Compreensão do ecológico como argumento persuasivo na publicidade.
Autoras: Neusa Demartini Gomes1 e Rosana de Oliveira Freitas Sacchet2
Resumo
Este artigo apresenta uma pesquisa descritiva, de cunho quantitativo e qualitativo,
objetivando analisar a opinião, tanto de docentes quanto de profissionais de nível
internacional na área de comunicação sobre a utilização da ecologia enquanto argumento
publicitário.
Palavras-chave: Ecológico, Publicidade, Campanhas Publicitárias
Introdução
Pesquisar o ‘ecológico’ como argumento publicitário deu-se em função do crescente
número de produtos que atualmente recorrem a essa estratégia, dentre eles, os automóveis que
são reconhecidos por serem os principais responsáveis pela poluição do planeta.
Esta pesquisa permitiu uma interessante avaliação da ecologia, como tema de
campanhas publicitárias, sob a ótica de pesquisadores acadêmicos e profissionais da área de
comunicação, internacionalmente renomados, e objetivará, posteriormente, numa segunda
etapa, avaliar a coerência entre a ecologia presente na publicidade e a práxis dos produtos
anunciados sob este rótulo.
O procedimento metodológico utilizado foi do tipo descritivo, uma vez que, segundo
Churchill (1999), a pesquisa descritiva deve ser utilizada quando o propósito for descrever as
características de um grupo, estimar a proporção de elementos numa população específica que
tenham determinadas características ou comportamentos e descobrir ou verificar existência de
relação entre variáveis.
Esta pesquisa, que reuniu o método quantitativo (vinte e seis entrevistados) e o
qualitativo (oito entrevistados), utilizou, respectivamente como instrumentos, o questionário e
a entrevista em profundidade, aplicados durante a realização do Sétimo Congresso
Internacional de Relações Públicas, organizado pela Universidade de Miami em março de
2004, nos Estados Unidos.
1
Professora do PPGCOM/PUCRS, Doutora em Sociologia da Comunicação pela Universidade Complutense de Madrid e
Mestre em Marketing, pela Escuela Superior de Estúdios de Marketing, Madrid. Autora de “Publicidade: comunicação
persuasiva”, da Ed. Sulina,Porto Alegre
2
Professora e Consultora de Marketing, Doutoranda em Comunicação Social FAMECOS/PUCRS, Mestre em Administração
e Negócios – Marketing PUCRS, Especialista em Marketing FGV, Bacharel em Administração de Empresas UFRGS
2
Esses dados são fruto de uma amostra por conveniência, selecionada a partir de um
evento internacional de reconhecida importância na área de comunicação, que reuniu cerca de
cem palestrantes, entre pesquisadores acadêmicos e profissionais de diversos países.
Os dados qualitativos foram analisados no que tange a relevância dos ‘insights’ sobre
o tema pesquisado representando a opinião dos entrevistados de diferentes países. Já os dados
quantitativos foram submetidos a uma análise com base na moda, ou seja, nas respostas mais
freqüentes observadas no questionário.
Ecologia como ação ou como argumento publicitário?
A escolha do tema Ecologia como argumento publicitário ocorreu pela constatação de
que a Publicidade vêm utilizando, em muitas oportunidades, o ecológico como apelo
comercial. Acredita-se que, um dos motivos para tal fato, seja porque a preservação da
natureza é um tema universal. Uma preocupação coletiva. Uma necessidade vital de todas as
espécies. No entanto, o questionamento que surgiu é o seguinte: está existindo uma nova
cultura de respeito à natureza por parte das empresas para a elaboração de produtos
ecológicos e tecnologias limpas de produção em escala industrial, ou a ecologia se faz
presente apenas no discurso publicitário, como mais um dos seus elementos motivadores?
Ecologia significa ciência que estuda as relações entre os seres vivos e o meio
ambiente (Houaiss, 2003), sendo o ecológico representado por algo favorável a natureza, o
qual representa uma relação harmônica para com os recursos naturais.
Segundo textos publicados no site do IBAMA, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente
e dos Recursos Naturais Renováveis, o reconhecimento da importância dos recursos
ambientais brasileiros remonta ao período do descobrimento do Brasil, quando em carta
datada de 1º de maio de 1500, enviada ao Rei de Portugal, Pero Vaz de Caminha relata as
belezas naturais e o patrimônio existente neste país. O conceito de meio ambiente é, contudo,
bem novo, assim como a gestão do meio ambiente constitui uma atividade também recente 3 .
Em âmbito mundial, já a partir da década de 70, se seguiram uma série de esforços
internacionais voltados à preservação da natureza, dentre eles: I Simpósio sobre Poluição
Ambiental (1971); Conferência das Nações Unidas para o Ambiente Humano em Estocolmo,
Suécia (1972) com 113 nações e a Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento, Brasil, mais conhecida como Rio-92 com 170 nações, onde foi apresentado
o programa Agenda 21, o qual trouxe uma série de novos e importantes conceitos.
3
www.ibama.gov.br/Institucional
3
Agenda 21 é um programa de ação baseado num documento de quarenta capítulos que
constitui a mais ousada e abrangente tentativa já realizada de promover, em escala planetária,
um novo padrão de desenvolvimento, conciliando métodos de proteção ambiental, justiça
social e eficiência econômica4 .
Trata-se de um documento consensual para o qual contribuíram governos e
instituições da sociedade civil de 179 países num processo preparatório que durou dois anos e
culminou com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento (CNUMAD), em 1992, no Rio de Janeiro, também conhecida por ECO-92.
A Agenda 21 traduz, em ações, o conceito de “desenvolvimento sustentável”
apresentando uma série de conceitos importantes do ponto de vista do setor industrial, são
eles: ‘Desenvolvimento e Consumo Sustentável’, ‘Produtos e Empresas Ecológicos’,
Ecoeficientes’ ou ‘Ecologicamente Corretos’ e ‘Rotulagem Ambiental’5 .
‘Desenvolvimento Sustentável’ trata-se de um novo padrão de desenvolvimento,
conciliando métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica, uma
abordagem integrada a qual visa o desenvolvimento considerando a adequada administração
dos recursos, principalmente os naturais, a curto, médio e longo prazo.
‘Consumo Sustentável’ quer dizer saber usar os recursos naturais para satisfazer as
nossas necessidades, sem comprometer as necessidades e aspirações das gerações futuras. Ou
seja, vale aquele velho jargão popular: saber usar para nunca faltar.
‘Produto Ecoeficiente’ pode ser definido como sendo todo artigo que, artesanal,
manufaturado ou industrializado, de uso pessoal, alimentar, residencial, comercial, agrícola e
industrial, seja não-poluente, não-tóxico, reciclável, notadamente benéfico ao meio ambiente
e à saúde, contribuindo para o desenvolvimento de um modelo econômico e social
sustentável. O uso de matérias-primas naturais renováveis, obtidas de maneira sustentável,
bem como o reaproveitamento e a reciclagem de matérias-primas sintéticas por ‘processos
tecnológicos limpos’ são os primeiros itens de classificação de um ‘Produto Ecologicamente
Correto’.
Para ser considerada ecológica, a empresa fabricante deveria planejar o produto em
todo seu ciclo de vida útil, incluindo a fase pós-consumo. Essas medidas afetariam não apenas
a empresa, mas também seus fornecedores e consumidores, em suma, todos os elos da cadeia
produtiva6 .
4
www.mma.gov.br
www.mma.gov.br
6
www.mma.gov.br
5
4
Segundo o Ministério do Meio Ambiente do Brasil o crescimento mundial da
consciência ambiental está aumentando na sociedade o desejo de consumir produtos
ambientalmente saudáveis. Vários países do mundo já adotam mecanismos voluntários de
rotulagem ambiental, com atribuição de selos verdes
a produtos que atendam critérios de
controle ambiental previamente estabelecidos.
A rotulagem ambiental está se tornando um poderoso instrumento de mercado, pelo
qual se informa aos consumidores que determinados produtos são produzidos dentro de
padrões ambientalmente corretos7 . Isso, de certa forma, justifica o crescente número de
produtos utilizando o ecológico como argumento publicitário.
“A publicidade é um processo de comunicação persuasiva , de caráter
impessoal e controlado que, através dos meios massivos, e de forma que o
receptor identifique o emissor, dá a conhecer um produto ou serviço, com o
objetivo de informar e influir em sua compra ou aceitação” (Gomes, 2003 p.
42)
De acordo com Lomas (1996) o que a Publicidade menos mostra são as qualidades dos
produtos. O que importa é seduzir, através de slogans e imagens, a fim de fazer com que o
público acredite em algo. Os anúncios elogiam ou condenam determinados estilos de vida,
fomentam ou silenciam ideologias, ou, até mesmo, convencem às pessoas de que certos
hábitos ou condutas são melhores. São vendidos sonhos, perfeição. Proclama-se o intenso (e
efêmero) prazer dos objetos. Os anúncios apelam para os impulsos mais íntimos das pessoas,
como o poder, a estima, a distinção, o desfrute.
O autor informa que estudos funcionalistas sobre a persuasão publicitária acreditam
que a publicidade, como linguagem das indústrias culturais, vende junto com os produtos e
serviços, definições de vida, de status, esperanças e sentimentos, com fins de controle.
Do ponto de vista de Roiz (1992) tanto a Propaganda (ideológica) quanto a
Publicidade (comercial) são efetivas quando seus argumentos – ou apresentação de
significados
e
símbolos
–
se
fundamentam
nas
verdadeiras
necessidades
sociais,
especialmente àquelas mais próximas dos indivíduos como laborais, familiares e econômicas.
Segundo a teoria psicológica da Gestalt, as pessoas tendem a perceber o todo antes das
partes que compõem o conjunto, sobretudo nas primeiras impressões sobre pessoas, grupos,
instituições ou acontecimentos. Qualquer aspecto que interesse ou afete as pessoas, se
estrutura na mente de forma simplificada e limitativa e, assim, adotar uma ou outra postura
para o fenômeno. Normalmente esta percepção simplificada vai se reformulando à medida
que novos dados vão se acumulando e enriquecendo essa representação (Roiz, 1992).
7
www.mma.gov.br
5
Quando há total ignorância ou conhecimento equivocado, ou medo do contato direto
com os problemas e pessoas, perde-se a conexão com os fatos, sobre os quais se fixa a opinião
previa obtida por outras fontes. Se a esta opinião se une a tendência normal de clarear ou
simplificar os fatos, distorce-se as condições reais do objeto em maior ou menor grau. Quando
os problemas parecem graves aos indivíduos, a simplificação pressiona as emoções e os
sentimentos (Gomes, 2003).
A Propaganda e a Publicidade aproveitam-se destas tendências psicológicas para
apresentar suas mensagens e intensificam-nas ao dar a seus argumentos um caráter de
esclarecimento que os verdadeiros problemas complexos, contraditórios ou confusos nunca
têm. Os processos de simplificação dos problemas, utilizados para sua maior eficácia,
envolvem quatro procedimentos: a) uma proposta de estrutura da situação que produza uma
visão distorcida dos fatos; b) uma associação dos aspectos com os problemas das pessoas, ou
ainda, com seus valores e crenças arraigadas como patriotismo, religião, etc.; c) educação das
alternativas da situação a somente duas, totalmente opostas e contrárias: nossa/sua;
ordem/desordem; positiva/negativa, etc. e na absolutização das conclusões, para demonstrar
que o conflito entre posições opostas é radical e irredutível, e exige que se eleja um dos
extremos defendido pela propaganda (Gomes, 2003).
Os três autores citados concordam a respeito do caráter persuasivo da publicidade.
Lomas comenta, em tom crítico, o discurso publicitário persuasivo, onde o que menos aparece
são as características do produto anunciado. Portanto, os autores percebem a persuasão como
uma maneira de aumentar a eficácia à propaganda e à publicidade. Gomes diz que informar e
persuadir são os objetivos globais da publicidade, onde, informar é transmitir um
conhecimento a respeito do produto e, persuadir, supõe convencer e, para tanto, é preciso
motivar. Motivar através de um forte apelo que, no presente caso, é o ecológico.
Dois aspectos relevantes foram observados nos dizeres de Lomas e Roiz:
Tanto a propaganda quanto a publicidade são efetivas quando seus argumentos se
fundamentam nas verdadeiras necessidades sociais, especialmente àquelas mais próximas dos
indivíduos como laborais, familiares e econômicas (Roiz). E, a publicidade vende junto com
os produtos e serviços, definições de vida, de status, esperanças e sentimentos (Lomas).
Levando em consideração a visão destes autores, é possível compreender o motivo
pelo qual a ecologia é um tema que vêm se tornando freqüente como argumento publicitário.
Há , aqui, uma reunião de várias características importantes em termos persuasivos. É uma
verdadeira necessidade social. Um problema complexo, digno de simplificação. É sedutor. E
reflete os instintos mais íntimos do ser humano: a vida, a preservação das espécies e do
6
ambiente (planeta). Isso de certo modo explica também o espaço que o tema ecologia vêm
ganhando no jornalismo, na mídia impressa e eletrônica mundial, bem como na publicidade.
Muitas empresas, observando a tendência crescente em relação às questões de respeito
à natureza, perceberam, independente das exigências legais, uma oportunidade de negócio. A
partir de então, passando a relacionar na publicidade de seus produtos, entre outros atributos e
benefícios, a promessa de preservar a natureza.
A Faber Castell, empresa alemã fundada em 1761, possui 15 fábricas de lápis ao redor
do mundo. Ela utiliza madeira própria cultivada em Minas Gerais, no Brasil, para garantir a
preservação dos recursos naturais e a qualidade de seus 1.8 milhões de lápis fabricados
anualmente8 . As ações publicitárias buscando a identidade com a ecologia podem ser
observadas, entre outras oportunidades, nas embalagens de lápis coloridos infantis, que
retratam fotos de animais raros da fauna brasileira, como o Tamanduá Bandeira, o qual habita
suas florestas.
Outro exemplo interessante é o da Aracruz Celulose, empresa brasileira considerada a
maior produtora mundial de celulose branqueada de eucalipto, vendida globalmente para
fabricantes de papéis sanitários, de imprimir e escrever, e papéis especiais. As operações
florestais da Aracruz alcançam os Estados do Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais e Rio
Grande do Sul. São aproximadamente 242 mil hectares de plantios próprios de eucalipto,
intercalados com 121 mil hectares de reservas nativas de propriedade da empresa, que são
mantidas intocáveis para assegurar o equilíbrio do ecossistema. Tudo isso em nome da
utilização sustentável dos recursos naturais9 . Na publicidade, divulgam suas ações através de
um relatório social e ambiental, prestando esclarecimentos a toda a comunidade a respeito de
suas ações.
A Ford, por sua vez, lançou a camionete Ford Eco Sport, buscando inclusive no nome
do automóvel uma referência à ecologia, no entanto tal produto está bastante distante do
conceito de ‘produto ecológico’ conforme a Agenda 21
10
, e do conceito de ‘automóvel
ecológico’ da própria Ford, conforme protótipos demonstrados no evento Michelin Challenge
2003,
evento
internacional
onde
a
indústria
automobilística
apresenta
protótipos
desenvolvidos visando a sustentabilidade: utilização de tecnologias limpas e preservação da
natureza11 .
8 www.faber-castell.de
9 www.aracruz.com.br, 2003.
10 www.mma.gov.br, 2003.
11 www.challengebibendum.com, 2003.
7
Análise dos Dados
A seguir serão apresentadas as análises dos dados.
ETAPA QUANTITATIVA: QUESTIONÁRIO
Nessa etapa seguem os dados referentes à Pesquisa Exploratória Descritiva
Quantitativa. Foram entrevistados vinte e seis participantes do VII Congresso Internacional de
Relações Públicas realizado pela Universidade de Miami, Estados Unidos, no dia 13 de março
de 2004. Este evento reúne anualmente pesquisadores, acadêmicos e profissionais de diversos
países.
Dentre os entrevistados: 42% identificaram-se como acadêmicos, 38% não se
identificaram e 19%, profissionais da área.
Análise da Moda Referente a Amostra Total
Afirmativa s/ Ecologia na Publicidade ....
Respostas Mais Freqüentes
... é uma tendência Não Concordo, Nem Discordo
... apenas uma questão estética, argumento comercial.
Discordo
...tem sido usado com freqüência atualmente.
Concordo
As empresas estão investindo em produzir produtos ecológicos.
Discordo
A ecologia na indústria é uma nova cultura.
Concordo
... é normalmente incoerente com a realidade do produto anunciado.
Concordo
... é uma boa estratégia, desde que esse argumento seja coerente com a praxis do produto.
Concordo
Argumentos persuasivos, sem comprometimento ético, provocarão problemas a longo prazo.
Concordo
Fonte: Coleta de Dados
A moda das respostas referente a amostra total apresntou a resposta “Concordo” na
maioria das afirmativas em relação a ecologia na publicidade: que esta vem sendo utilizada
com freqüência atualmente; é uma nova cultura na indústria, existem normalmente
incoerências entre o discurso publicitário e a realidade dos produtos anunciados sob este
‘rótulo’, que é uma boa estratégia quando o argumento é coerente com a práxis do produto e
que a falta de comprometimento ético na escolha dos argumentos persuasivos provocarão
problemas às empresas no longo prazo.
Os entrevistados discordaram em relação a questão de que “Ecologia na publicidade é
apenas uma questão estética, um argumento comercial.” Bem como ao fato de que “As
empresas estão investindo na produção de produtos ecológicos.”
Análise da Moda Referente aos Diferentes Perfis de Entrevistados
Afirmativa s/ Ecologia na Publicidade ....
... é uma tendência
... apenas uma questão estética, argumento comercial.
...tem sido usado com freqüência atualmente.
As empresas estão investindo em produzir produtos ecológicos.
A ecologia na indústria é uma nova cultura.
... é normalmente incoerente com a realidade do produto anunciado.
... é uma boa estratégia, desde que esse argumento seja coerente com a praxis do produto.
Argumentos persuasivos, sem comprometimento ético, provocarão problemas a longo prazo.
Acadêmicos
Profissionais
Respostas mais Freqüentes
Respostas mais Freqüentes
Concordo
Discordo
Discordo
Concordo
Concordo
Concordo
Não Concordo, Nem Disconcordo
Discordo
Concordo
Concordo
Concordo
Concordo
Concordo Não Concordo, Nem Disconcordo
Concordo
Concordo Totalmente
Não Identificados
Respostas mais Freqüentes
Não Concordo, Nem Disconcordo
Não Concordo, Nem Disconcordo
Discordo
Discordo
Não Concordo, Nem Disconcordo
Não Concordo, Nem Disconcordo
Não Concordo, Nem Disconcordo
Concordo
Fonte: coleta de Dados
Entre os três perfis de profissionais da comunicação analisados, foram observadas visíveis diferenças:
Os ‘Acadêmicos’ discordam de que o uso da ecologia na publicidade é apenas uma questão estética, portanto pode se dizer que seu ponto de
vista é mais comprometido com a responsabilidade na escolha dos argumentos publicitários. E concordam que a ecologia vem sendo utilizada com
freqüência e trata-se uma tendência, não uma moda, o que representa um certo otimismo.
Os ‘Profissionais’, por sua vivência, refletem uma postura provavelmente mais realista. Concordaram que a ecologia vem sendo utilizada com
freqüência na publicidade, porém é apenas um argumento comercial escolhido por questões estéticas, refletindo a crença de que não existe um real
comprometimento com a questão ecológica. O objetivo da utilização do ecológico na publicidade é apenas comercial. No entanto concordaram
totalmente que os argumentos persuasivos escolhidos sem comprometimento ético provocarão problemas a médio e longo prazo para as empresas. Isso
denota que as escolhas feitas em termos de comunicação persuasiva são conscientes, no entanto visam apenas resultados a curto prazo.
Os ‘Não Identificados’ são pessimistas em relação a postura ecológica, não verificando sua existência nem na publicidade, nem nas indústrias.
Discordam sobre o fato de que a ecologia vem sendo utilizada com freqüência na publicidade, não acreditam que as empresas estão se esforçando em
elaborar produtos ecológicos, porém concordam que a escolha de argumentos persuasivos sem comprometimento ético é prejudicial no médio e longo
prazo.
ETAPA QUALITATIVA: ENTREVISTAS EM PROFUNDIDADE:
Foram entrevistados seis congressistas, cada um de um país diferente, para saber a
opinião sobre a utilização da ecologia como argumento persuasivo na publicidade. As
questões mais relevantes seguem descritas abaixo:
Entrevistado nº 1, Estados Unidos, concorda que os produtos estão utilizando-se da
ecologia como um apelo comercial. Para ele não existe comprometimento ético “....It’s a
fake.” Do seu ponto de vista, para que as empresas passem a se comprometer realmente, é
necessário haver legislação rigorosa. Apenas a demanda por parte do consumidor gera
“fakes”.
Entrevistado nº 2, Colômbia, pensa que a utilização da ecologia na publicidade é
mais um modismo, como as campanhas contra o uso de aerossol a uns dez anos atrás, e
hoje não se fala mais nisso. Para ela, respeitar a natureza deveria ser obrigação das
empresas, exigida por lei. Além disso os produtos ecológicos não deveriam ser mais caros,
pois esse fato incentiva o consumo dos produtos concorrentes não ecológicos,
inviabilizando a sustentabilidade.
Do ponto de vista qualitativo, o entrevistado dos Estados Unidos e a da Colômbia
mostraram-se de certa forma pessimistas. Para eles somente uma legislação muito rigorosa
poderia modificar o desrespeito das indústrias em relação a ecologia. A atual pressão dos
consumidores apenas incentivam a produtos “fake”, onde a ecologia está apenas no
discurso publicitário, não na realidade.
Entrevistado nº 3, África do Sul, afirma que a ecologia na publicidade é apenas um
argumento capaz de agradar a um grande número de pessoas. E para fazer um bom anúncio
precisa-se de um discurso capaz de agradar a maioria. É pensando nisso que se escolhe a
ecologia.
O Sul Africano observou que a utilização da ecologia como argumento de venda é
apenas um atrativo, entre outros, capaz de atrair um número enorme de pessoas. Para ele,
não existe exatamente má fé por parte das empresas.
Entrevistados nº 4, Venezuela, e entrevistado nº 5, México, dizem que o mundo
todo
está
interessado
na
sustentabilidade.
Para
eles,
existem
três
ângulos
do
desenvolvimento sustentável: Desenvolvimento Econômico; Balanço Ecológico e BemEstar Social. Acreditam que os profissionais da comunicação podem ser grandes aliados
para a conscientização ecológica e utilização deste argumento, que representa um excelente
10
negócio às empresas, não só hoje, mas principalmente no longo prazo. E concluem: A
ecologia é um argumento que agrada a todos os “steak holders”
Já o Venezuelano e a Mexicana percebem a ecologia como uma excelente estratégia
para as empresas e recomendam utiliza-la pois agrada a todos os “steak holders”.
Consideram um bom negócio para as empresas e para o planeta, não apenas agora como
principalmente no longo prazo. E salientam que os profissionais relacionados a
comunicação possuem uma grande responsabilidade nisso no que tange a incentivar a
utilização da ecologia de maneira coerente com a realidade dos produtos e a cultura das
empresas.
Entrevistado nº 6, Canadá, pensa que a ecologia é uma preocupação que vem se
tornando cada vez maior, mas no Canadá, o uso do ecológico na publicidade ainda não é
tão visível. Ela percebe que a conscientização a respeito da sustentabilidade é forte nas
crianças. A nova geração sabe quais as embalagens são recicláveis e colabora com a
ecologia. Desta forma, uma mudança real no mercado em relação a um comprometimento
com a sustentabilidade só ocorrerá a médio e longo prazo, promovido por uma geração
mais bem informada e sensibilizada: consciente da importância da sustentabilidade.
A entrevistada do Canadá crê que no longo prazo é possível uma nova cultura em
função das crianças que hoje estão bastante bem informadas e sensibilizadas a respeito
desse tema.
Conclusão:
Entre as conclusões mais importantes observadas tanto na fase qualitativa como
quantitativa estão:
- A ecologia na publicidade vem sendo utilizada com freqüência atualmente;
- Existe normalmente incoerências entre a ecologia do discurso publicitário e a realidade
dos produtos anunciados sob este ‘rótulo’.
- A ecologia é uma boa estratégia comercial quando este argumento persuasivo é coerente
com a práxis do produto.
- As empresas não estão investindo realmente em produtos ecológicos.
- A falta de comprometimento ético na escolha dos argumentos persuasivos provocarão
problemas às empresas no longo prazo.
Para solucionar o problema identificado como a utilização inadequada do
‘ecológico’ como argumento persuasivo, a fim de evitar incoerências entre a publicidade
11
dos produtos anunciadas sob este rótulo e sua realidade, seguem as seguintes sugestões
obtidas nas entrevistas em profundidade:
-
É preciso uma legislação impondo o respeito a natureza, incluindo acompanhamento
rigoroso por parte do consumidor e das autoridades competentes, resultando multas
pesadas quando verificado o não cumprimento por parte das empresas.
-
O fortalecimento dessa nova cultura de harmonia com o ecossistema a médio e longo
prazo depende muito da conscientização das novas gerações. Precisamos dar atenção a
informação e sensibilização das crianças hoje, para que elas administrem bem os
recursos naturais no futuro.
Por fim, esta pesquisa convida a uma reflexão sobre a responsabilidade dos
profissionais de comunicação, ao incentivar a utilização da ecologia como argumento
persuasivo para venda de produtos de uma maneira coerente, ressaltando a empresa os
ganhos em termos de imagem junto a todos os públicos de interesse, pode contribuir para o
desenvolvimento sustentável da indústria e de toda a humanidade.
Bibliografia
CHURCHILL Jr., Gilbert A. Marketing Research: Methodological Foundation.
Orlando-FL: The Dryden Press, 1999.
GOMES, Neusa Demartini. Publicidade - Comunicação Persuasiva. Porto Alegre:
Sulina, 2003.
HAIR, Joseph Jr., ANDERSON, Rolph, TATHAM, Ronald e BLACK, William.
Multivariate Data Analysis. New Jersey, Prentice Hall, 1998.
HOUAISS, A ; VILLAR, S. M. e FRANCO M. M. F Minidicionário Houaiss da língua
portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003
LOMAS, Carlos. El Espetáculo del Deseo: Usos y Formas de la Persuasión
Publicitária. Barcelona: Octaedros Ed. 1996.
MALHOTRA, Naresh K. Marketing Research: an Applied Orientation. Upper Sadle
River, Prentice Hall, 2001.
ROIZ, Miguel. Comunicación Técnicas Modernas de Persuasión. Universidad
Complutense de Madrid Madrid: Endema Ed. 1992.
Download

Neusa Demartini Gomes e Rosana de Oliveira Freitas