DEPRESSÃO MATERNA E DESENVOLVIMENTO INFANTIL AOS SEIS
MESES
Natalia Vanzo Garcia*; Jéssica Da Silva Lopes da Penha*; João Gabriel**; Gisele
Bernadino*; Samanta Melo Del’omo*; Gimol Benzaquen Perosa**; Rafaela de
Almeida Schiavo**.
[email protected]
*Instituto Municipal de Ensino Superior de São Manuel –IMESSM
** Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”
Agência de Fomento: Fapesp – Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo
Pesquisas apontam que 10% a 20% das mulheres apresentam Depressão Pós-Parto
(DPP) (HANNA; JARMAN; SAVAGE, 2004; RIGHETTI; BOUSQUET; MANZANO,
2003). No Brasil, esta porcentagem é ainda mais elevada (MORAES et al. 2006; CRUZ;
SIMÕES; CURY, 2005; FONSECA; SILVA; OTTA, 2010). Moraes et al. (2006)
realizou um estudo com puérperas brasileiras, cujos resultados indicaram que 19% das
430 avaliadas 30 a 45 dias após o parto pela Escala de Hamilton (HAM-D),
apresentaram depressão pós-parto. Outra pesquisa com puérperas brasileiras indicou que
de 70 entrevistadas por meio da Escala de Edimburgo (EPDS), 37% apresentaram
sintomas de depressão (CRUZ; SIMÕES; CURY, 2005) e, ainda, em outra pesquisa
com puérperas brasileiras, por meio da EPDS entre a 9ª e a 12ª semana pós-parto, 28%
de 261 mães entrevistadas apresentaram escores indicativos de depressão-pós-parto
(FONSECA; SILVA; OTTA, 2010). Os principais fatores de risco de depressão pósparto são: história anterior de depressão, dificuldades financeiras, baixa escolaridade,
desemprego, ausência de suporte social, dependência de substâncias, violência
doméstica e não aceitação da gravidez (PEREIRA; LOVISI, 2008; MATTAR et al.
2007; MORAES et al. 2006; LANCASTER et al. 2010). O histórico de abuso sexual
também é um fator de risco para manifestação da depressão pós-parto (BUIST;
JANSON, 2001). Ribeiz, Minatogawa e Tung Teng (2010) elaboraram uma tabela em
que são apresentados os fatores de risco para depressão pós-parto, baseados numa
revisão de literatura, os autores dividiram os fatores de risco em: Psicossociais;
Biológicos; Psiquiátricos e Psicológicos. Verdoux, Sutter, Glatigny-Dallay e Minisini
(2002) realizaram uma pesquisa longitudinal, onde entrevistaram gestantes francesas no
terceiro trimestre de gestação e após o parto aplicando a Edinburgh Postnatal
Depression Scale (EPDS). Os autores verificaram que complicações obstétricas graves,
ocorridas durante a gestação, aumentam as chances de a mulher desenvolver depressão
no pós-parto. Os sentimentos comuns de ambivalência em relação a maternidade
suscitam, também, conflitos e sentimentos de inadequação que favorecem o surgimento
da depressão pós-parto. A mulher, ao não se ver enquadrada no estereótipo de instinto
maternal, passa a apresentar humor deprimido pela perda da imagem idealizada de mãe
(AZEVEDO; ARRAIS, 2006). Um estudo realizado por Cox, Connor e Kendel (1982)
com 105 gestantes escocesas, utilizando o Standardised Psychiatric Interview (SPI),
durante a gravidez e, depois, no puerpério, indicou que os escores totais de depressão
aumentaram após o parto, mostrando que 13 participantes apresentaram depressão pósparto severa e 17 apresentaram depressão leve. Já em um estudo mais recente utilizando
a Escala de Depressão Pós-parto de Edimburg, os resultados indicaram que gestantes
obtém maior pontuação nesta escala do que puérperas e a distribuição total de
pontuações e sintomas individuais não diferem antes e após o parto, sugerindo desta
forma que a depressão não é mais provável após o parto (EVANS et al. 2009). A
depressão no período gestacional e/ou puerperal pode, também, causar sérios prejuízos
para a relação mãe-bebê e a conjugal (SCHMIDT; PICCOLOTO; MÜLLER, 2005;
FRIZZO; PICCININI, 2005; RIGHETTI; BOUSQUET; MANZANO, 2003).
Schwengber e Piccinini (2004) tiveram como objetivo verificar as diferenças na
interação mãe-bebê, entre mães brasileiras com e sem depressão. Participaram 26 díades
mãe-bebê, sendo que 11 tinham indicadores de depressão e 15 não apresentaram
indicadores. Os filhos de mães com indicadores mostraram mais afeto negativo do que
positivo, quando comparados com os bebês de mães sem indicadores e, as mães com
indicadores de depressão, apresentaram mais apatia, menos atenção na criança, menos
ternura e afeição para com seus bebês, do que as mães que não apresentaram
indicadores. Em outra pesquisa realizada por Schwengber e Piccinini (2005), analisando
a interação mãe-bebê, com 18 díades, encontraram que nove das mães apresentaram
indicadores de depressão, avaliada por meio do Inventário Beck de Depressão. As mães
com indicadores de depressão relataram insatisfação em relação: ao desenvolvimento de
seu bebê, ao desenvolvimento do papel materno, ao apoio recebido pelo companheiro e
de outras pessoas e, também, apresentaram maior stress no manejo do bebê, além de
dificuldades financeiras. Para Motta, Lucion e Manfro (2005), a depressão pós-parto
pode influenciar negativamente o desenvolvimento neurobiológico e psicológico da
criança. O cérebro da criança tem prontidão, principalmente nos primeiros anos de vida
para receber informação do meio. Estes primeiros anos são cruciais para aquisição de
informações sociais, afetivas e cognitivas, ou seja, se o meio falhar ao enviar estas
informações ao bebê, que é o caso muitas vezes, quando a mãe encontra-se deprimida, e
não há alguém que possa exercer esta função materna, as chances de prejuízo dos
processos do desenvolvimento neurobiológico e psicológico aumentam. Desta forma, é
indispensável o apoio familiar, terapêutico e social, tanto para a mãe deprimida, quanto
para o bebê. Objetivo: Avaliar sintomas depressivos de mães de bebês aos seis meses e
associar ao desenvolvimento infantil. Metodologia: Participaram dessa pesquisa 194
díades mães/bebês aos seis meses após o nascimento. A coleta de informações ocorreu
na residência das participantes. Os pesquisadores de posse dos telefones das
participantes realizavam o agendamento do atendimento, todas as participantes foram
identificadas ainda na gestação quando realizavam pré-natal em Unidades Básicas de
Saúde de três cidades do interior paulista, as que aceitaram participar da pesquisa eram
informadas dos procedimentos e assinaram um termo de consentimento livre e
esclarecido, concordando em participar da pesquisa e receber os pesquisadores em sua
residência quando o bebê estivesse com a idade de seis meses. Os instrumentos
utilizados para a coleta de dados foram o Inventário de Depressão de Beck (BDI) e o
Teste de Triagem de Denver (TTDD). Os dados foram analisados usando o programa
estatístico SPSS for Windows, versão 17.0, para analise de associação utilizou-se o teste
Qui-quadrado e teste Fisher quando as condições do X2 foram violadas. Adotando-se p
< 0.05 como nível de significância. Resultados: 38 (20%) das mães apresentaram
sintomas de depressão e 58 (30%) dos bebês apresentaram sinais de risco de atraso para
o desenvolvimento. Ao analisar-se área por área do instrumento TTDD notou que nas
áreas Pessoal-Social 28 (14% ), Motor Adaptativo 32 (16%), Linguagem 11 (6%) e na
Motor Grosseiro 52 (27%) os bebês não realizaram pelo menos um comportamento
esperado para a idade. O teste Qui-quadrado indica que não existe associação entre
sintomas de depressão materna aos seis meses após o parto e suspeita de atraso no
desenvolvimento infantil (X2 = 2.068; p = 0.150). Ao analisar-se por área os resultados
indicaram que há associação entre a áreas de desenvolvimento pessoal-social (X2 =
5.403; p < 0.05) e motor adaptativo (X2 = 5.320; p < 0.05) com os sintomas de
depressão materna aos seis meses após o parto. Discussão: Com os resultados
encontrados foi possível observar que existem mais crianças com sinais de risco para o
desenvolvimento do que mulheres com sintomas de depressão aos seis meses após o
parto. Notou-se também que a área do desenvolvimento infantil Motor grosseiro foi a
mais afetada em relação as outras áreas, pois, 27% das crianças dessa pesquisa não
conseguiram executar todas as tarefas dessa área deixando de realizar ao menos um
comportamento esperado para a idade. Compreendeu-se também que não há associação
entre sintomas depressivos maternos e risco de atraso para o desenvolvimento infantil,
entretanto houve associação entre os sintomas depressivos maternos e as áreas de
Desenvolvimento Pessoal-Social e Motor Adaptativo. Provavelmente porque mães mais
depressivas estimulam menos seus bebês a manterem interações interpessoais e
entregam poucos objetos ou nenhum para a criança manipular. Conclusão: Sintomas
maternos de depressão aos seis meses após o parto não influenciam em condições de
risco para o atraso no desenvolvimento infantil aos seis meses. Outras variáveis devem
ser investigadas a fim de conhecer a verdadeira condição de risco para o atraso ao
desenvolvimento infantil, variáveis como renda familiar e escolaridade materna podem
influenciar diretamente no desenvolvimento. É preciso que outras pesquisas sejam
realizadas a fim de se entender melhor o fenômeno. Uma medida importante que pode
ser executada pelos profissionais de saúde pública que atendem mulheres mães de bebês
é levar a informação do quanto é importante para o desenvolvimento infantil a
estimulação, principalmente para as crianças que são filhas de mulheres que apresentam
sinais de depressão, para essas além de levar a informação as mesmas é necessário
também estender aos familiares, pois a mulher está precisando antes de ajuda
profissional para ela mesma.
Palavras Chaves: Depressão; Desenvolvimento Infantil; Avaliação.
Referências Bibliográficas
BUIST, A; JANSON, H. Childhood sexual abuse, parenting and postpartum depression
–a 3-year follow-up study. Child Abuse & Neglect, v.25, p. 909-921, 2001.
COX, J. L; CONNOR, J. L. C. Y; KENDELL, R. E. Prospective study of the
psychiatric disorders of childbirth. Brit. J. Psychiat, v.140, p.11-117, 1982.
CRUZ, E. B.S; SIMÕES, G. L; FAISAL-CURY, A. Rastreamento da depressão pósparto em mulheres atendidas pelo programa de Saúde da Família. Revista Brasileira de
Ginecologia e Obstetrícia, v.27, n.4, p.181-188, 2005.
EVANS, J et al. Cohort study of depressed mood during pregnancy and after childbirth.
BMJ, v.323 p. 257-260, 15 may 2009.
FONSECA, V. R. J. M; SILVA, G. A; OTTA, E. Relação entre depressão pós-parto e
disponibilidade emocional materna. Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v.26,
n.4, p.738-746, abr. 2010.
FRIZZO, G. B; PICCININI, C. A. Interação mãe-bebê em contexto de depressão
materna: aspectos teóricos e empíricos. Psicologia em Estudo, Maringá, v.10, n.1,
p.47-55, jan/abr. 2005.
HANNA, B; JARMAN, H; SAVAGE, S. The clinical application of three screening
tools for recognizina post-partum depression. International Journal of Nursing
Practice, v.10, n.2, p.72-79, 2004.
RIBEIZ, S. R. I; MINATOGAWA-CHANG, T. M; TUNG TENG, C. Depressão pósparto. In: VASCONCELOS, A. A. J; TUNG TENG, C. (Org.). Psiquiatria perinatal:
diagnóstico e tratamento. São Paulo: Atheneu, 2010. cap.6, p.89-105.
RIGHETTI, V. M; BOUSQUET, A; MANZANO, J. Impact of postpartum depressive
symptoms on mother and her 18 month-old-infant. European Child and Adolescent
Psychiatry, v.12, n.2, p.75-83, 2003.
LANCASTER, C. A et al. Risk factors for depressive symptoms during pregnancy: a
systematic review. Am. J. Obstet. Gynecol. v.202, n.1, p.5-14, jan. 2010.
MATTAR, R et al. A violência domestica como indicador de risco no rastreamento de
depressão pós-parto. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v.29, n.9,
p.470-477, 2007.
MORAES, I. G. S et al. Prevalência da depressão pós-parto e fatores associados.
Revista de Saúde Pública, São Paulo, v.40, n.1, p.65-70, 2006.
PEREIRA, P. K; LOVISI, G. M. Prevalência da depressão gestacional e fatores
associados. Revista de Psiquiatria Clínica, São Paulo, v.35, n.4, p.144-153, 2008.
SCHMIDT, E. B; PICCOLOTO, N. M; MÜLLER, M. C. Depressão pós-parto: fatores
de risco e repercussões no desenvolvimento infantil. Psico-USF, v.10, n.1, p.61-68,
jan/jun. 2005.
SCHWENGBER, D. D. S; PICCININI, C. A. A experiencia da maternidade no contexto
da depressão materna no final do primeiro ano de vida do bebê. Estudo de Psicologia,
Campinas, v.22, n.2, p.146-153, abr/jun. 2005
VERDOUX, H; SUTTER, A. L; GLATIGNY-DALLAY, E; MINISINI, A. Obstetrical
complications and the development of postpartum depressive symptoms: a prospective
survey of the MATQUID cohort. Acta Psychiatric Scand, v.106, p.212-219, 2002.
Download

Expandido