Pedro Trengrouse: Governo errou ao
criar expectativa exagerada e não
conseguiu entregar
Para ganhar apoio da população, o governo ampliou de 8 para 12 o número de cidades-sede
da Copa do Mundo e prometeu obras de infraestrutura urbana que deixariam um legado dos
jogos. O feitiço virou contra o feiticeiro. Muitos projetos, incluindo até mesmo os estádios, estão
atrasados, foram reduzidos ou sequer saíram do papel. O resultado é uma onda de greves e
protestos que conseguiu tirou o clima festivo da Copa, justamente no país do futebol.
Nada disso teria acontecido se o governo tivesse criado uma agenda própria para envolver os
brasileiros no clima festivo dos jogos em vez de cumprir exigências da Fifa e inflar expectativas
em torno de um legado que não poderia entregar. É o que diz o advogado Pedro Trengrouse,
autor de uma dissertação de mestrado que orientou a criação do departamento de
responsabilidade social da Fifa. Além de já ter representado clubes como Flamengo,
Fluminense e São Paulo, foi consultor das Nações Unidas para legislação esportiva e coordena
uma pós-graduação sobre o tema na Fundação Getúlio Vargas (FGV). Para ele, o Brasil não
precisa de infraestrutura de primeiro mundo para realizar um bom Mundial, mas deveria ter sido
informado disso.
Que erros o governo cometeu para provocar tantos protestos contra a Copa?
A Copa não passa de uma grande festa, não tem o poder de transformar a infraestrutura do
Brasil ou de qualquer outro país. O governo errou ao associar a Copa a obras nos aeroportos,
mobilidade urbana, telecomunicações ou segurança. O Brasil, uma das dez maiores economias
do mundo, já deveria ter isso com ou sem Copa. Os recursos investidos nessa área já estavam
nos cofres públicos, não foram trazidos pela Copa. O erro foi incluir essas promessas no
pacote da Copa. Criou-se uma expectativa exagerada e não conseguiu entregar. A frustração é
enorme, mas as obras da Copa são os estádios, que estão prontos. Todo o resto não diz
respeito à Copa.
Essa frustração é descontada agora na Copa?
Colocam na conta da Copa a responsabilidade por algo que já deveria ter sido feito. O
problema não é dinheiro, mas gestão. Para fazer os Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio,
prometeu-se a despoluição da Baía de Guanabara, a extensão do metrô até a Barra. Nada
disso foi entregue, mas essas promessas se repetem agora para a Olimpíada de 2016. Dá para
acreditar? É um novo equívoco. Em vez de apresentar os jogos como uma grande festa para
receber de braços abertos gente do mundo todo, prometem novamente transformar a vida das
pessoas, que se frustram porque nãovêem transformação nenhuma. Isso aconteceu no Pan e
na Copa e já podemos dizer que está acontecendo na Olimpíada de 2016. Estamos cometendo
o erro recorrente de prometer demais e entregar de menos.
O argumento de que os eventos são catalisadores de investimentos que o país tem
dificuldades de fazer não é válido?
Esses eventos são uma festa, só isso. A Jornada Mundial da Juventude foi vendida como era:
um congraçamento. Todos ficaram satisfeitos, visitantes e cariocas, mesmo com todos os
problemas estruturais. A expectativa gerada foi correta. Ninguém disse que a Jornada
transformaria aeroporto ou metrô. Se Copa e Olimpíada tivessem sido vendidos na sua real
dimensão, não estaríamos vivendo todo esse mau humor. Por que esperar que o governo vai
fazer tudo o que nunca fez em pouco tempo por causa de um evento esportivo? Dizer que
Copa e Olimpíada vão transformar o país é uma ofensa à nossa inteligência. E sobretudo um
erro estratégico.
Como o governo poderia ter mudado isso?
Faltou uma agenda própria. O governo brasileiro se limitou a atender as exigências da Fifa. Um
fator importante é a privação relativa dos brasileiros em relação aos jogos. Ninguém tem
ingresso e não foi feito nada para amenizar essa sensação. Na Alemanha, em 2006, o governo
realizou eventos de exibição em telões no país inteiro. Onde foi a grande festa? Na rua! E foi o
governo que fez, não foi a Fifa. Aqui no Brasil, há o efeito inverso. Em vez de estimular eventos
públicos, que são a vocação do brasileiro, há um desestímulo. A Fifa quer cobrar direitos de
festas de rua, como o Alzirão, na Tijuca.
Mas essas barreiras não são uma contradição da Fifa, que amarra o país com tantas
exigências?
Sim, mas o governo brasileiro aceitou tudo. A Alemanha desenvolveu uma agenda própria e
negociou com a Fifa de igual para igual. Fez os eventos públicos, obrigou a compensação das
emissões de carbono. Cada país tem que fazer o seu dever de casa. A Fifa se aproveita do
interesse dos países para fazer o processo evoluir para os interesses dela. Não pode sentar à
mesa para negociar com a Fifa ou o Comitê Olímpico sem saber o que um país quer do evento.
Na África do Sul, que não tinha tradição de futebol, a Fifa investiu US$ 70 milhões em centros
de treinamento. O Brasil, mesmo com todas as deficiências da base dos clubes brasileiros, não
pediu nada. Cada um dos cinco mil municípios brasileiros merecia ter um evento de exibição
pública. Organizando esses eventos, espalha renda e leva a Copa para todo mundo. Não fazer
isso significa dizer que o povo, que está pagando a conta, vai assistir pela televisão como se os
jogos fossem no Japão. O governo ficou parado, não fez nada. Se investiu R$ 9 bilhões nos
estádios, não valia a pena investir mais 1 bilhão nisso?
O custo alto financiado pelo governo não é outro fator de insatisfação?
A idéia de que essa Copa será a mais cara de todas não é verdadeira. O estádio mais caro do
Brasil, o de Brasília, custou três vezes menos que Wembley, na Inglaterra. E não virou um
elefante branco: está batendo recorde de público. A média por assento dos estádios brasileiros
ficou em US$ 5 mil, similar à do Japão em 2002. Para o país do futebol, num momento em que
a população tem mais condições de pagar por entretenimento, esses estádios vêm em ótima
hora. É uma estupidez protestar contra a Fifa por causa da falta de saúde ou educação. O que
a Fifa tem a ver com isso? Os estádios custaram quase R$ 9 bilhões, em três ou quatro anos.
O que isso representa no orçamento anual da educação, que passa de R$ 100 bilhões? Deixar
de receber a Copa do Mundo não faria a menor diferença para o Brasil. O problema do país
não é dinheiro, é gestão, eficiência. A usina de Belo Monte, que é muito mais importante para o
Brasil do que estádio, está atrasada e não provoca a mesma comoção.
O Brasil deveria ter arrumado a casa antes de se candidatar à Copa e Olimpíada?
Não. O Brasil tem total condição de fazer, pagar e realizar um evento como a Copa. Mas tem
que ter a consciência de que vai ser a Copa do Mundo do Brasil. O país não vai se transformar
na Alemanha só porque vai receber a Copa. A Copa é uma grande festa, mas mesmo sendo
grande ainda é pequena comparada ao PIB brasileiro. Precisamos de infraestrutura por causa
do tamanho da nossa economia, não por causa da Copa. No final das contas, o Brasil pode
pagar por esses eventos, que são bons para o país e deveriam ser motivo de alegria. O Brasil
ama o futebol, adora esporte e festa.
A África do Sul também sofreu com atrasos nas obras. Que imagem ficou?
A África do Sul recebeu a Copa quase como um presente da decisão da Fifa de fazer um
rodízio de continentes. As exigências foram menores e, mesmo não tendo se preparado muito,
o país fez uma Copa maravilhosa, que projetou uma imagem favorável no exterior. Foram 64
jogos transmitidos no horário previsto para 3 bilhões de pessoas no mundo. O fundamental de
uma Copa é isso. Se teve engarrafamento para chegar ao estádio, só quem estava lá viu.
A imprensa estrangeira não mostra os defeitos?
Mostra, mas o espectador não grava. Ele quer saber do jogo, da festa.
Quando começarem os jogos, o mal estar vai desaparecer se nada atrapalhar?
É difícil dizer como o brasileiro reagirá em relação ao desempenho da seleção. O apoio popular
de quando o Brasil foi escolhido sede da Copa se deteriorou, mas já existe uma reação ao
lema ‘não vai ter copa’, como os torcedores do Corinthians que abraçaram o Itaquerão na
inauguração do estádio. O direito de protestar das pessoas precisa ser compreendido na
limitação de um país democrático.
O governo tem agido bem para arrefecer os ânimos?
Não. O governo está perdido. Continua falando em aeroporto e mobilidade a 20 dias da Copa
em vez de falar do evento. É uma postura que só reforça a frustração.
O governo diz respeitar o direito de protestar, mas não vai tolerar ações para impedir a
realização dos jogos. É a postura correta?
O governo não precisava falar nada. Nenhuma democracia pode tolerar vandalismo. Quando
as coisas chegam a esse ponto numa manifestação em Paris e a polícia intervém, a França
não fica menos democrática.
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