EDUCAÇÃO EM SAÚDE JUNTO A IDOSOS PARTICIPANTES DO
ACAMPAVIDA: VIVENCIANDO A SEXUALIDADE
¹Silvana Cruz da Silva
² Lúcia Beatriz Ressel
³Pâmela de Almeida Batista
Resumo
O estudo apresenta um relato de experiência acerca da vivência dos acadêmicos do
Programa de Educação Tutorial do Curso de Enfermagem da UFSM e demais acadêmicos
como oficineiros junto a grupos de idosos do Projeto de Extensão “Acampavida”. Foi adotado
como caminho para o desenvolvimento das oficinas a Metodologia Participativa. Realizou-se
oficinas lúdico-pedagógicas no município de Santa Maria-RS, com idosos de ambos os sexos.
As oficinas oportunizaram a criação de espaço dialógico com os idosos, comprometimento no
direcionamento de trabalho em grupo, ampliação e aprofundamento dos conhecimentos acerca
dessa fase da vida e das percepções acerca da sexualidade desse grupo. Além disso, a prática
de trabalhar com grupos oportunizou a percepção da nossa responsabilidade coletiva e
compromisso social.
Introdução
O envelhecimento populacional é um dos maiores desafios da saúde
pública contemporânea. Este fenômeno ocorreu inicialmente em países
desenvolvidos, mas, mais recentemente, é nos países em desenvolvimento
que o envelhecimento da população tem ocorrido de forma mais acentuada. No
Brasil, o número de idosos, pessoas com sessenta anos de idade ou mais,
aumentou 500% em um período de quarenta anos (1960-2002) e estima-se
que alcançará 32 milhões em 2020¹.
A partir dessa alteração no desenho populacional da pirâmide etária, em
que os idosos ocupam um maior espaço, é importante atentar-se para
temáticas referentes à qualidade de vida nessa população. Assim sendo, devese encontrar meios para inserir os idosos na sociedade e transformar conceitos
já enraizados, trabalhando com estes temas que envolvem aspectos sociais,
como idosos x sociedade e depressão, e gerais, como climatério, menopausa,
andropausa, características do envelhecimento, varizes, condições da pele,
alimentação, atividade física, somo e repouso, hipertensão e diabetes, relação
sexual, necessários para obtenção de uma boa qualidade vida¹.
Dentre esses diversos assunto é importante ressaltar que tendo em vista
o aumento da expectativa de vida no Brasil, nos últimos anos, e o conseqüente
prolongamento da vida sexualmente ativa, houve um surpreendente
crescimento de casos confirmados de AIDS em pacientes com idade acima de
50 anos.
Dessa forma, é visto a importância da realização de atividades de
prevenção e orientação desse grupo etário, levando em consideração suas
atribuições culturais e vivências pessoais, a fim de reduzir o número de
¹ Enfermeira graduada pela UFSM-RS e membro dos grupos de Pesquisa e Extensão
“Cuidado, Saúde e Enfermagem.
² Professora Doutora em Enfermagem. Professor Adjunto do Departamento de
Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria. Rio Grande do Sul, Brasil
³ Enfermeira graduada pela UFSM-RS e membro dos grupos de Pesquisa e Extensão
“Cuidado, Saúde e Enfermagem.
portadores do vírus e estimular a manutenção de uma vida sexual saudável e
responsável.
Nessa direção, o Projeto Acampavida, o qual é uma promoção do
Núcleo Integrado de Estudos e Apoio à Terceira Idade (NIEATI), vinculado ao
Centro de Educação Física e Desportos (CEFD) da Universidade Federal de
Santa Maria, objetiva proporcionar aos idosos uma oportunidade de
convivência dentro da Universidade, que lhes permita experimentar várias
manifestações do movimento humano.Assim, idosos de diversos grupos de
terceira idade do município de Santa Maria/RS participam de oficinas
vinculadas às áreas de saúde, esporte, cultura e entretenimento.
No ano de 2009 o grupo PET-Enfermagem e demais acadêmicos de
enfermagem realizaram durante esse evento, oficinas lúdico-pedagógicas com
os idosos participantes desse projeto, enfocando a sexualidade e a prevenção
da transmissão do vírus HIV.
Objetivo
Objetivamos com esta atividade promover educação em saúde e
integração com os idosos participantes do evento, bem como informá-los sobre
a transmissão do vírus HIV e comportamentos vulneráveis. Buscamos por meio
de um espaço de reflexão acerca do tema, estimular o auto-cuidado nessa
idade e a prevenção de novos casos.
Metodologia
Essa atividade está fundamentada na metodologia participativa, favorece
a efetiva atuação daqueles que dela participam, propiciando um processo
educativo eficaz sem considerar seus participantes simples espectadores, e
sim, sujeitos reflexivos e ativos. As oficinas baseadas nesta metodologia criam
um clima lúdico e pedagógico amparados no diálogo, na interação e na troca
de saberes ².
Consoante a esta metodologia realizamos oficinas pedagógicas.
Entendemos as oficinas como um espaço de reflexão e de compartilhamento
de saberes, construídos coletivamente a partir das vivências singulares, como
possibilidade de empoderamento dos participantes ³.
Os idosos foram recebidos de forma cordial para que sentissem
acolhidos. Utilizamos primeiramente a dinâmicas de apresentação e
integração² “a rede”. Posteriormente para facilitar as discussões e reflexões foi
aplicado a dinâmica “Cadeia de Transmissão”.
Resultados e Discussão
Foram realizados quatro encontros, junto a 20 idosos em cada,
totalizando 80 participantes. Esses encontros foram realizados nos 2 dias de
evento.
¹ Enfermeira graduada pela UFSM-RS e membro dos grupos de Pesquisa e Extensão
“Cuidado, Saúde e Enfermagem.
² Professora Doutora em Enfermagem. Professor Adjunto do Departamento de
Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria. Rio Grande do Sul, Brasil
³ Enfermeira graduada pela UFSM-RS e membro dos grupos de Pesquisa e Extensão
“Cuidado, Saúde e Enfermagem.
A primeira oficina, de cada encontro, “A rede” tinha o intuito de
aproximar os participantes, oficineiros e os idosos, constituíam-se em uma
“quebra de gelo”. Todos tinham que se apresentar dizendo algo pessoal, como
por exemplo, nome, idade, se tinha filhos e netos, se era a primeira vez que
estava participando do Acampavida, e o que esperava do encontro.
Posteriormente os acadêmicos apresentavam os objetivos do encontro e
a segunda dinâmica, “Cadeia de transmissão”. A qual se consiste em distribuir
cartões com três tipos de desenhos aos participantes, onde estava impresso
um desenho, cujo significado foi revelado ao final da dinâmica. Os cartões com
estrela correspondiam ao relacionamento sexual sem preservativo; os com um
círculo correspondiam à relação sexual com preservativo; e os com um
triângulo correspondia a uma relação sexual em que um dos parceiros é
portador do vírus HIV. A quantidade de cartões varia conforme o número de
participantes. O cartão com o desenho do triângulo é único e os demais são
divididos em partes iguais, conforme o número de participantes.
Em seguida, foi solicitado que todos os participantes caminhassem,
dançassem, se movimentassem pela sala enquanto tocava uma música.
Quando a música parava, os participantes deveriam se reunir em duplas, e
cada um deveria copiar o desenho ou os desenhos que havia no cartão do
outro. Após repetir esse processo 4 ou 5 vezes, encerrou-se esta etapa, e os
participantes foram convidados a sentar em um círculo e discutir no grande
grupo o significado dos desenhos em seus cartões. Explicou-se, então o que
representavam os símbolos desenhados nos cartões e que quando se parava a
música era como se tivessem uma relação sexual.
Ao término da dinâmica, os participantes ponderaram acerca da
experiência e compartilharam com o grupo suas conclusões. Assim, buscou-se
construir, num espaço de reflexão com os idosos relacionando a temática da
sexualidade e a prevenção do HIV/AIDs para a vivência sexual responsável,
estimulando-os ao autocuidado.
Destaca-se que as discussões depreendidas nas oficinas não se
limitaram a informações de caráter biológico ou preventivo, mas foram
estimuladoras para questionamentos que envolviam determinantes externos
como classe social, gênero e vivências pessoais. Isso possibilitou a
aproximação, o dialogo e uma experiência única para os acadêmicos.
Considerações Finais
Com a tendência do envelhecimento da população brasileira, é
importante que sejam revistas as abordagens para se trabalhar com essa
população. Principalmente com as questões que ainda são veladas, pouco
discutidas e muitas vezes consideradas tabus, como a sexualidades nessa
faixa etária e a prevenção de doenças sexualmente transmitidas.
Percebemos diante dessa experiência de aproximação, que tal
compreensão é ainda hegemônica nos meios sociais em que os idosos vivem.
No entanto, achamos também, que os idosos que a mais tempo participam de
atividades coletivas como o Acampavida, possuem uma visão diferenciada. Foi
¹ Enfermeira graduada pela UFSM-RS e membro dos grupos de Pesquisa e Extensão
“Cuidado, Saúde e Enfermagem.
² Professora Doutora em Enfermagem. Professor Adjunto do Departamento de
Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria. Rio Grande do Sul, Brasil
³ Enfermeira graduada pela UFSM-RS e membro dos grupos de Pesquisa e Extensão
“Cuidado, Saúde e Enfermagem.
possível perceber durante suas falas que a maioria busca se libertar de certos
valores já enraizados na sociedade. Confirmamos isso por meio da criação de
espaços singulares de reflexão e socialização de questões pertinentes à
sexualidade.
Iniciamos esta vivência com certa resistência quanto ao trabalhar essa
temática nessa faixa etária, demonstramos certo despreparo. Contudo com o
transcorrer das oficinas fomos percebendo o quanto é gratificante por meio da
participação e fala dos idosos.
Concordamos com alguns autores 4, a partir desse contato, que o cuidar
de pessoas idosas envolve conhecimento, sentimentos, comportamentos e
atitudes da enfermagem que possibilitem a interação. Entendemos, nesta
vivência, que o cuidado ao idoso necessita de profissionais capacitados e
despidos de julgamentos e preconceitos.
Assim, essa atividade foi de grande importância a nós acadêmicos
possibilitando uma experiência inovadora e diferenciada dentro da graduação
promovendo a aproximação e o vinculo com essa faixa etária.
Palavras-chave:
Enfermagem, Educação em saúde, Saúde na terceira idade.
Referências Bibliograficas
1.
LIMA-COSTA, Maria Fernanda; VERAS, Renato. Saúde pública e
envelhecimento. Cad. Saúde Pública vol.19 no.3 Rio de Janeiro June 2003.
Disponível
em
<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102311X2003000300001&script=sci_arttext&tlng=en>. Acesso em 02/09/2010 às
20:21.
2.
LOPES, E.B.; Luz, A.M.; AZEVEDO, M.P.S.M.T.; MORAES, W.T.;
Metodologias para o trabalho educativo com adolescentes. In: Associação
Brasileira de Enfermagem. Adolescer: compreender, atuar, acolher. Brasília
(DF). 2001. p. 141-282.
3.
AFONSO, L. Oficinas em dinâmicas de grupo: um método de
intervenção psicossocial. Belo Horizonte (MG): Campo Social. 2002
4.
LEITE, Marinês Tambara; GONÇALVES, Lucia Hisako Takase. A
enfermagem construindo significados a partir de sua interação social com
idosos hospitalizados. Texto contexto - enferm. [serial on the Internet]. 2009
Mar
[cited
2009
Oct
03]
;
18(1):
108-115.
Available
from:http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010407072009000
100013&lng=en. doi: 10.1590/S0104-07072009000100013.
¹ Enfermeira graduada pela UFSM-RS e membro dos grupos de Pesquisa e Extensão
“Cuidado, Saúde e Enfermagem.
² Professora Doutora em Enfermagem. Professor Adjunto do Departamento de
Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria. Rio Grande do Sul, Brasil
³ Enfermeira graduada pela UFSM-RS e membro dos grupos de Pesquisa e Extensão
“Cuidado, Saúde e Enfermagem.
¹ Enfermeira graduada pela UFSM-RS e membro dos grupos de Pesquisa e Extensão
“Cuidado, Saúde e Enfermagem.
² Professora Doutora em Enfermagem. Professor Adjunto do Departamento de
Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria. Rio Grande do Sul, Brasil
³ Enfermeira graduada pela UFSM-RS e membro dos grupos de Pesquisa e Extensão
“Cuidado, Saúde e Enfermagem.
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