Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura ALINE: LINGUAGEM E SUBJETIVIDADE NA GERAÇÃO 001 Emanuela Francisca Ferreira Silva2 Resumo: no realismo contemporâneo o princípio mimético desdobra-se em múltiplas formas de narrar. Todas elas tentam re-presentar os fragmentos do real do século XXI, posto que já não é possível apreendêlo na totalidade mas, em seus cacos. Utilizando o livro Aline e seus dois namorados de Iturrusgarai (2001) como objeto de pesquisa e, ancorando-se nas teorias lacanianas sobre desejo e simbolismo, este artigo será tentativa de perceber através da personagem feminina representações e rastros da mulher da geração 00, com seus desejos, angústias e subjetividades. Palavras-chave: mulher contemporânea, rastros, subjetivismo. Intodução: Aline no realismo da geração 00 No realismo contemporâneo o princípio mimético desdobra-se em múltiplas formas realistas de narrar. Todas elas tentam representar os fragmentos do real do século XXI, posto que já não é possível apreendê-lo na totalidade mas, nos cacos.A informação apresenta-se sobre a forma de várias facetas, que são apresentadas em diversos deslocamentos espaciais como a literatura, os filmes ou até mesmo nos quadrinhos. O gaúcho Adão Iturrusgarai pode ser considerado um quadrinista da 3ª geração, aquela que sucedeu Angeli, Glauco, Laerte, enfim, a turma da HQ underground, paulista principalmente. Sua obra quadrinista está editada em três livros, respectivamente: Aline e seus dois namorados (2001) com tiras publicadas entre 1996 e 1997, Aline e TPM (Tensão Pré-Monstrual) (2002) e, mais recentemente, Aline Viciada em Sexo (2008). 1 Trabalho apresentado na classe da professora Ivete Walty, como um dos requisitos para aprovação no conteúdo Realismo urbano, PUC Minas. 2 Doutoranda em Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC Minas. emanuela.silva@sga. pucminas.br Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Para tentar compreender como o simbólico atua na linguagem neste início de século XXI, se utilizará o livro Aline e seus dois namorados (ITURRUSGARAI, 2001) tendo como ancoragem os estudos sobre a linguagem de Lacan, revisitados em Lamaire (1998). O livro de Iturrusgarai é fruto da organização de suas tirinhas que, foram publicadas no jornal Folha de São Paulo ao longo dos anos de 1997 e 1998. Aline, personagem principal do livro que recebe seu nome – Aline e seus dois namorados (ITURRUSGARAI, 2001) apresenta em suas atitudes, falas e gestos rastros da geração 00. Ela, como personagem feminina, tem seus desejos, angústias e subjetividade constantemente revelados nas “tirinhas” que compõe o livro e, é por esse motivo que Aline torna-se um importante objeto de estudo para se entender fragmentos do realismo urbano deste início de século. No livro Além do Principio do prazer (FREUD, 1998) há o relato de uma brincadeira realizada por uma criança alemã. Um carretel amarrado por uma linha é lançado por cima do berço, enquanto o bebê diz “ooh” – alemão que quer dizer “embora” – e é puxado de volta com um “da” – chegou. Para A. De Wallens, citado em Lamaire (1988), o jogo do carretel de linha ilustra o nascimento da linguagem na sua autonomia em relação à realidade. A linguagem utilizada por essa criança a distância de seu real, posto que ela realiza esse jogo na ausência de sua mãe, que sai para trabalhar. O mecanismo de acesso à linguagem constitui por um único e mesmo golpe, o inconsciente e a linguagem consciente. Mas, há uma separação entre o inconsciente e a linguagem consciente pois, os fonemas utilizados pela criança tem a referência subjetiva do sentido universal de ausência e presença. A significação se dá pela relação do pensamento consigo mesmo, por meio de uma relação entre signos. A teoria de Lacan, sobretudo os textos onde trata da supremacia da ordem do significante sobre o homem está ancorado sobre essa premissa: a linguagem re-produz a realidade; o conhecimento do mundo, dos outros e de si é determinado pela linguagem. A personagem feminina de Iturrusgarai (2001) representa um fragmento da linguagem verbal e não-verbal presente no realismo da geração 00. Aline e o realismo construído em suas histórias são formas de captar traços presentes do simbólico na contemporaneidade. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Segundo Iturrusgarai (1997): Aline é que é mulher de verdade. Trabalha fora de casa, odeia cozinhar e arrumar a casa e tem DOIS maridos. Ela divide a cama com Otto e Pedro. Os três se amam, mas isso não impede que Aline procure diversão fora do lar. Dizem as más línguas que Aline é ninfomaníaca, tarada sexual. Já as boas línguas preferem dizer que ela é uma mulher normal e simplesmente “dá vazão livre a seus instintos sexuais. (ITURRUSGARAI, 1997). Aline é, pois a representação de rastros da mulher contemporânea, com seus desejos, angústias e subjetividades. Ela representa fragmentos da mulher dessa sociedade multifacetada, com seus conflitos e simbolismos. É uma personagem feminina polêmica. A série apresentada na rede global de televisão que leva seu nome, foi censurada no ano de 2011, em sua segunda temporada. O segundo episódio não chegou a ir ao ar, posto que insinuava que Aline poderia estar desejosa de possuir mais um namorado – somando aos outros dois que ela já possuia, num total de três namorados. O mundo contemporâneo renegou Aline, talvez porque não estivesse preparado para compreender o imaginário feminino evidenciado pelo desejo no simbólico. Este trabalho é pois, tentativa de perceber como a literatura se realiza no fato social, como ela é capaz de apreender cacos da contemporaneidade e apresentá-los à seus leitores. A linguagem e o simbólico em Aline Para Lacan o aparecimento da linguagem é simultâneo ao aparecimento do recalque primeiro, constitutivo do inconsciente. Aline é um fragmento da mulher da geração 00, seu inconsciente é representado pela maneira como ela faz o anúncio: “rapaz jovem entre 18 e 25 anos para dividir apartamento”, conforme Figura 1. Assim como no relato da criança apresentada no livro Além do Princípio do Prazer (FREUD, 1998), a personagem Aline utiliza da virtude da linguagem para se ter um ponto de Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura apoio, referência possível para sua própria identidade. As categorias gramaticais disponíveis ao sujeito despertam a consciência da criança e coincide com a aprendizagem da linguagem – Além do Princípio do Prazer (FREUD, 1998). Elas, as categorias gramaticais, também definem pela oposição mútua eu-tu, a subjetividade. A linguagem atualiza a relação das pessoas, permitindo o retorno sobre si como individualidade distinta e possibilita a comunicação inter-humana. Na tirinha percebe-se a relação eu–tu em que eu é Aline e tu indica Otto – a pessoa com quem a personagem feminina compartilha o bilhete. Há também um terceiro elemento, que é aquele de quem se fala, o pretendente a dividir o apartamento. Benveniste (1991) problematiza a questão do pronome, afirmando que existem apenas dois: eu e tu. O termo ele não seria propriamente um pronome, posto que pode ser substituído por qualquer outra classe de palavras. Mas, tu e eu são auto-referênciais, coexistem em função um do outro. No primeiro capítulo do livro Aline e seus dois namorados (ITURRUSGARAI, 2001) ocorre esse processo, em que Aline e Otto se comunicam e estabelecem o ele como pronome indefinido “alguém”. Somente Aline e Otto, podem ser referenciados, o terceiro elemento não existe no real, apenas no simbólico e, portanto só pode ser representado nele e por ele. Figura 1: Tirinha anúncio de jornal Fonte:Livros Aline e seus dois namorados (ITURRUSGARAI, 2001.p.4 É a entrada no simbólico que instala uma distância em relação ao real vivido e organiza para cada personagem a trama do inconsciente. O que faz a tirinha da Figura 1 receber efeito de humor é a apresentação de como se dá esse inconsciente de Aline, que ao escrever o anúncio coloca características pouco convencionais, o que faz com que Otto afirme “ ficou perfeito... pra seção de cartas de Revista pornô”(ITURRUSGARAI, p.5, 2001). O inconsciente de Otto é que fornece através da linguagem sua opinião. Ele e Aline, possuem simbolismo dicotômico de como deve ser um anúncio de aluguel. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Para se entender melhor como ocorre a entrada no simbólico no livro Aline e seus dois namorados (ITURRUSGARAI, 2001) volta-se à análise de Freud, citado em Lamaire (1988). Ele afirma que é importante frisar que assim como os psicóticos que fazem uso do ele para designar a si, as crianças utilizam do nome para se referirem a si mesmas na terceira pessoa. Elas reproduzem a linguagem dos pais, comunicando-se entre si a respeito delas. A linguagem é pois, a tomada de consciência de si como entidade distinta. O indivíduo toma distância e autonomia em relação ao mundo das coisas reais. A linguagem é o intermediário entre o homem e o mundo, entre o homem e o homem, entre si e a manifestação de si. Esse intermediário engendra o condicionamento humano inconsciente. A linguagem vincula um dado social, uma cultura, interditos e leis em que a criança entra na ordem simbólica, isto é, há regras da sociedade, que estão no não-dito da ordem promovida pela/com a linguagem. Figura 2: No começo eram dois Fonte Livros Aline e seus dois namorados (ITURRUSGARAI, 2001.p. 8). No livro Aline e seus dois namorados ( ITURRUSGARAI, 2001) Pedro é o novo inquilino que irá dividir o aluguel com Aline e Otto. Na Figura 2, Pedro e Otto representam Aline pelo ato da fala, utilizando da linguagem para nomeá-la, classificá-la, de acordo com a cultura de cada um. Pode-se observar pela fala de ambos os interditos e as leis que regem seu simbólico. Aline é descrita por Otto com conotação sexual. O humor acontece quando no terceiro quadrinho Aline aparece com índices que indicam seu aborrecimento com a descrição e, com a afirmação de Otto “ Tava falando da minha mãe pro Pedro.”( ITUTTUSGARAI, p. 8, 2001). Aline é uma personagem ambigua. Ela, que deixa seus desejos regerem sua vida e atitudes porém, demonstra nesta passagem que não gostou da denotação sexual que Otto e Pedro fazem dela. Aline reflete bem os fragmentos que compõe o realismo contemporâneo, ora permite que seus desejos administrem suas ações, ora condena que os mesmos desejos sejam exteriorizados na fala de seus dois namorados. Continuando a análise, se atentará para o simbolismo Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura linguísticco de Aline e de como ele se representa em seu simbolismo social, tendo como referências os estudos de Lacan que partem da teoria de Freud porém a modifica, tendo seu foco no significante e não mais no significado. Aline: do simbolismo lingüístico ao simbolismo social O simbolismo é uma ordem de valores diferentes de toda a realidade: a ordem dos significantes. O princípio do simbolismo seria a ligação mútua de elementos distintivos, cuja combinação é significativa. O simbolismo só terá significação formal com a coerência das relações. (LAMAIRE, 1998). O pacto social, de aliança, de convenção ou de caução é efeito de simbolismo, posto que há um reconhecimento mútuo entre os sujeitos. Na Figura 3, observa-se um pacto social: Aline está envolta em pensamentos que, a princípio censuram sua atitude de ter dois namorados na mesma cama. Figura 3: No começo eram dois Fonte: Livros Aline e seus dois namorados (ITURRUSGARAI, 2001.p. 8) No quarto quadrinho da figura 3, seu pensamento se transforma e, ela demonstra que seus desejos ultrapassam o que é, a princípio, julgado como imoral pela sociedade em que vive. O pensamento “peladinhos” (ITURRUSGARAI, p.16, 2001) presente no terceiro quadrinho desta série se aglutina à expressão de Aline – linguagem não-verbal – na tentativa de demonstrar como a personagem faz um pacto social consigo mesma e com seus desejos. O que é imoral, torna-se desejo de prazer e, Aline salta por cima dos dois – Otto e Pedro, conforme Figura 3. Esses dois últimos quadros evocam o humor pela quebra da suposta moralidade e, pelo novo pacto de desejo firmado por Aline. As três principais ordens simbólicas segundo Lacan, citado em Lamaire(1998) são: o simbolismo lógico-matemático, a linguagem e o simbolismo social e cultural. Este último atesta a dependência de uma Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura ordem de valores (pátria, religião). Ele introduz alguma coisa a mais que a vida, um juramento, uma lei. Esse simbolismo é o viés por onde Adão Iturrusgarai costura, tece o humor no livro Aline e seus dois namorados (2001), posto que a personagem Aline faz novo pacto social com o real em que vive, estabelecendo um novo esteriótipo da mulher dos anos 90 e 00. Há, com Aline, um novo simbólico para a realidade, que foge do ancestral, da lei. O simbolismo social é inseparável do discurso em decorrência das regras, interditos e crenças que devem ser formuladas. Assim ocorre um caráter homólogo entre o lingüístico – falas de Aline – e o seu novo pacto social, pautado no desejo. Figura 4: capítulo 2: Pedro, o 3º FonteLivros Aline e seus dois namorados (ITURRUSGARAI, 2001.p. 8). Segundo Ortigues, citado em Lamaire (1988, p.101) o limiar de abertura é o nível do imaginário, em que o aquém é o nível do fantasma, realismo fascinante do imaginário e o além é a imaginação material. Têmse como exemplo o fetiche e o emblema. Na Figura 4, vê-se a presença do fetiche no vestido de Aline. Ambos, Pedro e Otto, através da linguagem verbal e não-verbal do quadrinho, esteriorizam o realismo imaginário que têm ao ver Aline de vestido. O humor ocorre pela apresentação do último quadrinho, em que Aline, Otto e Pedro aparecem em uma cama realizando o fetiche que tiveram em seu imaginário. Otto afirma não entender o que houve com eles, dizendo “Putz! Pergunta prum psicólogo!”(ITURRUSGARAI, 2001, p.22). A passagem demonstra como o simbolismo linguistíco exterioriza o pacto social da personagem feminina representada por Aline, em que o desejo se concretiza no simbolismo social. Suas ações e a dos personagens que compõe a trama são movidas pelo desejo, que aqui não parece ser recalcado.Há pois um novo pacto social estabelecido por Aline, como se verá no próximo capítulo. Pacto social de Aline: entre o imaginário e o simbólico A linguagem enquanto mediadora situa o sujeito em seu lugar distinto. Ela é de importância primordial na constituição do sujeito singular. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura A linguagem instaura relações mediatas em oposição às relações imediatas sem distância entre o si e as coisas. Na Figura 4 vê-se como o narrador utiliza da linguagem verbal e nãoverbal para descrever como o desejo passa nas relações com o real de Aline, Otto e Pedro. Se a referência a si, ao sujeito e à vida se efetuam passando pelo registro do simbólico, o desejo do sexo, fica externado somente pela linguagem não-verbal do terceiro quadrinho, que possibilita o efeito de humor. O simbólico é uma dimensão humana, uma condição positiva porque socializa o homem e organiza sua existência, porém, ele apresenta a desvantagem de formalizar a existência vital do indivíduo, de a canalizar e reduzir. O livro Aline e seus dois namorados de Iturrusgarai (2001) brinca, joga com esse simbolismo para produzir o humor ao trabalhar uma personagem feminina que possui dois namorados. Ele apresenta uma mulher que foge do convencional de uma sociedade contemporânea e, possibilita outro pacto social no real de Aline, em que o desejo vem em primeiro lugar. A imaginação é a faculdade de criação do sujeito. A consciência dissimula-se a si mesma neste outro. A essência do imaginário é uma relação dual, um desdobramento em espelho, como uma oposição imediata entre a consciência e seu outro, onde cada termo passa de um para o outro e se perde nesses jogos de reflexos. É assim que a consciência, na procura de si mesma crê se encontrar no espelho das criaturas e se perde no que não é ela. É preciso um terceiro termo mediador, que determine cada termo, que ordene e distinga. É o discurso e os conceitos que o engendra que vai mediar a relação entre os homens. Na Figura 4 o processo de humor ocorre, como já se afirmou anteriormente, pela linguagem não-verbal do terceiro quadrinho, que exterioriza o pensamento dos três personagens. Este discurso engendra no imaginário de Aline, Otto e Pedro a correlação com o desejo do sexo, que mesmo sendo “repudiado” no primeiro quadrinho, devido ao exagero do ato, é retomado no segundo quadrinho e afirmado pela ação que ocorre no terceiro e último quadrinho. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura O imaginário é o registro psicanalítico por excelência. Ele é a dimensão psíquica, desenficada da vida afetiva, dos sentidos e, mesmo do pensamento.(LAMAIRE, 1998). Toda a ordem simbólica necessita na e para sua constituição, de uma ruptura da descontinuidade inaugural ( não distinção) da consciência e do outro, da imagem e da consciência. Ortigues, citado em Lamaire (1988, p.106) designou este poder de heterogeneidade, fundador da lei pelo simbolismo tradicional. Este poder é duplo: interdito e sacrifício. Ambos são revisitados no livro Aline e seus dois namorados (ITURRUSGARAI, 2001), pela protagonista feminina. O interdito é, pois a primeira das forças que instauram a cultura ou a ordem simbólica e que instaura o sujeito em sua singularidade, designando-o e dando-lhe o lugar na constelação familiar. Para exprimir o conceito de interdito retoma-se a análise do incesto de Levi-Strauss (LAMAIRE, 1998). A estrutura familiar manifesta a ultrapassagem de toda lei natural, instaurando a cultura. Só ela permite a cada um e a todos saber quem é. Neste sentido o nome pai, mãe, filhos, enquanto elemento veiculando a relação de proximidade, é o penhor de reconhecimento dos indivíduos entre si. Na Figura 5 vê-se Aline, seu pai, Otto e Pedro. O pai como patriarca aconselha a filha sobre a estrutura familiar que ela está formando: “Aline, minha filha! De onde você tirou essa idéia de ter dois namorados?” O efeito cômico da tirinha ocorre porque supõe-se que o interdito a que o pai referese é a estrutura familiar instaurada pela cultura contemporânea de uma moça ter apenas um namorado, porém o pai recorre ao artifício do que está no real dos anos 90 – “Por que você não namora uns vinte caras ao mesmo tempo, sem nenhum compromisso?”. Com essa fala, o pai de Aline instaura a ordem simbólica que ele e, por conseguinte, a personagem feminina deveriam assumir. Figura 5: O Pai da Aline Fonte: Livro Aline e seus Dois namorados (ITURRUSGARAI,2001, p.32) O sacrifício é a outra forma de ruptura da descontinuidade do imaginário, que funda o simbolismo. Ele Manifesta a ruptura pelo qual o simbólico se estabelece em uma ordem distinta do dado material natural ou profano. O interdito do incesto se duplica no sacrifício da relação sexual com a mãe ou com a irmã. É duplo a lei de troca, que é a obrigação de tomar uma mulher de Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura outra família a fim de que, as relações de parentesco se instaurem. O sacrifício é igualmente condição de passagem à ordem simbólica. (LAMAIRE, 1998). Na Figura 5, ao questionar Aline, seu pai impõe nova lei: não é errado a filha namorar vinte homens diferentes, o que não condiz é ter relacionamento firme com dois. Para o pai o compromisso não é natural, o que é natural é o descompromisso. O interdito e o sacrifício – para a antropologia – que correspondem ao que a psicanálise chama de recalque. Vetores de organização da vida. O livro Aline e seus dois namorados (ITURRUSGARAI, 2001) trabalha seu efeito de humor pelo não recalque das personagens. As personagens possuem nova forma de real, em que o imaginário não é sacrificado ou possui interditos. O desejo ultrapassa essa forma de ruptura e, traz para o texto uma continuidade do imaginário, principalmente, do imaginário feminino. Conclusão: O imaginário continuum no simbolismo feminino de Aline Como se afirmou anteriormente, o humor que Adão Iturrusgarai trabalha é a ironia do recalque do final do século XX. Ele trabalha com o comportamento dos jovens que “ficam” com muitos parceiros sem compromisso, trazendo para a fala do pai – que é sinônimo de moral nas famílias – nova forma de perceber o real na geração de 00. Na figura 9, percebe-se que não há recalque e sim, novo pacto social em que não se deve ter compromisso sério a nível de relacionamentos amorosos, ainda mais com dois namorados e sim, ter vários relacionamentos sem compromisso. Se o processo de simbolização é aquele que assegura a passagem da natureza para a cultura, passando pelo psíquico, a personagem Aline inaugura maneira nova de ir do imaginário para o simbólico. Ela tem como premissa a satisfação de seus desejos e não recalca seus instintos por leis culturais. Ele cria novas leis para representar seu real. Se é a emergência progressiva do pensamento que filtra a vida pelo prisma da sensação, da afetividade, da intuição (o imaginário) e que, promove para um além de outra ordem o símbolo, é o imaginário da personagem feminina de Iturrusgarai que estabelece essa ordem pela saciação de seus desejos. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura O sujeito, pelo seu discurso, destrói a relação imediata de si a si, se constrói na linguagem tal como quer se ver ou fazer-se ver e aí se aliena. É pela linguagem que vê-se o imaginário de Aline e sua representação simbólica, pautada pelo desejo e firmada no pacto social que ela mesmo estabelece. O pai de Aline faz metonímia ao referir-se ao comportamento da filha em relação ao todo usual. Todas as meninas, para ele, tem vários relacionamentos, mas não firmam nenhum. A filha deveria fazer o mesmo. O inconsciente do pai se apresenta. É ele que talvez, quisesse viver essa situação, por isso repreende a filha por ter dois namorados morando com ela. O ser humano é mais efeito que causa do significante. Ele herda tradições e culturas. A inserção no mundo simbólico é mimetismo, colagem. Ela o modela num ser de representação. O que fez o livro Aline ter tanta audiência como seriado na rede global é que, ele mostra uma personagem feminina que sofre as conseqüências de seu tempo e, que ultrapassa a cultura tradicional tendo dois namorados e utilizando da linguagem para expor o seu simbólico no real em que vive. Aline possui outra maneira de apresentar o real, ela não se submete a ele e não se soçobra na doença. Se a personagem sofre por ter pais separados, ela trabalha isso tendo dois homens e convivendo naturalmente com eles na mesma casa. É na linguagem e pela linguagem que Aline revela seu inconsciente, fazendo com que o leitor re-olhe o real construído por uma personagem feminina, que foge dos padrões culturais da sociedade contemporânea. A história de Aline é tratada em quadrinhos de maneira rápida e concisa porém, o tempo contemporâneo parece não estar totalmente pronto para essa forma de viver e ser do real. Aline ultrapassa o tempo fugidio em que foi escrita e, faz com que se repense as várias facetas femininas presentes na geração 00, as conhecidas e as não recalcadas e, talvez por isso, renegadas pela sociedade atual. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Bibliografias BENVENISTE, Émile. Problemas de Línguística Geral II. Trad: Eduardo Guimarães et al. Campinas: Fontes, 1989. FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer. São Paulo: Civilização Brasileira, 1998. ITURRUSGARAI, Adão. Aline e seus dois namorados. Rio Ediouro,1996. de Janeiro: LEMAIRE, Anika. Jacques Lacan:uma introdução. Rio de Janeiro: Campus, 1988. WALTY, Ivete; PAULINO, Graça. Leitura Literária: enunciação e encenação in Ensaios sobre leitura. Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2005. Sites BLOG DE ADÃO ITURRUSGARAI. Fonte http://adao.blog.uol.com.br. Acessado em 02/02/2011. HQ QUADRINHOS. Fonte: www.sobresites.com/quadrinhos/personagens/aline. Acesso em 05/03/2011.