Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos – 10o. Sarau Poético - 26/07/2008 O Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos Apresenta 10 . Sarau Poético o Homenagem a C astro Alves 1 Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos – 10o. Sarau Poético - 26/07/2008 Apresentação Desde 2001 (ano da fundação do PVCM - Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos), o Sarau Poético promove a articulação do estudo de literatura, na preparação para o vestibular, com a prática da cidadania através da apresentação dos poemas produzidos por alunos e também com a participação de poetas convidados. A finalidade do evento é proporcionar que o texto poético seja mais um canal de expressão dos alunos, através do qual possam ser extravasadas suas percepções ligadas à experiência da exclusão social e da construção de um movimento de inclusão autosustentável e com atuação já histórica na comunidade de Manguinhos. Tradicionalmente o Sarau é organizado em torno de um tema ou em homenagem a um autor. Já tivemos encontros em homenagem aos poetas Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, a poetisas brasileiras como Hilda Hilst, Cecília Meireles, Cora Coralina, entre outras, por ocasião do Dia Internacional da Mulher; houve, ainda, alguns saraus organizados em função do Dia da Consciência Negra. Neste 10o. Sarau, o poeta homenageado é Castro Alves. Boa Leitura! 2 Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos – 10o. Sarau Poético - 26/07/2008 Apoteótica deslumbrante Adélio Martins Foi um sonho de verão... Numa apoteose deslumbrante Seus olhos pequenos eu vi brilhando No meio da multidão Lábios macios, finos como um doce, Doce como mel! Saudade repica... Sol nascente é a canção. Nas fantasias da vida te vi Sambando com emoção Toca forte o tamborim Balançando meu coração. Gata dourada Vejo os raios do sol tocando teu corpo escultural Imagino as marcas por eles deixadas. Nas ondas do mar teus cabelos balançam, E em suas areias teu perfume me encontra Posso sentir teu suave sabor Sentir o toque dos teus finos e belos lábios nos meus Num frenesi de corpos e almas que se buscam. Teus olhos! Eles brilham nos meus... Doce e proibida paixão, Que em meu peito estremece e me enlouquece. Por ti sonho minhas ilusões Gata dourada sabor de mel. Adélio Martins Sonho de carnaval Alexandre Faria Estragos talvez adiante mas enquanto essa lua esse conhaque _________antes que tragam a conta _________antes que debande a banda Cinzas quiça logo mais 3 Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos – 10o. Sarau Poético - 26/07/2008 mas enquanto esse som esse sonho _________antes que o cantor desencante _________antes que o sol nos alcance Let's face the muisic and dance Minha terra tem consumistas Ana Paula Minha terra têm consumistas Onde canta canta o credicard E as aves, que aqui cantam, Não querem ler, nem estudar. Em cismar, sozinha, à noite, Mais terror eu encontro lá, Minha terra têm consumistas Onde canta o credicard Não se pode dormir; Porque a música média não vai deixar. Minha terra têm consumistas Onde canta o credicad Não posso andar sozinha, Pois assim vão me roubar. Minha terra têm consumistas Onde canta o credicard Não permita Deus que eu morra, Sem que ache um sentido lá; Sem que desfrute as prestações; Que posso achar por cá, Sem qu ´inda aviste as dívidas, Onde canta o credicard 4 Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos – 10o. Sarau Poético - 26/07/2008 Lítero Quero beber seu sangue E vomitar você Quero morrer numa literatura De Neruda, Drummond, de Nelson Rodrigues Sentir minhas pernas bambas Depois de na sua cama me entrelaçar André Gomes Olhar o sarcasmo de teu sorriso, Acender um cigarro, E ir embora... Bêbado Insano Te olhar me arrepia o âmago da minha alma Te ver, me faz gozar em pensamentos Beijar-te... Não quero agora. Só te ver Te ter em meus sonhos, te ver em momentos risonhos Quero tocar-te, mas não tenho este direito Restrito aos teus amantes Sonho com seus beijos e imagino-os Pelo meu corpo quente e clemente de teus lábios Passeia pelo meu corpo como numa praça em dia sol Quero deslizar por suas curvas, as mais perfeitas Quero embriagar-me de vinho, cerveja e amor Para derrapar pelas suas costas Transcorrer as minhas mãos pelo seu sexo Buscando o supra-sumo de meus desejos Ah! A textura do seu corpo... Quero penetrá-lo e ser penetrado por seu olhar Sentir pulsar o seu interior e explodir em espasmos Relaxados por você... Amar você? Não, é mais do que isso... Amo a nós dois! 5 André Gomes Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos – 10o. Sarau Poético - 26/07/2008 Fumaça Nas ruas desgraça! Governo sem raça! Garotinhos, Garotinhas, Cabrais, Maias... Sarração de idéias sem gozo final Ressacas permanentes Tiros displicentes, mortes de inocentes O brasão que nos defenderia, mata! Sociedade sem graça! Vivemos numa cortina de... ...Fumaça! André Gomes Cores Negro Amarelo Branco Misturam-se formando um povo. O povo brasileiro que luta com garra. Para que não haja essa história de raça. Eu tenho a cor desse país. Qual é a sua? Anne Marrie Salvem o Brasil! Anne Marrie Até quando, até quando... Você vai levar essa vida? Vida de boiada. Que segue o ritmo da jangada. Acorda povo e grita! Salvem o Brasil! O teu, o seu, o nosso Brasil! O amor Daniella Abreu Amar É um lindo sentimento 6 Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos – 10o. Sarau Poético - 26/07/2008 Que todos já sentiram Ou sentirão Amamos amores, objetos e amigos Ele às vezes chega E bagunça tudo que há E amamos quem não devemos amar Flutuamos quando devemos estar no chão Porque perdemos a lucidez Quando temos esse sentimento presente no coração Amamos intensamente como se fosse a primeira vez O Gondoleiro do Amor Castro Alves Teus olhos são negros, negros, Como as noites sem luar... São ardentes, são profundos, Como o negrume do mar; Nas tempestades da vida Das rajadas no furor, Foi-se a noite, tem auroras O Gondoleiro do amor. Sobre o barco dos amores, Da vida boiando à flor, Douram teus olhos a fronte Do Gondoleiro do amor. Teu seio é vaga dourada Ao tíbio clarão da lua, Que, ao murmúrio das volúpias, Arqueja, palpita nua; Tua voz é cavatina Dos palácios de Sorrento, Quando a praia beija a vaga, Quando a vaga beija o vento. Como é doce, em pensamento, Do teu colo no languor Vogar, naufragar, perder-se O Gondoleiro do amor!? E como em noites de Itália Ama um canto o pescador, Bebe a harmonia em teus cantos O Gondoleiro do amor. Teu amor na treva é—um astro, No silêncio uma canção, É brisa—nas calmarias, É abrigo—no tufão; Teu sorriso é uma aurora Que o horizante enrubesceu , —Rosa aberta com o biquinho Das aves rubras do céu; Por isso eu te amo, querida, Quer no prazer, quer na dor... Rosa! Canto! Sombra! Estrela! Do Gondoleiro do amor 7 Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos – 10o. Sarau Poético - 26/07/2008 A canção do africano Lá na úmida senzala, Sentado na estreita sala, Junto ao braseiro, no chão, Entoa o escravo o seu canto, E ao cantar correm-lhe em pranto Saudades do seu torrão ... De um lado, uma negra escrava Os olhos no filho crava, Que tem no colo a embalar... E à meia voz lá responde Ao canto, e o filhinho esconde, Talvez pra não o escutar! "Minha terra é lá bem longe, Das bandas de onde o sol vem; Esta terra é mais bonita, Mas à outra eu quero bem! "0 sol faz lá tudo em fogo, Faz em brasa toda a areia; Ninguém sabe como é belo Ver de tarde a papa-ceia! Castro Alves "Lá todos vivem felizes, Todos dançam no terreiro; A gente lá não se vende Como aqui, só por dinheiro". O escravo calou a fala, Porque na úmida sala O fogo estava a apagar; E a escrava acabou seu canto, Pra não acordar com o pranto O seu filhinho a sonhar! ............................ O escravo então foi deitar-se, Pois tinha de levantar-se Bem antes do sol nascer, E se tardasse, coitado, Teria de ser surrado, Pois bastava escravo ser. E a cativa desgraçada Deita seu filho, calada, E põe-se triste a beijá-lo, Talvez temendo que o dono Não viesse, em meio do sono, De seus braços arrancá-lo! "Aquelas terras tão grandes, Tão compridas como o mar, Com suas poucas palmeiras Dão vontade de pensar ... O “adeus” de Tereza A vez primeira que eu fitei Tereza, Como as plantas que arrasta a correnteza, A valsa nos levou nos giros seus... E amamos juntos... E depois na sala "Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala... 8 Castro Alves Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos – 10o. Sarau Poético - 26/07/2008 E ela, corando, murmurou-me: "adeus." Uma noite... entreabriu-se um reposteiro... E da alcova saía um cavaleiro Inda beijando uma mulher sem véus... Era eu... Era a pálida Teresa! "Adeus" lhe disse conservando-a presa... E ela entre beijos murmurou-me "adeus!" Passaram tempos... sec'los de delírio Prazeres divinais... gozos do Empíreo... ... Mas um dia volvi aos lares meus. Partindo eu disse — "Voltarei!... descansa!..." Ela, chorando mais que uma criança, Ela em soluços murmurou-me: "adeus!" Quando voltei... era o palácio em festa!... E a voz d'Ela e de um homem lá na orquestra Preenchiam de amor o azul dos céus. Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa! Foi a última vez que eu vi Teresa!... E ela arquejando murmurou-me: "adeus!" Força de Deus Nenhum mal entrará em minha casa. Se entrar, terá o dorso lanhado pelo fio de minha espada. Por muita luta por mim perpetrada, por ele engendrada, não sem medo rodeada, em Deus confio, não tenho nada. Quando tudo se tiver dado, a calma se restabelecerá. Porque terei ainda a meu lado 9 Elaine Pauvolid Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos – 10o. Sarau Poético - 26/07/2008 a fé a que confio minha casa, e só dormirei quando estiver deitada. Brasil! terra de ninguém Eliud Oliveira Brasil! Meu Brasil! Brasil de tantas belezas! Bonito por natureza! Há quem me dera! Nas águas de seus rios Pudesse me banhar! E das matas, Teu fruto saborear! És berço esplêndido da nação, Coração maior que a razão! Entregou-se as grandes potências, E da gente vem tirando a paciência, De ver no país, A sua INDEPENDÊNCIA! Terra de gente sofrida, Povo que sofre na lida! Carrega um fardo nas costas, Espera do Governo uma resposta! Que traga mais esperança, Para a população Que não se cansa! Lutando pela liberdade, Neste país Onde a desigualdade, Sempre foi uma realidade, Da nossa sociedade! Brasil! Liberta teu povo desta opressão, Transforma este país Numa grande nação, Respeitando a nossa CONSTITUIÇÃO... Flerte Eliud Oliveira Um olhar... Um gesto... Um aperto de mão. Dois corpos se encontrando... E deste encontro, O desejo, O tesão. Pele com pele, Boca na boca, Mãos percorrendo o corpo Num passeio frenético e louco. 10 Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos – 10o. Sarau Poético - 26/07/2008 Fomentando toda loucura de amar Na cama, Na grama, No chão, Incitando de vez a chama da paixão. Um amor incerto e insano! Que se acabou, Assim como começou! Num flerte! Apenas como um flerte! Passados remotos Eliud Oliveira Nada existe além dos medos! Nada! Nada além das torturas, de lágrimas contidas e desejos sufocados. Me perco procurando um caminho, mas a escuridão, não me deixa enxergar. O tempo vai passando e nada parece mudar. Tudo! Tudo se perdeu! Meus sonhos, minhas fantasias, minha vontade de viver. O medo continua me deixando em agonia. Não vejo razão nenhuma pra fugir desta letargia. A cada momento que passa procuro não pensar. Perco a noção do tempo pra não ter que acordar. 11 Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos – 10o. Sarau Poético - 26/07/2008 Silêncio Eliud Oliveira No silêncio da madrugada, As palavras ecoam como música aos meus ouvidos. Deixa-me tranqüila Com esperança de encontrar no dia seguinte Tudo aquilo que havia perdido! Esta tranqüilidade faz de mim a pessoa que sou hoje. Simplesmente feliz! Canção do exílio (adaptação) Eliud Oliveira Minha terra tem amigos Amigos de montão, Mas este mundo é para aqueles Poetas em construção. Seja rico Ou seja, pobre! Seja plebeu Ou seja, nobre! Não importa a sua condição O importante é ser poeta, E poeta em construção! Contramão Lilian Costa Ter idéias é perigoso, menina Não faças isso. Fique quieta. Quem sabe até podes ser... Deixa para os outros essas coisas; Fique aí, quietinha Quando perceberes Tudo terá passado 12 Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos – 10o. Sarau Poético - 26/07/2008 Serão outras histórias, Outras faces, tons e sabores. Mas fique aí não faças nada que tudo passa, tudo. Indeterminado Famintos, sujos, ruidosos Abandonados por mim por você Filhos do acaso Herdeiros do descaso Lilian Costa Fim do silêncio, do incômodo morte anunciada. Menino de rua Um dia passando pela rua para trabalhar Deparei com um menino franzino Pedindo esmola na rua Para poder alimentar-se Já que passará noites de frio, fome Dormindo ao relento sem chances Para matar a fome Ao ser abordado na rua Não hesitei em dar uns trocadinhos Para que ele pudesse satisfazer a sua vontade As autoridades competentes Olhem com carinho para as nossas crianças Dê carinho, cultura e educação Para que eles nunca mais Voltem a dormir na rua 13 Henrique Figueira da Silva Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos – 10o. Sarau Poético - 26/07/2008 Exclusão A glamourização da mísera vida é sentir sobre a terra germes famintos recusarem seu corpo Maura Cristina Profissão de fé Acredito no pão nosso de cada dia vendido a peso nas padarias portuguesas sangria de bois e caras pretas acredito no leite a esperança pasteurizada basalto para as calçadas craqueadas e descalças da favela Epitáfio Aqui jaz uma ideologia O homem leal justo honesto e humano é pura fantasia Maura Cristina Maura Cristina Cartolografia Oswaldo Martins 10 um chaplin descalço passa ao largo de mangueira a vagabunda cartola canta feridas na ribalta 11 o solilóquio do nada instaura 14 Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos – 10o. Sarau Poético - 26/07/2008 poucas imagens poucas palavras deixa que alvoreçam os códices esse pedaço podre de unha e o barbante de Chaplin Caroço Rogério Batalha Não, a carapuça caber, não me cabe Entre o esquema, o uso, o lusco e o fusco e a cidade crestado estou pelas chamas da curiosidade Não, nenhum sol metafísico importa o que há é o sal no teu umbigo a mesa posta e a luz e o pus, e o mangue no teu sangue Não, o que importa realmente é saber do petróleo dos teus olhos e do aroma subversivo de Bangu no teu Não, nenhum sol metafísico possuirá tua sanha e abismo não está à espera não indaga, não medra que graça tem se não se rebela? 15 Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos – 10o. Sarau Poético - 26/07/2008 Pré-Vestibular Comunitário de Manguinhos Turma 2008 X Sarau Poético Apoio 16