Trabalho 717
TUBERCULOSE E INFECÇÃO HOSPITALAR OU NOSOCOMIAL ENTRE ESTUDANTES DE
GRADUAÇÃO DE ENFERMAGEM E MEDICINA
Catarina Maria Oliveira Baraona1, Ethel Leonor Noia Maciel2, Thiago Prado³, Thamy Lacerda4, Wesley
Pereira Rogerio5
Resumo: Introdução: A tuberculose (TB) doença causada pela infecção pelo Mycobacterium tuberculosis
(MTB) é uma das mais importantes causas de mortalidade no mundo atual 1. A transmissão é feita por
inalação de gotículas de 1 a 5 µm de diâmetro de um doente com TB ativa, assim como quando se
praticam técnicas que induzam a formação de aerossóis contaminados como broncoscopias, indução da
expectoração e autópsias2. A TB nosocomial é definida como infecção tuberculosa adquirida por doentes
ou profissionais de saúde, numa instituição de saúde como resultado da prestação de cuidados 3. Até o
momento poucos trabalhos no Brasil têm discutido o risco ocupacional desta infecção uma vez que a TB
tem se tornado cada vez mais freqüente no âmbito hospitalar, principalmente devido à coinfecção
HIV/TB3, 4. Desde o século passado à mesma polêmica traz à tona a seguinte questão: os estudantes da
área de saúde apresentam um risco mais elevado de infecção por MTB e de adoecimento do que a
população geral. Nos diferentes locais onde o cuidado ao paciente com TB foi implantado, os
profissionais de saúde e estudantes da área de saúde são descritos como populações especialmente
expostas ao risco de contrair essa infecção e adoecer quando em presença de indivíduos com a doença 5.
Objetivos: Analisar o risco de infecção por MTB em estudantes de enfermagem e medicina da UFES e
contribuir para o debate sobre a transmissão nosocomial da TB. Metodologia: Trata-se de um estudo
transversal, com abordagem quantitativa. Os dados foram coletados através da aplicação do teste
tuberculínico (PPD), com leitura após 72h da aplicação por enfermeiras treinadas e de um instrumento de
coleta de dados. Realizou-se a análise descritiva dos dados. Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de
Ética em Pesquisa do CCS/UFES, com o protocolo nº 229/09. Resultados: Os estudantes de enfermagem
e medicina não tiveram prevalência crescente de positividade ao PPD de acordo com o progredir de suas
atividades práticas e nem os riscos foram maiores durante os anos de treinamento clínico, quando os
estudantes de enfermagem e medicina tiveram contato mais freqüentes com pacientes. Durante a
realização do estudo foi aplicado o teste de PPD em 26,9% (85) dos estudantes do curso de Graduação em
Medicina e 55% nos estudantes de enfermagem. Deste total 70,80% (51) corresponde a estudantes da fase
intermediária ou Ciclo Clínico. É importante frisar que houve 15,29% (13) de perdas referentes ao não
retorno para leitura do teste em 72h. Apesar de algumas limitações, foi possível obter o perfil
epidemiológico desta população em estudo. Neste estudo, 23% e 25% dos estudantes de medicina e
enfermagem, respectivamente foram positivos quando realizaram o PPD. No que diz respeito à idade, a
faixa etária de 22 anos foi a que esteve em maior número, 30.6% (22) representado na amostra. Já em
relação ao resultado pudemos perceber que a maioria dos estudantes 43,1% (31) são não reatores ao teste
tuberculínico, ou seja, indivíduos não infectados pelo MTB ou com hipersensibilidade reduzida. Quando
comparado os resultados do teste do PPD em 2010 com a evolução durante o curso não percebemos
prevalência crescente de positividade ao teste tuberculínico de acordo com o progredir de suas atividades
práticas, uma vez que os riscos de infecção por MTB são maiores durante os anos de treinamento clínico,
quando os estudantes de enfermagem e medicina têm contatos mais freqüentes com pacientes. Porém isto
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não descarta que os estudantes de medicina que desenvolvem seu treinamento no HUCAM/UFES possam
estar sob aumentado risco de se infectar pelo MTB 7. Conclusões: Nosso estudo apresentou limitações.
Nem todos os estudantes participaram do mesmo. Do total de 480 inscritos na Faculdade de Medicina no
ano do estudo, apenas 17,7% participaram da pesquisa. Já na escola de Enfermagem dos 250 inscritos
55% participaram da pesquisa. Um viés de seleção pode ter ocorrido, na medida em que estudantes que já
sabiam serem reatores ao TT podem não ter participado, ou, aqueles que se achavam sob maior risco de
ser infectados podem ter participado mais ativamente. A prevalência de infecção pelo MTB estimada para
a população em geral nas Américas (exceto Estados Unidos da América do Norte e Canadá) é de 25% 8.
Atribuímos nossos resultados inferiores à faixa etária jovem estudada e ao nível socioeconômico destes
alunos, muito superior ao da população em geral. Neste estudo, 19,4% dos estudantes de medicina foram
positivos quando realizaram o TT e provavelmente foram infectados pelo MTB, muito embora haja uma
chance deles terem sido infectados por outras micobactérias. Os estudos transversais são limitados na
capacidade de indicar associações causais. Um estudo longitudinal seria mais apropriado para avaliação
de risco de infecção, taxa de conversão e fatores associados ao risco de infecção 7, 9. Entretanto, através
dos resultados obtidos, não percebemos prevalência crescente de positividade ao TT de acordo com o
progredir de suas atividades práticas, o que não era esperado visto que há uma crescente tendência de
haver maior proporção de infectados, no decorrer dos períodos, a hipótese de estar ocorrendo viragem
tuberculínica neste tempo de práticas clínicas não é freqüente. O que não esta de acordo com outros
estudos realizados no Brasil que encontram uma maior prevalência de estudantes infectados com o
progredir do curso e o contato com as práticas clínicas 7, 9. Através dos dados mencionados, dentro de um
hospital universitário, o aluno de graduação poderia apresentar-se como um marcador adicional da
transmissão nosocomial pelo MTB se forem adotadas medidas de biossegurança 7. Os resultados
mostraram falta de associação entre a positividade ao TT e a vacinação com BCG. Este achado contradiz
estudos na literatura10. A maioria dos participantes do nosso estudo foi vacinada quando criança. No nosso
trabalho, a positividade ao TT provavelmente não deve ser devida à vacinação pelo BCG. Assim, o TT
continua útil na avaliação de infecção nosocomial por MTB nesta população. Somente 8,3% (6) dos
estudantes relataram utilizar sempre EPI (máscara cirúrgica ou máscara N95), o que gera uma séria
preocupação visto que a doença é transmitida através de gotículas libertadas durante a tosse ou espirros de
um doente com tuberculose ativa, isto indica que as viragens tuberculínicas podem ser menores se as
medidas de proteção do trabalhador forem adotadas nos estabelecimentos assistenciais de saúde
(FERNANDES, 2009). Devido à magnitude da tuberculose no Brasil, a maioria dos brasileiros é
considerada infectada quando adulto jovem. Dessa forma, o teste tuberculínico não é correntemente
aplicado nas escolas médicas. Estudos semelhantes deveriam ser conduzidos em outras escolas médicas
assim como em outras faculdades no Brasil. Um estudo longitudinal nos informará quanto ao risco de
infecção nosocomial entre alunos de escolas médicas. De acordo com nossos resultados, recomendamos
pelo menos um teste tuberculínico anual entre alunos de medicina que forem negativos ao teste
tuberculínico no momento de ingresso na faculdade 6,7. Em suma os estudantes de medicina que
desenvolvem seu treinamento no HUCAM/UFES podem estar sob aumentado risco de se infectar pelo
Mycobacterium tuberculosis. Faz-se necessário um programa de realização de teste tuberculínico, de
rotina, para confirmação de viragem tuberculínica, combinado com intervenções para reduzir o risco de
transmissão nosocomial no local da prática.
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Palavras chave: Tuberculose. Teste tuberculínico. Transmissão nosocomial. Estudantes de graduação em
Enfermagem e Medicina.
Referências
1. BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saúde. Plano Nacional de Controle da
Tuberculose. Brasília: Ministério da Saúde; 1999.
2. Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, Centro de Referência Prof. Hélio Fraga.
Controle da tuberculose: Uma proposta de integração ensino-serviço. Rio de Janeiro: Sociedade
Brasileira de Pneumologia e Tisiologia; 2002.
3. FERNANDES,
MHT. Turbeculose Nosocomial [Dissertação de Mestrado]. Portugal:
Universidade da Beira Interior, 2009.
4. FIGUEIREDO, RM de; CALIARI, JS. Tuberculose nosocomial e risco ocupacional: O
conhecimento produzido no Brasil. Revista de Ciências Médicas, Campinas, v.15, n.4, 2006.
5. MACIEL, ELN. Infecção por Mycobacterium tuberculosis em estudantes de enfermagem: um
estudo de incidência através do Teste PPD [Dissertação de Mestrado]. Rio de Janeiro: Escola de
Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro; 1999.
6. MACIEL, ELN; PRADO, TN do; FÁVERO, JL; MOREIRA, TR; DIETZE, R. Tuberculose em
profissionais de saúde: um novo olhar sobre um antigo problema. Jornal Brasileiro de
Pneumologia, São Paulo, v.35, n.1, 2009.
7. SILVA, et al. Prevalência de infecção pelo “Mycobacterium tuberculosis” entre alunos da
Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro. J Pneumol 27(2) – mar-abr de
2001.
8. SUDRE, P.; TEN, G.D.; KOCHI, A. Tuberculosis: a global overview of the situation today. Bull
World Health Organ 1992;70:149-159.
9. FERREIRA, FM. Prevalência de infecção por Mycobacterium tuberculosis em estudantes de
medicina da Universidade do Rio de Janeiro UNIRIO [Tese de Mestrado]. Rio de Janeiro: UFRJ,
1998.
10. MUÑOZ-BARRET et al. Comparative tuberculin reactivity to two protein derivatives. Rev Invest
Clin. 1996; 48:377-381.
Área temática: Informação/Comunicação em Saúde e Enfermagem
Eixo temático: A formação de pesquisadores e de redes de pesquisa.
1
Graduanda em Enfermagem e obstetrícia, da Universidade Federal do Espírito Santo.
2
Enfermeira, Profª Drª, Programa de Pós Graduação em Saúde Coletiva e do Núcleo de Doenças Infecciosas
da Universidade Federal do Espírito Santo.
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4
Enfermeiro, Profo MSc, Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Espírito Santo.
Enfermeira, Mestranda, Programa de Pós Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do
Espírito Santo.
5
Graduando em Enfermagem e obstetrícia, da Universidade Federal do Espírito Santo, email
[email protected].
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