CGUL-NL Boletim do Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa N. 9 Neste número Notícias 1 Fim de semana de MOG 3 Há uma só Terra 6 Parametrização de processos de 9 superfície associados à neve Degelo rápido ou lento da “Terra 11 Bola de Neve”? Artigos Conferências e Seminários do CGUL 14 Notas de geofísica aplicada 16 JUNHO 2008 EDITORIAL Eis o número de Junho do Boletim do CGUL. Nas notícias destacam-se: o prémio atribuído ao investigador Ricardo Trigo, bem como a expedição científica ao Kilimanjaro dirigida pelo investigador Rui Fernandes. Também o investigador Eric Front estará envolvido numa expedição à Namíbia durante este mês de Junho. Leia na página 11 o que buscam os cientistas nesta expedição. Neste número há dois artigos dedicados à divulgação da geofísica: um é referente ao fim de semana organizado pelos alunos de geofísica (página 3) sendo o outro relativo à divulgação feita nas escolas do ensino secundário. A correcta parametrização dos processos associados à neve é fundamental nos modelos de circulação global em meteorologia. Este assunto é um dos temas de investigação no CGUL e discutido nesta NL. Esta NL inclui uma lista da participação dos membros do CGUL em conferências realizadas nos últimos meses bem como dos artigos publicados em revistas da especialidade. A NL termina com as NGA onde se faz a apresentação do método da resistividade tensorial. Veja a previsão do tempo (pluviosidade, vento etc) em: http://www.igidl.ul.pt/ PRÉMIO IJC DA ROYAL METEOROLOGICAL SOCIETY No dia 18 de Junho de 2008 vai ser entregue pela Royal Meteorological Society o Prémio do International Journal of Climatology ao investigador Ricardo Trigo, pelo conjunto de artigos científicos publicados naquela revista nos últimos cinco anos. Desejamos uma boa leitura e agradecemos a divulgação deste Boletim. NOTÍCIAS Manifeste o seu interesse em receber a News Letter do CGUL enviando um email para [email protected] O investigador do CGUL Rui Fernandes está a organizar uma missão ao Kilimanjaro destinada a estabelecer a altitude e o campo gravítico no alto do Kilimanjaro, o maior acidente topográfico de África, com o objectivo de testar os modelos de referência para aquele continente. Pag. 2 CGUL-NL Ricardo Machado Trigo, investigador do CGUL foi distinguido com o prémio “International Journal of Climatology “ atribuido pela Royal Meteorological Society pelo conjunto de artigos científicos publicados naquela revista nos últimos cinco anos: Trigo R.M., Pozo-Vazquez D., Osborn T.J, Castro-Diez Y., Gámis-Fortis S., Esteban-Parra M.J. (2004) “North Atlantic Oscillation influence on precipitation, river flow and water resources in the Iberian Peninsula”. International Journal of Climatology. 24, 925-944. Trigo R.M., Pereira J.M.C., Pereira M.G., Mota B., Calado M.T., DaCamara C.C., Santo F.E. (2006) “The exceptional fire season of summer 2003 in Portugal”. International Journal of Climatology, 26 (13): 1741-1757 NOV 15 2006. Rodrigo, F.S, Trigo R.M. (2007) “Trends in daily rainfall in the Iberian Peninsula from 1951 to 2002”. International Journal of Climatology, 27, 513– 529, DOI: 10.1002/joc.1409. Gouveia C., Trigo R.M., DaCamara C.C., Libonati R., Pereira J.M.C. (2008) "The North Atlantic Oscillation and European vegetation dynamics" International Journal of Climatology, DOI: 10.1002/joc.1682 Trigo R.M., Vaquero J.M, Alcoforado M.J., Barriendos M., Taborda J., Garcia-Herrera R., Luterbacher J. (2008) "Iberia in 1816, the year without a summer" International Journal of Climatology, DOI: 10.1002/joc.1693 A cerimónia de atribuição dos vários prémios da Royal Meteorological Society terá lugar no Imperial College de Londres no próximo dia 18 de Junho de 2008. Visite a página web do CGUL-IDL em http://www.igidl.ul.pt/ ge.htm Morreu o pai da teoria do caos O matemático e meteorologista norte-americano Edward Lorenz, "pai" da Teoria do Caos, morreu ontem, aos 90 anos, na sua casa em Cambridge, no Estado de Massachusetts. Edward Lorenz era professor no Instituto Tecnológico de Massachusetts quando desenvolveu o conceito científico, conhecido por "efeito borboleta" ou Teoria do Caos, de que pequenos efeitos levam a grandes mudanças. A seu ver, qualquer coisa tão minúscula como uma borboleta a bater as asas no Brasil muda o movimento constante da atmosfera, a ponto de gerar tornados no Texas. A descoberta do "caos determinístico" trouxe "uma das mais dramáticas mudanças no modo de encarar a natureza desde Isaac Newton", considerou a comissão que galardoou Lorenz, em 1991, com Prémio Quioto, para as Ciências Básicas. Edward Lorenz surgiu com o conceito da "Teoria do Caos" nos anos 60 através dos seus hábitos de trabalho meticulosos, segundo um dos seus antigos estudantes. Lusa (17-04-2008) As Jornadas Científicas de Espeleologia da FPE, que decorreram em Leiria, contaram com a participação de Fernando Santos, Rui Gonçalves, João Plancha e Nuno Morgadinho do CGUL.. Os investigadores e colaboradores do CGUL participaram numa sessão de demonstração de GeoRadar (GPR) e do método da resistividade, métodos com grande aplicação no estudo do carso tendo apresentado ainda uma comunicação sobre o tema O uso da geofísica no estudo dos meios cársicos. http://www.fpe-espeleo.org/eventos/jornadascientificas/ Pag. 3 N. 9 Fim de semana de MOG Introdução Nos dias 12, 13 e 14 de Abril realizou-se pela primeira vez um fim-de-semana dedicado à componente prática do curso de Geofísica. Idealizado e organizado por alunos, este fim-de-semana teve como objectivos principais a realização de actividades práticas nas áreas de meteorologia e de geofísica interna de modo a mostrar aos alunos dos primeiros anos o que se faz no campo (uma lacuna sentida por todos nós). Actividades deste género também ajudam os alunos a decidir que área seguir e a ganhar alguma experiência em campo que não obtém nas aulas. Local As actividades foram realizadas no Vale do Lapedo, na região de Leiria. O Vale do Lapedo é uma região de grande relevância arqueológica. Esta zona é muito carsificada, existindo, por isso, muitas cavidades preenchidas ou não. A aproximação das jornadas científicas de espeleologia, que seriam realizadas na mesma zona, e o apoio dado por arqueólogos e geólogos do local, foram factores decisivos na escolha deste local para a realização do Fim de Semana de MOG. Actividades Antes de se realizarem as actividades práticas, os alunos tiveram duas aulas introdutórias sobre os trabalhos que iriam realizar em campo. Foram resumidos conceitos essenciais de prospecção sísmica e geoeléctrica, que também serão úteis no futuro. Em meteorologia, os fundamentos teóricos, foram cedidos aos alunos em forma de sebentas. Na área de meteorologia foram realizadas radiosondagens, medições com o anemómetro sónico e instrumentos portáteis, medições de altitude e observações de nuvens. Pag. 4 CGUL-NL Opiniões e lições a tirar As actividades de geofísica foram divididas entre métodos de resistividade e os métodos sísmicos. No método de resistividade fez-se um perfil com o dispositivo dipolo-dipolo. Os dados foram registados pelos alunos que aprenderam a trabalhar com o novo resistivimetro. No último dia contámos com a presença do professor Luís Matias que nos orientou na realização de um perfil sísmico de reflexão e refracção. Para complementar, os dados obtidos pelo método da resistividade e pelos métodos sísmicos, realizou-se um levantamento topográfico da área estudada utilizando uma estação total emprestada pelo Professor Carlos Antunes. O feedback por parte dos alunos foi bastante positivo pelo que se esperam mais edições deste fim-desemana. Algumas das críticas estão relacionadas com os tempos mortos devido a problemas com o equipamento ou à falta de trabalho para todos os alunos e também com a falta de sincronização entre actividades pois estas decorriam em simultâneo. Das sugestões dadas há que realçar uma futura integração de actividades de oceanografia e uma participação mais activa na área de engenharia geográfica, orientação por parte dos professores no tratamento e interpretação dos dados obtidos e um maior envolvimento de alunos mais novos na planificação do fim-de-semana para que no futuro, os alunos mais velhos, possam passar o testemunho. Este fim-de-semana de MOG permitiu, também, uma maior ligação entre alunos dos diferentes anos e professores. Agradecimentos Queremos agradecer ao Professor José Simões pela sua presença durante o fim-de-semana. Aos professores Luís Matias e Fernando Santos pelas lições teóricas e práticas e utilização dos equipamentos. Ao professor Carlos Antunes pelo empréstimo e explicação do funcionamento da estação total. Também aos professores Pedro Miranda, Miguel Miranda, Paula Teves Costa, a Victor Prior do IM, a Pedro Ferreira do Centro de Interpretação do Vale do Lapedo, a Gabriel Mendes da Federação Portuguesa de Espeleologia e ao CGUL os nossos agradecimentos pelo o apoio dado. [Daniela Alves e alunos de MOG] Pag. 5 CGUL-NL “O feedback por parte dos alunos foi bastante positivo pelo que se esperam mais edições deste fim-de-semana.” “Este fim-de-semana de MOG permitiu, também, uma maior ligação entre alunos dos diferentes anos e professores.” Pag. 6 CGUL-NL Há uma só Terra! “Há uma só Terra!” é um Projecto Pedagógico integrado nas celebrações do Ano Internacional do Planeta Terra 2008 (AIPT 2008) tendo por objectivo central avivar nas Escolas a consciencialização que o nosso Planeta é único e importa compreendê-lo para melhor o preservar. Este projecto corresponde a uma parceria das Universidades do Minho e de Lisboa (CGUL e IO), com o Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro (DGUA), o Centro Ciência Viva do Algarve (CCVA) e ainda o Centro de Vulcanologia e Avaliação de Riscos Geológicos dos Açores (CVARG), e insere-se no conjunto de iniciativas promovidas pela Comissão Nacional da UNESCO. O projecto “Há uma só Terra!” integra-se na actividade “Rocha Amiga”, uma iniciativa coordenada pela Universidade do Minho e financiada pela Agência Ciência Viva. O Planeta Mágico Foi uma imagem semelhante a esta que se ofereceu aos astronautas da missão Apolo 8, em 1968, quando estes orbitavam a Lua. Pela primeira vez para a humanidade, o Planeta Terra era visto como um todo, uma unidade diversa e frágil na imensidão do Universo. Na opinião de um dos astronautas (Archibald MacLeish) “Ver a Terra como ela é realmente, pequena, azul e bela nesse silêncio eterno em que flutua, é como vermo-nos como viajantes sobre a Terra, irmãos nessa beleza a brilhar no frio eterno – irmãos que sabem agora que são verdadeiros irmãos.” Estas imagens inspiraram não só os astronautas mas a Sociedade Humana que em 1970, apenas dois anos depois, viu nascer o moderno movimento em defesa do ambiente (in: Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore). As sensações sentidas pelos astronautas podem agora ser reproduzidas para os alunos e professores do Ensino Básico e Secundário, e para o público em geral, graças ao Planeta Mágico. Para além da representação do nosso planeta, “tal como ele é”, o Planeta Mágico permite ainda comunicar de forma cativante todos os assuntos científicos e sociais de carácter planetário. O Planeta Mágico é um sistema de projecção num ecrã esférico que permite representar o Planeta Terra com um enorme realismo. Este globo é um produto da empresa “Global Imagination” e é comercializado em Portugal pela empresa Imediata. O Projecto “Há uma só Terra!” deseja desenvolver nos alunos de todos os níveis escolares e também no público em geral a consciência da riqueza, beleza e fragilidade do nosso planeta, sujeito às perturbações causadas pela Sociedade humana. Para esse efeito foram já desenvolvidas três apresentações para serem exibidas em PowerPoint num ecrã ou monitor de computador, sincronizadas com as imagens e animações que correm no Planeta Mágico. Estas imagens têm de ter um tratamento especial e por isso o projecto beneficiou do grande número de conteúdos já disponíveis para este equipamento, preparadas por grandes agências internacionais e fornecidas pelo fabricante e distribuidor. Algumas imagens apresentadas no Planeta Mágico já foram desenvolvidas no âmbito deste projecto por investigadores do CGUL e do IO (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa) em colaboração com os restantes parceiros. Pag. 7 CGUL-NL Os temas já desenvolvidos são: - Terra um Planeta Vivo! A tectónica de Placas - Terra um Planeta Vivo! A atmosfera - Terra um Planeta em Perigo! No País temos três pólos instalados de forma a cobrir as Escolas do Continente nas Regiões Norte, Centro e Sul, respectivamente constituídos pelo DGUA, CGUL e IO e CCVA. Um quarto pólo nos Açores (CVARG) alarga esta actividade a este Arquipélago. Cada um destes pólos está em condições de operar e realizar a itinerância pelas Escolas da sua área de influência. Quando os equipamentos não estão em itinerância, os responsáveis de cada pólo terão o equipamento em exibição permanente para usufruto de outro tipo de públicos, na Universidade de Aveiro (Departamento de Geociências), nos Museus da Politécnica (Lisboa), no CCVA em Faro e na Universidade dos Açores (CVARG). Neste caso um quiosque irá permitir a interacção dos visitantes com o planeta através de um ecrã táctil. Mais informações sobre este projecto, nomeadamente as condições para que cada Escola possa aderir à iniciativa, podem ser encontradas na página Web do projecto: http://www.cgul.ul.pt/lmatias/ haumasoterra/ Primeira experiência Por vários motivos, o Planeta Mágico só iniciou as visitas às Escolas no final de Maio. A primeira escola visitada foi a Escola Secundária Professor Herculano de Carvalho, nos Olivais em Lisboa. Esta visita, coordenada pela Professora Ermelinda Ribeiro foi um enorme sucesso. O equipamento foi instalado na Biblioteca cumprindo-se um programa de visitas que permitiu que mais de 20 turmas do 9º ao 12º ano assistissem às apresentações com a coordenação de um Professor. As reacções dos alunos dos diversos níveis foi encorajante e uma recompensa para o enorme esforço dispensado pelo projecto e pelos professoras da Escola. Pag. 8 CGUL-NL O Planeta Mágico irá de Férias para o Centro Ciência Viva do Algarve mas o projecto “Há uma só Terra!” estará de volta às Escolas de Portugal Continental e Açores já a partir de Setembro. [Luis Matias, coordenador do projecto “Há uma só Terra!”] Saiba mais em http://www.progeo.pt/aipt/index.html http://terra.fc.ul.pt/ http://globalimagination.com/ http://www.imediata.pt/principal.aspx e http://www.magicplanet.imediata.pt/ Pag. 9 CGUL-NL INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA NO CGUL Parametrização de processos de superfície associados à Neve Introdução Uma das características mais importantes do clima terrestre é a presença ou ausência de cobertura de neve. Nas latitudes médias e elevadas, a cobertura de neve apresenta um ciclo sazonal - acumulação na estação fria e depleção no início e durante a estação quente. Nas zonas polares, e em altitudes elevadas, a cobertura da neve é permanente, i.e., existe acumulação durante a estação fria, mas a depleção é apenas parcial durante a estação quente. A cobertura da neve é importante para o clima terrestre porque: (i) a neve reflecte grande parte a radiação solar de curto comprimento de onda (i.e. tem um elevado albedo), afectando significativamente o balanço de energia à superfície; (ii) o manto de neve é um componente relevante no ciclo hidrológico, actuando como reservatório de água nas estações frias, e fonte para a atmosfera ou solo nas estações quentes e; (iii) uma maior depleção no Verão do que acumulação no Inverno pode induzir o recuo dos glaciares e redução das calotes polares. A simulação/representação dos processos físicos associados à neve, em especial neve sazonal, é uma das componentes dos modelos de superfície, que por sua vez estão associados a modelos de circulação global. Devido às diferentes escalas temporais e espaciais associadas à hidrologia da neve, a sua importância vai desde a previsão do estado do tempo a curto prazo, passando pelas previsões sazonais, e simulações de clima futuro. De seguida são apresentadas as principais características do esquema de neve que integra o modelo HTESSEL (Viterbo e Beljaars 1995; Balsamo et. al, 2008) (modelo de superfície do ECMWF – European Center for Medium Range Weather Forecast), bem como novos desenvolvimentos realizados no CGUL-IDL. Após a participação do HTESSEL num projecto de inter-comparação de modelos de neve - SNOWMIP2 - várias deficiências foram identificadas. Duas novas parametrizações para a representação do conteúdo em água líquida na neve, e uma nova parametrização para a densidade da neve foram desenvolvidas e testadas quer localmente quer a nível global. Novas parametrizações O esquema de neve presente no modelo HTESSEL considera uma única camada de neve, com equações de prognóstico para a massa de água equivalente na neve (SWE – snow water equivalent), densidade, albedo e temperatura da neve. No presente esquema, o conteúdo em água líquida no manto de neve não é considerado, e a parametrização da densidade é baseada numa lei de decaimento exponencial função da idade da neve. A representação do conteúdo de água líquida no manto de neve tem um efeito importante no balanço de energia da neve. Este efeito é predominante durante o período de depleção, já que a água líquida que derrete durante o dia pode voltar a congelar durante a noite. Este processo leva, normalmente, a um atraso do desaparecimento da neve - um dos problemas identificado no HTESSEL era a depleção precoce do manto de neve. Foram desenvolvidos dois esquemas para a representação do conteúdo de água líquida no manto de neve: (i) LWDIAG - como diagnóstico das variáveis de prognóstico já existentes e (ii) LWPROG - com uma nova equação de prognóstico. Também foi implementada uma nova parametrização para a evolução da densidade da neve. Para a representação do conteúdo em água líquida no manto de neve como diagnóstico adicionou-se um novo termo à equação de balanço de energia – transições de fase internas. Na aproximação utilizada, o conteúdo em água líquida é representado como função da temperatura e massa total da neve. Para melhor compreender os efeitos e processos associados ao conteúdo em água líquida no manto de neve, uma nova equação de prognóstico para esta variável foi incluída no modelo. Ao contrário do esquema de diagnóstico, o esquema de prognóstico permite incluir a intersecção de precipitação pelo manto de neve. Desta forma é possível avaliar o impacto da precipitação na neve, quer no balanço de energia quer no balanço de água. A nova parametrização da densidade da neve é baseada numa equação de prognóstico que inclui três dos principais processos físicos que levam à compactação da neve: (i) metamorfismo destrutivo (ii) sobrecarga, e (iii) degelo. Validação O forçamento atmosférico e observações provenientes do projecto SNOWMIP2 foram utilizados para validar localmente as novas parametrizações. Foram utilizados dados em 6 locais (BERMS – Canada; ALPTAL – Suíça; FRASER – USA; Hitsujigaoka – Japão; Hyytiälä – Finlândia; Col De Porte – França) para dois invernos em zona de floresta e de clareira. A partir das observações da massa de neve, é possível estimar a duração da cobertura de neve (ver figura 1 topo), e posteriormente comparar com os resultados do modelo. A figura 1 apresenta a diferenças (em dias) entre as várias parametrizações e as observações. É possível observar comportamentos diferentes das parametrizações nos locais de floresta e de clareira. Nas clareiras, quer o HTESSEL, quer as novas parametrizações tendem a sobrestimar a duração da neve, enquanto nos locais de floresta as novas parametrizações melhoram significativamente a duração da cobertura de neve. Estes resultados indicam que a representação do conteúdo em água líquida no manto de neve tem um impacto positivo nos resultados do modelo, mas existem outros processos que necessitam de ser melhorados (ex: adici- N. 9 Pag. 10 onar várias camadas ao modelo, por forma a melhorar o balanço de energia à superfície e consequentemente os tempos e degelo). A nova parametrização da densidade da neve é independente do conteúdo em água líquida na neve, e melhora significativamente a evolução temporal da densidade da neve no modelo em todos os locais testados. Fig. 1 – Duração observada da cobertura de neve nos locais SNOWMIP2 (topo), e diferenças entre modelos e observações (fundo). As estações estão separadas entre zonas de floresta (direita) e zonas de clareiras (esquerda). As cores representam: azul-escuro – médias dos resultados de todos os modelos que participaram no SNOWMIP2; azul-claro – HTESSEL; amarelo – HTESSEL com a nova parametrização do LWDIAG; vermelho – HTESSEL com a nova parametrização LWPROG. A avaliação global das parametrizações foi efectuada recorrendo a simulações com uma resolução 1°×1° para o período 198601 – 199512 utilizando forçamento atmosférico do projecto GSWP-2 (Dirmeyer 1999). A análise foi de novo centrada na duração da cobertura de neve, já que esta quantidade é muito importante do ponto de vista dos modelos atmosféricos. A figura 2 representa a diferenças na duração da cobertura de neve entre o HTESSEL e as várias parametrizações. A validação é efectuada comparando as diferenças entre o HTESSEL e a reanálise ERA-40 (Uppala 2006) (para o período 198601 – 199512). O modelo HTESSEL tende a subestimar a duração da neve (fig. 2a) em grande parte do hemisfério Norte. O esquema LWDIAG tem um efeito reduzido na duração da cobertura da neve, quando comparado com o LWPROG, que aumenta a duração da neve em grande parte do hemisfério Norte. A intercepção da precipitação também aumenta a duração da cobertura de neve, já que a precipitação ao atingir o manto de neve pode congelar, se este estiver suficientemente frio, aumentando a massa de neve e consequentemente a sua duração. Alguns dos problemas identificados no modelo HTESSEL foram ultrapassados com a nova parametrização. No entanto, ainda existem alguns problemas, em especial no balanço de energia que necessita de um modelo com várias camadas de forma a resolver as várias escalas de tempo associadas à neve. A presente validação foi efectuada apenas em simulações offline, i.e. sem interacção com a atmosfera. Presentemente estão a ser efectuadas simulações com o modelo atmosférico, de forma a validar os esquemas, e analisar mecanismos de feedback que sejam amplificados/alterados com as novas parametrizações. [E. Dutra] Fig. 2 – Diferenças na duração média da cobertura de neve no hemisfério Norte entre: a) HTESSEL e ERA-40, b) LWDIAG e HTESSEL, c) LWPROG e HTESSEL, e d) LWPROG sem intercepção de precipitação e HTESSEL. Escala de cores em a) diferente das restantes. Referências Balsamo, G., P. Viterbo, A. Beljaars, B.J.J.M. van den Hurk, A. Betts and K. Scipal, 2008: A revised hydrology for the ECMWF model: Verification from field site to terrestrial water storage and impact in the Integrated Forecast System J. Hydrometeor. Dirmeyer, P., A. Dolman, and N. Sato, 1999: The pilot phase of the global soil wetness project. Bull. Am. Meteorol. Soc., 80, 851-878. Uppala, S., et al., 2006: The era-40 re-analysis. Q. J. R. Meteorol. Soc., 131, 2961-3012. Viterbo, P. and A. C. M. Beljaars, 1995: An improved land surface parametrization scheme in the ECMWF model and its validation. J. Climate, 8, 2716-2748 Pag. 11 CGUL-NL Degelo rápido ou lento da “Terra Bola de Neve”? O registo dos “carbonatos de capa” do Brasil.... No Neoproterozóico, a Terra pode ter passado por pólo seguinte: Lat=-82,6 e Long= 292,6 (N=13, A95=7,8, vários eventos de glaciação e rápida deglaciação, como K=29,1) (Trindade et al., 2003). A origem primária da sugere a ampla distribuição de sedimentos glaciais des- componente remanescente foi confirmada por um estu- ta idade que se encontram sistematicamente cobertos do detalhado de magnetismo de rocha e de petrografia por seqüências carbonatadas (cap carbonates). Estudos óptica e eletrônica (Font et al., 2005). Os dolomitos da paleomagnéticos indicam que algumas destas succes- Formação Mirassol do Oeste registaram diversas inver- sões sedimentares foram depositadas em baixas latitu- sões do campo magnético terrestre que não coincidem des, sugerindo que as calotas de gelo cobriram toda a com superfícies estratigráficas. superfície do planeta. Esta hipótese, conhecida como Esses resultados forneceram o primeiro pólo paleo- “Terra Bola de Neve” (Snowball Earth;Hoffman et al., magnético para o cratão Amazônico nessa época e con- 1998), evoca as mudanças climáticas mais extremas da firmaram o caráter global da glaciação durante um even- história da Terra, as quais poderiam ter levado à diversi- to de “Terra Bola de Neve”. Por outro lado, a presença ficação de formas de vida do início do Câmbrico. de inversões geomagnéticas fornece um constrangimen- Os dados paleomagnéticos obtidos nos carbonatos to para a idade da deposição dos carbonatos de capa Neoproterozóicos do Grupo Araras, Mato Grosso, permi- estimada em 103-104 anos pelo modelo da “Terra Bola tiram confirmar uma deposição em baixas latitudes (22º), de Neve”. Enquanto que o modelo evoca um período para os dois tipos de sedimentos: glaciais e “carbonatos pós-glacial extremamente rápido, os resultados paleo- de capa”. A componente magnética isolada forneceu o magnéticos dos carbonatos de capa do Brasil indicam Dados paleomagnéticos de referência indicando uma deposição dos carbonatos de capa a baixa latitude (modificado de Evans, 2000). N. 9 Pag. 12 Resultados paleomagnéticos e composições isotópicas de C e O das dolomitas da Formação Mirassol do Oeste (MT, Brasil) de dois perfis estratigráficos (TR e SA). As amostras TC correspondem a um bloco de dolomite amostrado na base do contato com os diamictitos de modo a avaliar o registo das variações seculares (Font et al., in preparation). um tempo de 105-106 anos e consequentemente um período pós-glacial relativamente lento. Estudos posteriores confirmaram a presença de inversões do campo magnético nos carbonatos de capa em Oman (Kilner et al., 2005) e na Austrália (Raub and Evans, 2007) reforçando o debate. Para explicar essa sedimentação lenta e as assinaturas isotópica e geoquímica dos dolomitos, foi proposto um modelo de precipitação com a intervenção de microorganismos. Os dados quimioestratigráficos obtidos na Formação Mirassol do Oeste indicam que os dolomitos precipitaram num ambiente anóxico e possivelmente influenciado pela actividade de bactérias sulfato-redutoras. Este tipo de ambiente é conhecido por ser favorável à precipitação de dolomite primária em ambientes lagunares hipersalinos modernos (Vasconcelos et al., 1995). As taxas de precipitação da dolomite microbiana estimadas a partir das culturas in-vivo dos tapetes microbianos da Lagoa Vermelha são da ordem de 0.02 cm/ano e suportam os valores de 0.04 cm/ano calculadas a partir dos dados paleomagnéticos. De 5 a 13 de junho de 2008, decorrerá uma expedição organizada pelo geólogo Paul Hoffman, Professor da Universidade de Harvard, visando estudar as secções neoproterozóicas da Namíbia, consideradas como sequências de referência. A excursão envolve uma equipa de 20 especialistas, principalmente dos Estados Unidos, mas também da Alemanha, do Brasil, da China e de Portugal. A participação portuguesa, através do investigador Eric Font do Instituto IDL da Facul- Pag. 13 CGUL-NL dade de Ciências de Lisboa, justifica-se pelo seu papel no debate actual sobre o período do degelo após um evento de Terra “Bola de Neve”. Desde a publicação dos resultados paleomagnéticos das seqüências neoproterozóicas do Brasil, o debate continua aceso entre os proponentes de um evento extremamente rápido e os de um degelo muito mais lento do que o previsto pelo modelo. [E. Font] No Neoproterozóico, a Terra pode ter passado por vários eventos de glaciação e rápida deglaciação, como sugere a ampla distribuição de sedimentos glaciais desta idade que se encontram sistematicamente cobertos por sequências carbonatadas (cap carbonates). Estudos paleomagnéticos indicam que algumas destas successões sedimentares foram depositadas em baixas latitudes, sugerindo que as calotas de gelo cobriram toda a superfície do planeta. Esta hipótese, conhecida como “Terra Bola de Neve” (Snowball Earth;Hoffman et al., 1998), evoca as mudanças climáticas mais extremas da história da Terra, as quais poderiam ter levado à diversificação de formas de vida do início do Câmbrico. N. 9 Pag. 14 Artigos publicados nos últimos meses [] David Barriopedro, Ricardo García-Herrera and Radan Huth. Solar modulation of Northern Hemisphere winter blocking Journal of Geophysical Reaserch Letters - Atmospheres. [] Neves, M.C., Terrinha, P., Afilhado, A., Moulin, M., Matias, L., Rosas, F., Response of a multi-domain continental margin to compression: study from seismic reflection - refraction and numerical modelling in the Tagus Abyssal Plain, Tectonophysics (2008), doi: 10.1016/j.tecto.2008.05.008 [] Y. Le Page, J. M. C. Pereira, R.M. Trigo, C. da Camara, D. Oom, and B. Mota (2008) "Global fire activity patterns (1996-2006) and climatic influence: an analysis using the World Fire Atlas", Atmos. Chem. Phys., 8, 19111924. [] Nieto R., Trigo R.M., Gimeno L.(2008) "Potential outflows pathways for Iberian atmospheric middle-lived pollution". The Open Atmospheric Science Journal, 2, 18-22; doi: 10.2174/1874282300802010018. 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C8 1749-016 Lisboa Phone: +351 217500000 Fax: +351 217500977 Visite o nosso site http://www.igidl.ul.pt/ A resistividade é um método clássico de podem-se fazer SEVs em várias direcções prospecção que muito tem contribuído (SEVs radiais) ou usar o dispositivo do quapara a investigação do subsolo em domíni- drado. os tão diversas como a hidrogeologia, a Há, no entanto, um modo mais sofisticado, e arqueologia, a geotecnia ou mesmo a geo- melhor, de obter aquela informação através termia. Este método é usado para se obter do método da resistividade tensorial. Neste uma imagem da distribuição da resistivida- método são usados dois pares de eléctrodos de corrente de eléctrica do subsolo. (A1B1 e A utilização do método obriga à injecção A2B2) e de corrente eléctrica no terreno, através de dois pares dois eléctrodos de corrente, e a leitura da de eléctrodiferença de potencial eléctrico entre dois dos de popontos utilizando outros dois eléctrodos, tencial (Fig. neste caso designados por eléctrodos de 1). A combipotencial. nação das Há muitas maneiras de combinar os elécquatros trodos de potencial e de corrente dando leituras de origem aos dispositivos. São conhecidos diferença de os dispositivos de Schlumberger e Wenner potencial para a realização de sondagens eléctricas Fig.2. Uso do invariante determinante. verticais (SEV) bem como os dispositivos permite o cálculo das quatro componentes do de polo-dipolo (PD) e dipolo-dipolo (DD) tensor de resistividades designadas por ρxx, para investigação de estruturas bidimensi- ρxy, ρyx e ρyy. Como estas componentes onais. Há, também, dispositivos especiali- dependem da posição relativa dos eléctrodos zados para a investigação tridimensional, de corrente e de potencial é possível recorrerse a alguns invariantes do tensor para se do qual o mais conhecido é o polo-polo. Todos estes dispositivos geram valores de resistividade aparente (que é a resistividade de um meio homogéneo com uma resposta igual ao do meio em investigação) que são os dados que devem ser interpretados. Estes valores são de natureza escalar, isto é, não reflectem nenhuma variação espacial da resistividade, se ela existir. Ora, uma grande Fig.3. Diagramas polares resultantes da rotação do tensor (componentes ρyx e 320 300 280 250 240 200 200 150 160 100 120 80 50 40 80 120 160 200 40 80 120 160 200 ρyy) para localização de falhas (Santos et al., em preparação). parte dos materiais terrestres são anisotrópicos para muitas propriedades físicas, incluindo a resistividade eléctrica. Claro que é Fig.1. Possível configuração para possível estudar a (macro) um levantamento tensorial. anisotropia usando uma combinação dos métodos clássicos de resistividade. Por exemplo, Colaboraram neste número: Fernando M. Santos, CGUL - coordenador Emanuel Dutra CGUL-IDL Eric Front, CGUL-IDL Daniela Alves-DEGGE e CGUL-IDL Luís Matias, CGUL-IDL estudar a distribuição da resistividade no subsolo. A Fig. 2 mostra um exemplo de aplicação de um dos invariantes no mapeamento de uma estrutura 3d muito frequente em arqueologia. Pode-se ver que os muros estão perfeitamente definidos. A Fig.3 mostra a utilização da rotação do tensor na localização de duas falhas. É notória a alteração da orientação da elipse de rotação quando se passa de um lado para o outro da falha. [F. Santos] Referência: as Fig 1 e 2 são retiradas de Varga et al. 2008. NSG, 39-47.