ASSUITI, Luciana Ferreira Cardoso. Organizando a rede de atenção à saúde
auditiva para pessoas que vivem com HIV/Aids sob a perspectiva da
Complexidade. 2013. 335 p. Tese (Doutorado em Enfermagem). Universidade Federal
de Santa Catarina, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Florianópolis, 2013.
Orientadora: Dra. Betina Hörner Schlindwein Meirelles
Linha de pesquisa: Administração em Enfermagem e Saúde
RESUMO
A política nacional de DST/Aids entrou em vigor no ano de 1985, enquanto que a
política nacional de atenção à saúde auditiva foi publicada em 2004. Assim, o estudo
teve como objetivo construir um referencial teórico, da organização e gestão da rede de
atenção à saúde auditiva, a partir da compreensão dos significados atribuídos pelos
profissionais e gestores, que atuam na política nacional de atenção à saúde auditiva e
política nacional de DST/Aids, no Estado de Santa Catarina. Trata-se de uma pesquisa
qualitativa com abordagem teórico-descritiva, a qual foi conduzida pela Teoria
Fundamentada nos Dados (TFD). A Complexidade de Edgar Morin foi a perspectiva
teórica utilizada, e oportunizou a compreensão do fenômeno de forma contextualizada e
reflexiva. Os cenários escolhidos para a realização da pesquisa foram dois Serviços de
Atenção à Saúde Auditiva, de alta complexidade, um no Município de
Florianópolis/SC, outro em Itajaí/SC, e um Centro de Referência Estadual no controle e
tratamento de pessoas com HIV/Aids, localizado em Florianópolis/SC. A coleta de
dados ocorreu de maio de 2012 a abril de 2013. A seleção dos participantes foi
intencional, por amostragem teórica e apoiada nos seguintes critérios de inclusão: (1)
ser profissional ou gestor na política nacional de DST/Aids por no mínimo dois anos;
(2) ser profissional ou gestor na política nacional de saúde auditiva por no mínimo dois
anos; (3) estar atuando no momento da entrevista. Foram entrevistados trinta
profissionais e gestores, divididos em cinco grupos amostrais, sendo dezessete sujeitos
que atuavam na Política Nacional de Atenção à Saúde Auditiva, e treze, na Política
Nacional de DST/Aids. As entrevistas foram áudio-gravadas e posteriormente
transcritas na íntegra. A análise dos dados ocorreu de maneira concomitante com a
coleta dos dados, por codificação aberta, axial e seletiva. O fenômeno Organizando a
rede de atenção à saúde auditiva de pessoas que vivem com HIV/Aids, fundamentado na
integração de nove categorias e dezenove subcategorias, foi distribuído em
componentes do modelo paradigmático. A relação entre HIV/Aids e perda auditiva faz
parte do Contexto como um tema desconhecido tanto por profissionais e gestores,
quanto pelas pessoas que vivem com HIV/Aids, e, apesar de haver literatura científica
relatando essa relação, ainda não há um consenso sobre a etiologia da perda auditiva, e
seus efeitos para a qualidade de vida nessa população específica. Diante desse quadro os
profissionais reconhecem o caráter inovador da pesquisa, e demonstram interesse em
aumentar o conhecimento na área, com o objetivo de melhorar a qualidade do cuidado, e
organizar uma rede de atenção para pessoas que vivem com HIV/Aids, e que podem ter
como agravo a perda auditiva, como consequência dessa condição de saúde. As
condições de vida das pessoas que vivem com HIV/Aids emergiu como barreira para o
diagnóstico precoce da perda auditiva. Entre as condições estão a baixa renda, a não
adesão ao tratamento e as dificuldades em compreender as informações recebidas das
equipes de saúde. Dentre as Condições Causas, os profissionais e gestores consideram a
gestão do SUS complexa e fragmentada, percebem que o Sistema Único de Saúde
apresenta alguns entraves na gestão da rede de atenção à saúde auditiva, e apontam a
organização da estrutura do sistema de saúde como um desafio a todos os atores
envolvidos, quais sejam gestores, profissionais e usuários. Apontam também a falta de
fonoaudiólogos nos Núcleos de Atenção à Saúde da Família, e acreditam que a inclusão
desses profissionais contribuiria para a garantia do atendimento integral, acesso
universal e igualitário, principalmente nas áreas em que estes têm formação e
capacitação para atuar. A melhor qualidade de vida que as pessoas que vivem com
HIV/Aids estão vivenciando atualmente, devido ao avanço terapêutico no tratamento do
HIV/Aids, emergiu como um dos principais fatores para o aumento da demanda de
acompanhamento ambulatorial dessa população, e o agravo auditivo é mais um
problema de saúde que precisa ser monitorado. Evidenciou-se que a atual rede de
atenção à saúde auditiva de Santa Catarina não tem capacidade estrutural, e de pessoal
para assumir esta nova demanda. Foram apontados como Condições Intervenientes a
ausência de atendimento na Atenção Básica como porta de entrada na rede de atenção à
saúde auditiva, a falta de compromisso dos profissionais, o fluxo da rede como
obstáculo para o diagnóstico audiológico básico, a atenção voltada para a especialidade.
Como Estratégias sugeridas, os profissionais e gestores enfatizam a inclusão da
infecção pelo HIV e da Aids como fatores de risco para surdez, recomendam o
monitoramento auditivo, e a criação de protocolos de seguimento e fluxo de
atendimento, e por fim a qualificação dos profissionais de saúde que são responsáveis
pelo cuidado de saúde dessa população, para o controle do agravo auditivo, ou seja, da
surdez permanente e incapacitante. Como Consequências vislumbram-se o cuidado
integral, nas três dimensões do entendimento do conceito de integralidade, isto é, a
integralidade como forma de cuidar/tratar aquele que procura o atendimento de saúde,
aquele que foi em busca do cuidado; a integralidade como processo de trabalho, de
ações em equipe, para grupos de atenção específicos e organizados para tal; e a
integralidade como dever do Estado em todos os níveis de atenção. Indica-se, como
necessidade urgente, a inclusão do fonoaudiólogo nas equipes de saúde da Atenção
Básica, inserido e integrado com enfermeiros, dentistas, médicos e o agente comunitário
de saúde, a fim de construir uma rede de atenção à saúde auditiva que atenda aos
anseios da população, às necessidades das equipes de saúde e cumpra as diretrizes e
regulamentações das políticas públicas envolvidas no cuidado às pessoas que vivem
com HIV/Aids. Por fim, conclui-se que somente com a integração das políticas públicas
será possível construir um sistema de saúde consolidado e eficaz, e que, somente para
atender às pessoas que vivem com HIV/Aids, em relação ao agravo auditivo, temos que
abarcar a Política Nacional de DST/AIDS, a Política Nacional de Atenção à Saúde
Auditiva, a Política Nacional de Atenção Básica, a Política Nacional de Educação
Permanente em Saúde, além das Diretrizes das Redes de Atenção à Saúde, ou seja,
compreende-se que a organização do cuidado obrigatoriamente se dá e se sustenta em
ações compartilhadas, dos vários profissionais que são, ao mesmo tempo, autores e
atores de um projeto coletivo.
Palavras-Chave: HIV. Audição. Perda Auditiva. Atenção à Saúde. Fonoaudiologia.
Enfermagem.
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