entrevista Texto e fotos: Marcio Jumpei Nos próximos dois anos a Abag – Associação Brasileira de Aviação Geral atuará sob a batuta de Francisco de Assis Souza Campos Lyra. Formado administrador, foi piloto da Vasp na década de 80 e depois seguiu carreira na aviação executiva. Do táxi aéreo Flamingo passou pelo BMC, onde foi piloto chefe e chegou até ser diretor de marketing daquele banco. Na sua carteira o registro de equipamentos voados é extenso, sendo que o mais recente foi o Gulfstream G550. Com essa máquina deteve o recorde de voo mais longo de uma aeronave executiva da América Latina fazendo uma etapa de São Paulo à Moscou em 14h15m. Lyra, como é mais conhecido no meio, não representa nenhuma marca específica de aeronave, como também não tem vínculos com alguma empresa aérea. É a novidade da nova gestão que vai ter muito trabalho pela frente. Acertando o prumo HiGH - É a primeira vez que a Abag tem como presidente, um nome que não é ligado diretamente com alguma marca ou companhia aérea. O que isso influencia no cotidiano da Abag? LYra - Eu acho que a Abag tinha que ganhar maior representatividade no segmento de operadores de jatos executivos. Temos um universo de 700 a 800 operadores mas com uma representação muito pequena no número de associados. Já entre os representantes de fabricantes e oficinas de manutenção é o oposto, praticamente todos são associados. Então sentimos que a Abag tinha que entender mais essa comunidade, entender quais eram suas demandas e o que a Abag precisava fazer para que eles percebessem valor na associação. E a figura do operador, que eu represento, tem muito a ver com isso. Existe uma demanda por o acesso ao espaço aéreo, acesso ao aeroporto. HiGH - O que você quer dizer como demanda e acesso? LYra - Existia uma política equivocada do governo em que eles entendem que a aviação comercial regular, por transportar um número maior de passageiros, ela atende o interesse público, da nação. E a nossa visão é exatamente crítica com relação a isso, pois um ou dois passageiros a bordo de um jato executivo, indo para uma cidade remota, não servida por linha regular, podem ser as pessoas que vão decidir sobre um grande investimento na Região. Esse que pode gerar milhares de empregos diretos ou indiretos, prevenir a emigração, deve ser encarada como de interesse público. E aviação executiva precede o desenvolvimento. Então hoje acho que há uma grande deficiência da nossa comunidade em não comunicar isso adequadamente. O governo, a sociedade, não percebe o quanto importante é a aviação geral para o desenvolvimento do país. Se hoje temos 5.560 municípios dos quais apenas 130 são servidos por linhas regulares, então o único transporte aéreo que chega nessas cidades é o da aviação geral. E esse é que leva o capital produtivo, porque inevitavelmente o capital está relacionado aos grandes centros financeiros, o investidor reside nos grandes centros. Então se não facilitarmos o trânsito desse investidores entre um grande centro e uma região remota do país, de certa forma a gente a condena ao não acesso aos investimentos. HiGH - Qual é a principal meta, a lição de casa mais imediata que a Abag tem que cumprir? LYra - A questão de taxas é importante, o preço dos combustíveis. Você sabe que a aviação geral paga um preço várias vezes superior por litro do o que a aviação regular paga. Para você ter uma idéia, o litro do 69 entrevista Agora o discurso refere-se a importância para o país que os empresários tenham um avião. Porque se dependermos do investimento estatal para desenvolver os outros 5.400 municípios que não tenham acesso à aviação, esses estarão condenados ao subdesenvolvimento, jamais terão acesso ao capital. querosene de aviação sai da refinaria por R$ 1,00, uma companhia aérea compra esse combustível por R$ 1,60, na aviação geral esse valor chega a R$ 3,40. HiGH - Mas também é por quantidade, né? LYra - Não é só por quantidade, é por política de estado. Se é o segmento que não é percebido pelo estado como relevante, fundamental, para o desenvolvimento do país, então ele cai na vala comum do tratamento indiferenciado, não é priorizado. Mas a gente vê o Presidente Lula viajando diversas vezes ao exterior numa estratégia de convencimento dos investidores virem para o Brasil, não para ser capital especulativo que não é do interesse do governo (tanto é que se taxa com o IOF), mas como investimento produtivo, daquele que vai trazer uma fábrica. Muito bem, esse empresário ouve uma preleção sobre o Brasil, ouve na mídia que é um país de oportunidades. Então ele decide visitar o país e 99 % desses empresários vem em aeronaves privadas, porque economicamente faz sentido em função do salário que ele ganha e o seu custo por hora. Esse executivo chega ao Brasil e de imediato é recebido com hostilidade. Essa vem da Polícia Federal, da Receita Federal, da autoridade aeroportuária e de aviação. HiGH - Você diz hostilidade em que sentido? LYra - Hostilidade na medida em que ele é visto, talvez por um agente da Polícia Federal que não foi adequadamente brifado, como alguém que só pretenda ter algum benefício, algum privilégio. Ele se pergunta o por quê esse sujeito passaria na frente da fila de chegada. O agente acaba é colocando o executivo no final da fila de 800 passageiros desembarcados dos últimos três Jumbos que chegaram no aeroporto. Enquanto que em qualquer país do mundo, esse executivo realmente passa na frente de todo mundo, porque ele é visto pelo estado como alguém de interesse da sociedade, assim como um político visitante passa à frente em certas circunstâncias, o empresário visitante passa à frente também, porque não é ele que está vindo para cá. 70 | jan • fev | 2010 HiGH - Ultimamente, houve relatos de problemas no Ger 4, você vai pedir um recheque de carteira e o processo é demorado levando a pessoas a deixar de trabalhar, ou pior, causando situações em que um piloto que está com pendências na carteira, use os documentos, se passe por outra pessoa na fonia. O que a Abag tem feito para resolver esse problema? LYra - Eu acho que esse problema é decorrente da falta de foco da Anac em tudo que não é aviação comercial. Então estamos fazendo gestões junto a Anac para ela entender o que é a aviação geral. De entender que se eles não aloca- HiGH - Recentemente houve muita discussão sobre o assunto do fechamento do Campo de Marte, mas o que se viu foi que as ações para combater essa decisão foram muito tímidas com relação ao tamanho do problema. O que a Abag pode fazer para se tornar, a ter um peso mais decisório na solução de problemas desse tipo? LYra - Em tese os empresários que operam aeronaves são pessoas influentes, potencialmente a ter um grande poder influenciador em Brasília. Mas você não vê nenhum desses empresários defendendo seu avião. E eu vejo que possa ser uma falha da Abag, nós não o suprimos com toda a argumentação para ele ter segurança em afirmar que ao usar uma aeronave executiva, ele está agindo no interesse da nação. Então ele tem o receio de ser confundido com uma pessoa que está num iate de luxo ou numa Ferrari. De certa forma nós permitimos que a aviação geral fosse confundida, e acho difícil mesmo justificar que uma Ferrari te levando ao trabalho seja de interesse da nação. Não há como enxergar dessa forma que esses equipamentos possam ser uma possibilidade real de ser uma ferramenta de trabalho, e a aviação é. HiGH - Mas nesse sentido, quais tem sido as ações da ABAG para que essa compreensão seja relevada no governo e na sociedade? LYra - A grande mudança na Abag é a de discurso. Ou seja, nós sempre defendemos a importância para o empresário ter uma aeronave. rem recursos para essa aviação, soluções esdrúxulas como a de ver pilotos voando sem renovar as suas licenças. HiGH - A Abag fez alguma proposta para solucionar esse problema? LYra - A Abag não tem meios de fazer propostas a não ser a de pedir à Anac que olhe esse assunto e aloque recursos humanos e orçamentários. HiGH - Então o que poderia ser feito para que a Abag tenha mais poder de sugestão? LYra - O grande dilema da Abag é de se comunicar efetivamente. Comunicar os anseios da nossa comunidade. Então com a minha presença como operador é exatamente para poder afunilar todas essas demandas e encaminhá-las. Então o poder da Abag será o do convencimento, de se transformar na voz de dezenas ou milhares de profissionais que são afetados por decisões tomadas em gabinetes. HiGH - E por que esse operador não chega a Abag para reclamar, para pedir sugestões? LYra - Porque eu acredito que a Abag não estava conseguindo sensibilizar esse operador de que nós iríamos ser efetivamente seu porta voz. E olhe que pelo meu convívio eu sei que a Abag faz muito perante seus atuais recursos. Mas de certa forma, não estávamos sensibilizando os operadores a se associar em grande número, e isso é uma deficiência que a nova gestão está tentando reverter. Ver o que essa comunidade espera da sua associação. Existem problemas na certificação das licenças, também no acesso ao espaço aéreo, no acesso aeroportuário. Existem aeroportos onde a presença da aviação geral é vista como indesejável, como por exemplo, em Congonhas. HiGH - Marte.. LYra - Em Marte ela agora não é vista como indesejável, mas existe uma solução radical de eliminar o Campo de Marte. Alguns dizem que ele deveria ser transformado em um parque para a população, mas temos outras grandes áreas na cidade como o autódromo de Interlagos que ninguém questiona se ele deveria ser transformado em um parque. De certa forma, a sociedade percebe as atividades automobilísticas como relevantes, mas não está percebendo entrevista Agora o discurso refere-se a importância para o país que os empresários tenham um avião. Porque se dependermos do investimento estatal para desenvolver os outros 5.400 municípios que não tenham acesso à aviação, esses estarão condenados ao subdesenvolvimento, jamais terão acesso ao capital. querosene de aviação sai da refinaria por R$ 1,00, uma companhia aérea compra esse combustível por R$ 1,60, na aviação geral esse valor chega a R$ 3,40. HiGH - Mas também é por quantidade, né? LYra - Não é só por quantidade, é por política de estado. Se é o segmento que não é percebido pelo estado como relevante, fundamental, para o desenvolvimento do país, então ele cai na vala comum do tratamento indiferenciado, não é priorizado. Mas a gente vê o Presidente Lula viajando diversas vezes ao exterior numa estratégia de convencimento dos investidores virem para o Brasil, não para ser capital especulativo que não é do interesse do governo (tanto é que se taxa com o IOF), mas como investimento produtivo, daquele que vai trazer uma fábrica. Muito bem, esse empresário ouve uma preleção sobre o Brasil, ouve na mídia que é um país de oportunidades. Então ele decide visitar o país e 99 % desses empresários vem em aeronaves privadas, porque economicamente faz sentido em função do salário que ele ganha e o seu custo por hora. Esse executivo chega ao Brasil e de imediato é recebido com hostilidade. Essa vem da Polícia Federal, da Receita Federal, da autoridade aeroportuária e de aviação. HiGH - Você diz hostilidade em que sentido? LYra - Hostilidade na medida em que ele é visto, talvez por um agente da Polícia Federal que não foi adequadamente brifado, como alguém que só pretenda ter algum benefício, algum privilégio. Ele se pergunta o por quê esse sujeito passaria na frente da fila de chegada. O agente acaba é colocando o executivo no final da fila de 800 passageiros desembarcados dos últimos três Jumbos que chegaram no aeroporto. Enquanto que em qualquer país do mundo, esse executivo realmente passa na frente de todo mundo, porque ele é visto pelo estado como alguém de interesse da sociedade, assim como um político visitante passa à frente em certas circunstâncias, o empresário visitante passa à frente também, porque não é ele que está vindo para cá. 70 | jan • fev | 2010 HiGH - Ultimamente, houve relatos de problemas no Ger 4, você vai pedir um recheque de carteira e o processo é demorado levando a pessoas a deixar de trabalhar, ou pior, causando situações em que um piloto que está com pendências na carteira, use os documentos, se passe por outra pessoa na fonia. O que a Abag tem feito para resolver esse problema? LYra - Eu acho que esse problema é decorrente da falta de foco da Anac em tudo que não é aviação comercial. Então estamos fazendo gestões junto a Anac para ela entender o que é a aviação geral. De entender que se eles não aloca- HiGH - Recentemente houve muita discussão sobre o assunto do fechamento do Campo de Marte, mas o que se viu foi que as ações para combater essa decisão foram muito tímidas com relação ao tamanho do problema. O que a Abag pode fazer para se tornar, a ter um peso mais decisório na solução de problemas desse tipo? LYra - Em tese os empresários que operam aeronaves são pessoas influentes, potencialmente a ter um grande poder influenciador em Brasília. Mas você não vê nenhum desses empresários defendendo seu avião. E eu vejo que possa ser uma falha da Abag, nós não o suprimos com toda a argumentação para ele ter segurança em afirmar que ao usar uma aeronave executiva, ele está agindo no interesse da nação. Então ele tem o receio de ser confundido com uma pessoa que está num iate de luxo ou numa Ferrari. De certa forma nós permitimos que a aviação geral fosse confundida, e acho difícil mesmo justificar que uma Ferrari te levando ao trabalho seja de interesse da nação. Não há como enxergar dessa forma que esses equipamentos possam ser uma possibilidade real de ser uma ferramenta de trabalho, e a aviação é. HiGH - Mas nesse sentido, quais tem sido as ações da ABAG para que essa compreensão seja relevada no governo e na sociedade? LYra - A grande mudança na Abag é a de discurso. Ou seja, nós sempre defendemos a importância para o empresário ter uma aeronave. rem recursos para essa aviação, soluções esdrúxulas como a de ver pilotos voando sem renovar as suas licenças. HiGH - A Abag fez alguma proposta para solucionar esse problema? LYra - A Abag não tem meios de fazer propostas a não ser a de pedir à Anac que olhe esse assunto e aloque recursos humanos e orçamentários. HiGH - Então o que poderia ser feito para que a Abag tenha mais poder de sugestão? LYra - O grande dilema da Abag é de se comunicar efetivamente. Comunicar os anseios da nossa comunidade. Então com a minha presença como operador é exatamente para poder afunilar todas essas demandas e encaminhá-las. Então o poder da Abag será o do convencimento, de se transformar na voz de dezenas ou milhares de profissionais que são afetados por decisões tomadas em gabinetes. HiGH - E por que esse operador não chega a Abag para reclamar, para pedir sugestões? LYra - Porque eu acredito que a Abag não estava conseguindo sensibilizar esse operador de que nós iríamos ser efetivamente seu porta voz. E olhe que pelo meu convívio eu sei que a Abag faz muito perante seus atuais recursos. Mas de certa forma, não estávamos sensibilizando os operadores a se associar em grande número, e isso é uma deficiência que a nova gestão está tentando reverter. Ver o que essa comunidade espera da sua associação. Existem problemas na certificação das licenças, também no acesso ao espaço aéreo, no acesso aeroportuário. Existem aeroportos onde a presença da aviação geral é vista como indesejável, como por exemplo, em Congonhas. HiGH - Marte.. LYra - Em Marte ela agora não é vista como indesejável, mas existe uma solução radical de eliminar o Campo de Marte. Alguns dizem que ele deveria ser transformado em um parque para a população, mas temos outras grandes áreas na cidade como o autódromo de Interlagos que ninguém questiona se ele deveria ser transformado em um parque. De certa forma, a sociedade percebe as atividades automobilísticas como relevantes, mas não está percebendo entrevista a atividade da aviação geral como relevante para ela. E isso é falta de comunicação da nossa própria comunidade que não consegue expor que aquele empresário que se serve do Campo de Marte, talvez seja um grande exportador de commodities, que está sustentando o Brasil na crise. E que o dia que tornarmos a vida dele tão difícil, a ponto de não ter mais vontade de visitar o seu negócio, ele vai desistir e vai viver de aplicação. HiGH - Há outros exemplos ao redor do Brasil? LYra - O Santos-Dumont, o da Pampulha, Brasília. São aeroportos que estão chegando ao seu limite de capacidade e a solução simplista é ganhar espaço sacrificando a aviação geral. E isso não resolve, porque a aviação geral não é tão grande a ponto de resolver o problema de infraestrutura aeroportuária. Essas situações estão fazendo que a aviação geral esteja migrando para os aeroportos ao redor dos grandes centros, mas estamos colocando aviões de alta performance convivendo com aviões de escola, planadores. O risco de uma colisão num aeroporto não controlado, aonde estão convivendo aeronaves de altíssima performance com outras de muito baixa performance é um risco incalculável. E quanto mais se restringe o acesso aos principais aeroportos, esses dotados de recursos de navegação e de controle do espaço aéreo, e nós estamos passivamente vendo a autoridade aeronáutica empurrando esse tráfego para essas cidades, aumenta o risco de acidentes e de que os empresários percam o interesse em se servir desse meio de transporte e consequentemente em investir em Regiões remotas. É uma visão míope. E é uma visão que transcende a Anac, é de estado. Um exemplo. Uma aeronave executiva nossa vai para a França, chegando lá, o jato é tratado com a prioridade normal, como qualquer outro tráfego aéreo, a polícia de imigração nos recebe na porta do avião, eles permitem que o automóvel do passageiro também o receba na porta do avião. Porque o governo francês permite isso? Por- 72 | jan • fev | 2010 que o estado francês entende que o empresário que está chegando com seu avião privado, representa uma grande oportunidade de negócio. Então é do interesse do estado em tratá-lo bem. Todas as burocracias são doutrinadas para recebê-lo bem. Aquele mesmo funcionário de imigração na Inglaterra, que trata o brasileiro às vezes com preconceito, quando ele recebe um empresário brasileiro, ele é brifado e o recebe com toda a pompa e circunstância como se você fosse efetivamente um Vip ou um chefe de estado. Porque ele percebe, que aquele passageiro pode ser um turista, mas pode ser o portador de um grande investimento na Inglaterra. E se eu contar que nos Estados Unidos, na África e na Argentina esse procedimento é o mesmo? HiGH - E aqui? LYra - Aqui dentre todos os países que eu voei como piloto de aviação executiva, infelizmente tenho que dizer que aqui é aonde somos pior recebidos. E não só nós como também os estrangeiros. E quando você imagina um grande evento como o da Copa do Mundo? Na última Copa da Alemanha, foram 1.500 jatos executivos visitantes, só no dia da final, havia 300 aeronaves executivas no aeroporto de Berlim. E eu perguntei para a Doutora Solange (presidente da Anac), sobre aonde iriam parar as 300 ou 400 aeronaves visitantes que chegariam para a Copa do Mundo. HiGH - E o que ela respondeu? LYra - Ela disse que não sabia. Em outra circunstância eu perguntei à Anac qual era a importância da aviação geral e a resposta foi que ela era importância como escola de formação de pilotos da aviação regular. HiGH - E como esse público, o operador, que vocês estão mirando, faz para ter contato com a Abag e ter maior participação? LYra - Na verdade, isso tem acontecido ultimamente, em função dessa grande deficiência de infraestrutura aeroportuária e de tráfego aéreo nos últimos dez ou quinze anos, as reuniões tem sido lotadas de gente que está preocupada com as grandes ameaças que estão no horizonte. passageiros a bordo for igual ou superior a US$ 1 milhão, fica totalmente justificável que esses passageiros voem num Very Light Jet. Tudo baseado no custo da hora homem e HiGH - O Michel Klein pode vir aqui para levando em conta a perda de tempo desreclamar do caso Campo de Marte? perdiçada em espera em aeroportos, perLYra - Ele deve vir, porque o sucesso do noites por conta da falta de opções de voos negócio dele está intimamente relacio- de retorno. nado ao acesso que ele tem as milhares de lojas espalhadas no Brasil, ou será que HiGH - Mesmo o avião custando US$ 4 miele tem loja somente nas 130 cidades da lhões. aviação comercial? Um banco Bradesco LYra - As empresas não analisam o avião por exemplo, que é tido como tendo pelo preço. A análise é feita pelo custo do uma agência em cada município do Bra- capital, um jato de US$ 5 milhões custa cersil, como você faria a gestão desse ne- ca de 7-8% ao ano de juros. Esse é o custo. gócio se você possuísse acesso somente Soma-se a depreciação que pode ser de por via comercial? Então um Bradesco, 3 ou 4% ao ano. Então um avião de US$ 5 que é uma empresa altamente focada milhões você pode ter 10% ao ano de custo em resultados, eles acham totalmente de propriedade, além do custo operacional. justificável ter uma frota de aeronaves Somando esses dois fatores esse valor dimipara ganhar acesso e fazer a gestão do nui muito.. seu negócio. Então para eles, a aviação é Nessa pesquisa, também é considerado um meio de trazer resultados econômi- outros níveis de salário, se a bordo estiver cos para o grupo, para os acionistas. um total de US$ 4 milhões de salário anual, Saiu num estudo recente nos Estados Uni- já compensa ter um avião de grande porte. dos que se a soma do salário anual dos Então economicamente faz sentido. g 73 entrevista a atividade da aviação geral como relevante para ela. E isso é falta de comunicação da nossa própria comunidade que não consegue expor que aquele empresário que se serve do Campo de Marte, talvez seja um grande exportador de commodities, que está sustentando o Brasil na crise. E que o dia que tornarmos a vida dele tão difícil, a ponto de não ter mais vontade de visitar o seu negócio, ele vai desistir e vai viver de aplicação. HiGH - Há outros exemplos ao redor do Brasil? LYra - O Santos-Dumont, o da Pampulha, Brasília. São aeroportos que estão chegando ao seu limite de capacidade e a solução simplista é ganhar espaço sacrificando a aviação geral. E isso não resolve, porque a aviação geral não é tão grande a ponto de resolver o problema de infraestrutura aeroportuária. Essas situações estão fazendo que a aviação geral esteja migrando para os aeroportos ao redor dos grandes centros, mas estamos colocando aviões de alta performance convivendo com aviões de escola, planadores. O risco de uma colisão num aeroporto não controlado, aonde estão convivendo aeronaves de altíssima performance com outras de muito baixa performance é um risco incalculável. E quanto mais se restringe o acesso aos principais aeroportos, esses dotados de recursos de navegação e de controle do espaço aéreo, e nós estamos passivamente vendo a autoridade aeronáutica empurrando esse tráfego para essas cidades, aumenta o risco de acidentes e de que os empresários percam o interesse em se servir desse meio de transporte e consequentemente em investir em Regiões remotas. É uma visão míope. E é uma visão que transcende a Anac, é de estado. Um exemplo. Uma aeronave executiva nossa vai para a França, chegando lá, o jato é tratado com a prioridade normal, como qualquer outro tráfego aéreo, a polícia de imigração nos recebe na porta do avião, eles permitem que o automóvel do passageiro também o receba na porta do avião. Porque o governo francês permite isso? Por- 72 | jan • fev | 2010 que o estado francês entende que o empresário que está chegando com seu avião privado, representa uma grande oportunidade de negócio. Então é do interesse do estado em tratá-lo bem. Todas as burocracias são doutrinadas para recebê-lo bem. Aquele mesmo funcionário de imigração na Inglaterra, que trata o brasileiro às vezes com preconceito, quando ele recebe um empresário brasileiro, ele é brifado e o recebe com toda a pompa e circunstância como se você fosse efetivamente um Vip ou um chefe de estado. Porque ele percebe, que aquele passageiro pode ser um turista, mas pode ser o portador de um grande investimento na Inglaterra. E se eu contar que nos Estados Unidos, na África e na Argentina esse procedimento é o mesmo? HiGH - E aqui? LYra - Aqui dentre todos os países que eu voei como piloto de aviação executiva, infelizmente tenho que dizer que aqui é aonde somos pior recebidos. E não só nós como também os estrangeiros. E quando você imagina um grande evento como o da Copa do Mundo? Na última Copa da Alemanha, foram 1.500 jatos executivos visitantes, só no dia da final, havia 300 aeronaves executivas no aeroporto de Berlim. E eu perguntei para a Doutora Solange (presidente da Anac), sobre aonde iriam parar as 300 ou 400 aeronaves visitantes que chegariam para a Copa do Mundo. HiGH - E o que ela respondeu? LYra - Ela disse que não sabia. Em outra circunstância eu perguntei à Anac qual era a importância da aviação geral e a resposta foi que ela era importância como escola de formação de pilotos da aviação regular. HiGH - E como esse público, o operador, que vocês estão mirando, faz para ter contato com a Abag e ter maior participação? LYra - Na verdade, isso tem acontecido ultimamente, em função dessa grande deficiência de infraestrutura aeroportuária e de tráfego aéreo nos últimos dez ou quinze anos, as reuniões tem sido lotadas de gente que está preocupada com as grandes ameaças que estão no horizonte. passageiros a bordo for igual ou superior a US$ 1 milhão, fica totalmente justificável que esses passageiros voem num Very Light Jet. Tudo baseado no custo da hora homem e HiGH - O Michel Klein pode vir aqui para levando em conta a perda de tempo desreclamar do caso Campo de Marte? perdiçada em espera em aeroportos, perLYra - Ele deve vir, porque o sucesso do noites por conta da falta de opções de voos negócio dele está intimamente relacio- de retorno. nado ao acesso que ele tem as milhares de lojas espalhadas no Brasil, ou será que HiGH - Mesmo o avião custando US$ 4 miele tem loja somente nas 130 cidades da lhões. aviação comercial? Um banco Bradesco LYra - As empresas não analisam o avião por exemplo, que é tido como tendo pelo preço. A análise é feita pelo custo do uma agência em cada município do Bra- capital, um jato de US$ 5 milhões custa cersil, como você faria a gestão desse ne- ca de 7-8% ao ano de juros. Esse é o custo. gócio se você possuísse acesso somente Soma-se a depreciação que pode ser de por via comercial? Então um Bradesco, 3 ou 4% ao ano. Então um avião de US$ 5 que é uma empresa altamente focada milhões você pode ter 10% ao ano de custo em resultados, eles acham totalmente de propriedade, além do custo operacional. justificável ter uma frota de aeronaves Somando esses dois fatores esse valor dimipara ganhar acesso e fazer a gestão do nui muito.. seu negócio. Então para eles, a aviação é Nessa pesquisa, também é considerado um meio de trazer resultados econômi- outros níveis de salário, se a bordo estiver cos para o grupo, para os acionistas. um total de US$ 4 milhões de salário anual, Saiu num estudo recente nos Estados Uni- já compensa ter um avião de grande porte. dos que se a soma do salário anual dos Então economicamente faz sentido. g 73