CENTRAL DE PRODUÇÃO
Cap. 1
PÁTRIA AMADA
Capítulo 01
Minissérie de
Robson Augusto
Inspirada na música “Burguesia” e “Brasil” de Cazuza, “Hoje eu tô feliz,matei
o presidente” de Gabriel, O Pensador e em fatos reais do país
Direção Geral
Núcleo
Personagens deste capítulo
MARIA PAULA- BRUNO
EDGAR - CHICO
ABELARDO - VITÓRIA
WALTER – REGINA -GASTÃO
DAGMAR – LAILA - CARMEM
HELÔ – OTÁVIO - AMARAL
FÁBIO - RODOLFO - ALAÍDE
LAVÍNIA – JÚLIA - GERSON
AVELAR – MASCARENHAS -ZILDA
UBALDO – D.CLARA - PEDRO
ODETE – GUI - MARTA
BERNARDO - NATÁLIA – CAP. ROCHA
DOLORES – TEOBALDO - SALVADOR
MARCOS PAULO - FIGURAÇÃO
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A minissérie começa por rápidos planos de diversas cenas a serem vistas
posteriormente, com montagem muito dinâmica, impactante:
Capítulo 13:
Cena 23: AGENCIA DE BANCO (INT DIA)
AGENCIA DE BANCO (INT DIA)
Maria Paula e Dolores.
Maria Paula
- (sem jeito) Nem sei mais se vou, tia. O Bruno tá
cheio de dúvidas, eu não vou pressionar, nunca
que ia dar certo fazer qualquer coisa sem ter
certeza que é isso mesmo que ele quer, pra mim
não faz diferença, casar agora ou/
letreiro:
SÃO PAULO - JUNHO DE 2013
Maria Paula pára de falar porque ouve a voz do policial. O que interessa na cena é a
ação do PM com o terror no rosto de Maria Paula. Deve ser uma cena de montagem.
Tudo muito rápido, até o último plano da cena, alternar closes dela com closes dos
vários manifestantes e policiais com cacetes nas mãos, também pedras e paus nas mãos
de “manifestantes” infiltrados no movimento em close.
Policial
- (duro) Isso não é um protesto coisa nenhuma,
isso não passa de baderna! Anarquia! Baderna a
gente resolve com borrachada!
Corta rápido para:
Capítulo 13:
Cena 24: APTO MARIA LUCIA - QUARTO (INT NOITE)
Bruno e Maria Paula discutem gritando. Muito muito ritmo.
Maria Paula
- Confronto?
Bruno
- Calma! Foi só um momento que saiu do
controle!
Maria Paula
- Enfrentando a polícia com paus e pedras nas
mãos? Isso é protesto?
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Bruno
- Não machucaram gente nossa.
Maria Paula
- Porque a polícia não quis!
Bruno
- Ninguém lá é bandido, Paula!
Maria Paula
- Vai dizer isso quando você for parar no Instituto
Médico Legal dentro duma daquelas gavetas!
Bruno
- Você tá nervosa, senta um pouco! Põe as ideias
em ordem.
Maria Paula
- Não tá certo! Isso pode não acabar bem.
Bruno
- E que outro jeito você vê de lutar contra um/
Maria Paula
- (corta) Qualquer um, Bruno, qualquer jeito é
válido, mas violência não! Nem o papai nunca
admitiu que/
Bruno
- (corta) Não é bem assim e você sabe disso! A
posição do seu pai sempre foi que/
Maria Paula
- (corta) Violência não!
Bruno
- Protesto na rua não é guerrilha urbana! Que outra
maneira pode haver de/
Maria Paula
- (corta) Bola de neve, Bruno! Você acha que eu
não penso no policial da PM descendo porrada em
todo mundo, jogando spray de pimenta? O
primeiro que sair da linha, jogar uma pedra que
seja na polícia! Um policial cumpre ordens, não
tem preparo pra fazer um balanço e ver quem/
Bruno
- (corta) Estudante também é povo!
Maria Paula
- Povo quebra patrimônio público? Pixa ônibus?
Em condições normais ninguém vai sair no corpo
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a corpo com a polícia como uma guerra campal!
Depois/
Bruno
- (corta, gritando) Quem é que tá vivendo em
condições normais? Hã? Me diz, quem?
Corta rápido para:
Capítulo 13:
Cena 28:PORTA DA 89a DELEGACIA DE POLÍCIA (EXT DIA)
Uma delegacia qualquer da cidade. Interessa-nos aqui apenas um plano rápido de
Bruno, close, uma garrafa de coquetel molotov na mão.
Bruno
- Se eles não querem nos ouvir na paz, vão ouvir
na guerra! (aos outros) Se preparem.
Corta rápido para:
Capítulo 13:
Cena 45:RUAS ESCURAS DO CENTRO (EXT / NOITE)
Só o final da cena:
Os três param o ônibus e entram, a câmera com eles. Olham para os lados, por cautela,
enquanto vemos eles embarcaram, depois o ônibus se afasta.
Corta para dentro do ônibus em movimento. O passageiro de terno rende o motorista.
Motorista pára o ônibus muito nervoso. Eles ordenam que todos desçam do ônibus.
Corta descontínuo para o lado de fora, outo rapaz pega um galão de gasolina dentro de
um mochila e espalha gasolina pelo ônibus todo e ateia fogo.
Corta descontínuo para outra rua, perto de uma esquina, Bruno, Paulo e André parando
de correr, mais calmos. Sentem-se fora de perigo. De repente, pavor no rosto de Pedro,
aborda Bruno.
Pedro
- (tenso, sem ar) Olha!
Pedro mostra que três policiais da tropa de choque estão correndo ao longe em direção
a eles. Junto, o homem de terno, esconde uma pistola embaixo do terno. Close de
Bruno, apavorado.
Corta para:
Cena 1. SALA DE AULA DA ESCOLA DE COMUNICAÇÃO E ARTES DA
USP (ECA) - (INT / DIA)
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Primeiro plano é close de Bruno, atento à aula, ligação visual com a cena precedente.
Uns cinquenta ou sessenta alunos, rapazes e moças, aula de ética, assistem atentos ao
final de aula. Professor Avelar, é muito querido da turma. Entre os alunos, Bruno,
Edgar, Gastão e Walter. Avelar dá aula de forma bastante descontraída, é companheiro
dos alunos, o contrário de qualquer professor acadêmico.
Sobre o primeiro close de Bruno, letreiro com a data:
30 de maio de 2013
Avelar
- Ética é a parte da filosofia dedicada aos estudos
dos valores morais e princípios ideais do
comportamento humano.A palavra "ética" é deriva
dp termo grego que significa aquilo que pertence
ao caráter.
Bruno levanta o dedo.
Avelar
- Bruno.
Bruno
- Ética e lei são a mesma coisa?
Reações dos colegas, gozações misturadas com admiração, "hum, o cara estudou...
arrasou na matéria..." etc...
Avelar
- Interessante a sua pergunta. A ética não deve ser
confundida com a lei, embora com certa
frequência a lei tenha como base princípios
éticos. Ao contrário do que ocorre com a lei,
nenhum indivíduo pode ser compelido, pelo
Estado ou por outros indivíduos, a cumprir as
normas éticas, nem sofrer qualquer sanção pela
desobediência a estas; por outro lado, a lei pode
ser omissa quanto a questões abrangidas no
escopo da ética.
Corta rápido para:
Cena 2: CAMPUS DA USP. ENTRADA (INT DIA)
Muitos alunos vêm descendo a escada sentido o hall principal ,para algumas turmas
terminou a última aula do turno da manhã. O professor Avelar vem conversando com
Bruno, Edgar, Gastão e Walter.
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Gastão
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- O Bruno defende a ideia do povo se organizar e
sair pra rua protestar contra esse governo corrupto
e todo esse descaso que a gente vê por aí.
Bruno entrega lista escrita de nomes a Avelar, que lê atento.
Avelar
- (impressionado) Poxa... Esse pessoal todo apoia
sua ideia? Não vejo tanto estudante junto
planejando um protesto desde quando fiz parte da
UNE nos anos 60.
Corta descontínuo para um recanto em frente a um mural, alunos passando. (No mural,
um artigo assinado por Bruno Castilho, título: ACORDA BRASIL! Detalhar.)
Gastão
- O Vitor Araújo confirmou que pode vir.
Edgar
- E pra achar o Mascarenhas? Será que ele escreve
lá mesmo na redação do Estadão?
Gastão
- É o mais fácil de todos, a filha dele faz
jornalismo aqui, tá no segundo ano! Anda sempre
com uma gostosinha que eu conheço de vista,
moram perto de casa!
Bruno
- (sem ênfase)
Poxa, a filha do Orlando
Mascarenhas fazendo jornalismo aqui pertinho da
gente!
Corta rápido para:
Cena 3: APARTAMENTO DE MARIA PAULA (INT / DIA)
Abre no QUARTO de Maria Paula. Ela está terminando de se vestir pra sair pra
faculdade. Seu pai, Orlando Mascarenhas, escreve um artigo à mesa de trabalho, no
quarto da filha. Tenta esconder tensão. A mãe, Carmen, vai entrar, pra dar dinheiro.
Maria Paula
- (casual) Eu tenho trabalho de grupo essa noite,
pai, vêm a Lavínia e a Julia... O senhor vai precisar
do quarto?
Mascarenhas
- Vêm uns amigos hoje, depois do jantar, mas a
gente conversa na boa na sala, o seu quarto é seu,
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meu amor. Eu é preciso ter vergonha na cara e
mandar meu computador pro conserto.
Carmen
- (entrando, entrega um dinheiro) A passagem,
Maria Paula.
Corta para a SALA, Maria Paula saindo atrasada, a mãe entregando coisas, levando até
a porta. A empregada Dagmar fazendo faxina, sua filha Laila brincando no chão, o
clima desta casa deve ser sempre de bagunça simpática.
Carmen
- Seu pai tá pensando em largar o emprego no
jornal. Marcou com o Marcos Paulo e o dr.
Salvador essa noite, aqui em casa, pra ajudarem a
tomar uma decisão...
Maria Paula
- (doce, amiga do pai) Será que ele vai se sentir
bem, afastado do jornal, mãe, sempre viveu em
função daquele jornal!
Carmen
- (angustiada) Quem tem que fazer das tripas
coração pro dinheiro dar pra sua passagem,
comida, empregada/ (corta-se, torturada) Com essa
confusão toda por causa da Copa do mundo
envolvendo a política, e se o seu pai não consegue
outro emprego?
Atenção direção: Em quase todas as cenas do capítulo o ritmo é dado pelo diálogo, não
devendo haver tempos auditivos mortos, ninguém deve parar um segundo de falar.
Corta rápido para:
Cena 4: LANCHONETE PRÓXIMA A FACULDADE (INT/DIA)
(O ideal seria uma daquelas bonitas lanchonetes tradicionais da cidade, onde
estudantes se encontram após as aulas.) Movimento de figuração. Alunos da
universidade pelas mesas ou comprando alguma coisa em balcão. Clientela habitual.
Interessa-nos a mesa do professor Avelar, que lancha com amigos, o fotógrafo Ubaldo
e o professor Amaral.
(Atenção: Não há interrupção de ritmo de diálogo entre a primeira fala desta cena e a
última da cena precedente.)
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Avelar
- A imprensa precisa informar o povo de forma
correta, Ubaldo! Sem querer manipular, entende?
Ubaldo
- O comentário na redação é que a coisa pode
piorar... O prefeito já aprovou o aumento dos
ônibus em 0,20.
Avelar
- (inquieto) Acha que pode haver alguma reação
dos trabalhadores contra? Quem anda de ônibus
todo dia e ganha mal um aumento mínimo que seja
pesa no bolso!
Amaral
- Sei lá, Avelar... A notícia já saiu na imprensa.
Soube que essa turma que é contra tá se mexendo,
não tenha dúvida que a maioria é iletrado, capaz
de organizar greve e nada mais.
Corta para:
Cena 5: RUA DE EDGAR E GASTÃO.IPIRANGA (EXT DIA)
Bruno, Edgar, Gastão e Walter vêm caminhando pela rua onde fica o prédio de Edgar e
Gastão, no bairro do Ipiranga. Focalizar nas mãos de Gastão jornais. Walter totalmente distante, absorto. Logo nas primeiras falas vão chegar à porta do prédio de
Edgar e Gastão. (A figuração destas ruas deve sempre lembrar bem o bairro, carros
indo e vindo, pessoas moradores dos prédios vizinhos)
Gastão
- Cês topam pegar um cinema, sessão das nove?
Estreou um filme bom essa semana.
Bruno
- Não vai rolar eu tenho exame amanhã.
Edgar
- Se eu terminar o trabalho de estatística a tempo
eu topo sim, Gastão, tem uns troços que eu não
entendi direito.
Gastão
- Vocês vão bancar os “CDF'S” logo agora?
Edgar e Gastão vão entrar. Despedidas informais. Edgar e Gastão vão entrando, Bruno
e Walter continuam.
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Gastão
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- Tô achando o Walter estranho esses dias, Edgar,
caladão... Nem prestou atenção na aula do Avelar,
logo ele, maior CDF!
Corta para:
Cena 6: RUA DE BRUNO. IPIRANGA (EXT/DIA)
Bruno e Walter continuando a caminhar, agora na rua do prédio de Bruno, mais
movimentada, com pequenos comércios.
Bruno
- Se tiver esse clima amanhã a gente bem que
podia sair, beber alguma e matar as aulas da
faculdade, hein, Walter?
Walter não responde, continuam a caminhar. Tempo.
Bruno
- Aquela gata que você tava de olho, do bloco 9,
tem ido todo dia na lanchonete.
Walter não responde. Chegam à porta do prédio onde moram. Na frente do prédio, um
jornaleiro, ao lado, um boteco. Uma vizinha, Alaíde, falando alto, na porta do prédio.
Vai se relacionar ao jornaleiro e a Rodolfo, irmão mais jovem de Bruno, que está
comprando jornal.
Bruno
- Escuta, ô Walter... Eu dei alguma mancada com
você irmão? Cê tá bolado comigo ou o quê?
Alaíde
- (alterada) Mas será o benedito que esse
prédio não tem porteiro? A gente paga um absurdo
de condomínio pra quê?
Reação de Walter, muito envergonhado. Bruno solidário. Durante o diálogo a seguir,
câmera segue Walter, seguido discretamente por Bruno. Walter vai procurar o porteiro
do prédio no boteco ao lado. Esta ação é mais importante do que o diálogo.
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Alaíde
- Não deixaram correspondência nenhuma lá em
casa, a Dolores diz que já recebeu conta de
telefone, internet e minha TV a cabo nada!
Rodolfo
- Fica “relax”, d. Alaíde, eu acho que vi lá na mesa
da portaria alguma coisa, vem comigo, vamos ver
se tem alguma coisa sua por lá.
Corta para o interior do boteco. O pai de Walter, Chico, com uniforme de porteiro,
bebendo cachaça, visivelmente bêbado. Walter se aproxima, com muita vergonha.
Bruno espera, constrangido.
Walter
- Tem que ficar na portaria, pai! Tá querendo
perder o emprego?
Chico
- (fala com orgulho, embriagado, a um figurante)
Esse é meu filho, Walter! Cursando matemática na
USP! Vai se formar logo!
Bruno fala discretamente com Walter.
Bruno
- Vou ver se o Teodoro pode quebrar o galho lá na
portaria.
Corta para:
Cena 7: GARAGEM SUBTERRANEA DO PREDIO DE BRUNO (INT DIA)
Walter esperando o elevador de serviço, segurando o pai, que pode cair a qualquer
momento. Afastado, Bruno tenta acordar o outro porteiro, Teodoro, que dorme num
cubículo extremamente miserável, uma construção improvisada, de madeira velha,
clima deprimente. Teodoro estava dormindo, foi acordado por Bruno. A tristeza do
local tem que ser explorada pela câmera. Sempre com o ritmo de diálogo ininterrupto.
Bruno
- (suplicante) Só até as três horas, Teodoro, senão
vão fazer queixa pro síndico. Depois da última
reunião de condomínio, meu pai falou que o seu
Chico tá por um fio...
Corta rápido pra Walter abrindo a porta do elevador e tentando fazer entrar Chico,
cambaleante. É difícil. O porteiro que foi acordado, Teodoro, sobe pela entrada dos
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carros para a portaria e Bruno vem ajudar o amigo a fazer o pai entrar no elevador.
Juntos, os dois conseguem.
Corta para:
Cena 8: ELEVADOR DO PREDIO DE BRUNO (INT DIA)
Bruno, Walter amparando Chico, o elevador subindo. Um tempo em silêncio, clima
pesado.
Bruno
Walter
- (pra não falar do estado constrangedor do pai do
amigo) Não sei como que o Teodoro consegue
viver naquele cubículo.
- (seco, cansado) A d. Tereza, do 802, tá querendo
mandar derrubar aquilo, já imaginou? O Teodoro
só tem um quarto-cozinha do outro lado da cidade.
Se o ônibus subir mesmo como estão falando o
coitado a gastar metade do salário só pra vir
trabalhar todo dia. E como vai dormir? Quantas
horas por noite? No ônibus? Que já vem
lotado,entupido de gente e caro!
Elevador chega ao sexto andar, onde vai saltar Bruno. Walter abre a porta.
Bruno
- Eu vou até lá em cima, sei lá, cê pode precisar de
alguma coisa.
Walter
- Precisa não meu velho, brigadão, Bruno
Meio constrangido, Bruno sai do elevador.
Corta para:
Cena 9: APTO DA FAMILIA DE WALTER (INT DIA)
Um apartamento mínimo com quitinete e banheiro bastante precários onde moram
Walter, seus dois irmãos, o pai e a mãe, Zilda, que está trabalhando numa velha
máquina de costura. Gerson, o irmão de 8 anos, faz deveres de colégio, com uniforme
de escola pública. Duda, o irmão de 12 anos, come feijão e arroz com farinha. Walter
vem trazendo Chico completamente bêbado, para deitá-lo no sofá. Ninguém presta a
mínima atenção, indicando que isto acontece com sempre.
Tv ligada. Direção: Telejornal da horado almoço noticiando a liberação do aumento da
passagem de ônibus na cidade.
Depois de bastante esforço, Walter consegue botar o pai na cama. Tira seus sapatos.
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Zilda
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- (a Walter) Seu prato tá no forno.
Walter olha o pai, muito deprimido.
Corta para:
Cena 10: APARTAMENTO DE BRUNO (INT/DIA)
À mesa do almoço, servidos informalmente pela empregada Odete, comem Bruno,
seus pais Abelardo e Vitória, seus irmãos menores Rodolfo e Gui. Favor improvisar
alguma fala do gênero "me passa mais batata" durante o próximo diálogo.
Abelardo
- Está muito certa, Bruno, nem sei como foi que
construíram esse projeto de quarto, a garagem tá
virando uma favela! Ocupa vaga pra pelo menos
mais dois carros! Se o condomínio todo se sentir
obrigado a dar moradia pra funcionários daqui a
pouco eles vão querer comida e roupa lavada
também.
Bruno
- (incomodado) E dá pra trabalhar de estômago
cheio e com sono? Eu não acho certo um
trabalhador morar tão longe e não ter o apoio de
ninguém pra nada!
Abelardo
- O problema é que essa gente não tem educação,
querem ganhar muito e trabalhar pouco, querem
morar do lado do emprego, por isso esse país não
vai pra frente!
Bruno
- Esse assunto nem vou mais discutir, pai! (tom)
Tô preocupado é com o Teodoro. Se botarem
abaixo o quarto pra criar mais vaga pra carro
desses caras que já têm a vida ganha, vão fazer o
que com esse pobre coitado? Esperar virar
mendigo pra jogar no rio Tietê? Muita gente passa
fome, vira indigente não por que quer não, é por
que tem gente assim dominando esse país!
PÁTRIA AMADA
Abelardo
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- Tô cansado de explicar que tudo isso que seus
professores dizem na faculdade é falácia, discurso
de militante frustrado da época da ditadura!
Corta rápido para:
Cena 11: APARTAMENTO DE EDGAR (INT/DIA)
Edgar e a mãe, Regina, tomando café, depois do almoço. Regina serviu o cafezinho
pros dois e olha lista dos convidados para a reunião.
Edgar
- Se é seu amigo, não vamos procurar o Evandro
Silva pra reunião porquê?
Regina
- Essa reunião tá meio tendenciosa, né, Edgar? Se
resolvem fazer protestos, estudante em protesto
pra polícia é vagabundo e sabemos bem o que
acontece. O Evandro é bem resolvido nisso, adora
ver o circo pegar fogo. Quer um cara desse
inflamando? Com você lá no meio? De jeito
nenhum!
Corta rápido para:
Cena 12: APARTAMENTO DE GASTÃO (INT/DIA)
Gastão, almoça com a irmã Ivone, cujo filho pequeno é alimentado por empregada
figurante. O cunhado de Gastão, Capitão Rocha, uniforme da PM, pega pertences seus,
pra sair.
Rocha
- (simpático) Tudo vagabundo, Gastão, te garanto!
É melhor você ficar de fora dessas ideias de
revolta, protesto porque pode sobrar pra você.
Lugar de estudante é na sala de aula, não
planejando arruaça. R$ 0,20 a mais ou menos não
faz a menor diferença no bolso. Agora desde
sempre esses movimento promovem arruaça e aí
sim vai fazer diferença, se quebra, aquima ônibus,
quem paga somos nós!
Corta rápido para:
Cena 13: APARTAMENTO DE BRUNO (INT/DIA)
Bruno termina de falar ao telefone com Edgar. Sua mãe, Vitória, tira a mesa de
almoço. O irmão, Rodolfo, joga video-game.
PÁTRIA AMADA
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Bruno
- (tel) Não, Edgar, besteira da sua mãe, não tem
motivo nenhum pra mudar a lista. O professor
Avelar achou legal, todo o mundo achou legal,
vamos convidar quem a gente quiser. Quanto mais
professor, jornalista, cultos melhor, encorpa o
movimento (tempo) Isso aí. (desliga)
Vitória
- O Walter comentou alguma coisa, Bruno, sobre
os planos da família dele?
Bruno
- Planos?
Vitória
- Sim. Ele... não falou nada?
Bruno
- Não. Tava esquisito, a manhã toda, mas... (cortase) O que é que a senhora tá sabendo que eu não
tô, mãe?
Vitória
- (triste) O Chico foi demitido, mandaram ele
embora por justa causa. O síndico pegou ele
dormindo na escada de serviço, bêbado feito um
porco. Contrataram até um porteiro novo, começa
amanhã. (tom) Fico com pena é do Walter, sabe,
um rapaz tão gente boa, esforçado, estudioso. Só
deram dois meses pra família deixar o quarto lá de
cima. Se o pai não arrumar logo um emprego, o
que será desse rapaz? Vai conseguir terminar a
faculdade?
Reação de Bruno, torturado, durante toda a fala precedente.
Corta rápido para:
Cena 14: LIVRARIA DE ABELARDO - PAI DE JOÃO (INT DIA)
Movimento habitual da livraria. Abelardo, à caixa, diante do filho, Bruno.
Bruno
- Um emprego, poxa, custa? O senhor conhece
Deus e o mundo nessa cidade, será que não é
capaz de arrumar um emprego pro coitado do
PÁTRIA AMADA
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homem? Capaz do seu Chico se endireitar depois
desse tranco...
Abelardo
- (cedendo) Não sei. Talvez o Almeida, eu vou
falar com ele. Dono de construtora, quem sabe
não precise de algum vigia, pra alguma obra
nova...
Bruno
- Pelo amor de Deus, vigia, qualquer coisa!A
situação não é de escolha. Porque daqui dois
meses a família do Walter tá no olho da rua!
Corta rápido para:
Cena 15: APARTAMENTO DE MARIA PAULA (INT/NOITE)
Depois do jantar, clima de grande bagunça na SALA. (A idéia a passar é que
Mascarenhas não tem a menor condição de conversar sobre um assunto sério na sala.)
Maria Paula recebendo as amigas Lavínia e Julia, com livros, para estudar. Vão
caminhando para o quarto. Carmen, juntamente com a mãe de Macarenhas, D.Marcia,
e a filha da empregada, Laila, vêem a novela das nove na televisão. A empregada,
Dagmar, tira a mesa do jantar, perto da qual está o pai de Mascarenhas, Teobaldo.
Mascarenhas, na sala de estar, tenta conversar com seus amigos Salvador e Marcos
Paulo sobre sua crise profissional.
(Vários dos diálogos a seguir, podem ser ditos ao mesmo tempo, a critério da direção.)
Maria Paula
- Por ali, Julia, no meu quarto a gente pode estudar
com mais tranquilidade.
Lavínia
- (no corredor) A sua mãe deixa a filha da
empregada ver televisão na sala junto de todo
mundo, é?
Maria Paula
- A Dagmar também vê. Qual é o problema? Elas
fazem companhia pra mamãe na sala.
Corta pras mulheres, ligadas na televisão.
Carmen
- Esse rapaz jogar a própria sobrinha na caçamba
de lixo é cruel demais!
PÁTRIA AMADA
Marta
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- Como se não tivesse tanta mãe por aí
abandonando os próprios filhos também. Você não
lembra daquele caso em Belo Horizonte?
Corta pra Mascarenhas e os amigos, é a única conversa mais séria.
Mascarenhas
- Não resta dúvida de que a proposta é fascinante,
Salvador, escrever um livro sobre da ditadura até a
as diretas já. Seria uma honra.
Salvador
- Como é que estão as coisas no jornal?
Corta para Dagmar, tirando a mesa, Teobaldo do lado.
Teobaldo
- Precisava fazer aquela torta de nozes com baba
de moça que você faz sempre no Natal. Porque
que só fazem torta de nozes no Natal eu não posso
entender. O ano se resume só ao Natal?
Corta para Damasceno e seu grupo sendo interrompidos por Marta.
Marta
- (a Mascarenhas) Meu filho, você se lembra se a
mulher que abandonou o filho recém-nascido na
lagoa da Pampulha em belo Horizonte foi presa?
Mascarenhas
- (paciente) Não me lembro, acho que sim,
mamãe.
Marta
- Sim, meu filho, ela foi presa mas depois saiu da
cadeia alegando insanidade não foi?
Embaraço de Mascarenhas, precisa conversar com os amigos e não quer magoar a
mãe.
Corta para o QUARTO de Maria Paula. Maria Paula, Lavínia e Julia estudam. Livros
espalhados.
Lavínia
- Só não entendo pra quê estudar gerenciamento de
empresas de jornalismo, não quero ser dona de
jornal!
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Maria Paula
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- Eu não entendo você, quer fazer jornalismo mas
não quer estudar? Só reclama!
Corta para a SALA, as duas campainhas, de serviço e social, vão tocar ao mesmo
tempo. Abre em Mascarenhas e os dois amigos.
Salvador
- Quando foi que você recebeu a proposta, da
editora Mascarenhas?
Corta para Carmen, Marta e Laila, perto da televisão. Durante as próximas falas,
começam a tocar as duas campainhas. Mostrar reação de impaciência contida de
Mascarenhas.
Marta
- (a Carmen) Você viu no SP TV de ontem?
Parece que o prefeito aprovou o aumento da
passagem de ônibus essa semana.
Carmen
- Pois eu não comentei com a senhora?
Justamente, eu estava vendo com a Laila, e a
Dagmar (corta-se, grita) Dagmar, não está ouvindo
a campainha?
Corta para Dagmar, abrindo a porta da frente, vão entrar Dolores e Alaíde, esta cheia
de sacolas, com roupas e adereços para vender. Carmen dirige-se a elas.
Dolores
- (a Dagmar) Eu avisei à Carmen que ia dar uma
passadinha, depois do jantar.
Carmen já está do lado de Dolores e Alaide. Mas a campainha continua a tocar, só
Dagmar vai se dar conta e entrar na cozinha, para verificar a porta de serviço. Dolores,
Alaide e Carmen se cumprimentam informalmente. Mascarenhas grita de longe.
Mascarenhas
- Ninguém vai abrir essa porta, meu Deus do céu?
(aos amigos) Me ofereceram três vezes essa
oportunidade. Depois com as vendagens será mais
do que eu ganho no jornal em um ano.
Marcos Paulo
- Quem foi que te procurou pra escrever esse
livro?
PÁTRIA AMADA
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Teobaldo interrompe, para que Mascarenhas fique ainda mais impaciente.
Teobaldo
- Está tocando a campainha, meu filho.
Reação de impaciência de Damasceno.
Corta para Carmen, Dolores, Adelaide. Marta e Leila ainda na televisão. Campainha
continua a tocar, sem insistência. Alaide está tirando uns conjuntos de Tapaware de
uma de suas sacolas.
Dolores
- Chegaram ontem, Carmen, a Alaide já vendeu
mais da metade, os conjuntinhos de Tapaware
mais baratos que eu já vi.
Campainha toca uma última vez. Damasceno grita e quem vem responder é Laila, a
filha da empregada.
Mascarenhas
- Será possível que ninguém vai abrir a droga da
porta?
Laila
- É o Carlos, seu Mascarenhas, pra jantar.
Corta pra COZINHA, Dagmar faz prato de comida para o porteiro Carlos,
uniformizado sem requintes. Durante o diálogo, Teobaldo entra, ninguém liga para ele
enquanto falam, e Teobaldo sai.
Carlos
- Batata frita num podia deixar pra fritar a minha
na hora, Dagmar? Fica murcha.
Dagmar
- Ih, Carlos, olha a exigência!
Corta para a SALA, Mascarenhas tentando conversar com os amigos. O pai intervém.
Mascarenhas
- O problema principal é que, num momento
desses, tanto tempo de pesquisa, separando
material, organizando tudo e depois escrever o
livro, pode me parecer/
Teobaldo
- (intervindo) Desculpa, meu filho, mas me diga
uma coisa. Esse porteiro come aqui toda noite?
PÁTRIA AMADA
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Televisão continua ligada, só a filha da empregada assistindo. Carmen conversa com
Dolores. (Marta e Alaide já não estão na sala.) Mascarenhas vai abordar a esposa, mas,
impaciente, desiste de falar e caminha em direção ao quarto.
Dolores
- Ah, não, você me desculpe, mas em matéria de
presidente, a Dilma é a melhor que eu já vi
governar esse país!
Carmen
- Eu ainda acho que o FHC fez muito mais que ela
e o Lula juntos! Acabou com a inflação, criou o
Real...
Dolores
- Comparando o FHC com o Lula e a Dilma, foi só
isso. O Lula emprestou dinheiro ao FMI, deu
poder de compra a classe C, a Dilma criou o Bolsa
Família para ajudar as famílias carentes a manter
as crianças na escola, o programa minha Casa
Melhor e por aí a fora. Ajudou muito a população
mais carente.
Carmen
- Levando em conta a situação do país desde que o
PT entrou no poder, episódios como o mensalão,
dinheiro na cueca, estádios superfaturados para a
Copa, não sei se você tem tanta razão nesse seu
pensamento.
Mascarenhas caminha pelo corredor (porta do quarto de Maria Paula fechada) para
entrar em seu quarto. Está pensando em levar os amigos para o seu próprio quarto.
Quando entra, mostramos o QUARTO DO CASAL do ponto de vista de Mascarenhas,
uma bagunça total, parecendo uma loja improvisada, muitas peças de roupa de várias
cores, calças, blusas e outras peças que Alaide está vendendo espalhadas por cima da
cama de casal e em toda parte. Marta bota uma blusa de cor chamativa por cima do
colo, olhando-se no espelho.
Marta
- Você não acha um pouco chamativo pra minha
idade?
Reação de Mascarenhas, no auge da impaciência. Sai do quarto, meio tonto.
PÁTRIA AMADA
Alaide
Capítulo 1
Pag.:
20
- Eu lhe mostrei o conjuntinho verde-água, d.
Marta?
Corta para o CORREDOR, Mascarenhas, impaciente, com Carmen.
Mascarenhas
- Não dá pra desligar a televisão e levar essa gente
pro nosso quarto?
Carmen
- A sua mãe é que pediu pra ver, porque ela não
perde um capítulo da novela.
Mascarenhas
- E precisava chamar logo os meus pais pra jantar
justamente essa noite, Carmen? Maria Paula está
estudando com as amigas, no quarto dela.
Carmen
- E não foi você mesmo que decidiu? Toda quartafeira lembra?
Mascarenhas reconhece que é verdade, caminha para a SALA, tonto, contendo-se. Vai
dar de cara com Dolores, que o segura pelo braço.
Dolores
- Há dias que eu tô querendo te fazer uma
perguntinha, Mascarenhas eu vi na TV, nos jornais
que a passagem de ônibus vai mesmo subir é
verdade?
Damasceno denota mais impaciência do que nunca.
Corta rápido para o QUARTO de Maria Paula. Maria Paula, Lavínia e Julia já
arrumando seus pertences da faculdade, para deixarem o quarto. Mascarenhas, muito
constrangido.
Mascarenhas
- Me perdoe, Maria Paula, eu sei que tinha
prometido, mas eu tenho que tomar uma decisão
muito importante pra nós todos, preciso ouvir a
opinião do Marcos Paulo e do Salvador...
Maria Paula
- (boa filha, meiga) Tem problema não, pai, a
gente dá um jeito.
- (a Maria Lúcia) Vamos pra sala de jantar, como
da outra vez.
Lavínia
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
Pag.:
21
Corta descontínuo para a SALA. Maria Paula, Lavínia e Julia tentando estudar na sala
de jantar.
Julia
- Será que o pessoal vai fazer alguma
manifestação? Se reuniram pra quê?
Maria Paula
- Gente, que coisa mais arcaica fazer manifesto
sem motivo. A única novidade do prefeito nesses
dias foi o aumento da passagem do transporte e
muitos estudantes lá nunca precisaram andar de
trem e nem sabem como se usa um ônibus ou
metrô. Só pode ser porque/
Maria Paula corta-se porque o avô Teobaldo entrou, pra atrapalhar. Durante a fala de
Teobaldo, Maria Paula sorri amarelo, muito sem jeito, diante das colegas.
Teobaldo
- Minha filha, só uma curiosidade minha. Eu
estava discutindo essa manhã, com a sua avó.
Vocês que são jovens, têm ideias modernas...
Vocês acham que um rapaz respeita uma moça
que acabou de conhecer? Tipo, eles pensam em
outra coisa que não lavar a garota para o motel
logo no primeiro encontro?
Corta rápido para o QUARTO de Maria Paula. Mascarenhas, Salvador e Marcos
Paulo, agora com clima para conversar, porta fechada.
Salvador
Mascarenhas
Marcos Paulo
Mascarenhas
- Você tem motivos pra se sentir insatisfeito, no
jornal?
- Olha, Salvador, a ordem é liberdade total pra se
escrever o que quiser,gosto dessa postura. Mas eu
tô com problemas com na redação, sim. O fato
desse artigo sobre o quanto o governo gasta com
transporte em São Paulo e se esse aumento é
mesmo real ter ficado na fila de espera por três
semanas, um trabalho em que eu me empenhei
tanto, pesquisei muito... E não vão publicar?
- Não tem como conciliar o livro com o jornal?
- De modo algum. Dedicação integral por um
período mínimo de um ano.
Corta para SALA, mais tarde. Maria Paula, muito constrangida, despede-se à porta de
Lavínia e Julia. Televisão ligada, Carmen, Marta, Dolores, Alaíde, Laila. Dagmar
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
Pag.:
22
fazendo algum serviço, Teobaldo. Som do capítulo da novela voltando do intervalo
comercial, na TV.
Maria Paula
Lavínia
- Desculpa, gente, não dá mesmo pra ser cada vez
na casa de uma, nunca mais eu marco aqui não,
maior mancada.
- Eu falei que podia ser lá em casa sem
problemas.
Despedidas informais. Assim que Maria Paula fecha a porta, Carmen vem abordá-la.
Carmen
- Vou fazer a sua cama ali na sala de jantar porque
essa conversa do seu pai não termina tão cedo.
(animada) Se ele aceitar escrever o livro sobre a
história democrática do Brasil, Maria Paula, muito
breve você vai ter o quarto que você sempre quis!
A editora vai pagar três vezes mais!
Maria Lúcia esboça um meio sorriso, constrangida.
Corta para:
Cena 16: APARTAMENTO DA FAMILIA DE WALDIR (INT NOITE)
Pouca luz. Os dois irmãos menores de Walter estão dormindo na sala. Porta do quarto
dos pais entre-aberta, também com pouca luz. Walter é consolado por Bruno.
Bruno
Walter
Bruno
- O meu pai é um burguês desgraçado quando ele
quer, mas conhece muita gente, Walter, ele me
prometeu ajudar.
- (com um pouco de raiva) E quem é que dá
emprego pra um pau d'água nesse país?
- Não julga o seu pai assim não, cara. Alcoolismo
é doença, a bebida pra ele é uma válvula de
escape. (emocionado) Tá tudo... tão errado... Um
homem trabalha feito um camelo nesse país e...
(tom) Não Tem pode entregar os pontos não, cara.
Corta para:
Cena 17: APARTAMENTO DE MARIA PAULA (INT NOITE)
No QUARTO DE MARIA PAULA, Mascarenhas, Salvador e Marcos Paulo.
PÁTRIA AMADA
Mascarenhas
Salvador
Capítulo 1
Pag.:
23
- O que eu não queria é deixar o jornal num
momento desses. Bem ou mal é um espaço meu!
É o lugar onde trabalho à vontade. Quem é que
pode garantir como vai estar o país daqui a um
mês? Matéria boa pra jornalista experiente como
eu não falta. Um artigo de jornal não pode ser
uma coisa decisiva.
- Se você ainda estiver no jornal escrevendo algum
artigo daqui a um mês...
Tempo. Os três refletem.
Salvador
- A situação do país pode entrar em turbulência de
uma hora pra outra. Passagem de ônibus subindo,
estádios para a Copa com valores de
superfaturamento, descontentamento com o
governo atual, Mascarenhas, mas e a sua situação?
Tem a família, filha moça pra acabar de criar...
Mascarenhas olha pra direção da sala, onde está dormindo a filha.
Corta para SALA. Maria Paula, deitada no sofá da sala, separada da sala de jantar por
um leve biombo, tenta dormir. Ouve as vozes das conversas. No início está folheando
uma revista. Detalhar que a revista é VEJA. Maria Paula romântica. Fecha a revista.
Tenta dormir. No ambiente de estar, Marta, Teobaldo e Dagmar vêem televisão. À
parte, conversam Carmen e Dolores, Alaíde já foi embora. (Nesta cena a luz deve ser
muito fraca. A maior parte do diálogo em OFF, o importante é Maria Paula,querendo
dormir.)
Carmen
- Será que aprovam essa tal de PEC-37?
Dolores
- Não sei. Ouvi falar que ela dá poderes totais de
investigação à polícia e tira o poder de
investigação do Ministério Público. Esse país tá
cada dia pior, e quem paga é povo.
Close de Maria Paula, tentando pegar no sono.
Corta para:
Cena 18: RUA DE MARIA PAULA – VILA MADALENA (EXT DIA)
Manhã seguinte. Movimento matinal de rua. Gente passando, alguns fazendo
caminhada, babás levando os bebês para passear. Dolores caminha com amiga Glória.
PÁTRIA AMADA
Dolores
Capítulo 1
Pag.:
24
- Tenha santa paciência, um homem importante,
jornalista renomado, cobriu a queda do muro de
Berlim, as Diretas Já, se meter com ato de
protesto? Isso é politicagem! Querer levar a minha
sobrinha pra fazer protesto na rua reivindicando
passe livre? Isso é ideia de ladrão! Minha sobrinha
é uma garota que só dá alegria, quando a gente vê
como é que andam as outras por aí, (baixo) a filha
da Alaíde se perdeu! Se mete nessas coisas feito
uma comunista dos anos 50. Nem parece que teve
berço.
Corta para Maria Paula, saindo do prédio com o pai, Mascarenhas, ele de paletó na
mão, um hábito. Caminham para o ponto de ônibus.
Mascarenhas
- Não pensa que eu não me dou conta da
importância que esse quarto tem pra você. Sei
também o quanto é dificil pra você ir pra faculdade
de ônibus e eu sem poder te levar.
Maria Paula
- (meiga) Ih, pai, não tô dizendo nada.
Mascarenhas
- Eu estou muito pensando muito em aceitar a
escrever esse livro pra editora,o salário é
excelente. Posso te dar um carro, talvez possamos
voltar ater o conforto e o luxo de antes. Se bobear,
até mudamos prum apartamento maior. Aqui
mesmo em Vila Madalena ou nos Jardins que tal?
Close de Maria Paula, cheia de esperanças. Frisar bem.
Corta para:
Cena 19: CAMPUS DA USP (INT-EXT DIA)
Muitos alunos se cruzando, chegam os alunos do período, de todos os cursos do
campus. Abre em Bruno, Edgar, Gastão e Walter, subindo as escadas. Ao ganharem os
corredores, em direção contrária vêm caminhando Maria Paula e Lavínia.
Edgar
Gastão
Bruno
- Já que o Evandro e o professor de história
aceitaram, só tá faltando localizar o Orlando
Mascarenhas.
- Acabou de chegar!
- Quem?
PÁTRIA AMADA
Gastão
Capítulo 1
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25
- A filha do jornalista! Olha ali, com a colega de
quem eu te falei!
Corta pra Maria Paula e Lavínia, vêem ao longe que Bruno e Edgar vêm se
aproximando.
Lavínia
Maria Lúcia
Lavínia
Maria Paula
- Olha ali, vem falar com a gente!
- Quem?
- O filho do dono da maior livraria de São Paulo,
você sempre achou um gato!
- Falar comigo nada, a gente tá cansado de se
cruzar, nunca me disse um 'oi'.
Bruno e Edgar aproximam-se mais.
Lavínia
- (baixo) Não disse? Homem nenhum resiste ver
uma mulher sozinha por tanto tempo e não fazer
nada.
Os quatro ficam frente a frente. Bruno fala com Maria Paula.
Bruno
- Oi.
Close de Maria Paula, toda contente pensando que ele está dando bola pra ela.
Corta para:
COMERCIAIS
Cena 20: CAMPUS DA ECA (INT-EXT DIA)
Continuação imediata da cena anterior. Maria Paula diante de Bruno.
Bruno
Maria Paula
Bruno
- Você que é a filha do jornalista Orlando
Mascarenhas?
- (gostando) Maria Paula.
- Nós somos do curso de editoração, como a gente
tá estudando ética, coisa rara na política e
soubemos que o prefeito autorizou o aumento da
passagem de ônibus, eu não uso ônibus mas muita
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
Pag.:
26
gente aqui vem de 'busão', a gente marcou uma
reunião para discutir se saímos pra rua em protesto
contra esse abuso com apoio de profissionais
cobras de áreas diferentes, para darem um
esclarecimento de como funciona o sistema e
cobrarmos na rua com conhecimento de causa.
Vem muita gente boa, o escritor Oscar Nabuco, o
ex-secretário dos transportes Evandro Lins e Silva,
a ex-prefieta Erundina, E jornalista, claro, a gente
tinha vontade de convidar o seu pai porque/
Em fusão, close rápido de Maria Paula olhando para o relógio demonstrando pressa.
Logo que João começou a falar, frustração da moça porque o assunto é seu pai. A fala
dele é interrompida pelo seu gesto. Maria Paula o corta, apressada, pra subir.
Maria Paula
Bruno
Maria Paula
- Outra hora a gente se fala pode ser?
- Mas é que é muito urgente!
- (afastando-se) Outra hora, desculpe. Preciso
assistir a próxima aula.
Maria Lúcia afasta-se, não olha para trás. Bruno grita.
Bruno
- Ei... Peraí! Me dá o número do seu celular!
Lavínia se volta, um instante.
Lavínia
- Depois da faculdade a gente tem aula no curso de
inglês, e ficamos sempre batendo um papinho na
lanchonete quando a aula termina, se quiser eu te
explico onde é.
Corta rápido para:
Cena 21: ÔNIBUS EM MOVIMENTO (INT DIA)
Maria Paula e Lavínia dentro do ônibus, conversando, a caminho do curso de inglês.
Livros e cadernos nas mãos. (O livro de curso é muito característico.)
Maria Paula
Lavínia
Maria Paula
- Não tinha nada que ficar dando bola?
- Faz tempo que você tá de olho no cara!
- (sem graça, tímida) Falei só uma vez que achava
ele gostosinho!
PÁTRIA AMADA
Lavínia
Maria Paula
Capítulo 1
Pag.:
27
- Pra cima de mim?
- Deixa pra lá, que eles não vão procurar ninguém,
Lavínia.
Corta rápido para:
Cena 22: LANCHONETE PERTO DO CURSO DE INGLÊS (INT NOITE)
Edgar, Bruno, Gastão e Walter esperam que a aula das garotas termine. Movimento de
alunos na pequena lanchonete e outros clientes como adultos e adolescentes. Natália, a
mãe de Helô, conversa com uma amiga e um professor. Traz o material para a aula e
vai até o balcão.
Natália
Corta para os quatro rapazes.
Edgar
Gastão
Bruno
Edgar
Gastão
- Dá aquele suco de abacaxi com hortelã de
sempre.
- Tem certeza que o lugar é esse?
- Tô falando que é! Fica relax.
- Se eu não soubesse o idioma faria inglês, só pra
ensinar o verbo 'to be' pra essas gostosinhas.
- Faça um cursinho assim mesmo, ninguém precisa
saber se você sabe falar inglês ou não, é só pagar.
Mas prefere ficar pensando em organizar protesto,
essas coisas!
- Eu já disse que essas garotas são todas umas
piriguetes. Qualquer um pega fácil, não precisa
fazer cursinho no mesmo lugar não!
Corta para:
Cena 23: SALA DE AULA DO CURSO DE INGLÊS (INT NOITE)
A aula acaba de terminar, uns quinze alunos, entre eles adolescentes, adultos, entre os
alunos Maria Paula, Lavínia e Helô. A Professora arruma seus pertences, enquanto
todos vão saindo. Lavínia conversando com Helô.
Maria Paula
Helô
Lavínia
- Fica um pouco na lanchonete com a gente.
- Minha mãe deve ter terminado de preparar a
aula, ela resolveu parar de bancar a dondoca e
voltou
a dar aula de história em numa
universidade. Vai querer que eu aproveite o carro.
- Eu tava querendo te fazer umas perguntas sobre o
curso de inglês... Cê tá gostando?
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
Pag.:
28
Corta para:
Cena 24: LANCHONETE PERTO DO CURSO DE INGLÊS (INT NOITE)
Mesmo clima da cena 22, com mais alunos presentes que saíram da aula. Maria Paula
dá de cara com Bruno. Clima romântico entre os dois. Natália vai abordar a filha, Helô.
Bruno
- E então? Será que agora a gente pode conversar?
Corta pra Helô, que já foi abordada pela mãe, Natália.
Helô
Natália
Helô
Natália
- Ih, mãe, vai indo que depois eu tomo um ônibus!
- Ir de ônibus? Seu pai não gosta que você se
misture com gente pobre, Helô, se descobre vai
soltar os cachorros em nós duas!
- Não tenho direito de bater um papo aqui na
lanchonete meia hora com meus amigos e depois ir
pra casa com o meio de transporte que eu quiser?
Seja trem,ônibus ou metrô? Que que é isso?
- Ok,ok, se você quer continuar com esse seu
discursinho idealista então tudo bem, mas o Fausto
me leva e sete e meia em ponto tá de volta aí na
porta, pra te buscar, não me faz atrasar o jantar
garota!
Corta pra Bruno, Maria Paula e Edgar. Durante o diálogo, Natália despede-se de Helô
e Lavínia. Sai. Gastão puxa papo com as duas, fora de áudio. Durante as próximas
falas, marcar bem que Gastão e Helô, em especial, estão conversando animadamente,
em segundo plano. Sem interrupção de ritmo do diálogo. O mais importante, a seguir,
é mostrar uma forte química romântica entre Maria Paula e Bruno. Maria Paula
esbanja charme, tem que conquistar de pronto os dois rapazes e o público. (Várias
vezes, no capítulo, vamos usar este esquema, Edgar fala com Maria Paula mas ela só
olha para Bruno.)
Edgar
Maria Paula
Edgar
Maria Lúcia
- Bem que o Gastão disse que a gente devia te
conhecer de vista. Você não curte pegar balada
em alguma casa noturna por aí?
- (olhando Bruno) Curto. Quando eu posso.
- (a Bruno) Não falei? (a Maria Paula) A gente
não sai de uma balada de final de semana.
- (a Bruno, clima romântico entre os dois) Eu...
achei também que que já tinha visto vocês em
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
Pag.:
29
algum lugar. (tentando cortar o clima romântico)
Deixa eu ver direito a lista dos que apoiam o
movimento.
Bruno mostra o papel. Maria Paula lê, atenta. Quando termina de ler os nomes, denotase uma certa apreensão.
Maria Paula
- Sabe o que que é? Eu não sei se eu quero que o
meu pai participando de reuniões discutindo se vão
ou não fazer protestos nas ruas sei lá por quê!
Bruno
- Discutindo se vamos ou não fazer protestos? Se o
pessoal aprovar não será apenas um protesto sem
motivo como você insinuou. Aumento de tarifa
dos ônibus, mensalão, dinheiro da cueca,
superfaturamento dos estádios pra Copa e o povo
sem hospitais, moradia, educação e salários
decentes. A ideia original é de um pessoal do
Movimento Passe Livre mas o foco pra gente é
outro, é o descaso do governo com o povo, essa
sujeirada toda que a gente se cansa de ver há
tempos!
Maria Paula
- Legal esse idealismo de vocês... Lembra os caras
pintadas em 92.
Maria Lúcia já está escrevendo o número de seu telefone num pedaço de papel.
Entrega durante a próxima fala.
Maria Paula
- Eu vou falar com ele. Me liga segunda-feira.
Bruno
- Segunda-feira?
Maria Lúcia
- Segunda-feira. Por quê?
Maria Paula vai saindo, vira-se rapidamente e dá uma última olhada em Bruno. Sorri.
Close. (Durante todas as cenas, Maria Paula deve sorrir muito. Bruno não deve rir, e
sorri pouco.) Edgar e Bruno ficam olhando, românticos. Os dois rapazes estão tão
impressionados com a beleza de Maria Paula que Helô e Lavínia passam por eles,
saindo também, e os dois nem percebem. Apenas Lavínia balbucia "tchau"... Durante
o diálogo a seguir, Gastão vai se aproximar dos amigos e ouvir a última parte.
Bruno
Edgar
- (consigo mesmo) Que pedaço de mal caminho!
- A gente pode dividir: você fica com o pai e eu
fico com ela.
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
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Bruno
- Vamos brigar porque, Edgar? Me tratou com
uma frieza que/ (corta-se) Na melhor das
hipóteses, vai dar o telefone da casa dela e quem
vai atender é o pai, depois a gente nunca mais vai
se ver.
Gastão
- Se eu perder essas delicias eu não me chamo
Gastão Quintanilha!
Bruno
- Porquê?
Gastão
- Cês viram a gostosinha, amiga delas? Chama
Helô. Estuda no mesmo curso de inglês. Adora
fazer reuniões animadas de amigos na casa dela
todo sábado, lá no Morumbi, me chamou pra ir
amanhã e falou que eu podia levar quem eu
quisesse!
Bruno dá um beijo na testa de Gastão ou alguma outra brincadeira assim.
Corta para:
Cena 25: SALÕES DA CASA DE HELÔ (INT NOITE)
(Uma grande casa no bairro do Morumbi, varandão, vários ambientes de estar,
biblioteca, um espaçoso hall de entrada, sala de jantar com bufê exposto, sem
exageros, porque é uma reunião de jovens, piano.) Um jovem toca piano, outro violão,
cercados por uns 15 figurantes de 18 a 25 anos que cantam juntos “Geração CocaCola”. Mais uns 10 jovens espalhados pelo resto da casa, conversando, ou servindo-se
de comida no bufê. Bebidas à vontade: Cuba-libre, Hi-fi e refrigerantes. Já estão na
festa, Maria Paula, Lavínia e Otavio (vinte e poucos anos, estilo bem da moda, que dá
em cima de Helô). Helô e seu irmão Beto (vinte e poucos anos) estão recebendo.
Durante esta cena, os jovens cantam juntos Geração Coca-Cola, Ideologia (músicas
clássicas do rock nacional) e, ao mesmo tempo, para fechar a cena, Que país é esse?
(da Legião Urbana), temas dos estudantes nos anos 80. (O tempo da cena é
determinado por um play-back feito antes, com as canções pedidas. Se houver
diálogos perto do grupo que está cantando os atores devem falar baixo. Longe, podem
falar normalmente.) Abre com Helô e Bernardo recebendo Bruno, Edgar e Gastão, no
espaçoso hall de entrada. Ao lado deles, o mordomo Antero pega agasalhos leves de
duas moças, para guardar na chapelaria.
Helô
Gastão
- (a Gastão) Meu irmão, Bernardo.
- E aí beleza? Esses aqui são os meus colegas, não
sei se você chegou a conhecer direito ontem, o
Bruno, o Edgar...
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
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Cumprimentos informais entre todos estes jovens. Na próxima fala de Helô, Bernardo
vai se afastar para dar atenção às duas moças que estavam dando agasalhos ao
mordomo.
Helô
Edgar
- (aos rapazes, encantadora) Vocês conhecem a
Maria Paula, a Lavínia... se tiverem a fim tem
comida ali na sala de jantar. Tudo free!
- Casão hein? Arquitetura moderna, interior
requintado com traços tradicionais. Curti.
Helô sorri e se afasta, seguida por Edgar, vão se sentar no chão pra cantar. Bruno fica
com Gastão, perto da entrada. Acha estranha a chapelaria, onde o mordomo está
guardando os agasalhos. Fofocam baixo.
Bruno
Gastão
- Que merda é aquilo ali?
- Um chapelaria, pra se guardar casacos, guardachuva, essas coisas! Era muito comum nas casas
dos ricos nos anos 60.
Bruno
- Tá explicado por que nunca tinha visto.
Gastão
- Tua família é burguesa brother, não sabe desses
detalhes?
Bruno
- Achei que essa porra só existia na Europa! E
também não nasci nos anos 60!
Gastão faz sinal que eles não devem ficar na entrada. Durante as próximas falas, os
dois caminham e a câmera aproveita para mostrar todo o cenário. Deve haver (ao
contrário do resto do capítulo) vários tempos sem diálogos, para ouvirmos as músicas.
Quando depois de terem visto todos os ambientes os dois ainda dão de cara com a sala
de jantar, onde um casal de figurantes se serve no bufê, Bruno extravasa seu espanto.
Bruno
Gastão
Bruno
Gastão
Bruno
- Essa casa é enorme, comida à vontade... O que é
que o pai dessa garota faz da vida? Politico?
Traficante?
- Fábio Alcântara de Brito, não falei não?
- Empresário? Dono do Grupo Alcântara de Brito?
Aquele ricaço que se você espirra ao invés de te
desejar saúde te dá um plano de saúde?
- Em carne e osso.
- Se o playboy estiver por aí vou pedir emprestada
pelo menos essa... chapelaria... Dava pra família
do Walter morar como se fosse um duplex, no
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
Pag.:
32
maior conforto. (triste) O conhecido do meu pai
não deu esperança nenhuma de emprego pro
Chico.
Gastão
- Andei levando um papo com a Lavínia. O pai
dela é dono de editora, ele publicou alguns livros
do Orlando Mascarenhas.
Quem sabe não
arrumava trabalho pro seu Chico?
Reação de Bruno, gosta da ideia. Corta pra Bernardo, com as moças com quem se
relacionou no início da cena, afastados do piano.
Bernardo
- Cês ainda não conhecem a Sampa Night? A
melhor casa noturna de São Paulo, é de um amigo
meu.
Corta para Edgar com Lavínia. Edgar já se afastou do grupo do piano e violão para
cumprimentar Lavínia. Mostrar de longe Fábio, o pai de Helô, chegando da rua, muito
elegante, em trajes esportivos, sacola e raquete na mão. Fala com o mordomo,
rapidamente, fora de áudio. Dá uma geral na sala e vê que está tudo bem, caminha em
direção ao seu quarto. Enquanto isso:
Edgar
- Todo sábado tem festa aqui?
Lavínia
- Todo sábado. A mãe da Helô é o máximo, super
liberal. (mostra de longe) Aquele ali é o pai dela,
deve estar chegando do clube, ele adora jogar
tênis. Jogo de rico né?
Corta para Otávio com uma moça e um rapaz, longe do grupo que canta.
Otávio
- Antigamente, os jovens se revoltavam por uma
razão, tinham objetivo, hoje em dia com a internet
e o Facebook, basta publicar uma opinião e pronto,
todo mundo vai sem nem saber o por quê! Até
briga se marca na rede social.
Corta para Bruno e Gastão, que agora se aproximam do grupo que está cantando (já o
final da terceira canção, as duas juntas). Sentam-se numa posição em que fiquem de
frente para o local onde está sentada Maria Paula, cantando. Bruno cumprimenta Maria
Paula, de longe. Closes alternados dos dois. Passar sempre uma química forte do
casal. Desde que vê Bruno, ela para de cantar e sorri pra ele, tímida. Baixa os olhos.
Último plano da cena, coincidindo com o final da canção, é o close de Maria Paula.
Corta para:
Cena 26: QUARTO DE FABIO E NATALIA (INT NOITE)
Fábio acabou de entrar, já começou a tirar roupa, para ir tomar banho. Natália, de
camisola, penteia os cabelos na frente do espelho. Os dois conversam livremente como
sempre.
PÁTRIA AMADA
Natália
Fábio
Natália
Fábio
Natália
Capítulo 1
Pag.:
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- Era pra chegar mais cedo, Fábio.
- Encontrei o Carlos, no clube, fiquei batendo um
papo, tanta coisa pra resolver, Natália, a situação
política tá muito complicada... Se esse povinho
resolve se rebelar por causa do aumento dos
ônibus vai dar prejuízo pra todo mundo.
- A Fernanda convidou pras nove e meia, gosta de
pontualidade.
- Em dez minutos eu tomo uma ducha e enfio a
roupa. (tom, simpático) Achei que os meninos
chamaram menos gente, hoje. Eu gosto de ver a
casa cheia de gente. Jovem muda a atmosfera da
casa.
- É que essa hora você não costuma ir à sala, a
garotada nunca para de chegar até onze horas,
meia-noite.
Corta para:
Cena 27: CASA DE HELÔ (INT NOITE)
Mesmos da cena 25. Helô recebe um casal de amigos que está chegando. O grupo do
violão está agora terminando de cantar "Homem Primata" (dos Titãs), que vai terminar
a parte gravada previamente. Durante este final da música, Gastão conversa com
Edgar.
Gastão
- Tô parado na dessa Helô! Mas tem um
“almofadinha” aí que não desgruda dela.
Assim que termina a canção, os jovens se dispersam, espalham-se pela casa, os que
tocavam violão e vão comer. Bruno aproxima-se de Lavínia e começam a conversar,
fora de áudio. Ficamos um instante com Bernardo e um amigo.
Bernardo
- Que droga que ela não vem! Achei essa garota
muito
gata,
loira,
sarada,
peitos
empinadinhos,olhos azuis...
Corta descontínuo para close de alguém trocando o cd som. Até o final da cena vamos
ficar ouvindo Cazuza.
Sonoplastia: vamos usar as canções "Ideologia" e “Brasil”(de Cazuza), "Que país é
esse?" (de Legião Urbana), já começada. Num clima bem rebelde dos anos 80. Todas
em bg. A última canção, "Luís Inácio - e os 300 picaretas" (dos Paralamas do
Sucesso), tem de entrar num momento muito definido, que será marcado, e com som
bastante alto.
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
Pag.:
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Alguns jovens cantam como um hino num pequeno espaço determinado. Mostrar. A
cena toda é de clima de idealismo. Corta para Bruno com Lavínia.
Bruno
Lavínia
- Então eles têm só dois meses pra sair do
apartamento, entendeu? Ele é um dos melhores
alunos do curso de editoração, Lavínia, conheço o
Walter desde o ensino médio. Se a gente não
conseguir um emprego pro pai dele, o Walter vai
ter que trancar a faculdade e trabalhar pra sustentar
a família, cê já pensou, Acha isso justo? Quase no
final do curso!
- Coitado, que barra. Eu vou falar com o meu pai,
o velho é legal, pode ser que arrume alguma coisa.
Corta para Gastão e Helô. Otávio vai intervir.
Gastão
Helô
Otávio
- O pessoal tá muito engajado. O Bruno acha que
se formos pra rua, com certeza o resto da
população que tá engasgada com muita coisa vai
também. Como nos tempos da UNE, dos caras
pintadas. Mobilização geral.
- Ah, eu quero ir! Eu não ando de ônibus por que
meus pais neão permitem, nem pago
imposto,claro, mas pode contar comigo.
- (aborda Helô) amanhã você topa organizar um
grupo de amigos e descer todo mundo pro litoral?
Passar o dia na praia?
Reação de ciúme de Gastão diante do rapaz rico.
Helô
- (sem interrupção de áudio) Já tô cansada de
matar aula na faculdade pra fazer esses programas.
Daqui a pouco vou perder o semestre, Olavo.
Corta para Edgar e Maria Paula num canto tranquilo. Bruno vai intervir. (Até Bruno e
Maria Paula dançarem, a câmera não precisa se preocupar muito com Edgar, mas ele
fica ali.)
Edgar
- Você e a Lavínia conhecem a Helô há muito
tempo?
PÁTRIA AMADA
Maria Paula
Bruno
Maria Paula
Bruno
Maria Paula
Bruno
Maria Paula
Edgar
Maria Paula
Bruno
Capítulo 1
Pag.:
35
- Nos conhecemos há uns dois anos. A Heloísa é
super gente boa, alegre pra caramba, não tem nada
de 'patricinha' alienada não.
- (intervindo) E aí? Como é que é?
- (sorridente, porque ele se aproximou) Tá
curtindo?
- Bacana. Até agora não vi ninguém cheirando ou
tentando fazer bacanal como é de costume. Você
falou com o seu pai?
- Foi mal. Eu não sabia que ia encontrar vocês
aqui, a Helô não disse nada que vocês viriam.
- Beleza. Tá tudo bem. É que eu achei meio
estranha a sua reação. Não tô querendo ser
chato,Maria Paula, mas é que eu sou fã do seu pai,
também queria ser jornalista, mas a paixão por
livros falou mais alto. Filho de dono de livraria né?
Eu leio a coluna dele todo dia e/
- (cortando, séria) Eu também sou muito fã do meu
pai, acho que eu devia ter explicado melhor, viu,
Bruno? É que ele é um homem muito visado, sabe
como é, vive metendo o pau nos político e a minha
mãe fica encanada com essas coisas.
- Não tô entendendo, Maria Paula, que coisas?
- (sempre dando mais atenção a Bruno, sem ser
grosseira) A última vez que o meu pai participou
de uma passeata assim com os estudantes de uma
faculdade deu o maior rolo, porque o reitor era
primo de um deputado federal, aí já viu né? Meu
pai tinha publicado umas denuncias desse
deputado e até ameaça de morte ele recebeu na
época. (com emoção) Meu pai não liga a mínima
pra essas coisas, pelo contrário... Se tem passeata
em prol do povo ele aceita vai pra rua, ocupa
praças, grita,manifesta como ninguém. Ele é meio
revoltado desde que perdeu muito dinheiro no
plano Collor.
- (intenso, olhando bem nos olhos dela) Muito
bom. Se eu fosse filho dele ia ter o maior orgulho
desse cara também.
PÁTRIA AMADA
Maria Paula
Capítulo 1
Pag.:
36
- (cansada) Se você fosse filho dele... não sei não...
ia ser só mais um processo nas costas... Mais uma
amolação. (tom) Na época da ditadura militar, ele
passou até um período exilado, no Chile. A gente
vive uma insegurança total no país que/
Bruno
- (corta) Não foi lá no Chile que ele escreveu seu
primeiro romance?
Maria Paula
- Você leu algum romance do meu pai?
Bruno
- Acho que você ainda não entendeu, eu sou o
maior fã do seu pai. Claro que eu li,vários
romances, ninguém no Brasil escreve nada tão
forte e contundente sobre a política e a juventude.
Parece que quem não é tão fã do seu pai aqui é
você. Preocupada com a repressão da PM num
possível protesto?
Maria Paula
- Ninguém admira o meu pai mais do que eu. Só
que eu acho... esquecendo que sou filha, claro...
acho que o meu pai não tem o reconhecimento que
merecia. Sempre se sacrificou pelos outros, não
construiu nada pra ele mesmo. O nome dele não
parece nem nos livros de história!
Bruno
- (com muita admiração por Mascarenhas) São
homens assim,como o seu pai que mudam o país,
viu, Maria Paula, que transformam. (um pouco
agressivo) Ter medo de sair na rua por medo de
apanhar da polícia é... (com desprezo) uma atitude
covarde e bem medíocre.
Maria Paula
- (tom de discussão) Ih, você acha que pode mudar
o Brasil, é? (começa neste ponto "Maladragem",
na trilha sonora.)
Bruno
- Eu acho... (muito romântico, macho e firme)
Há uma química romântica muito forte entre Bruno e Maria Paula. Ela o olha nos
olhos, os dois fazem uma pausa romântica.
Sonoplastia: assim que pararam de falar, subir o volume da canção ao máximo.
Durante a pausa, explorar olho no olho, dar closes de lábios, mãos se tocando, a
aproximação dos dois. Acontece um beijo entre eles, na parte final da música. Desde a
última fala de Maria Paula, a parte final da cena, sem diálogos, deve durar exatamente
57 segundos, tempo da música, só a primeira vez que Cássia Eller passa a letra.)
CAM fecha nos dois, num beijo apaixonado.
Corta para:
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
Pag.:
37
COMERCIAIS
Cena 28: CASA DE HELÔ (INT NOITE)
Mesmos da cena anterior. Abre em Gastão, à parte, com Edgar.
Sonoplastia: primeira parte da música "All by Myself", por Sheryl Crow baixinho,
como música de fundo. A música termina antes do final da cena.
Edgar
Gastão
- Mas que boate, Gastão, Pirou? A gente não tem
nem dinheiro pre tomar táxi!
- (animado) No final da noite, a gente bola um
jeito de babaca bancar tudo, um cara cheio da
grana!
Corta para Maria Paula com Bruno, em outro ambiente. Clima romântico.
Maria Paula
- Eu vou falar com o meu pai, ver o que é que ele
acha a respeito. Me liga amanhã cedo.
Bruno
- Talvez depois da faculdade tarde a gente pudesse
sair, tomar alguma coisa...
Maria Paula
- (enfeitiçada) Me liga...
Corta para Fábio e Natália, vestidos muito elegantemente em black-tie, à porta, para
sair, o mordomo abrindo, Helô falando com os pais. A parte final da cena deve ser no
hall de entrada.
Natália
- Pra quê boate, minha filha, porquê isso agora?
Helô
- Mais tarde! O Otávio tá organizando um grupo
pra pegar uma balada numa casa super badalada.
Fábio
- Não pode, Helô, você enche a casa de amigos,
para depois sair?
Helô
- Quem convidou quase toda essa galera foi o
Bernardo!
Fábio
- Balada não, de jeito nenhum, chamou os amigos
pra uma festa, fica com os amigos na festa.
Fábio dá um beijo na filha, que se afasta, malcriada.
Helô
- (afastando-se) Não vejo vantagem de ser rica
sabia?
Fábio e Natália ficam sozinhos, na porta do carro.
PÁTRIA AMADA
Fábio
Natália
Fábio
Natália
Capítulo 1
Pag.:
38
- Que garota mal educada! Eu disse alguma coisa
demais? Ela não sabe como é perigoso sair à noite
nessa cidade?
- Você gostava de ouvir 'não' quando era da idade
dela?
- Custa ao menos ela vai obedecer?
- Calma aí, também não é assim. A Helô tem um
temperamento forte, puxou a você, é... meio
teimosa. Mas acha que ela é submissa! Já é
exagero
Corta rápido para:
Cena 29: BOATE (INT NOITE)
Uma boate com figuração bastante jovem e ambiente animado. Abre em Helô, muito
sorridente (relação visual com o final da cena anterior), chegando com seu grupo,
Otávio, Gastão, Edgar e uns cinco jovens da festa. Estão sendo recebidos pelo dono da
casa, que escolhe uma mesa. Helô já caminha dançando ao som de “Bella Vita” (por dj
Antoine) desde seu primeiro plano. Na pista, jovens dançam no mesmo ritmo. Explorar
a energia do local.
Sonoplastia: começamos com o final de “Bella Vita” de Dj Antoine, e trocamos para o
início de Bengaloo com “Anything You Want” de 2000, no exato momento, no meio
da cena, em que Gastão tira Helô para dançar.
Enquanto o grupo, liderado por Otávio, vai se encaminhando para a mesa que o
proprietário lhes indica, Gastão e Edgar ficam fofocando na entrada, à parte.
Edgar
- EU não vou ficar não, Gastão, vou passar
vexame? Tudo aqui deve custar os olhos da cara!
Só tem playboy!
Gastão
- Você é muito bunda mole mesmo!
Gastão pega cartão da boate sobre balcão e entrega a Edgar.
Gastão
- Tá vendo isso aqui?
Edgar
- O telefone da boate, pra quê?
Gastão
- Tá vendo aquele cara ali? É o dono da casa!
Daqui uma hora mais ou menos, você liga pra cá,
manda o ele pedir pra anunciar no sistema de som
o nome de Gastão Quintanilha e que a mãe dele tá
passando mal! Aí eu levanto, muito nervoso, pra
ir pra casa socorrer a minha mãe, aí eu quero ver
se o babaca vai ter coragem de me cobrar o
consumo.
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
Pag.:
39
Edgar
- Ok Gastão... Muito comovente,acontece que sua
mãe morreu quando você tinha 10anos! Vai
socorrer ela onde? No além?
Gastão
- Para de pensar em detalhes Edgar, é por isso
mesmo que eu posso jogar esse K.O, né? Com a
mãe da gente viva fica chato.
Edgar afasta-se para sair da boate, passando com expressão de "Esse Gastão é muito
picareta..." Corta para mesa de Helô, Otávio e os outros, Gastão sentando-se. Mostra
mesa vazia, mais perto da pista.
Gastão
- (a Otávio) Não era melhor aquela mesa ali? Mais
perto da pista?
Otávio
- Tá reservada.
Começa a tocar “Show das Poderosas” de Anitta. Otávio vai tirar Helô pra dançar, com
certa formalidade. Gastão lhe dá um tapinha nas costas, sem que Otávio possa perceber
que foi ele. Enquanto Otávio se vira pra ver quem bateu nas suas costas, Gastão tira
Helô para dançar.
Gastão
- Tá afim?
Helô vai dançar com Gastão, muito alegre, enquanto Otávio fica na mesa, frustrado,
close de Olavo, sem saber que Gastão o tapeou. Na pista, devemos ficar um tempo
com Helô, Gastão e os jovens dançando a música.
Corta para:
Cena 30: RUA DE MARIA PAULA (EXT DIA)
Manhã seguinte. Apenas um plano rápido, domingo de manhã.
Sonoplastia: vai morrendo aos poucos o som de Anitta da cena anterior, até entrarmos
em seco, na cena seguinte.
Corta para:
Cena 31: APARTAMENTO DE MARIA PAULA (INT DIA)
Mascarenhas lendo seu jornal O Estado de S. Paulo, edição de domingo, produzir.
Maria Paula toma café com a mãe, servidas de forma descontraída por Dagmar. De
repente, lendo uma reportagem em especial, Mascarenhas tem uma forte reação de
alegria. Saiu o seu artigo longo sobre a situação do país, título: "Copa pra quem?".
Produzir. Levanta-se muito animado.
Mascarenhas
- Saiu, Carmen! Minha reportagem completa sobra
o dinheiro gasto com a Copa do Mundo foi
publicado!
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
Pag.:
40
Reação de Maria Paula e Carmen, não sabem se gostam ou não gostam.
Corta descontínuo para Maria Paula saindo para ir ao shopping. Mascarenhas caminha
até ela. Durante o diálogo, telefone vai tocar e Dagmar vai atender. Daqui a pouco
Carmen vai entrar e intervir na conversa.
Mascarenhas
- (constrangido) Acho que não é a hora de deixar o
jornal, entende, minha filha? Eu tenho certeza que
num momento mais apropriado eu recebo de novo
algum outro convite bom. O seu quarto... (gesto
vago)
Maria Paula
- (doce, mas forçando sua barra, porque a
decepção foi grande) A decisão é sua pai... eu
quero o que for melhor pra você. (tom) Só que eu
sei o quanto você próprio quer um monte de
coisas... A casa que o senhor perdeu com o plano
Collor, o carro importado que sonhou a vida
inteira... quer ter uma casa na praia... O dinheiro
do livro era bom, pai.
Mascarenhas
- Eu tive uma conversa com o pai da Lavínia,
sobre a possibilidade de um adiantamento pra eu
escrever um livro de interesse dele. Você vai ter
privacidade no seu quarto muito mais cedo do que
você imagina.
Carmen
- (clima de discussão) Pelo amor de Deus,
Mascarenhas, não iluda a garota! você diz isso
desde que nós perdemos a casa por causa do plano
Collor!
Carmen vai para o quarto e Mascarenhas persegue.
Mascarenhas
- (afastando-se, estas falas são apenas pano do
fundo para o telefonema) Pera aí, Carmen, porque
esse tom comigo agora? Ninguém estava
discutindo! Eu estou muito feliz porque saiu o
meu artigo, só estava dizendo que... (e já sumiu)
Dagmar
- (a Maria Paula) Telefone pra você. Um tal de
Bruno.
Maria Bruno atende, muito seca. Desconta em Bruno a raiva reprimida.
Maria Paula
- (tel) Alô. (tempo) Claro que eu lembro. (t) Escuta
aqui, Bruno, eu pensei muito, não falei nada com o
meu pai e nem pretendo falar. (t) Se depender de
mim, ele não vai em porcaria de manifestação
nenhuma.
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
Pag.:
41
Desliga irritada sem esperar resposta.
Corta para:
Cena 32: CAMPUS/ECA (EXT DIA)
Manhã seguinte. O Professor Avelar vem subindo escada com Bruno, Edgar, Gastão e
Walter. Movimento de alunos passando.
Bruno
- Aquela garota é louca, bipolar ou qualquer merda
dessas!
Walter
- Pra que tanta raiva Bruno? Você só pensa nela.
Tá gamado nela! Só cego não vê!
Avelar
- Não deve ser fácil ser filha dum cara assim. Tem
gente muito mais ligada na situação do país... O
Mascarenhas, pelo que eu sei, sempre levou o seu
idealismo até às últimas consequências. Mas o
Ubaldo, que mora comigo, é fotógrafo lá do jornal.
Não sei se conhece ele pessoalmente, mas se vocês
ainda estiverem interessados, eu posso ver se o
Ubaldo consegue apresentar o Mascarenhas a
vocês.
Corta rápido para:
Cena 33: REDAÇÃO DO JORNAL (INT DIA)
Movimento normal de redação de jornal. Ubaldo, o fotógrafo, diante de Bruno, Edgar,
Gastão e Walter. Gastão está conversando com uma jornalista, figurante, fora de áudio.
Ubaldo
- Um segundo só que ele foi muito legal, já vem aí
conversar com vocês, ok?
Bruno sorri agradecido. Ubaldo se afasta ao mesmo tempo que Gastão se aproxima.
Bruno
Walter
Gastão
Bruno
Gastão
- O pai da Lavínia vai mesmo falar com o seu pai?
- (animado) Marcou pra semana que vem.
- (intervindo) Frequentar redação de jornal é
interessante, se vocês soubessem a notícia que a
morena ali acabou de me dar...
- Que notícia?
- (intenso) O estádio Mané Garrincha, construído
em Brasília pelo governo do Distrito Federal para
a Copa de 2014, já custa aos cofres públicos a
soma de R$ 1,778 bilhão. É o que aponta novo
PÁTRIA AMADA
Bruno
Capítulo 1
Pag.:
42
relatório do Tribunal de Contas do Distrito
Federal finalizado esta semana. Essa informação
é exclusiva (expectativa dos três, tempo) A obra
mais cara da Copa e num lugar que nem futebol
tem! Tem alguém metendo a mão né galera?
Enquanto isso os pobre morrem nas filas dos
hospitais sucateados, ônibus caros e com serviço
deficitário, educação sem investimentos...
- R$ 1,7 Bilhão gastos com o estádio, isso é 2
vezes e meia a mais que os R$ 696 milhões
iniciais em 2010,que era o preço original.
Alguém está ganhando e muito com essa obra.
Edgar cutuca Bruno, porque Mascarenhas se aproxima.
Mascarenhas
- Boa tarde rapazes. O Ubaldo me disse vagamente
a respeito do protesto que vocês estão organizando
contra o aumento dos ônibus é isso mesmo? (um
pouco constrangido) Mas antes eu queria saber
que tipo de conversa vocês e a minha filha
tiveram?
Corta descontínuo para outro ambiente da redação, algum tempo depois.
Bruno
- Então ela bateu o telefone na minha cara e eu lhe
confesso que não entendi essa reação dela.
Tempo. Mascarenhas pensa em sua filha.
Mascarenhas
- Eu queria que vocês me desculpassem... A Maria
Paula é uma menina tranquila, inteligente, meiga,
quer ser jornalista, como eu. Só que nós estamos
tendo alguns problemas de família... (tom) Ela
escreveu uma crônica muito interessante pro jornal
da faculdade, não é opinião de pai não... mas uma
boa crônica.
Walter
- O Bruno não faz jornalismo mas também escreve
pro mural. Hoje mesmo terminou um artigo novo,
só tá faltando fazer a revisão, né, Bruno?
Mascarenhas
- (a Bruno, pensando na filha) Eu gosto das
crônicas de vocês. Eu leio sempre que posso
através da minha filha. Na minha época eu era...
talvez um pouco mais... (tom) Bom, podem acusar
a geração de vocês de tudo, menos de ser
PÁTRIA AMADA
Mascarenhas
Mascarenhas
Bruno
Mascarenhas
Capítulo 1
Pag.:
43
hipócritas e alienados, vocês são muito antenados.
A sua crônica é sobre o quê?
- Não é crônica não, seu Mascarenhas, é o
problema do transporte no país, sabe, o porquê
desse aumento na tarifa. (reação de Mascarenhas,
os olhos brilhando de admiração por Bruno) Eu
tenho meu carro, meu pai tem dinheiro, mas o
senhor acha justo o cara ganhar um salário que não
aumenta e tem que aguentar um aumento de tarifa?
Um país dependente de transporte público ter
aprovado um aumento desses e não poder fazer
nada? Não tem como aceitar!
- Um assunto bem pontual e interessante. Eu...
posso ler o que você escreveu?
- Agora?
- Porque não? Algum problema?
Bruno tira o artigo de seus pertences. Entrega ao jornalista. Mascarenhas põe óculos de
leitura, começa a ler.
Corta descontínuo para Mascarenhas terminando de ler o artigo. Faz uma pausa. Os
rapazes esperam ansiosos sua opinião. Tempo.
Mascarenhas
- (emocionado, a Bruno) É de pessoas como você
que esse país precisa!
Bruno
- Ficou bom mesmo?
Mascarenhas
- (emocionado) Se ficou bom? Texto articulado,
objetivo e com conhecimento do assunto. Muito
bom o seu artigo, Bruno, muito claro, corajoso.
(alegre) Claro que eu vou ter o maior prazer de
apoiar o movimento e participar sim, é só me
dizerem o dia, a hora e o local. (reações de alegria
dos rapazes) Lá no fundo eu... sempre tive muita
confiança nessa juventude de hoje. O Brasil
precisa demais de vocês.
Corta para:
Cena 34: SEQUENCIA EM PRETO E BRANCO
Entra a música "Pátria Amada", da banda Inocentes. As imagens misturam imagens da
tv, manchetes de jornais e fotografias sobre assuntos políticos a cenas do cotidiano dos
personagens nos dias que se seguem. A linguagem da sequência deve ser muito clara,
precisa, sem quaisquer efeitos "modernos":
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
Pag.:
44
- Personagens:
a) QUARTO DE BRUNO: Bruno escrevendo um artigo em seu computador.
b) SALA DE AULA DO CURSO DE INGLÊS: Maria Paula, Lavínia e Helô na aula
de inglês. Close de cada uma delas, atentas à aula.
c) QUADRA DE FUTBOL SOCIETY: Edgar jogando futebol num clube, dia. Faz
uma gol, vibra.
d) LIVRARIA, noite: Gastão saindo da livraria com Walter,com livros nas mãos
comprados pelos dois.
- Sugestões para jornalismo cotidiano:
a) Atraso das obras dos estádios para a Copa no Brasil, devem ter sequências com
manchetes de jornais, sites na internet.
b) O reajuste no preço das tarifas de ônibus Beatles.
c) Episódios de violência, como os assaltos a consultórios dentários.
Edição: a duração da sequência é de 51 segundos.
Cena 35: CAMPUS - ECA (INT ou EXT DIA)
Movimento de alunos antes do início das aulas, dia 31. Clima tenso, agitado.
Grupinhos cochichando, alguns professores neste clima também. Bruno, Edgar, Gastão
e Walter estão diante do jornal mural, com o artigo de Bruno sobre a má qualidade do
transporte público no Brasil e seu aumento de tarifa. Detalhar. (Título: "Governantes
não andam de ônibus", por Bruno Galvão.) Daqui em diante o capítulo tem que ir num
crescendo de tensão.
Bruno
Edgar
Gastão
Walter
- (irritado) E eu não posso escrever sobre a má
qualidade do transporte e seus descasos com a
população porquê?
- (apreensivo) A ordem foi pra tirar o artigo do
mural, Bruno, falaram que a hora não é boa. Isso
poderia inflamar os alunos para saírem nas ruas.
- Já tem gente dizendo que metade do campus já se
mobilizou, que querem protestar contra a
aprovação da PEC 37, corrupção no governo e o
cacete a quatro também. Os mais radicais querem
derrubar o governador, quiçá a presidenta! Tudo
por causa desse seu artigo.
- Já estão inventando mais protestos e saindo do
foco, assim perdemos o controle e a polícia revida.
Esse movimento com todo tipo de gente é a linha
tênue entre a democracia e a violência.
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
Pag.:
45
Bruno
- Protesto pacífico não tem porque ter medo da
reação da PM. Agora esse papo de querer derrubar
governante assim a esmo é burrice! Esse pessoal é
imbecil.
Entra em OFF a primeira fala da cena seguinte.
Ubaldo
- (OFF) O gigante acordou, Avelar.
Corta rápido para:
Cena 36: APARTAMENTO DE AVELAR (INT DIA)
Avelar, Juarez e Ubaldo, clima tenso. Nenhuma quebra de ritmo em relação à cena
precedente, tudo muito ágil.
Ubaldo
- (continuando) Há protestos agendados em mais
de 20 cidades Brasil afora, em São Paulo eles
esperam mais de 50 mil.
Juarez
- (nervoso) E o governo não vai fazer nada?
Duvido. Estamos às vésperas de uma Copa, o
mundo todo está de olhos abertos no Brasil.
Avelar
- Com certeza. Se eles interpretarem o movimento
como arruaça vão por a PM nas ruas. Precisam
rever algumas coisas antes de saírem nas ruas.
Esses jovens precisam ter cautela.
Corta rápido para:
Cena 37: CAMPUS - ECA (INT-EXT DIA)
Mesmos personagens e clima da cena 35. Abre em D.Clara, professora, tirando o
artigo de João do jornal mural na frente de nossos quatro jovens. Ritmo ágil de
diálogo, tensão.
Edgar
Clara
Bruno
- Mas o que é isso, D.Clara, arrancar o artigo
assim? Voltou a censura?
- (constrangida) É só por agora, o reitor mandou
avisar que amanhã conversa com o Bruno. Esse
espaço é direcionado aos alunos de jornalismo e
esse artigo inflou os outros alunos.
- Amanhã o escambau, o reitor vai falar comigo
hoje! O que ele está fazendo é censura e a ditadura
caiu faz tempo. O espaço é dos alunos de
jornalismo sim, mas ele mesmo disse que qualquer
um poderia utilizar o espaço como forma de se
expressar.
PÁTRIA AMADA
Clara
Capítulo 1
Pag.:
46
- Ele mandou um recado específico a você Bruno.
Aconselha você a pensar bem no que escreve e
repensar sobre essa ideia de protesto estudantil. O
reitor acha que pode dar confusão,já está tudo
muito confuso, era pra ser um protesto contra o
aumento da passagem dos ônibus, agora já estão
protestando contra tudo, PEC 37, contra a
Copa,corrupção, saúde, até contra o vizinho que
colocou senha no wi-fi! Não é hora pra isso de
jeito nenhum! Confusão sempre acaba mal.
Corta rápido para:
Cena 38: APARTAMENTO DE BRUNO (INT DIA)
Bruno e seu pai, Abelardo, já no meio de uma discussão forte. Ritmo muito ágil.
Vitória arrumando alguma coisa na sala.
Bruno
Abelardo
Bruno
Abelardo
- (impaciente) Que sair em confronto com a
polícia? Nós vamos fazer um protesto pacífico.
- Nós quem rapaz? Todo protesto é pacífico até
alguém atirar a primeira pedra e a polícia intervir.
- Vocês, adoram reclamar do país mas não se
mexem pra mudar. Quando alguém resolver fazer
alguma coisa vocês criticam! (saindo) Mas eu não
abro mão dos meus direitos.
- (perseguindo) Que direitos, você lá sabe o que é
ter direitos? Você vai pra onde? Vai falar com
quem? Melhor não ficar pondo lenha na fogueira,
meu filho, volte aqui/ (o filho saiu, grita) Bruno!
Corta rápido para:
Cena 39: APARTAMENTO DE MARIA PAULA (INT DIA)
Maria Paula terminando de se arrumar para sair. Carmen muito tensa. Ritmo muito
ágil.
Maria Paula
- E vou perder consulta no dentista, por causa de
clima tenso na cidade mãe?
Carmen
- Liguei pro seu pai pra saber como andam as
coisas na rua, no jornal só tá dando ocupado...
Maria Paula
- Não estressa à toa, também não é assim, não
estourou nenhuma guerra. É apenas uma
manifestação de estudantes, gente do povo que
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
Pag.:
47
anda descontente, só isso. O consultório é
pertinho do jornal, depois da consulta, eu vou até o
jornal e volto pra casa com o papai, deixa de
bobagem, vai.
Corta rápido para:
Cena 40: ÔNIBUS EM MOVIMENTO (INT DIA)
Dentro do ônibus a caminho do centro, Bruno, Edgar, Gastão e Walter. Ritmo muito
ágil. Lotação normal. Passageiros nervosos. Vários vendo as últimas notícias pela
internet ou TV dos celulares. Gastão está tentando obter informações com um
passageiro que vê TV, conversam fora de áudio. Os outros três rapazes vão fofocando.
Bruno
- Vai parar tudo! Vamos pra rua sem reunião, sem
combinar nada. Garanto que o Mascarenhas vai
conseguir nos colocar na capa do jornal de
amanhã!
Edgar
- Tem muita gente indo pro centro Bruno. Um
movimento que começou na faculdade tá
espalhando feito epidemia.
Gastão
- (intervindo, excitado) Verdade. Tão noticiando
que já são mais de 10 mil pessoas na Sé até o
momento. Como pode aparecer tanta gente?
Bruno - (pensativo) Depois da censura do reitor eu mandei a organização às
favas e joguei tudo na internet. Blog, Facebook,
twitter, entrei em contato com líderes de outros
movimentos e tá aí o resultado. “O gigante
acordou” meu irmão! Segurem se puderem.
Corta rápido para:
Cena 41: REDAÇÃO DO JORNAL (INT DIA-ANOITECENDO)
Umas cinco e quarenta da tarde. Clima muito intenso de trabalho, agitação, gente
passando o tempo todo. Muitos ao telefone. Fones tocando. Mascarenhas com Bruno,
Edgar, Gastão e Walter. Ritmo muito ágil. Maria Paula vai entrar. Depois, Ubaldo.
Bruno
- Então os poderosos estão com medo da situação?
Pensassem nisso antes de fazer o povo de idiota.
Mascarenhas
- Do jeito que você fala nem parece que nasceu
rico, como um típico burguês.
Gastão
- (irônico) Deus dá asas pra quem não sabe voar.
Mascarenhas
- Há notícias de várias células de protesto se
espalhando por aí...
PÁTRIA AMADA
Maria Paula
Bruno
Maria Paula
Mascarenhas
Bruno
Maria Paula
Mascarenhas
Ubaldo
Gastão
Bruno
Capítulo 1
Pag.:
48
- (intervindo, agressiva, a Bruno) Eu posso saber o
que é que vocês tão fazendo aqui?
- (um pouco agressivo) Eu acho mais sensato
você explicar o que você que é contra
manifestações populares tá fazendo aqui!
- (irritada) Este é o trabalho do meu pai?
- (a Bruno, ao mesmo tempo) Tá vindo do
dentista, a mãe dela me telefonou.
- (ignorando Maria Paula) Eu falei com uns
colegas de outras faculdades, seu Mascarenhas, ele
falou que já tem vários grupos fazendo indo pra
Sé, se for preciso vão fechar a Paulista também e/
- (corta, discussão brava) O meu pai, apoiando
vocês, metido em protesto popular?
- Cala a boca, Maria Paula!
- (intervindo) Confirmei agora mesmo que tem um
grupo de umas 5 mil pessoas indo pra Av. Paulista
e outro grupos um pouco maior se dirigindo à
Praça da Sé.
- (à parte, a Edgar ou Walter) Desse jeito a gente
põe até artista na parada.
- O senhor vai pra rua com a gente, seu
Mascarenhas? Afinal é um manifesto do povo em
geral.
Close de Maria Paula, apavorada, sem parar o ritmo do diálogo.
Mascarenhas
- Talvez valha a pena, porque aqui no jornal, pelo
menos por hora, ninguém saiu pra cobrir e eu não
vou poder perder uma boa matéria de capa
defendendo o movimento.
Maria Paula
- (histérica) O senhor não é estudante, não ganha
salário mínimo e nem anda de ônibus como a
maioria!
Bruno
- Não tem só estudante não, Maria Paula! Tem
gente de todas as classes, gente insatisfeita com a
situação do Brasil!
De agora em diante, falam ao mesmo tempo.
Maria Paula
- (a Bruno, histérica) Você não me dirija a palavra!
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
Pag.:
49
Mascarenhas
- O que é isso, minha filha, olha como fala com o
rapaz?
Maria Paula
- O senhor não vai pra lugar nenhum com esses
malucos reacionários, é perigoso! Logo aparece
polícia.
Mascarenhas
- Fica calma!
Maria Paula
- Sai porrada, tiro, eles não têm um mínimo de
responsabilidade, vão pra reprimir!
Bruno
- Que diabos você tá falando, garota, tá maluca?
Ninguém vai sair no braço com a PM não.
Maria Paula
- (sem ter interrompido, histérica) O senhor vai me
levar pra casa!
Edgar
- (constrangido) Se quiser eu te levo, Maria Paula,
eu não tô a fim de apanhar de cassetete não.
Todos param de falar por um instante. Bruno olha Mascarenhas. Maria Paula com
olhar suplicante ao pai. Closes alternados.
Bruno
- (a Mascarenhas) O senhor vai ou não?
Corta rápido para:
Cena 42: PALÁCIO DOS BANDEIRANTES (INT NOITE)
Um plano muito rápido, para localização. Um carro passando. Já com início do áudio
da cena seguinte.
Corta para:
Cena 43: PALÁCIO DOS BANDEIRANTES.SALA DO GOVERNADOR (INT
NOITE)
Na sala do governador. Em cena o secretário de segurança informa a situação nas ruas.
A ideia é de apenas passar rapidamente o clima do outro lado da situação.
Governador
Secretário
Governador
- Protesto pacífico uma ova! Isso vai dar merda!
- A estimativa da PM é que sejam em torno de 10
mil nesse momento. Mas pode aumentar.
- (irritado) 10 mil desocupados reivindicando seus
direitos por causa de R$ 0,20! Eles acham o quê?
Que ônibus é movido a mijo de cavalo? Diesel
custa dinheiro, pneus custam dinheiro, compra de
ônibus custam dinheiro. Depois não querem pagar
impostos altos, não colaboram! Manda a tropa de
choque ficar apostos, avisa o comandante que eu
mandei descer o cacete nesses baderneiros.
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
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50
Arruaça aqui não! Vão ver a democracia da
borracha!
Corta rápido para:
Cena 44: APARTAMENTO DE MARIA PAULA (INT NOITE)
Maria Paula sentada, muito tensa, Carmen lhe dá pra beber um calmante. Edgar foi
levá-la em casa. Muita tensão.
Maria Paula
Edgar
Maria Paula
Carmen
- (a Edgar) Se acontecer alguma coisa ruim com o
meu pai eu nem sei o que eu faço com esse cara!
- Calma aí, Maria Paula, seu pai é adulto,
vacinado,independente, um jornalista conhecido,
imparcial, não foi pra rua com os manifestantes só
porque o Bruno chamou!
- (por cima) Eu sou capaz de matar ele!
- Toma, minha filha, toma aqui um calmante.
Enquanto Maria Paula toma o calmante, Edgar despede-se de Carmen.
Carmen
- Muito obrigada pela sua gentileza, ela só tá um
pouco nervosa... (torturada) eu tô mais habituada
com as loucuras do meu marido. Eu sei como é
que são essas coisas, daqui a pouco bate o sono e
ela apaga... Maria Paula tem um xodó, louca pelo
pai.
Fade-out para:
Cena 45: APARTAMENTO DE MARIA PAULA (INT NOITE)
Tarde do dia seguinte. Carmen ao telefone, tensa. Maria Paula de olhos atentos na TV,
que dá notícias que não precisa ouvir com clareza. Dagmar e Laila perto de Carmen,
interessadas. Ritmo muito rápido.
Carmen
- (tel) Mas não tem perigo mesmo, Mascarenhas?
Como é que você foi parar no meio desse furacão?
(t) Apoiar é uma coisa agora participar é outra
coisa.(t) Nos noticiários estão informando que o
governo não vai tolerar baderna (é cortada pelo
marido, tempo) Tá bom, eu entendo que não tem
perigo, que vai ser um protesto pacífico mas vem
logo pra casa, por favor, Mascarenhas!
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
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51
Assim que desliga, Maria Paula já se aproximou e ouviu o final.
Maria Paula
- (muito tensa) Tem perigo sim! Eu vi na internet
que tá o maior tumulto em vários pontos da
cidade! A polícia já tá na rua e em alguns pontos já
tem confrontos!
Corta para:
Cena 46: PRAÇA DA SÉ (EXT NOITE)
Um plano rápido. A praça toda tomada, muitos cartazes, bandeiras do Brasil. Vemos
policiais chegando, com bombas de gás lacrimogêneo e sprays de pimenta. Gritos de
ordem e de se a corrupção não acabar o Brasil vai parar. Os mais radicais partem pra
cima da polícia jogando pedras. Policiais dão tiros com armas carregadas de bala de
borracha nos manifestantes e jogam bombas de gás. Os manifestantes revidam com
coquetel molotov
Corta para:
Cena 47: AVENIDA PAULISTA (EXT NOITE)
Apenas um plano muito rápido, mas deve dar uma intensa impressão visual, porque na
verdade deve haver umas 50 mil pessoas espalhadas pela avenida. Muitos figurantes.
Atenção edição: usar imagens divulgadas pelas mídias na composição da cena.
Intelectuais, uma maioria de estudantes, pessoas de toadas as idades e classes sociais,
mas alguns muito assustados com a ação da polícia. Explodem bombas de gás
lacrimogêneo que vêm de todos os lados. Alguns tontos, outros correndo, outros
feridos. Bruno, Mascarenhas, Gastão e Ubaldo tentam sair da confusão, mas estão no
meio da multidão, usam lenços, camisetas ou bandeiras no rosto para se protegerem do
gás. Já surge, no primeiro plano da cena, caminhando, Mascarenhas falando com
grande dificuldade, tapando o rosto com um lenço.
Mascarenhas
- Parem de revidar! Violência só gera violência! A
ideia do movimento é pacífico, sentem-se no chão
e não revidem!
Corta para:
Cena 48: AVENIDA PAULISTA / MARQUISE DE UM PRÉDIO (EXT NOITE)
Alguns estudantes se protegem. Aqui o gás é menos denso. Tiros de borracha ainda
cortam o ar vindo de várias direções. Mascarenhas, Bruno e Gastão se protegem.
Mascarenhas aproxima-se deles, assustado. Muito, muito ritmo.
PÁTRIA AMADA
Capítulo 1
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Mascarenhas
- A coisa saiu do controle. A polícia reprime e os
protestantes revidam, isso ainda vai acabar em
morte/
Pára de falar porque uma bala o atinge. Cai no chão. Bruno aproxima-se, assustado.
Toca no ombro de Mascarenhas, ensanguentado, olha sua própria mão, suja de sangue.
CAM fecha na mão de Bruno.
Corta para:
Cena 49: APARTAMENTO DE MARIA PAULA (INT NOITE)
Edgar e Carmen tentando acalmar Maria Paula. Dagmar servindo cafezinho.
Campainha toca. Todos se entreolham enquanto Carmen abre a porta. Entra Bruno,
muito assustado. Treme um pouco. Não consegue falar logo. Ao ver que ele está
sozinho, Maria Paula aproxima-se, histérica.
Maria Lúcia
- Cadê o meu pai!? (berro) O que você fez com o
meu pai?
Close de João, inseguro.
Corta.
Fim do capítulo 1
Nota:
O capítulo está enorme. Mas é bom lembrar que, há cerca de 19 laudas de rubricas, 17
laudas de rubricas de intenção, que, naturalmente, não contam tempo. Mesmo
incluindo as cenas iniciais ainda não escritas, calcula-se que o capítulo, dure uma hora.
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