela que estava reser-
vada à "nação-sacerdote" Israel:
promulgar o direito para os gent:os
(Is 42.1), pôr na terra o direito(Is
42.4), ser mediador da aliança com
o povo, e luz -para os gentios (Is 42.
6), abrir os olhos aos cegos, tirar da
prisão o cativo e do cárcere os aue
jazem em trevas (1s 42.7). Tudo isto
o Servo alcança, dando sua alma como oferta pelo pecado (Is 53). Ele
iustificará a muitos, aqueles cujas
iniqüidades levar sobre si.
Jesus identificoU-se com o Servo
ao afirmar que tinha vindo, não para
ser servido, mas para servir e dar a
sua vida em resgate por muitos (Mc
10.45) .
Além do mais, Jesus é chamado de
Eleito no Novo Testamento, éidó
duas vezes nO evangelho segundo São
Lucas: 9.35 e 23.35 (cf.também
1
Pedro 2.4,6) .
Também no Novo Testamento fica
bem claro que o Eleito, o Messias,
não está sem uma tarefa, sem uma
missão. Basta lembrar Marcos 10.45.
Agora, interessante é examinar as
ocorrências do nQme "eleito" em Lucas, prestando atenção ao contexto
em que o termo ..está inserido. Em
primeiro lugar, Lucas 9.35.
Aqui
Jesus é chamado de "eleito" por ocasião da transfiguração, ou seja, pouco antes de iniciar sua caminhada final rumo ao sofrimento, que, na verdade, é sua missão. Como se isto não
bastasse, no' versículo 310 evangeli:=;ta relata Que Jesus, Moisés e Elias
falavam de sua "partida". seu "êxodo", ou seja, sua morteeressurreição (um evento que corresponde.
qual antítipo, ao êxodo do antigo Israel). Jesus, portanto, é o Eleito, n2.o
apesar do sofrimento, mas justamente com vistas ao sofrimento; em função do sofrimento vicário.Por Últi-
mo, ·Lucas 23.35 . Aqui temos Jesus
pendurado na cruz e ele é chamado
de "eleito". No jUsto momento em
que se desincumbe da missão para a
qual fora eleito, chamam-no de
"eleito". Não há dúvida: desafiam-no
a descer da cruz, se ele éo eleii:o.
Agora, o fato de ser o eleito -sim,
exatamente isto! - impõe qu:e ele
fique na cruz. Jesus teria deixado de
ser o eleito, teria renunci~doà sua
missão se tivesse descido da cruz~
Os apóstolos de Jesus Cristo
Em toda a Bíblia, quem. faz. a .escolha é Deus. Quando o Filho ele
Deus se fez carne e habitou entre nós
também ele foi o age:p.te da escolha.
O Eleito escolhe discípulos, escolhe
apóstolos. Isto é realçado de forma
especial no evangelhoseQ'undo São
João (6.70; 13.18: 15.16,19) .
Para entendermos o que essa escolha tem de singular ou inusitado
----:para não dizer o que ela temem
comum com a escolha do antiQ'o Israel - temos de partiT de um fato
inauestionável: em seu estado de humilhação o Filho de Deus, see-undo
testemunho dos evan~elhos. se anresentou corno rabi, corno mestre. Ensinava e discutia como um rabi (Me
J 2 .18). Foi solicitado
a .tomar· decisões de ordem judicial. como se esperava que um rabifizesse, só. que
Jesus se negou a· fazê-Io(Lc 12.13
ss.). Além do rnai-s.Jes'us é' cbama:do de "rabi"(Mc 9;5~ 11.21~JÓl.38;
3.2; 4.31). Nadamais-' natural Que
um rabi tenha discípulos. Nesteponto Jesus e seu:=;discípulos em nàda
diferem de outros grupos, tanto escolas rabinicas quanto escolas filósóficas gregas.,
101
Agora, a grande diferença está na
questão da iniciativa. Enquanto que
em outros círculos '- e isso, em
grande parte, ainda vale em nossos
dias - a pessoa voluntariamente
se
decidia pela escola de algum meftre
e assim se tornava seu discípulo. com
Jesus dava-se exatamente o inverso:
a iniciativa era de Jesus. Decisivo
era, não a decisão do discípulo. e sim
o chamado de Jesus. Jesus Cha'TIO'l
homens ao discipulado (Mc 1.17· 2.
14; 10.21: Lc 9.59; Jo 1.43). Em Lucas 6.13 lê-se que "quando aman 1--eceu, (Jesus) chamou a si os seus r1.iscípulos e escolheu (exelexato), só L ucas emprega esta palavra, o aori"to
do verbo (eklegomai) doze dentre
eles, aos auais deu também o nome
de apóstolo." Novamente auem escolhe é Jesus. E em João 15.]6 Jesus
deixa suficientemente
claro 0ue a
iniciativa é dele: "Não fostes vós C1ue
me escolhestes a mim: pelo contrórÍo.
eu vos escolhi a vós outros". No ambiente daquela época isto era algo revolucionário, embora nada diferente
do aue acontecera por ocasii'ío [Ia escolha do anti!to Israel:
o SENHOR
tomou a iniciativa.
Cumpre acrescentar
aue Jesus S0
mostrou até mesmo rude para com
pessoas aue. em seu entusiasmo. se
voluntariaram
para o discipulado.
Também isto deve ter sido ('ho~antp
o
naquela época. mas é exatamente
oue os evangelhos relatam. P. () e<;criba Que se aproxima e diz: "Me,·tre, seguir-te-ei para onde auer ('J:e
fores" Jesus responde apontando para a dura realidade do discipulado ao
dizer aue o Filho do homem não ti·
nha onde reclinar a cabeça (Mt 8.1320; Lc 9.57 ss.). No entanto, o mesmo que rejeita um candidato tão
"qualificado"
quanto aquele escriba,
102
pessoa hábil e estudada, não hesita
em chamar Levi, cobrador de impostos, homem "pecador", isto é, impuro
do ponto de vista cuItual (Mt 9.9-11).
Isto demonstra mais uma vez - .::'.
exemplo do que aconteceu com o antIgO Israel - que a escolha de Jesus
não tem por base a aptidão, a formação, o mérito ou a vontade da
pessoa.
Jesus chama a quem ele
quer. Chama justamente
o indigno.
o pecador
(confira o significativo
testemunho de Pedra em Lc 5.8!). e
assim o torna digno. Isto é graça,
isto é amor.
Por ser um chamado que tem como
motivação única a graça daquele aue
chama, Jesus pôde derrubar todas as
barreiras que separavam o puro do
impuro, o justo do pecador. Chamou
o desprezado cobrador de impostos e
chamou também o zelote (Lc (1.15'
At 1.13). Cada um representava
ur'
ponto de vista político oposto: I,e1.'i
ou Mateus era "funcionário púrlico".
provavelmente
de Herodes Antipa".
enauanto que o zelote, um "radira1
de direita", não podia tolerar o domínio romano tampouco a adm;n·s··
tração da família herodiana, (lue er;:1
totalmente pró-Roma. E ambos -passaram a integrar o mesmo grupo d'
discípulos. Só com Jesus!
Outro aspecto em que Jesus d de rI?
dos rabis de seu tempo diz respeIto
ao vínculo que o chamado estabelecia. De modo geral - e isto se aplica
ainda hoje - o que ligava um discípulo ao mestre era o ensino, o conhecimento
e o método do mestre,
ou, então, a "causa" que ele representava. No caso de Jesus, toda D.
ênfase recai sobre sua pessoa. O discípuloestá
ligado à pessoa de J esu:".
que dá forma e conteúdo ao discipulado. É óbvio que este vínculo, que
. ~ estudada, não hesita
=-~"i. cobrador de impos.::-2cador",isto é, impuro
:~:-~a:(;fI?CfIéI? (MUi;{r~l1J.
mais uma vez - :'.
..:_~ aconteceu com o an- ..:·..:ea escolha de Jesus
~ '::a.õe a aptidão, a for~o ou a vontade da
=3 chama a quem ele
>.stamente o indigno.
=:nfira o significativo
~ Pedro em Lc 5.8!). e
digno. Isto é graça,
~~
=-
. .': -=-i
=-
:-.
=-
..::hamado que tem como
:-...:.:a
a graça daquele aue
:: ::àde derrubar todas as
:;~ separavam o puro do
:s:o do pecador. Chamou
: cobrador de impostos e
:':ém o zelote (Lc 6. Fi'
õis um representava uro
",ta político oposto: Le'd
:2. "funcionário púHico'·.
::ê de Herodes Antipa".
":2 o zelote, um "radira1
não podia tolerar o do:10 tampouco a adm;n'smília herodiana, aue er8
::ró-Roma. E ambos paseitrar o mesmo grupo d ~
36 com Jesus!
ecto em que Jesus d:fere
e seu tempo diz respeito
Jue o chamado estabele:J geral - e isto se aplica
- o que ligava um dis:estre era o ensino, o coe o método do mestre,
"causa" que ele rep~e) caso de Jesus, toda a
~sobre sua pessoa. O disligado à pessoa de J esu::-.
na e conteúdo ao discipu-ia que este vínculo. que
=-
o exemplo de Paulo confirma tam. ~ o·..:tro senão o vínculo da fé,
~:scipulo, não tanto a um mes- bém o aspecto do propósito da esco~
::'i, e sim àquele que é o lha: dar frutos, O próprio Senhor
Senhor, o Kyrlos. 1sto exp1lca a al- à.eclara: ''''Este é para mim um 'lllSferença entre os círculos rabínicos trumento escolhido para levar o meu
do primeiro século A. D. e os disCÍ- nome perante os gentios e reis, bem
pulos de Jesus: a diferença está na- como perante os filhos de Israel ... "
(At 9.15),
quele que chama .
A exemplo do antigo Israel, taml,ém os discípulos, que formam o nú- A igreja da era apostólica: os ele1tos
cleo do novo Israel, são chamados de Deus
com um propósito. "Eu vos escolhi a
Não é nosso propósito apresentar,
vós outros, e vos designei para aue
vades e deis frutos" (J o 15.16). Os no presente contexto, um estudo detalhado do que entende por "igreja"
evangelhos ilustram suficientemente
Teremos de
que Jesus escolheu seus apóstolos no Novo Testamento.
para uma missão: proclamar o reino, nos limitar à constatação de aue, na
anunciar a chegada de Jesus (Me qualidade de novo Israe_ (uma ex6.7 ss.: Lc 5.10; Lc 10.1-13; Mt 5.13 pressão que, como tal, não ocorre no
Novo Testamento, embora seja bom
55.: Mt 10.5 ss.; Mt 25.14 55.).
conferir
Gálatas 6.16), a igreja se
O chamado de Paulo à fé e po
constitui
em povo escolhido-, aue
apostolado (que tiveram lugar ao
herda
os
privilégios
e as responsabimesmo tempo, na estrada a Damaslidades do antigo Israel. Vamos nos
co) apenas confirma o que se disse
do chpmado dos demais apóstolos. limitar àquelas passagens em aue
Quanto à iniciativa, esta foi toda do ocorre o termo "eleitos" ou "escolh;Senhor. Tudo que Paulo tinha a dos" e o verbo "escolher".
Já nos evangelhos os fiéis siõo deapresentar era blasfêmia, insulto e
perseguição.
Era de todo indii:>"DO.signados de "eleitos" (Mt 24.22.24,31:
mas ao Senhor aprouve fazer dele Mc 13.20,22,27; Lc 18.7). Nos escriseu "instrumento escolhido" (At g. tos de Paulo, o termo "eleitos" é ra15'. Isto é graça. Aliás, foi exata- ro (Rm 8.33: 16.13; C1 3.12: 2 Tm
mente o fato concreto de seu cba- 2.10; Tt 1.1), e o verbo "escolher"
mado que deu a Paulo a definição aparece três vezes em 1 Corfntios
1. 27-29 e uma vez em Efésios 1.4 .
de graça de Deus (charis Theou),
uma expressão tipicamente paulina Além disso, os eleitos figuram, com
(d. G1 1.15-17; 1 Co 15.7-10: 1 Tm destaque, na primeira carta de Pe1.12-16; Ef 3.2-8). Se alguém per- dra.
l?"untassea Paulo o que entendia por
A miciativa divina fica evidencia"graça", talvez respondesse: "escute da mais uma vez em 1 Coríntios 1.
a história de minha vida". De fato, 27-29, onde o verbo "escolher", o
na vida de Paulo mais do que nunca mesmo usado por Jesus em João 15.
se evidenciou a exclusiva iniciativa
16, aparece três vezes. Deus escolhe,
de Deus, seu amor espontâneo e ime- e não leva em conta sabedoria, porecido.
der ou posição social. Isto é graça.
=-
. = ~
=
:..:.
C"2c
103
Efésios 1.4 de certa forma retoma
a questão do que está por detrás da
escolha de Deus. E a resposta - análoga àquela fornecida no Antigo Testamento - é de que se trata da soberana decisão de Deus em seu amor.
Este é provavelmente o sentido mais
profundo da expressão "antes da
fundação do mundo", que, além de
~er uma referência de natureza temporal, seguramente indica que a escolha lança raízes nas profundezas da
eternidade de Deus.
Entretanto, nem mesmo aqui em
Efésios 1.4 se perde de vista o caráter histórico da eleição, ou seja,
sua fundamentação em Cristo. Paulo
diz que Deus nos escolheu nele, isto
é, em Cristo. Se lermos adiante. até
o versículo 13, veremos que isto se
relaciona diretamente com o batismo.
Quando Paulo diz que os cristãos foram "selados com o Santo Espírito
da promessa", a referência ao batismo parece inequívoca.
A constatação de que. os santos, os
membros da igreja, são eleitos em
Cristo é confirmada por outrostextos bíblicos, que indicam claramente
que os eleitos de Deus alCançaram
esta condição unicamente em uni o
com Cristo Jesus, ou sej a: os cristãos são "eleitos" unicamente poroue. no batismo, estão em Cristo. o
Eleito de Deus. Esta conexão Eleito
- eleitos é estabelecida na primeir8
carta de Pedra, especialmente em
2.4.6.9. A pedra eleita (v. 4,6), aue
é Cristo. cria e dá vida à raça eleita
(v. 9). Tudo depende da liQ'ação com
Cristo. pela fé. num relacionamento
pessoal que lembra o vínculo aue l'?"ava os discípulos e o Mestre.
Neste ponto não se pode deixar de
chamar a atenção para o fato' de auf'
a mais clara afirmação neo-testameni"
104
tária de que a igreja é agora o novo
Israel, o verdadeiro povo de Deus, se
encontra precisamente aqui em 1
Pedro 2.9-10. O que se diz de Israel
em ~xodo 19.4-6 é aplicado à igreja.
de modo especial a questão do sacerdócio (1 Pe 2.9).
Isto nos traz ao propósito da escolha, expresso de forma bem clara
em 1 Pedra 2.9. Também Paulo deixa claro que a eleição não é sem um
propósito. Em Efésios 1.4 ele diz que
Deus nos escolheu "para sermos santos e irrepreensíveis perante ele, em
amor". Em Colossenses 3.12. como
de resto em todas as suas cartas.
Paulo fundamenta o apelo à nova
vida no fato da eleição, escrevendo'
"Revesti-vos, pois, como eleitos d~
Deus, santos e amados. de ternos
afetos de misericórdia, de bondade.
de humildade, de mansidão, de longanimidade". É como se dissesse: vocês que são eleitos de Deus, vivám
como eleitos de Deus: vocês foram
escolhidos para que dêem fruto".
Também em 1 Co 1.27-29 se faz referência ao propósito da escolha. no
t"íplice emprego de "para" e na locução "a fim de aue ninguém". Um
exame detalhado revela aue o nropósito expresso neste texto. a sabe".
(me toda a glória seja dada a Dew
(Soli Deo Gloria), se relaciona com
o propósito da escolha expresso em
outros textos.
Os eleitos de Deus hoje
Com as palavras ,"eu vos escolhi".
Cristo se dirige de forma direta e
em primeiro lugar a seus apóstolo,;.
Agora, em que sentido estas palavras
se aplicam a nós'? Poàemós também
nÓs dizer que fomos escolhidos? Em
caso afirmativo. quando ouvimos o
"cegue-me" de Cristo?
Em resposta a estas perguntas, é
preciso sublinhar a seguinte conclusão, tirada de uma cuidadosa leitura
do Novo Testamento: onde os evangelhosapresentam
Cristo chamando
ao discipulado e pessoas seguindo o
Mestre, o apÓstolo Paulo, em -suas
cartas, fala em batismo. Em outras
palavras: nas cartas de Paulo o conceito "discipulado"(soboqual
se
entende o chamado de Cristo e a resposta do discípulo) desaparece, dando Jugar a "batismo".
Portanto, se
nós fomos escolhidos e chamados e de fato fomos - isto teve lugar
no batismo, que é nosso êxodo, nossa passagem pelo mar.
O assunto "batismo" nem sempre
é palpitante. É claro, geralmente nos
empolgamos - para não dizer que
prontamente
assumimos uma atitude polêmica - quando se trata de
questões como a forma de administrar 6 batismo (aspersão ou imersão), o batismo de crianças, a salvação de crianças que não foram batizadas, etc. São aspectos importantes,
que não devem ser minimizados
tampouco colocados de lado. Agora,
isto não esgota o tópico "batismo".
A questão mais importante é esta: o
que significa o batismo para a minha vida?
_ :;::-eja é agora o novo
:='::::=:-0 povo de Deus, se
'.,.::õ:::.mente aqui em 1
::: ::ue se diz de Israel
~ -:-: é aplicado à i~reja,
=,= :::::.1 a questão
do S8.::õ- :::: 9).
ao propÓsito da es:,,:õ: ie forma bem claTa
_ ~ Também Paulo dei",leição não é sem um
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:·::=:::'eu"para sermos san~::'-5:\'eis perante ele, em
=:lossenses 3.12. como
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==-"'.",ntao apelo à nova
::.::. eleição, escrevendo'
::r::.is, como eleitos d~
õ e amados. de terno')
~::-=::,icórdia, de bondade,
:": de mansidão, de lon~ como se dissesse: voeleitos de Deus, vivám
.~ :::e Deus; vôcês foram
: ::.:-:s.que dêem fruto".
~ ~ Co 1.27-29 se faz re:::-e'Dósito da escolha, no
::-e2"ode "para" e na 10=-. :::e aue
ninguém". Um
.,,=".::.do
revela' que o nroÕ"Õ~o neste
texto. a saber.
:::lÓria seja dada a Dew
:;loria), se relaciona com
:.s. escolha expresso em
õ
L,.
=.
Talvez não seja nenhum exagero
afirmar que o batismo - o meu batismo - não recebe o destaque que
deveria ter, para não dizer que, em
nossa vida, o batismo geralmente é
um capítulo esquecido. Talvez por
ter acontecido há tanto tempo.
A
pergunta
é: lembramos
e valorizamos o fato de sermos batizados?
Quem lembra o dia exato em que
foi batizado? Quem celebra o aniversário de batismo?
Deus hoje
i:s.'.Tas "eu vos e~colhi".
:-:2"e de f()rma direta e
: l'l~araseus
apóstoJor:.
:'.:e sentido estas palavras
:: nós'? Poàemôs também
':2 fomos escolhidos'? Em
,~:,·,'o, quando ouvimos o
:'e Cristo?
=
Na vida de Lutero,
o batismo
ocupava um lugar central, e ele tirava grande consolo do fato de ser
batizado. Lutero se queixa da forma
como as pessoas esquecem o batismo.
Ele faz isto já no seu escrito "Do
Cativeiro
Babilônico
da
Igreja"
(1520), onde examina um por um os
sete sacramentos da igreja medieval
e, ao falar do -batismo, diz:
Verdadeiramente,
Satanás
não
pôde extinguir a virtude do Batismo nos pequenInos.
Contudo
conseguiu extingui-Ia
em todos
os adultos.
Quase ninguém se
lembra de haver sido batizado,
muito menos se gloria disso, já
que se descobriram tantos outros
caminhos para a remissão dos
pecados e para chegar ao céu.]
E para deixar claro que esse "lembrar" não se limita a recordar a data ou o fato em si, mas tem algo a
ver com a fé, criada no batismo, Lutero continua:
É preciso recordar
sempre o batismo; necessário se faz excitar
e fomentar continuamente
a fé.
Uma vez que se nos tenha promulgado essa promessa divina,
sua verdade persevera até à morte. Do mesmo modo a fé nela
nunca deve ser interrompida,
mas deve ser alimentada e fortalecida até à morte, em perpétua memória da promessa que
nos foi feita no Batismo. 2
Não será possível, dentro dos limites deste estudo, detalhar
todos
os aspectos da doutrina do batismo.
Queremos, isto s.im, ressaltar aqueles aspectos que deixam daro que
nosso chamado no batismo em nada
difere do "segue-me"
ouvido por
aqueles primeiros discípulos.
105
2
Em primeiro lugar, a questão da
iniciativa. Não foi nossa. Dizemos não sem razão - "fui batizado". (A
expressão "eu me batizei" pertence
a um ambiente diferente.) O fato do
batismo infantil enfatiza mais ainda
a iniciativa da graça de Deus no batismo, que é uma obra - no dizer
de Lutero - efetuada em nós e sem
nós. Lutero reforça isto em seu Catecismo Maior:
"Ser batizado em
nome de Deus é ser batizado não por
homens, mas pelo prÓprio Deus. Por
isso ainda que levado a efeito pelas
mãos do homem, não obstante é verdadeiramente obra de Deus mesmo. "3
Lutero não faz senão expressar o
que Paulo escreve em Efésios 5.2527, enfatizando que, no batismo, é
Cristo quem nos traz, nos toma em
seus braços e nos recebe como membros de seu corpo.
Se pensarmos que não somos nem
um pouco dignos, teremos motivo
de ficarmos maravilhados ante nossa
escolha. Só podemos dizer com Paulo: "Pela graça de Deus sou o que
sou". Ninguém de nós pode dizer:
"Eu tomei a decisão de seguir a Cristo". Ao contrário, só podemos dizer:
"Pelo poder do batismo e de sua palavra, o Senhor decidiu me chamar
de volta para junto de si. Louvado
seja Deus!"
O segundo aspecto em que há um
paralelo entre discipulado e batismo
é a questão da ligação, do vínculo
estabelecido. Verificamos que o chamado de Cristo estabelecia uma ligação pessoal entre Cristo e seus discípulos. Verificamos que os cristãos
são "eleitos" no Eleito, que é Cristo.
O mesmo tipo de ligação pessoal é
estabelecido no batismo. No batismo
somos incorporados em Cristo, passamos a estar "em Cristo", uma ex106
pressão que ocorre 196 vezes no Novo Testamento, 164 das quais em
Paulo, e que pressupõe o batismo.
Talvez em parte alguma isto esteja
expresso de forma mais clara do que
em João 15: no batismo somos "enxertados" na videira. Na verdade,
nosso estar "em Cristo" não se compara à forma como objetos estão numa caixa, e sim à forma como ramos
estão na videira.
Há um terceiro aspecto em que
nossa vida em Cristo se equipara
àquela dos primeiros discípulos: não
estamos sem uma missão, que é produzir muitos ou, então, proclamar as
virtudes daquele que nos chamou das
trevas para a sua maravilhosa luz
(1 Pe 2.9).
Neste sentido pode-se falar do batismo como nossa ordenação ao sacerdócio. (Lutero, referindo-se à ordenação do sacerdote ou pastor, dizia que, a rigor, a única ordenação
do cristão era o batismo.) Sacerdócio engloba, é daro, privilégios e
responsabilidades. Envolve duas coisas: levar o nome de Deus aos homens e levar as necessidades dos
homens a Deus.
Estamos comprometidos com esse
sacerdócio desde nosso batismo. Para
entender o mesmo e para que se tenha forças para desempenhar esse
sacerdócio, o ponto de partida é sempre o batismo. O batismo não é apenas um rito a mais, ao qual fomos
submetidos na igreja, ou alguma
coisa que nos aconteceu ao longo do
caminho. Não, o batismo está na
origem de tudo. Toda nossa vida
cristã é determinada pelo batismo.
Para maior clareza, dois exemplos:4
Se um cristão doa sangue, o que não
deixa de ser uma boa obra, ele o faz,
não porque raciocina que um dia po-
::::-:2 196 vezes no Nodas quais em
:::-::::"-=33upõeo batismo.
:-'=-.-:.-=
a.lguma isto esteja
-:-:::::2 mais clara do que
~ ::atismo somos "eno.
-::erra.
Na verdade,
"-:-=. C:isto" não se com~ ::::-:0 objetos estão nu:!:---= 2 lorma como ramos
~64
::..-:~:=-oaspecto em que
-=_-=-.
Cristo se equipara
::- __eiras discípulos: não
..:_==-.2
missão, que é pro:: então, proclamar as
_,'::e que nos chamou das
::. sua maravilhosa luz
-,-': Dode-se falar do ba:::ssa ordenação ao sao.::e::-o. referindo-se à or3S :e::-dote ou pastor, di~;-:r. a única ordenação
!:'"::. o batismo.)
Sacerdóe daro, privilégios e
:::.:':::-0:.
Envolve duas coi=.:me de Deus aos ho~.:
2S necessidades
dos
rometidos com esse
nosso batismo. Para
=-=O:illO
e para que se te:::s.:a. desempenhar esse
::rJo de partida é sem:: O batismo não é ape2 mais, ao qual fomos
.::2 igreja, ou al~ma
::: 2:onteceu ao longo do
:~~:. o batismo está na
Toda nossa vida
-=..:-=-~nada
pelo batismo.
::"::'reza,dois exemplos:4
s: :iaa sangue, o que não
--=-"a boa obra, ele o faz,
~:iocina que um dia po':::-:-.
==
25:'e
de ele próprio precisar de san~e, e
sim porque foi batizado. Se a participação no culto é fraca. o argumento não deveria ser: "venha, pois isso
fará com que você se sinta bem",
mas "se você é filho ou filha de Deus,
tornado tal no batismo, como então
pode se ausentar do encontro da família para ser nutrido por sua palavra, para se comprometer na ajuda
mútua, para orar por todas as pessoas, para receber novos cristãos e
para fazer parte da família na santa
mesa?"
Há pouco falamos numa volta ao
batismo? Como é isto possível? (Uma
outra forma de expressar "volta ao
batismo" seria perguntar:
em que
sentido o batismo deixa de ser uma
coisa que pertence ao meu passado
e passa a ter algo a ver com minha
vida hoje?)
A volta ao batismo se dá no arrependimento, conforme Lutero escreve no Catecismo Maior: "O arrependimento outra coisa não é que um
retorno ao batismo e aproximação
dele, repetindo-se e praticando-se o
que anteriormente se começou, havendo-o, porém, abandonado."5 Para evitar mal-entendidos, é preciso
acrescentar que "arrependimento"
não é um ato masoquista em que o
homem se martiriza contemplando
sua miséria, e sim Uma dádiva de
Deus em que ele nos recebe de volta.
Arrependimento é, portanto, algo
alegre, como as parábolas de Lucas
15 deixam bem claro.
Outra forma de voltar ao batismo
- e que é outra forma de arrependimento - é a santa ceia. Deixemos
que Lutero fale:
Quando os filhos de Israel desejavam voltar à penitência, reIembravam, antes de tudo, o êxodo
do Egito. E com essa lembrança
voltavam a Deus que os havia libertado .....
Quanto mais devemos nós recordar nossa saída
de nosso Egito. Com essa lembrança devemos voltar a quem
nos libertou pelo lavacro da nova
regeneração .... Isso pode realizar-se de maneira mais oportuna no sacramento do Pão e do
Vinho~íll
À base disso, ganha força a tese
da necessidade de uma celebração
mais freqüente da santa ceia. (Mencionamos isso neste contexto porque,
no entender de Lutero, uma celebração mais freqüente não deve ser imposta de cima para baixo, mas deve
partir da solicitação dos membros,
dos cristãos. Confira Catecismo Menor, Prefácio, 21-23. Livro de Concórdia, p. 365-366.)
Além da ordem de Cristo ("Fazei
isto"), do proveito que a ceia traz,
da prática da igreja antiga e da igreja luterana nos dias de Lutero, deveriam também ser considerados os seguintes pontos:
1. Celebração e participação freqüente na Santa Ceia faz parte do
que se chama viver o batismo ou viver em arrependimento (confira a
primeira das noventa e cinco teses
de Lutero).
2. Toda nossa vida cristã se origina, se fundamenta no batismo. Viver essa vida cristã e vivê-Ia - por
que não.? - com maior consagração
depende, não tanto de planos, estratégias, campanhas, etc. (por mais
importante que isto seja), e sim
duma constante volta ao Senhor que
nos chamou no batismo e que nos
chama e se encontra conosco na ceia.
3 . Na ceia, Deus reafirma nossa
inclusão na aliança (o chamado) e
107
nossa ordenaçãobatismal
(b sacerdócio). Pelo fato de sermos carne,
isto se torna necessário diariamente.
Agora, e nisto reside o perigo, é precisamente nossa carne, nossa velha
natureza, que nos impede de ver essa necessidade ..Na ceia Cristo reafirma que nos escolheu para que demos
frutos.
NOTAS
lMartim Lutero, Do Cativeiro Babilônico da .. Igreja:
Um. Prelúdio
(São
Leopoldo, Sino daI, 1982), P. 60.
2Ibid. P. 61-62.
3Livro de Concórdia (Co-ediç'ão Concórdia e Sinodal, 1979), P. 475,
4Eligene L... Brandt,
Batismo:
Uma
Perspectiva Pastoral (São Leopoldo, Sinodal, 1982), p.42.·
.
5:r.,ivro de Concórdia, p.;t'85.
6Lutero, Do Cativeiro BabilônicQ, p.
62.
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I. HISTóRICO
A.
Judaico, grego, cristão
1. Todo seu pensar está intimamente relacionado com o AT.
2. "Paulos-Saulos" aprendeu o seu Judaismo num ambiente helenÍstico:
a. nascido em Tarso, Cilícia, Asia Menor;
b. Cf. At 22,3 - "criou-se" em Jerusalém, mudando para lá
quando menino;
c. cursou a escola de teologia de Gamaliel; formou-se fariseu .
3. Fp 3,5 - 'hebreu dos hebleus', da tribo de Benjamin:
a. sua teologia foi a dos judeus de seu tempo: um só Deus;
b. justo e santo: a eleição de Israel como povo de Deus;
c. a lei (tora) como revelação de Deus e de sua vontade;
d. a esperança do Messias.
4. Estas cousas permaneceram firmes em seus pensamentos também depois de se tornar cristão:
a. as sUas epístolas são testemunhas do fato;
b. nada houve em sua teologia de que teria vergonha: AT;
c. também no mundo rabinico houve elementos positivos.
5. A atitude de Paulo quanto à história do mundo:
a. a idéia grega: no processo do tempo há eterna repetição;
b. no pensar judaico a história é o processo de Deus a interferir e dirigir os acontecimentos desde a criação até à consumação;
c. o antagonismo entre espírito e carne;
d . 'em Cristo' se entende com o pensamento judaico da 'personalidade corporativa':
c. Jesuséo
"segundo Adão":
f. sua esperança duma ressurreição não segue a imortalidade
da alma em' que pensaram os gl:egos, mas ensina a ressurreição do corpo, como os judeus;
g. No fim, diz Paulo, "e assim todo o Israel será salvo":
B.
Paulo deve ser considerado grande literata grego:
1. é fato que judeus e gregos moravam juntos e conviveram falando grego;
.-::--.;~.,,
_
...
Catecismo Maior.
~ '::i -;-dro Babilônico' da
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=- ::.: Baptism. Philadel-
!..:.::::':~ Press, c. 1962.
.-::.:::.,
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_.\.STE, s.d.
p. 89-
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':01.1:483-90.
- I':-.eodore. Dogmática
:'::,,-:-tinhoL. Hasse. 2
L:~~::-e: Conc'órdiá,' 1960.
:::- -3.apto, Baptizo, ktl."
L ['ictionary of the New
_ :::_ Kittele Friedr-ich.
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VaI. 1: 529-46.
mai".
Theological
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:::-.L: ~:
.::.. 3. "Mathetes". Theoof the New Tes-
rc.2'::3.!"y
-
~:415-60.
....~~n. Introdução à 'Teo":. Testamento. São Pau::
"Eklegomai, ekloge,
T:::eological Dictionary of.
'y,srament, voI. 4:168-92.
=::.:: H.
The Distinctive
:"'.e Old Testament.
New
::':::~n Books, 1975.
= _ .:..:::BERY,J.
P. "Call,:
:: ::.~=:.:::.g'"
1\
Theological
i>:;.i the Bible. New York:
:
: 250. p. 39-40.
PARA O ESTUDO)*
Werner Karl Wadewitz
- _ c:' e :\Iissão. Trad.
_
.-.::'~:_S:0-edição
Con:::':.::.' ".
~
_ d/-I.
:::_.:. 3. Follow me:
L: ·)rding to Saint
":',~:Conco-rdia Pu-
sUm;tDIOs
Rm 11,26.
*) Este estudo foi feito à bas.ede ArchibaldM. Hunter: Interpreting
Paul's Gospel-London, S. C. M. Press, 1955.
109
2. Paulo cita a tradução grega do AT, a Septuaginta;
3. Paulo escreveu suas cartas em "koiné" de uso internacional;
4 . Paul passou a maior parte de seus trinta anos como cristão em
terras de cultura grega;
5. Paulo cita poetas gregos: Aratus em At 17,28, e Menander em
I Co 15,33;
6. emprega ilustrações dos jogos gregos;
7. aborda assuntos filosóficos, como 'virtude' e 'consciência' e 'a
lei escrita no coração' segundo os estóicos, o conhecimento inato
dos princípios de justo e injusto, Rm 2,14.15;
8. Paulo conhece a mitologia e os deuses ídolos dos gregos;
9. nem por isso diremos, como dizem alguns, que Paulo foi profundamente influenciado pelas correntes filosóficas. O sub-solo
de sua teologia continuou a ser o AT.
C. A influência cristã sobre Paulo:
1. Da parte daqueles que estavam "em Cristo": Ananias, Andrônico e Júnias (Rm 16,7), etc.
2. O evangelho de Paulo (I Co 15,3ss) é o mesmo que estava sendo
proclamado por Pedra, Tiago, J 08.0. e por todos os apóstolos.
3. Paulo menciona alguns conceitos já existentes os quais apenas
ressaltava em sua proclamação:
a. o kérugma apostólico da igreja mãe em Jerusalém:
b. a confissão de Jesus como Cristo-Messias, Senhor e Filho
de Deus;
c. o poder do Espírito Santo como energia vital da vida espiritual;
d. o conceito da iftreja como sendo o novo Israel:
e. os sacramentos do Batismo e da Santa Ceia:
f. 'as palavras do Senhor', das quais há eco nas epístolas:
g. a esperança da 'parousia' - a vinda de Jesus com glória
D. A energia criativa teve por fonte a fé cristã, aue Paulo manteve
em comunhão com os aue estiveram 'em Cristo' antes dele.
1. Paulo não teve o papel de aventureiro ou. qual Colombo. navegando através mares desconhecidos de pensamento.
2. A sua própria experiência religiosa profunda muito lhe valia.
inclusive a anterior à sua conversão.
3. Sua conversão - 'como chave de sua teologia':
a. A teologia de Paulo leva o cunho não tanto do literata
quanto a estampa do pecador desesperado:
b. É a teologia dum homem convertido - nascido duas vezes o qual confessa ser o que é pela pura graça de Deus, 1 Co
15,10;
110
c.
~, _~:: internacional;
"', : :mo cristão em
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muito lhe valia.
lI.
A SALVAÇAO COMO EVENTO
Introdução
'::'::zia':
: -,':,0
Todas as implicações da experiência de Damasco se desdobravam para Paulo no decorrer da vida depois.
(1) Fato: Jesus é vivo pelo poder de Deus:
(a) Paulo assim estava em contato com uma pessoa
viva e exaltada;
(b) Esta pessoa não foi outra do que o Jesus crucificado;
(c) Agora Paulo podia confessar e proclamar a todos,
que este Jesus na verdade é o Messias.
(2) Fato: A cruz, lugar de maldição (Dt 21,23) à vista de
Paulo, judeu. fariseu, veio a ser lugar de revelação do
amor expiador e conciliador de Deus:
(a) GI 3,13 - 'Deus o (Jesus) fez homem maldito
por nós;
Co 12,3 - 'Anátema Jesus' foi o que anterior(b)
mente Paulo afirmava;
- Paulo continuou a afirmá-l o, agora, porém,
acrescentava 'por nós'!
(3) Fato: A salvação vem do SENHOR - por sua graça:
(a) 'charis' - o favor divino para o pecador, que
nada merece senão a perdição:
(b) É a palavra. a qual por si mesma encerra todo o
EVANGELHO DE PAULO:
- aparece 88 vezes nas epístolas;
- charis quer dizer aquilo que dá prazer, charme,
beleza:
- a LXX traduz a palavra 'hesede' por charis
apenas 3x;
- Paulo deu novo sentido à palavra concatenando-a com o amor de Deus para com o homem
desmerecedor:
'É o amor de Deus, espontâneo, belo, imerecido,
?tuando em Jesus Cristo em prol da salvação
de homens pecaminosos.'
tanto do literata
1.
:--:-':::-2.do:
- nascido duas vezes .:::..graça de Deus, 1 Co
2.
Há uma palavra chave que nos poderá guiar no estudo das epístolas
de Paulo e ao mesmo tempo nos habilitar a ver a sua obra como um
todo?
Muitos acham o coração do evangelho de Paulo na doutrina da justificação mediante a fé.
111
a.
No conflito cornos judaizantes, Paulo interpretou o fato de Cristo
em termos de justiçajjuízo, mostrando que a religião verdadeira
é assunto de uma relação justa para com Deus;
b. Porém, não só na justificação se acha o epítome do evangelho de
Paulo, pois é apenas o início duma jornada longa no cristianismo.
3. Deissmann resumiu o evangelho segundo Paulo como sendo "comunhão com Cristo":
a. Com muita razão, pois o "en Christo" é elemento importantíssimo
no cristianismo de Paulo;
b. Para dar expressão, todavia, ao conteúdo e ao alcance do cristianismo, a melhor palavra que Paulo achou é "salvação"
(soteria).
4. A pergunta do carcereiro em Filipos se torna a pergunta fundamental
para a religião:
a. "Que devo fazer para que seja salvo?" At 16,30;
b. Paulo mesmo dá a respos~a: "Crê no Senhor Jesus":
c. Mais tarde dirá: "Ouvistec; a palavra da verdade, O EVANGELHO DA VOSSA SALVAÇAO." Ef 1,13; c. At 13,26; Rm 1,16.
5. O significado da palavra "salvação":
a. Bem-estar em todas as suas formas ('shalom'), desde a saúde do
corpo até
b. A mais exaltada saúde espiritual.
c. Para o judeu, salvação foi principalmente liberacilo do necado:
d. Para o gentio seria liberação de todas as adversidpdes da vida.
o medo da morte, a incerteza, a falta de segurança.
e. "soteria" é o que se procurava, a nual Paulo oferece no evangelho que é o poder de Deus para salvação se!tundo a graça de
Deus revelada na cruz de Jesus Cristo.
f. O evangelho de Paulo também não foi apenas um sistema corretivo ou mesmo negativo oferecendo uma certa segurança nas
vicissitudes da vida.
g. O ~eu evangelho inclui aquilo do aual devemos ser salvos. como
também nara que devemos ser salvos, i. e. reconciliação e justeza e vida.
6. Quando Paulo pensava na salvação, ele a viu como palavra que tem
três tempos:
a. Nós fomos salvos - Rm 8,24:
b. Nós somos salvos - I Co 15,2;
c. Nós seremos salvos - Rm 5,9.
d. Todos os tempos em Rm 5,1 - "Justificados, pojs~ mediante a fé,
tenhamos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo;
por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a
esta graça na qual estamos firmes: e gloriemo-nos na esperança
da glória de Deus."
112
(1)
Paulo está pensando do tempo em que os que agora são
crentes primeiro chegaram a crer no perdão de Deus em
Cristo Jesus;
(2) Ele está meditando sobre a presente bem-aventurança em
que estão firmes, no estado da graça;
(3) Paulo olha para o futuro, aquele tempo em que crentes hão
de ver a glória de Deus 'face a face'.
Na exposição da teologia de Paulo iremos simplesmente seguir a traçar
os vários pensamentos de Paulo através daquilo que este versículo sugere.
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do evangelho de
no cristianismo.
:::-:-:'0 sendo "comu-
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A SALVAÇÃO COMO EVENTO PASSADO
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A.
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pois, mediante a fé,
Jesus Cristo;
~,2nte acesso, pela fé, a
:::emo-nos na esperança
,:1.:;3.
Cõ:- Senhor
A salvação no sentido de evento passado repousa sobre a obra de
Cristo consumada na cruz: 'tetélestai'!
1. Aquilo de que nós homens precisamos ser salvos é o pecado habitando em nós, pecado individual e social, o qual nos separa
de Deus:
a. A universalidade do pecado, como surgiu e como se está
manifestando.
b. Rm 7 trata do poder do pecado na carne.
c. Rm 1,18-3,20 apresenta descrição da perversidade humana,
a qual resiste à verdade divina e provoca o seu desagrado;
gentios e judeus são indignos da glória de Deus, porque
todos são pecadores.
d. Rm 5, 12 - 19: Paulo trata da queda em pecado e os resultados:
(1) O pecado de Adão não apenas a ele corrompeu, mas
sendo o progenitor da raça humana, todos estão na
mesma condição;
(2) O pecado mantém seguro seu controle sobre a carne de
geração a geração: Nascemos em/com pecado e estamos sob o seu poder;
(3) Ao ver de Paulo, o pecado não é defeito, mas uma
defecção. Que seja defeito, é idéia grega;
(4) A idéia dum moralista: pecado é mera coincidência,
sem que haja antecedentes' nem conseqüências, uma
série de decisões falsas;
(5) Porém, é estado universal, um princípio positivo e destrutivo, um poder inato no homem e escravizando-o,
Rm 6,17; 7,14.
2. O efeito do pecado é este, que submete o homem debaixo a ira
de Deus, Rm 1,18; 4,15, a qual não é uma má disposição da parte
dele, ficando furioso, mas é seu santo amor reagindo ao mal,
113
s
seu julgamento estando em progresso tanto agora quanto no
dia do JuÍzo.
a. O pecado, diz Paulo, a não ser que se trate dele efetivamente, há de ser fatal, pois 'o salário do pecado é a morte",
Rm 6,23.
b.
B.
114
A cura para o pecado é a redenção, a qual há em Cristo
Jesus, Rm 3,24.
3. O instrumento empregado pelo pecado é a 'sarx' (90 vezes),
a. Esta palavra reflete o significado de 'basar' no AT, em passagens como Is. 31,3 e Jr. 17,5.
b. Paulo usa este termo em dois sentidos, um com e um sem
conotação moral.
Essencialmente, a carne é o aspecto material da natureza humana,
e, por si mesma é neutra quanto à moral.
1. Sarx é designação da constituição física e das relações naturais.
2. Sarx também, porém, descreve o homem em sua fraqueza e
mortalidade em sua conhontação com Deus.
3. Mas lendo as epístolas de Paulo o leitor se convence que sarx
adquire significado ético (Rm 7 e 8; Gl 5).
a. a 'sarx' está associada com o pecado e está por este corrompida.
b. O pecado utiliza nossa 'sarx' como base de operações "prevalecendo-se do mandamento", Rm 7,11: Gr. aphorme; Gl
5,13, corrompendo-a. Ou dizendo a mesma cousa em outra
versão, a 'sarx' se +:ornouo cúmplice involuntário do pecado,
o qual é o verdadeiro criminoso.
c. 'Sarx' então vem a significar 'a nossa natureza mais baixa',
i. e., o homem caído e apóstata, em rebeldia contra seu
Criador.
4. O 'viver segundo a carne' (katà sárka) não quer dizer tanto que
a pessoa vive vida sensual (embora que isto se inclua), mas que
vive de maneira sem Deus, impiamente, em auto confiança pecaminosa.
a. Esta atitude abrange o desvio do Criador e hostilidade contra ele.
b. Leva a pessoa a encontrar- sUa segurança imagmana nas
cousas passageiras e perecíveis deste mundo.
5. O viver segundo o Espírito constitui a atitude diametralmente
oposta:
a. Traz vida e paz, Rm 8,5 s.
b. 'Sarx' representa a total inadequabilidade da criatura em
face do Criador (K. Barth), para a qual o único remédio é
o 'Espírito da vida em Cristo Jesus', Rm 8,2.
·.;:;.-. ê.gora quanto no
~::-=.tedele efetiva-.::ô:adoé a morte",
: ·..:alhá em Cristo
'~arx' (90 vezes),
no AT, em pas-
?-lsarO
. :-.:-.:
com e um sem
.:: :-.:atureza humana,
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se inclua), mas que
~::-.:autoconfiança pe-
_, =.:
,.Õ
:.':'1'
A humanidade necessita de ser libertada do pecado, da 'sarx' e ainda
da lei.
C . A lei de Moisés como expressão da lei universal de Deus.
1. Paulo fala em 'a maldição da lei', GI 3,13.
Em Rm 7,10.12, porém, diz que a lei é santa e que daria a vida.
2. A explicação é que a lei como tal (cujas exigências morais permanecem válidas) não é a maldição, mas o legalismo.
Legalismo é aquela tentativa de viver 'sob a lei' para achar a
salvação:
a. sendo obediente à ordenanças e preceitos,
b. ganhando deste modo pontos no céu,
c. Em suma, é pensar poder ser bom e fazer o bem por sua
própria força.
3. O homem legalista é o seU-made man em assunto de religião.
a. Paulo aprendeu que não é possível ser auto-soterista.
b. Ninguém pode mel ecer a graça de Deus pelas 'obras da lei.'
(1) O homem natural até certo ponto poderá ser bem sucedido.
(2) Até o fariseu, revestido de toda a sua justiça própria,
ao comparecer diante do Altíssimo, deverá ouvir a sentença 'injusto'!
4; A decisão clara de Paulo, pois, é esta: a lei não possui poder
para salvar alguém, porque 'estava enferma pela carne' (Rm 8,3;
Rm
Outra decisão a que chegou Paulo: a lei produz um senso de
pecado, até provoca a pecar, Rm 3,20; 7,7; 1 Co 15,56:
Exemplo: O mandamento 'Não furtarás' impeliu o jovem Agostinho a roubar frutas no pomar do vizinho.
6. Paulo chegou a ver a lei como sendo preparatória na sua finalidade.
a. No plano de Deus a lei constituiu instrumento temporário,
Rm
:~.:iade da criatura em
.:':'2.1o único remédio é
~m 8,2.
5,20;
GI 3,17.
b.
e hostilidade con-
~.r2.nça imaginária nas
:- r:-.:undo.
::~::ude diametralmente
7,7);
5.
7
°
Num sentido mais positivo, foi um 'paidagogós' - tutor e
guia tendo por finalidade disciplinar-nos até o tempo em
que ia chegar a salvação prometida em Cristo, GI 3,24of
Em Cristo, nova relação se tornou possível, a adoção de filhos
da parte de Deus, em que relação a lei de Deus está escrita
no coração.
a. Nesta nova relação, é o amor que fornece a motivação de
cumprir com a vontade divina.
b. "Agora, porém, libertados da lei", escreve Paulo em Rm 7,6,
"estamos mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de
modo que servimos (a Deus) em novidade de espírito e não
na caducidade da letra."
115
Assim, .Paulo diagnosticou a condição humana nos termos de pecado,
de carne e de lei.
D. Ao abordar Paulo o remédio divino para esta condição, empregou
também três descrições: redenção, justificação e reconciliação:
(1) A primeira figura, a qual considera a nossa situação difícil
como servidão, vem até nós do mercado de escravos;
(2) A segunda, a qual vê a nossa situação como sendo uma
condenação, provém da corte de justiça;
(3) A terceira, tendo a nossa situação como sendo uma separação, é das relações pessoais.
1. Primeiro, a salvação é redenção.
a. Grego 'apolútrosis' - libertação, emancipação;
b. da servidão da escravatura, no serviço ao pecado habitando
em nós;
c. Era servidão ao jugo da lei, serviço prestado involuntariamente;
d. Era escravidão a todos os poderes espirituais debaixo do céu.
os quais ameaçam a existência humana.
e. 'Em Cristo' Paulo diz, é que temos a redenção, Rm 3, 24;
Ef 1,7; Cl 1,14:
(1) 'Cristo nos resgatou da maldição da lei', Gl 3, 13, i.e.
pagou' o preço pela nossa libertação;
(2) 'Agora, porém, libertados do pecado', Rm 6,22;
(3) A palavra 'redens;ão' inevitavelmente lembra também
aquela primeira grande libertação do pov:o de Deus da
servidão do Egito, Deus agindo através de Moisés, o
qual obedeceu a Deus e confiava nele apesar de adversidades ameaçadoras.
(4) Paulo, ao escrever aos crentes em Corinto 'fostes comprados por preço' - 1 Co 6, 20 - estava ecoando as
palavras de Jesus em Mc 10,45 'O próprio Filho do
homem não veio para ser servido, mas para servir e
dar a sua vida em resgate por muitos.' Cf 1 Tm 2, 5 s.
f. Os meios usados para alcançar a redenção:
(1) A grande realização da Cruz, e o resgate finalizado ali;
(2) Por um que foi o Segundo Adão e o Cabeça dum novo
povo.
(3) Paulo diz, que agora todos os homens podiam ser livres
de. todos os poderes do mal, aos quais se encontravam
em servidão e em algemas.
O primeiro obstáculo que encontramos para nos salvar é a servidão a
outros poderes e não a Deus.
116
de pecado,
._, empregou
'c;: ::::iliação:
" õ= :uação
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uma sepa-
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do céu,
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"'
o.C:
~ei;. GI 3, 13,
".
._
o segundo obstáculo que não nos permite sermos salvos é a condenação
por causa do pecado e da transgressão da lei. A solução oferecida por
Deus para esta situação é:
2 . A justificação
a. Grego 'dikaió' tendo diversos sentidos possíveis.
b. Precisamente,
o que quer dizer 'dikaió'?
(1) 'Fazer justo'?
Os filólogos dizem, Não!
(2) 'Declarar justo'? É o sentido largamente aceito. (Cf. Epítome lU, 7: cf. 15)
(3) 'Absolver'? Certamente
é metáfora de origem forense, e é
o sentido que persiste nos contextos paulinos. Rm 8,32 s.
c. A opinião de muitos in':érpretes de Paulo, porém, é esta, que
apesar da origem forense deste verbo, nos lábios de Paulo tem
principalmente, significado soteriológico com o sentido de 'perdoar'
ou 'desculpar". Rm 4, 6 - 8.
(1) Pode-se afirmar, então, que tem o sentido de 'endireitar'
com Deus, tendo a conotação de 'perdoar'.
Jeremias:
A justificação é perdão, nada senão perdão, por
amor de Jesus.
i.e.
Rm 6,22;
,"
(2)
lembra também
::.: ::ovode Deus da
-:és de Moisés, o
e~2 apesar de adver-=
(a)
:: ::. =-.c.
o
T. W. Manson: a justificação é um ato régio mais do que
ato judicial, e auer dizer 'amnestia' ou 'perdão
gratuito'.
Cf. Mt 18, 27.
A justificação essencialmente
consiste em entrar nas relações direitas com Deus.
(b)
".:-:-:::Jrinto'fostes
com- estava ecoando as
J próprio Filho do
mas para servir e
= ,,~':Js.' Cf 1 Tm 2, 5 s.
-
::: =
::.::==::;ao:
. ::-esgate finalizado ali;
. :: {) Cabeça dum novo
: :~,ens podiam ser livres
:: :;uais se encontravam
salvar é a servidão
a
d.
Nenhum homem pode realizar este 'endireitamento',
por si;
É a maneira graciosa de Deus perdoar os pecados. colocando o homem na situação correta para consi,go, por
amor de Cristo.
O conceito chave: a justiça de Deus
(1) No evangelho, diz ele, 'a justiça de Deus se revela, de fé
em fé', Rm 1, 17.
(2) Esta justiça de Deus não é tanto um atributo divino Quanto
é uma ação de Deus, é 'a maneira de Deus de endireitar o
que está errado" .
(a) Paulo, sendo judeu, pensava de Deus como o justo Deus
em ação, realizando as suas justas finalidades na história do mundo e do povo
.. - dando liberdade dos opreSSOres. ou
. - dando-lhe liberdade dos seus pecados.
É aquela consumação desejada pelos profetas e o salmista, Is. 56, 1: SI 98, 2: em que 'justiça' quer dizer a
atividade salvadora and vindicativa.
117
(b)
e.
Agora, diz Paulo, nos eventos do evangelho, na realidade que é Cristo, Deus pode ser visto de maneira
manifesta fazendo aquilo que é necessário para a libertação dos homens, e tornando possível aquela nova
relação para com ele, a qual os homens necessitam para
serem salvos.
A questão agora é essa: Como pode o homem conseguir a possuir essa 'justiça divina'? A resposta dada é esta: Mediante a fé
em Cristo ao qual Deus tem feito 'nossa justiça', 1 Co 1, 30.
(1) Deus por sua graça estabelece o homem em condição correta consigo mesmo. assim aceitando-o como justo, pois Deus
não apenas lhe perdoa os pecados,
(2) mas lhe dá o dom duma nova categoria ou posição para com
ele.
(3)
Diz Paulo, 'Deus justifica ao ímpio', Rm 4, 5; isto quer dizer,
'Deus absolve quem é culpado.
(a) Através da linguagem forense brilha a graça maravilhosa de Deus. e Paulo está proclamando a mesma mensagem que Jesus pregou em sua maior parábola;
(b)
3.
Naquela parábola. na linf1uagem da casa do pai e não
duma corte de justiça, vemos a Deus justificando
o
ímpio:
O beijo do pai é a justificação, assim como o anel
e roupa nova significam a glorificação.
A terceira palavra usada por Paulo para designar a salvação como
um evento passado: 'reconciliação'
a. Substantivo grego 'kataHage', do verbo 'katnllasso', ou em Ef e
CI ''Apokatollasso'.
As principais referências:
Rm 5, 10.11; 2 Co 5, 18-20; Ef 2, 16:
CI 1, 19 ss.
b. Em CI 1, 19 ss. temos não só um Cristo cósmico e uma cruz
cósmica, mas também a promessa duma paz cósmica.
c. O pensamento básico é a restauração da comunhão com Deus.
d.
e.
Talvez é fato que esta palavra sej8' a melhor maneira de dizê-Io.
porque eleva o assunto todo do nível da corte de justira para o
nível de relações pessoais.
Também porque o deseio para reconciliação com a realidade parece ser algo de elementar e universal nos seres humanos.
Agostinho:
Fomos criados para Deus. e os nossos corações estão
inquietos, até que descansem em Ti.
f.
É o pecado, o qual causa a necessidade
118
duma reconciliação.
~
" ::~::elho, na reali-
,:".
-.-'~O de maneira
'f • -:-:'Ô': .::irio para a
li·
~~
aquela nova
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- - ,:,::','e1
~-==="-,-,
:onseguir a posMediante a fé
:=-', 1 Co 1, 30.
~,==, :-:n condição cor"" ': =-.::: justo, pois Deus
(2)
O pecado erige uma barreira a qual separa o santo Deus
do homem, a sua criatura.
Interrompe as relações de família, e para tal situação a palavra de Paulo é 'alienação', Ef. 4, 18; CI 1, 21.
É uma necessidade básica do homem recobrar a comunhão
perdida, de ser integrado novamente na família de Deus, e
de sair da des-graça para entrar no estado da graça.
Mas, isto o homem não pode realizar por seus próprios esforços: Só Deus poderá fazê-Ia, e é esta verdade a qual constitui o coração do evangelho, que Deus o fez em Cristo e
sua cruz.
(4)
~ : ,,::=.
(5)
":Dsição para com
~;::
-:
=,
-:
:::-:
-:
-=-
.':.ssim como o anel
:::'-:~icacão.
iS.:'=:
~.,.:::::.::':- q
salvação
como
Ík.' -:
llasso', ou em Ef e
_ -
:], 18-20; Ef 2, 16:
c,
d.
__ :: .::Dico e uma cruz
- '::: ::::smica.
'" :: :::-..:.nhão com Deus.
::-:,aneira de dizê-Io,
, :-:2 de justiea para o
:..".-::-.::'
reconciliação.
comunhão
para a qual Deus criou
'Em Cristo Deus estava reconciliando consigo o mundo',
II Co 5, 19.
(b) 'Porque se nós, quando inimigos, fomos reconciliados
com Deus mediante a morte de seu Filho, muito mais,
estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida',
Rm 5, 10.
(c) 'Porque aprouve a Deus que nele residisse toda a plenitude (da Divindade), e que, havendo feito a paz pelo
sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo
mesmo todas as causas, quer sobre a terra, quer nos
céus", CI 1, 19.
Esta doutrina sui generis, incomparável:
(1) A religião grega não contém paralela.
(2) O judaismo ensina que Deus se reconcilia ao homem.
(3) Nos escritos de Paulo, per contra, Deus sempre é o sujeito,
o homem é o objeto, da reconciliação. II Co 5, 20.
A mudança ocorre
(1)
(2)
!:_:::.::-
;-=: ::::rr a realidade pa::::: -'e:es humanos.
" :-::S50S
corações estão
aquela
(a)
isto quer dizer,
-:: a graça maraVlo a mesma menE:.
=-:or parábola;
~ :::. :s.sa do pai e não
:::-'':s justificando
o
E.O
O pecado destrói
o homem.
(3)
!;'~c.:-,
_.
(1)
e.
não no estado legal do homem,
mas, sim. em sua vida inteira:
fica "nova criatura" (criação) II Co 5, 17, 'as cousas antigas já passaram;
eis que
se fizeram novas'.
Para responder à pergunta: Como a cruz opera a reconciliação,
temos que responder à pergunta:
O que é a doutrina de Paulo sobre a expiação?
(1) Paulo não inventou esta doutrina:
(a)
'que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as
Escrituras' I Co 15, 3 - ci. Is 53: Esta verdade Paulo
a recebeu como tradição cristã.
119
(b)
f.
120
Para Paulo e todos os apóstolos, a cruz era 'o lugar
donde manava o poder de Deus, o qual era a inspiração
para todo o louvor cristão'.
(2) Paulo vê a cruz como sendo a prova suprema do amor de
Deus:
(a) 'Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato
de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores' Rm 5,8.
(b) Foi um axioma para Paulo que Deus estava naquilo
o que Cristo realizou na cruz!
(c) Numa outra passagem, Paulo fala de Cristo como aquele
que retirou a maldição que pesava sobre nós da parte
de Deus, GI 3, 13.
(d) Em outro lugar, Paulo trata da realidade da cruz como
sendo um sacrifício pelo pecado, Rm 8, 3.
(e) Outra vez, ele vê na cruz a vitória sobre os pecadores
demoníacos, CI 2, 15.
Consideraremos mais duas passagens a fim de penetrar ainda
mais no pensar de Paulo:
(1) Rm 3, 24 ss.: 'Sendo justificados gratuitamente, por sua
graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus; a quem
Deus propôs no seu sangue, como propiciação, mediante a
fé', etc.
(a) A crux aqui é o significado de 'hilast-erion': 'expiação!'
(b) A cruz é o lugar onde Deus expia, i. e. anula ou neutraliza aquilo no homem que o torna incapaz de ter
comunhão com Deus.
(c) O AT grego sugere a ligação ao 'trono da graça' que
os judeus conheciam, o lugar da compaixão de Deus
e do perdão.
(d) Em Cristo, a profecia da 'kapporeth' (tr. por 'hilasterion' pela LXX) se cumpriu, como também a typologia do Dia de Expiação (Yom Kippur).
(') A cruz é tudo isto, por causa de 'seu sangue' como
sacrifício, e por causa da fé dos crentes.
(') Por que Deus 'propôs' Cristo? Para fazer a sua bondade salvadora bem clara e convincente: Com a
cruz veio a demonstração de que Deus é justo não
apenas por si mesmo, mas que ele aceita pecadores
como justos que confiam em Jesus.
(2) II Co 5, 18 ss.
(a) A morte de Cristo foi morte representativa: 'um morreu por todos; logo todos morreram'. V. 14.
:: :::-uz era 'o lugar
: ~~}era a inspiração
(b)
Declara que a expiação significa o cancelamento
dos
pecados dos homens. (V. 19).
(c) Segue a declaração máxima: 'Aquele que não conheceu
pecado, ele o fez pecado por nós; para que nele fossemos feitos justiça de Deus.' Cf. GI 3,13 'fazendo ele
próprio maldição em nosso lugar'.
Cf. também o bode de expiação, Lv 16.
Paulo contempla a cruz como ato ordenado por Deus, em que aquele
sem pecados de maneira especial veio a conhecer o horror da divina
reação contra o pecado, com a finalidade que para nós não haja mais
alguma condenação.
(d) Estas passagens mostram a realidade do pecado e do
amor de Deus tratando de eliminá-Io,
[" :'=':'='conosco, pelo fato
_ :::=-:J nós ainda peca~
=:-::'.1S
estava
naquilo
~:s ::: Cristo como aquele
~'::' sJbre nós da parte
(e)
~ - ~=.}::lade da cruz como
-.-
_.u,
8, 3.
._ sobre os pecadores
ie penetrar
(f)
ainda
.c":: -';itamente,
por sua
rr:-~:-:sto Jesus; a quem
--::-:ciação, mediante a
(g)
=-ilasterion': 'expiação!'
==~, e, anula ou neu" : ::-na incapaz de ter
i_
A SALVAÇÃO
::-ono da graça' que
:)mpaixão de Deus
![i'E?:reth'
_
::
=-=-.0
(tr. por 'hiIastambém a 1ypo-
~ Kippur).
'seu sangue' como
'=-: s crentes.
~:-a fazer a sua bon:: ::::-,,"incente: Com a
~-=- : ,:2 Deus é justo não
-:- -=:e aceita pecadores
1:"
:::
-" ?
:-:::2ntativa: 'um mo r-"~V. 14.
--=
O sofrimento de Jesus foi "castigo, penalidade"
pelos
pecados doutros, sofrimen~o infernal imposto pela justiça de um santo Deus,
Na Cristologia de Paulo, a cruz nunca está isolada da
ressurreição:
(') 1 Co 15, 17 - Se Cristo não ressuscitou, é vã a
vossa fé e ainda permaneceis nos vossos pecados .
(') Rm 4, 25 - Cristo foi entregue por causa das nossas transgressões, e ressuscitou por causa da nossa
justificação.
Sumário: Redenção, Justificação, Reconciliação - mediante a cruz de Cristo, é obra salvadora de Deus como
evento passado,
,
COMO EVENTO
PRESENTE
Mediante a fé, tomando o que Deus oferece e dií, ü homem recebe
este presente de Deus para si mesmo.
(1) 'pístis' como substantivo
e como verbo aparece quase 200
vezes nos escritos de Paulo.
(a)
I
f
j
(2)
Segundo o contexto,
tem o sentido de 'fidelidade',
Rm 3,3
(b) Convicção daquilo que não 'se vê. Ir Co 5, 7
(c) Confiança inteira, como no exemplo de Abraão, Rm 4,
tomando a promessa de Deus como segura.
(d) Rm 1, 5 - a obediência da fé, a obediência Que consiste em fé: a fé cristã é a confiança que 'Cristo não
é uma ilusão, mas a realidade de Deus'.
A fé, segundo Paulo poderá ser caracterizada
como segue:
(a) Esta fé se dirige não a uma proposição, mas a uma
121
(3)
pessoa, às vezes denominada Deus, outras vezes Cristo,
pois 'Deus estava em Cristo'.
(b) O princípio da salvação é o oposto de 'obras', i.e. plano
qualquer buscando a salvação por esforços humanos,
acumulando 'crédito' nos céus por atos meritórios.
(c) A fé não é apenas um ato (Rm 10, 9) mas uma atitude
de vida: 'Esse viver que agora tenho, vivo pela fé no
Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou
por mim', G1 2, 20.
Ao receber a fé, inicia-se a união entre o pecador e o
Salvador; é semelhante a receber uma aliança nupcial,
diz Lutero, iniciando uma vida em íntima comunhão.
(d) A fé, pela qual nos cometemos a Cristo, no mesmo ato
nos comete à comunhão dos fiéis, a igreja.
(e) A fé, a não ser que seja falsa (I Co 13, 2), atua através
de amor (Gl 5, 6) produzindo boas obras, que vem a
ser uma conseqÜência da fé viva e ativa.
O batismo é o selo da realidade desta fé, Rm 4, lI.
(a) II Co 1, 22; Ef 1, 13: 4, 30 - No batismo o regenerado
fica estampado, marcado como propriedade do SENHOR.
(1) O batismo é a iniciação na igreja de Cristo, por
imersão ou outros modos; adultos confessaram sua
fé dizendo 'Jesus é Senhor' (Rm 10, 9), foram batizados 'em nome do Senhor Jesus Cristo' (I Co
6, 11).
(b)
(2) O batismo foi normalmente
associado com a recepção do Espírito (l Co 12, 13), o qual lavou e
regenerou a quem fora batizado, Tito 3, 5.
Para esclarecer o significado do batismo Paulo emprega
várias ilustrações:
(1) No batismo, 'vós vos lavastes', I Co 6, 11, das impurezas de sua vida anterior à conversão.
(2) 'Todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes', Gl 3, 27, vestindo Cristo como
túnica.
Os recém-bat.izados vestiram roupa branca
simbolizando a sua comunhão com o Senhor.
(3) 'Todos nós fomos batizados em um só corpo', I Co
12, 13, assinalando a incorporação no C01--pO de Cristo, a igreja.
(4) Provavelmente,
o contexto para as seguintes palavras era o batismo: 'Recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba. Pai', Rm 8,
15; GI 4,6 reza assim: 'Porque vós sais filhos, en-
122
1':' ....::.
:
viou Deus aos nossos corações o Espírito de seu
Filho, que clama: Aba, Pai', i. e. somos incluídos
na família de Deus.
.~=-as vezes Cristo,
~,- :::: 81'as', i. e. plano
75:::o1'çoshumanos,
=::,s meritórios.
::ias uma atitude
::-::'.=:. ,,-ivo pela fé no
: :-:-.-=5illO
se entregou
=~:1'e o pecador e o
.:-::a aliança nupcial,
-0.':-_
:''1tima comunhão.
Em Rm 6, 3 ss. e Cl 2, 12 diz que no batismo o crente
morre com Cristo quanto ao pecado e ressurge com
ele para uma vida nova.
(1) Para compreender o realismo desta linguagem, lembremo-nos do fato que atrás de cada batismo como
que aparece o vulto do batismo de Cristo mesmo
(d. Mc 10, 38; Lc 12, 50), único de sua espécie e
universal em seus efeitos, a morte de Cristo na
cruz é o seu batismo.
: ::-::5:0, no mesmo ato
ê. igreja.
= ::-: ~2;. 2), atua através
. : :.5 obras, que vem a
ativa.
(2) Quando uma pessoa está sendo batizada 'em Cristo'
confessando a sua fé nele como SENHOR, esta
pessoa entra para dentro da área e da alçada deste
Batismo uma-vez-por-todos
e seu poder e suas virtudes.
"
(c)
:-::,:
(d)
5::' :::~. Rm 4, lI.
.:
ê. ~ismo o regenerado
r: : ::::-dade do SENHOR.
:~:'eja de Cristo,
= : _: 'os confessaram
?,.TJ.
10, 9), foram
:':;esus
Cristo' (I
,,=
(1) Apenas um símbolo? Temos um símbolo que efetua, opera algo, planta 8. fé, regenera, renova pelo
poder do Espírito Santo na água e no ato.
(2) O batismo realiza aquilo que está sendo simbolizado, a morte da velha vida e a ressurreição para a
vida nova.
por
sua
baCo
-:: ?550ciado com a re.- ~3), o qual lavou e
:-':::=::0.Tito 3, 5.
cismo Paulo emprega
(3) Não foi por magia que isto aconteceu, e a pessoa batizada deste momento para frente estava sob obrigação de ser aquilo o que já havia sido feito, novo
homem em Cristo!
=-
(4) Daí 'os imperativos da graça' que se encontram nos
escritos de Paulo:
Põe-te à disposição de Deus, como homem morto
elevado para uma vida nova.
Comete o teu corpo ao serviço dele para fazer o
+
que e, reoo.
O pecado não será o teu mestre, porque não estás
debaixo da lei, mas estás sob a graça de Deus. Rm
6,13 ss.
I Co 6, 11, das imã conversão.
5 em Cristo, de Cris- -.-e5tindo Cristo como
~ ---=stiram roupa branca
.=-'.=, com o Senhor,
= ~ .
..
-'-:-;:um só corpo', I Co
: :=ção no corpo de Cris-:ara as seguintes pa. -==,eso espírito de ado:=:::05: Aba. Pai', Rm 8,
::-.:e vós sais filhos. en-
Os movimentos físicos do sacramento - descer à água,
imersão - apresentaram
um símbolo vívido da cousa
simbolizada.
ANOTAÇÓES
SOBRE OS PRINCIPADOS
E AS POTESTADES
1. No primeiro
século, a vida estava sendo profundamente
escurecida
pelo medo daquilo que era invisível, e por isso mesmo hostil.
123
(a) Posicionada contra
uma hierarquia de
imundos e maus a
(b) Agrupados contra
'os príncipes deste
verso', e 'as hastes
Satanás é o chefe
a humanidade,
assim era a crença, existiu
poderes e tiranos cósmicos, além de espíritos
afligir os homens, como se lê nos evangelhos.
os homens há 'os principados e potestades',
mundo', 'os espíritos elementares
deste unida maldade nos lugares celestiais', dos quais
titular.
(c) São 'Inteligências
desencarnadas'
(Thomas HardY)
(1) Paulo lança sobre estes poderes maus a responsabilidade pela
crucifixão, I Co 2, 8.
(2) Exercem uma influência maligna sobre os eventos humanos
e mantêm os homens em escravidão.
2.
3.
Para uma paralela vamos a um campo de missão e observemos o
mesmo fenômeno entre gente no mesmo nível de civilização.
(a) Estes homens vivem em uma escravidão de medo daquilo que não
se vê, e (Schweitzer) para eles 'o cristianismo é a luz que brilha
em sua escuridão de medo'.
(b) O Evangelho assegura aos homens que não estão sob o poder dos
espíritos da Natureza ou dos fantasmas ancestrais, mas que em
tudo que sucede a vontade de Deus mantém a soberania.
São Paulo, naturalmente
fala sobre estes poderes angélicos na linguagem de seu tempo, linguagem mitológica;
mas ele está descrevendo realidades espirituais que fazem parte da experiência de si
mesmo e de outros cristãos, i. e. a linguagem tem conteúdo racional.
(a) Estes poderes malignos foram vencidos pela vitória de Cristo na
cruz, Cl 2, 15.
(b) Mas estes poderes ainda estão em ação, e o seu fim chegará
'quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, auando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder', I Co
15, 24.
4.
Em nossos dias surgiu uma erupção vulcânica de maldade
numa vasta escala nas atividades dos homens.
irracional
(a) Novo interesse levantou-se por aauilo que Paulo diz a respeito
dos poderes demoníacos atuando dentro do mundo (C. S. Lewis,
Paul Tillich) ..
(b) Ocasionou novo estudo das origens de crenças - entre o Exílio
e o Advento - na história de Israel (De início, também as crenças existindo entre o cavo tiveram alguma referência a J avé, a
religião astral da Babílônia, etc.)
(c) Levou os teólogos a aplicar os ensinamentos de Paulo, em termos
não-mitológicos,
aos elementos 'demoníacos' nas autoridades
da
vida moderna,
124
---
(1) deuses falsos seculares, dogmas neo-pagãos, que dominam a
-
=:'a a crença, existiu
:::-.: :JS, além de espíritos
=-:: õe lê nos evangelhos.
:ipados e potestades',
, =:=mentares deste uni,:':"õ celestiais', dos quais
imaginação dos homens e que se incorporam em instituições
destrutivas, 'as capacidades demoníacas duma ciência onipodestrutivas, 'as capacidades demoníacas duma ciência onicompetente.' (C. S. Lewis)
(2) Entre os teólogos foi Paul Tillich, o qual aparentemente pensava que seja possível que estes poderes malignos são agentes pessoais.
c":":-_
Hardy)
:esponsabilidade pela
A DOUTRINA DOS DOIS REINOS EM LUTERO
os eventos humanos
==
RICARDO WILL Y RIETH
==:õsãoe observemos o
=: ie civilização.
= = :c:edo daquilo que não
=-.5:-::0 é a luz que brilha
INTRODUÇÃO
.~: =stão sob o poder dos
~:estrais, mas que em
---~== a soberania.
: ==:es angélicos na lin=as ele está descre- o~.a experiência de si
: ==::1 conteúdo racional.
.. ,. dtória de Cristo na
- o seu fim chegará
::uando houver des.-=stade e poder', I Co
,"= maldade irracional
- - Paulo diz a respeito
:. ::1undo (C. S. Lewis,
entre o Exílio
-.:::0. também as cren:eferência a Javé, a
~--.d'o
Paulo, em termos
nas autoridades da
:.2
•
E, rLalmente, é assim. Lutero não
parte de contextos ultrapassados:
Lutero não se tornou eminente
Seu pensamento não inicia com
as definições da tradição aristoapenas dentro de um contexto teotélica medieval, mas com a realógico do séc. XVI. Pelo contrário,
Lutero caracteriza-se por fazer de
lidade que está muito mais próxima dele, isto é, com o povo.
sua teologia um "habitus practicus".
Nascido do povo, vivendo com e
Aplica todo o conhecimento adquipara o povo, ele está profundarido pelo dedicado estudo das Escrimente imbuído da vida real desturas às situações mais diverS3s da
se povo.2
existência. A respeito disso escreve
G. Ebeling:
Talvez, para completar ainda a citação de H. Bornkamm, Lutero deve
Suspeitar que Lutero se retraiu
a uma vida interior e a um in- ser visto como vivendo com seus
dividualismo religioso não é ape- contemporâneos os problemas, as sinas absurdo, tendo em v'sta as tuações oco.cridas no espaço físico de
Wittenberg, da Saxônia Eleitoral, da
conseqüências revolucionariamente históricas de sua carreira, mas Alemanha no séc. XVI, mas, ao lado
também se contradiz com a res- disso, se encontra o fiel intérprete
ponsabilidade que ele explicita- da Escritura.
mente assume em seu ensino a
As opiniões, os conceitos de Lutero
respeito das mais variadas esfe- a respeito dos dois reinos, exatamenras e dos eventos da vida públi- te pelas r,azões colocadas acima, n 10
ca: a igreja e autoridade secu- podem então ser encontradas em um
lar, casamento e problemas de só escrito ou livro, apresentadas de
economia, escolas e universida- forma sistemática:
Os pronunciamentos de Lutero, a
des, a questão da revolta dos
respeito de questões da vida pocamponeses e da guerra com os
lítica e da vida nacional, são toturcos, e, em geral, na situação
dos conselhos espirituais, a aplihistórico-contemporânea do mundo.l
cação da palavra de Deus às ati126
vidades dos homens, participando na ordem da vida civil; eles
não se prestam para serem agrupados em um todo sistemático.::
AssIm como Bornkamm, H. Thimme
afirma a capacidade que Lutero teve
de ser teólogo para aqueles qUe o
cercavam, em última análise, um
verdadeiro teólogo para Deus:
Certamente Lutero jamais desenvolveu um ensino no sentido
tradicional, escreveu algum compêndio ou construiu uma sistemática abstrata. Seu ensino mostra-se inteiramente à maneira do
'didáskein' bíblico, como testemunha concreta em situação concreta, como mensagem dirigida a
pessoas determinadas, seja na
cura de almas, apologética ou polêmica, aproveita as provocações
da época, medindo essas na exegese da Escritura:4
Deste modo, qualquer um que tenciona examinar o ensino de Lutero
sobre os dois reinos, ou regimentos,
deve fazer um exame de escritos em
que o reformador escreve sob circunstáncias diferentes, a pessoas diferentes. Para esse trabalho, tomouse os escritos assim denominados básicos pelos luterólogos, para a constatação dos caracteres de sua teoria
política. Esses são: "Eine treue
Vermahnung an alle Christen, sich
von Aufruhr und Emporung zu
hüten"
(1522); "Von weltlicher
Obrigkeit, wie weit man ihr Gehorsam schuldig sei" (1523); "Ob
Kriegsleute auch in einem seligen
Stande sein kõnnen" (1526); "Predigt, dass man die Kinder zur Schule
halten soll" (1530). O primeiro, escrito a cristãos atingidos pela reforma, tomados de ímpeto contra os papistas; o segundo, dirigido aos gover126
nantes; o terceiro, escrito para soldados e militares cristãos; o último,
aos pais e responsáveis por crianças.
Tentar-se-á, ao máximo possível,
abordar os conceitos, as idéias transmitidas por Lutero dentro do contexto real do sermão, carta ou tratado. Do mesmo modo, será respeitada a ordem cronológica de aparecimento dos escritos, em consideração
a um estudo histórico-genético, a
fim de constatar se há evolução do
pensamento do reformador, e em que
pontos ela ocorre.
Finalmente, o fim último desse estudo é deixar que Lutero expresse
suas idéias, opiniões e conceitos a
respeito dos dois regimentos. Para a
pesquisa e para as citações será utilizada a edição de Saint Louis, de
Walch, 2~ edição, das obras de Lutero, em parte por apresentar o
idioma alemão em moldes mais
atuais, em parte por razões de maior
acessibilidade quanto à pesquisa.
1.
TEÓLOGOS QUE INFLUENCIARAM A LUTERO NA DOUTRINA DOS DOIS REINOS
1.1 Agostinho de Hipona.
Dentro da História Eclesiástica,
costuma-se afirmar que tudo pode
acontecer quando um homem se
aprofunda no estudo de Sto. Agostinho. De certo modo, isso pode ser
aplicado em relação a Lutero, bem
como .em relação a suas idéias sobre
os dois reinos. Agostinho apresenta
seus conceitos basicamente em: "De
CÍvitate Dei", escrita entre 413 e 426
a. D " onde descreve o reino de Deus
e o reino do mundo, fazendo uma interpretação da história do mundo a
partir do conflito entre pagãos e cristãos. As diferenças, já percebidas no
Jc-::' "ê::-O,
escrito para sol~'-=':-=:: cristãos; o último,
:--=~-::::-.sáveis por crianças.
~ ~ -=.: máximo possível,
- : -:-:tos, as idéias transã ::"..::ero dentro do con:.e::
5=:-mão, carta ou trane:-::=-,:
modo, será respeiiE:=, ::-onológica de aparei!: =:: ::::08, em consideração
:i.:: :::istórico-genético,
a
~'::: e:- se há evolução do
~ :, :eformador, e em que
: iim último
desse es-"---".::::ele Lutero expresse
: :::.iões e conceitos a
E :::::: regimentos.
Para a
as citações será uti=-:~: de Saint Louis, de
das obras de Lu-.:::-::-:- por apresentar
o
.c-_~: em moldes
mais
CcOe:::: e por razões
de maior
J.ânto à pesquisa.
===
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::
os
QUE INFLUENLUTERO NA DOUOOS DOIS REINOS
j!l::;...
Jif .-\
P-" no de Hipona.
História
Eclesiástica,
:~::mar que tudo pode
: ..:-=.:::do um homem se
:.: =::tudo de Sto. Agosti-é--: modo, isso pode ser
- :elação a Lutero, bem
?,=-;-i=.o a suas idéias sobre
=-: ::. Agostinho
apresenta
-::: :asicamente
em: "De
... =scrita entre 413 e 426
:.:c::::-eve o reino de Deus
=-__:_ndo,fazendo uma inhistória do mundo a
:-:::0 entre pagãos e cris=:===ças,já percebidas no
',.c.
=- '"
mundo dos anjos, com a apostasia ele
Satanás e os seus, corporificam-se no
mundo e principiam com Caim, que
construiu uma cidade, enquanto que
Abel vive como estrangeiro sobre a
Terra. Com Cristo, forma-se concretamente a igreja, e por outro lado,
a sociedade terrena manifesta-se com
o Império Romano e outros estados
pagãos. Hiigglund, no entanto, alerta:
Não seria, pois, apropriado, comparar a "cidade de Deus" e a
"cidade terrena"
de Agostinho
com o contraste moderno entre
igreja e estado. A concepção de
Agostinho é mais ampla. Falou
de duas linhas de desenvolvimento, de duas sociedades, que
estão ativas nos eventos da história, Não se referia simplesmente a poderes ou comunidades externas.5
A cidade de Deus seria então, "não
uma organização externa, hierárquica e eclesial", mas a "una sancta",
a "communio sanctorum", igreja invisível, em termos de teologia luterana:
Superna est enim sanctorum civitas, quamvis hic pariat cives,
in quibus peregrinatur,
dane c
regni eius tempus adveniat. (Pois
a pátria dos santos está no alto,
embora forneça cidadãos aqui em
baixo. que aqui habitarão como
estrangeiros até o domínio da pátria celeste se manifestar.6)
I~almente
o estado não se identifica com a "cidade terrena", mas esta com o impulso formador do estado
pagão.
Essa parte da teologia de
Agostmho é muito rica e, de modo
algum, pode ser exposta em espaço
tão reduzido. mas pequenas conclusões práticas podem ser colocadas.
Em r,rimeiro lugar, observa-se em
Agostinho um dinamismo em relação
às ordens espiritual e secular, assim
como transparece
em Lutero.
Não
são ambas as cidades "unidades estáticas", mas duas facetas da ação
divina sobre o homem e o mundo,
que evitam o caos e a destruição.
Deste modo, fica por terra qualquer
conclusão dualista, do tipo bem-mal,
com relação às esferas espiritual e
do mundo.
Por fim, sobressai-se a
préocupação de Agostinho em afastar a possibilidade da cidade de Deus
ser a síntese final, à qual o homem
chegará por sua própria ação.
Isso
foi muito bem assimilado por Lutero
(como se vê claramente no episódio
da Guerra dos Camponeses) e é um
alerta a quem procura colocá-Io como protagonista
de uma,
assim
cognominada, teologia da libertação.
1 .2
Guilherme
de Occam.
Lutero teve grande influência dos
nominalistas. Staupitz fora aluno de
Gabriel Biel (m.1495), que, por sua
vez, foi discípulo de Occam (m.1349)
e sintetizado r da tradição ocamista
em seu "Collectorium".
Talvez sua
maior contribuição
a Lutero foi o
colocar da Escritura como Única autoridade, em contraposição
aos tomistas e, a partir disso, desenvolve
suas doutrinas.
E, ao lado disso, em seu espírito
crítico, tanto na política como
na religião, sustentou unicamente um baluarte
de autoridade,
que é a Bíblia. Por meio de
OccaÍn, acima de tudo, tornou-se
a Bíblia a autoridade prática e
teórica do séc. XIV. 7
Isso, aliás, fez com que Guilherme
de Occam fosse acusado de heresia,
mantido em custódia e depois protegido, em Munique, pelo príncipe Luís
de Bavária.
127
Quando apresenta, em sua "Opera
Politica", oito questões a respeito do
poder do Papa, na segunda questão,
Occam analisa a origem do supremo
poder civil. Nessa questão, utilizando a mesma metodologia dos escolásticos anteriores, a qual sempre procurou usar, Occam faz uma divisão
por capítulos. Nos primeiros três, ele
analisa a argumentação em favor do
poder papal sobre o imperador:
Assim, pela ordem de Deus, o
papa e não o imperador é a primeira cabeça e o juiz de todos
os mortais; o império, portanto,
vem do papa. Novamente, o império é derivado daquele que pode depor o imperador; contudo,
o papa pode depor o imperador
e, portanto, o império vem do
papa.8
No capítulo sete, após ter, nos dois
anteriores, exposto a argumentação
imperial, ele faz a apresentação dos
argumentos da Escritura, sem dÚvida alguma, ressaltando-os sobre os
demais, sendo que esse capítulo provavelmente tenha influído nas convicções de Lutero. Occam combate as
argumentações do papa Nicolau em
seu "Decretum", de que o império
vem do papa, num prolongamento da
autoridade conferida a Cristo e depois a Pedra:
"Em resposta, é dito que o império não vem do papa, desde que,
após o advento de Cristo, o império se derivou da mesma pessoa, como antes; mas, antes do
advento de Cristo, o império não
se derivou do papa (como alegado acima), e, portanto, ele jamais, posteriormente, veio do
papa" .1)
128
Mais adiante, ele ataca o argumento de NlColau, de que Cristo estabeleceu e fundou essa Igreja Católica
Romana sobre a rocha da fé:
"A menos que essas palavras sejam algo discretamente interpretadas, parecem ser contrárias às
Escrituras Sagradas e aos escritos dos santos Pais, porque Cristo não fundou a Igreja Romana
sobre a rocha da fé com um simples sopro, pois a Igreja Romana
não foi fundada no princípio da
fé, nem fundou todas as outras
igrejas. Pois muitas igrejas foram fundadas antes da Igreja
Romana e muitas se elevaram a
dignidades eclesiásticas bem antes da fundação da Igreja Romana" ... 10
Essas evidências, sem dÚvida, trazem grande luz ao presente estudo
da doutrina de Lutero sobre os dois
regimentos. Em primeiro lugar, ressaltam a autoridade da Escritura
quanto à maneira, função e dinâmica
de ação dos dois regimentos. Em segundo lugar, dá relevância a uma
atitude de ambos não serem misturados, bem como quem age e exerce
influência sobre eles. Finalmente,
Occam dá fortes impressões de ter
o conceito de igreja como "communio sanctorum", igreja invisível, assim como Lutero, principalmente p~Ia maneira como fala da Igreja Romana, "dando a ela um leve ar de
entidade denorninacional e burocrática. Como se sabe, esse conceito foi
fundamental para Lutero na elaboração de seu pensamento . teológicopolítico, incluindo-se aqui, sem dúvida alguma, a doutrina dos dois regimentos.
2.":':
:':. ::
ataca o ar~umen-
'L _= :;ue Cristo estabetr,·. -:-::a Igreja Católica
;rc :c ::-ocha da fé:
essas palavras se:::-etamente interprefL-" : m ser contrárias às
::;...::
33.gradas e aos escri.i~':'-::s Pais, porque Cris~==-.:'oua Igreja Romana
-: ::::.",da fé com um sim:-: ::ois a Igreja Romana
:-..:-.iada no princípio da
:.:.ndou todas as outras
;::::s muitas igrejas fo:.:'=.::as antes da Igreja
'" muitas se elevaram a
,-:os
eclesiásticas bem an_:.::ação da Igreja Roma-
Lê:
?
2.
"EINE TREUE VERMAHNUNG
AN ALLE CHRISTEN, SICH
VON AUFRUHR UND EMPORUNG ZU HÜTEN".
... >;:
:: . .'
1522 -
-=
,'::':'.:::ias,sem dúvida, tra~'':'Z ao presente
estudo
ie Lutero sobre os dois
-::-mprimeiro lugar, res,·,:,caridade da Escritura
:.:-_"dra,função e dinâmica
:'ois regimentos. Em se~, dá relevância
a uma
õ.cllbos não serem mistu:'0mo quem age e exerce
-c:ere eles.
Finalmente,
'ortes impressões de ter
:2' igreja como "commu,-"1l", igreja
invisível, as--,tero, principalmente
p~como fala da Igreja Roó a ela um leve ar de
nominacional e burocrá:e sabe, esse conceito foi
para Lutero na elabou pensamento teológiconindo-se aqui, sem dúvi3. doutrina
dos dois regi-
Este tratado
remonta ao período
em que Lutero
ainda estava no
Wartburgo. Ocorre que, emWittenberg, uma série de ações violentas e
radicais
estavam
sendo cometidas
por estudantes,
liderados por C;orlstadt e Gabriel Zwilling. A 05/10/
1521, uma horda de estudantes
escarneceu e pôs em perigo a vida de
um monge de S. Antônio, o qual v-eio
buscar esmolas para sua ordem em
WittEmberf(. A 03/12/1521, um dia
antes de "Junker Georg" chegar a
Wittenberg
em sua "visita-fantasma", um grupo de estudantes, liderados por desregrados
.alunos de
Erfurt. invadiram a igreja da paróouia de Wittenberg,
apoderaram-se
dos livros da missa e expulsaram os
sacerdotes do altar. No dia seguinte.
invadiram o mosteiro dos franciscanos e interromperam
suas devoções
com gargalhadas e zombarias. Lute ..
ro, com certeza, estava atento a isso.
pois, após a chegada a Wittenl'erry
dos profetas de ZWickau, e aumento
das manifestações,
escreve:
"Fine
treue Vermahnungan
alle Christen.
s;ch von Aufrunr und Emporung zu
hüten"(uma
admoestação sincera ;l
todos os cristãos para ~uardarem-se
de revolução e rebelião). O manuscrito completo foi enviado a Espala··
tino, com uma carta sem data. D]"Ovavelmente
em meados de dezembro, sendo que, talvez, em janeiro.
já tenha sido publicado.
Lutero procura
apresentar
alpumas razões para que os cristãos não
promovam rebeliões contra os papis·
tas, porque não compete a eles essa
tarefa - " ... Aqui, o próprio Deus
será e quer ser aquele que pune";l1
- isso não traria a melhora esperada, pois agir nesse sentido compete
à autoridade; a rebelião é proibida
por Deus; a rebelião é uma obra do
maligno. Ao desenvolver o ponto em
que diz que agir com relação ao papado, julgá-Io e castigá-Io é tarefa
da autoridade, Lutero, primeiramente cita a instituição divina da autoridade: "Por isso foram institu{das a
autoridade e a espada: para punir 0--;
maus e proteger os piedosos,sendo
proibida a revolução, como diz São
Paulo: Rm 13.4 e 1 Pe 2.13.14. "12
Feito isso, ele logo em seguidas?lienta o papel de todo homem para
com a autoridade:
"Por isso. tenha atenção para
com a autoridade.
Enauanto ela
não se empenha e ordena. permaneça quieto com a tua mão.
tua boca e teu coração, e nada
suponha. Mas tu podes mover a
autoridade para aue ela aja e ordene, assim podes fazer. Se ela
não quer. tu também não eleves
Querer. Mas, se vais além disso.
então és injusto e muito mais
maldito do que a outra parte" .1B
Mesmo que essa carta, como Lutero chama o documento. não aborde
diretamente
o assunto, uma série ele
conclusões práticas podem dele ser
retiradas para esse estudo. Primeiramente, L~tero condena toda e rualQuer tentativa de se estabelecer um
governo secular baseado no evanP'Plho. Isso se vê claramente em seu"
iUIgamentos, não apenas neste escito, sobre o papado. Este alí ás. é semlJre citado como exemplo do derastre
Q'ue se pode causar misturando
os
dois regimentos. Por outro lado. vêse mais uma vez a busca da a1..ltorj129
dade secular para decidir quanto à
esfera mundana, exatamente por ser
instituição divina. Isso se vê claramente na citação feita acima. Quando LutelO, após suas duras experiências de consciência, apelou à Igreja
Romana que reformulasse determinados procedimentos não-escriturísticos, não foi atendido. Ao contrário,
teve sua vida ameaçada. Apelou então aos príncipes, ao poder secular,
para que tratassem de um assunto
que, pela secularização e corrupç50
da Igreja de Roma, já estava sob sua
alçada.
A certa altura da carta, Lutero
pergunta: "O que devemos nós fazer, quando a autoridade não quer
principiar no agir? Devemos ser ainda pacientes, fortalecendo sua maldade?" Logo vem a resposta: "Não,
não deves agir assim. Nessa situação,
deves agir de três maneiras ... "14
E, no primeiro desses procedimentos aconselhados, ele coloca: "Deves
reconhecer o teu pecado, ao qual a
poderosa justiça de Deus atormentou
com esse regimento do anticristo, como São Paulo em 2 Ts 2.11,12 proclama ... "15
Essa citação recorda aspectos fundamentais a esse estudo. Em primeiro lugar, coloca a mão de Deu:::, a
poderosa justiça de Deus agindo por
trás dos regimentos, mesmo do anticristo, e identifica a Deus como o
poderoso soberano sob cujo poder
está tudo sobre a Terra. Essa afirmação dá lugar honroso à autoridade
secular dentro da criação de Deus,
contestando a falsa opinião que muitos têm, inclusive dizendo basearemse em Lutero, de que a autoridade,
bem como o exercício da autoridade
no mundo têm fundamento no maligno. Do maligno vem a deturpação,
como no regimento do anticristo. O
130
monaquismo, dentro da Igreja Católica via, não só a autoridade secular,
como todos os aspectos da vida no
mundo num sentido pejorativo. Assim também se fez após os tempos
de Lutero, em especial no pietismo,
com Philip Spener, do qual a própria
IELB ainda hoje apresenta legados,
quer seja doutrinariamente, quer seja consuetudinariamente.
:1.
"VON WELTLICHER OBRIGKEIT, WIE WEIT MA N IHR
GEHORSAM SCHULDIG SEI"
-
1523 -
De um concílio imperial resultou
um edito de 20/01/1522, no qual
"inovações" tais como: comunh30 so1/
duas espécies, casamento de sacerdotes e o não uso de vestimentas s"cerdotais eram condenados. Baseados nesse edito. príncipes, tanto seculares como eclesiásticos. passaram
a agir, prendendo e obrigando os
aderentes à reforma a retratarem-se.
Poderia um príncipe CristRO aP.ir
nesse campo das coisas eclesiásticas?
A 21/09/1522, respondendo a um:l
carta do Barão Schwarzenberg16, Lutero dá a entender que escreveria
um tratado sobre a relação espadaevangelho. Nessa época, Lutero estava visitando as regiões onde havia
maiores atritos, a fim de esclare<'er
como deveriam agir os que 8 seu lado f'e colocavam. A 10/10/1522, foi
convidado pelo pregador da corte do
Duque João, em Weimar. WolfQ'an.-r
Stein, a pregar uma série de seis sermões, entre os quais, o terceiro e o
q'uarto são um pequeno esboço do
tratado.n Após as pregações. o Duaue João e Stein estavam tão impressionados, que aconselharam n\1€
Lutero publicasse aquilo. Mas o re-
::entro da Igreja Catóa autoridade secular,
: õ
aspectos da vida no
õentido pejorativo. As: õe fez após os tempos
=-.-=-especial no pietismo,
:: -õ-ner,do qual a própria
:-.: j e apresenta legados,
·-=:::-inariamente, quer se~2.=-iamente.
õ
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nELTLICHER
OBRIG\DE WEIT MAN IHR
SA~I SCIruLDIG SEI"
-
1523 -
.- :ilio imperial resultou
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20/01/1522, no qual
==.:3como: comunhão sob
-: casamento de sacerdo-=30 de vestimentas S2"-'- condenados.
Basea:i:J. príncipes, tanto se: eclesiásticos. passaram
- ::endo e obrigando
os
=-e:orma a retratarem-se.
0ríncipe CriSt80 aqir
:as coisas eclesiásticas?
-respondendo a umil
"o: Schwarzenberg16,
1,u:-c_
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pequeno esboço do
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o DuS:-ein estavam tão im::'.le aconselharam
(1l'e
: : :o.33eaquilo. Mas o re="":"'.
•
formador falara de improviso, isto é,
não escrevera os sermões (o que foi
feito por um ouvinte anônimo em
Weimar). Por isso, logo que voltou a
Wittenberg
passou a escrever "Von
weltlicher Obrigkeit, wie weit man
ihr Gehorsam schuldig sei" (da autoridade secular, a obediência
aue
lhe é devida), e que concluiu no dia
de Natal de 1522,
Embora seja um tratado dedicado
exclusivamente
ao poder da espada,
a dedicatória é feita ao Duque João.
"Von weltlicher Obrigkeit" pode ser
considerado
como fundamental
no
estudo do pensamento
político-religioso de Lutero. Em primeiro lugar,
Lutero trata de legitimar o poder secular,
ao usar
expressões
como:
"Também o próprio juizo da espada
existia no princípio do mundo". e.
"é suficientemente
sabido e claro
como é vontade de Deus ter à mão
a espada secular e o juízo para punir
os maus e proteger os piedosos" .18
Essas colocações, Lutero provavelmente faz em oposição aos entusia,tas e anabatistas,
os quais vinham
desmerecendo o poder secular e 0U2riam governar o mundo segundo o
evangelho, manifestações
estas. que,
de certo modo, eclodiram na Guerra
dos Camponeses. um ano depois.
Lutero preocupa-se, então, em estabelecer as diferenças entre os regimentos, caracterizando
a naturez~
de ambos e ressaltando a necessidade dediscernimento
entre eles:
"Por isso tem que se distinguir
cuidadosamente
estes dois regimentos e deixá-Ios vigorar: um
que torna justo, o outro que cria
paz exterior e combate as obras
más. Sozinho, nenhum dos dois
basta. Pois sem o regimento espiritual de Cristo, somente com
o regimento temporal, ninguém
pode
ser justificado
perante
Deus. Por outro lado, o domínio
de Cristo não se estende por sobre todos os homens, mas em todos os tempos os cristãos são o
grupo menor; eles se encontram
dispersos entre os acristãos. Onde, pois, dominar somente o regimento temporal ou a lei, ali
tem que haver mera hipocrisia.
mesmo se fossem os próprios
mandamentos
de Deus. Pois sem
o Espírito Santo no coração, ninguém se torna realmente justo.
faca tantas belas obras auantas
quiser. Onde, porém, o regime
temporal dominar sozinho sobre
terra e gente, aí será solto o hUçal da maldade e se dará razão a
toda a malandragem.
Pois o pÚblico não o pode aceitar e compreender. "19
Nesse trecho encontra-se, então, a
essência do pensamento do reformador a respeito das duas esferas de
poder. Nas entrelinhas
nota-se, entre outros aspectos, que os dois regimentos não estão polarizados em
éxtremos, nem que há um dualismo
entre ambos, do tipo bem-mal.
Ao
contrário, os dois são vistos num
contexto de atos graciosos da criaçáo
divina, são instituídos por Deus e,
deste modo, essencialmente
bons.
Eles são vistos como tendo uma maneira dinâmica de agir sobre o mundo, não entidades estáticas, mas que,
juntas, ev,itam, em primeiro lug-ar,
um estado caótico; em segundo lugar, permite ao homem estar reconciliado com Deus pelo sangue de
Cristo, no caso, pelo regimento espiritual.
Esse aspecto dinâmico fica ainda
mais evidente se observado do pontode-vista do cristão e os dois regimentos, O não-cristão
está apenas
131
--_._---_.~~~~~-~------------~-----------sob a espada: " ... ao reino do mundo, ou à espada, pertencem todos os
que não são cristãos"20; e, a respeito
dos cristãos, diz: "Assim, é imposs;vel que a espada e o direito tem~oral encontrem algo a fazer entre os
crjstãos"~l Apesar disso, " ... ele se
submete de bom grado ao regimento
da espada: paga impostos, honra a
autoridade, auxilia e f.az tudo o aue
pode e que é útil para a autoridade.
a fim de que sejam preservados ,eu
rode r, honra e temor"22.
Essa submissão ocorre por parte do
cristão porque está junto com todas
as dem8.is obras do amor; não porque ele necessite disso: " ... não serve à autoridade porque poderia vir a
necessitar dela, mas porque outros
necessÜam dela, para aue sejam protegidos e os maus não se tornem ainda mais malvados"23.
Por trás dessa atuação do cristão,
vemos que Lutero o coloca sob os
dois reQ'imentos' o cristão arte s01l as
duas esferas, é atingido pelas duas
maneiras com as quais Deus governa
o mundo R?pete-se a idéia acima: é
ressaltado o aspecto dinâmico com o
aual agem espada e evangelho, n8.o
há duas entidades separadas e oposta",: ambas avançam numa só direção, objetivando a glória de Deus e
a preservação de sua criação.
Ao iniciar a segunda parte de seu
sermão. à aual Lutero chama de a
principal. são feitas colocações interessantíssimas a respeito das consti·
tuicões. ou leis (Gesetze) desses reinos, bem como quanto à abrangênda
dessas:
"Devemos anotar em primeiro
lugar: os dois grupos dos filhos
de Adão dos quais um, como se
disse acima, está no reino de
Deus sob Cristo, enquanto o outro está no reino do mundo c-o"h
1;32
a autoridade. têm dois tipos de
lei. Pois todo reino deve ter suas
próprias leis e direitos, e. sem lei
não pode existir reino nem regimento algum, como o ensina suficientemente a experiência diá~
ria. O regimento temporal tem
leis que apenas abrangem o corpo e os bens e as outras coisas
exteriores na terra. Pois sobre
alma Deus não pode e não auer
deixar ninguém governar a niío
ser somente ele. Por conseguinte.
se a autoridade secular se atrevo
a imnor uma lei à alma, aí eh
interJ'pre no regimento divino.
seduzindo e corrompendo as almas"24.
T ,utem
havia legitim8.do o noder
temporal.
Ap'ora ele lep'itima sJla
aeRo através de leis. Surrte então um
rbnn irrronrta:nte. o qual estabelece a
fronteira rle atuação dos regimento".
mais direhmentp do poder da esnada. Fstp possui o direito de agir no
fimbito da matéria: corpo e bens matpriaiC"p n dentro dessa di.mensão nue
ele prepnche m; desirtnioC"un, Deus
C'on-l'eridos. Qualauer ativiéJ"1de no
"l1e tanp'e ao cmesito alma ult-ranassa suas funções. Antes, Lutero C'oihira e vira como p inaceitável o "'0verno rl0 mundo pelo evangelbn
a9'ora p,Ie 2sh "helece os Jimitps do
nade, sPc"'J1ar.ES~él dtacão i nalrnellte -rpve],:.roontos da a11tropoJoPia (lp
Tl1tero. Esta"helece dois tipos de atitude do homem, ou melhor. do C'ristão diante: de sua realidade exterior,
em (Jue 'lQ"ee se submete ao regimento da espada por amor de seu
próximo e ordenação divina, bem co1Ylô está no regimento espiritual por
ter o reino dos céus dentro de si.
Em última análise, o cristão age na
esfera do regimento da espada porél.
11
- : =.::". têm dois· tipos de
reino deve ter suas
, .õi" e direitos, e, sem lei
:õ õ:,;:istir reino nem regiL";:'~':l, como o ensina S11:::~:-_~ea experiência diá-<~!nento temporal tem
o-:=nas abranQ"em o cor'- ,,~_S e as outras coisas
--:-7 ::-3 terra.
Pois sobre;:J
= ....:': ~ão pode e não quer
--. zuém governar aDRO
= ele. Por conseguinte.
·':-::'de secular se atrevI"
'::::a lei à alma, aí eh
regimento
divino.
corrompendo as aIE- - -
_ ._ legitimado o noder
:~-era ele leQ"itima spa
c, leis. Surg-e então
um
':--c, o qual estabelece a
ê -'.:2 cão dos regimentos,
-o.--p do poder da esnao direito de a!!ir no
-c-'=::ria: corpo e bens ma-=- --) dessa dImensão f1ue
- ~ desÍg'llios Dnr Deus
:~>_'3Iauer ativid"1de no
··).2SitO alma uJtranas~ntes, Lutero C'oini.-:::-, 6 inaceitável
o ("0-:-,,:-.::10
pelo evangelDn
-c:'-elece os limitps do
?~c.':\ citacão ip'nalrnen----~ da antronoloP'ia c'l~
,-.:.'=2e dois tinos de ati::-,,::::, ou melhor. do ('ris;.;. ~._:?, realidade exterior.
, " ~2 submete ao regi5-= =-:ia por amor
de seu
:--'"nação divina, bem co= z~!nento espiritual
por
::e" céus dentro de si.
=..-.ilise. o cristão age na
: ;-'::-.2nto da espada por:
=-
'::,i'.
o
que está dentro do regimento
de
Cristo.
Igualmente, a antropologia de Lutero faz com que ele não veja possibilidade de unificar os dois regimentos e inclusive se desdobre ensinando
o discernimento
entre ambos. A razão para isso é a maldade, o pecado
que está no coração do homem: "Se
houvesse, em todo o mundo, cristãos
justos, isto é, crentes justos, conde,
rei, senhor, espada ou direito não seria útil ou necessário"25.
Como isso não parece ser possível,
continua legitimado o poder temporal e incrementa-se
cada vez mais o
reino de Cristo, a fim de que os cidadãos desse reino ajam corretamente dentro de ambos os regimentos.
Lutero não discute aqui a questão
da lei para os justos, como havia para Adão e Eva .antes da queda, e
como se afirma no Livro de Concórdia (Fórmula de Concórdia, Declaração Sólida VI, 5).
4,
"OB KRIEGSLEUTE
EIHEM
SELIGEN
SEIN KÕNNEN"
-
AUCH IN
STANDE
1526-
Por ocasião da morte de Frederico,
o Sábio, a 5/07/1525, houve um diálogo entre Lutero e um soldado profissional, chamado Assa von Kram.
Von Kram tinha sérias dúvidas se
poderia um cristão ser ao mesmo
tempo soldado; isto afetava sua consciência. Assim, a pedido de Kram,
Lutero escreve, por volta de outubro
de 1526, "Ob Kriegsleute
auch in
einem seligen Stande sein konnen"
(Se soldados também podem ser salvos), onde identifica a profissão militar com a divina instituição
da
espada por Deus, para punir o mal,
proteger o bem e preservar a paz.
Dentre as principais
verdades e
conclusões apontadas pelo reformador, pode-se salientar que: o lutar
contra o governo legitimado é ir
contra a ordem instituída por Deus;
quando iguais lutam contra iguais
deve agir o princípio de defesa própria; os soldados não são obrigados a
participar em guerras dos reis contra sua consciência. Isso justificaria
uma rebelião, mas jamais se deve
esquecer
que os governantes
são
objeto da ação divina. Essas colocações, no entanto, são uma decorrência dos princípios enunciados por Lutero na primeira parte do tratado,
que, por sua vez, são mais contributivos ao tema em questão.
Ocorre
que Lutero, para legitimar diante de
Kram a instituição divina de seu ofício de soldado, tem de legitimar primeiro a autoridade
secular, a qual
usa a espada do soldado para punir
os crimes decorrentes do pecado do
homem.
As primeiras palavras de
Lutero são:
"Em primeiro
lugar, deve ser
feita a distinção de que uma coisa é ofício, outra é a pessoa, ou:
uma é a obra, outro é o que faz
a obra; pois um ofício ou obra
podem ser totalmente bons e justos, em si próprios, mas são maus
e injustos se a pessoa, ou aquele
que faz a obra, não é bom ou
justo, ou age injustamente.
Um
ofício da lei é um precioso e di~
.• oHCIO."
, .
""6
vmo
Deste modo, Lutero reafirma o valor da autoridade,
da espada, bem
como sua posição de que o pecado do
homem exige a existência dessa autoridade, e que é o homem que, por
seu coração corrupto, tenta destruir
ou se aproveitar desse regimento instituído por Deus. Mais adiante, Lu133
tero reconhece que esse procedimento do homem foi constante e afirma
que sempre lutou contra essa visão
negativa do regimento secular, sendo um documento disso seu "livrinho" "Von weltlicher Obrigkeit":
"Pois eu gostaria de me vangloriar, puramente, que desde o
tempo dos apóstolos, jamais a espada e autoridade seculares foram tão claramente descritos e
magnlficamente louvados, como
também os meus inimigos têm
de confessar ... '" pois que a espada foi instituída por Deus para punir os maus, proteger os
piedosos e dirigir a paz, Rm 13.
1ss e 1 Pe 3.14ss. Assim, foi poderosa e suficientemente provado que guerras e penas capitais
foram por Deus instituídas, bem
como o que acompanha o decorrer da guerra e da lei. O que é
a guerra senão punir o mal e a
injustiça? "27
É interessante observar como Lutero já tem seu conceito do regimento do mundo tão sedimentado, está
tão convicto de seu posicionamento
teológico, que ele faz já a aplicação
desse conceito à maneira como age
esse regimento e aos objetos de sua
ação. Todo esse escrito, aliás, comprova essa afirmação. Por outro lado, o reforrnador jamais deixa de ver
por trás disso a ação divina, Deus
agindo na História e exatamente essa convicção o leva a afirmar:
"Por isso Deus honra e eleva
tanto a espada, que ele chama de
sua própria ordem e não quer
que se diga ou julgue que ela foi
fundada ou instituída por homens. Pois a mão que dirige
e fere com essa espada não é
mais a mão de homens, mas Deus
134
enforca, aplica a roda, degola,
estrangula e guerreia".
A partir daí, Lutero cita o embasamento bíblico que o leva a afirmar
tais coisas, e logo após faz um resumo que, por um lado reafirma seu
posicionamento, por outro, enriquece
em muito o presente estudo, e que,
por isso, merece ser citado e analisado:
"Pois esta é a Summa Summarum: o ofício da espada é justo
em si mesmo e uma ordem divina, necessária, a qual ele não
quer desprezada, mas temida,
honrada, ouvida, como diz São
Paulo, em Rm 13.4.
Pois ele
Instituiu dois regimentos sobre
os homens. Um espiritual, através da Palavra e sem a espada,
pelo qual os homens se tornam
piedosos e justos, de modo que
eles, com a mesma justiça, obtêm
a vida eterna; e essa justiça opera nele através da Palavra, recebida pela pregação. O outro é
um regimento secular, através
da espada, para aqueles que,
através da Palavra, não querem
se tornar piedosos e justos para
a vida eterna, mas que, através
desse regimento secular, se tornam fortes, piedosos e justos para estar diante do mundo, e essa
justiça opera neles pela espada.
E como essa mesma justiça não
quer remunerar com a vida eterna, ainda assim eles querem têIa, para que a paz seja mantida
entre os homens e remunere-os
com bens materiais.
Pois por
isso Deus dá à autoridade tantas
coisas boas, honra e poder, para
que ela aplique isso para operar
essa justiça secular,
Assim, o
próprio Deus é, de ambas as justiças, tanto da espiritual como
l.: __:::.::.a roda,
_c~ z.lerreia".
degola,
'=
~_ =-'-.l:.ero
cita o embasa= ::_:::o leva a afirmar
::' _::~: após faz um re;':::: ~l
lado reafirma seu
1:.- - ;úr outro, enriquece
:::-:::~::nteestudo, e que,
E---:::-::::
ser citado e anali2 a Summa Summa:::'._J da espada é justo
Lec:'=-_J e uma ordem divi=~,;..:-ia, a qual ele não
"':: :-2zada, mas temida,
" :'.lvida, como diz São
== Rm 13.4,
Pois ele
:: :':'ls regimentos sobre
::::'.:_Um espiritual, atra-: ::'='ê. "ra
e sem a espada,
:~-:s homens se tornam
, ::: justos, de modo que
=mesma justiça, obtêm
,:2:-::a; e essa justiça ope::.::avés da Palavra, re::c2.S, pregação. O outro é
:-_:::::nto secular, através
::.::ê..
para aqueles que,
::3. Palavra, não querem
~: :::iedosos e justos para
-:-~:::rna,mas que, através
::s.' '11ento
...
secular, se tor:-'::;s,piedosos e justos pa::'iante do mundo, e essa
:;era neles pela espada.
:::ssa mesma justiça não
:::::''..L'1erar
com a vida eter:.s. assim eles querem têque a paz seja mantida
o; homens
e remunere-os
·m materiais.
Pois por
":.0 dá à autoridade
tantas
::oas, honra e poder, para
aplique isso para operar
stiça secular.
Assim, o
Deus é, de ambas as jusanto da espiritual como
r:;,,,,
=-
da corpórea, Fundador, Senhor, mentos são maneiras distintas do
Mestre, Protetor e Remunera- mesmo Deus agir sobre sua criação.
dor .29
São modos de agir, não são duas unidades estáticas, dois "reinos", que se
O termo "Gerechtigkeit" (justiça),
chama aqui particular atenção. Lu- combatem. Ao contrário, é uma matero fala em duas justiças ("allel' nifestação do grande amor de Deus
beider Gerechtigkeit"') e dá suas ca- pelos pecadores.
ractensticas espiritual e corpórea,
5. "PREDIGT, DASS MAN DIE
("beider geistlicher und leiblicher"),
KINDER ZUR SeHULE
que possuem um único juiz que as
HALTEN SOLL"
aplica, Deus. Essas duas justiças também levam a propósitos diferen~es,
- 1530isto é, o fim último de quem esb
sob estas é diferente. Quem está sob
a justiça espiritual se torna piedoso
Por uma série de motivos, o en("fromm") e justo ("gerecht"), bem sino estava em decadência na Alecomo obtém a vida eterna ("das manha no séc. XVI. Em primeiro
ewige Leben erlangen"). Quem está lugar, desenvolveu-se um espírito
sob a justiça corpórea, do mundo materialista, decorrente do floresci("leiblicher" e ",;veltlicher"), torna- mento comercial. Era mais fácil ense piedoso ("fromm") e justo ("ge- trar para o comércio, mais rendoso,
recht") diante do mundo, mas essa do que estudar direito, medicina ou
justiça não quer remunerar com a teologia. Em segundo lugar, os mosvida eterna ("nicht ,;vill lohnen mit teiros e conventos abandonados pedem ewigen Leben"), Igualmente os los monges e freiras que aderiram à
meios pelos quais Deus opera corn reforma, foram confiscados pelos
essas justiças são diferentes. Quem príncipes, extinguindo-se, assim, esestá sob a justiça espiritual, este é ses importantes núcleos de desenvolvimento da cultura. Alguns interpresujeito a ele pela Palavra ("durch's
Wort"). Quem está sob a justiça do taram a doutrina do sacerdócio unimundo, este é sujeito a ele pela es- versal de todos os crentes radicalpada ("durch's Schwert"). No entan- mente, julgando não ser mais necesto, após apontar essas diferença:, Lu- sário o estudo teológico para a forterocoloca que foi Deus quem esta- mação de sacerdotes. Finalmente, foi
beleceu os regimentos ("er hat zwei reação comum das massas reformadas, que viam o estudar nas escolas
Regiment" ., ....
"aufgerichtet"),
dentro dos quais elas operam, Igual- tradicionais um perigo para a salvamente ele deu a Palavra e a espada, ção de suas almas e não apenas a
pelas quais essas justiças são impu- existência' de erros doutrinários. Os
tadas, bem como ele as mantém. Es- pais temiam enviar seus filhos às estabelecer, dar, manter, ser Fundador
colas. Para combater esses pensa("Stifter"), Senhor ("Herr"), Mes- mentos, Lutero escreveu em 1524:
"An die Rathsherren aller Stii.dte
tre ("Meister"), Protetor ("Forderer"), o que premia ("Belohner").
Deutschlands, dass sie christliche
aufrichten
und halten
Tudo isso implica em ação, em al- Schulen
guém que age e que age nos dois re- solhm" (Aos conselhos de todas as
gime:r..tos. Invertendo: os dois regi- cidades da Alemanha: que eles de135
vem estabelecer e manter escolas
cristãs) 30, Isso fez com que cidades
acatassem essas idéias e as efetivassem (Magdeburg, Nordhausen, Halberstad1:, Gotha, Eisleben e NÜrnberg). O problema, agora, era fazer
com que os pais enviassem seus filhos a essas escolas e então Lutero
escreve: "Eine Predigt, dass man die
Kinder zur Schule halten solle" (Um
sermão para que se mande as crianças à escola).
Desta vez, Lutero aplica seus conceitos de regimento espiritual e do
mundo, a fim de salientar a necessidade de se formar bons pastores,
bem como bons líderes leigos. Fala,
em especial, quanto à necessidade de
se dar valor a um bom governo, necessitando-se para isso de pessoas estudadas, informadas e cristãs:
"Por isso, do mesmo modo como
a pregação é obra e honra, que
de pecadores faz santos, de mortos faz vivos, de condenados faz
bem-aventurados; igualmente o
regimento secular é obra e honra, porque de animais selvagens
faz pessoas e as conserva para
que não se tornem animais selvagens"31.
Desta maneira, Lutero chama a
atenção quanto ao valor que ambos
têm, quanto à maneira como Deus
age e quanto ao que Deus quer agindo por meio dessas esferas. Havia
um desmerecimento, na época, com
relação ao exercício do governo e
coisas do mundo. As ordens monásticas salientavam o despreocupar-se
com o mundo, desprezavam o material, julgando serem as coisas do
mundo parte do maligno.
Lutero
trata de destruir esses conceitos:
"Pois, além disso, é uma ordem
magnífica, divina e perfeita dádiva de Deus, a qual ele fundou,
136
instituiu e também quer manter
e que de maneira alguma se pode
dispensar; e onde ela não existisse, não poderia nenhum homem permanecer diante do outro. Um teria de devorar o outro, assim como fazem os animais
irracionais uns com os outros"32.
Mais adiante Lutero, de certa forma, repete sua argumentação, mas
acrescenta um aspecto de relevo:
"Agora, pois, isso é certo, que se
trata de uma criatura e ordem
divina, que é nessa vida para nós
homens, uma ordem e estado necessários e que nós tampouco podemos dispensar, como a própria
vida. Pois, sem. essa ordem, a vida não pode permanecer; assim,
é fácil levar em conta que Deus
a ordenou e instituiu, não para
que desmorone, mas para que
seja mantida, como está claro em
Rm 13.4 e 1 Pe 2.13,14, que ela
deve proteger os piedosos e punir
Os maus"33.
O que chama a atenção é a pala~
vrinha "wir" (nós). Lutero é cristão
e escreve a cristãos. Escreve a cristãos e salienta a importância fundamental de eles acatarem o regimen-'
to do mundo como instituído e sustentado por Deus, e ainda mais, exorta a que os cristãos proporcionem a
seus filhos que eles estudem e se
tornem colaboradores dentro desse
regimento do mundo. Para quem vive no séc. XX, talvez isso pouco
signifique, mas para o agricultor, o
camponês, o pequeno comerciante do
séc. XVI estava ocorrendo uma re\',lução, permita-se o termo, copernicana. Aquele que era considerado como de segunda classe pela Igreja de
Roma, passa a sentir-se como filho
de Deus, nas circunstâncias em que
vive, serve a seu Deus e está. para
-:::ambém quer manter
~.:=.::eiraalguma se pode
" onde ela não exis~: :=oderia nenhum ho,~::~S1ecer diante do ou. -:2::-iade devorar o ou=. ::mo fazem os animais
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a a sentir-se como filho
circunstâncias em que
s. seu Deus e está. para
o
ele assim como "o papa e o monge.
que se flagela, serviam a Deus". E
o cristão vive e age dentro do regimento do mundo, não porque é prérequisito de alguma coisa, mas porque vive uma vida dedicada a Dew
e a seu próximo. Como, através do
regimento do mundo, Deus evita rue
os homens devorem-se mutuamente.
em decorrência, aumenta a probahilidade do cristão servir a seu próximo que não vive dentro do reO'imento espiritual, nem dentro dê) Pgperança desse último, bem como levar a ele a Palavra.
CONCLUSÁO
Quando se estuda detalhadamentc
o que diz Lutero a respeito do:; doi~
reinos, ou regimentos. seria de se es'
perar que, ao final, fosse feita um a
suma de seu pensamento, com definições claras, delimitações estabeJecidas, enfim, um pequeno e conci'o
relato Que diria: isso é característica
do regimento do mundo, isso é cara0terística do regimento espiritual'
-"flui situa-se a fronteira de ambos; o
flue vai além não compete mais 8
este. ou, aquele está entrando no
território do outro, etc. Mas BOTl"lkamm reconhece a dificuldade:
"Trata-se de uma questão difícil
para Lutero - primeiro, do ponto-de-vista do estado, desde qne
ele livrou o governo secular de
qualquer
vestígio de guarda
eclesiástica e, enfaticamente, ensinou a diferença entre as esft'ras espiritual e secular da vida.
Segundo, do ponto-de-vista da
igreja. Com essa diferenciaçi'ío
ele assinalou distinção e independência do governo secular, não
apenas para com a igreia, a qual
olhou como uma entidade rea',
puramente espiritual, a saber, a
comunh2.o dos santos sob sua cabeça, Cristo, mas também à empírica comunidade cristã. Embo·
ra Lutero não trace uma linha de
demarcação entre a comunidade
civil e a comunidade da igreja.
ele todavia separou acuradamerte a iurisdição de cada uma".
E J. R. Loeschen afirma:
" ... não há dois reinos. Há apenas o reino de Deus. Apenas
quando o reino de Deus se torna
presente e ativo, alguma coisa
começa a aparecer como algo
mais. E o algo mais é, então, mostrado como um reino que não é
o reino de Deus, e que, como reino do mundo, não é oposto ao
reino de Deus, mas também se
contradiz" .
A única alternativa, então, passa
a ser colocar os pontos principais e
de maior interesse dentro do contexto, mostrando onde Lutero é suficientemente claro, onde ele, realmente, tenciona sublinhar algo re··
lacionado à chamada doutrina dos
dois reinos.
Em primeiro lugar, não são duas
forças contrárias, que se chocam e
estão em atrito, espécies de corporacões, uma do bem e outra do mal.
Foi visto Que, nem Lutero. mui+o
menos os teólogos que mais o influenciaram, A)2:ostinhoe Occam, jamais diss~ram algo parecido. Talvez
muitos quisessem ver isso em Lute1'0, como
entusiastas, camponeses,
príncipes, anabatistas, pietistas, lute1'anos e até missourianos. Muito peJo
contrário, ambos são criação de Deus
e cooperam para o bem do mundo e
da humanidade. N. Beck consegue
ser extremamente claro e conciso
aqui:
137
"Os estudiosos de Lutero inclusive não gostam de usar o termo
"reinos",
preferindo
"regimentos". para sublinhar o aspecto dinâmico dessas duas maneiras de
Deus agir na história da humanidade. Pois este é o ponto: os
dois regimentos, o espiritual e o
mundano, são nada mais e nac1a
menos que duas maneiras distintas do mesmo Deus agir no mundo caído, para impedir Que a"
forças do mal acabem com a esnécie human~ e para 'salvar' o
homem pecador"36.
Em segundo lugar, qual é o valor
Que isso tem para a igreja hoje? E
para o membro da IELB dentro dn
contexto, dentro da situacão em O1Je
se encontra neste país da América
J atira?
Pode ele considerar
como
ensino da Escritura, de Lutero, Que
ele se abstenha de atuar como líder
dentro do regimento do mundo? Que
ele se feche, que f'e recolha .a um
('anto. abraçado à sua Bíblia e a seu
hin,srio,;ulgando
Que tudo vai bem
na "ilha de Vera Cruz"? Sabe ele
que tem responsabilidades
para com
o seu próximo que sofre, e que é
vontade de Deus que aqueles que encabeçam ::l autoridade secular, divin31"'1ente instituída. sejam fiéis e verd90eiros cristi'íos. Que conhecem a verdadeira Palavra? Será que os pastores ensinam a seus membros, a seus
confirmandvs, que o novo homem do
cristão não necessita do regimento da
espada, mas que o cristão perdoado
ap'e dentro dele porque tem amor
pelo seu próximo que nfo conhece a
Cristo, mas que também faz parte
da criação de Deus?
Note-se bem, ninguém está defendendo qualquer
posição (lUe possa
chamar-se, ou fazer parte da teologia
da libertação. Aliás, o nome não vem
ao caso. Interessa, na verdade, Que
aqui seja reconhecida
a verdadeira
atuação que Deus quer de seus filhos.
Que essa concepção pietista de se
considerar o regimento do mundo romo "mundano", do diabo. que alL6s
não leva apenas ao comodismo, mas
também ao pecado, seja condenada
e se preQ:ue cada vez mais dos PÚIDitos, se ensine nas salas de aula aqút10 que Deus revela na Escritu"a
a
respeito de sua criação e do que ele
quer que ela faça.
NOTAS
BIBLIOGRÁFICAS
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to his thought. P. 175.
2. Bornkamm
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world
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109.
6. De. Civitate Dei, XV, 1,55/Corpus
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7. S.eeberg, Lehrbuch
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V. 3. p. 794.
8. Occam. in Library of Christian
Classics. P .438.
9. Occam. OP. cito 4. 440.
10. Occam, OP. cito P. 440.
11. S.L. 10, 364.
12. S.L. 10, 365.
13.
14.
15.
16.
17.
18.
19.
20.
21.
22.
23.
24.
S.L.
S.L.
S.L.
WA,
WA,
S.L.
S.L.
S.L.
S.L.
S.L.
S.L.
S.L.
10. 365.
10, 367.
10, 368.
Br 2, 600;
10 II!, 341-352, 371-399.
10, 378-9.
10, 383-4.
10, 382.
10, 381.
10, 385.
10,385.
10, 395.
26.
27.
28.
29.
30.
S.L. 10, 490.
S.L. 10,492.
S.L. 10,493.
S.L. 10,496-7.
WA 15, 27-53 e S.L.
25. S.L. 10, 381.
10,458-485.
~. ~oSd, na verdade, aue
: :::-_-'-',ecidaa verdadeira
=-=~:squer de seus filhos.
,.-~:epção pietista de se
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ao comodismo, mas
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; BIBLIOGRAFICA8
: =-'ltber: An introduction
-'
D. 175.
Luther's
wor1d of
==.
31. S.L. 10, 440.
32. S.L. 10. 439.
33. S.L. 10,440.
34. Bornkamm, op. cit, p. 250.
35. Loeschen, Wrestling with Luther.
P. 160.
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J 983. P.
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=-uthers Lehre von den
,.c
~:-_
172.
D.
-"
História
da. Teologia,
-~:e Dei, XV; l,55/Corpus
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325.
",26-7.
:--53 e S.L.
10,458-485,
DE QUEM SÃO OS OSSOS?
No momento em que o mundo inteiro está interessado em saber se os
ossos exumados do cemitério de Embu, no Estado de São Paulo, são os
do médico nazista J osef 1\1engele,
tristemente famoso por suas bárbaras experiências no campo de concentraç'io de Auschwítz, na Polônia,
Ultimato publica um caso semelhante. mas muito mais sério.
Em 1970, ar0ueólogos israelenses
descobriram os restos de um homem
que teria morrido crucificado no prirneiro século da era cristã. Os ossos
foram achados numa caverna em encosta próxima a Jerusalém,
Junto
com o esqueleto havia um cravo que
traspassava os ossos dó calcanhar.
Na época, os céticos passaram a especular - Seriam de Jesus Cristo
estes restos mortais? O então Dire-
tor do Departamento Israelense de
Antigüidades e Museus, Dr. Avraham
Biran, explicou imediatamente oue
"as probabilidades estatísticas contra
esta possibilidade eram esmagadoras". O ossuário que preservava o esqueleto em causa trazia a inscric~o:
"Jehohannam Ben ... " A última palavra não estava nítida, mas parecia
algo como Haskol ou Ezequiel (não
o profeta). Ora, Ren, em hebraico,
significa ".filho de". Assim, a inscrição identificou o esqueleto como o de
J ehosannam, filho de Ezequiel, ou
31guém com outro nome aproximado.
Embora bastante deteriorados, 03
ossos de Jehohannam, segundo os
cientistas, seriam de um homem de
cerca de 24 a 28 anos, com uma leve
deformação na cabeça, devido, DOSsivelmente, a urna má nutrição ~etal
139
no ventre matemo ou a uma dificuldade no nascimento. O arqueólogo
Vasilius Tzaferis, um dos escavadores do cemitério, disse que J ehohannam teria sido crucificado aproximadamente no ano 70 da era cristã, quando os judeus se rebelaram
durante o cerco romano.
J ehohannam teria sido crucificado
numa posição algo diferente do conceito tradicional: suas pernas foram
torcidas para um lado e dobradas
nos joelhos. O calcanhar foi atravessado com um simples cravo de ferro
de cerca de sete polegadas. Entretanto, ao penetrar na madeira, encontrou um nó, que entortou o cravo de
tal maneira que os executores foram
incapazes de removê-Ia mais tarde.
Eles então cortaram o pé acima do
tornozelo. Parentes ou amigos do jovem crucificado teriam colocado o pé
amputado num ossuário de pedra calcária de 1m x 65cm x 65 cm, junto
com o resto do corpo e o de uma pequena criança.
Os cientistas que fizeram esta descoberta são unânimes em concordar
em que não há a menor chance destes ossos serem de Jesus Cristo. Se
fossem, milhões e milhões de almas
teriam a maior amargura e decepção
de suas vidas. O apóstolo Paulo seria
o primeiro a declarar: "Se Cristo não
ressuscitou é vã a nossa pregação e
vã a vossa fé" (1 Co 15.14). Mas
de fato Cristo ressuscitou dentre os
mortos e ninguém o achará entre estes.
O incidente de Jerusalém corrobora uma palavra de Jesus: "Haveis de
procurar-me, e não me achareis" (Jo
7.34). Qualquer pessoa tem literdade de procurar o corpo ou, no caso,
Os restos mortais de Jesus. Muitos
já o tentaram. Qualquer pessoa pode
continuar a fazê-lo, se o quiser. O
140
resultado é que não será satisfatório
nem diferente dos anteriores. Assim
como 50 homens, pelo espaço de três
dias, insistiram em procurar o conJO
de Elias e não o acharam porque foi
elevado ao céu, Jesus jamais será localizado (1 Re2.15-18).
Simplesmente porque, depois de ter padecido, se apresentou vivo com muitas
provas incontestáveis, aparecendolhes durante quarenta dias ao cabo
dos quais foi também elevado às aI
turas, à vista dos discípulos. É lá que
ele está e, não, aqui.
Os ossos de Jerusalém não são
de Jesus
A propósito do esqueleto exumado
em Jerusalém, W. F. Dankenj~er1.
do Ambassador College, na Califórnia, EUA, apresenta as seguintes provas bíblicas e lógicas contrárias f1
tola especulação dos céticos de Que
aqueles restos mortais poderiam ser
de Jesus:
1. Cristo não permaneceu na sua
sepultura. Seus primeiros seguidores,
às centenas, foram testemun"has
oculares da sua ressurreição dentre
os mortos (Mt 28.1-10; Mc 16.1-9: Lc
24.1-12; Jo 20.1-17). Os discípulos
não encontraram seu corpo na se·pultura - estava vazia!
2. Cristo tinha 33 anos de idadp
quando o crucificaram - e nqo 24-28
anos. (Ele tinha cerca de 30 anos
quando seu ministério de 3 anos e
meio começou - Lucas 3.23).
3. Os ossos de J ehohannam foram ouebrados quando seu pé foi amputado, mas nenhum osso de Jesus
foi quebrado (Jo 19.31-37).
4. O jovem Jehohannam recebeu
as tradicionais "pancadas" nas quais
ambas as nernas foram quebradas
para apressar a sua morte; mas os
Jue não será satisfatório
::.te dos anteriores. Assim
=::ens, pelo espaço de três
:::"m em procurar o conJO
"20 o acharam porque foi
léu, Jesus jamais será 10Re 2.15-18).
Simple~,.'=', depois de ter padeci':=ntou vivo com muita~
:~,testáveis,
aparecendo:= quarenta dias ao cabo
também elevado às aI·
:" dos discípulos. É lá que
~,ão, aqui.
::i
, Jerusalém não são
soldados não fizeram isto com Cristo.
Ao invés, o seu lado foi perfurado e
ele morreu pela perda total de seu
sangue! (Jo 19.31-37, Is 53.12.)
5. J ehohannam
possuía feições
delicadas
de quem aparentemente
nunca fizera muito trabalho duro;
contudo, Cristo trabalhou duro como
carpinteiro até aos 30 anos de idade
(Lc 3.23, Mc 6.3). Durante seu ministério andou por toda a J udéia pregando o evangelho. Dormiu ao ar libre muitas vezes. Sem dúvida nenhuma, portanto, Cristo era um homem
robusto, forte, masculino
e
musculoso - de maneira nenhuma
"delicadú" ou de aparência "femini-
na"!
:~::.do esqueleto exumado
-o-m. W.
F. DankenJ-er't.
").Dr College, na Califór-::resenta as seguintes proõ
e lógicas contrárias
il
~::.ção dos céticos de que
::5 mortais poderiam ser
não permaneceu na sua
'::'-"s primeiros seguidores,
::'0.
foram
testemunl1as
sua ressurreição
dentre
:\ít 28.1-10; Mc 16.1-9: Lc
20.1-17). Os discípulos
'~am seU corpo na sepul-
::":a vazia!
: ~inha 33 anos de idadp
-,.:ificaram - e ni'io 24-28
-:,11a cerca de 30 anos
:-r:inistério de 3 anos e
.::.: - Lucas 3.23).
-:::5 de Jehohannam
fo=:s auando seu pé foi am:r:enhum osso de Jesus
: iJO 19.31-37).
-:-=::Jehohannam recebeu
:c: õ "pancadas"
nas quais
:::~as
foram quebradas
::.::-a sua morte; mas os
.õ
6 . O esqueleto
de J ehohannam
revelou uma leve fenda palatina
e
uma ligeira deformação
do crânio
devido possivelmente a uma má nutrição no ventre materno. Mas, Cristo tinha saúde perfeita e era sem
mácula ou defeito. Ele era o cumprimento da ovelha sacrificial sem mácula da Páscoa (Éx 12.5).
Não há
nenhuma evidência na Escritura de
que Cristo tenha sofrido de qualquer
defeito físico. Seus pais obedeciam
as leis de saúde estabelecidas
por
Deus e seus filhos foram robustos e
sadios (Mt 1.19; Lc 1.26-38; 2.39-40).
7 . Jesus nunca foi c-hamado pelo
nome de Jehohannam
ou algo similar. Seu nome hebraico era Joshua
(algumas vezes pronunciado
Jehoshua), que traduzido é Jesus, significando "Salvador" (Lc 2.21, Hb 4.8).
8. O corpo de Jesus foi sepultado
na sepultura de um homem rico, escavada numa rocha próxima ao Gólgota, com uma grande porta circular
de pedra (Mt 27.57-60). Contudo, os
ossos de J ehohannam foram encontrados a mais de uma milha ao norte
do "Portão de Damasco", em J eru-
salém, numa pequena caixa de pedra
calcária.
9. Cristo foi sepultado sozinho.
Mas os arqueólogos encontraram
os
ossos de uma criança de 3-4 anos junto aos ossos de J ehohannam.
10. O corpo de Cristo foi enrolado em linho e colocado na sepultura;
não foi colocado em um ossuário de
pedra ca1cária (Mt 27.59, J o 20. 5~'7).
Todas as evidências bíblicas e arqueológicas, consideradas com cuidado mostram claramente que o corpo
de Jehohannam é simplesmente o de
um jovem malfeitor, crucificado no
I') século AD.
Naqueles tempos a
crucificação era um método muito
comum de punição para criminosos.
O historiador judeu Josefo diz que
durante o cerco de Jerusalém pelos
romanos, no ano 70 AD, todos os dias
eram crucificados 500 judeus nos arredores da cidade. Ele escreveu: "Os
soldados por motivo de vingança e
ódio aos judeus, crucificavam aqueles que a2;arravam,
das maneiras
mais diversas, por motivo de brincadeira, e a quantidade era tão grande que faltava lugar para as cruzes
e cruzes para os corpos" . (V ej a
Guerra dos Judeus, Livro V, capítulo
XI, parágrafo 1.)
A morte pela tortura da crucificacão estava em vigor naqueles
dias
~ruéis. Jehohannam,
como muitos
outros, perdeu sua vida desta forma
horrível. Mas o seu corpo não é o
de Jesus Cristo, o Salvador e Redentor de toda a humanidade,
que ressuscitou da morte e está hoje à direita de Deus (Hb 7.24-25, Ap 3.21).
Tradução de José Cambraia, professor de Biologia Celular da Universidade
Federal de Vicosa e membro da Diretoria do Centro Evangélico de Missões
(CEM), da revista Tomorrow's World,
abril de 1971.
141
COMENTÁRIOS
ALBANIA
A morte do Primeiro-ministro
da
Albânia, Enver Hoxha, aos 76 anos,
em abril último, traz à lembrança as
medidas anti-religiosas por ele tomadas durante os 40 anos de seu governo, especialmente desde 1964. Hoxha
tinha 59 anos quando proclamou, em
outubro de 1967, que a Albânia era
"o primeiro estado ateista do mun··
do". Neste mesmo ano, o jornal 0.1banês "Nendori" relatava que o governo havia confiscado e secularizado 2 .169 mesquitas, igrejas e conventos. O clero foi abolido e os sacerdotes foram convidados a realizar um
"trabalho produtivo". A catedral de
Tirana foi fechada em 1969. A catedral de Shkoder, ao norte do país,
próximo à fronteira com a Iugoslávia, tornou-se um centro de esportes
e a casa do arcebispo, hotel para
atletas. Todas as cruzes e inscrições
religiosas foram retiradas dos cemitérios.
No lugar onde se ofereceu
maior resistência à campanha anti142
religiosa,
abriu-se
um museu
de
ateísmo. Em 1972, o sacerdote católico Shjefen Kurti, de 70 anos, internado num campo de trabalho em
Imhnje, no centro do país, foi executado
por haver
batizado
uma
criança. A Rádio Tirana confirmou
a execução, acusando-o de espionasem para o Vaticano, Grã Bretanha
e EUA. Calcula-se que 74,1% da população da Albânia é atéia ou não
pratica religião alguma.
Os demais
são na sua maioria
muçulmanos
(20,5%). Há poucos cristãos (5,4%),
entre católicos ortodoxos, católicos
romanos e uns poucos protestantes
(especialmente
adventistas
e metodistas). Enver Hoxha dizia que "a
Única· religião dos albaneses é o 0.1banismo". Só mesmo por um milagre
de Deus a situação poderá mudar. A
Rádio Trans Mundial transmite um
Drograma de 30 minutos por semana
Dara a Albânia. ("Ultimato",
Junho
1985).
* *
A VENDA DE BíBLIAS
: - ::-i:.l-se um museu de
:..-.~2i2, o sacerdote cató. ::-:'.:_rti,
de 70 anos, inter_:<,lpO de trabalho em
:,õr-:.trodo país, foi exe:Caver batizado uma
:,,,3.io Tirana confirmou
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Grã Bretanha
-. __-,o-seque 74,1% da po_':_~::âniaé atéia ou não
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* *
Está aumentando e se tornando
um bom negócio. Nos EUA, as vendas excedem a marca dos 600 milhões de dólares, segundo o "The
New York Times". Uma tradução livre da Bíblia, chamada "The Book",
está se transformando num verdadeiro best-seller: mais de um milhão
de cópias vendidas e a previsão de
venda de outro milhão nos próximos
meses. Diante desse boom de vendas, começam a surgir polêmicas
diante da proliferação de versões e
traduções em inglês, que já atingem
várias dezenas. Qual é a verdadeira
Bíblia ou qual é a Bíblia correta, são
perguntas que se fazem nessa situação. A revista "The Atlantic
Monthly" publicou um artigo de
Barry Hoberman onde ele afirma que
o ponto que se sobressai na polêmica
é a crescente sensibilidade para se
combater uma linguagem "sexista",
"patriarcal" e "machista", o que conduz à discussão sobre o gênero da
palavra Deus, se masculino ou feminino. (Leia Livros - maio/85).
*
>I<
JOVENS VICIADOS EM DROGAS
FUI\TDAMUMA ENTIDADE PARA
COMBATER O VíCIO
Em J acarezinho, no Estado do Paraná, um grupo de jovens viciados
em drogas resolveram fundar uma
associação -::m que se pudessem livrar do próprio vício e oferecer a
outros viciados essa mesma oportunidade. Juntaram-se ... e surgiu a
CADD - Comunidade de Assistência
aos Dependentes de Drogas.
A CADD tenta provar, concretamente, que "com muita vontade, tra-
balho e oração, qualquer pessoa pode tentar se livrar do vício: seja de
drogas, maconha ou alcoolismo, e
voltar a ter uma vida normal na sociedade".
O principal trabalho que o grupo
de jovens vem realizando está no
campo da recuperação de viciados.
Eles o fazem na "Fazenda Bom Jesus", a 12 quilômetros de J acarezinho, cedida por uma congregação de
padres. Trata-se de uma espécie de
internato, onde há trabalho, recreação, cultivo de amizade, muita alegria e oração. Nesse lacaIos viciados
iícam durante nove meses, sendo
que, nos primeiros seis meses, eles
lHO mantêm nenhum contato com a
cidade, recebendo visita dos familiares apenas uma vez por mês. Só nos
três últimos meses é permitida uma
visita mensal a suas residências.
Os jovens da CADD, através de
sua experiência, estão convictos de
que o trabalho e a oração são os fatores mais importantes para a recuperação dos viciados.
Dizem que
"nem psicólogo nem psiquiatra consegue algum resultado sem essas
duas coisas". Acrescentando: "O trabalho entretém a pessoa e a oração
dá força para operar a regeneração
do viciado". ("O Lutador", Belo Horizonte, 22/85).
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CIÊNCIA DOCUMENTA O
DILÚVIO.
Não é só a Bíblia que fala do Dilúvio Universal, o ambiente da Arca
de Noé. A tradição oral de inÚmeros
povos, transmitida de geração em geração, relata a experiência de uma
terrível inundação. Na Índia, entre
os aborígenes da Austrália, na Li143
tuânia, na Caxemira, na Grécia, entre as tribos da Polinésia e os indígenas americanos existem relatos
deste tipo.
E comprovações científicas feitas
no fim do século passado pelo professor George Smith, do Instituto
Britânico, documentariatn o fenômeno. A biblioteca de Assurbanipal, em
Ninive, conteria informações e referências ao Dilúvio. Até também o
professor encontrou um prisma de
barro com os nomes de dez reis gravados. Ao final da lista, uma inscrição afirmava que "então o dilúvio
destruiu aTerra".
Estudos arqueológicos posteriores
também comprovariam a história.
Nas margens dos rios Eufrates e Tigre, na Mesopotâmia, sucessivas escavações mostram que, a dois metros
de profundidade, as camadas de sedimentos são o produto de uma gran-
de inundação na zona. Além disso,
os restos encontrados nesta profundidade seriam expressão de uma civilização inteiramente diferente da
que deixaram traços nas camadas
superiores.
Cálculos contemporâneos asseguram a exis1:ência de 80 mil obras, etn
72 idiomas diferentes, nas quais está
presente de maneira determinante o
tema do dilúvio. E setenta mil delas
falam de um "navio estranho", obviamente uma referência à arca.
O monte Ararat, citado na Bíblia
como o lugar em que ficou a Arca
de Noé, tem 5.165 metros de altura,
e fica na fronteira da Turquia com
a União Soviética, ao norte e Irã ao
Sul. Os turcos o consideram uma
montanha sagrada.
("Zero Hora",
29/08/84)
* *
ÍNDICE
ESTUDOS
-
"Eu vos escolhi"
O Evangelho segundo São Paulo
A doutrina dos dois reinos em Lutero
De quem são os ossos?
. pág.
.
.
.
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109
125
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COMENTARIOS
- Albânia
- A venda de Bíblias
- Jovens viciados em drogas
- Ciência documenta o DilÚVio
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