VÂNIA BEATRIZ VASCONCELOS OLIVEIRA MIGRAÇÃO E REPRODUÇÃO SOCIAL DE AGRICULTORES FAMILIARES EM NOVA UNIÃO - RONDÔNIA, BRASIL Tese apresentada à Universidade Federal de Viçosa, como parte das exigências do Programa de PósGraduação em Extensão Rural, para obtenção do título de “Magister Scientiae”. VIÇOSA MINAS GERAIS - BRASIL DEZEMBRO - 2000 VÂNIA BEATRIZ VASCONCELOS OLIVEIRA MIGRAÇÃO E REPRODUÇÃO SOCIAL DE AGRICULTORES FAMILIARES EM NOVA UNIÃO - RONDÔNIA, BRASIL Tese apresentada à Universidade Federal de Viçosa, como parte das exigências do Programa de PósGraduação em Extensão Rural, para obtenção do título de “Magister Scientiae”. APROVADA: 1.o de março de 2000. Nelson Ferreira Sampaio Maria Izabel Vieira Botelho Alberto da Silva Jones (Conselheiro) José Benedito Pinho (Conselheiro) Geraldo Magela Braga (Orientador) A seu Ferro e dona Bia, meus queridos pais. A meus filhos Nilo e Ana Beatriz, que toparam “atravessar esse deserto” junto comigo. A Airton, companheiro presente na ausência e na distância. Aos amigos encontrados, reencontrados e desencontrados “nas esquinas por que passei”. “Só eu sei os desertos que atravessei, só eu sei... Só eu sei, as esquinas por que passei, só eu sei...” (Djavan) ii AGRADECIMENTO Ao Espírito Santo de Deus, cujos dons busquei para me orientar nessa tarefa. À Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), pelo suporte financeiro para realização do curso, e aos colegas da Coordenadoria de Administração e Desenvolvimento (CAD), pelo acompanhamento acadêmico. Ao Centro de Pesquisa Agroflorestal de Rondônia, EMBRAPARondônia, em especial ao chefe geral, Dr. Nelson Ferreira Sampaio, que me apontou o caminho rumo a Viçosa e forneceu meios para minhas iniciativas de participação em eventos técnico-cientificos e para o trabalho de campo em Nova União. Aos membros da Comissão Orientadora, aos demais professores e aos funcionários do Departamento de Economia Rural da UFV. Ao amigo, professor doutor Paulo Ponce de Leon Filho, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, pela leitura da versão preliminar do texto e pelas sugestões fecundas. Ao colega Pedro Paganini, companheiro de trabalho na pesquisa de campo e como motorista da Embrapa, cuja trajetória de vida, identificada com a dos entrevistados, contribuiu para fornecer-me informações esclarecedoras, mediante alguns depoimentos. iii Aos agricultores familiares de Nova União, a Wagner Oliveira e aos demais técnicos da EMATER de Nova União. Aos colegas de turma, Bruno, Alexandre, Celso, Claúdia, Denilson, Elizabeth (Beth), Helen, Luciene, José Geraldo, Nazaré e Rodrigo, aos quais devo a última edição do nosso jornal. Aos familiares e amigos, cujas palavras, em bate-papos, cartas e telefonemas, trouxeram o alentador incentivo em momentos precisos; a meus irmãos de sangue, Rosany, Jane, Tânia, Ricardo, Telma, Rilda e Rinaldo; aos amigos-irmãos de coração, que constituíram minha família viçosense: Adriana e os que, pouco a pouco, foram tomando seus rumos, Marluce (Brasília), Wellington e Luiz Antônio (Manaus), Andréia (Governador Valadares-MG), Malú (Fortaleza-CE); e os amigos de cá e os de além-mar, Arlindo e Catharina (São Paulo), Maria Helena e Roseli (Belém-PA), Lourdinha e Leida (Porto Velho-RO), Socorro e Luz Marina (Macapá-AP), Christiane, Yvianne e os Petit (França). À cunhada Tereza Lobão (Belém), pela providencial ajuda com os livros do Museu Paraense Emílio Goeldi; aos cunhados Ana (Belo Horizonte) e José Maria (Uberlândia); e à amiga Terezinha Naves (Boa Esperança), apoio familiar nas Minas Gerais. A meus agregados Marizete, Kewelin e Chiquinho (João Victor), que, com seu riso de criança, me enchia os ouvidos, fazendo-me deixar o computador e correr para o abraço. A todos, os meus sinceros agradecimentos. iv BIOGRAFIA VÂNIA BEATRIZ VASCONCELOS OLIVEIRA, filha de José Veríssimo da Silva Vasconcelos e Beatriz Borges de Vasconcelos, nasceu em 5 de fevereiro de 1960, em Macapá-Amapá. Em 1982, graduou-se em Comunicação Social na Universidade Federal do Pará - UFPA, Belém-PA, e, de 1983 a 1989, atuou como Assessora de Relações Públicas no Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO), em Belém-PA. Em novembro de 1989, mediante concurso na EMBRAPA-Rondônia, foi contratada como pesquisadora em Difusão de Tecnologia. Participou da equipe que elaborou os projetos “Diagnóstico de sistemas de produção utilizados por colonos em Rondônia”, "Programa articulado de difusão e adaptação de tecnologia no pólo algodoeiro de Rondônia”, e liderou o projeto “Difusão e transferência de tecnologias para sistemas agroflorestais e agropecuários em Rondônia”, sendo também responsável pelo subprojeto “Avaliação do processo de difusão da tecnologia de controle biológico da mosca-dos-chifres, utilizando-se o besouro Onthophagus gazzela”. Foi ainda colaboradora nos subprojetos “Introdução de tecnologias no processo produtivo de pequenas e médias propriedades no Estado de Rondônia”, “Promoção de eventos técnicos de capacitação e de atualização tecnológica”, “Organização e disseminação de informações para a difusão de tecnologias agropecuárias e florestais pelo CPAF-Rondônia”. v Em atividade técnico-científica, atuou, como membro titular, na comissão encarregada de elaborar, no âmbito do CPAF-Rondônia, documento referente à Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (UNCED/92). Foi representante do CPAF-Rondônia na Comissão Interinstitucional de Educação Ambiental (CIEARO); presidente do Comitê de Publicações do CPAF-Rondônia; membro titular, como representante da Embrapa-Rondônia, na Comissão Normativa do Programa da Área Agrícola do Planafloro; membro da Secretaria Executiva Estadual Rondônia, no Programa Nacional de Agricultura Familiar (PRONAF). Em 1997, fez o curso de pós-graduação “lato sensu”, Agentes de Inovação e Difusão Tecnológica, na Universidade Federal de Rondônia. Em 1998, iniciou o Programa de Mestrado em Extensão Rural no Departamento de Economia Rural da Universidade Federal de Viçosa. vi CONTEÚDO Página EXTRATO ............................................................................................. x ABSTRACT ........................................................................................... xii 1. INTRODUÇÃO .................................................................................. 1 1.1. O Estado e as estratégias para colonização da fronteira agrícola amazônica ......................................................................... 3 1.2. O movimento migratório rumo a Rondônia ................................ 7 1.3. O migrante em estudo ............................................................... 9 1.4. O problema e sua importância ................................................... 10 1.5. Objetivos do estudo ................................................................... 13 1.5.1. Objetivo geral ...................................................................... 13 1.5.2. Objetivos específicos ........................................................... 13 2. REFERENCIAL TEÓRICO ............................................................... 14 2.1. A fronteira como espaço de reprodução e diferenciação social 14 2.2. A família como unidade de reprodução social ........................... 17 2.3. Estratégias de reprodução social na agricultura familiar ........... 23 vii Página 2.4. A pluriatividade como nova perspectiva de reprodução social .. 25 3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ......................................... 30 3.1. Descrição da área de estudo ..................................................... 32 3.2. Unidade de análise .................................................................... 33 3.3. Coleta e análise dos dados ....................................................... 35 3.3.1. Técnicas de coleta de dados ............................................... 36 3.3.2. Análise e interpretação dos dados ...................................... 37 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO ........................................................ 38 4.1. Nova União: de fronteira agrícola a um novo rural .................... 38 4.2. Migração: realizando o sonho da terra ...................................... 50 4.2.1. Trajetória migratória: etapas e acumulação ........................ 50 4.2.2. A família na migração e no acesso à terra .......................... 54 4.2.3. Atravessando a zona de fragilidade .................................... 59 4.3. Estratégias familiares de reprodução social .............................. 64 4.3.1. Estratégia patrimonial fundiária ........................................... 64 4.3.2. Estratégias familiares de organização do trabalho .............. 67 4.3.2.1. O sistema de produção: de tudo um pouco .................. 68 4.3.2.2. A estrutura do grupo familiar e sua trajetória ................ 69 4.3.2.3. A pluriatividade familiar ................................................. 72 4.3.3. Estratégias de encaminhamento dos filhos ......................... 76 4.3.3.1. As aspirações dos pais ................................................. 76 4.3.3.2. As trajetórias dos filhos ................................................. 81 4.4. Representações das trajetórias empreendidas e resultados alcançados ................................................................................... 84 viii Página 5. RESUMO E CONCLUSÕES ............................................................. 90 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................... 97 APÊNDICES ......................................................................................... 104 APÊNDICE A ........................................................................................ 105 APÊNDICE B ........................................................................................ 107 APÊNDICE C ........................................................................................ 113 APÊNDICE D ........................................................................................ 115 APÊNDICE E ........................................................................................ 116 ix EXTRATO OLIVEIRA, Vânia Vasconcelos, M.S., Universidade Federal de Viçosa, dezembro de 2000. Migração e reprodução social de agricultores familiares em Nova União - Rondônia, Brasil. Orientador: Geraldo Magela Braga. Conselheiros: Alberto da Silva Jones e José Benedito Pinho. O problema central que presidiu a elaboração deste trabalho foi a correlação entre estratégias de reprodução social empreendidas por agricultores familiares, a partir do acesso à terra, e diferenciação social observada em uma área da fronteira agrícola amazônica. A análise centrou-se em 52 unidades familiares de agricultores, que, em meados de 1970, migraram para Rondônia, no contexto dos projetos de colonização dirigida. Utilizando-se da técnica de história de vida tópica, recontou-se a trajetória migratória dos colonos, situando-a no tempo e no espaço. A partir do entendimento da reprodução social como estratégia de sobrevivência, foram identificadas as estratégias familiares, patrimoniais fundiárias e educativas e de organização do trabalho; e as representações dos agricultores sobre as trajetórias empreendidas. Esse conjunto de estratégias assegurou a produção e a reprodução social dos agricultores familiares. A organização do trabalho baseia-se ainda, fundamentalmente, no arranjo do grupo familiar, em que há retração do grupo familiar, pela dinâmica natural de reprodução e por atitudes x individuais de membros do grupo. Constatou-se a ocorrência de uma dinâmica que evidencia uma “pluriatividade às avessas”, exercida pelos filhos, que, ao obterem uma atividade assalariada, qualificada ou não, em meio urbano ou rurbanizado, mantêm vínculos com a propriedade, pela prática de atividades agropecuárias que prescindem da sua presença, como o plantio de café e a criação de gado “a meia”. As estratégias de encaminhamento dos filhos foram pautadas na lógica de investimento no capital fundiário e no capital cultural. Revela-se, nessa dinâmica, a falta de identidade entre as aspirações dos pais e as trajetórias empreendidas pelos filhos. Com base nessas constatações, conclui-se que, ao exercer formas alternativas de reprodução, pela pluriatividade e pela adaptação à tendência a individualização dos filhos, o agricultor familiar mantém-se produtivo e tem garantido sua permanência enquanto unidade de produção e reprodução. xi ABSTRACT OLIVEIRA, Vânia Beatriz Vasconcelos, M.S., Universidade Federal de Viçosa, December 2000. Migration and social reproduction of family farmers in Nova União – Rondonia, Brazil. Adviser: Geraldo Magela Braga. Committee Members: Alberto da Silva Jones and José Benedito Pinho. The central problem for elaboration of this work was the correlation among social reproduction strategies undertaken by family workers, after access to land and the social differentiation observed in an area in the Amazon agricultural frontier. This analysis has focused on 52 family farms whose farmers had migrated to Rondonia in the mid 1970s, as part of a colonization project. By applying the topical life history technique, the worker’s migrant trajectory through time and space was retold. Based on the understanding of social reproduction as a strategy of survival, family, property, land, educational work organization - related strategies were identified and the farmers’ representation on the trajectories undertaken. This set of strategies has ensured social production and reproduction of the family farmers. Work organization is fundamentally based in the family group arrangement, in which retraction of the family group occurs due to the natural dynamics of reproduction and through the individual behavior of its members. The ocurrence of a dynamics evidencing an inside-out plurality was verified, performed by the children who, by obtaining a job qualified or not, in the rural or urban areas, are xii able to maintain maintain their ties to the farm by implementing farming activities not requiring their presence, such as coffee growing and cattle raising. The strategies applied for the children’s follow up were based on the rationale of land capital and cultural investments. This dynamics reveals the lack of identity between what the parents want and the choices made by their children. Based on these findings, it was concluded that through the performance of alternative forms of reproduction, by plurality and adaptation to their children’s tendency to individualistic behavior, family farmers have maintained production, thus ensuring their status as production and reproduction units. xiii 1. INTRODUÇÃO Apareceu o Senhor a Abraão e lhe disse: Eu darei esta terra aos teus descendentes (Gen. 12,7). O registro bíblico sobre a Terra da Promissão, a terra de Canaã, prometida por Deus a Abraão e a sua descendência, confirma que a luta dos homens pela conquista de terra vem de longa data. Da antiguidade aos dias de hoje, homens se lançam à conquista de um pedaço de terra para sua sobrevivência e segurança de sua família, o que corresponde à busca de condições de reprodução social. Na gênese da formação econômica e social do Brasil estava presente o Estado, que intermediava o acesso à terra, pela concessão de sesmarias. Desde então, a propriedade da terra é uma questão sempre presente nas transformações políticas e sociais ocorridas no País. Na década de 60, a política de desenvolvimento agropecuário, implantada pelo governo do regime militar, concorreu para acelerar as transformações na estrutura das relações sociais no espaço agrário brasileiro. A colonização da Amazônia, como parte de um plano de ação do Estado para ocupação de “novas terras”, insere-se no quadro dessas transformações, ao buscar a viabilização da agricultura naquela região do País, não só pela implantação de grandes projetos agropecuários, mas também pela agricultura baseada na pequena propriedade familiar. A agricultura e o agricultor familiar, por sua vez, estão na pauta de vários estudos nas ciências sociais. As questões em torno do assunto 1 alcançam dimensões globais, permanecendo no centro do debate em que se inserem as novas formas sociais de produção na agricultura. Estudos clássicos sobre estratégias familiares de pequenos produtores rurais privilegiaram a abordagem socioeconômica, com ênfase na competição entre o modo de produção camponês e o capitalista, tendo a família como unidade de produção. Associados aos estudos que buscam compreender a lógica de funcionamento da agricultura familiar e a sua permanência, como sistema de produção viável, emergem na atualidade estudos que fazem uma abordagem sociológica das famílias rurais, com vistas na compreensão de seus valores e de suas reações às mudanças que estão sendo operadas na sociedade, em geral, e no seio da família, em particular. Dentre eles, destacam-se o trabalho coordenado por LAMARCHE (1993, 1998) e, mais recentemente, o trabalho de TEDESCO (1999), que problematiza o cotidiano da vida camponesa de colonos migrantes no Sul do País, utilizando-se, dentre outras, as noções de unidade familiar, racionalidades adaptativas, pluriatividade e estratégias. A família rural é apreendida como instância social de reprodução, com características particulares do ponto de vista da compreensão do grupo familiar em si, sendo o chefe da família e seus membros os agentes capazes de tomar decisões e escolher os rumos da sua trajetória social. Nessa perspectiva, propõe-se a compreensão sociológica das estratégias de reprodução social de agricultores familiares que se deslocaram do Sul, Sudeste e Nordeste do Brasil para viver e realizar o seu sonho de terra em Rondônia, no contexto da expansão da fronteira agrícola amazônica. Quem é esse sujeito e como ele se insere no processo de desenvolvimento da agricultura? Obtido o acesso à terra, como agiu ele, econômica e socialmente, no processo de construção da sua trajetória social? As análises que buscam responder a esses questionamentos estão apresentadas neste trabalho, sob as seguintes abordagens: 1) Nova União, como espaço social construído a partir do processo de colonização; 2) Reconstituição da história da migração dos colonos, organização do grupo familiar nesse deslocamento, trajetória fundiária e enfrentamento das condições adversas do espaço de reprodução; 3) Estratégias familiares de formação do patrimônio fundiário; de organização do trabalho do grupo familiar, 2 incluindo o sistema de produção, a estrutura familiar e o exercício da pluriatividade; e de encaminhamento dos filhos, pelo desenvolvimento de estratégias educativas e patrimoniais fundiárias, confrontando as aspirações dos pais com as trajetórias dos filhos; e 4) Representações manifestas pelos colonos, quanto às suas estratégias empreendidas e a sua trajetória de vida, a partir da realização do “sonho da terra”, ao se deslocarem para Rondônia. 1.1. O Estado e as estratégias para colonização da fronteira agrícola amazônica O Estado é um dos principais agentes transformadores do modo de inserção de uma região de fronteira na economia nacional e internacional. A partir de 1966, o governo do regime militar (1964 a 1985) pôs em prática um amplo programa de ocupação econômica da Amazônia brasileira, sob o discurso da modernização, com a finalidade de definir as características e controlar o processo espontâneo de ocupação de novas terras, que, nos anos 40 a 50, já vinha ocorrendo no oeste do Paraná e, a partir dos anos 50, no Centro-Oeste e no Norte do País. A política de ocupação de “novas terras” marcou, caracteristicamente, a formação da sociedade brasileira e foi executada por meio dos projetos de colonização. Segundo SANTOS (1989:104), a colonização sempre foi um ato da vontade do poder estatal, e sempre acompanhou uma estratégia de expansão do capital sobre os novos territórios. Nesse contexto, a partir dos anos 30, a colonização deu prioridade à instalação de populações nacionais em novas áreas do território brasileiro. O processo de colonização teve que desempenhar diferentes papéis, em três grandes períodos da história política brasileira recente, os quais vieram a constituir ciclos de colonização agrícola (SANTOS, 1993). O primeiro deles foi denominado "a colonização para os trabalhadores nacionais", nos anos de 1930 a 1945, durante o Estado Novo. Neste, a forma social proposta pela política de colonização então aplicada partia da constatação de que havia um excedente populacional de "nacionais pobres" e, portanto, uma situação potencial de "tensão social", razão pela qual cabia ao Estado propor soluções, despontando, entre elas, a preocupação com as migrações internas. Nesse 3 ciclo, em terras públicas do Centro-Oeste e da Amazônia, principalmente, foram instaladas as denominadas "colônias agrícolas nacionais", nas quais os lotes eram oferecidos gratuitamente aos cidadãos brasileiros reconhecidamente pobres. O segundo ciclo (1945 a 1964) foi denominado de "a colonização contra as lutas sociais no campo". Neste, a República Populista acrescenta outra dimensão à política de colonização, uma resposta ideológica e política, e, ao mesmo tempo, às lutas sociais no campo, que começaram a eclodir em várias regiões do País. A política de colonização continuava sendo uma opção e visava atingir os habitantes das "zonas empobrecidas" e aqueles "sem emprego", com a finalidade de orientar as correntes migratórias para os núcleos de colonização, públicos ou privados (SANTOS, 1993). Nesse contexto, verificou-se no País um intenso movimento de migração interna, e parte desse processo se traduziu pelo deslocamento na direção de fronteiras agrícolas. No início da década de 60, oriunda das mobilizações camponesas que marcaram o ciclo anterior, entra em cena a reivindicação pela reforma agrária. Em conseqüência, tem-se o desencadeamento do ciclo de “colonização contra a Reforma Agrária” (1964 a 1984), que se caracteriza pelo estímulo ao processo de modernização da agricultura e pela presença da antinomia colonização versus reforma agrária, vislumbradas como alternativas para a crise fundiária. A primeira alternativa prevaleceu como política do Estado, que, com a abertura dos eixos rodoviários e com a instalação de programas de colonização tanto oficiais quanto privados, delineou um fluxo migratório da região Sul rumo à Amazônia, em especial para os Estados de Mato Grosso, Rondônia e Acre. Assim, configura-se a expansão da fronteira agrícola, quando a região amazônica passa a representar a principal fronteira agrária e agrícola do País (ALMEIDA, 1992; SANTOS, 1993). A opção do governo militar pela colonização significou também, segundo JONES (1999), uma “grilagem especializada”, visto que as formas assumidas pelo processo de alienação de terras públicas promoveram, além da incorporação de terras ao patrimônio particular, a apropriação especulativa dessas terras e a expropriação, ilegítima e ilegal, de produtores rurais. 4 O processo de expansão da fronteira na Amazônia pela colonização agrícola constituiu peça fundamental da estratégia do Estado, que, em 1970, lançou o Programa de Integração Nacional (PIN), para criar condições de incorporar à economia de mercado amplas faixas de população antes dissolvidas na economia de subsistência, condenadas à estagnação tecnológica e à perpetuação de um drama social intolerável (BRASIL, 1970). Tal proposição está relacionada com a procura do governo por soluções para o problema das tensões sociais decorrentes da pressão dos excedentes populacionais do Nordeste e com a ideologia do governo militar de integração nacional e ocupação da fronteira, que se expressava no lema “integrar para não entregar” e no discurso de “ocupação dos espaços vazios”, embora a região estivesse ocupada por tribos indígenas e seringueiros que fizeram parte da leva migratória do Ciclo da Borracha (SORJ, 1980; MARTINS, 1997; SANTOS, 1989; ALMEIDA, 1992; PERDIGÃO e BASSEGIO, 1992; SOUZA FILHO, 1996). Os programas de colonização acabaram por intensificar o processo de deslocamento espacial da pobreza e da exclusão social. Segundo MARTINS (1997), a partir do golpe de Estado de 1964 e do estabelecimento da ditadura militar, a Amazônia transformou-se num imenso cenário de ocupação territorial massiva, violenta e rápida, processo que continuou, ainda que atenuado, com a reinstalação do regime político civil e democrático em 1985. Como registrou CASTRO (1994), desde fins dos anos 60, houve intensos fluxos migratórios ... (...) a modernização do campo empurrou, em processo contínuo, trabalhadores e famílias em direção à Amazônia. O que estava acontecendo era uma espécie de “reforma agrária de fato”, ou espontânea, visto que os migrantes estavam buscando terra e, por meio dela, soluções práticas, diretas, por seus próprios meios, para os seus problemas de trabalho e sobrevivência (IANNI, 1979). A política de desenvolvimento regional conduzida pelo Estado, para ocupar essa região de fronteira, passou a se confundir com a própria política de ocupação e integração da Amazônia. Para viabilizar tal empreendimento, dois instrumentos foram colocados à disposição dos organismos regionais, quais sejam, a política financeira de incentivos fiscais, sob o controle da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) e do seu agente 5 financeiro, o Banco da Amazônia S/A (BASA); e a política de terras e de colonização, sob comando do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) (ALMEIDA, 1992; OLIVEIRA, 1999). A ação de regularização fundiária, empreendida pelo INCRA, dá-se pelo reconhecimento de antigos títulos e posses; pela regularização de invasões, “grilagens” e loteamentos particulares; e pela colonização oficial (MAGALHÃES, 1982). Considerando-se o aparato mobilizado pelo Estado, têm-se, hipoteticamente, satisfeitas as condições básicas (terra, mão-de-obra e infra-estrutura) para que se desenvolvesse, com base na produção familiar, uma pequena agricultura bem sucedida e alcançassem os objetivos dos projetos de colonização. Segundo SANTOS (1989:108), ... as agências de colonização se encarregavam da organização da vida social em vários níveis: o plano das agrovilas, criador de relações de vizinhança; as associações locais, organizadas por funcionários de organismos públicos; o sistema agrícola, imposto sem consulta aos colonos, assim como o processo de trabalho, orientado pelas agências de colonização. Mas isso não foi suficiente para conduzir os colonos aos "novos tempos" prometidos na mensagem ideológica da colonização. Segundo LÉNA (1988:110), os projetos de colonização representam, de maneira geral (isto é, não somente no Brasil, mas no mundo inteiro), a realização, pelos poderes públicos ou sociedades privadas, de uma construção utópica. Com relação aos agricultores que migraram para Rondônia, decorridos quase 30 anos do início desse processo, observa-se um processo de diferenciação interna que nega a obsessão pela ordem, pela organização, pelo geométrico, representada pela seleção das famílias e pela divisão simétrica dos lotes. A dinâmica social mostra uma realidade diferente na qual sobressai uma diferenciação socioeconômica dos pequenos produtores entre si e em relação a comerciantes, empresariado capitalista e proprietários de terras. Esta é uma condição objetiva, que não depende da “vontade política” dos planejadores, nem da “vontade de melhorar a vida” dos agricultores. 6 1.2. O movimento migratório rumo a Rondônia A colonização de Rondônia deu-se no ciclo “colonização contra a Reforma Agrária”, como denominado por SANTOS (1993). O INCRA foi o órgão governamental responsável pela introdução dos projetos de colonização. Dentre os projetos do governo federal, o que mais contribuiu para a dinamização econômica e social de Rondônia foi o de infra-estrutura básica dos transportes rodoviários, que culminou com a conclusão da abertura da BR364, em 1966, que ligava Rondônia ao Centro-Sul, Sudeste e Nordeste do Brasil (ALMEIDA,1992; OLIVEIRA, 1999). O Estado, pelo Decreto-Lei n.o 1.164, de 1.o de abril de 1971 (regulamentado em 1972), instituiu que a faixa de 100 km de cada lado das rodovias federais seria colonizada pelo INCRA. Assim, o órgão passou a ter o controle sobre as terras que serviram para implantação e operacionalização dos projetos de colonização agrícola, inicialmente por meio de três modelos, quais sejam, Projetos Integrados de Colonização (PIC), Projetos de Assentamento Dirigido (PAD) e Projetos de Assentamento Rápido (PAR), que se distinguiam por diferentes estratégias fundiárias, implementadas em razão da dinâmica de ocupação (SOUZA FILHO, 1996; PERDIGÃO e BASSEGIO, 1992; MATIAS, 1998). A colonização oficial foi precedida por intenso processo de colonização espontânea e de colonização privada. Segundo HÉBETTE (1988), a colonização em Rondônia, por meio dos PIC, começou como obra de emergência para atender a colonos enganosamente atraídos por empresas particulares de colonização e por estas deixados nas piores condições de saúde e miséria. Esse autor referiu-se às empresas colonizadoras, que, por meio de propagandas, vendiam áreas de terras na região, gerando uma ocupação espontânea e desorganizada de terra da União e de particulares, sem amparo legal, ocasionando tensões sociais, conflitos e litígios, o que exigia a intervenção do governo federal, mediante o INCRA (OLIVEIRA, 1999). O primeiro projeto de colonização de Rondônia, o PIC Ouro Preto, localizado nas regiões mais férteis do então Território, foi criado em 19 de junho de 1970, e nele foram assentadas 5.162 famílias. O Estado propunha assumir todas as etapas de instalação e viabilização do projeto, desde a 7 seleção e o assentamento dos colonos até a produção e comercialização, assistência técnica e social, além da abertura de estradas vicinais e coletoras. O INCRA alocava uma família nuclear em lotes de 50 a 100 ha, 50% dos quais deveriam ser conservados como “reserva florestal” (SOUZA FILHO, 1996; COY, 1988; MATIAS, 1998; OLIVEIRA, 1999). No PIC Ouro Preto, o INCRA concentrou o melhor de seus esforços, razão por que foi considerado, por TAVARES et al. (1972), um modelo de colonização agrícola. Em conseqüência do efeito-demonstração gerado por esse modelo, um contingente populacional maior do que o previsto foi atraído para o Projeto, levando o INCRA a aumentar a área inicialmente prevista, à medida que a população convergia e, de forma espontânea, assentava-se com seus próprios meios, reproduzindo o modelo oficial e sendo posteriormente regularizado pelo INCRA. Outra conseqüência foi a criação, no período de 1971 a 1975, de quatro novos PICs, quais sejam, Sidney Girão, Ji-Paraná, Paulo Assis Ribeiro e Pe. Adolpho Rohl (SOUZA FILHO, 1996; COY, 1988). COY (1988) apontou quatro razões para a escolha de Rondônia como região prioritária de colonização, a saber: a localização na continuidade da direção do movimento das frentes pioneiras do Centro-Oeste (Mato Grosso e Mato Grosso do Sul) rumo ao Norte; a existência da estrada Cuiabá - Porto Velho mantendo essa extensão da frente pioneira; a situação jurídica das terras de Rondônia facilitando a colonização oficial pela existência de uma porcentagem relativamente elevada de terras públicas; a existência de terras mais férteis do que dentro da média da região amazônica... (COY, 1988:175). Como registraram PERDIGÃO e BASSEGIO (1992), a atração de migrantes para Rondônia está relacionada com a expulsão dos pequenos agricultores do Sul/Sudeste do País, em virtude da introdução da mecanização, do surgimento dos latifúndios e da erradicação dos cafezais no Paraná em 1965, fatos que resultaram na migração de uma massa de trabalhadores. Por outro lado, as condições de tráfego quase permanente na BR-364 (CuiabáPorto Velho), a existência de extensas manchas de terras férteis próximas a essa rodovia e a possibilidade de acesso a terras devolutas, do então Território de Rondônia, foram fatores de atração dos migrantes para a região. Com a implantação dos projetos de colonização, intensificou-se o fluxo migratório rumo a Rondônia, resultando no incremento da população. De 1960 a 1970, a população registrou um crescimento absoluto de 43.867 pessoas, 8 que correspondeu a uma taxa média geométrica de 5,0; no período de 1970 a 1980, o incremento populacional foi de 379.151 habitantes, isto é, 333,59% maior em relação ao período anterior, e apresentou a mais alta taxa média geométrica do País (15,8) significativamente superior à média da região Norte (5,04) e do Brasil (2,48) (SOUZA FILHO, 1996). Como visto, o processo de colonização agrícola da Amazônia trouxe para a região um grande contingente humano, que, organizado em famílias, desenvolveu estratégias de reprodução, num sistema de agricultura familiar. Segundo SANTOS (1989), pode-se entender a política de colonização enquanto uma política agrária que objetiva ocupar, econômica e socialmente, novas terras, através do estabelecimento de unidades produtivas familiares. Rondônia e Nova União, em particular, como novos espaços de reprodução social, forjados pelo processo de colonização, fornecem condições para situar o problema de pesquisa estudado. 1.3. O migrante em estudo A fronteira agrícola, como alternativa de trabalho e de acesso à terra, atraiu migrantes interessados em adquirir terra e assumir o papel de pequeno produtor e também outros interessados em inserir em uma das formas sociais de produção que a fronteira oferecia. Os migrantes que vieram para Rondônia foram assim descritos: ... Em poucos anos chegaram muitos trabalhadores rurais e seus familiares, em busca de terras para ocupar, morar e lavrar. Também chegaram pequenos, médios e grandes empresários, ao lado dos comerciantes de terras, grileiros, jagunços, funcionários governamentais, engenheiros, agrônomos, gerentes. Mas o que predominou foi o trabalhador rural, com sua família, em busca de terra boa para formar roça e criação. ... são de várias procedências os migrantes que chegaram a Rondônia nos últimos anos. Alguns vieram do Rio Grande do Sul, outros do Espírito Santo, e assim por diante ... Alguns dos novos colonos são antigos comerciantes produtores de vilarejos de áreas pobre, secas do Espírito Santo e Minas Gerais. Eles guiam seus próprios caminhões até Rondônia, carregando o paude-arara com parentes, compadres e peões para auxiliar no trabalho brutal de desbastar e queimar a floresta. Outros são pequenos agricultores do Paraná e Rio Grande do Sul, muitos descendentes de imigrantes italianos e alemães que há um século vieram para o Brasil, ainda praticando uma agricultura de subsistência; enquanto outros já sonham com a transformação de dezenas de milhares de hectares em estabelecimentos pecuários... (Gall, citado por IANNI, 1979:19-20). 9 Foram esses atores sociais, representantes de uma diversidade de procedência geográfica quanto de condição social, que protagonizaram os conflitos presentes no processo de colonização. As famílias que migraram para a Amazônia enfrentaram problemas socioeconômicos resultantes de caracteres específicos da região, tais como restrições geográficas, insuficiência de infraestrutura, doenças tropicais e problemas relativos ao contexto nacional, como comercialização e financiamento. Ao trabalharem em família, esses agricultores se caracterizam por deter os seus meios de produção e por trabalharem diretamente no estabelecimento rural. Neste estudo, os sujeitos são agricultores que, com o deslocamento migratório no espaço social brasileiro, demonstraram que, onde quer que estivessem, queriam realizar seu sonho de possuir um lote de terra para trabalhar com sua família. Há, entre eles, os que desistiram da permanência na Amazônia, "colonos retornados", “colonos desiludidos”, como denominados por SANTOS (1993), que se referia aos que voltaram a suas origens no Sul. Há, porém, os que ficaram. Estes, embora, em geral, tenham empreendido uma trajetória de mobilidade espacial interna, realizaram o "sonho da terra" (SANTOS, 1993) e buscaram a consolidação do seu “projeto de vida” (LÉNA, 1991). Seriam os “colonos persistentes”, poder-se-ia assim dizer. Começaram uma nova luta pela sua consolidação, estabilização econômica e social, situação esta que buscaram alcançar a partir de suas estratégias reprodutivas, integrando terra, família e trabalho num sistema de produção familiar na agricultura. Ao propor o estudo da trajetória migratória dos agricultores familiares que se deslocaram para Rondônia e as estratégias de reprodução social por eles utilizadas, parte-se do pressuposto que aqueles que permaneceram na região alcançaram relativo sucesso ou ainda não desistiram de buscá-lo. 1.4 . O problema e sua importância Em Nova União e em diversas áreas de colonização em Rondônia, as famílias rurais migrantes encontram-se em estágios diferenciados de desenvolvimento socioeconômico, exercendo, por meio de uma estrutura produtiva, atividades características da agricultura familiar, considerando-se a 10 abrangência da noção conceitual da agricultura familiar, aqui entendida no sentido da agricultura praticada por unidades familiares que têm como atributos comuns a propriedade dos meios de produção, o trabalho na terra, as modalidades de produção e a manifestação de valores e tradições (patrimônio sociocultural) em torno da família e para esta (TEDESCO, 1999). A dinâmica das transformações ocorridas em Rondônia caracterizou-se por esse sistema de produção, visto que as unidades familiares foram responsáveis, em 1985, por 94% da demanda de recursos humanos gerados pelo setor agropecuário e por 59% da área apropriada pelo conjunto de todas as unidades produtivas existentes no Estado. Esses 59% das terras foram responsáveis por 88% do valor da produção, incluindo-se nesse total a produção animal e vegetal. Tal processo esteve baseado no cultivo de lavouras anuais e, principalmente, no incremento do cultivo de lavouras permanentes e no aumento da área de pastagens para exploração com a criação bovina. De um rebanho bovino de 770.531 reses existentes em Rondônia, em 1985, 57% encontravam-se como criação das unidades produtivas familiares (SOUZA FILHO, 1996). Os estudos sobre as estratégias familiares em áreas de colonização oficial na Amazônia (TAVARES, 1972; CONTINI, 1976; DIAS e CASTRO, 1977; CARDOSO e MULLER, 1977; MAHAR, 1978) têm privilegiado a abordagem socioeconômica, com ênfase na competição entre o modo de produção camponês e capitalista, tendo a família como unidade de produção, sem considerar a dinâmica da unidade familiar, com relação às aspirações e às decisões do chefe da família e de seus membros, baseadas em lógicas socioculturais. Nessa perspectiva, D’INCAO (1994) considerou que esta relação parece ser importante para que se possa compreender, por exemplo, práticas culturais que levam a maior ou menor eficácia das unidades produtivas familiares, e que se situam em níveis distintos das propriamente econômicas e políticas. Por outro lado, em estudos sobre o processo migratório para a região, LÉNA (1991) observou que os migrantes passaram por várias etapas migratórias e acumularam algum capital, antes da chegada a Rondônia. A acumulação anterior e a mobilidade espacial interna são situações que podem 11 explicar a diferenciação observada nos estágios de desenvolvimento socioeconômico. Não se trata, pois, de descartar as variáveis econômicas, mas somar a elas as variáveis culturais, uma vez que a realidade conhecida por meio de estudos realizados, em áreas de colonização oficial em Rondônia (LÉNA, 1991; COY, 1988; OLIVEIRA et al., 1995; MONTEIRO et al., 1997), evidencia que, para empreender um processo de acumulação e ascensão social, as famílias migrantes desenvolvem uma trajetória socioeconômica baseada, dentre outras, em estratégias de caráter econômico, tais como: 1) capitalização, mediante compra e venda de terra; 2) pecuária e culturas perenes como atividades econômicas principais; 3) venda de mão-de-obra; 4) gado, como poupança. Para WANDERLEY (1996), ... um dos eixos centrais da associação camponesa entre família, produção e trabalho é a expectativa de que todo investimento em recursos materiais e de trabalho despendido na unidade de produção, pela geração atual, possa vir a ser transmitido à geração seguinte, garantindo a esta, as condições de sua sobrevivência... Considerando-se esses aspectos, faz sentido buscar a compreensão das estratégias da família em relação à manutenção do patrimônio fundiário e à alocação dos seus diversos membros no interior do estabelecimento ou fora dele, uma vez que essas estratégias, dentre outras, são fortemente orientadas pelo objetivo, no médio ou longo prazo, da sucessão entre gerações. Tendo em vista que as unidades familiares de produção da agricultura familiar são constituídas por unidades de produção e que a produção é organizada em torno dos membros da família, este trabalho orienta-se pela seguinte hipótese: O agricultor familiar estaria adotando, como nova perspectiva de reprodução social, a pluriatividade (prática de atividade extraagrícola) como uma das estratégias que visam, ao mesmo tempo, assegurar sua sobrevivência imediata e garantir a reprodução das gerações futuras. Na promoção do desenvolvimento rural, os serviços de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural têm a atribuição de responder ao desafio da promoção do desenvolvimento socioeconômico da pequena agricultura com a utilização de várias estratégias de intervenção. Uma dessas estratégias consiste em iniciar o processo nas unidades de produção, valorizando, ao mesmo tempo, a experiência dos produtores e os avanços da pesquisa. Neste 12 sentido, coloca-se a importância de conhecer quem é esse produtor e suas lógicas produtivas e familiares. Nesse contexto, o problema desta pesquisa situa-se em torno da complexa relação entre a família, enquanto grupo doméstico de convívio e de trabalho, tendo-se, por um lado, o processo produtivo, fundamentado numa racionalidade técnica, produtivista e econômica, e, por outro, a unidade familiar movida por lógicas familiares de caráter sociocultural. O problema de pesquisa foi sintetizado na seguinte questão: Obtido o acesso a terra, de que forma as famílias desenvolveram suas estratégias de reprodução social, com vistas na sua organização e inserção na atividade produtiva e na promoção social? 1.5. Objetivos do estudo 1.5.1. Objetivo geral Identificar elementos que expressam a lógica das estratégias de reprodução social e que geraram diferentes trajetórias sociais de agricultores familiares no processo de colonização da fronteira agrícola amazônica. 1.5.2. Objetivos específicos Descrever e analisar a trajetória migratória das famílias, por meio da identificação das etapas migratórias e do processo de acumulação; Descrever e analisar, sob o aspecto da fragmentação ou expansão, a trajetória fundiária do estabelecimento agrícola familiar; Identificar, descrever e analisar as estratégias da organização do trabalho do grupo familiar na prática, ou não, de atividades não-agrícolas (pluriatividade); e Identificar, descrever e analisar as estratégias de encaminhamento e as trajetórias dos filhos. 13 2. REFERENCIAL TEÓRICO 2.1. A fronteira como espaço de reprodução e diferenciação social As diferentes abordagens teóricas de fronteira situam-se no âmbito dos estudos de economistas, geógrafos, antropólogos e sociólogos, dentre outros pesquisadores. VELHO (1972), SAWYER (1988), BECKER (1994) e MARTINS (1997) são alguns dos autores que têm discutido o assunto, que se revela complexo e heterogêneo, dadas as suas diferentes concepções. Uma delas polariza-se entre frente pioneira (ou zona pioneira) e frente de expansão, conforme distinção feita por MARTINS (1997). Segundo MARTINS (1997), quando os geógrafos se referem à frente pioneira, estão falando de uma das faces da reprodução ampliada do capital, ou seja, a sua reprodução extensiva e territorial, essencialmente, mediante a conversão da terra em mercadoria; já os antropólogos, quando se referem à frente de expansão, falam de uma forma de expansão do capital que não pode ser qualificada como caracteristicamente capitalista, porque se baseia num sistema de trocas e de comércio que nem sempre envolve dinheiro (MARTINS, 1997). Segundo MARTINS (1997), a concepção de frente pioneira ... compreende implicitamente a idéia de que na fronteira se cria o novo, nova sociabilidade, fundada no mercado e na contratualidade das relações sociais... (...) a frente pioneira é mais que o deslocamento da população sobre territórios novos... (...) é também a situação espacial e social que convida ou induz à 14 modernização, à formulação de novas concepções de vida, à mudança social MARTINS (1997:153). Em estudo sobre a década de colonização agrícola dos anos 70, ALMEIDA (1992) denominou a ocupação amazônica por pequenos produtores como “fronteira social”, visto que o acesso à terra barata na fronteira teria sido uma política social bem sucedida para os seus beneficiários diretos. Considerando-se as diferentes abordagens de fronteira, entende-se que a ocupação da Amazônia, no processo de colonização dirigida, constitui uma frente pioneira de caráter agrícola. Nessa perspectiva situa-se a análise das estratégias reprodutivas de agricultores, participantes do processo de colonização em Rondônia. A fronteira agrícola amazônica constitui, para o agricultor migrante, um campo de forças contraditórias, no qual ele vai buscar o seu espaço de sobrevivência, manter-se e reproduzir-se. As motivações e as estratégias dos indivíduos, famílias e grupos sociais envolvidos [no processo de colonização] são consideradas, por WANDERLEY (1998), como questões centrais nos estudos sobre a agricultura familiar, no que se refere à significação das fronteiras. Nessa busca de estabelecer-se, produzir e reproduzir-se em uma frente pioneira, o colono ultrapassa várias etapas. A etapa inicial de adaptação às novas terras, nos quatro ou cinco primeiros anos, foi denominada, por LÉNA (1991), de “zona de fragilidade”. MORAN (1986) considerou que, nos cinco primeiros anos, os colonos passam por um estágio de “teste do passado”, no qual reproduzem, no novo meio ambiente, as formas de produção agrícola que lhes são familiares. Na segunda fase, de consolidação da propriedade da terra, o desafio é integrar-se ao ambiente econômico-institucional que o envolve. Na relação do colono com o mercado, estabelece-se a diferenciação social pela variedade de reações destes a esse ambiente, diferenças que dependem das influências que o colono traz de outros ambientes onde esteve, como também de suas características individuais, tais como idade, tamanho do grupo familiar, força de trabalho disponível, tempo no lote, área de terra já desmatada, nível de educação formal e inúmeros fatores que alteram o seu desempenho agrícola (ALMEIDA, 1992). 15 A expressão diferenciação social, na literatura sociológica, tem sido relacionada com os processos de especialização e evolução. EISENSTADT (1970) considerou a diferenciação como processo, unindo-a à idéia de evolução, como principal tendência das mudanças sociais. O conceito descreve o modo como as principais funções sociais se dissociam, agregam a papéis e a atividades especializadas, e organizam em estruturas relativamente específicas e simbolicamente autônomas dentro dos limites do próprio sistema institucionalizado. Parece ser possível relacionar diferenciação, como processo, com a situação estudada, uma vez que, na sociedade camponesa, os principais papéis são atribuídos a unidades de parentesco e a familiares, nas quais se baseia, primariamente, a divisão do trabalho. Assim, as trajetórias traçadas pelos migrantes, sejam elas ascendentes, descendentes ou de estagnação, corresponderiam ao nível de desenvolvimento alcançado por meio de vários estágios de especialização e diferenciação. BARBOSA (1988), em estudo sobre o Médio Solimões, no Amazonas, observou que o processo de diferenciação social na fronteira se manifesta pela apropriação fundiária, pela trajetória social de indivíduos ou dos grupos pertencentes à produção mercantil, e pela inserção no mercado (trabalho assalariado em empresas). SANTOS (1993:156) identificou uma dupla diferenciação social entre colonos, a saber: 1) Diferenciação social horizontal, estabelecida a partir dos diferentes estatutos da terra e do momento de chegada ao programa de colonização; e 2) Diferenciação social vertical, que permite classificar os colonos em “empobrecidos”, “fracos” e “fortes”. Essas categorias foram construídas a partir dos seguintes critérios: a) Volume e qualidade dos recursos trazidos; b) Tamanho da família e momento do seu ciclo de vida; e c) Envolvimento em atividades complementares, cuja renda contribua para a sobrevivência do grupo, assim como para a melhoria do estabelecimento. Em Rondônia, constatam-se processos de diferenciação social no campo, que reproduzem as estruturas socioeconômicas das regiões de onde vieram os migrantes em busca de uma "estratégia camponesa de sobrevivência" às frentes pioneiras (COY, 1988). Entende-se, pois, que o processo de diferenciação esteja estritamente relacionado com as estratégias 16 adotadas pelas famílias migrantes, já que o desafio primeiro, enfrentado por elas, é o da sobrevivência de seus membros. 2.2. A família como unidade de reprodução social Estudos sobre reprodução social e família como unidade de produção e reprodução social constituem a base teórica e conceitual fundamental à reflexão que se pretende realizar. Diferentes significações são atribuídas ao termo reprodução social nas ciências sociais. Na perspectiva marxista, os processos produtivos e reprodutivos são concebidos como simultâneos, já que uma sociedade não pode parar de consumir nem de produzir, por isso, todo processo social de produção é, ao mesmo tempo, um processo de reprodução (MARX, 1982), razão pela qual reprodução significa continuidade de produção. O problema da reprodução é um dos aspectos cruciais da teoria marxista de exploração capitalista do trabalho assalariado e de força de trabalho como mercadoria. Pela lógica de reprodução do capital, a força de trabalho é a única mercadoria cujo preço, fixado dentro do sistema de preço de mercadoria, como estudado pela economia clássica, expressa um valor de troca que é muito mais baixo do que o valor total criado durante o processo de trabalho (MARX, 1982). Quando esta lógica capitalista - que, a um só tempo, articula a expropriação e a exploração do trabalhador - se aplica ao camponês, a sua mercadoria é o “produto do trabalho”, enquanto a mercadoria do operário é a sua “força de trabalho”, que se pode comprar e vender (MARTINS, 1997). Nesse contexto, a produção agrícola, no primeiro caso, e o salário, no segundo, são elementos que devem garantir a reprodução das condições de subsistência do trabalhador e de sua família. É neste ponto da formulação de sua teoria que Marx encara a questão da reprodução social, conforme analisou MINGIONE (1991): ... para continuar provendo a sua força de trabalho, os trabalhadores tem que ser capazes de sobreviver, têm que gerar filhos e criá-los como a próxima geração de trabalhadores; esta é a razão pela qual o Marx usa o termo reprodução e não produção no caso da força de trabalho. Por outro lado, Marx não considerou a reprodução apenas no aspecto material e produtivista, em que o modo de produção da vida material 17 condiciona o processo em geral de vida social, político e espiritual (MARX, 1982:25), ou seja, não é apenas a produção de excedentes materiais que está em jogo, visto que as sociedades reproduzem também as condições sociais específicas da sua existência. Outra vertente clássica da reprodução social se encontra em CHAYANOV (1981). Na sua teoria dos sistemas econômicos não-capitalistas, ele analisou alguns aspectos da racionalidade camponesa. A concepção básica da teoria chayanoviana fundamenta-se na auto-exploração doméstico, determinada pela relação de equilíbrio entre do grupo a satisfação da demanda familiar e a própria penosidade do trabalho. Dessa forma, enquanto não atingir o equilíbrio entre esses dois elementos, a família, que trabalha sem utilizar trabalho pago, tem motivos para prosseguir em sua atividade econômica. Nesse contexto, discute-se o papel atribuído à estrutura do grupo familiar, que seria o de determinar a força de trabalho e o nível de consumo, derivando-se, daí, o desempenho produtivo dessas unidades econômicas: A quantidade do produto do trabalho é determinada principalmente pelo tamanho e a composição da família trabalhadora, o número de seus membros capazes de trabalhar, e, além disso, pela produtividade da unidade de trabalho e – isso é especialmente importante – pelo grau de esforço do trabalho, o grau de auto-exploração através do qual os membros trabalhadores realizam certa quantidade de unidades de trabalho durante o ano (CHAYANOV, 1981:138). A idéia contida nessa concepção teórica é a de que os integrantes da unidade doméstica e de convivência no meio rural organizam seus processos de trabalho e de relações mediante acordos básicos relacionados com composição da família, necessidades econômicas, e distribuição da força de trabalho, da variável demográfica e etária, de maneira tal que lhes permitam proporcionar um equilíbrio interno para a família. As teorizações e as análises clássicas dos modos de reprodução social, como visto, admitem que atividades destinadas a produzir renda monetária constituam fator central exclusivo na estruturação e na explicação da ordem social em diferentes tipos de sociedades. Contemporaneamente, um dos críticos dessas abordagens clássicas foi MINGIONE (1991), para quem os estudos sociológicos e históricos de vida familiar e dos padrões de consumo são muito importantes para entender e teorizar sobre a reprodução social. As mudanças que vêm ocorrendo no mundo remetem à análise teórica da mudança e da diversidade dos padrões de 18 reprodução social. Este autor considerou que uma análise especializada da família ou de vários padrões de consumo, sem o suporte de uma teoria de reprodução social, não é prejudicial ou errado, mas fator limitante. Por serem indiretas, e quase sempre inconscientes, elas [as análises] emprestam crédito a uma visão estritamente "economicista" da vida social. MINGIONE (1991) afirmou que rendas monetárias, embora importantes, não são adequadas para explicar estratégias de vida e dos padrões viventes. A hipótese é que os sistemas sociais contemporâneos não podem ser entendidos, completamente, a partir de uma análise de estrutura ocupacional (profissional) e suas mudanças. Considerou indispensável buscar explicações para a heterogeneidade de formas de trabalho, bem como para o significado de trabalho doméstico não-remunerado, afinidade, amizade e solidariedade de comunidade e muitos outros fenômenos. O conceito de reprodução social, nesta análise, expressou as diversas condições e relações organizacionais que permitem aos seres humanos sobreviver em vários contextos social e grupal (MINGIONE, 1991:124). Neste sentido, pode-se entendê-lo como sinônimo de estratégia de sobrevivência. A unidade básica de reprodução social está localizada na unidade familiar. O conceito de família tem diferentes conotações, de acordo com a natureza do estudo a ser empreendido. Família e parentesco são conceitos que estão estreitamente relacionados. Segundo LABURTE-TOLRA e WARNIER (1997:105), a organização do parentesco concretiza-se nos diferentes tipos de família e, no sentido estrito da palavra, o conceito de família é: um grupo de pessoas ligadas pelo sangue, pelo casamento, ou pela adoção e habitualmente residindo junto, tendo por objetivo a sobrevivência econômica, a identificação individual e coletiva, e a criação de eventuais rebentos. Mas toda família concreta modifica-se e se desfaz sem cessar, ao passo que o sistema de parentesco perdura. Para BOURDIEU (1996:131), a família tem um papel determinante na manutenção da ordem social, na reprodução não apenas biológica , mas social, isto é, na reprodução da estrutura do espaço social e das relações sociais. Ela é um dos lugares por excelência de acumulação do capital sob seus diferentes tipos e de sua transmissão entre as gerações: ela resguarda sua unidade pela transmissão e para a transmissão, para poder transmitir e porque ela pode transmitir. Ela é o “sujeito” principal das estratégias de reprodução. MINGIONE (1991:132) corroborou essa afirmativa, porém, alertou para o fato de que 19 a unidade familiar não pode ser vista, simplesmente, como uma unidade estatística, ou física de co-residência, mas deve ser vista como um local de mudança nas relações sociais, que estabelecem uma gama de obrigações mútuas (basicamente, uma forma recíproca de organização social) no sentido de ajudar seus membros a sobreviver. Nesse sentido, sobrevivência não é só intencional, mas inclui também estratégias para promover o bem-estar e a possível mobilidade social. a) Estratégias e habitus na reprodução social Um conjunto de estratégias é empreendido pelas unidades familiares, com vistas na sobrevivência. Tais estratégias, como, por exemplo, matrimoniais, de fecundidade, educativas, econômicas, etc., não têm regras claramente definidas, mas apresentam de formas variadas e como alternativas que regem a reprodução da unidade familiar. Estratégia e habitus são noções teóricas elaboradas por BOURDIEU (1990, 1996), em sua teoria da ação. Ambas são empregadas como uma espécie de senso prático do que se deve fazer em dada situação, como sentido do jogo. A noção de habitus, proposta por BOURDIEU (1996:170), implica dizer que a maior parte das ações humanas tem por base algo diferente da intenção, isto é, adquiridas que fazem com que a ação possa e deva ser interpretada como orientada em direção a tal ou qual fim, sem que se possa, entretanto, dizer que ela tenha por princípio a busca consciente desse objetivo. É nesse sentido de disposições como ação consciente que se analisaram as estratégias familiares. As estratégias mantêm vínculos estreitos com o habitus gerado pelas estruturas objetivas promotoras de práticas individuais que constituem o âmbito familiar (TEDESCO, 1999). b) Da rede de parentesco ao individualismo na unidade familiar A abordagem teórica até então desenvolvida tem situado a unidade familiar como “sujeito” principal das estratégias de reprodução, que, ao mesmo tempo, age como um “sujeito coletivo” em atos econômicos. Nessa situação, a família é o lugar de uma espécie de vontade transcendente, que se manifesta em decisões coletivas e (...) seus membros se sentem levados a agir como parte de um corpo unido (BOURDIEU, 1996:131). Porém, importa também compreender a família como um universo, cujos membros estão unidos por intensos laços afetivos, o qual transcende a racionalidade econômica. Segundo BOURDIEU (1996:130), as estruturas de 20 parentesco e a família como corpo só podem se perpetuar ao preço de uma criação continuada do sentimento familiar. Seria esse sentimento familiar, aliado ao agir como sujeito coletivo, que teria norteado a migração de grupos familiares rumo à fronteira? A relação entre os movimentos migratórios e o parentesco foi abordada por WOORTMANN (1995:116), para quem a emigração é, ao mesmo tempo, desencadeada por e organizada pelo sistema de parentesco: uma dimensão desse sistema, como o padrão de herança, expulsa pessoas; outra dimensão, o „espírito de parentesco‟ faz com que a migração se faça através de grupos de parentes (irmãos, primos, etc., assim como afins) que irão replicar o modelo em outro lugar – para em seguida, recomeçar tudo de novo. Fala-se muito, na atualidade, em transformações na articulação das relações familiares, que estariam sendo afetadas pelo processo de modernização e urbanização da sociedade, e pela sua conseqüente redefinição na organização técnica, econômica e política do processo social como um todo. Segundo MINGIONE (1998), as sociedades contemporâneas encontram-se no final de um ciclo histórico que testemunhou a prevalência de fatores organizacionais associativos, transitando deste para um modelo de sociedade mais fragmentada e heterogênea. Dois dos principais elementos desse modelo de fatores associativos padronizados foram a família nuclear, fundada no sistema de provedor único, e o individualismo familístico (investimento na mobilidade ascendente entre gerações dos filhos do sexo masculino). Esse autor considerou que, em razão da transição atual dos regimes de emprego, já não são adequadas as formas de seleção, divisão e proteção da mão-de-obra disponível de famílias nucleares sustentadas pelo salário de um único provedor. Ao analisar mudanças nas estratégias de reprodução em diferentes sociedades, MINGIONE (1991:190) concluiu que a era industrial proporcionou o aumento potencial de procura de renda individual, principalmente na forma de salários, fora do sistema econômico da unidade doméstica, provocando grandes mudanças na organização de sociedades industriais comparada com as pré-industriais. Ressaltou, porém, que as estratégias de reprodução permaneceram basicamente sujeitas a padrões de reciprocidade, que, por sua vez, mudaram para acomodar as crescentes pressões de comportamento individualista. 21 As mudanças na sociedade global estariam, pois, interferindo nas sociedades locais. Segundo LABURTE-TOLRA e WARNIER (1997:106), no mundo inteiro, os sistemas familiais encontram-se em plena evolução. Tal evolução está relacionada com um rompimento do poder de parentesco, em conseqüência de diversos fatores, dentre os quais a transformação dos regimes de propriedade, que favorecem a ascensão do individualismo. É nesse sentido que trajetórias individuais também condicionam as relações em família. O individualismo seria fator diferencial das trajetórias individuais de agentes submetidos às contingências de sua materialidade espaço-temporal. Segundo TEDESCO (1999:191), as estratégias adaptativas internas, por mais que pareçam ou tendam a se individualizar, encontram sentido no compromisso e nas categorias de responsabilidade, obrigação, honra e honestidade que qualificam a família. Outro aspecto relacionado com o padrão de família nuclear, no horizonte das transformações mais gerais da sociedade e do meio rural, que vem sendo discutido na atualidade, é o significado de alguns processos sociais que levaram a mudanças nos padrões de comportamento e de institucionalização das relações de casamento e família, dando lugar a um formato novo, a que VAITSMAN (1995) denominou de “plurais e flexíveis”. TEDESCO (1999), em extenso estudo sobre o ethos do colono migrante na região Sul do País, quanto à questão da permanência da família, afirmou que o grau intenso da construção da individualidade (pelo direito, pelo espaço da mulher, por relações familiares mais democráticas, pelo estudo no espaço urbano, etc.), gerando em alguns casos, individualismos exagerados e opções individuais em termos de trabalho e estilo de vida, não rompeu com a unidade familiar (TEDESCO, 1999:268). Este autor apontou relações de parentesco, residências isoladas, migrações de parcelas da família nucleada (mobilidade espacial), separações e recasamento como alguns dos fatores que resultam em lógicas diferenciadas de articulação das relações familiares tanto dos papéis quanto das trajetórias de vidas individuais de seus membros. 22 2.3. Estratégias de reprodução social na agricultura familiar Atualmente, novos processos sociais perpassam o meio rural. A agricultura familiar, sob a noção de unidade familiar de produção, consumo e convívio, manifesta a dinâmica desses novos processos, dentre eles, a associação entre família, terra e trabalho. Pesquisadores contemporâneos têm promovido debate teórico sobre as novas formas sociais de produção agrícola e, mais particularmente, sobre a agricultura familiar, que configuraria uma Teoria da Agricultura Familiar. A partir dos resultados de um estudo comparativo internacional, na França, no Canadá, na Polônia, na Tunísia e no Brasil, estão sendo lançadas, por LAMARCHE (1998), as hipóteses que conduzem às reflexões teóricas sobre a agricultura familiar. Segundo esse autor, a agricultura familiar não é uma forma social residual, transitória ou em vias de desaparecimento, visto que ela ocupa um espaço próprio nas sociedades modernas, é uma realidade multiforme e diversa, resultado da capacidade de adaptação a contextos sociais e políticos diversos. Esse autor contestou certa percepção evolucionista das transformações da agricultura moderna e mostrou que os agricultores mais envolvidos e dependentes do mercado são precisamente os mais fragilizados pela própria crise do mercado. Em conseqüência, o recurso ao autoconsumo e a reutilização de produtos na unidade de produção, a redução do endividamento financeiro e as práticas de ajuda mútua, longe de significarem atraso tecnológico dos agricultores, constituem estratégias, extremamente variadas de adequação a essas mesmas condições adversas do mercado (LAMARCHE, 1998). As noções teóricas das estratégias de reprodução social, quando aplicadas ao agricultor que trabalha em família, apresentam alguns aspectos particulares que merecem ser levados em consideração. Às estratégias anteriormente mencionadas somam-se àquelas que são orientadas por lógicas produtivas diversas, tanto as referentes à combinação dos modos de exploração, quanto as de organização do trabalho, como a cooperação mútua e a pluriatividade. Estas manifestam racionalidades internas e adaptativas frente e em razão do impacto das transformações globalizantes, do mercado, da cultura urbana, das redefinições 23 industriais em termos de tempos, espacialidades e correlações de forças entre os atores sociais envolvidos (TEDESCO, 1999). Segundo LAMARCHE (1993:102), o produtor agrícola familiar é aquele que exerce atividade numa unidade de produção agrícola familiar, isto é, numa unidade de produção, na qual a propriedade e o trabalho estão estreitamente ligados à família. Para esse autor, as estratégias familiares são respostas dadas por famílias, individualmente, a fim de assegurar, ao mesmo tempo, a sua própria reprodução e a sua exploração. Essas respostas se expressam, mais freqüentemente, nas estratégias matrimoniais, fundiárias, patrimoniais e de encaminhamento dos filhos. Entender como os agricultores orientam suas estratégias fundiárias é um dos objetivos deste estudo. Para MAUREL (1998:90), as lógicas fundiárias, referentes à relação dos produtores com a terra, seja como bem patrimonial, seja como bem de produção, materializam-se por meio de uma trajetória fundiária que pode ser codificada em três posições: retração, estabilidade e acumulação. A partir das trajetórias fundiárias e dos projetos fundiários do produtor, esse autor definiu os perfis de quatro grupos de produtores. Dois deles, qualificados como os resignados e os frustrados, caracterizam-se por trajetórias de retração ou de estagnação das áreas exploradas desde a instalação; os outros dois, designados os satisfeitos e os empreendedores, caracterizam-se por trajetórias de acumulação (MAUREL, 1998:92). Com base nessas definições, MAUREL (1998:105) definiu três categorias para descrever as relações de produtores familiares com a terra: 1) “sociedade fundiária”, que consiste na aceitação da situação fundiária depois de uma fase de acumulação, alegando-se, para isso, a suficiência de superfície e o risco de faltar mão-de-obra; 2) “Renúncia fundiária”, que consiste na contração ou na estabilidade da base fundiária, decorrente de uma situação de bloqueio fundiário; e 3) “Fome de terras”, quando os agricultores estão dispostos a investir na terra, se tivessem uma poupança, e admitem a mobilidade geográfica para satisfazer a essa necessidade, ou seja, agricultores que não hesitariam em vender sua propriedade para ter acesso a uma terra maior e de melhor qualidade. As estratégias familiares de encaminhamento dos filhos são abordadas no trabalho coordenado por LAMARCHE (1993), a partir da compreensão dos 24 projetos que os agricultores acalentam para seus filhos. Foram construídas sete categorias de aspirações a respeito dos filhos: 1) Ruralista, quando visa fixar os filhos no campo; 2) Patrimonial, quando objetiva conservar um ou vários filhos homens no estabelecimento paterno; 3) Promoção social, quando objetiva dar aos filhos uma formação superior, para que consigam uma profissão com um status social mais elevado; 4) Tradicionalista, quando se limita a resolver o problema do encaminhamento das filhas por meio do casamento; 5) Patrilocalidade, quando os pais desejam que os filhos permaneçam no estabelecimento, mesmo que em casas separadas; 6) Exolocalidade, quando os pais preferem que os filhos se fixem a certa distância do domicílio paterno; e 7) Exolocalidade longínqua, quando ocorre a aceitação de uma emigração dos filhos para fora do município ou da região imediata (STANEK, 1998:120). Os produtores, na organização das unidades de produção, enfrentam pressões resultantes, dentre outros, de características edáficas, preços agrícolas, crédito rural e direito rural. Tais fatores, ao atuarem simultaneamente, limitam e orientam as decisões do produtor na realização de suas atividades econômicas e sociais básicas. A pluriatividade, independente da controvérsia quanto ao uso do termo, como será discutido a seguir, apresenta-se como uma alternativa a essa realização. 2.4. A pluriatividade como nova perspectiva de reprodução social A pluriatividade é definida, genericamente, como a combinação de atividades agrícolas e não-agrícolas. Essa prática vem sendo observada em diferentes contextos históricos e sociais, em todo o mundo. O debate sobre a noção de pluriatividade tem se dado tanto no campo técnico e político quanto no das Ciências Sociais. Neste, a discussão sobre o caráter da atividade se desenvolve em duas proposições: a pluriatividade seria uma atividade de caráter estrutural e permanente, como condição de reprodução social de determinada camada de pequenos agricultores; ou seria conjuntural, como resposta à crise da agricultura modernizada (CARNEIRO, 1996). 25 Vários pesquisadores, como CARNEIRO (1996), LAMARCHE (1998), SILVA (1999) e ALENTEJANO (1999), têm discutido a noção de pluriatividade e a sua crescente importância no meio rural. O próprio emprego do termo é questionado, uma vez que designa e qualifica situações sociais muito heterogêneas. Segundo CARNEIRO (1996), na década de 60, criou-se a noção de dupla atividade para caracterizar e designar as populações de pequenos proprietários de regiões montanhosas da França, que exerciam atividades complementares não-agrícolas. Esse fenômeno, durante os anos 60 e 70, passou a ser referido como agricultura em tempo parcial (part-time farmer). Nos anos 80, essas expressões foram, pouco a pouco, sendo substituídas pela noção de pluriatividade. Para CARNEIRO (1996:93), embora o termo pluriativo seja utilizado para designar a multiplicidade de atividades econômicas que são realizadas conjuntamente com a agricultura, por um mesmo indivíduo, essa categoria traduz muito mais o caráter sazonal das ocupações do que a quantidade delas. Considerando-se a amplitude do debate em torno do assunto, a discussão, aqui promovida, limita-se à abordagem da pluriatividade como forma de reprodução social do agricultor familiar e como nova relação de trabalho no campo, a qual passa a representar não apenas uma saída econômica para a crise, mas também uma alternativa de vida. Estudos realizados no Brasil por SEYFERTH (1987), LOVISOLO (1991) e GARCIA JÚNIOR (1989), embora não distingam a prática de atividades remuneradas fora da agricultura como um fenômeno social específico, revelam que, desde o início do século, já havia registro do recurso às atividades remuneradas fora da agricultura, como mecanismos de estratégias de vida. A pluriatividade, como nova perspectiva de reprodução social, foi concebida por LAMARCHE (1993, 1998), para quem o modelo produtivista, que se desenvolveu principalmente nos países industrializados e se impôs como modelo de referência para o mundo inteiro, está em crise. Na concepção desse autor, essa crise teria levado os agricultores a se transformarem e a se adaptarem às condições que se apresentam, para evitar o seu desaparecimento como agricultor e garantir a sua reprodução social. Esse autor considerou ainda que, 26 se a pluriatividade for entendida como um fenômeno, que ultrapassa a necessidade de uma resposta à crise atual da agricultura, a tendência é considerar o pluriativo como embrião de uma nova categoria social ”moderna” que se distinguiria das outras por ser portador de um sistema de valores próprios, que não corresponde nem ao urbano nem ao rural (LAMARCHE, 1998). No conjunto de informações geradas pelo trabalho coordenado por LAMARCHE (1998), para análise do trabalho familiar, quanto ao exercício ou não da pluriatividade, foram definidos oito modelos: 1) Famílias extensas, parcialmente pluriativas, com trabalho assalariado, caracterizado por uma pluriatividade moderada; 2) Pai, filhos e assalariados, pluriatividade nula e utilização geral de mão-de-obra assalariada; 3) Família extensa, presença maciça das associações familiares e pluriatividade esporádica; 4) Monoatividade familiar, associações familiares em que os filhos estão ocupados em tempo integral e a pluriatividade é nula; 5) Pluriativos, responsáveis pelos estabelecimentos, cujos filhos adultos são fortemente pluriativos; 6) Pluriatividade dos filhos, filhos adultos que vivem no estabelecimento e têm emprego fora; 7) Pluriatividade dos pais, maior número de responsáveis que trabalham em tempo integral fora do estabelecimento, sobretudo as esposas; e 8) Monoatividade nuclear, quando o casal trabalha sozinho no estabelecimento. Segundo CARNEIRO (1996), para compreender a complexidade do fenômeno, é fundamental aprofundar os estudos dos mecanismos e das lógicas de reprodução social do grupo doméstico, em diferentes contextos históricos e sociais, levando-se em conta as fases do ciclo doméstico, a lógica das relações entre as famílias e os valores subjacentes. O tipo de atividade não revela, por si só, qual o seu significado para os grupos domésticos que a praticam, por isso, torna-se necessário conhecer a lógica das estratégias familiares para completar a análise. O reaparecimento das atividades não-agrícolas associadas à exploração agrícola, nos tempos atuais, traduziria a ação de duas forças - a produção individual de renda e a manutenção do caráter unitário da economia doméstica. Nessa nova forma de organização do trabalho e da economia do campo, a produção agrícola seria apenas uma das atividades produtoras de renda que integram a economia das famílias. 27 O que caracterizaria a nova unidade não seria a organização coletiva da produção e do consumo, mas a capacidade de gerar coletivamente o capital econômico, social e cultural em vista da reprodução biológica e social dos indivíduos (CARNEIRO, 1996:96). SILVA (1999) inseriu os estudos sobre pluriatividade, no Brasil, no contexto da formação do “novo rural brasileiro”. Na abordagem desse autor, o tema está relacionado com os limites entre o que é rural e o que é urbano, já que, por um lado, o meio rural brasileiro se urbanizou, como resultado do processo de industrialização da agricultura, e, por outro, ocorreu o transbordamento do mundo urbano no espaço tradicionalmente definido como rural. Diante desse duplo processo de transformação, esse autor concluiu que o meio rural brasileiro não pode ser mais analisado apenas como um conjunto de atividades agropecuárias e agroindustriais, pois ganhou novas funções. Esse autor reconheceu a existência de um novo ator, as famílias pluriativas, que combinam atividades agrícolas e não-agrícolas na ocupação dos seus membros, dentro e fora do estabelecimento, tanto nos ramos tradicionais urbano-industrial como nas novas atividades que vêm se desenvolvendo no meio rural, como moradia, turismo, conservação da natureza, lazer e prestação de serviços pessoais. Observa-se, nos estudos desse autor, que a questão da pluriatividade não é vista apenas como a associação de atividades agrícolas e não-agrícolas por um mesmo produtor rural, uma vez que as suas análises, baseadas nos dados das Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios (PNAD), compreendem, além do produtor pluriativo, as populações rurais com emprego no meio urbano, assim como populações urbanas com emprego no meio rural. Outro contexto da discussão é aquele no qual se vê a pluriatividade como parte de um processo de proletarização, que resulta na decadência da propriedade familiar, e, por outro, como uma etapa de diferenciação social e econômica das famílias agrícolas, que já não conseguem se reproduzir apenas nos espaços agrícolas do novo mundo rural. Segundo SILVA (1999), as atividades agropecuárias estão se tornando cada vez mais atividades de tempo parcial para expressivo número de trabalhadores do País, levados, certamente, pela vontade de obter renda suficiente para manter as famílias em condições dignas. 28 Em suma, a pluriatividade é um fenômeno amplo que comporta uma complexidade de significados e é praticada de múltiplas formas; como tal, é uma importante estratégia adaptativa das famílias rurais. 29 3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Este trabalho de pesquisa constitui um estudo de caso, com objetivos exploratórios e descritivos. O objetivo do estudo de caso em ciências sociais, segundo BECKER (1994), é compreender, de forma abrangente, o grupo em estudo e, ao mesmo tempo, tentar desenvolver declarações teóricas mais gerais sobre regularidades do processo e estruturas sociais. Os estudos de casos, apontados por BLACK e CHAMPION (1976), dentre outros, apresentam a vantagem de ter métodos de coleta de dados mais flexíveis; poder ser conduzidos em praticamente qualquer tipo de instalação social; oferecer exemplos específicos de teste das teorias; e ser muito baratos, dependendo da extensão da pesquisa e do tipo de técnicas de dados envolvidas. A proposta de pesquisa foi gerada a partir de 1990, ocasião dos primeiros contatos da autora com a realidade dos agricultores familiares que migraram para Rondônia, e consolidou-se com a sua participação, em outubro de 1997, na equipe de pesquisadores da Embrapa Rondônia, que realizou um diagnóstico dos sistemas de produção dos membros da Cooperativa Agropecuária Mista de Nova União (COOPAMNU). O trabalho fez parte da metodologia do Projeto de Introdução de Tecnologia em Pequenas e Médias Propriedades Rurais em Rondônia, no qual foram analisadas 44 unidades agrícolas de produção familiar do município, sendo 11 na Linha 40 e 17 na Linha 44, correspondendo a 65% do total. Os 30 dados coletados no referido diagnóstico - designado, para fins deste trabalho, diagnóstico preliminar - e as questões levantadas por membros da equipe do referido projeto evidenciaram a ocorrência do fenômeno da diferenciação social observada entre os colonos e forneceram elementos complementares para a formulação do problema da pesquisa desenvolvida. Optou-se pela pesquisa qualitativa, porque ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis (MINAYO, 1994:22). Como ponto de partida para compreensão das estratégias reprodutivas desenvolvidas pelos migrantes, diante da complexidade da dinâmica da agricultura familiar por eles praticada, foram coletados dados por meio da técnica de história de vida, complementada por técnicas quantitativas. Segundo QUEIROZ (1988:20), a história de vida se define como o relato de um narrador sobre sua existência através do tempo, tentando reconstituir os acontecimentos que vivenciou e transmitir a experiência que adquiriu. Pesquisadores que utilizam a história de vida como técnica de coleta de material consideram que ela não pode ser utilizada sozinha numa pesquisa, mas deve ser complementada por material obtido de outra forma (QUEIROZ, 1988:26). A conjunção de dados quantitativos e qualitativos foi apoiada por MINAYO (1994), para quem tais dados não se opõem, ao contrário, se complementam, pois a realidade abrangida por eles interage dinamicamente, excluindo qualquer dicotomia (MINAYO, 1994:22). Quanto à história de vida como estratégia de compreensão da realidade, CRUZ NETO (1994) afirmou que ... sua principal função é retratar as experiências vivenciadas, bem como as definições fornecidas por pessoas, grupos ou organizações. Ela pode ser escrita ou verbalizada e abrange na versão de Denzi, citado por MINAYO (1992), os seguintes tipos: a história de vida completa, que retrata todo o conjunto da experiência vivida; e a história de vida tópica, que focaliza uma etapa ou determinado setor da experiência em questão (grifos do autor) (CRUZ NETO, 1994:58). Daí, a opção pelo método de história de vida tópica, que remeteu os entrevistados ao passado, à retrospectiva de suas trajetórias de vida e a suas percepções sobre os resultados alcançados nessa trajetória. 31 3.1. Descrição da área de estudo A escolha da área de estudo está relacionada com o fato de o município de Nova União ter originado de uma área de assentamento do PIC Ouro Preto (Figura 1), primeiro Projeto Integrado de Colonização instalado em Rondônia. NOVA UNIÃO Figura 1 - Localização de Nova União na área de colonização do PIC Ouro Preto. O município de Nova União foi criado em 14 de junho de 1995. Antes, em 1982, foi instalado o Núcleo Urbano de Apoio Rural (NUAR Nova União), que ocupava uma área de 40 ha, local em que se concentravam os serviços básicos de saúde, educação, comércio, extensão rural e agências de organismos governamentais. Este núcleo dava suporte aos colonos dos lotes rurais de nove estradas vicinais, designadas Linhas. A área de abrangência do município é de 58.892,95 ha, que correspondem a 0,2469% do território do Estado de Rondônia (COOPERATIVA AGROPECUÁRIA MISTA DE NOVA UNIÃO - COOPAMNU, 1996). Localiza-se na região central do Estado e na microrregião de Ji-Paraná, com os seguintes 32 limites: norte, com o município de Jaru; sul, com o município de Urupá; leste, com os municípios de Ouro Preto D’Oeste e Teixeirópolis; e oeste, com o município de Mirante da Serra. Além do núcleo urbano, a configuração fundiária da área era constituída, originalmente, por 615 imóveis rurais, cujo tamanho variava de 70 a 100 ha, aproximadamente, e mais uma área de oito módulos de 1.954,6 ha, que constituíam duas fazendas onde concentravam 15.636,8 ha, que correspondiam a 26,55% da superfície do município (COOPAMNU, 1996). Nos anos 90, as fazendas foram desapropriadas e demarcadas pelo INCRA para assentamento rural, surgindo, assim, os assentamentos Margarida Alves e Quilombo dos Palmares. A população de Nova União é de 5.979 habitantes, 4.935 destes residentes na área rural, equivalentes a 82,5% da população do município (COOPAMNU, 1996). A procedência dos migrantes, que chegaram em Rondônia na década de 70, é mais freqüentemente citada a partir dos Estados do Paraná, Mato Grosso, Espírito Santo e Minas Gerais, com ligeira alteração da ordem de importância, assinalada por diversos autores (CALVENTE, 1982; COY, 1988; LÉNA, 1991; PERDIGÃO e BASSEGIO, 1992; COOPAMNU, 1996). 3.2. Unidade de análise A unidade de análise deste trabalho constituiu-se de famílias de agricultores como unidades de reprodução social, instaladas, em meados da década de 70, em duas estradas vicinais (Linha 40 e Linha 44) do atual município de Nova União-RO. A unidade empregada para a análise de reprodução primária normalmente é a unidade doméstica, determinada, para propósitos estatísticos, como a unidade co-residencial (Evers et al., citado por MINGIONE, 1991:132). Inicialmente, as referidas Linhas, que mediam 13,5 km de extensão, estavam configuradas em 54 lotes de 100 ha (2.000 x 500 m), cada uma perfazendo um total de 108 famílias assentadas. Neste universo, consideraram-se como público-alvo das entrevistas os produtores com, no mínimo, 16 anos de permanência na propriedade, aqui designados “antigos”, 33 “colonos de origem” ou “pioneiros”1, com o objetivo de distingui-los dos produtores com menos de 16 anos, designados “novos”. O limite mínimo de 16 anos foi definido a partir de dados do diagnóstico preliminar, no qual se identificou maior quantidade de colonos “antigos” nas Linhas 40 e 44, com média de 14 anos2 de permanência na propriedade. Além disso, presume-se que a dinâmica de ocupação da área tenha consolidado ao longo de um período que abrange a criação do PIC Ouro Preto, em 1970, ao ano de criação do NUAR Nova União, em 1982. Dessa forma, buscou-se selecionar os indivíduos sociais que tinham vinculação mais significativa com o problema da pesquisa, ou seja, os que permaneceram na área de colonização. No início do trabalho de campo, desconhecia-se quantos e quem seriam os produtores com 16 anos ou mais de permanência na área de estudo, definidos como público-alvo das entrevistas. A primeira etapa do trabalho consistiu em identificá-los, o que foi feito a partir de um mapa de localização das propriedades e da identificação de seus proprietários como “antigos” ou “novos”, considerando-se os critérios anteriormente mencionados. Orientado pelo conhecimento dos técnicos da EMATER e por dados do diagnóstico preliminar, foi obtido um total de 67 produtores “antigos”, 52 dos quais foram ouvidos em entrevista, assim como também seus familiares. As entrevistas foram realizadas com homens e mulheres na condição de chefe-de-família, individualmente ou em grupo. Nas raras ausências do proprietário, foram ouvidos seus cônjuges e filhos, privilegiando a percepção destes quanto às estratégias do chefe-de-família, como responsável pelo estabelecimento, enquanto unidade de trabalho e de convívio familiar. As 52 famílias entrevistadas representaram cerca de 50% do total de famílias originalmente assentadas nas Linhas 40 e 44. A maioria (63%) chegou a Rondônia nos anos de 1974 a 1976, originários, principalmente, dos Estados de Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo. Foram também entrevistados 12 produtores “novos”, com o objetivo principal de sistematizar informações sobre a configuração fundiária da área de 1 Aqui usado no sentido de primeiro, em relação aos que vieram depois (“novos”), e não como a “figura mítica do pioneiro”, conforme MARTINS (1997:15); tampouco como o “colono modelo”, segundo SANTOS (1993). 2 Média de 14 anos + 2 anos decorridos entre o diagnóstico preliminar e a pesquisa de campo. 34 estudo, complementando, assim, as informações obtidas de dois técnicos da Emater local. 3.3. Coleta e análise dos dados O trabalho de campo foi realizado no período de 20 de setembro a 1. o de outubro de 1999. A anterior realização do diagnóstico (1997) permitiu que se ultrapassasse, sem problemas, a etapa de aproximação com a comunidade estudada, embora nem todos as unidades familiares visitadas no trabalho de campo tenham sido alvo de entrevistas no diagnóstico preliminar. Antes disso, em 1996, a pesquisadora já havia visitado algumas famílias da Linha 44, acompanhando jornalistas da Revista Globo Rural, que fizeram reportagem sobre a utilização de animais bubalinos, dentro de um projeto fomentado pela Embrapa-Rondônia, para produção de leite, carne e trabalho. Apesar desse relacionamento anterior estabelecido por intermédio da Embrapa, à qual a autora sempre se referia nas apresentações, optou-se também por ser identificada como estudante de uma Universidade de Minas Gerais, que ali estava com o objetivo de conhecer a história dos mais antigos moradores daquela comunidade. Embora o diagnóstico tenha sido feito em conjunto com a COOPMANU, por ocasião do trabalho de campo, houve preocupação em esclarecer os produtores sobre a desvinculação do trabalho de pesquisa, uma vez que a Cooperativa havia passado por um processo de falência, que acarretou um débito individual de R$ 1.000,00, a ser pago pelos produtores cooperativados, o que gerou uma situação de insatisfação com a Cooperativa e com seus dirigentes, segundo depoimento de alguns produtores. A falta de infra-estrutura não permitiu hospedagem em Nova União, durante todo o período de coleta de dados. Assim, diariamente, eram percorridos 58 km em veículo Toyota, desde o Centro de Treinamento da Emater, em Ouro Preto do Oeste, até Nova União. 35 3.3.1. Técnicas de coleta de dados Diante do propósito de reconstituir a trajetória migratória, bem como identificar estratégias que se relacionam com a racionalidade produtiva dos entrevistados, fizeram-se entrevistas semi-estruturadas a partir de um roteiro (Apêndice A) que abordou a trajetória migratória, trajetória fundiária, adaptação à região, organização do trabalho, relacionamento com a comunidade, estratégias de encaminhamento dos filhos e representações sobre as estratégias empreendidas. A técnica de história de vida tópica foi empregada para o relato da trajetória migratória - a chegada e os primeiros anos em Rondônia. DESLANDES (1994) definiu as entrevistas semi-estruturadas como uma articulação entre as modalidades de entrevista não-estruturadas e estruturadas; na primeira, o informante aborda livremente o tema proposto, enquanto na segunda pressupõe perguntas previamente formuladas. A maioria das entrevistas, com duração média de uma hora, foi gravada, exceto quando não havia aprovação do entrevistado. As entrevistas foram acompanhadas por um Formulário de Sistematização (Apêndice B), que permitiu a obtenção de dados quantitativos. Nas entrevistas com os “novos”, foi utilizado um formulário simplificado (Apêndice B), que incluía a identificação dos lotes vizinhos. Além disso, foram feitas fotografias, e, no caderno de campo, foram registradas observações acerca do aspecto das moradias. As entrevistas foram feitas na varanda da casa ou na sala, diante da televisão, ou na cozinha, sob o calor do fogão de lenha. Dada a abordagem de história de vida e dadas as características próprias dos entrevistados, alguns se alongavam em detalhes, fazendo emergir um mundo de histórias, desde episódios próprios da realidade rural, como ataque de bichos selvagens, assombrações, longas caminhadas na mata fechada, morte por queda de árvores, até aqueles mais próximos da realidade urbana, como acidente de carro, relacionamento próximo com políticos, desentendimento com técnicos do INCRA, busca de atendimento médico em hospitais na capital do Estado, ou no Sul do País, etc. 36 3.3.2. Análise e interpretação dos dados O tratamento dos dados empíricos se deu com o desenvolvimento de uma análise qualitativa do material coletado, à luz de um quadro teórico explicativo das estratégias de reprodução dos agricultores familiares e de diferenciação social, num contexto de migração para uma fronteira agrícola. Adotou-se, como base da análise, uma linha teórico-metodológica que se situa entre os estudos que privilegiam a compreensão dos novos atores, seus padrões de reprodução social e suas condições de vida e de trabalho no sistema de agricultura familiar. As variáveis orientadoras da análise, que visaram dar conta de algumas das muitas transformações em curso, sob a ótica da racionalidade em torno da terra, do trabalho e da família do agricultor, relacionaram-se com os objetivos específicos, quais sejam: 1) Trajetória migratória dos colonos - etapas migratórias, propriedade da terra e acumulação anterior; 2) Trajetória fundiária redução, estabilidade ou acumulação da base fundiária; 3) Estratégias de organização do trabalho - o trabalho na unidade de produção e as atividades pluriativas; e 4) Estratégias de encaminhamento e trajetórias dos filhos (permanência ou êxodo), mediante investimento na formação de um capital fundiário (investir na terra) ou formação de um capital cultural (investimento em educação). Os dados dos formulários de sistematização foram lançados em banco de dados do programa Excel 2000/Microsoft.Windows 98, com criação de uma planilha com todas as variáveis quantitativas do formulário de sistematização e planilhas distintas para cada grupo de informação, a saber: 1) Trajetória migratória; 2) Trajetória fundiária; 3) Sistema de produção; e 4) Atividades nãoagrícolas. Tendo em vista que o acesso à terra foi o ponto de partida desta pesquisa e que o processo de diferenciação social na fronteira se manifesta pela apropriação fundiária, a análise das estratégias e das trajetórias foi desenvolvida a partir da trajetória fundiária, verificando, quando possível, semelhanças e diferenças em cada um dos seus segmentos. 37 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO 4.1. Nova União: de fronteira agrícola a um novo rural Do desbravamento das matas ao estabelecimento de sistemas agropecuários de produção, operou-se, nas dimensões espacial e temporal, um amplo processo de transformação da área de assentamento onde os colonos se estabeleceram. Neste capítulo, será descrito o perfil sociocultural dos entrevistados, sujeitos e agentes da ação de transformação, e de Nova União como locus da pesquisa, apontando as configurações atuais do seu espaço social, no qual se inserem as unidades familiares (UF) estudadas. a) As famílias entrevistadas Os migrantes deste estudo, como verificado nos relatos da trajetória migratória, integraram o grande fluxo populacional que se dirigiu para Rondônia, a partir de 1970. As famílias entrevistadas representam cerca de 50% do total de 108 famílias originalmente assentadas nas Linhas 40 e 44. A maioria (64%) chegou a Rondônia nos anos de 1974 a 1976, período que corresponde à fase de desencanto e de reorientação do processo [de colonização] (MUELLER, 1982), quando o Estado já não conseguia dar a mesma assistência oferecida aos primeiros colonos. Dessa forma, organizados em família, assentaram-se por conta própria e aguardaram a regularização pelo INCRA. Hoje, contam com 23 a 25 anos da chegada em Rondônia e 38 permanência, em média, de 21 anos na propriedade. A diferença de 2,7 anos, em média, é explicada pelo período em que ficaram fora da propriedade, transição entre a chegada na área de assentamento e a instalação com a família no lote (Tabela 1). Tabela 1 - Período de chegada e anos de permanência dos colonos em Rondônia, fora e dentro da propriedade Ano de chegada a Rondônia Anos em Rondônia N % Anos fora da propriedade (média) Anos na propriedade (média) 1971-1973 1974-1976 1977-1979 1980-1983 28 a 26 25 a 23 22 a 20 19 a 16 5 33 7 7 10 64 13 13 6,4 2,7 1,1 0,6 20 21 20 18 52 100 2,7 19,8 Total Fonte: Dados da pesquisa (outubro de 1999). As trajetórias fundiárias das unidades familiares foram desenvolvidas em três categorias, quais sejam, retração, acumulação e estabilização, que correspondem a diminuição, aumento ou manutenção do tamanho do patrimônio fundiário, respectivamente, tendo a maioria desenvolvido trajetória de retração. Essas trajetórias serão discutidas mais adiante, quanto serão abordadas as estratégias fundiárias. A idade dos proprietários era de 56 anos, em média. Os agricultores de menor média de idade (49 anos) eram os que mais acumularam terra, seguidos dos que retrocederam, 55 anos, e dos que estabilizaram, 58 anos. Foram entrevistadas cinco mulheres, com média de idade de 55 anos, que assumiram a condição de chefe de família, em decorrência da viuvez ou da separação do marido. 39 O grupo familiar dos entrevistados era constituído, em média, por cinco membros. Todos os chefes de famílias nasceram no meio rural, e o nível educacional da maioria era baixo, visto que cerca de 80% dos pais não possuíam nenhuma escolaridade. Não originaram de uma tradição urbana, mas estavam integrados a ela, por meio dos filhos “que ficaram para trás” e pelos que vieram e reemigraram para o estado de origem ou para outros estados, bem como por mudanças processadas no espaço rural, que proporcionaram melhores condições de transporte e de comunicações. b) Transformação do ecossistema A paisagem natural de Nova União é composta de floresta densa. À medida que a fronteira agrícola avançava, estabelecia-se um sistema de produção, iniciado com o plantio de culturas anuais e, posteriormente, baseado na pecuária mista e no plantio de culturas perenes como café, principal produção econômica do município. Com isso, houve elevado índice de desmatamento da cobertura vegetal nativa, principalmente pela atividade pecuária que demanda grandes áreas de pastagens. A área média de pastagem por unidade produtiva é de 31 hectares, com média mínima de 2,4 e máxima de 100 hectares (MONTEIRO et al., 1997). Em 1995, Nova União registrava um índice de desmatamento de 80,05% (COOPAMNU, 1996), o que corrobora as declarações de que a maioria das propriedades já ultrapassou o limite de desmatamento permitido por lei, ou seja, 50% da propriedade. Os prejuízos ambientais da Amazônia, causados pelo desmatamento, são conseqüências negativas do processo de colonização da região, assunto que desperta muita preocupação e debates, polarizando argumentos desenvolvimentistas e conservacionistas. Os agricultores também não se furtaram a esse debate, e as questões relativas ao meio ambiente surgiram pontuais e duais, ou seja, enquanto uns revelaram certa preocupação com a preservação/conservação do ambiente natural, outros viam nas coibições legais, implementadas pelo governo sob o argumento da diminuição do impacto dessa destruição, uma barreira às suas condições de produção. A esse respeito, R.R., baiano, 40 anos, um colono pioneiro, declarou: o meu plano era chegar aqui , arrumar uma terra boa, igual eu achei, trabalhar individual, braçal. Agora hoje não tem mais jeito, porque ninguém pode ter uma fumaça no quintal. Não tem liberdade a gente no sítio. Queima meio hectare e 40 planta arroz a multa é em cima de todo o tanto de área, tanto faz queimar meio alqueire ou 1 hectare, é criminoso!... Dizem que o futuro da Agricultura tá no pequeno, mas como é que o cara vai trabalhar na agricultura? um saco de arroz vai ficar na base de 35 real, a não ser com o fogo. E quanto vale um saco de arroz? As multas, porém, não freiam as derrubadas. Dizem que não pode derrubar, mas eu vou derrubar assim mesmo, afirmou um produtor de mais de 60 anos de idade, originário do Espírito Santo, proprietário de 96 ha na Linha 44, dos quais 29 ha eram de pasto, com 90 cabeças de gado e 48 ha de mata. É uma parte dessa mata que ele ameaçava derrubar para formar novo pasto. Por outro lado, há pioneiros e novos que ainda possuem mata, orgulham-se disso e fazem questão de declarar que gosta de mata, 50% da minha mata aqui eu não derrubei, fiz reserva, quanto mais mata melhor, disse S.I.S., mineiro, 51 anos, um pioneiro. Outro produtor, originário do Espírito Santo, relacionou sua disposição em preservar com a lembrança da outrora exuberante Mata Atlântica, que foi praticamente exterminada. Em seu lote de 96 ha, ele preservou, além dos 50% de reserva legal, dois hectares de mata próximos à residência, o que lhe permite, a caminho da roça, desfrutar de uma temperatura amena, proporcionada pela mata preservada. A limitação das condições de trabalho é percebida, também, pelos colonos novos. A declaração de “Didi”, cearense, há 11 anos na Linha 44, fornece elementos interessantes para refletir sobre a questão: ... Antigamente o povo podia trabalhar, principalmente em área de mata que era mais fácil. Ai hoje já tem essa preocupação por um lado com o desmatamento, que é um caso sério... hoje em dia se tem aí uma área de capoeira, a gente pula a área de capoeira e vai para a mata ,que é mais fácil. Se você derruba, se você vai formar café você vai usar aquilo por cinco anos . Se você botar o capim na cinza, vira quiçaça de novo, quer dizer, eu acho que na caminhada que vai, isso aqui vai virar uma bacia leiteira, gado de leite e corte, não tem erro não!... ... quem plantar café novo aqui e não irrigar, não vai ter... quer dizer, não é mais aquela Rondônia de antigamente, não se sabe se é o clima... mas, essa camada de ozônio que está o buraco lá em cima, não é nós aqui embaixo que faz isso não! Você queimar uma área de terra pra fazer uma roça é uma coisa e um fazendeiro derrubar 600 alqueires, igual derruba aí todo ano, é outra. E esse negócio... Deus quando fez o mundo, a natureza é sábia, nós é que somos uma cambada de tontos... à distância que tem daqui até a camada de ozônio, tem como ela se transformar e não acontecer nada lá pra cima. O que está estragando lá em cima é esse raio de foguete que o pessoal solta lá pra cima, é avião toda hora derramando gás carbônico (sic), está entendendo? Não é nada aqui da terra que está afetando lá em cima. Imagine quantas linhas internacional tem aí há nove mil metros de altura, jogando direto lá em cima? E Deus quando fez a terra já deixou essa distância daqui pra lá, foi para que o que acontecer aqui a natureza transformar. Mas só sai na televisão que... (a Globo mostra aí, direto) desmatou não sei quantos campos de futebol, e não mostra a solução. 41 ... Você vê esse IBAMA3 aí..., multar não adianta que multa se paga, multa paga! Tem que ter é um movimento de conscientização, porque a maioria que está estragando o que tem aí, na maioria das vezes é por falta de conhecimento. Geralmente o homem do campo é tudo analfabeto! E cara analfabeto quer lá saber de nada, ele quer é comer! Mas ainda não é ele quem estraga não, quem estraga é quem derruba grandes áreas! Essa longa declaração surgiu da indagação sobre o futuro da pequena propriedade, a qual revela o contraste que permeia a questão da preservação ambiental, ... de um lado, uma visão idílica e primitiva da natureza e de outro, atitudes predatórias em nome do progresso (DENCKER e KUNSK, 1996), e remete à indispensável necessidade de incorporar as restrições e as oportunidades ambientais e econômicas em suas respectivas políticas (VEIGA, 2000), para que se promovam ações que possam tornar mais sustentável o processo de desenvolvimento. c) Configuração fundiária A forma de ocupação do atual município de Nova União, do ponto de vista espacial, obedeceu à lógica dos projetos de colonização dirigida, que se configura por certa regularidade na divisão dos lotes de terra, de acordo com a demarcação oficial. A configuração fundiária do município está composta por 674 imóveis rurais com, aproximadamente, 20,91% lotes com menos de 35 ha; 29,08% com menos de 70 ha; e 44,08% com tamanho original, ou seja, de 70 a 100 ha, aproximadamente (COOPAMNU, 1996). As famílias entrevistadas representam a permanência de migrantes nos lotes de origem, “a fixação do homem à terra”, proposta pelos programas oficiais de colonização. Porém, a configuração das propriedades das Linhas 40 e 44 indica a continuidade do processo de mobilidade espacial e do estabelecimento de uma diferenciação social no espaço rural, caracterizada pela redução, pela estabilização ou pela ampliação dos lotes, originalmente dimensionados em 96 ha.4 3 Instituto Brasileiro de Recursos Naturais Renováveis e do Meio Ambiente. 4 Embora a literatura e os mapas do INCRA refiram-se a 100 hectares, optou-se por fazer os cálculos de redução e ampliação com a medida de 96 hectares, que corresponde à quantidade registrada nos títulos de propriedade (96,0634 ha). Entre os agricultores, é mais usual a medida alqueire, assim, declaram ter 40 alqueires, não 42; a diferença teria ficado para a estrada, segundo os próprios entrevistados. 42 A partir dessas três configurações básicas, verifica-se, nas duas Linhas, uma diversidade de situações para com a permanência do colono de origem e para com a dinâmica fundiária dos lotes. De acordo com dados do levantamento preliminar, quanto aos 108 lotes dos proprietários de origem, 61% permaneciam na área; metade ainda vivia e mantinha sua parcela (lote) com tamanho original; e a outra metade dividia o lote com um novo ocupante. Isto significa que 39% dos colonos de origem, estabelecidos ou regulamentados pelo INCRA, deixaram suas propriedades. As propriedades “abandonadas” pelos colonos de origem foram ocupadas por novos colonos de origem, familiares ou não, nas seguintes condições: 20% dos lotes estavam em tamanho original; 7%, divididos em duas partes (48 ha); 4%, divididos em duas ou mais partes, uma delas ocupada por colono de origem, ou novato, em acumulação; e 3% foram fragmentados, constituindo chácaras (5 a 10 ha), que, em geral, eram de propriedade de agricultores que tiveram acesso à terra, após alguns anos de trabalho, como meeiros nas lavouras de café dos colonos de origem. Tanto os novos quanto os antigos colonos acumularam terra, embora nem sempre os lotes fosem contíguos. Colonos de origem acumularam 4% dos lotes originais, não estando incluídas nesse número as acumulações de parte do lote, enquanto 2% foram acumulados por novos proprietários, constituindo patrimônio fundiário freqüentemente utilizado para formação de pastagens (Tabela 2). Nas Figuras 1C e 2C (Apêndice C) podem-se observar mais detalhes destas e de outras manifestações da diferenciação social verificada nas Linhas 40 e 44. 43 Tabela 2 - Configuração dos lotes nas Linhas 40 e 44, em Nova União - Rondônia Configuração do lote Lh. 40 Lh. 44 Total % 1. Lote com tamanho (96 ha) e proprietário de origem 2. Lote dividido em duas ou mais partes, com o proprietário de origem e colono(s) novato(s) 3. Lote com tamanho original (96 ha) e proprietário novato 4. Lote dividido em duas ou mais partes, ambas ocupadas por colono novato 5. Lote dividido em duas partes, uma delas ocupada, em acumulação 6. Lote de 96 ha, acumulado por colono antigo 7. Lotes fracionados – chácaras 8. Lote de 96 ha, acumulado por colono novato 19 14 33 31 12 12 20 10 32 22 30 20 2 6 8 7 2 4 3 0 2 0 0 2 4 4 3 2 4 4 3 2 Total 54 54 108 100 Fonte: Dados da pesquisa (outubro de 1999). d) Serviços públicos e privados A dotação de uma infra-estrutura de serviços deu-se a partir da criação do NUAR. No período de 1982 a 1986, foram instalados os seguintes órgãos de governo: Secretaria Desenvolvimento de Agropecuário Planejamento de (SEPLAN), Rondônia Companhia (CODARON), de Companhia Brasileira de Armazenamento (CIBRAZEM); Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (SUCAM); Secretaria de Saúde (SESAU) e Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER). No que diz respeito aos serviços de comunicação massiva, o município não dispõe de emissoras de rádio locais, mas é possível o acesso a emissoras de municípios limítrofes e do sistema de transmissão nacional. O acesso às emissoras de televisão é feito por antenas parabólicas, uma vez que não há sistemas geradores de imagens, nem de retransmissão local. A captação domiciliar de televisão é feita por antena parabólica comunitária, que é administrada pela prefeitura municipal e também por antenas parabólicas particulares, já que a maioria dos moradores das Linhas as possui. 44 Durante o diagnóstico preliminar, na seqüência de 23 pequenas propriedades em uma Linha, 35% delas tinham antenas parabólicas. No trabalho de campo, constata-se que 60% dos pioneiros entrevistados possuíam aparelho de televisão com antena parabólica, dentre eles, a posse desse bem de consumo foi relativamente maior entre os que desenvolveram acumulação de terras (62%). O acesso à televisão por antena parabólica implica a perda de informações em nível local, sejam anúncios, sejam programas produzidos regionalmente. No roteiro de entrevistas constaram questões relativas aos programas que costumavam assistir. Houve quem fizesse referência à adoção de uma prática (construção de uma barragem para criação de peixes), a partir de uma reportagem transmitida no programa Globo Rural, mas, de modo geral, os entrevistados afirmaram que não assistiram ao Programa, porque ele era transmitido no horário em que estão no curral, na atividade de ordenha 5. Por ocasião do diagnóstico, circulavam em Nova União um dos três jornais diários da capital do Estado; o Diário da Amazônia; e um jornal semanal, o Correio de Ouro Preto d’Oeste, do município homônimo. O município era servido por apenas um posto de serviço (PS), da Companhia Telefônica do Estado (Teleron)6, que funcionava no horário das 6 às 22 horas. Por ocasião da pesquisa de campo, a reportagem em um jornal do Estado citou Nova União dentre os três piores municípios que tinham serviço de comunicação telefônica. Na Linha 40, havia um produtor que dispunha de serviço particular de telefonia rural. A comunicação postal funcionava em condições precárias, uma vez que não havia uma agência da Empresa Brasileira de Comunicações (ECT), mas apenas um posto de venda de selos e uma caixa de coleta de correspondências. Tais serviços, vinculados à agência de Correios do Município de Ouro Preto D’Oeste, distante 52 km, eram prestados em uma pequena mercearia de secos e molhados, onde as correspondências eram 5 O Programa semanal dominical é exibido pela Rede Globo de Televisão, a partir das 8 horas. A diferença de fuso horário (uma hora a menos da hora oficial do Brasil) acentua a incompatibilidade do horário para a região. 6 Com a privatização dos serviços de telefonia em todo o País, em 1999, a operadora passou a ser a BrasilTelecom. 45 procuradas. Caso contrário, eram devolvidas ao remetente, como ocorreu com metade das cartas expedidas pela pesquisadora para alguns dos entrevistados, com mensagem de agradecimento e cópia de fotografias tiradas quando da visita às propriedades. A instalação de um sistema de correios, com posto de serviços em cada uma das nove Linhas vicinais do município, era uma reivindicação da população (COOPAMNU, 1996). e) O espaço de sociabilidade O processo de colonização promoveu a formação do espaço de sociabilidade a partir do traçado das Linhas, cuja simetria transmite uma noção de ordenação espacial. Assim, cada Linha constitui uma comunidade, na qual os colonos se integram por meio de ações associativas e pela prática religiosa, principalmente. A área urbana de Nova União, o antigo NUAR, é referido pelos colonos como a “rua”, o espaço além da comunidade, o lugar onde buscam a assistência técnica, a escola de 2.o grau, a aquisição de bens de consumo e a assistência médica, quando a do Posto de Saúde da Linha não é suficiente. Nas Linhas, as famílias reúnem-se em associação para alcançar objetivos específicos, como obtenção de eletrificação rural, beneficiamento de arroz e utilização de tanque para refrigeração de leite e criação de peixes. A Cooperativa Agropecuária Mista de Nova União (COOPMANU), fundada em 1989, foi, em um momento da trajetória, elemento aglutinador e propulsor do desenvolvimento local, visto que viabilizou projetos de desenvolvimento rural, dentre eles, o Projeto de Iniciativas Comunitárias, com vistas na avaliação socioeconômica e ecológica, conjugada com ações de intervenção social, por meio de um plano de ação integrado que combinava ações de produção econômica e conservação ambiental, com participação da comunidade. A freqüência à Igreja foi a atividade de lazer mais mencionada pelos entrevistados. A opção religiosa do grupo estudado polariza-se entre católicos e evangélicos, que predominam (58%), embora os católicos representem um grupo mais homogêneo, por existir apenas um templo católico, na Linha 40, que é freqüentado por moradores de ambas as Linhas, enquanto os evangélicos estão divididos em sete igrejas de distintas denominações (Tabela 3). A freqüência é semanal, exceto na Igreja Católica, uma vez que nesta se realizam, às quartas-feiras, reuniões de um Grupo de Reflexão. Alguns dos 46 entrevistados exerciam funções auxiliares como ministro eucarístico e pastor. Não havia, entretanto, nenhuma comemoração religiosa, do tipo dia de São Roque, santo que dá nome à Igreja Católica. Tabela 3 - Distribuição dos entrevistados por igreja que freqüentam Igreja N % Católica Assembléia de Deus Cristã do Brasil Presbiteriana Renovada Batista Deus da Profecia Deus é Amor Metodista 22 10 10 5 2 1 1 1 42 19 19 10 4 2 2 2 Total 52 100 Fonte: Dados da pesquisa (outubro de 1999). Os principais eventos que proporcionam o congraçamento dos membros da comunidade são aniversários, batizados e casamento. Há, entre os entrevistados, um sentimento de perda da sociabilidade, quando remetem suas lembranças ao “antigamente”, tempo das visitas semanais aos vizinhos e parentes. A televisão acabou por deixar as pessoas mais em casa, aquele era um tempo difícil, mas, apesar disso, era bom demais, gostoso, alegre. Os vizinhos se visitavam... agora eles vão para igreja diferente..., queixaram-se duas mulheres entrevistadas. O relacionamento com parentes distantes e a mobilidade em relação ao local de origem vêm sendo mantidos pelos migrantes. Muitos deles costumam visitar parentes, principalmente filhos, em estados da região Sudeste. Um dos colonos, que foi contactado para entrevista, encontrava-se 47 “passeando” em Minas Gerais, como informou a filha que estava na propriedade. Verificou-se também situação inversa, ou seja, na Linha 40, um proprietário que morava em Minas Gerais estava, no momento da entrevista, em visita a sua propriedade, que é “tocada” por um filho que tem um lote ao lado. Esse tipo de unidade produtiva é, caracteristicamente, de criação de gado. f) Mudança no padrão de vida Embora a percepção inicial, de que havia na área em estudo colonos bem sucedidos e outros estagnados, estivesse baseada no sistema de produção, outra forma de diferenciação foi observada em decorrência de evidentes sinais exteriores de sucesso, representados pela posse de bens de consumo. É em relação a sua capacidade de obter esses bens que os camponeses avaliam subjetivamente seu sucesso ou fracasso, não em termos de simples sobrevivência biológica (LÉNA, 1991:40). Com a energia elétrica, passaram a fazer parte dos bens dos produtores os eletrodomésticos (televisão com antena parabólica, refrigerador, ventilador, aparelhos de som, máquina de lavar, etc.), assim como bens de consumo de longa duração (bomba d’água, motocicleta e carro). O padrão de moradia também melhorou e diversificou-se com o tempo: ... logo que chegamos aqui fomos morar num barraquinho de folha, no terreno dos outros... Dos tugúrios da “zona de transição” passaram a uma infinidade de combinações de materiais e estilo das habitações, de difícil tipificação. Num esforço de síntese, identificaram-se quatro tipos de habitação, a saber: Tipo 1 construções mistas, casas rústicas, paredes de taipa e madeira, cobertura de cavaco, piso de madeira ou de terra batida, onde, por vezes, aplicavam uma mistura de água e estrume de gado, para assentar a poeira; eram as mais raras (6%); Tipo 2 - construções antigas ou novas, casas simples, pequenas, paredes e assoalhos de madeira retirada do próprio lote, com ou sem varanda. Quando havia varanda (pátio), esta se situava na frente da casa. A maioria das casas não tinha pintura, e algumas apresentavam pintura desbotada, freqüentemente nas cores azul e rosa, parecendo nunca haver sido repintada. As coberturas variavam de cavaco a telha de amianto, que eram as mais freqüentes (56%); Tipo 3 - construções mistas, melhor acabamento, casas 48 maiores, paredes em madeira, piso em madeira ou cimento, cobertura de telha de amianto ou barro. Algumas se destacavam pela varanda que circundava toda a casa e pela multiplicidade de cores nas paredes, portas e janelas. Era o segundo tipo mais encontrado (29%); e Tipo 4 - Casas em alvenaria, grandes, com varanda, telhas de barro e pintura recente (10%) (Tabela 4). Tabela 4 - Tipo de habitação dos entrevistados, por trajetória fundiária Tipo de habitação Tipo 1 Tipo 2 Tipo 3 Tipo 4 Total Trajetória fundiária Acumulação Estabilização N % Retração 0 5 6 2 1 8 2 1 2 16 7 2 3 29 15 5 6 56 29 10 13 12 27 52 100 A obtenção de uma casa de “material”, como se expressavam os colonos quando se referiam a uma casa construída em alvenaria, era uma meta já alcançada por alguns e sonho de outros, conforme afirmou D. Maria, uma das cinco mulheres que chefiavam a família: ... tenho uma filha que é doida pra mudar, ela quer mudar é de casa, eu falo pra ela que a gente também vai mudar, não vai demorar, todo mundo construindo a gente também vai fazer uma casinha melhor. Mas eu não estou muito avexada, tem gente que não consegui ainda nem ter uma casa de madeira... As casas em alvenaria, com padrões iguais ou superiores às de residências em bairros da classe média urbana da capital do Estado, eram freqüentes também entre os colonos novos, imprimiam forte contraste entre os tipos de habitações e representavam um sinal exterior de diferenciação social (Figura 1E do Apêndice E). 49 Se o relativo sucesso no desempenho agrícola lhes proporcionou o acesso ao conforto material, há ainda dificuldades a serem superadas na área de saúde, educação e transportes. Os postos de saúde nas Linhas atendem às rotinas, sendo freqüente o deslocamento para o posto de saúde do núcleo urbano. Ambas as Linhas têm apenas escolas multisseriadas (primeira à quarta série). Os 40 km que ligam Nova União à BR-364, principal via de escoamento do Estado, são agora vencidos facilmente, devido ao asfaltamento da principal rodovia do município (RO-470). Por ela transitam, diariamente, ônibus com seis diferentes itinerários. Apesar desse avanço, no deslocamento dos produtores da sede do município para fora ainda persistem as dificuldades de transporte, das Linhas para a sede do município e vice-versa, notadamente nos meses de pico do período chuvoso (janeiro a março), quando as condições de tráfego se tornam precárias e os serviços de transporte coletivo são suspensos. 4.2. Migração: realizando o sonho da terra 4.2.1. Trajetória migratória: etapas e acumulação O acesso à terra é um sonho a ser concretizado quando os migrantes deixam sua terra natal em busca de outras plagas, apesar de sofrerem as adversidades dessa escolha. A origem e a experiência anterior, o estágio do ciclo de vida da família e o nível de capitalização são alguns dos fatores de diferenciação que implicaram, diretamente, a trajetória do grupo estudado. Os colonos partilharam de uma situação anterior de vários deslocamentos, provocados por processos expropriatórios e, assim, avançaram em direção à Amazônia, em busca de terras. Os entrevistados, em sua maioria, nasceram nos Estados de Minas Gerais (54%), Bahia (15%) e Espírito Santo (8%), e os demais, nos Estados de Alagoas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Sergipe. Entretanto, desenvolveram diversas etapas migratórias, sendo a mais freqüente a procedência dos Estados do Paraná (40%) e do Mato Grosso (38%), como etapa anterior a Rondônia (Tabela 5). 50 Tabela 5 - Distribuição dos migrantes por Estado de nascimento e procedência Estado de procedência Estado de nascimento AL BA ES MG MS MT PR RN RS SC SE SP PR MT BA ES MG RN SP 1 Total % 1 2 3 1 3 1 3 8 17 1 1 2 1 1 1 1 40 38 8 6 4 2 2 1 2 52 100 100 1 2 1 8 15 4 8 28 54 1 2 1 2 1 2 1 2 2 4 1 2 2 4 % 21 20 4 3 2 1 1 1 1 1 Total Fonte: Dados da pesquisa (outubro de 1999). As trajetórias de migração foram empreendidas em três etapas. A maioria (58%) fez sua trajetória, até Rondônia, em duas etapas; 25%, em três etapas; e 17% foram diretamente de seu Estado de nascimento para Rondônia, realizando apenas uma etapa. Identificaram-se 28 tipos de trajetórias migratórias empreendidas pelos entrevistados, e a mais freqüente (23%) foi desenvolvida em duas etapas, de Minas Gerais a Mato Grosso e, em seguida, a Rondônia (Tabela 6). Não se observou mobilidade interna no grupo estudado, ou seja, os deslocamentos dentro do Estado foram decorrentes de uma etapa de transição entre a chegada a Rondônia, o acesso à terra e o estabelecimento da família na propriedade. O depoimento a seguir ajuda a esclarecer essa dinâmica. ... quando eu cheguei aqui [em Rondônia, inda estavam dando terra, mas eu não consegui. Fui para Ariquemes pegar terra lá, daí lá também eu não consegui. Um menino ficou doente, quase morreu de malária e aí fiquei lá só seis meses... o meu sogro morreu e a "Velha" [a sogra] queria que nós voltasse pra cá pra tomar conta das criações, ai nos veio, eu voltei para a 4 [Linha 4] de novo, da 4 eu vim prá 12 [Linha 12] e da 12 eu vinha trabalhar aqui... Eu tinha trabalhado, conseguido comprar uma vacas, e as vacas deu umas crias , aí eu troquei nisso aqui ... [o lote].7 7 Depoimento do Sr. M.E., 52, anos, morador da Linha 44. 51 % UMA ETAPA Bahia/Rondônia Espírito Santo/Rondônia Minas Gerais/Rondônia Paraná/Rondônia Rio Grande do Norte/Rondônia São Paulo/Rondônia Subtotal 1 3 1 2 1 1 1 9 6 2 4 2 2 2 17 DUAS ETAPAS N.o de etapas Bahia /Espírito Santo/ Rondônia Bahia /Mato Grosso/ Rondônia Bahia/Paraná/Rondônia Espírito Santo / Paraná / Rondônia Mato Grosso do Sul/ Mato Grosso / Rondônia Minas Gerais / Espírito Santo / Rondônia Minas Gerais/Mato Grosso/ Rondônia Minas Gerais/Paraná/Rondônia Rio Grande do Sul/ Paraná / Rondônia Santa Catarina/ Paraná / Rondônia Sergipe/ Bahia / Rondônia Sergipe/ Paraná / Rondônia Subtotal 2 1 1 2 2 1 1 12 4 2 1 1 2 30 2 2 4 4 2 2 23 8 4 2 2 4 58 Alagoas/ São Paulo / Paraná / Rondônia Bahia /Minas Gerais/ Paraná / Rondônia Espírito Santo /Minas Gerais/ Paraná / Rondônia Mato Grosso / São Paulo / Mato Grosso / Rondônia Minas Gerais / Bahia / Mato Grosso / Rondônia Minas Gerais / Espírito Santo / Mato Grosso / Rondônia Minas Gerais / Espírito Santo / Paraná / Rondônia Minas Gerais / Mato Grosso / Paraná / Rondônia Minas Gerais / Paraná / Mato Grosso / Rondônia Minas Gerais / São Paulo / Paraná / Rondônia Subtotal 3 1 1 1 1 2 2 2 1 1 1 13 2 2 2 2 4 4 4 2 2 2 25 52 100 TOTAL N.o de colonos TRÊS ETAPAS Tabela 6 - Relação de trajetórias migratórias empreendidas pelos colonos, por número de etapas Trajetória migratória por unidade da federação Subtotal 1 + Subtotal 2 + Subtotal 3 Fonte: Dados da pesquisa (outubro de 1999). 52 A situação anterior dos colonos, quanto à propriedade e ao trabalho na terra, nos locais de origem ou nas etapas intermediárias de migração, é também bastante diferenciada. Nesta análise, as diversas situações relatadas foram alocadas em três grupos: 1) Pequenos proprietários, 29%; 2) Trabalhadores em família, 17% - refere-se aos que declararam trabalhar com pai, sogro, irmão ou com qualquer outro tipo de parente, independente do tipo de acerto financeiro; 3) Trabalhadores para outros, 54% - os que declararam trabalhar “na terra dos outros”, para terceiros, sem laços familiares, em regime diverso de pagamento, como parceria, arrendamento, a meia, percentagem, etc., seja em pequenas, seja em médias propriedades ou em fazendas. Ao relacionar tais situações com a trajetória fundiária desenvolvida em Rondônia, observa-se que 50% dos que trabalhavam para outros e 66% dos pequenos proprietários traçaram uma trajetória de retração da área de suas propriedades, enquanto 45% dos que trabalhavam em família traçaram trajetória fundiária de acumulação (Tabela 7). Tabela 7 - Situação anterior dos colonos migrantes e sua relação com a trajetória fundiária Situação anterior ► Trabalho para outros Pequeno proprietário Trabalho em família Total Trajetória fundiária▼ N % N % N % Acumulação Estabilização Retração 5 9 14 18 32 50 4 1 10 27 7 66 4 2 3 45 22 33 13 12 27 Total 28 100 15 100 9 100 52 % 54 29 Fonte: Dados da pesquisa (outubro de 1999). 53 17 100 A acumulação anterior foi, hiperbolicamente, relatada com expressões como “vim com a força dos braços e a coragem”, “sem lenço nem documentos”, “vim sem nada, com a cara e a coragem e os filhos nas costas”. Esses fatos traduzem a falta de dinheiro ou de bens materiais; para muitos, nada trouxeram porque nada tinham; para outros, os recursos foram provenientes da venda de gado e da colheita de soja. Os pequenos proprietários que venderam terras no local de origem também não contabilizaram grande acumulação, uma vez que suas áreas eram pequenas. Ao aplicarem o dinheiro da venda dos bens nas despesas com a mudança e na compra da terra e constatarem que pouco ou nada sobrava para a manutenção da família, iniciavam, de imediato, o empreendimento de estratégias adaptativas para garantir a sobrevivência da família, enquanto buscavam vencer a etapa de transição, trabalhando com familiares migrados anteriormente ou na propriedade de outros. Quando do deslocamento migratório para Rondônia, os colonos encontravam-se em diferentes estágios do ciclo de vida; assim, enquanto uns migravam com famílias constituídas por filhos adultos, solteiros e casados, outros estavam na fase inicial do ciclo, tendo, inclusive, alguns recém-casados, uma vez que esta era uma condição para o acesso à terra, o que acabou por apressar casamentos: “... era uma época muito sofrida, a gente solteira não tinha vez aqui na Rondônia, a gente entrava na terra, mas solteiro não pegava, só se fosse casado”. Tais condições implicaram um nível elevado de parentesco, pois, além dos grupos familiares já formados, outras relações se constituíram por meio de casamentos entre os descendentes dos colonos de origem, moradores na mesma Linha ou em Linhas vizinhas. Na Tabela 1D (Apêndice D) estão relacionados os chefes de família entrevistados, por local de nascimento, e suas relações de parentesco nas Linhas. 4.2.2. A família na migração e no acesso à terra O deslocamento migratório engendrou situações diversas, como ruptura de laços familiares, quando o colono se apartava da família original, saía da casa do pai e formava a sua própria família na migração; quando os 54 filhos “ficavam prá trás”, não acompanhando os pais no deslocamento, ou, do contrário, proporcionavam a manutenção dos vínculos não só da família nuclear, quanto da família extensa, quando se uniam em grupos, “que mesmo uma dramática adversidade não destrói” (MARTINS, 1997:195) e se lançavam, por meio da migração, à aventura de “caçar futuro”, uma estratégia para ir além da simples sobrevivência. A influência familiar foi fator predominante na decisão de migrar. Dos entrevistados, 71% deslocaram-se em família ou em grupos ligados por diversos graus de parentesco e amizade, incentivados por outros amigos e por parentes que vieram antes, como pais, sogros, irmãos, cunhados, primos, compadres, etc. (Tabela 8). Tabela 8 - Fatores que influenciavam a decisão de migrar Trajetória fundiária▼ Parentes Amigos/ conhecidos Iniciativa própria Total Acumulação Estabilização Retração 9 10 18 2 1 6 2 1 3 13 12 27 Total % 37 71 9 17 6 12 52 100 Fonte: Dados da pesquisa (outubro de 1999). A realização do sonho da terra não foi tão fácil, assim como fazia supor a propaganda governamental e a “boca-a-boca”, que impulsionaram muitos migrantes para Rondônia. A rede de relações de parentesco e de compadrio foi responsável não só pela difusão de informações sobre a localização de novas terras, como pela segurança de posse da propriedade, o que reafirma a importância da família na decisão de migrar, como suporte afetivo e financeiro. 55 Lá no Mato grosso nós soubemos que o INCRA estava dando terra, o meu sogro mandou um filho dele mais velho (inclusive o lote dele era o dali da esquina, mas ele não deu valor)... o irmão mais velho veio, depois nós viemos.8 Os homens costumavam vir na frente, procurar lotes e fazer a marcação (consistia em delimitar o terreno e derrubar pelo menos um alqueire de mata), para si e para parentes, numa relação de troca em que era negociado o pagamento da passagem da pessoa que viera antes. A disputa por terra era acirrada; colonos e grileiros se confundiam. Estes eram homens que se especializaram em abrir picadas e fazer a demarcação de terras que eram vendidas aos colonos. Alguns informantes disseram ter feito várias tentativas de conseguir terra, porque perdiam as marcações para os invasores. Nesse momento, a união da família era fundamental para assegurar o lote demarcado, uma vez que, enquanto a família não chegava, um membro dela ou um amigo desempenhava o papel de vigia da área: ... o dinheiro era de herança do pai, cada um pegou dois mil e 800, com 800 comprei as passagens para nós... meu marido não tinha nada, só ele e mais nada. Chegamos na Rondônia em 1974, paramos na Linha 16. Meu marido teve um problema de dor de dente, meu cunhado Serafim foi quem marcou o lote, compramos por 500 cruzeiros a marcação. Eu fiquei dois anos na 16 [Linha 16] e ele [o marido] vinha trabalhar sozinho aqui. Veio o José que é meu irmão, veio umas sete famílias.9 Outro: Quem entrou primeiro aqui foi o Zé Nilton, era aquela marcação. Nós medimos lá do lote do irmão “Juvená” para onde deu era 4km, que nos morava na fundiária, quando nos medimos deu no pé desse morro aí, quando nos vimos tinha outro grilando aqui nessa área, aí nós mudemos pra cá pra dentro, sem querer mesmo, para tomar conta.10 A influência dos parentes representava uma bênção divina, como expressou uma mulher, cujos pais, que migraram antes para Rondônia, foram responsáveis pela vinda dela com o marido, que, no Mato Grosso, trabalhava como meeiro e sofria com problema de intoxicação por agrotóxico: “a mãe foi o Moisés que nos tirou do Egito”, disse dona Ana, numa alusão à passagem bíblica na qual Moisés conduz o seu Povo para a Terra Prometida. 8 Depoimento da Sr.a A.T.A., 48 anos, esposa do Sr. J.Z.T., trajetória fundiária de acumulação. 9 Depoimento da Sr.a G.S.P., 50 anos, esposa do Sr. W.J.P., 53 anos, Lh. 40, trajetória de estabilização. 10 Depoimento do Sr. A.S.F., 51 anos, Lh. 44, trajetória de retração. 56 Na migração para Rondônia, o grupo familiar (família nuclear) dos entrevistados era constituído, em média, de 5,7 membros. Dentre os agricultores que desenvolveram a trajetória fundiária de acumulação, a média de membros do grupo familiar na migração foi a menor (4,1); entre os que se estabilizaram, foi de 5,9 membros; e entre os que retroagiram, de 6,4. Houve perda de 3% do total de membros dos grupos familiares por separação conjugal ou por falecimento. As mortes mais freqüentes eram de crianças, devido a doenças como o sarampo, e de adultos, por acidentes causados por derrubada de árvores e caçada. A média de filhos nascidos em Rondônia foi maior (3,3) no grupo que se manteve estabilizado (Tabela 9). Tabela 9 - Formação na migração, nascimento e perdas de membros do GF, por trajetória fundiária Trajetória fundiária▼ A - Grupo familiar na migração B - Nascidos em Rondônia N Média N Média Acumulação Estabilização Retração 53 71 172 4,1 5,9 6,4 32 39 68 2,5 3,3 2,5 Total 296 5,7 139 2,7 C - Perdas A+B Total de membros do grupo familiar Morte Separação N Média 85 110 240 1 4 6 0 0 3 84 106 231 6,5 8,8 8,6 435 11 3 421 8,1 Fonte: Dados da pesquisa (outubro de 1999). Considerando-se que a idade do proprietário e a mão-de-obra familiar são de grande importância para o crescimento da unidade econômica e para sua diferenciação, não se verifica relação entre esses fatores e a trajetória fundiária de acumulação, uma vez que, na migração, este grupo apresentou menor média de idade (27,8 anos) e menor quantidade de membros (4,1), enquanto o grupo que desenvolveu trajetória de retração apresentava maior média de idade (47 anos), o que implica maior experiência e maior quantidade 57 de membros, 6,4 em média, potencial de mão-de-obra para a unidade doméstica. A informação sobre a existência de terras livres e em grande quantidade em Rondônia foi o que impulsionou a migração. A possibilidade de obtê-las com facilidade causava dúvidas: “eu não acreditava que estavam dando terras de graça, mas resolvi arriscar”. Na realidade, quando da emissão do título pelo INCRA, o produtor comprometia-se a pagar o lote em seis prestações anuais, sendo o primeiro realizado cinco anos após a emissão do título, com juros subsidiados (ALMEIDA, 1992), o que se tornava insignificante para o produtor: “eu não acreditava muito, porque falavam que a terra era de graça, eu falava: não é possível dar 40 alqueires de terra prá pessoa de graça... pagamos uma mixaria, a bem, dizer foi de graça!”. O tempo decorrido entre o início do processo migratório e a data da pesquisa comporta a formação de uma segunda geração de famílias. Na amostra, há donos de lote que obtiveram a terra por herança e outros que, tendo vindo jovem ou adulto solteiro, conseguiram capitalizar-se com a ajuda do pai, adquirindo a sua própria terra. Porém, a maioria dos entrevistados, 62%, que declarou ter obtido a terra diretamente do INCRA, constituía o grupo dos mais antigos em Rondônia. As declarações de compra foram feitas por 37% dos entrevistados, que, em geral, chegaram posteriormente. Em alguns casos, porém, foram colonos capitalizados, razão por que adquiriram lotes de mais fácil acesso, no início das Linhas. Apenas um entrevistado recebeu o lote por herança (Tabela 10). O acesso à terra por meio do INCRA significa que o lote foi regularizado pelo Instituto a partir da marcação, da qual tinham tomado posse ou adquirido de terceiros. Alguns depoimentos, a seguir, ajudam a compreender essa transação. Essa terra eu tive acesso pelo INCRA. O pai vendeu a propriedade lá na Bahia e nós viemos tudo junto. O pai deu para cada filho um milhão, deu para pagar a marcação. O INCRA cortou e passou o documento.11 ... eu comprei de um parceleiro, ele veio mais outros companheiros e marcou isso... Ele não morou, fazia a marcação e depois vendia. Era assim... quando o INCRA veio cortar ele não podia ficar com a terra... aí ele pegou e vendeu pra mim. 11 Depoimento do Sr. A.S.F., Lh. 44. 58 Tabela 10 - Formas de acesso dos colonos entrevistados à propriedade da terra Forma de acesso à terra N % Recebeu do INCRA Compra Herança 32 19 1 62 37 2 Total 52 100 Fonte: Dados da pesquisa (outubro de 1999). As informações sobre o preço pago pela marcação são díspares, também não há precisão quanto à moeda da época, falaram de 500 cruzeiros a cinco mil: Na época que eu cheguei quase não estavam distribuindo mais terra. O povo estava invadindo praí pra dentro, mas eu não tive coragem de arriscar. Trouxe um dinheiro, mil contos, naquela época era um milhão; preferi comprar, ficar devendo, mas até que paguei.12 4.2.3. Atravessando a zona de fragilidade Obtida a terra, inicia-se outra fase da trajetória de vida rumo à realização do projeto de vida pessoal, que o agricultor assumiu ao tomar a decisão de migrar para a Amazônia. Os fatores de diferenciação social e as estratégias familiares adotadas fizeram com que atravessassem, com maior ou menor rapidez, essa “zona de fragilidade” (LÉNA, 1991:48), passando a produzir e a reinvestir na produção. A história de vida dos migrantes, em terras rondonienses, tem em comum, para os mais antigos, uma odisséia de viagens de mais de oito dias em caminhões paus-de-arara para chegar a Rondônia. Os que vieram alguns anos depois já utilizavam ônibus da Viação Cascavel, originária do Paraná e pioneira na região, cuja viagem inicial, de Cascavel-PR ao Território de 12 Depoimento do Sr. D.A., 67 anos, Lh. 40, trajetória de estabilização. 59 Rondônia, foi feita no dia 21 de agosto de 1972, com até mais de uma semana de duração, dependendo das condições climáticas (GOES, 1997). Inicialmente, estabeleciam-se na casa de parentes e conhecidos, ao longo da Linha 81 (atual rodovia RO-470) e suas transversais até a Linha 16, que corresponde à distância de 16 km a partir da BR-364 (Figura 2). Este era o ponto de chegada dos migrantes, local até onde havia uma estrada precária. A partir daí, passaram a construir o seu espaço de reprodução para atender às suas necessidades socioeconômicas e infra-estruturais, abrindo picadas na mata e estendendo os limites até a Linha 40, epicentro do atual município de Nova União. A estrutura operacional do INCRA só conseguia, quando muito, atuar a posteriori , demarcando e dando posse aos colonos. Da chegada na área do PIC Ouro Preto até a instalação com a família na propriedade decorria um período médio de 2,7 anos. Nesse período de transição, os colonos que aguardavam para obter um lote do INCRA e os que já o haviam obtido, dadas as relações de parentesco ou por meio da compra com grileiros, iniciavam o trabalho na Linha 16 e nas adjacências. Inicialmente, mantinham-se na condição de parceiros e meeiros, nas grandes fazendas, em lotes de amigos ou simples conhecidos, mas, em geral, apenas o tempo suficiente para realizar pequena acumulação, ao mesmo tempo que trabalhavam no seu próprio lote, derrubando matas, construindo barracos e plantando lavouras, até que tivessem condições de levar a família para a propriedade. Uma das dificuldades enfrentadas era a falta de estrada e de transporte. Para ir das Linhas aos lotes, uma verdadeira maratona se cumpria. A estrada era uma picada na mata e, no período chuvoso, formavam-se buracos enormes pelo trôpego dos burros, o que dificultava o tráfego das pessoas que se debatiam entre os buracos e as galhadas das árvores e arbustos, alguns com espinhos. Para o transporte de material mencionou-se, freqüentemente, o “cacaio” - também chamado surraca, “galo de briga” - saco de viagem, que é preso por baixo dos braços e pendurados às costas, como uma imensa mochila, na qual era transportado de tudo um pouco, como roupas, ferramentas, mudas, sementes, o que tornava a carga pesada, cerca de 25 a 60 ◄Porto Velho BR-364 Ouro Preto d’Oeste ► Linha 16 L36 L37 L38 L39 Linha 16 NUAR ◄Mirante da Serra Nova União Área de Assentamento Linha 40 Linha 44 L46 L48 L50 Linha 12 Linha 81 Linha 12 Elaboração da autora (representação sem escala) Figura 2 - Esquema espacial das Linhas em torno de Nova União. 61 30 kg. Quando já estavam nos lotes, safras inteiras perdiam-se por falta de condições de escoamento da produção, e os doentes eram levados em rede até o NUAR, enquanto as crianças, para irem a escola, enfrentavam quilômetros e quilômetros dentro da mata. ... difícil era pra gente chegar. Nos andamos 25 km de cacaio nas costas, aliás, 40, porque do Ouro Preto até aqui a gente vinha com o cacaio nas costas. Era picada até aqui, ... eu tinha que ir buscar mercadoria lá na 16 (Linha 16), colocava na cacunda do burro pra trazer até aqui. Aqui só tinha um alqueire de mata derrubada... daqui na 16 era mata purinha, só tinha aquele buraquinho aberto assim.13 Foi difícil, vivemos dois anos aqui na picada, os homens carregando as coisas nas costas, a gente ia de a pé. Quando foi pra ganhar ela [parir a filha], fui de a pé até Nova União, de lá a gente pegou um toreiro [caminhão transportador de toras de madeira] (...) Naquela época eram três dias de viagem, a gente ia pousava na casa de um amigo lá na 16, pra no outro dia chegar em Ouro Preto. Hoje se eu sair pra resolver uma coisa rápida, saio as 6 horas, meio-dia já estou aqui dentro de casa. Pego moto-táxi, circular, é uma benção de 14 Deus! Entramos aqui na picada, moramos aqui dois anos sem estrada, só um carreador da 28 [Linha 28], de caminhão toreiro15. Chovia muito e direto, tinha que sair: saia daqui 6 horas da manhã, quando dava base de 2 h da tarde chegava na Linha 8. Hoje a gente passa nessa estrada aí nem acredita no que aconteceu.16 Outra dificuldade enfrentada foi o local de moradia. Quando ainda não estavam no próprio lote, co-habitavam com parentes ou simples conhecidos. Seu Izaltino, 60 anos, que morou por três anos na Linha 8, antes de ir para o lote, contou que: Logo que chegamos aqui fomos morar num barraquinho de folha, no terreno dos outros, ficava morando junto com aquela família estranha, eu com quatro filhos a mulher com seis ou sete. Mas eram umas pessoas muito boa, uns pernambucanos muito bom... Construções rústicas eram improvisadas para fugir dessa situação: ... nos moramos lá a base de um mês até que nós aprontamos o nosso barraquinho (coberto de folha, o piso era chão, cercado de lasca), nisso nos passamos dois anos. Originários de um ambiente ecologicamente diferente, os migrantes foram obrigados a reelaborar sua relação com a natureza, sua cultura e suas concepções. Para os recém-chegados, a mata é um obstáculo às suas 13 Depoimento do Sr. S.I.S., 51 anos, Lh. 44. 14 Depoimento da Sr.a M.P.A., 49 anos, Lh. 44. 15 Caminhão de transporte de toras de madeira. 16 Depoimento do Sr. I.C.C., 60 anos, Lh. 40. 62 atividades. Uma das estratégias adaptativas que passaram a desenvolver foi o corte (sangria) de seringueiras nativas para a coleta do látex. “... o que eu fiz fazer, foi unir com os seringueiros e aprendi a cortar borracha...”. Era por meio dessa atividade que os colonos tinham acesso garantido a uma renda que lhes permitia adquirir os gêneros de primeira necessidade. “.... naquele tempo, na mata tinha muita borracha... era difícil entrar na mata, mas vendia a borracha e tirava para as despesas da casa...”. Era feita uma troca direta da borracha colhida por mercadorias, como contou o baiano “Zinho”: Eu carregava a borracha nas costas, eu e o filho mais velho, que está em São Paulo. Eu fazia pacotinho de 5 kg e nos ia vender para o Zé Perigo, lá na “16”. Ai com o dinheiro nos comprava uma latinha de banha, uns pacotes de açúcar, querosene, um pacotinho de sal e... pra trás! [ voltava para o lote]. Era dia e meio. Aquilo me cortava o coração ele [o filho] era pequenino, tinha 7 anos, ele ia com 5kg de borracha, eu ia com 25 a 30 kg. (...) Depois a gente já ia lá, botava a coisa bem por menos do peso, dizia: olha Zé, lá nos temos tantos quilos de borracha, aí a gente já comprava a mercadoria ele dava a tropa pra nós, trazia a mercadoria e pegava a borracha aí o negócio foi melhorando. Mas nos levemos dois anos carregando borracha nas costas, daqui para a 16. Olha que daqui para a 16, quanto tempo que dá! O seringueiro com quem o migrante se deparou ao chegar na fronteira não se configura como o “outro”, conforme citou MARTINS (1997:12), para quem índios e seringueiros eram a “vítima” dos chamados pioneiros, aqui, no sentido de heróis da conquista de novas terras. Um estudo mais detalhado dessa relação poderia revelar conflitos, a qual, nos relatos dos entrevistados, parecia ser amistosa, de aprendizado, já que cortar borracha não fazia parte da experiência de vida dos migrantes. Se não tiveram que se defrontar com os seringueiros, tampouco houve relato de confronto com indígenas. Mas, na dominação da natureza, o enfrentamento se deu com os animais selvagens, como onças, queixadas (porco do mato): “eu pensava em desistir, quando ouvia a onça esturrar, pensava que a onça ia me comer”. A ameaça à vida era, ao mesmo tempo, a chance de sobrevivência, pela abundância de caça que lhes servia de alimento e fornecia pele de animais para venda. O enfrentamento de doenças foi outro desafio imposto pelas condições da região. A malária acometeu alguns agricultores, mas havia assistência, visto que até helicóptero foi utilizado para retirar pacientes acometidos pela doença no meio da mata. Embora a Sucam já prestasse assistência, muitas vezes, os produtores procuravam, por seus próprios meios, vencer a doença. “Quase 63 morri de malária, fui desenganado pelos médicos, mas eu me curei usando melão amargoso [uma fruta do mato]”.17 Outras enfermidades relatadas foram a Leishmaniose e, principalmente, o Sarampo, causa mortis de muitas crianças. Foi também por motivo de doença que alguns produtores acabaram por deixar a área, indo em busca de assistência médica em um centro mais avançado. Foram todas essas condições adversas que o colono teve que enfrentar para desenvolver suas atividades agrícolas, produzir e dar condições de reprodução à sua família. 4.3. Estratégias familiares de reprodução social 4.3.1. Estratégia patrimonial fundiária A terra, como fator de produção, e a terra, como valor de patrimônio, foram as duas dimensões mediadoras das análises da relação entre o agricultor e a terra. As lógicas fundiárias desenvolvidas pelos migrantes estabeleceram uma diferenciação social no que diz respeito ao tipo de propriedade rural e ao status do proprietário. Retrações fundiárias e ampliações coexistem no grupo estudado, em proporção variável. Dentre os colonos entrevistados, 52% desenvolveram trajetória de retração do tamanho da propriedade, com média de 37 hectares, máxima de 84 e mínima de 4 hectares, por propriedade. A trajetória de acumulação foi desenvolvida por 25% dos colonos, e a de estabilização, ou seja, os que não venderam nenhuma parte de seu lote, por 23% dos entrevistados (Tabela 11). As trajetórias fundiárias de retração, por venda ou por divisão do lote, foram motivadas por diversos tipos de eventos. As causas alegadas para a venda foram dificuldades financeiras “do tempo da picada”, “fazer dinheiro” para investir em gado, comprar “barraco” em Nova União para pôr os filhos para estudar, e, mais freqüentemente, para partilhar a área com parentes. Registrou-se, também, a venda de pequenas porções de terra, 2 a 4 ha, para 17 Depoimento do Sr. M.V., 48 anos, Lh. 44. 64 Tabela 11 - Trajetória fundiária dos migrantes e média de acumulação e retração do patrimônio fundiário Trajetória fundiária N % Retração Acumulação Estabilização 27 13 12 52 25 23 Total 52 100 Média (ha) 37 110 - Fonte: Dados da pesquisa (outubro de 1999). construção de Igreja, escola e até para dar melhor corte à estrada. Já as partilhas legais se deram por separação dos casais, por divisão de herança e por desavença entre irmãos ou entre filhos e pais. Deste conjunto de informações depreende-se que as trajetórias fundiárias de retração estão relacionadas com as estratégias familiares de encaminhamento dos filhos, pelo investimento cultural18, ou seja, no estudo dos filhos; com as dinâmicas familiares de casamento, descasamento e sucessão; e com as estratégias de acumulação por investimento na propriedade. Do ponto de vista da dinâmica espacial, produzem a divisão da maioria dos lotes, meio a meio, e a fragmentação de outros pela formação de chácaras (Apêndice C). Por outro lado, operam em benefício de novos proprietários, que estão representados, basicamente, por familiares da segunda geração dos colonos de origem, ou por trabalhadores rurais que ascenderam à posição de proprietários, após acumularem bens como meeiros em plantios de café. O projeto fundiário futuro, para 70% dos que desenvolveram trajetória de retração, implicava manter a estabilidade da base fundiária (Tabela 12). Mantido esse propósito, estariam desenvolvendo uma lógica fundiária que os qualificava como resignados, segundo MAUREL (1998), ou seja, não venderiam sua terra, nem comprariam mais. 18 Como estratégia educativa (Cf. Bourdieu, 1990). 65 Tabela 12 - Projeto fundiário futuro dos entrevistados, por trajetória fundiária Projeto fundiário para o futuro ► Estabilizar Acumular Retroceder Mobilizar Total Trajetória fundiária▼ N % N % N % N % N % Acumulação Estabilização Retração 6 9 19 46 75 70 6 2 6 46 17 22 0 1 1 8 4 1 0 1 2 0 2 13 12 27 25 23 52 Total 34 65 14 27 2 4 2 4 52 100 Fonte: Dados da pesquisa (outubro de 1999). As trajetórias fundiárias de acumulação ocorreram, basicamente, sob a orientação de uma estratégia de ampliação do capital fundiário, pela aquisição de terras para a atividade pecuária e formação de pastagens, que, por sua vez, dinamizam o negócio, como aluguel de pasto e criação de gado bovino a meia, o que caracteriza a tendência à pecuarização, já observada na área (COY, 1984; LÉNA, 1991). A média dos que acumularam terras foi de 110 ha por proprietário. Uma característica das acumulações ocorridas é que, na maioria dos casos, elas são fragmentadas, ou seja, não se tratam de áreas contíguas. A maior acumulação, 667 ha, de um morador da Linha 40 está distribuída em 7,5 lotes de 96 ha, e três deles em outras Linhas. O projeto fundiário futuro dos que desenvolveram trajetória de acumulação equilibra-se entre o propósito de estabilizar e o de dar continuidade a esta acumulação. Essas lógicas se caracterizam pela “saciedade fundiária” e pela “fome de terras”, respectivamente, de acordo com as categorias definidas por MAUREL (1998). Este dado deve ser analisado com certa cautela, visto ser este proveniente de uma apreciação subjetiva do agricultor, que não encontra correspondência em atitudes freqüentemente presentes no grupo, como o incentivo aos filhos para sair para áreas de 66 assentamento e a disposição, pelo menos em discurso, de ir em busca de terras em outras paragens. As estratégias de estabilização, pela manutenção do lote em seu tamanho original, “renúncia fundiária”, na definição de MAUREL (1998), são reafirmadas pelos dados, visto que 75% deles as consideravam como projeto futuro. O projeto futuro de mobilização refere-se à proposição de vender as terras atuais para comprar outras, de modo a concentrar terras adquiridas, porém localizadas em diferentes Linhas. 4.3.2. Estratégias familiares de organização do trabalho As relações de trabalho, estabelecidas na unidade de produção familiar, foram definidas pela dinâmica da sua organização interna. Sem desconhecer a amplitude das dinâmicas quanto à divisão do trabalho familiar e à divisão social entre trabalho familiar e trabalho assalariado, a abordagem aqui empreendida limita-se ao sistema de produção e às inter-relações da organização do trabalho com a estrutura do grupo familiar e sua inserção, ou não, na atividade não-agrícola. A base da análise das estratégias de organização do trabalho constituiu-se de um grupo de 421 pessoas, resultante do somatório dos integrantes do grupo na migração e dos nascidos em Rondônia, subtraindo-se os falecimentos e as separações conjugais, conforme mostrado, anteriormente, na Tabela 9. 4.3.2.1. O sistema de produção: de tudo um pouco Agricultura e pecuária. Os verbos derrubar, queimar, plantar, colher, criar e vender foram conjugados pelos colonos, ao retomarem na fronteira o seu espaço de produção e reprodução das suas condições de existência. No diagnóstico preliminar, considerou-se como sistema de produção predominante na área aquele em que o produtor se caracteriza como “produtor tradicional, diversificado, que tem no leite e na venda de bezerros a principal fonte de renda, mas produz também café e lavoura branca [culturas anuais]” (MONTEIRO et al., 1997:27). 67 Essa foi uma característica constatada na maioria dos entrevistados. Quando interrogados sobre as atividades desenvolvidas na propriedade, prontamente respondiam: “de tudo um pouco”. Na seqüência de indagações, essa expressão implicava a presença do gado e do café na maioria das propriedades, somando-se a essas outras atividades que caracterizam o sistema diversificado de produção, como cultura do cacau, piscicultura, apicultura, lavoura branca (milho, arroz e feijão), além da criação de pequenos animais, aves e suínos, destinados mais ao consumo próprio. Dessa forma, embora o sistema de produção predominante fosse aquele em que o produtor se caracteriza pela diversificação das atividades, a intensidade ou a predominância de uma dessas atividades resultava na diferenciação, que, por sua vez, implicava estratificação social. Os entrevistados identificaram-se como sitiantes ou parceleiros, com relação à condição de proprietário de terras, porém, quanto às atividades desenvolvidas, a distinção feita era entre agricultores que lidam, predominantemente, com o café e com a lavoura, e pecuaristas que, além da criação extensiva, lidam com compra, venda e transporte de gado. Apesar da diversificação declarada, o trabalho familiar organizou-se em torno da pecuária mista (produção de leite e carne) e da cultura do café. A aquisição do gado, em geral, foi proporcionada pela acumulação de lavoura branca e com café. A comercialização do leite era feita por dois laticínios, um deles situado na Linha 40, e por um posto de resfriamento da indústria de laticínios Parmalat. A venda de bezerros era outra importante fonte de renda dos produtores. A cultura do café estava implantada em 81,8% dos lotes visitados no diagnóstico. A área de plantio da cultura vinha sendo ampliada, nos últimos três anos, no município, e havia também aqueles que tinham sua atividade principal centrada no café, com propriedades que tinham mais de 15 hectares da cultura e eram conduzidas no sistema de meia. A criação de búfalos, para produção de carne, leite e trabalho, foi desenvolvida em algumas propriedades, incentivada por um programa de difusão de tecnologias desenvolvido pela Embrapa e pelo Departamento Nacional de Cooperativismo (DENACOOP). 68 Embora houvesse tendência de pecuarização, foram as culturas anuais e o café que, em seus referidos tempos históricos, alavancaram o processo de acumulação do produtor: ... eu criei os filhos foi com a lavoura mesmo, roça de arroz, roça de milho, de feijão, de tudo mais que a gente plantava... no tempo do governo Figueiredo deu muita carga de cereais, os armazéns ficaram abarrotados.... hoje não dá mais, quem planta cereais está perdido!19 ... ano que mais vi dinheiro foi no segundo Plano Cruzado . em café fiz 117 mil 20 cruzados, comprei a moto e o resto foi para o tratamento de saúde do filho. Nos tempos de hoje, em geral, os recursos para aquisição de novas cabeças de gado provêm do café, assim como a reserva de poupança do filho que está em preparativos para se casar. Como sintetizou um entrevistado, o que dá mesmo é o café, porque ele demora a dar, mas quando dá aparece né?. O sistema de produção dominante, por não ser intensivo em mão-deobra, permite arranjos, como criação de gado e plantio de café a meia, o que cria uma figura nova no cenário das relações de trabalho não-agrícola, o “pluriativo às avessas”, que, embora desenvolva um trabalho assalariado em meio urbano, mantém vínculo com a propriedade, como se verá adiante. 4.3.2.2. A estrutura do grupo familiar e sua trajetória O grupo familiar que permaneceu na propriedade constitui-se por casais, viúvos, mulheres separadas, filhos adultos solteiros e filhos casados que trabalham na propriedade, mas moram em casas separadas da dos pais. A utilização dessa mão-de-obra familiar ocorre de diferentes formas, de acordo com a atividade principal da propriedade e com a estruturação do grupo, que se mostra diversificada na forma e na quantidade. O principal tipo de arranjo do grupo familiar é aquele formado pelo casal e pelos filhos adultos solteiros (42%), seguido pelo arranjo de casal com filhos adultos solteiros e casados (36%) (Tabela 13). 19 Depoimento do Sr. M.E., 52 anos, Lh. 44, trajetória de acumulação. 20 Depoimento do Sr. W.T., 60 anos, Lh. 40, trajetória de estabilização. 69 Tabela 13 - Arranjos do grupo familiar, por trajetória fundiária Trajetória fundiária ► A Arranjo ▼ Casal e filhos adultos solteiros Casal e filhos adultos, solteiros e casados Só o casal A mulher e filhos solteiros A mulher e filhos solteiros e casados O homem e filhos solteiros e casados Total E R Total N % 6 5 1 0 0 0 4 7 1 0 0 1 12 7 4 2 2 0 22 19 6 2 2 1 42 36 12 4 4 2 12 13 27 52 100 Fonte: Dados da pesquisa (outubro de 1999). A = acumulação, E = estabilização, R = retração). A análise desta tabela permitiu inferir algumas tendências do desempenho dos grupos familiares que permanecem na propriedade. O primeiro arranjo apresenta certo grau de instabilidade, dada a possibilidade de os filhos adultos solteiros definirem suas estratégias familiares para fora da propriedade, optarem por uma trajetória urbana, ou fixarem-se a certa distância do domicílio paterno quando iniciarem a formação de suas próprias famílias. O segundo arranjo, patrilocalidade, parece ser o mais estável, pois os filhos casados trabalham na propriedade em conjunto com os pais, mas não cohabitam. Este grupo tende a desaparecer quando os filhos dos filhos estiverem em idade de constituir uma nova geração, ou, quando premidos pela necessidade de mais terra, deixarem a propriedade paterna. As famílias constituídas pelo casal e por filhos solteiros e casados, em geral, prescindem da mão-de-obra externa. Nas propriedades onde só se encontra o casal, a mão-de-obra necessária para proporcionar o consumo desejável é substituída por trabalhadores em sistema de “meia”. Do total de membros do grupo familiar inicial, ou seja, os que migraram somados aos nascidos em Rondônia (Tabela 9), identificaram-se duas trajetórias empreendidas pelos membros do grupo: 1) Trajetória interna - que corresponde à permanência de 61% dos membros do grupo na propriedade, 70 em uma só morada ou em casas separadas; 2) Trajetória externa - que compreende o deslocamento de 39% dos membros do grupo para fora da propriedade, seja na área de assentamento, em outras Linhas, em outros municípios e em outros estados do País, empreendendo trajetória rural ou urbana (Tabela 14). Tabela 14 - Trajetórias dos membros do grupo familiar Trajetória fundiária Trajetória interna de membros do GF A Filhos B Pais A+B Média Trajetória externa de membros do GF C Rural D Urbana Membros do GF inicial C+D Média A+B+C+D Média Acumulação Estabilização Retração 41 38 77 26 24 50 67 62 127 5,2 5,2 4,7 9 28 56 8 16 48 17 44 104 1,3 3,7 3,9 84 106 231 6,5 8,8 8,6 Total % 156 100 256 61 4,9 93 72 165 39 3,2 421 8,1 O grupo familiar que permaneceu nas propriedades é constituído por 4,9 membros, em média. Uma característica observada foi que este é formado, unicamente, pela família nuclear. Nas poucas menções a outros membros, foram citados netos, que não foram incluídos por morarem com os pais em casa separada. Pais e irmãos, quando citados, ocuparam um lugar na propriedade, mas não na mesma casa, em geral, a fundiária. Comparando-se a composição do grupo familiar inicial com a dos que permaneceram na propriedade (trajetória interna), observa-se redução na média de membros como um todo. Porém, essa redução foi proporcionalmente menor entre os membros do grupo familiar que desenvolveu trajetória fundiária de acumulação. Isto pode ser explicado pelo fato de o grupo ser de menor faixa etária e, portanto, ter ciclo de vida diferenciado dos demais grupos, visto que têm filhos ainda criança e jovens. Conseqüentemente, estes seriam solteiros e não teriam ainda constituído uma nova família e saído da órbita paterna. 71 Quanto à trajetória externa, merecem também destaque os dados relativos à saída dos filhos para assentamentos. O deslocamento de membros do grupo familiar para duas novas áreas de assentamento, no entorno de Nova União, ocorreu com maior freqüência (10%) nas unidades familiares que desenvolveram trajetória fundiária de estabilização (Tabela 15). Pode-se relacionar essa maior ocorrência com o maior número de filhos verificado nessa categoria, supondo-se que a terra, embora tenha permanecido em seu tamanho original, não tenha sido suficiente para a reprodução de todos os filhos. A situação da permanência ou não na área de assentamento não estava definida por ocasião da pesquisa, e alguns informantes declararam que seus filhos retornaram do acampamento, por não conseguirem ser assentados. Tabela 15 - Unidades familiares com filhos em assentamento, por trajetória fundiária Categoria de trajetória fundiária N Unidades com filhos em assentamento % Retração Acumulação Estabilização 27 13 12 3 1 5 6 2 10 Total 52 9 17 Fonte: Dados da pesquisa (outubro de 1999). 4.3.2.3. A pluriatividade familiar A alternância entre a monoatividade e a pluriatividade dos membros do grupo familiar definiu as formas de organização do trabalho. Os colonos, em diferentes etapas do ciclo de vida da família, recorreram a uma combinação de atividades, em razão de experiências e oportunidades que variam de acordo com quem as pratica, ou seja, os filhos, a esposa ou o chefe da unidade 72 produtiva. Entre as famílias estudadas, apenas 31% dos entrevistados declararam que um ou mais membros da família exerciam atividade externa remunerada. A organização do grupo familiar, em relação ao trabalho pluriativo de seus membros, se apresentava sob diversos arranjos (Tabela 16). Tabela 16 - Tipos de atividades desenvolvidas por membros do grupo familiar, por trajetória fundiária e por unidade familiar Trajetória fundiária Atividades MN1-Monoatividade do casal MN2-Monoatividade do casal e dos filhos Subtotal PP1-Pluriatividade dos pais fora do estabelecimento PP2-Pluriatividade dos pais dentro do estabelecimento PF1-Pluriatividade do filho fora do estabelecimento PPF1-Pluriatividade de pai(s) dentro e filho(s) fora do estabelecimento Subtotal Total N Unidades familiares (%) A E R 1 8 9 1 6 7 2 18 20 4 32 36 8 61 69 3 1 0 4 8 0 0 0 4 2 5 2 9 4 17 1 4 0 12 0 7 1 16 2 31 13 12 27 52 100 Fonte: Dados da pesquisa (outubro de 1999). Na história de vida dos migrantes, a pluriatividade foi registrada sob diversas formas e contextos de reprodução social. No início do processo de colonização, situações de caráter conjuntural, por vezes, definiram a opção pelo exercício de outra habilidade, que não a de agricultor. Exemplo disso foi o de um produtor, pequeno proprietário no Mato Grosso, que, com a venda da propriedade, comprou um veículo, com o qual fez a mudança de parte da família. Posteriormente, passou a utilizá-lo para o transporte de pessoas: Eu não tinha nada não, só a família e uma Kombi! Ai eu cheguei aqui, em 80 comecei a fazer” linha “com a Kombi daqui para o Ouro Preto. Ia cedo e voltava lá pro meio-dia, meio-dia e meia, uma hora voltava pra trás. E aí com isso eu adquiri dez mil cruzeiros... 73 A instalação do núcleo urbano e a expansão dos serviços públicos ampliaram a possibilidade de inserção dos colonos em atividades nãoagrícolas, como professor leigo, servente, agente de saúde e administrativo, nas escolas da Linha, no posto de saúde, na Sucam, na Emater e no Cibrazem, dentre outras, assim como em atividades por conta própria, como garimpeiro, comerciante de gêneros alimentícios, motorista de caminhão toreiro, transporte e venda de gado. Na falta de pessoal qualificado assumia a função de professor leigo, visto que bastava ter um mínimo de estudo: ... tinha muita criança e não tinha escola, os pais foram conversar para eu ensinar as crianças. A mulher [esposa dele] tinha estudo até a 4.a série, foi ensinar [1975]. Está dando aula até hoje... só tem a 4.a série!21 No trabalho de campo, foram consideradas como atividades nãoagrícolas o trabalho em bicicletaria, serraria, usina de beneficiamento de leite e de cereais, fábrica de laminados de madeira e assessoria a políticos. Verificase, também, que havia situações específicas, a exemplo de dois produtores que exploravam as margens do rio São Domingos, que corta as suas propriedades, para extrair areia, destinada a construções. Uma característica diferencial dessas atividades diz respeito à situação do membro do grupo familiar em relação ao seu domicílio. Na primeira, quando tais práticas são exercidas nas próprias Linhas ou mesmo na sede do município, pais e filhos permanecem domiciliados na propriedade, ou, em alguns casos, possuem casa no núcleo urbano do município. Para estes, a cultura do café e, ou, a criação de gado são as principais atividades econômicas, enquanto a atividade extra-agrícola é complementar. Na segunda situação, identificada a partir das trajetórias desenvolvidas pelos filhos, registra-se a pluriatividade dos filhos fora do estabelecimento, cuja dinâmica é aquela em que o filho, mesmo tendo uma ocupação profissional fulltime, em meio urbano próximo ou distante22, mantém vínculo com a propriedade, pela criação de gado “a meia” ou pela plantação de café, aos cuidados de familiares ou de parceiros. Tais eventos caracterizam uma 21 22 Depoimento do Sr. I.C.C., 60 anos, AF, Lh. 40. Nos casos relatados os filhos estão em municípios vizinhos e até em outros estados brasileiros. 74 pluriatividade às avessas, uma vez que a atividade agrícola passa a ser atividade complementar. Esse evento remete, também, a uma reflexão de como as mudanças operadas no meio rural e a sua proximidade com o urbano, em razão das facilidades de comunicação e de transporte, permitem que esse tipo de empreendimento seja viabilizado aparentemente com sucesso, contrariando a sabedoria popular de que “é o olho do dono que engorda o gado”. Além da renda do trabalho agrícola, da pecuária e das atividades extraagrícolas, outros componentes dos orçamentos familiares são os rendimentos advindos do recebimento de aposentadorias e pensões, cuja importância na formação da renda das famílias rurais foi confirmada por SILVA (1999:116). Segundo os dados, 36% dos entrevistados recebiam aposentadorias, e em 21% das unidades familiares, ambos, marido e mulher, a recebiam (Tabela 17). Tabela 17 - Quantidade de aposentadorias recebidas, por unidade familiar e por trajetória fundiária Aposentadoria Trajetória fundiária Acumulação Estabilização Retração Total % Quantidade Zero Uma Duas Total 12 5 16 0 3 5 1 4 6 13 12 27 33 63 8 15 11 21 52 100 Como se depreende dos diferentes arranjos, do envolvimento de pais e filhos e da natureza das atividades não-agrícolas, não se trata de abandonar uma atividade pela outra, mas de complementar, fora da atividade agrícola, a insuficiência de renda. A modalidade de pluriatividade, caracterizada pelo 75 trabalho principal não-agrícola e em tempo integral, e, simultaneamente, a manutenção de um vínculo com a propriedade podem indicar um apego à terra, que a racionalidade econômica não alcança, ou apenas outra face da complementação de renda. 4.3.3. Estratégias de encaminhamento dos filhos 4.3.3.1. As aspirações dos pais As estratégias de encaminhamento dos filhos foram expressas sobre duas lógicas: investir na acumulação ou na manutenção de terras (formação de um capital fundiário), ou investir na educação dos filhos (formação de um capital cultural). O projeto de “fazer um futuro” para os filhos, por meio da formação do capital fundiário, já estava implícito na decisão de migrar. O objetivo era obter terra em maior quantidade para dar condições de reprodução à família. A aspiração predominante, revelada pelos entrevistados, caracterizou-se por estratégias de caráter patrimonial e patrilocal (STANEK, 1998), que consistem na manutenção dos filhos no meio rural, compartilhando a mesma propriedade, ou em propriedade separada, mas próxima. A formação do capital fundiário foi orientada pelas estratégias fundiárias de estabilização, como não vender, “segurar” a terra para os filhos e de acumulação, que amplia as possibilidades de reprodução. Se Deus abençoar que eu permaneça nesses 30 alqueires de terra [que esses não são meus, são dos filhos], eu penso em segurar pra eles, pra não ver nenhum dos meus filhos trabalhando de ameia para os outros. Quantas pessoas que sofreu junto com a gente, tirou o sitio, abriu, vendeu e estão trabalhando de ameia com os outros. 23 A alternativa de investir na educação dos filhos, pelo que se depreendeu dos depoimentos, estava fortemente vinculada à educação formal, uma vez que não houve menção de ensinar ao filho o seu ofício de agricultor, a transmissão do seu “savoir faire”, o capital cultural. A principal aspiração com 23 a Depoimento da Sr. M.P.A., 49 anos, Lh. 44, trajetória de retração. 76 relação ao futuro dos filhos foi pautada pelo desejo de que “estudem um pouco” e permaneçam “trabalhando a terra”. Conformar-se com “um pouco de estudo” foi, freqüentemente, um argumento do chefe da família, apoiado na falta de perspectiva de emprego, nas dificuldades de manter os filhos estudando na “rua” e na retenção das filhas na propriedade: As meninas [três filhas] ficaram sem fazer a 5.a série. Tinham vontade de estudar, mas o meu esposo sempre falava que pra quem mora no sitio bastava estudar um pouco, pra não ficar sem estudo nenhum. Agora com o Pro-Campo Recomeçar elas voltaram a estudar.24 ... O pai não deixava estudar fora... hoje em dia, muita gente já é estudado, o pai colocava na cabeça que quem era mais estudado não tinha emprego.25 ... estudaram um pouco. Pararam de estudar, mas todos sabem ler e escrever. Eu não estudei, no meu tempo era difícil, lá onde eu morava. Agora, quanto a 26 continuar estudando é da idéia deles. ... meu gosto é que eles fiquem aqui. Eu penso que eles devem ficar aqui, trabalhar a terra. Todos eles estudaram. São nove filhos no total, tem dois que estão pra roça mais o pai [15 e 18 anos], tem mais uma filha que está na escola... e outro molequinho [7 anos] está pra aula também.27 Esses depoimentos revelam que a aspiração do pai não é de promoção social, que objetiva dar aos filhos uma formação superior para que consigam uma profissão com status social (STANEK, 1998). Trata-se, no caso, de “estudar um pouco”, o suficiente para não ficar analfabeto. Ao não descartarem inteiramente os estudos, os depoentes revelam uma rejeição pelo seu próprio analfabetismo ou pelo seu semi-alfabetismo, uma vez que o nível educacional da maioria é baixo, pois 80% dos pais não possuíam nenhuma escolaridade. As condições adversas do meio em que se instalaram dificultaram, substancialmente, o acesso ao estudo almejado pelos agricultores. Inicialmente, nas Linhas só funcionavam escolas em regime multisseriado, o que obrigava as crianças a interromperem os estudos, pois nem todos os pais tinham condições ou interesse em encaminhá-los para estudar em outro local. A falta de condições de tráfego das estradas no período chuvoso e as grandes distâncias entre a escola e a propriedade foram outros fatores que impediram o prosseguimento dos estudos, o que talvez explique o fato de haver 24 Depoimento da Sr.a A.T.A., 48 anos, AF, Lh. 44. 25 Depoimento da filha do Sr. W.J.P. e da Sr.a G.S.P., AF, Lh. 40. 26 Depoimento do Sr. A.F.S., 72 anos, AF, Lh. 44. 27 Depoimento da Sr.a M.A.S., 48 anos, AF, Lh. 44. 77 um contingente significativo de maiores de 14 anos que não concluíram a 4.ª série e maiores de 18 anos que não concluíram a 8.ª série do 1. o grau (COOPAMNU, 1996). A necessidade de incluir e intensificar a participação dos filhos na mãode-obra familiar foi também motivo de evasão escolar. ... todos estudaram até a quarta série, tem um que ainda está estudando em Nova União. Eu queria que eles continuassem estudando, mas o pai deles que 28 não quis, tirou pra trabalhar na roça. ... o mais difícil aqui foi para os meninos estudar, eles iam daqui [Lh. 44] na 40 [ Lh. 40] de bicicleta. Tem um que está estudando ainda, ele faz o segundo ano do 2.o grau. Até agora ele ainda não escolheu o que pretende ser, ... ele até tinha vontade de ser veterinário... ele aplica injeção. Eles [três filhos a rapazes, solteiros] tiraram até a 5. serie na escolinha daqui. Dois deles fizeram o o 1. grau e um está fazendo o 2.o grau. - Que eles estudassem, eu gostava que eles continuassem estudando, mas depois que nos se separou [ela separou-se do marido], aí eles já tinham que ajudar a trabalhar para eles se manter né? E daí eles não tinham estudo pra trabalhar fora, eles tinham que ficar trabalhando aqui, fazer um futuro pra eles.29 A possibilidade de retomada chegou recentemente (1999), com a implantação na comunidade do programa “Pro-Campo Recomeçar”, que tem viabilizado a continuidade dos estudos além da 4. a série: “... com o Programa Recomeçar, muita gente voltou a estudar, casado, solteiro, mesmo gente velho voltou a estudar"30. Esta iniciativa foi freqüentemente referida com entusiasmo pelos entrevistados. ... eu não tive sorte com os meus filhos, teve dois mais velhos que desistiram . Essa aqui [a filha casada que acompanhava a conversa] só fez a 4.a série, uma casada também só fez a 4.a Só tem essa menina, a que está para escola, que fez a 4.a e agora surgiu esse estudo tão bacana [Pro-campo Recomeçar], e eu sempre falo pra ela, começar e terminar.31 O investimento cultural, mesmo restrito, exigiu grande empenho do agricultor. No esforço de fazer com que os filhos continuassem a estudar, houve quem usasse métodos não-didáticos para o convencimento: ... uns estudou um pouquinho. Esse caçula, eu pelejei com ele, lutando para estudar, mas ele não quis. Amarrava ele, judiava, levava pra roça, punha uma corrente no pescoço dele, dizia: você vai ficar aqui até à hora da aula. Mas ele não quis... agora ele reclama que não aprendeu!32 28 Depoimento da Sr. E.A., 53 anos, AF, Lh. 44. a 29 Depoimento da Sr. C.N.T., 50 anos, AF, Lh. 44. 30 Depoimento da filha do Sr. W.J.P. e da Sr.a G.S.P., AF, Lh. 40. 31 Depoimento da Sr.a M.P.A., 49 anos, AF, Lh. 44. 32 Depoimento do Sr. A.S., 72 anos, AF, Lh. 44. a 78 Uma estratégia para garantir melhores condições de estudo aos filhos se dá pelo deslocamento destes para o núcleo urbano de Nova União ou para municípios circunvizinhos. Isso implica, muitas vezes, o êxodo de todo o grupo familiar, mediante a venda de parte do lote para “fazer dinheiro” e comprar “barraco” na sede do município. O deslocamento do grupo familiar é uma estratégia nem sempre bem sucedida, dada a dificuldade de conciliar a moradia na “rua” (cidade) com o trabalho na propriedade (campo), ou dado o desinteresse dos filhos, que preferem o trabalho na terra aos estudos. Por vezes, a mãe alia-se aos filhos e o pai desdobra-se entre os dois espaços de trabalho e de morada. Quando a alternativa é deslocar apenas os filhos, os homens têm prioridade nesse encaminhamento, já que as mulheres, mesmo que queiram, são impedidas de tentar continuar o estudo na cidade, não ia deixar filha moça solta no mundo, conforme argumentou um produtor. A volta à propriedade resultava de um insucesso no investimento cultural: ... No sitio eles estudou a 4.a série. A gente foi pra rua pra eles estudar, mas eles não quiseram. - Não houve interesse. Passei 10 anos fora. A gente tocou um comércio, barzinho, em Nova Uniao. Três deles não quiseram, [trabalham de empregado em roça, gado e marcenaria] mas esse aqui (aponta o caçula) continua estudando.33 O produtor P.R., 55 anos, depois de os cinco filhos completarem a 4. a série na Linha 44, mudou-se com a família para Nova União: estudaram por pouco tempo, não deu certo ficar lá. Retornou com a mulher e o filho caçula para a propriedade, visto que suas aspirações quanto ao futuro dos filhos não correspondiam ao que ele havia planejado: Cada pessoa tem um destino, o que eu achei que crescesse em casa e pudesse tomar o destino deles , que eu podesse ensinar um pouco da leitura pra eles, aí não foi bem do jeito que eu pensei , eu não consegui, nenhum deles conseguiu se formar no 1o. grau, mas também não ficaram analfabeto..34 Em oposição aos que investiam no capital cultural estavam aqueles que preferiam investir na formação de um capital fundiário, uma vez que não acreditavam na possibilidade de promoção social pelo estudo e apostavam que 33 34 Depoimento do Sr. D.P., 46 anos, cujos quatro filhos, na faixa etária de 23 a 18 anos, retornaram à propriedade. Depoimento do Sr. P.R., 55 anos, AF, Lh. 44. 79 o futuro estava no trabalho na terra. A lógica de investimento na acumulação de terras ou na manutenção do lote para o trabalho dos filhos era baseada na falta de perspectiva de emprego e na qualidade de vida oferecida pelo meio rural. ... o que eu tenho dito é que nada aqui é meu ou dela [a esposa], o que nos fizemos é pra fazer com que no futuro eles tenham onde trabalhar, porque hoje em dia não adianta você se afastar de seu filho, botar para estudar e na escola da “rua” e aí a droga está dentro do colégio, a violência está lá dentro do colégio, então não dá, não tem como...35 ... a maioria dos que estudou, está sem serviço. Se estudo fosse bom, a gente não estava no caminho do buraco, quem sabe se na mão de um analfabeto a 36 gente não estaria melhor. ... melhor ter terra para trabalhar, emprego é mais difícil para filha mulher. Quem mora na roça não pode dar estudo para eles [os filhos], nem comprar as coisas que precisa.37 A má qualidade do ensino oferecido na comunidade era outro argumento de quem preferia apostar que o futuro estava na terra: Olha, aí já começa uma coisa difícil aqui na Linha, primeiro: tem um professor e uma professora aqui na Linha que são semi-alfabetizados (são leigos né?). Esse menino já está indo lá e aprendendo errado, a palavra problema ele está aprendendo pobrema. O futuro dele o que é que eu vou dizer? (...) O que eu tenho dito é que nada aqui é meu, o que nos fizemos é pra fazer com que no futuro eles tenham onde trabalhar, porque hoje em dia não adianta você se afastar de seu filho, botar para estudar na escola da “rua” e aí a droga está dentro do colégio, a violência está lá dentro do colégio, então não dá, não tem como... ... A maioria dos que estudou, está sem serviço. Se estudo fosse bom, a gente não estava no caminho do buraco, quem sabe se na mão de um analfabeto a gente não estaria melhor. Os argumentos de quem apostava que valia a pena investir nos estudos colocavam a estratégia de promoção social em confronto com a desvalorização do trabalho agrícola: ... Todos eles estudaram, só não se formaram porque aqui agora é que está a tendo a 8. serie. Hoje o que está dando é quem tem estudo. Se meu pai tivesse colocado a gente no estudo, às vezes a gente podia até está ganhando um dinheiro bem mais melhor. Porque o trabalho que a gente faz aqui na agricultura, trabalhando até a noite, o que a gente faz é como aconteceu agora, entregar um saco de feijão dá por 12-13 conto que nem foi vendido agora, isso é que é uma injustiça né, um saco de milho por cinco real, um saco de arroz custar 12 real, isso que é a coisa mas difícil do mundo. ... Então hoje muitos se saíram da agricultura por causa disso daí, por o que a pessoa produzir não tem valor, então aí eles estão estudando, só que aquele ali começou desistiu, diz ele que se trabalhasse lá na lavoura dele ia ganhar mais, só que eu tenho certeza que ele está perdendo mais, porque hoje quem tem um bom estudo, 35 Depoimento do Sr. S.I.S., 51 anos, AF, Lh. 44. 36 Depoimento do Sr. N.L.S., 48 anos, AF, Lh. 44. 37 Depoimento da Sr. M.N.R.S., 40 anos, AF, Lh. 44. a 80 sempre cai pingando, e aqui quando a gente ganha é de ano em ano. Ainda esse ano o veneno foi para 60... 90-95, saco de feijão 100 100 e pouco, pra vender feijão de 14 e 15 conto e vender arroz... a gente trabalha porque não 38 tem estudo o jeito é trabalhar mesmo. 4.3.3.2. As trajetórias dos filhos As trajetórias dos filhos resumiam em duas opções: interna, quando permaneciam na propriedade, e externa, quando se deslocavam para áreas urbanas e rurais. As trajetórias urbanas podem ser tipificadas em TU1 - para Nova União; TU2 - para outros municípios do Estado; TU3 - para outros Estados, e as em rurais: TR1 - para outras Linhas no município; TR2 - para outros municípios; TR3 - para áreas de novos assentamentos; TR4 - para outros Estados. Tais deslocamentos ocorriam em diversas circunstâncias, como casamento, tratamento de saúde, estudo e busca de novas terras para produção, com vistas em diminuir a pressão sobre a terra paterna, ou pela escolha de uma estratégia alternativa urbana, influenciados por extensões urbanas da rede familiar ou de parentesco simbólico. Tais trajetórias dnotavam diferentes situações sociais em que se encontravam, como filhos e filhas de agricultores, solteiros e casados, filhas casadas que residiam na cidade, filhos operários urbanos, filhos homens no estabelecimento, filhos em assentamento, filhos na cidade, mas com um plantio de café ou algumas cabeças de gado na propriedade, filhos operários de indústrias, filhos emigrados para o Sudeste, filhos reemigrados e filhos com formação superior. Essa variedade de trajetórias vai de encontro às aspirações dos pais, que almejavam que os filhos estudassem um pouco mais e permanecessem trabalhando na propriedade, já que, para estes, havia terra para todos. As trajetórias urbanas eram menos aceitas pelos pais, que relacionavam o seu sonho de possessão de terra para os filhos com a frustração de não vê-los como seus sucessores, principalmente quando a situação do filho na cidade não era favorável: “se fosse do meu gosto ele estava bem, tinha que pelejar com a lavoura”. Porém, migrar para a cidade 38 Depoimento do Sr. A.S.F., 51 anos. 81 nem sempre significa insucesso: “O meu filho mais velho (que foi pra São Paulo porque a mulher era doente do coração) , que está prá lá há 10-12 anos, ele me compra com tudo o que eu tenho aqui, sem vender tudo o que ele tem“ [trabalha em metalúrgica]. Analisando-se um exemplo de trajetórias desenvolvidas, encontravamse, em um grupo familiar de cinco filhos, duas filhas casadas (TR1) que moravam na propriedade do sogro; um filho casado (TU1) que possuía uma bicicletaria em Nova União; uma filha casada (TU3) que morava em São Paulo, cujo marido tinha uma loja de materiais de construção; o filho caçula (TU3) que havia viajado para São Paulo para passear e permanecera para trabalhar para o cunhado. Neste caso, ocorreu processo inverso de influência da família, que, desta vez, contribuía para o êxodo dos jovens. A trajetória urbana empreendida pelos filhos não desagradava à mãe: “lá em São Paulo eles estão ganhando o troquinho deles e não estão apanhando este solão [sol forte], basta o sofrimento do pai que não tem jeito”. Permanecia na propriedade apenas o casal, que subsistia da atividade pecuária, do cacau e do plantio de café, produzido a meia com o filho que estava em Nova União, um caso típico denominado pela autora da tese de “pluriatividade às avessas”, no qual o filho desenvolvia atividade não-agrícola em meio urbano, mas mantinha vínculo produtivo com a propriedade. Em ambos os casos, investir no estudo, na terra, ou no estudo e na terra implicava certa perda da autoridade do pai, quando as suas aspirações não eram correspondidas pelos filhos. Tratava-se do processo de individualização nas atitudes dos membros do grupo familiar, sobretudo dos jovens, que acabavam por imprimir uma nova dinâmica nas relações internas de organização do trabalho. Tais decisões se manifestavam não só quando os filhos rejeitavam continuar os estudos, mas também quando preferiam permanecer na propriedade, ou traçar uma trajetória urbana, em trabalho nãoqualificado. Vários depoimentos demonstram essa independência dos filhos, que, na opinião dos pais, manifestava-se cedo e trazia conseqüências na formação cultural dos filhos. 82 ... a partir dos 15 anos eles já estavam criando asa.39 ... pela minha vontade, era de ficar por aqui, trabalhar no lote, mas os filhos quando se pegam de maior, ninguém consegue segurar, eles quer sair.40 até uma altura eles vão dominados pela gente, de 16 anos em diante 41 escapolem. a a ... até a 4. série foi poder do pai, uns não quiseram. Agora que veio a 5. para 42 a roça. ... eles já eram todos os rapazes, não quiseram mais estudar, eu mesmo não 43 podia falar nada, ficou por isso mesmo. O meu desejo era que eles fossem estudar para ser padre, mas não quiseram saber de estudar, muitos não fizeram nem a 4.a série.44 Lá no Paraná eles estudaram, mas aqui já estavam todos rapazes não quiseram mais estudar, eu mesmo não podia falar mais nada, então... ficou por 45 isso mesmo. ... os filhos não queriam estudar. Iam estudar, sabe que faziam? Danavam a brigar! Hoje eles não tem estudo, agora tem que trabalhar na roça mesmo...46 Essa característica inovadora era fruto de mudanças nas relações entre familiares, quando a lógica social predominante, na qual o pai controlava a sucessão e a continuidade da exploração, perdia sua força. Surgiam, daí, conflitos e a sensação de impotência dos pais diante das decisões dos filhos, o que, por vezes, culminava com a saída destes da propriedade para traçarem a própria trajetória, seja pela aquisição de um lote, seja pelo êxodo rural. Seu Alcides, pioneiro da Linha 44, era um exemplo dessa situação, já que perdera parte do lote em litígio com o filho mais velho: ... o negócio foi assim: eram os filhos que mandavam..., ele se adiantou, quis vender a terra eu não quis vender, ... depois de alguns anos ele vendeu... vai peleja daqui e dali até que... depois no fim do ano ele vendeu, nos repartimos, eu fiquei com uma metade ele ficou com outra, ele pegou aquela metade vendeu... vendeu pra lá a preço de bala, chinelo velho, carro velho... aí depois eu pelejei... eu fui no juiz para tirar só 10 alqueires. Depois eu mandei chamar ele pra poder dar o consentimento da terra... ele falou que não ia não... só se eu matasse ele. Eu falei então: - não então você tem vida... isso há muito tempo né... e ele hoje está na pior... está na pior! 39 Depoimento do Sr. A.F.S., 72 anos, AF, Lh. 44. 40 Depoimento do Sr. D.P., 46 anos. 41 Depoimento do Sr. M.V., 48 anos, Lh. 44. 42 Depoimento da Sr. O.M., 46 anos. 43 Depoimento do Sr. D.A., 67 anos. 44 Depoimento do Sr. A.F., 64 anos. 45 Depoimento do Sr. D.A., 67 anos, AF, Lh. 40. 46 Depoimento da Sr.a E.C.R., 66 anos, viúva. a 83 Observa-se que há um momento em que a força de trabalho dos jovens passa a manter maior controle sobre a renda obtida dentro ou fora da exploração familiar. Nota-se tendência de individualizar a produção, principalmente no plantio de café, num arranjo em que se trabalha coletivamente e individualmente, como explicou um entrevistado: “Tenho dois filhos na propriedade, um solteiro e um casado. Cada qual cuida por sua conta desde solteiro. Esse aqui é solteiro [aponta o menino de 14 anos] o que ele colhe já é dele”. O projeto individualizante de família nuclear (VELHO, 1987) estaria perdendo lugar para um projeto de individualização dos filhos. Essa tendência corresponde à mudanças no comportamento produtivo humano, no sistema de organização coletiva e de princípios patriarcais fortes, como é a família, baseado na procura por obter renda individual que vem sendo observada na sociologia econômica (MINGIONE, 1991). Tais mudanças têm levado as unidades familiares a se adaptarem a elas para garantir sua permanência enquanto unidade de produção e reprodução. 4.4. Representações das trajetórias empreendidas e resultados alcançados a) Pioneiros e “vitoriosos, graças a Deus!" A possessão da terra, "ser proprietário, ser liberto, não ser escravo do trabalho na terra dos outros”, foi a principal razão para que eles considerassem a trajetória empreendida vitoriosa, sob a bênção de Deus, como reconheceram unanimemente. Mesmo para os que, apesar do longo percurso entre o tempo de plantar (acesso a terra) e o tempo de colher (melhores condições de vida), pareciam ainda estar distante de um êxito pleno, obter a terra era sinônimo de vitória. Deus guiou o nosso plano. O homem e a mulher podem saber muita coisa, mas se Deus não ajuda ele não tem nada (N.S., 48 anos). Dou graças a Deus que abriu a mente da gente para vir. Nos somos vitoriosos, nos vencemos (J.P.S., 71 anos). Foi muito lutoso mas graças a Deus a gente teve vitória , com essa idade todos nós temos onde morar, temos onde parar, que era o nosso maior desejo é ter nossa terra e aqui realizamos nosso sonho. (...) ... desistir? eu mesma nunca tive vontade, Nossa Senhora! sempre eu fui uma mulher lutadeira, que lutou para sobreviver, eu tinha essa esperança de que nos vencia. E eu tinha o sonho de que a gente ia ter conforto e graças a Deus a gente tem. A senhora vê, tem quatro anos que a gente tem energia na minha casa, louvado seja 84 Deus, a gente venceu! Hoje a gente tem o asfalto aqui com 2km (M.P.A., 49 anos). A ideologia do pioneirismo, privilegiada por autores tradicionais de estudos migratórios e refutada por outros (MARTINS, 1997; TEDESCO, 1999), está presente na supervalorização do heroísmo, do sofrer, da aventura ao desbravar matas, enfrentar animais ferozes, etc. Esse heroísmo é reforçado quando, sem que tivessem sido questionados sobre esse fato, comparavam suas trajetórias com a dos trabalhadores sem-terra: O nome Nova União significa Projeto de União do Povo no Sofrimento. Os sem-terra não é povo de luta, luta fomos nós. Eu não concordo com essa vida que os sem-terra estão querendo . Eu fico besta com esses sem-terra de hoje, eu não me conformo, tudo com suas motos, nós nunca exigiu o que eles exigem (I.G.S., 51 anos). Se a gente tivesse o apoio que esses sem-terras têm, nós não tinha padecido 1/3 do que nós padeceu Nos tinha vencido antes, nós tinha aberto o lote antes, tinha comprado gado com aquele dinheiro a gente podia ter comprado mais terra em volta (D.L., 56 anos). ... eu falo para as minhas filhas, eu fui uma pessoa muito sofrida assim, vivendo pela terra dos outros, quase igual a um sem-terra. Não é bem um semterra porque os sem-terra hoje tem mais vez do que a gente, com aquele jeitinho deles... (M.P.A., 49 anos). Diante das adversidades, recuar não estava nos planos dos migrantes: "... não adianta viver uma vida boa, mas sem futuro. Lá a vida era boa, tudo era fácil, mas não tinha futuro", declarou uma mineira, que migrara do Paraná, segundo a qual a vida boa era representada pela facilidade de acesso aos serviços de transporte, saúde e educação do meio urbano, enquanto a falta de expectativa de futuro era representada pela restrição de terra para a reprodução da família. A percepção maior foi a de que valeu a pena ter vindo: Ah Valeu! Se a gente morasse lá nunca teria o que tem hoje, a gente não está rico, mas tem onde plantar, não depende de trabalhar de ameia na terra dois outros, igual lá. E os filhos plantam onde quiser plantar. Se sabe que trabalhando, Deus ajudando, a gente tem um futuro (B.M.C., 55 anos). b) “A gente não quer só comida” A condição de proprietário de terra e o acesso aos bens de consumo foram reconhecidos pelos colonos como as grandes mudanças operadas em suas vidas. Tratava-se de avaliar o seu sucesso, muito além da simples sobrevivência biológica. Essa percepção foi reforçada quando os entrevistados manifestaram vontade de mostrar aos filhos as condições que viviam antes de 85 migrar, comparadas às condições oferecidas a eles. Chegaram a afirmar que os filhos “nasceram em berço de ouro": Quando a gente chegou aqui não tinha uma caminha para dormir. Foi muito bom mas também muito difícil. Eu não tinha 30 anos ainda tinha muita esperança, os trensinho que a gente conseguiu, era na picada, não conseguia trazer aqui pra dentro. A gente forrava em cima das talas de coqueiro, com as minhas cochas e lençol. Deus abençoou que, a gente veio em janeiro, em julho já tinha milho, então a gente fazia aquele colchão de palha. Parece um sonho a vida da gente, Deus abençoou que a gente conseguiu tudo. Parece um sonho, porque do jeito que a gente teve aquela escuridão, hoje a gente tem todo o conforto dentro de casa. Eu falo para as minhas filhas: a gente foi criado assim no sitio dos outros, trabalhando à meia, e hoje a gente tem o que é da gente, tudo confortável, máquina de lavar, fogão à gás, tudo no jeito. Tudo o conforto que a gente tem, eu falo para elas que elas foram criadas em "berço de ouro”. Para eles, o preço do conforto era, muitas vezes, pago com prejuízos à saúde. Vencida a malária, da qual não se ouvia mais falar, os males advinham da labuta na terra, "a agricultura é boa, mas acaba com a saúde da gente, não existe rim, não existe coluna, para quem trabalha no sol, mas se a pessoa não sofrer, não possui as coisas". Para uma mulher, a solução era simples: "ao invés de gastar dinheiro com sem-terra, o Governo devia aposentar as mulheres que já sofreram tanto, mais cedo. Depois dos 50 anos é só gasto com remédio, essa tal de menopausa”. c) Quando não valeu a pena Apenas dois entrevistados, um homem e uma mulher, não fizeram coro ao sentimento de que “valeu a pena”. Para eles, o sacrifício não havia valido a pena, porque os filhos não permaneceram. No ano de 1980, tinham quatro filhos na migração, três já estavam casados (dois homens e uma mulher), um adulto solteiro, e mais um filho que nasceu em Rondônia. O sonho era mantêlos todos unidos, trabalhando na terra. "Moraram tudo junto, tudo pertinho... daí um saiu porque o filho ficou doente e o médico falou que tinha que levar para fora [o menino sofria do coração]". Foi-se o primeiro filho. O entrevistado afirmou que trouxera uma Kombi para transportar o pessoal, fez dinheiro e comprou um lote. Ao mesmo tempo, envolveu-se com a administração pública, foi nomeado administrador do NUAR Nova União, e o lote ficou por conta dos filhos: eu não fui para o Lote, mas meus meninos foi [o filho casado e o solteiro]. Trabalharam lá, formaram um café lá e tal e coisa... aí resolveram ir embora que veio um sogro deles aí, e disse vamos embora que aqui é muito quente, que no fim acaba morrendo de rim aqui. Foram, deixaram 13 mil pés de café 86 plantadinho, já começando a produzir, no fim acabei tendo que vender o lote. Foram-se mais dois filhos. Segundo eles, não restou nenhum deles na terra conquistada, e nem havia mais terra, pois ela tinha sido vendida quando os filhos decidiram deixálos: eu não queria que eles fossem, mas eles que queria ir né, a vontade era deles, eu falei: vocês querem ir, podem ir, eu não vou segurar vocês, vocês são casados, tem suas casas, vocês sabem o que fazem, mas só que o lote eu vou vender. Vendi o lote reparti o dinheiro, a minha parte comprei esse terreno aqui [uma chácara no início da Linha 44]. Para ele, um sonho de terra de trabalho em família foi desfeito. Os filhos foram para outros municípios de Rondônia, um foi para Dourados, no Mato Grosso, para onde ele, se pudesse, também já teria ido. Para a mulher, o marido adotou uma estratégia errada, já que eu, por ter bom capital, em vez de comprar terra “num lugar aberto“, mais próximo da BR-364, optou por ir mais longe, comprar terra mais barata e farta, uma estratégia patrimonial que não deu certo, pois as dificuldades foram maiores, fez-se muito sacrifício, "poderiam não ter sofrido tanto” . O seu sofrimento não veio só das adversidades comuns aos migrantes, mas porque ficou assentada num barraco na LH-20, antes de vir para o lote, “... a mudança ficou no caminho, chegamos de noite, o burro voltou pra trás”, a escuridão era tanta que ela não percebeu que o burro havia voltado. Dramas pessoais marcaram o início da vida no lugar - com 23 dias que estavam na propriedade, o marido morreu, em caçada; uma semana antes, o filho havia sido picado por cobra, quase morrera. Dez anos depois, um dos filhos mais novos, aos 19 anos, morreu esmagado por uma árvore derrubada. Todos esses reveses não a fizeram desistir. Levou adiante a estratégia ruralista/patrimonial do marido: ... a idéia do meu marido era arrumar bastante terra para os filhos. Ele marcou esses lotes pra lá, trouxe o povo, deu a despesa, pra repartir o lote pra deixar para os filhos. A gente nem pensava que aqui ia virar cidade, a gente nem pensava que eles fossem estudar. São duas as percepções do “valer a pena”. O que as diferenciou foi que, no primeiro, os filhos se foram e a terra também, no segundo, o não-valer a pena significa apenas a rejeição ao sofrer, já que o resultado poderia ser considerado como êxito. A estratégia foi a manutenção da base fundiária, que garantiu “não dar tudo errado”: 87 a grande esperança que a gente tinha era segurar a terra, não vender, a gente passou muita necessidade, mas não vendeu. Tem gente que vendeu a terra e deu pra trás, gente sem dinheiro vai vender terra pra fazer dinheiro vai ficar sem terra e sem dinheiro. d) A permanência da unidade de produção agrícola familiar Das diversas teorias que tentaram explicar a permanência ou o desaparecimento próximo da agricultura familiar, várias concederam ao Estado um papel decisivo na perpetuação da unidade de produção agrícola familiar. Certamente, o Estado não seria o único fator de permanência da unidade de produção familiar, já que “o futuro da forma social de produção agrícola que constitui a unidade de produção familiar é condicionado pela política agrícola, mas não lhe é completamente subordinado” (JEAN, 1998:273). A percepção dos produtores foi de que o Estado estava ausente desde o início, quando afirmavam que do INCRA não recebiam nada além da terra. Havia discordância permanente com o que lhes foi apresentado como política de governo. O financiamento feito mediante PRONAF resultou em prejuízo, dada a aquisição de gado de má qualidade, visto que não tiveram escolha, pois as compras foram feitas em pacotes, orientados por casas de comercialização de produtos agropecuários. O tempo bom de plantar, orientado por uma boa política, estava no passado: Naquele período de 10 anos atrás quem trabalhou e esforçou conseguiu as coisas porque tinha uma política. Mas agora não tem valor na agricultura, e isso depende dos homens que se formaram , os economistas, que se formaram. Porque quem vai plantar arroz que custa 15 reais. Se tivesse uma política como era antigamente, o povo desenvolvia. (...) Quando tinha aquela inflação. O Fernando Henrique Mentira não reajustou nada. Não dá nem pra falar: hoje quem está no poder é quem fica por cima. O povo trabalha, a receita arrecada... No tempo do Jorge Teixeira...47 O futuro do pequeno produtor? Do jeito que vai não vai ter futuro, o campo vai ficar mais vazio do que está hoje. O povo dos assentamentos que pegaram terra, a maioria deles não vai agüentar e vai sair, com essa política que nos temos em Brasília. Não temos financiamento para arroz, pra café pra cacau pra nada.48 Houve, ainda, quem visualizava um governo mais atuante. Premidos pela necessidade de ampliar sua base fundiária, ainda consideravam a possibilidade de uma nova migração. “O Mato Grosso está dando terra boa, mas aqui o governo não ajuda em nada”. Manifestava-se, assim, a identificação 47 Depoimento do Sr. N.S., 48 anos, Lh. 44. 48 Idem. 88 especificidade do produtor com a terra, além do seu caráter de conquistador (MAUREL, 1998:113). Estavam propensos à mobilidade geográfica e aceitavam a idéia de vender a terra em troca de melhor oportunidade de explorar em outro lugar, por outras motivações, assim, o sonho de terra continuava. 89 5. RESUMO E CONCLUSÕES A colonização da fronteira amazônica pela ocupação de “novas terras” está relacionada com a política agrária implementada pelo governo do regime militar, processo desencadeado a partir de 1964 e que se firmou na década de 70, com a criação do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), que coordenou as atividades de colonização e reforma agrária, até a criação do Ministério de Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (Mirad), em 1984. A política de colonização, apresentada como substituta da reforma agrária, foi uma tentativa de resposta do governo brasileiro às pressões que vinham sendo exercidas pelos movimentos sociais, denominada, por isso, “colonização contra-reforma agrária”. O Estado desempenhou papel importante na formação dos condicionantes políticos e dos ambientes institucionais da fronteira. Por meio do INCRA, ordenou a implantação de Projetos de Colonização Dirigida, ao longo da rodovia Transamazônica, no Pará, e na BR364, que liga Porto Velho-RO a Cuiabá-MT. A criação do Projeto Integrado de Colonização em Rondônia, o PICOuro Preto, em junho de 1970, intensificou o fluxo migratório para o então Território, com assentamento de mais de 5.000 famílias no referido projeto. A transformação ocorrida no espaço agrário e social de Rondônia e, particularmente, em Nova União, caso em estudo, é resultado desse processo de colonização na fronteira amazônica, que gerou um novo espaço para a 90 reprodução da agricultura familiar, ao mesmo tempo que fez emergir preocupação com o processo de degradação social e ambiental da região. Nesse contexto inserem os sujeitos deste estudo, agricultores expropriados das regiões Sul e Sudeste do País, que, por já não terem mais condições de se reproduzir em seu local de origem, responderam ao apelo da propaganda oficial, “homens sem terra, para terra sem homens”, e embarcaram na aventura de desbravar a fronteira amazônica. Na história da migração para a Amazônia faz-se referência aos “colonos retornados”, aos que não permaneceram e aos que “fracassaram”, vencidos pela exclusão socialmente produzida (SANTOS, 1993 e 1989). Cabe ressaltar que os sujeitos deste estudo são outros, os que se lançaram na aventura da fronteira agrícola e conseguiram se estabelecer, reproduzir, permanecer, vencer a “zona de fragilidade” (LÉNA, 1991), produzir e reinvestir na produção. As condições históricas que moldaram o modelo de produção baseado na agricultura familiar, bem como as transformações que ocorreram ao longo do processo de estabelecimento dos colonos na fronteira, refletiram-se na organização interna destes, nos seus projetos familiares. Nesse contexto, diferentes estratégias de reprodução das famílias migrantes, em interação socioeconômica e cultural com o trabalho e com a terra, foram analisadas, quais sejam, a migração, como a primeira estratégia de sobrevivência, a lógica patrimonial fundiária, a organização do trabalho e o encaminhamento dos filhos. A avaliação das estratégias familiares, num processo de colonização dirigida, implica a consideração de muitos aspectos interligados ao eixo principal da condição camponesa, o acesso à terra. Assim, na análise das estratégias de reprodução social, partiu-se das trajetórias fundiárias empreendidas, verificando, quando possível, semelhanças e diferenças em cada uma das categorias, ou seja, a dos que acumularam terra, a dos que retroagiram e a dos que mantiveram estável o tamanho do seu patrimônio fundiário adquirido na fronteira. Sem negar o caráter econômico que envolve as lógicas produtivas e reprodutivas, o que se procurou evidenciar na análise das estratégias familiares foram as questões subjetivas de caráter cultural que 91 permeiam as decisões do agricultor e que, se não são determinantes, vão influenciar no rumo das trajetórias alcançadas. Analisando-se as estratégias reprodutivas desses agricultores, procurou-se resgatar os elementos que constituem a especificidade da família rural enquanto grupo doméstico de convívio e de trabalho, uma vez que a diversidade de estratégias familiares de reprodução caracteriza, fortemente, a agricultura familiar, e a sua compreensão tem desafiado os pesquisadores das ciências sociais, nas duas últimas décadas. Assim, tentou-se entender as estratégias que envolvem a reprodução da unidade familiar inserida em uma região de fronteira agrícola, espaço que faz interagir “forças sociais em conflito” (SANTOS, 1989) e, ao mesmo tempo, sob a égide do chefe de família, que se exterioriza na propriedade da terra, na importância e no envolvimento de seus membros no trabalho e na obtenção/manutenção de patrimônio fundiário. Na análise dos dados levantados junto a 52 unidades familiares do município de Nova União, em Rondônia, foi possível constatar certas particularidades na lógica de funcionamento dessas unidades familiares. Elas experimentaram uma série de transformações em nível interno, provocadas pela dinâmica do grupo familiar e pelas mudanças no espaço social em que se inseriram, o que fez com que algumas de suas características permanecessem, outras se modificassem e novas se incorporassem. Nenhuma delas, entretanto, rompeu, definitivamente, com a particularidade do sistema de agricultura familiar, enquanto “unidade de produção, na qual a propriedade e o trabalho estão estreitamente ligados à família” (LAMARCHE, 1993). A migração em busca de novas terras foi a primeira estratégia colocada em prática por esses colonos, ao vislumbrarem possibilidades de reprodução social pela realização do “sonho da terra” e, por meio dela, melhorar de vida e dar condições de reprodução a sua família. Tendo como ponto em comum a condição camponesa, as trajetórias migratórias foram impulsionadas pelo processo expropriatório de seus locais de origem e apresentaram diversos pontos de partida e percursos até Rondônia. Em um ambiente adverso, com escassez de infra-estrutura, o primeiro desafio foi vencer a zona de fragilidade; para isso, buscaram, pela venda da sua mão-de-obra, capitalizar-se para produzir e reinvestir na produção. A unidade familiar foi o centro aglutinador da organização da vida na fronteira, e os elos de parentesco foram de grande 92 importância para garantir o acesso a terra. A partir dela, outras estratégias de reprodução foram implementadas. A lógica patrimonial fundiária que orientou as decisões dos chefes de família foi fundamentada nas estratégias de acumulação, estabilização e retração da base fundiária, relacionadas com estratégias familiares de encaminhamento dos filhos. Tais estratégias, na trajetória de acumulação, foram pautadas na lógica de investimento no capital fundiário, valorizando a terra pela pastagem, o que caracteriza a tendência à pecuarização. Na trajetória de estabilização, a estratégia foi a de não vender, “segurar” a terra para os filhos, ampliando as possibilidades de reprodução. As trajetórias fundiárias de retração, por venda ou por divisão do lote, foram relacionadas com as dinâmicas familiares de casamento, descasamento e sucessão. O desenvolvimento de trajetórias de retração e acumulação deixa antever que estão se reproduzindo no espaço rural de Nova União estruturas sociais semelhantes às que criaram em seus locais de origem as condições para expulsão do campo e migração para Rondônia. Essa expropriação se dá pelo pequeno que se fez “grande”, que se diferenciou socialmente por meio de suas estratégias diversificadas. Estabelece-se, daí, um conflito no qual a estratégia do outro é a firme determinação de manter a trajetória de estabilização do tamanho da propriedade, segurar a terra. Até quando o pequeno subsistirá às pressões? Esgotadas as possibilidades de transmissão do patrimônio fundiário, a estratégia dos pais foi incentivar os filhos a saírem em busca de terra, nas novas áreas de assentamento. A reforma agrária, evitada há 30 anos, lentamente se rende à pressão dos movimentos sociais; para esses fins, duas grandes fazendas, que representam 26,55% da superfície do município, foram desapropriadas e demarcadas pelo INCRA. Na dimensão temporal do processo de colonização, um novo ciclo delineia-se. Com base na realidade dos conflitos por terra ainda presentes no campo, registrado nas manchetes dos jornais e nas câmeras de televisão, está claro que grande número de famílias rurais e os excluídos do meio urbano ainda estão em busca do sonho de terra. O clamor por reforma agrária, levado em frente pelos movimentos sociais, indica, talvez, a emergência de um novo 93 ciclo no processo de colonização, uma colonização “contra a miséria e pela vida”, ou seja, um Ciclo de Colonização pela Cidadania. Na organização do trabalho, os arranjos são vários e cada um imprime uma dinâmica diferenciada ao processo de produção. Permanece o caráter familiar, da produção, pais e filhos adultos e solteiros constituem a mão-deobra familiar organizada principalmente em torno do café e da pecuária. O que se modifica é a forma de apropriação dos rendimentos obtidos na atividade produtiva, uma vez que ocorre um processo de individualização dos membros do grupo familiar, sobretudo dos jovens, cujas atitudes individualistas acabam por imprimir uma nova dinâmica nas relações internas de organização do trabalho. Essa tendência corresponde às mudanças no comportamento produtivo humano e no sistema de organização coletiva e de princípios patriarcais fortes, como é a família, baseado na busca de obtenção da renda individual, conforme observado na sociologia econômica (MINGIONE, 1991). A pluriatividade como conjunção de atividades agrícolas e nãoagrícolas, embora não tenha sido significativa em termos quantitativos no grupo estudado, foi verificada na forma de prestação de serviços pessoais, comumente constatada em outras regiões do País. Constata-se ocorrência de uma dinâmica que evidencia uma “pluriatividade às avessas”, exercida pelos filhos que deixam a propriedade e, embora desenvolvam um trabalho assalariado em meio urbano, mantêm vínculos com a família, como proprietários de rebanho bovino e como plantadores de café a meia, que constituem atividades complementares. As estratégias de encaminhamento dos filhos foram pautadas na lógica de investimento no patrimônio fundiário e no investimento cultural. O projeto de “fazer um futuro” para os filhos, mediante formação do capital fundiário, foi orientado pelas estratégias fundiárias de estabilização - não vender, “segurar” a terra para os filhos - e de acumulação de terras, destinadas à atividade pecuária e à formação de pastagens, que, por sua vez, gera dinâmicas de negócio, como aluguel de pasto e criação de gado bovino a meia, ampliando as possibilidades de reprodução. A obtenção de terra em maior quantidade, para dar condições de reprodução à família, reflete o caráter patrimonial e patrilocal (STANEK, 1998) das estratégias que visaram à 94 manutenção dos filhos no meio rural, seja na mesma propriedade, seja em propriedade separada, mas próxima. A alternativa de investir na educação dos filhos vinculou-se à aspiração de obter um mínimo de educação formal para ele, ou seja, o suficiente para não deixá-lo analfabeto. Ao não descartar inteiramente os estudos, os pais deixaram implícita uma rejeição ao seu próprio analfabetismo ou semialfabetização. As representações da acumulação do capital cultural (educacional) apresentaram-se de forma diversificada e modificaram-se ao longo do tempo. Inicialmente, enviar os filhos para a escola significava perder mão-de-obra; e, no atual contexto de mudança nas relações de trabalho e de redução de postos de trabalho, a utilidade do estudo se perde diante da conhecida condição de falta de emprego, que desfavorece até mesmo os que estudaram. Qualquer que tenha sido o alcance das aspirações dos pais, revelou-se nessa dinâmica a falta de correspondência entre as aspirações dos pais e as trajetórias empreendidas pelos filhos, quando estes optam por traçar uma trajetória individual que rejeita a permanência na propriedade ou a continuidade dos estudos. Os estudos sobre o processo de colonização na Amazônia, de modo geral, indicaram fracasso, dada a desistência de muitos que migraram; no entanto, estudos sustentados em profundas análises econômicas sobre a região, como os de ALMEIDA (1992) e SOUZA FILHO (1996), indicam êxito no processo de colonização dirigida na fronteira amazônica. Embora este estudo não tenha visado conhecer o destino dos que deixaram a área, obteve-se dos que ficaram a visão de que a terra, mais que um patrimônio econômico, significa também um patrimônio moral, representativo de uma vitória na luta empreendida pela sobrevivência. Se, outrora, a variável identificadora do sucesso foi o acesso aos bens de consumo (LÊNA, 1991), nesse novo contexto, a visão que prevalece é sustentada, basicamente, na posse da terra, obtida às custas de um pioneirismo cujo valor é exaltado quando comparam a sua própria luta com a dos sem-terra. A percepção de insucesso está na comparação com o projeto de uma vida melhor, que, porventura, não conseguiram realizar. Na dimensão temporal em se processou a colonização agrícola de Rondônia, Nova União emergiu como um espaço social que se insere, 95 timidamente, nas características do “novo rural” (SILVA, 1999). Verifica-se uma evolução na agricultura da região e há um sistema de produção predominante no qual os produtores estão inseridos. Baseado no seu sistema produtivo e na sua forma de organização e comercialização, tem-se um produtor modernizado, ligado ao mercado, com acesso aos meios de comunicação de massa, cosmopolita e com fácil trânsito entre a realidade rural, a urbana e a rurbanizada. Tudo o que acontece no mundo chega até a fronteira por meio da televisão parabólica, unindo todos em um só Brasil. A relação com a terra e o seu uso como fonte de sobrevivência ganham outra dimensão para o agricultor, em razão das questões ligadas à preservação ambiental. A questão da sustentabilidade pode vir a ganhar força com as organizações de produtores por meio de projetos de desenvolvimento local. A opção pela pecuária deve ser acompanhada por tecnologias que permitam maior tempo de uso das pastagens e uma pecuária menos extensiva. Com base nessas constatações, conclui-se que, ao buscar formas alternativas de reprodução pela pluriatividade e pela adaptação às tendências de individualização dos filhos, o agricultor familiar busca ajustar-se a esse novo contexto de reprodução marcado pelo impacto das transformações para garantir sua permanência enquanto unidade de produção e reprodução. As diferentes estratégias de reprodução desenvolvidas pelos migrantes expressam potencialidades diferenciadas que devem ser levadas em consideração quando da elaboração de projetos de desenvolvimento rural para agricultura familiar. A busca de um caminho para o desenvolvimento futuro da Amazônia tem sido alvo da preocupação de muitos pesquisadores, contexto em que a lógica do agricultor familiar não pode deixar de ser considerada. O que aconteceu nessa região de fronteira faz parte da dinâmica geral de transformação da sociedade brasileira. Ao chegar à fronteira, o colono teve de adaptar-se às condições sociais, institucionais, ecológicas e econômicas que encontrou. Visto deste modo, a fronteira, como novo espaço gerado para a reprodução da agricultura familiar, possibilitou ao migrante realizar projetos de melhoria de vida, o que significou uma oportunidade de tentar mudar o seu destino, de realizar um sonho, o sonho da terra, valor que dados econômicos não podem quantificar. 96 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALENTEJANO, P.R.R. Pluratividade: uma noção válida para a análise da realidade agrária brasileira? In: TEDESCO, J.C. Agricultura familiar: realidades e perspectivas. Passo Fundo: EDIUPF, 1999. p. 149-175. ALMEIDA, M.W.B. Redescobrindo a família rural. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 1, n. 1, p. 66-83, 1986. ALMEIDA, A.L.O. Colonização dirigida na Amazônia. Rio de Janeiro: IPEA, 1992. 496 p. (Série IPEA, 135). BARBOSA, P.F. 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TRAJETÓRIA FUNDIÁRIA Forma de acesso à terra Situação fundiária anterior Estratégias fundiárias Projeto fundiário para o futuro 3. ADAPTAÇÃO ÀS CONDIÇÕES DA REGIÃO (ZONA DE FRAGILIDADE) Dificuldades de transporte e moradia Estratégias adaptativas Pensou em voltar, desistir? Perda de membros do grupo familiar 105 4. ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO Membros do grupo familiar residentes atualmente na propriedade Trajetória dos membros do grupo familiar Alocação dos membros da família fora do estabelecimento Atividade pruriativa Participação da renda para a propriedade 5. RELACIONAMENTO COM A COMUNIDADE Participação em organizações associativas Religião dos membros da família, freqüência e participação em atividades extras Vizinhança, parentesco e lazer coletivo 6. EDUCAÇÃO FAMILIAR Quem estudou, até que série, por que não estudou mais? Com que idade parou de estudar; se tivesse oportunidade, continuaria a estudar por mais tempo? Que meios de comunicação usam (rádio e televisão)? Quem mais assiste e o que assiste; costumam discutir os assuntos abordados nos programas e noticiários? 7. ESTRATÉGIAS DE ENCAMINHAMENTO DOS FILHOS Quais as aspirações para o futuro dos filhos? Estudar ou trabalhar a terra Correspondeu às expectativas? 8. REPRESENTAÇÕES SOBRE AS ESTRATÉGIAS EMPREENDIDAS E OS RESULTADOS ALCANÇADOS Valeu a pena ter vindo? Como percebe a trajetória de vida desenvolvida? 106 APÊNDICE B FORMULÁRIO DE SISTEMATIZAÇÃO DE INFORMAÇÕES FORMULÁRIO 1B (frente) PROJETO Estratégias reprodutivas de agricultores familiares migrantes em Nova União-RO 1. UNIDADE FAMILIAR N.o de controle: ________ (N.o Linha, Lote, Ordem) 1.1. Nome do Proprietário (ou informante) ........................................................... 1.2. Nome do cônjuge .......................................................................................... 1.3. Endereço da Propriedade: Linha ______, Lote_________, Gleba ________ 1.4. Membros da família (Quantidade) Na migração a) Filhos crianças até 12 anos b) Filhos(as) adultos solteiros(as) c) Filhos(as) casados(as) d) Agregados (tios, sobrinhos, irmãos, etc.) e) Outros 107 Moram na propriedade Ocupação Estudou(a) 2. ETAPAS MIGRATÓRIAS 2.1. Etapas migratórias do proprietário antes de chegar a Rondônia Variáveis Nascimento Etapa 1 Etapa 2 Etapa 3 Etapa 4 Ano Cidade/UF Meio urbano ou rural 2.2. Etapas migratórias em Rondônia Variáveis Chegada a RO Etapa 1 Etapa 2 Etapa 3 Ano Local Meio urbano/rural 3. TRAJETÓRIA FUNDIÁRIA 3.1. Situação fundiária anterior do proprietário, antes de entrar em RO e antes do lote atual a) Pequeno proprietário b) Meeiro c) Parceleiro d) Agregado 3.2. Forma de acesso à terra a) Compra ( ) b) Recebeu do INCRA ( ) c) Herança ( ) d) Posse ( ) e) Outros ______________ ______________ 3.3. Situação fundiária da propriedade a) Tamanho da prop. ao entrar no lote: ___ alqueires b) Retração para ___ alq. c) Estabilização ( ) 108 d) Acumulação em ___ alq. Linha 3.4. Configuração atual do lote (LO = Lote Original) Núcleo Urbano 3.5. Projeto fundiário para o futuro: ___________________________________ 4. SISTEMA DE PRODUÇÃO 4.1. ( ) Produz leite, bezerros, café e lavoura branca 4.2. ( ) Trabalha quase que exclusivamente com lavoura branca 4.3. ( ) Tem o café como principal fonte de renda, trabalha com meeiros 4.4. ( ) Outro: __________________________________________________ 5. ORGANIZAÇAO DO TRABALHO 5.1. Aposentadoria ( ) s/n 5.2. Atividade não-agrícola ( Quantidade: ______ ) s/n _________________________________ 5.3. Estratégias de encaminhamento dos filhos RURALISTA – visa fixar os filhos no campo PATRIMONIAL – objetiva conservar um ou vários filhos-homens no estabelecimento paterno PROMOÇÃO SOCIAL – Objetiva dar aos filhos formação superior, formação com status social TRADICIONALISTA – limita-se a resolver o encaminhamento das filhas pelo casamento PATRILOCALIDADE – quando os pais desejam que os filhos permaneçam no estabelecimento, mesmo que em casas separadas. EXOLOCALIDADE – quando os pais preferem que os filhos se fixem a certa distância do domicílio paterno. EXOLOCALIDADE LONGÍNQUA – aceitação de uma emigração fora do município ou da região imediata. 109 6. RELACIONAMENTO COM A COMUNIDADE: S/N 6.1. Associação ( 6.2. Parentes ( ) ) 6.2 Ccooperativa ( ) 6.3 Igreja ( ) ___________ ______________________________________________ 6.3. Lazer coletivo ________________________________________________ 7. MEIOS DE COMUNICAÇÃO 7.1. Energia há ______ anos. Prioridade na compra de eletrodoméstico _____ 7.2. Que meios de comunicação mais usam? ___________________________ 7.3 Quem mais assiste e ao que assiste _______________________________ 7.4. Costumam discutir os assuntos abordados nos programas e noticiários? S/N _______ 7.5. Assistiram alguma programa que ensina algo para o produtor rural? _______ 8. REPRESENTAÇÕES SOBRE AS ESTRATÉGIAS EMPREENDIDAS E OS RESULTADOS ALCANÇADOS 8.1. Valeu a pena? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 8.2. A que você atribui o sucesso (ou fracasso, conforme a resposta da pergunta anterior) da sua trajetória de vida? 110 FORMULÁRIO DE SISTEMATIZAÇÃO DE INFORMAÇÕES - SIMPLIFICADO FORMULÁRIO 2B (verso) PROJETO Estratégias reprodutivas de agricultores familiares migrantes em Nova União-RO 1. UNIDADE FAMILIAR N.o de controle: ________ (N.o Linha, Lote, Ordem) 1.4. Nome do Proprietário (ou informante) ........................................................... 1.5. Endereço da Propriedade: Linha ______ Lote_________ Gleba ________ 1.6. Membros da família que moram na propriedade (quantidade) a) Casal b) Filhos crianças até 12 anos c) Filhos(as) casados(as) d) Filhos(as) adultos solteiros(as) e) Agregados (tios, sobrinhos, irmãos, etc.) f) Outros 2. ETAPAS MIGRATÓRIAS 2.3. Etapas migratórias do proprietário antes de chegar a Rondônia Variáveis Nascimento Etapa 1 Etapa 2 Etapa 3 Etapa 4 Etapa 5 Ano Cidade/UF Meio urbano ou rural 2.4. Etapas migratórias em Rondônia Variáveis Chegada em RO Ano Local/município Meio urbano/rural 111 Etapa 1 Etapa 2 Etapa 3 3. TRAJETÓRIA FUNDIÁRIA 3.1. Situação fundiária anterior do proprietário a) Pequeno proprietário b) Meeiro c) Parceleiro d) Agregado 3.2. Forma de acesso à terra a) Compra ( ) b) Recebeu do INCRA ( ) c) Herança ( ) d) Posse ( ) e) Outros ______________ ______________ 3.3. Situação fundiária da propriedade a) Tamanho da prop. ao entrar no lote: ___ alqueires b) Retração para ___ alq. c) Estabilização ( ) d) Acumulação em ___ alq. Linha 3.4. Configuração atual do lote (LO = Lote Original) Núcleo Urbano 4. SISTEMA DE PRODUÇÃO 4.1. ( ) Produz leite, bezerros, café e lavoura branca 4.2. ( ) Trabalha quase que exclusivamente com lavoura branca 4.3. ( ) Tem o café como principal fonte de renda, trabalha com meeiros 4.4. ( ) Outro: __________________________________________________ 112 APÊNDICE C o o o N. Lote N. do entrevistado - anos na propriedade tamanho da área (hectares) N. Lote N. do entrevistado - anos na propriedade tamanho da área (hectares) 54 52 50 S 12 – 12 a – 96 ha 48 o 46 S04 - 11 a - 29 ha 43 41 39 37 32 - 23 a - 96 ha 32 - 23 a - 96 ha 32 - 23 a - 96 ha - 17 a - 48 ha 48 - 20 a - 48 ha 48 - 20 a - 24 ha 29 - 21 a – 24 ha 30 - 21 a - 96 ha 31 – 21 a – 96 h - 23 a - 96 ha 33 - 21 a – 96 ha 44 42 40 38 35 35 - 21 a - 96 ha 36 16-18- 67 h 14 a - 96 ha 32 - 23 a - 96 ha 34 - 24 a – 96 ha 39 - 18 a - 96 ha 53 51 49 47 45 23 41 - 19 a – 96 ha 24 21 22 19 20 17 44 – 23 a – 96 ha 18 15 - 96 ha 16 13 - 96 ha 14 31 09 49 – 20 a - 48 ha 49 – 20 a - 48 ha 07 - 12 a - 96 ha 11 05 03 01 - 20 a – 48 ha - 48 ha 8 - 19 a - 96 ha 2 – 18 a – 10 ha LEGENDA: Ocupante de origem ou herdeiro Ocupante novato Lote acumulado Linha 40 29 27 25 36- 21 a - 50 ha - 46 ha 11 - 23 a - 48 ha - 48 ha 38 - 21 a - 96 ha - 21 a - 96 ha 40 - 23 a - 96 ha 33 34 35 - 21 a - 96 ha 32 - 14 a - 96 ha 30 28 26 12 10 08 06 04 02 48 ha a – 48ha 42 - 20 a – 48 ha 43 - 21 a – 65 ha 45 – 23 a - 48 ha 23-20-96 ha - 11 a - 96 ha 3 - 21 a - 72 ha Laticinio 7 – 19 a – 61 ha 50 – 24 a – 92 ha Ocupante de origem + ocupante novato Lote adquirido por familiares de migrantes Lote transformado em chácaras Lote de entrevistado Fonte: Dados da pesquisa de campo (outubro 1999). Figura 1C - Configuração e ocupação dos lotes da Linha 40 - Nova União-RO. 113 o o o N. do Lote N. do entrevistado - anos na propriedade tamanho da área (hectares) N. do Lote 53 15 - 2 1 a - 48 ha 54 51 14 - 21 a - 96 ha 52 47 01 - 24 a - 24 ha 10 - 21 a – 95 ha 45 43 41 39 37 35 33 31 48 46 5 a - 60 ha 5 a - 36 ha herdeiro S3 - 11 a – 48 ha S2 - 23 a - 72 ha - 24 ha - 53 ha S9 – 12 a – 24 ha – 19 ha 06- 21 a - 84 ha - 3 a - 12 ha 11 - 23 a - 48 ha - 36 ha - 12 ha 29 21 – 20 a - 96 ha 27 25 S 10 - 17 a - 96 ha S6 - 8 a - 96 ha - 92 ha S6 - 8 a - 4 ha 23 50 44 Linha 44 49 o N. do entrevistado - anos na propriedade tamanho da área (hectares) herdeiro S4 - 11 a - 29 ha 16 – 18 a – 72 ha 16-18- 67 ha 29 ha 42 14 a - 96 ha 40 04 - 19 a – 96 ha 38 05-16-48ha - 48 ha 36 S9 - 12 a - 96 ha 34 S9 - 12 a - 96 ha 32 - 7 a - 96 ha 30 28 26 24 12 - 21 a - 48 ha 17- 20 a - 92 ha S6 - 8 a – 96 ha 13-21-48 ha S6 - 8 a – 48ha 21 22 22 a - 96 ha 19 20 19 - 22 a - 96 ha 22 - 20 a – 48 ha 18-21- 72 ha - 24 ha 23- 20 a – 96 ha 24 – 20 a – 56,5 ha - 39,5 ha 17 18 15 20 - 21 a - 96 ha 16 13 25 – 19 a – 48 ha 26 – 19 a – 48 ha 28 – 22 a – 48 ha 14 11 09 07 05 03 01 12 10 - 12 a - 96 ha 08 - 10 a – 48 ha - 48 ha - 24 ha 52 – 16 a – 72 ha 51 – 19 a – 96 ha LEGENDA: Ocupante de origem ou herdeiro Ocupante novato Lote acumulado 27- 21 a - 72 ha 06 28 – 22 a – 96 ha 04 – 22 a – 96 ha 02 Ocupante de origem + ocupante novato Lote adquirido por familiares de migrantes Lote transformado em chácaras Lote de entrevistado Fonte: Dados da pesquisa de campo (outubro 1999). Figura 2C - Configuração e ocupação dos lotes da Linha 44 - Nova União-RO. 114 APÊNDICE D Tabela 1D - Relação dos chefes de famílias com seu local de nascimento e relações de parentesco nas Linhas 40 e 44 Local de nascimento ACUMULAÇÃO Parentesco Antonio Damasceno Ribeiro Nivaldo Lopes de Souza Manoel Amancio de Souza Izaltino chaves da Cruz João Pereira da Silva José Torres de Amorim Sebastião Imídio da Silva Matim Antonio da Silva Abiner Alves de Souza Daniel Leite de Oliveira Marcos Evangelista Arnaldo Figueira Sodré Antônio Dias da Silva NT Irmão Irmão (2) Filhos Filhos Irmãos (2) Cunhada Irmão (1) Irmão e Cunhado Sogro e Cunhados NT Irmã e Cunhado Cunhado (1) AL BA BA ES-Afonso Claúdio MG MG-Alvarenga MG -Conselheiro Pena MG -Conselheiro Pena MG -Conselheiro Pena MG -Conselheiro Pena MG-Ipanema PR - Campo Mourão SP- ESTABILIZAÇÃO Nome do proprietário João Pereira dos Santos Sebastião Assis de Andrade Adão Firmino Wanthuil Tomás Antônio Gomes dos Santos Pedro Viana de Souza Serafim de Carvalho Wilson José Pereira Merquiades Perpetuo João Fernandes dos Santos Belmiro Floriano da Silva Deusdécio Andrade sogro Genros (2) Cunhados (2) Irmãos (2) NT Sobrinho Filhos e Irmã Irmão e Cunhado Cunhado Genro NT Filhos BA ES -Cachoeiro do Rio Pardo MG MG MG MG -Caratinga MG -Conselheiro Pena MG -Conselheiro Pena MG -Resplendor MG -Sto Antonio do Jacinto MS SE -Monte Alegre RETRAÇÃO Trajetória fundiária Antônio Santos Fonseca Antonio José Gama Waldomiro Gomes dos Santos Pedro Ramos Benedito Vital da Rocha Joel Tomás de Souza Manoel Verdan João Luiz da Costa João Thomas Eva C. da Rocha Enedina do Amaral Maria Pereira de Amorim José(Derneval) da Silva Sidney Iorque de Souza José Candido da Silva Alcides de Souza Ernestino Rodrigues da Silva Antonio Francisco de Souza Antônio Leonardo Daniel Pedrosa José Batista Luiz Bento de Lima João Maia Nair Cecilia Theis Dolvina de Lorenzi José Soares de Mato Antonio Calandré Irmãos NT NT Irmão (2) Cunhado NT NT Cunhada Irmãos (2) NT NT Irmãos (2) Irmã Irmão Irmão (1) NT Genros genro NT Mãe e Irmãos Genro NT NT cunhado e genro Filhos NT Filhos e Genros BA BA BA BA - Macarani BA -Biratinga ES ES MG MG MG MG - S.Manuel de Mutum MG-Alvarenga MG -Conselheiro Pena MG -Conselheiro Pena MG -Conselheiro Pena MG -Gouveia MG -Jacinto MG -Monte Azul MG -Santo Esteves MG -São Jose do ... MT -Dourados RN -São Miguel RS -Aratiba RS -São Luiz Gonzaga SC SE SP Fonte: Dados da pesquisa (outubro de 1999). NT = não tem. 115 APÊNDICE E PADRÃO DIFERENCIADO DE HABITAÇÃO NA LINHA 44 Figura 1E - Moradia do tipo 1, na Linha 44, trajetória de retração. 116 Figura 2E - Moradia do tipo 4, na Linha 44, trajetória de retração. 117