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PROGRAMA DE ESTUDOS DO PORTUGUÊS POPULAR FALADO DE SALVADOR – PEPP
INQ Nº 07 – MULHER – idade: 53 anos – Escolaridade: 2 grau
DOCUMENTADORES: Constância Souza e Norma Lopes
DATA: 26/09/1998
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Eu sou professora aposentada, trabalhei vinte e cinco anos, sou daqui de Salvador,
trabalhei como professora regente, como coordenadora, meus pais também são
daqui de Salvador.
DOC: Tá bom...., eu gostaria que de começar a conversa, eh ... como nós combinamos, a
respeito da educação antigamente, e, a sua opinião em relação a sua família, e o que
você fez de lá pra cá.
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Você quer saber exatamente ... como foi meu tipo de educa...
DOC: Como foi sua educação.
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Em termos de instrução, ou em termos?
DOC: De instrução...
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Geral?
DOC: E de orientação também familiar.
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A orientação familiar pra mim foi a melhor possível, eu fui criada pela minha avó
paterna porque eu perdi minha mãe com quatro meses e ela era uma pessoa antiga,
muito rígida, e muito disciplinada, então passou pra mim aqueles hábitos
preliminares que uma criança precisa ter depois, adiante continuou, aqueles hábitos
de higiene, aquela maneira de educar de antigamente, de respeitar as pessoas mais
velhas, de saber entrar e sair dos lugares, e, depois, em termos de instrução também,
ela me acompanhou bastante, eu tive toda orientação possível que uma criança pode
ter, apesar de não ter sido criada pelos meus pais. Então ela foi assim fabulosa pra
mim, me orientou em todos os sentidos, agora houve, vou fazer uma ressalva aí,
houve um tabu em termos de sexo, pelo fato de ser da ... da, com uma educação
antiga...
DOC: Mais velha.
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Então não se falava isso dentro de casa, essas coisas eu fui descobrindo por mim
mesma. Agora em outras, em outros setores, tudo que eu podia ser orientada eu fui.
Então eu tenho aquele hábito ainda de chamar as pessoas mais velhas de “senhor”,
de “senhora”, de, de cumprimentar as pessoas em qualquer lugar que eu esteja, se eu
entro num, num elevador eu dou “bom dia” ao ascensorista, eu saio agradeço,
porque eu fui criada assim, a me comportar bem nos lugares, ir a um aniversário,
não pedir nada, não rondar a mesa, essas coisas que criança recebe de casa.
DOC: E você criada com sua avó, existiam outras crianças na casa?
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Não, eu era sozinha.
DOC: E isso você acha que atrapalhou ou facilitou pra você?
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Bom, teve uma época que eu sentia falta, eu acho que na fase mesmo de infância, eu
sentia falta, falta de uma companhia, mas eu era, eu acho, achava que eu era criativa,
eu brincava, eu inventava, sempre brinquei muito sozinha, não sentia tanta falta
assim não. Brinquei muito...
DOC: Você era, você era muito levada?
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Não, pelo que falam não, eu era sossegada até, agora gostava de brincar, de criar
meus brinquedos, apreciava muito, eh ... não sei se é porque na época era o que se
usava, não existia televisão, existia rádio, então eu criava programa de auditório, eu
mesma, me colocava no lugar do ... do...
DOC: Você fazia...
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Do animador, do artista, do público...
DOC: Ah, então era isso, você fazia várias funções.
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É, exatamente, eu gostava muito de brincar assim, muito mesmo ... ou então de...
DOC: Lembra-se de alguma ... alguma coisa peculiar, alguma história de infância, alguma
brincadeira?
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Ah, agora, lembro quando estava maiorzinha aqui no... no, quando eu morava no
largo do Papagaio eu tinha umas amiguinhas de rua né, umas vizinhas, então nós
brincávamos muito de macaquinho, à tarde, e brin ... brincava de roda mesmo, de
cantiga de roda, participei também pequena, embora um período pequeno, curto da,
do, A hora da criança, professor Adroaldo, e ali eu participei de uma peça,
Narizinho, isso aí eu me lembro bem com muita recor..., eu tenho uma recordação
boa dessa época da hora da criança, que nós íamos ensaiar no passeio público com o
maestro Agenor Gomes, e, dia de ... dia de domingo tinha um programa de rádio, na
rádio Sociedade às dez horas, que era o programa da Hora da Criança, então nós
ensaiávamos no sábado, no domingo nós nos apresentávamos e cantávamos, era
uma programação totalmente infantil mesmo. Então nós escolhíamos as músicas,
nos sentíamos, nos sentíamos assim ... importantes porque...
DOC: Artistas né?
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Crianças assim, eh, de sete, oito anos, chegava junto do maestro, ele acompanhava
no piano e a gente vinha com aquele vozinha mesmo de criança, e ele ia tirando os
acordes, as notas dali, os arranjos, ele mesmo fazia em cima da vozinha da criança.
Então aquilo pra mim foi muito importante, até hoje eu recordo com ... com
felicidade aquele tempo de, que eu fui, pertencia a Hora da Criança, e, pena que
infelizmente a coisa não, seguiu com a morte dele...
DOC: Acabou com a morte dele...
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Não acabou propriamente, muitas pessoas antigas ainda querem continuar mas não
tem mais aquele ... e também não encontram muito apoio das autoridades, .que
poderiam ... depois de muitos anos que ele sonhou, a sede agora que conseguiu a ...
ser a sede ali, acho que é no Candeal se não me engano, a sede, o teatrinho sede que
ele, naquele tempo nosso não existia. Nós íamos ensaiar, como eu estou dizendo, ou
no Passeio Público, ou então no próprio tea ... eh, colégio Ana, naquele tempo
Instituto Normal, no Barbalho.
DOC: O ICEIA.
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E as peças eram apresentadas ali também. Eu só participei de uma peça, que foi a
Menina do Narizinho Arrebitado né, baseado numa, num livro de Monteiro Lobato,
mas houve outras peças que ele criou, “Enquanto nós cantarmos” ... Esse “Enquanto
nós cantamos” foi uma peça que ele se baseou num trecho do Hino da Hora da
Criança, que termina “enquanto nós cantarmos haverá Brasil”.
DOC: Cantarmos haverá Brasil...
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Então ele fez esse peça, tem “Monetinho” também, foi outra peça que ele fez, aquela
... essa, isso aí é o que me recorda, é uma recordação muito boa que eu tenho mesmo
de minha infância, foi uma coisa muito especial de minha vida, muito especial
mesmo. Fora que eu fui uma pessoa que, hoje eu estou até mais tímida, mas na
época de infância e adolescência eu era assim muito ... gosta ... desinibida, eu
gostava de participar de tudo que tinha na escola, já participei de draminhas, de
teatrinhos na escola, de ... dança.
DOC: Então você foi uma criança muito ativa, né, nesse aspecto?
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Nesse ponto eu tinha assim um, um donzinho artístico, você ver até, até que eu tive
vontade de fazer teatro, eu gostava, eu sou muito chegada a arte, aprecio,
apreciadora de arte, na realidade eu não sou, não trabalho com arte, mas eu aprecio,
aprecio demais.
DOC: Alguma dessas coisas você tentou passar para os seus filhos?
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Eu creio que sim, que influenciei ... influenciei de certa forma, que eu tenho uma
filha que gosta muito de, de dançar, e tenho uma que, elas já participaram também
de coral de igreja, e eu influenciei pra que elas participassem, entendeu? E elas
também faziam parte nas escolas delas também dessas coisas, porque eu
influenciava demais, eu não consegui influenciar o menor, o mais jovem, o caçula
porque ele realmente é tímido demais e não gostava mesmo, então não adiantava
obrigar, mas as meninas gostavam, participavam de tudo também... Depois que a
gente vai ficando velha, vai, vai aquietando.
DOC: Sua adoles ... adolescência você ainda continuou com esse comportamento?
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Continuei, muito, eu tive uma adolescência assim muito fantasiosa, muito sonhadora
... eu lia muito José de Alencar, e aí eu ficava ... eu sonhava, eu era muito romântica,
e criava muitas coisas, e tinha vontade, vontade de fazer e acontecer, tive muitos
sonhos. Foi uma, um adolescência, assim, felizmente sonhadora mesmo, natura ...
normal, uma, uma adolescência normal, paquerei, passeei ...
DOC: Comparando a ... comparando a sua adolescência com a dos seus filhos você viu que
diferença em relação a educação, esse...
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Ah demais, vi, vi, vi porque minha, eu tinha uma educação limitada, entendeu,
porque inclusive minha avó, por ela ter me criado, ela ficava assim dividida, cheia
de conflito, ela dizia o seguinte, que se ela me soltasse demais poderia parecer que
ela não estava dando importância a mim, e se ela me prendesse demais também ia
parecer que ela estava me maltratando. Então ela dava certos limites por exemplo,
em relação a coisas na escola, divertimentos na escola, ou locais próximos, ou se eu
tivesse acompanhada de uma pessoa mais velha de responsabilidade ela deixava.
Mas nem tudo ela permitia. Por exemplo, nessa fase minha de adolescência o point
era o o chá das cinco das Duas Américas na Rua Chile. Então as moças naquela
época costumavam ir muito, e essa moça que é minha amiga, minha comadre, ia
sempre e a turma de colegas e sempre chamavam pra eu ... acompanhar e minha avó
nunca permitiu que eu fosse, não, não estava certo, ela não ia me deixar solta, se
tivesse uma pessoa de responsabilidade, uma tia das meninas por exemplo. Então eu
não tinha essa liberdade, eu saía muito assim com um adulto me acompanhando, ia
assim pra o, pra o Fantoches, naquela época que o clube Fantoches era um clube
que, muito freqüentado por famílias, meus tios faziam parte, então me levavam, eu
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ia pra essas, aquelas festinhas dançantes, fora isso tinha que ser assim, festa familiar,
que se usava muito naquela época. Por exemplo, tinha um São João, o aniversário de
alguém, se fazia uma festinha dançante em casa. Então eu ia, dançava, ali mas
sabendo que tinha uma pessoa de responsabilidade pra me levar, me ... retornar pra
casa, nunca ia assim sozinha com um grupinho. Já minhas filhas já tiveram mais
liberdade, de sair, de pa..., de ir com turma pra viajar, de ir pra ilha, essas coisas
todas, que eu não fiz. Houve diferença sim...
DOC: Sem a presença de um mais velho.
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Exatamente.
DOC: Hum ... Oh......., você compara essa educação que você teve com a que hoje se dá as
crianças? O que é que você acha?
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Olhe, eu sou meio careta, viu? Pra ser bem sincera eu acho que não deve ter tanto
tabu como teve na minha época, porém eu acho também que não se deve largar o
filho em demasia, inclusive eu acho que essa coisa dessa, de se deixar filho fazer o
que quer, é que vêm acontecendo assim muitos problemas, meninos às vezes se
desviando pra outros lados, de drogas essas coisas todas, eu acho que deveria existir
um meio termo, entendeu? Uma educação vigiada, orientada, tipo assim: um filho
quer ir para uma festa, não houve isso com os meus filhos, eu não vou dizer que
houve, porque não houve, mas deveria ser assim, o filho quer ir para uma festa,
deixe ir com os amigos, agora o pai marca uma hora para ir buscar. Deveria, eu acho
que deveria ser assim, não deixá-los também totalmente soltos: “Ah, tem uma ...um
fim de semana na casa de um amigo”, vai e não sabe o que é que está acontecendo
nesse, na casa desse amigo. E eu já vi muitos casos desagradáveis acontecerem de
pais até, os donos da casa se retirarem da casa, deixarem a casa entregue aos filhos,
e ali a festa degringolou toda, então eu acho que deveria existir um, um, existir um
meio termo, nem tão rígida como foi na minha época, nem também essa soltura que
está demais hoje, está muito braba mesmo. Eu ...Como está funcionando essa coisa
hoje eu não estou, não estou gostando não, de jeito nenhum. Essa psicologia
moderna, que eu sei, que eu sou professora, mas, até, até ... do criar, a maneira de
criar a criança, desde pequena, como, permitir tudo ... Não, porque permitir tudo?
Eu acho que deve se impor limites à criança sim, porque é de criança que faz o
adulto. Essa coisa de, a, a criança tem seus brinquedos, tem seu espaço, porque bulir
com o aparelho de televisão, porque estar, tá, tá mexendo num, num aparelho que
custou caro pro pai ter, com sacrifício, “Ah por que não vou dizer não ao meu filho”
Não, a gente tem que entender, o filho tem que entender o não porque ele vai
receber muitos nãos na vida, essa coisa de ser tudo permitido não, isso eu também
não aceito, nem de, nem oito nem oitenta. É como eu estou dizendo, permitir
determinadas coisas, agora estar por trás olhando, vai lá ver como é a festa que o
filho está freqüentando, se os pais estão em casa, como é, chega de surpresa pra ver
como a coisa está funcionando.
DOC: Tem que ter então algumas estratégias.
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É, exatamente, eu acho assim, agora também eh, anular a, o adolescente, a criança,
de fazer as coisas, também não, é impossível, porque aí também vai se transformar
numa criança revoltada do mesmo jeito, entendeu? Agora essa soltura que está hoje,
essa libertinagem...
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DOC: Não é muito boa...
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Não, essa coisa de não saber onde o filho está andando, “Ah não sei, ele saiu tal dia
não chegou em casa ainda”, isso eu não aceito mesmo, isso aí é uma coisa que vem
mesmo da ... do meu tipo de educação. Eu tenho uma filha que mora comigo, já é
uma mulher adulta e ela até por educação, até pra me deixar tranqüila ela ... ela se
tiver de sair e não voltar ela me diz, “Olhe não me aguarde não, porque eu não vou
voltar”, se dá uma satisfação, eu saio e dou uma satisfação a ela, essa coisa de
menino adolescente sair sem saber pra onde é que foi, não acho certo.
DOC: Queria retornar um pouco a questão da escola, a questão da educação, alguma
lembrança de escola, professor ...
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Ah, tenho ótimas lembranças, tenho muito boas lembranças, eu, principalmente de
uma professora minha de português, porque é a matéria que eu sempre gostei. Eu era
assim muito curiosa, gostava muito de estudar português e ainda gosto, ainda me
prendo a muitas gramáticas pra saber o que é que está modificando, então eu tinha
uma professora, professora Letícia Brito, que eu estudei em escola de freiras não é?
Estudei até o curso primário e o ginásio todo no Santa Bernadete que nem existe
mais hoje né, ele foi extinguido, e hoje em dia funciona, é o colégio estadual Costa e
Silva, que as, as irmãs franciscanas venderam ... estavam em falência...
DOC: Aqui na Cidade Baixa ...
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É, na largo da Madragoa, então elas venderam essa, essa escola para o estado, e hoje
funciona o Costa e Silva. Então eu estudei lá, e ali era uma verdadeira família, os
professores da gente não estavam sempre mudando não, eram os mesmos, quase,
eram professores antigos na escola, eram professores de concei..., conceituados
entendeu, e que a gente tinha assim mais como amigos mesmo do que como
professor, eles, eles tinham cuidado conosco e, e tinha, quando o aluno gostava de
estudar e se interessava, ele se chegava mais, ele terminava por exemplo uma aula
ele se, não se preocupava de perder tempo com aluno, se o aluno fosse buscá-lo pra
se informar mais. Então essa professora minha de português era assim notável, eu
adorava ela, e aprendi muita coisa com ela, aprendi mesmo, inclusive na época pra
uma menina de, de treze, catorze anos, ela abriu, ela deu o livro de Camões pra eu
ler, (risos) e procurar interpretar, foi um desafio pra mim, pela minha idade,
entendeu, que aquela linguagem toda indireta, e ela mandava analisar, e ela, e
daquela coisa, daquele texto ela retirava eh ... pedaços né, períodos pra gente
analisar aquela linguagem indireta e tudo, e aquela coisa eu gostava demais, quanto
mais era difícil a, a explicação mais eu me interessava. Fora ela tem outros
professores também que eu gostei muito, a minha professora de francês, meu
professor de latim, com aquelas declinações, tudo isso são boas recordações que eu
tenho. Não, tenho muito boas recordações do tempo de minha vida, de minha vida
estudantil, sempre, muito boas mesmo. Acho que aprendi muito e sinceramente eu
não tive ... não fiz o curso superior, me falta determinados conhecimentos, mas
muita coisa ficou do meu tempo de ginásio, que até hoje permaneceu em mim, das
coisas que eu aprendi em ginásio.
DOC: É permaneceram como lembranças boas.
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Lembranças boas, eu acho que minha instrução foi fabulosa, eu gostei muito
mesmo.
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DOC: Comparando essa situação que você lembra com tantos detalhes, em relação aso seus
filhos, você, essa educação (inint) do mesmo tipo?
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Em termos de instrução?
DOC: De instrução.
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Ficou a desejar. Eh ... meus filhos já fizeram parte, devido a minha situação
financeira, de uma nova realidade, de uma outra realidade. Eles não puderam estudar
em escola particular, só no curso primário. Ginásio eles estudaram em escola
estadual. Então eu já comecei a sentir muitas falhas na educação deles, inclusive de
professores não aparecerem na escola, de levarem o ano todo e no final do ano
aparecer um professor pra fazer uma provinha e dar como passado, que eu reprovo
muito essa coisa de ... dessa nova lei do MEC de aprovar todo mundo, por quê? Por
que isso? Eu ... eu acho que isso gera sabe o quê? Uma incompetência futura, e acho
que tem ... como tem muitos bons profissionais por, eu acho que esses bons
profissionais são porque eles se dedicam por si próprio, por si próprios porque se for
pela ... pelo colégio eu acho que não, não está valendo a pena, acho que eles não,
não têm muito interesse, os professores estão muito desestimulados, os alunos ainda
mais, os pais não cobram, acho muita falha mesmo, muita falha na educação de
hoje, em termos de instrução. Acho que os meninos não aprenderam aquilo que eu
aprendi, desconhecem muita coisa, acredito até que tem professores esforçados, que
tentam fazer alguma coisa, mas no âmbito geral estou achando assim muito
fracassada a educação, viu? Muito fracassada mesmo, e comparo mesmo, e digo:
“Aí oh, está vendo, eh, vejo um aluno hoje de segundo grau pra ... se preparando pra
o vestibular e ignorando certos vocábulos”, eu digo: “olhe aí oh eu não fiz curso
superior não, mas eu sei o que significa isso porque eu aprendi isso no primário,
aprendi isso no ginásio”, e hoje vai passando, passando, quando os alunos não
podem ser reprovados, por que? que trauma vai causar? um aluno ser reprovado? Eu
acho que ele tem que ser reprovado pra ele amadurecer e ele procurar estudar mais
sim, como é que vai se passar uma pessoa que não tem conhecimento nenhum, e vai
passando, e vai passando, e ele chega a uma faculdade assim, e por sorte ele passa
num vestibular objetivo, porque assinalou certo, e aí como é que fica?
DOC: Esse estímulo à leitura que você teve foi muito mais de sua avó ou da escola?
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Das duas partes, foi eu encontrei também, é isso que eu estou dizendo não tem
estímulo em casa, que hoje eu não vejo os pais chegarem junto não. Eu estou
falando de uma forma geral, eu sei que ainda tem pais preocupados de cobrarem dos
filhos, de comprarem livros pros filhos, mas de uma ma, modo geral eles não estão
nem aí pra saber se o filho está lendo se não está lendo, não conversam, não
dialogam com o filho sobre determinado livro. Até hoje, eu já estou velha eu leio
um livro vou comentar, depois com um filho aquele livro que eu li, eu estimulo o
filho, mesmo eles adultos a ler aquele livro. Aconteceu agora recentemente, eh, meu
filho comprou comigo, junto comigo ... um livro, O Código da Bíblia, e ele leu, eu
disse olhe, assim que você acabar eu quero ler, estou muito interessada em ler. Ele
me emprestou, eu li, liguei pra ele, pedi que ele viesse aqui em casa porque eu tinha
umas dúvidas e eu queria tirar com ele a respeito dessas dúvidas do livro, eu queria
mostrar o meu ponto de vista, o que é que ele achava, o que é que eu achava, então
os pais não fazem isso hoje, não querem ter esse cuidado, não, não querem se
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preocupar, a verdade é que não querem se preocupar. Tem suas exceções, é claro, eu
sei que tem aqueles que chegam junto mesmo, inclusive eu conheço mães que ... não
cobram assim diretamente, mas sentam, fa ... são profissionais, professoras, elas
sentam também pra estudar aquele determinado horário, pra o filho sentir que ela
tem um horário pra estudar e ele vai também e já ... pegou o hábito. Mas hoje em dia
... eu não vejo, acho que os próprios pais dizem que não têm tempo, talvez seja até
... o modernismo do mundo né, que não está dando tempo, dando tempo pras
pessoas lerem, sei lá, não sei, mas os pais realmente não estão ajudando muito não.
Porque quando os pais ajudam, eu vou falar pelo seguinte, porque, como eu estou
lhe dizendo, na minha época, a época de meus filhos de escola já foi diferente da
minha, mas eu cobrava em casa, por exemplo, aí quando eles mantinham
determinadas aulas, em casa eu completava pra eles, se eles vinham com uma (inint)
determinada, com um determinado assunto dado como explicado e que eu sentia que
estava faltando coisa, eu complementava, entendeu, eu ia junto ... eu ia pra o
professor perguntar, investigar, saber vida de filho...
DOC: Acompanhava na escola.
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Acompanhava mesmo, acompanhava. Então se existia falhas eu passava pra eles, eu
passava muita coisa minha, eu não me limitava àquela liçãozinha da escola que eles
traziam não, eu sempre ampliava mais alguma coisa, é por isso que eu digo, em
parte os pais são responsáveis sim, porque se eles têm conhecimento pra ampliar ...
A gente já sabe que isso aí a gente não vai poder mudar, como é que está a, a ...
escola, o funcionamento das escolas a gente não pode mudar muita coisa, mas o pai
em casa pode sim, de certa forma eu acho que os pais precisam mais chegar junto.
DOC: E a televisão de alguma forma contribui?
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Olhe, a televisão, ao meu ver, é mais nociva, é mais nociva, apesar de ter coisas que
interessem, mas a televisão passa o quê? apologia, pode deixar que atende, minha
filha está lá dentro ...estudando, ela atende, pra não atrapalhar, eh ... apologia ao
sexo, à violência, você acha que isso realmente é um bom exemplo pro adolescente
de hoje? Ao vício, você liga a televisão, os, os filmes que você vê, é raro você vê,
por isso que eu disse a você no início da conversa, eu quase que não assisto
televisão. Se é um filme interessante, eu fico, mas pra ver o quê? violência,
assassinato, sexo, droga ... Não que eu não ache o sexo importante, não tenho nada
contra o sexo não, acho importantíssimo, agora, não dessa forma que eles ... eles
estão vulgarizando tudo demais. Então o menino acha que é só importante isso,
então o que é que eu estou sentindo hoje no adolescente é como, eu não goste nem
de generalizar assim, mas eu estou sentindo uma adolescência assim né, uma
juventude assim... descomprometida, alienada. É Coca Cola e shopping, eles não
têm, os adolescentes do nosso tempo já tinha aquela coisa de idéias políticas, de
brigar pela, pela aquela coisa que, pela aquele ideal, pela aquele, aquela idéia que ele
tinha, já existia aquela coisa de, de dizer a esquerda, a direita, a ... a política estava
certa, se discutia isso, se discutia os fatos que estavam acontecendo no mundo. Eu
me lembro bem de um fato, você me perguntou sobre escola de coisas assim
inéditas, eu tinha uma professora de matemática muito rigorosa, professora Carmem
Galvão. E ela não admitia o mínimo de barulho durante a explicação dela, durante a
aula dela. E foi uma época que estava uma polêmica muito grande no mundo por
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causa da condenação de um, um, um cara nos Estados Unidos chamado ..., que foi
considerado o ... o bandido da luz vermelha...
DOC: O bandido da luz vermelha (superp)
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E, eu, e ele ia ser condenado a cadeira elétrica, e as pessoas estavam muito
envolvidas, e o Papa pedindo por ele, outras pessoas pedindo, porque ele ... ele
tentou provar a inocência dele, aquela coisa, criou aquela polêmica muito grande, e
do...
DOC Estudou na cadeia ...
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Foi exatamente, então esse assunto foi, era falado na escola, então eu me lembro
bem que no dia da execução desse, desse rapaz, nós estávamos na maior barulheira
dentro da sala de aula, naquela confusão, o que é se achava, cada um opinando,
porque não é, “porque não se pode condenar assim”, “eu não sou a favor da, da pena
de morte”, “eu sou”, “não sei que”. Quando nós estávamos naquela auge da
polêmica, a professora de mate, de matemática entra e ninguém se tocou pra entrada
dela na sala. E aí eu me lembro de um fato curioso ela meteu a régua na cadeira,
vamos acabar com essa histeria coletiva, foi um fato também interessante entendeu
... Mas porque, porque os jovens naquele tempo se ligavam nesse tipo de coisa...
DOC: Mas acabaram? (superp)
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Oh, fomos obrigados a acabar ou então ia ser suspensão mesmo. Então o povo se
ligava, o povo se ligava quando Juscelino tentou eh ... criar Brasília, e que realmente
conseguiu fundar, mudar a capital, tudo isso se, se lia, se falava, se comentava, e eu
não vejo isso na juventude de hoje. Não vejo eles se preocuparem assim com o que
está acontecendo, com o problema econômico do país, com a dívida externa, eles
não se preocupam com nada disso, eu vejo muita diferença.
DOC: Política não faz parte...
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Não faz parte dessa juventude de hoje, de jeito nenhum, nada. Eu acho que nada faz
parte, somente o que está rolando de moda, calça jeans de marca, o ... o Mc
Donald's, se fez um lanchezinho novo, já apresentou (inint) é assim que eu vejo,
viu?
DOC: Mas é um pouco por aí mesmo ...
07 - Eu tenho adolescentes na família e estou observando é isso, um, um to ... um total
desinteresse...
DOC: Sobrinhos?
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Primos, primos de segundo grau, sobrinhos também, sei que não gostam de estudar,
não tem vontade quando se fala em ler, ah eu não gosto de ler, eu não suporto ler.
Tenho parente assim de ... de querer saber até uma fofoca de artista, e a, a gente
dizer assim, pegue uma revista ali, ah não, conte pra mim, não estou a fim de ler
não, tenho muita preguiça.
DOC: ..., será que ... faltou um pouco de castigo pra botar esse pessoal pra estudar antes, o
que você acha dos castigos na educação, você já foi castigada?
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Não, não porque no meu tempo não existia mais esses castigos assim tipo
palmatória, ajoelhar em milho, não existia isso não. Eh, os castigos que se dava
eram aqueles de se privar a gente de alguma coisa se a gente saísse da linha, eu não
quero tirar uma de boazinha não, mas eu fui uma criança, eu acho que eu estou
rebelde agora depois de velha, mas eu acho que eu fui uma criança, uma jovem
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assim muito acomodada, porque eu, eu não recebi castigos assim, porque também eu
não procurava sair da linha, eu andava muito, procurava andar muito direitinha em
termos de, nunca também era temor, porque a própria educação que eu recebi ... não,
não dava pra aprontar, como se diz hoje, não, fazer coisas assim que precisasse
receber castigo não.
DOC: E seus filhos, você castigou alguma vez?
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Já, já, aí, também eles não foram tão rebeldes assim, mas como a coisa já estava
mais mudada, eu com medo que eles recebessem reflexos da ... da coisa eu aí
comecei a apertar mais, e pressionar mais, mas também não foi coisas graves, não
foram coisas graves, que eu me lembre não foram graves não, porque pelo que eu
posso dizer aqui é eles tiveram até exemplos, muitos exemplos de drogas, que onde
eles estudavam eles conviviam com isso diariamente, de colegas sentarem junto
deles fumando maconha e oferecerem a eles, e eles não aceitarem, nunca brigaram
com o colega não. “Não, não faz minha cabeça, continue na sua, tudo bem, se você
acha que deve continuar, continue, mas não vamos ficar inimigos por isso” e eles, se
criaram se dando com essas pessoas, e se dão até hoje e respeitando o
comportamento deles sem se deixarem levar, entendeu? Graças a Deus nenhum dos
três teve problema de droga não, e acredito que agora vai ser difícil, né, depois de o
mais moço estar com vinte e sete anos estou achando difícil agora mudar a cabeça.
Enfim tudo pode acontecer né, mas não se deixaram levar assim não...
DOC: Você falou do rigor aí de uma professora de matemática...
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Eh ... é essa aí, era...
DOC: A escola punia muito naquela época? E hoje como é que é isso?
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Eh ... punia sim, punia mas num grande des, desrespeito que, eh ... como eu estou
dizendo, eu acho que até a juventude de antigamente não se rebelava assim dessa
forma não, porque se um professor chegasse na sala a gente não podia ter visto, mas
no momento que ele se impôs, a coisa acalmava. Ninguém ficava, como diz hoje na
gíria, peitando o professor, discutindo com ele, e ... e querendo ser mais do que ele,
e tipo essa coisa de, eu vou denunciar à Secretaria de Educação como a gente ... eu
vou meter a mão na cara do professor como a gente ouve casos hoje assim, não, não
existia, mas não existia mesmo, inclusive os pais não davam apoio a isso. Não
davam mesmo!
DOC: E o que, o que você acha dessa relação hoje os, os meninos dizem as coisas, antes
nós não dizíamos nada. Essa relação entre os adultos e as crianças você achou que
mudou positivamente em alguma coisa?
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Em alguma coisa positivamente, eu acho que o diálogo deve existir sim, entre pais e
filhos, entre mestres e ... e coisa, agora o que eles estão é confundindo liberdade,
liberdade com libertinagem. Eles podem ter diálogos francos com os professores, os
professores devem ter com eles, esclarecer sobre sexo, sobre outras coisas, sobre a
vida, que no nosso tempo já não se falava assim abertamente. Mas eles também têm
que entender que existe um limitezinho não é? E o professor ... eu não sei se é
porque me ensinaram desde pequena que o professor é o segundo pai, é a segunda
mãe, então eles devem ter uma intimidade, mas uma intimidade com respeito, e o
professor também se impor, porque se um professor também se senta com um aluno
pra dizer que passou o fim de semana num motel, que puxou a macoinha dele
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também, ele não pode, ele não pode exigir respeito se ele não se dá o respeito, não
é? Tem que ter liberdade sim, o aluno pode chegar mais junto do professor, agora o
que não pode é estar tipo assim, comentários que eu já ouvi falar de “Hein, fulano
(com a professora), você é gostosa”, isso aí já está partindo pra ignorância mesmo...
DOC: Aí ... Muito aberto ...
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Muita falta de educação, muita falta de princípios, porque, eu hoje, até hoje eu
aprendo que as pessoas mais velhas a gente deve um certo respeito, eu trabalhei anos
na prefeitura, tem uma, uma, tem uma experiência também com uma senhora que foi
nossa chefe muitos anos na secretaria de ... de educação, dona Janira, uma pessoa
que a gente vê como mãe, uma pessoa excelente, mas nunca ninguém tomou
liberdade com ela, ela brincou com a gente, ela tentou com a gente, ele ofereceu a
casa da ilha pra gente passar um, um, um, um dia inteiro, todos tomaram banho de
mar, todos brincaram na casa dela, mas ninguém tomou deboche. Uma coisa é você
tratar bem, outra coisa é você passar dos seus limites, que tem que ter um pouco
mais de liberdade, porque não pode ser aquela coisa rígida de menino ter medo de
professor, isso também é uma coisa muito arcaica, mas também não tomar deboche
como se toma hoje, professor é como se fosse da ... e professor também não se
impor, professor rapazinho, moderno e ainda pegando a menina pra namorar ... Aí
cria esse desrespeito todo né, eu acho isso.
DOC: Mistura ... as relações ficam misturadas e...
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Exatamente, é isso que eu penso.
DOC: Compromete...
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Com certeza.
DOC: E você, como professora, como é que era a relação sua com seus alunos?
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Minha relação sempre foi amigável, eu sempre procurei fazer amizade com os
alunos, punia o mínimo possível. Só se fosse ... houvesse muito desrespeito, mas eu
procurava fazer amizade com eles, e sempre procurei assim os mais rebeldes pra me
tornar mais amigas dos mais rebeldes, porque eu poderia sempre contar com eles, e
eles se chegavam e eu dava, eu dava liberdade já naquela época quando eu regia
classe deles virem, quando eu sentia que um aluno estava com problema, eu puxava,
“Oh fulano, depois da aula eu gostaria de conversar um pouquinho com você” Ia
junto, chegava junto dele pra saber, muitas vezes eles choravam junto de mim,
contavam seus problemas domésticos, então eu acho que eu fui amiga dos meus
alunos sim, mas, no entant ... contudo sempre procurei me impor e eles nunca me
desrespeitaram não. Inclusive eu tenho uma lembrança boa também de um aluno que
gostava muito de mim, mas ele era muito tímido, então todo dia na minha carteira
aparecia um ... um copo com água e uma rosa, e eu não sabia e eu ficava tentando
investigar, e dizia “Mas, meu Deus, mas que coisa linda, todo dia eu recebo uma
rosa lindíssima, uma rosa vermelha e tal”. Quando chegou, um dia, os colegas
denunciaram, “É Joaquim, professora”. Ele ficou, coitado, ele abaixou a cabeça, ele
não queria se levantar do ... da carteira de jeito nenhum, aí os meninos disseram:
“Professora, é Joaquim, que ele rouba na casa daí, do Largo de Roma, ele pula um
muro da ... na moça que tem uma roseira e ele leva, ele rouba essa rosa todo dia pra
senhora.” Aí quando terminou a aula eu chamei Joaquim, disse: “Joaquim, olhe, eu
fico assim muito grata, muito vaidosa de você me trazer essa rosa todos os dias, eu
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fico feliz, é sinal que você tem carinho por mim, não tenha vergonha de ter carinho
pelas pessoas não, agora eu quero lhe aconselhar uma coisa: Roubar também a casa
dos outros, veja lá no dia que a dona ver ela vai dizer, oh ... você plantou Joaquim,
você tratando do jardim pra você tirar a rosa ... até que você pedisse, batesse na
porta da, da dona da casa, a senhora arranja uma rosinha dessa pra eu levar pra
minha professora?” Tudo bem, eu conversei com ele e aí...
DOC: Melhorou o relacionamento dele?
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Sempre melhorou, sempre ... nunca teve, eu nunca tive assim uma crise com aluno
não, nunca, que eu me lembre não.
DOC: Eu queria que você contasse algum castigo dos que, dos que você deu pros seus
filhos. Você lembra?
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Hum, deixe me lembrar... Oh ... meu Deus do céu ... foram tantos, deixe eu me
lembrar assim, tantos anos que eu não me lembro assim exatamente, se um deles
tivesse aqui podia lembrar, porque também já estou ficando esquecidinha, viu?
DOC: Mas se não, se não lembrar não tem nada não.
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Eu já dei castigo assim de ... de deixar sem sair, eu me lembro que eu já deixei, até
uma coisa assim, é como eu estou dizendo, não houve uma coisa grave que eles
tivessem feito que eu me lembre pra eu poder dar uma punição séria a eles não.
Poderia dizer não vai pra tal lugar, hoje vocês não vão pra, pra tal lugar porque eu
não quero que vá porque vocês fizeram isso, isso, mas assim uma coisa grave que,
que tenha marcado, não consigo lembrar não.
DOC: E em relação aos alunos, já que você disse que alguns eram rebeldes, que tipo de
rebeldia eles tinham?
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Eles eram rebeldes até pela própria condição, porque eu nunca ensinei em escola
particular, quer dizer sempre ensinei uma vez em escola particular, um ano só da
minha vida, eu ensinava em escola de governo, escola de prefeitura, meninos ... eu
peguei escola ainda em cima de palafita, meninos morando em cima de palafita,
então eu tinha problemas assim ... a rebeldia era pela próprio meio, meio que eles
viviam. Eram meninos que ficavam com fome, porque os pais eram muito pobres,
eram meninos que iam mais pra escola pela merenda escolar, eram meninos ... Eu
tive um a, um, um exemplo mesmo de um aluno que ele dormia o tempo todo na
sala, ele não causava problemas, mas também ele não participava de nada, era
dormindo. Então eu procurei investigar, se aquele menino estava com problemas de
saúde e tal, e cheguei a uma triste conclusão, que ele, a mãe dele pra criá-los não
tinha, os pais sempre eram desaparecidos né, ela se prostituta a noite, então eles
moravam num barraco, esse barraco só tinha um vão, então o que é que fazia a mãe,
botava os filhos do lado de fora pra receber os homens durante a noite. E esse
menino não dormia a noite inteira, então ia pra escola e dormia na escola, o que é
que eu podia fazer? Como é que eu podia querer que essa criança participasse?
Quando eu descobri isso comecei a ter pena, então a mãe foi chamada, mas pra
abordar um assunto desse com a mãe, a gente soube por intermédio de vizinhos, de
mães de outros alunos, pra gente chegar pra, pra dizer uma coisa dessa, ficava uma
situação muito difícil, então a gente pediu que ele, devia estar com algum problema,
conversei com ela assim, que ele precisava dormir mais, ele estava muito cansado,
ele não estava participando e tal, mas a coisa não melhorou muito não porque ... era
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a sobrevivência dela, já tive casos assim, a revol ... a rebeldia deles, quando eles
eram rebeldes, era, eram mais por causa disso.
DOC: Era, era mais uma revolta, né?
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Era revolta, é, da vida que eles viviam, mas eles não eram rebeldes sem causa não,
coitados, eles tinham até causa, agora também não chegavam precisando
desrespeitar, às vezes um com outro brigava, um com outro empurrava na fila pra
querer pegar mais merenda do que o outro, aquela coisa que a gente vê mesmo que
vem de, de uma ... um submundo, de uma pessoa, de crianças que estão com fome,
crianças carentes ... Nunca vi aluno na sala puxar faca pra outro, nunca vi isso não,
sempre que eu ensinei não vi isso não. Graças a Deus.
DOC: Hoje isso a gente ouve mais notícia, não é?
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Ah sei, com certeza.
DOC: Suas ... você tem duas filhas que são professoras.
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Não, uma somente, quer dizer ela não é, ela não fez magistério, o segundo grau dela
ela fez aí no Luis Tarquínio um curso de administração de empresa. Depois que ela
terminou, ela fez um cursinho pré-vestibular e aí teve vontade de fazer pedagogia,
então ela tem o curso de pedagogia, ela é especializada em, em orientação, mas ela
não tem magistério.
DOC: Sim, e ela atua?
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Atua sim, ela ensina, ela é orientadora educacional até do colégio N..., lá em Nazaré,
e ela trabalhou no N... também.
DOC: E hoje ela trabalha em escolas então particulares, ela tem uma nova experiência.
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É, é, exato.
DOC: Você sabe alguma coisa sobre as experiências pra comparar com a realidade que
você viveu?
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Ah, é isso, isso que eu já falei antes, muita coisa é passada por ela, muita coisa é
passada pelo meu filho, que é professor também, de alunos, assim, desrespeitarem,
de alunos levarem maconha pra dentro de sala ...
DOC: (inint) presenciar essas coisas.
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É, minha própria filha mesmo fica na porta da escola não deixando que traficante
passe a droga pro aluno. Isso aí é o que eu sei porque eles comentam, entendeu,
agora coisas mais detalhadas se você um dia for conversar com ela, ela poderá lhe
informar melhor, porque também eu não estou lembrada de tudo que ela conversa
não, mas a escola tá funcionando assim, né...
DOC: São experiências, são experiências que você já tem de serem contadas por outras
pessoas, né.
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De ela ficar mesmo impedindo que os traficantes passem e ser xingada pelo
traficante e tal.
DOC: Perigoso né?
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É, ameaçada, exatamente.
DOC: Pois é, eu acho que nós podemos já concluir né? A não ser que...... tenha ainda
alguma coisa que queira conversar...
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Não, não eu disse tudo.
DOC: suas experiências, né?
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A minha experiência é essa mesma, a minha experiência na escola foi muito boa, eu
tenho muita saudade, muita saudade, gostaria que a coisa voltasse, retrocedesse ...
gostaria sinceramente.
DOC: Tem a neta aí pra você passar alguma coisa ainda ...
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Ah, se Deus permitir eu faço mesmo. Se eu tiver viva até lá.
DOC: Eu gostaria de agradecer a você.
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Ah, as ordens, não sei se foi muito proveitoso meu depoimento.
DOC: Claro que foi. Claro que foi ... Obrigada ...
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INQ Nº 07 – MULHER – idade: 53 anos – Escolaridade: 2 grau