UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE POLÍTICAS PÚBLICAS BACHARELADO EM GESTÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS SEGREGAÇÃO E DESTERRITORIALIZAÇÃO Os conjuntos do Programa Minha Casa, Minha Vida na Região Metropolitana de Natal JÉSSICA MORAIS DE MOURA NATAL/RN 2013 JÉSSICA MORAIS DE MOURA SEGREGAÇÃO E DESTERRITORIALIZAÇÃO Os conjuntos do Programa Minha Casa, Minha Vida na Região Metropolitana de Natal Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em cumprimento às exigências legais, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Gestão de Políticas Públicas. Orientador: Prof. Dr. Márcio Moraes Valença NATAL/RN 2013 1 JÉSSICA MORAIS DE MOURA SEGREGAÇÃO E DESTERRITORIALIZAÇÃO Os conjuntos do Programa Minha Casa, Minha Vida na Região Metropolitana de Natal Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em cumprimento às exigências legais, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Gestão de Políticas Públicas. APROVADA EM: ____/____/2013. BANCA EXAMINADORA _____________________________________________ Prof. Dr. Márcio Moraes Valença - Orientador Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN _____________________________________________ Prof. Dr. Patrick Le Guirriec Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN _____________________________________________ Prof. Dra. Rita de Cássia da Conceição Gomes Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN 2 Dedicatória é quando todo amor do mundo resolve se exibir numa só frase. Esse trabalho é para os meus familiares, em especial memorian). ao meu Espero um avô dia Zito (in poder contribuir com todo esse incentivo que é tão fundamental para a minha realização profissional. Amo vocês! 3 AGRADECIMENTOS Agradecer vai muito além de dizer obrigada. Agradecer é reconhecer a importância de cada um no apoio e incentivo a mim dado para a realização desse trabalho, faltando-me palavras para exibir nessas poucas linhas os meus sinceros agradecimentos. Tentarei, pois, quase em vão, mensurar o tamanho da gratidão que sinto por vocês. Agradeço a Deus pela sua fidelidade, sempre desenhando os caminhos que devo seguir e não me deixando desistir de lutar pelos meus sonhos. Isso me dá força e me traz segurança para dar novos passos, avante ao mundo, plantando, colhendo, sorrindo e transformando. À minha família, em especial aos meus pais, José Edson e Lúcia de Fátima. Com eles aprendi os valores da vida, reconhecendo a essência do amor e aceitando que é preciso conviver com as diferenças. Aos meus irmãos e irmãs, agradeço pelo amor imensurável. Manu, Bruno, Amanda, Juninho e Anita, vocês são mais que fundamentais. Meus avôs, Moura e Zito (in memorian), e avós Laura e Marluce. Carinho, confiança, respeito e admiração resumem o que sinto por vocês. Cada um tem o seu espaço garantido no meu coração. Agradeço também aos meus tios, tias e primos por serem fontes de inspiração e motivação, me dando confiança e crença para chegar ao final. A Matheus Salgado, por todo amor, carinho, confiança e sorrisos. Ao futuro que vamos construir juntos, subindo cada degrau, buscando todas as realizações que a vida tem a oferecer, com doses de amor, equilíbrio, sabedoria e coragem. Ao meu orientador, prof. Dr. Márcio Moraes Valença, grande exemplo de profissional e pesquisador. Agradeço por todas as orientações e por me proporcionar momentos únicos vividos na academia. Iniciação científica, reuniões da base, organização de seminários e envio de relatórios são atividades que marcaram a minha vida profissional e acadêmica. A todos os membros do Grupo de Pesquisa sobre as Cidades Contemporâneas, agradeço pelos ricos momentos de reflexão e aprendizado, especialmente a minhas companheiras de iniciação científica, Lorena, Marcela e Mariana, as quais me acompanharam e me incentivaram nos momentos difíceis. 4 Ao CNPQ, pela oportunidade concedida de desfrutar da inesquecível experiência de ser Bolsista de Iniciação Científica, proporcionando auxílio financeiro e suporte acadêmico. Aos professores do Departamento de Políticas Públicas da UFRN, meus agradecimentos sinceros por todo conhecimento repassado durante essa trajetória percorrida no curso de graduação em Gestão de Políticas Públicas. Vocês me deixam cada vez mais apaixonada pela profissão que escolhi. Aos amigos que fiz no curso e que levarei para o resto da vida. Não tenho palavras para explicar essa mistura de sentimentos e desejo muito sucesso a todos nós. Especialmente, agradeço ao grupo de friends Anne, Ada, Dja, Daniell, Gabi, Ferinha, Flavinha, Jéss T., Jojo, Joanna, Ju, Karol, Lucas, Mangabeira, Paulinha, Ricardo, Rogério, Sol, Sharonly, Thiago e Van. Agradeço também aos meus amigos que, mesmo de longe, torceram pela realização desse sonho e que desejam os melhores resultados profissionais. À Sol, Hiram, Thiago e vovô Moura – amigos e familiares que me ajudaram na realização da pesquisa de campo –, me acompanhando, dirigindo, marcando pontos no GPS, enfim, se dispondo à me apoiar na execução deste trabalho. Por fim, deixo a frase que resume todos esses sentimentos, esclarecendo que o que somos é um presente de Deus para nós, o que nos tornamos, é um presente nosso para ele. Portanto, pra frente, pra cima e pra Deus! 5 “A cidade de hoje não é um acidente. Sua forma é usualmente não-intencional, mas não é acidental. Ela é o produto de decisões feitas para propósitos únicos e separados, cujas relações e efeitos colaterais não têm sido plenamente considerados. O desenho das cidades de hoje tem sido determinado por engenheiros, técnicos, advogados e investidores, cada um tomando decisões racionais e individuais, mas deixando o desenho da cidade para ser cuidado mais tarde, se o for.” (Jonathan Barnett,1982). 6 RESUMO Essa pesquisa propõe uma análise sobre as formas de produção da moradia e seus impactos na reconfiguração espacial das metrópoles, concentrando-se no estudo dos empreendimentos do Programa Minha Casa, Minha Vida destinados à população de faixa de renda de 0 a 3 salários mínimos (faixa 1), implantados na Região Metropolitana de Natal. A partir da evidência de que os empreendimentos do PMCMV destinados à população de baixa renda implantados no território da RMN, em sua maioria, estão sendo construídos em localidades distantes do tecido urbano, com pouca ou nenhuma oferta de transporte público e equipamentos sociais, essa pesquisa buscou investigar se a construção dessas moradias tem promovido a segregação social dessa população, impactando diretamente no cotidiano dos moradores, da forma como Haesbaert (1994; 2001; 2004) define a desterritorialização. Foram visitados 32 empreendimentos, distribuídos em oito municípios da RMN, caracterizando a sua localização e inserção urbana, refletindo e verificando se a carência de serviços e infraestrutura determinam uma segregação da população residente, implicando em consequências marcantes no seu cotidiano e promovendo o processo de desterritorialização. Palavras-chave: Produção habitacional; Região Metropolitana de Natal; Programa Minha Casa, Minha Vida; Segregação socioespacial; Desterritorialização. 7 ABSTRACT This study analyses the impact of housing production on the spatial reconfiguration of cities in Brazil, focusing on the the development of the Minha Casa, Minha Vida Program (PMCMV), which aims at benefitting the population in the income range from 0 to 3 minimum wages, built in the Metropolitan Region of Natal (MRN). From the evidence that the building of PMCMV estates has taken place in locations distant from the urban area, with little or no public transport provision and social facilities, this research sought to investigate the construction of these condos and how this has promoted social segregation of beneficiary population, directly impacting on their daily lives, in the way that Haesbaert (1994, 2001, 2004) defines 'deterritorialization'. We visited 32 projects in eight (out of 11) different municipalities of the RMN, characterizing its location and urban integration, the bulk of public and private services and infrastructure, which are crucial to establish a segregated pattern of occupation, implying in people's daily lives in the form of deterritorialization . Keywords: House building; Natal Metropolitan Region; Programa Minha Casa, Minha Vida; Sociospatial Segregation; Deterritorialization. 8 LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Distribuição dos conjuntos do PMCMV – faixa 1 na RMN, observando a atual situação e a tipologia de construção ................................................................ 38 Quadro 2 – Os empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 em Ceará-Mirim ................ 41 Quadro 3 – Os empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 em Extremoz .................... 43 Quadro 4 – Os empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 em Macaíba...................... 44 Quadro 5 – Os empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 em Monte Alegre .............. 46 Quadro 6 – Os empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 em Natal ........................... 48 Quadro 7 – Os empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 em Nísia Floresta ............. 49 Quadro 8 – Informações sobre os empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 em Parnamirim ................................................................................................................ 51 Quadro 9 – Informações sobre os empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 em São Gonçalo do Amarante ............................................................................................... 55 9 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Mapa 1 – Situação dos empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 na RMN .............. 37 Figura 1: Localização dos empreendimentos do PMCMV e sua distância relativa ao centro de Ceará-Mirim ............................................................................................... 41 Figura 2: Localização dos empreendimentos do PMCMV e sua distância relativa ao centro de Extremoz ................................................................................................... 43 Figura 3: Ponto de ônibus Residencial Jardins de Extremoz I, II, III e IV .................. 44 Figura 4: Ponto de ônibus Residencial Fauna, Flora, Terra e Mar em Ceará- Mirim 44 Figura 5: Localização dos empreendimentos do PMCMV e sua distância relativa ao centro de Macaíba..................................................................................................... 46 Figura 6: Localização dos empreendimentos do PMCMV e sua distância relativa ao centro de Monte Alegre ............................................................................................. 47 Figura 7: Localização dos empreendimentos do PMCMV e sua distância relativa ao centro de Natal .......................................................................................................... 48 Figura 8: Localização dos empreendimentos do PMCMV e sua distância relativa ao centro de Nísia Floresta ............................................................................................ 50 Figura 9: Localização dos empreendimentos do PMCMV e sua distância relativa ao centro de Parnamirim ................................................................................................ 52 Figura 10: Residenciais Terras do Engenho I e II ..................................................... 53 Figura 11: Trabalhadores saindo da construção dos Residenciais Terras do Engenho I e II ........................................................................................................................... 53 Figura 12: Ponto de ônibus e comércio local desenvolvidos pelos moradores do Residencial América I e II .......................................................................................... 54 Figura 13: Construção dos Condomínios Ilhas do Atlântico e Ilhas do Caribe – Parnamirim/RN .......................................................................................................... 55 Figura 14: Localização dos empreendimentos do PMCMV e sua distância relativa ao centro de São Gonçalo do Amarante ........................................................................ 56 Figura 15: Serviços ofertados no entorno dos Residenciais do PMCMV em CearáMirim ......................................................................................................................... 60 Figura 16: Serviços ofertados no entorno dos Residenciais do PMCMV em CearáMirim ......................................................................................................................... 60 Figura 17: Ponto de Moto-táxi instalado na localidade .............................................. 61 Figura 18: Quadra, Parque e Praça da localidade sem manutenção ........................ 61 Figura 19: Residenciais Fauna, Flora, Terra e Mar e o seu entorno imediato ........... 62 Figura 20: Mercadinho e Açougue do conjunto. ........................................................ 63 Figura 21: Local destinado à construção dos equipamentos comunitários. .............. 63 Figura 22: Residenciais Jardins de Extremoz I, II, III e IV e o seu entorno imediato . 64 10 Figura 23: Residenciais Francisco Alípio e Lúcia Marques e o seu entorno imediato .................................................................................................................................. 65 Figura 24: Vista dos Residenciais Francisco Alípio e Lúcia Marques ....................... 66 Figura 25: Posto de Segurança improvisado na localidade ...................................... 66 Figura 26: Acesso ao Residencial Minha Santa ........................................................ 66 Figura 27: Mercadinho no entorno do conjunto ......................................................... 66 Figura 28: Residencial Minha Santa e o seu entorno imediato ................................. 67 Figura 29: Residencial Esperançae o seu entorno imediato ..................................... 68 Figura 30: Acesso ao Residencial Esperança ........................................................... 68 Figura 31: Mercadinho no entorno do conjunto ......................................................... 68 Figura 32: Residencial Vivendas do Planalto e o seu entorno imediato .................... 69 Figura 33: Vista da construção do Residencial Vivendas do Planalto ....................... 70 Figura 34: Mercadinho no entorno do conjunto ......................................................... 70 Figura 35: Casas do Residencial Clóvis Ferreira da Silva ......................................... 71 Figura 36: Casas do Residencial Alto da Floresta que ainda serão entregues ......... 71 Figura 37: Residenciais Clovis Ferreira e Alto da Florestae o seu entorno imediato 71 Figura 38: Residenciais Vida Nova e Ilhas do Pacífico ............................................. 72 Figura 39: Condomínio Vida Nova ............................................................................ 73 Figura 40:Residencial Ilhas do Pacífico em construção ............................................ 73 Figura 41: Residenciais Irmã Dulce I, II e III .............................................................. 74 Figura 42: Construção dos Residenciais Irmã Dulce I, II e III .................................... 74 Figura 43: Localização dos Residenciais Irmã Dulce I, II e III ................................... 74 Figura 44: Residenciais Terras do Engenho I e II ..................................................... 75 Figura 47: Comércios criados pelos moradores dos Residenciais América I e II ...... 76 Figura 48: Localização dos Residenciais América I e II ............................................ 76 Figura 49: Residenciais América I e II ....................................................................... 77 Figura 50: Residenciais Nelson Monteiro e Waldemar Rolim ................................... 77 Figura 51: Acesso aos Residenciais Nelson Monteiro e Waldemar Rolim ................ 77 Figura 52: Residenciais Nelson Monteiro e Waldemar Rolim ................................... 78 Figura 53: Acesso aos Residenciais Ilhas do Atlântico e Ilhas do Caribe ................. 78 Figura 54: Residenciais Ilhas do Atlântico e Ilhas do Caribe ..................................... 78 Figura 55: Residenciais Ilhas do Atlântico e Ilhas do Caribe ..................................... 79 Figura 56: Residencial Jomar Alecrim ....................................................................... 80 Figura 57: Comércio local no Residencial ................................................................. 80 Figura 58: Residencial Jomar Alecrim e o seu entorno imediato............................... 80 11 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística MC Ministério das Cidades PLHIS Plano Local de Habitação de Interesse Social PMCMV Programa Minha Casa Minha Vida RMN Região Metropolitana de Natal 12 SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 14 1 SEGREGAÇÃO COMO DESTERRITORIALIZAÇÃO: QUEM SOFRE? ............... 20 2 PRODUÇÃO DO ESPAÇO E DOS CONJUNTOS DO PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA ............................................................................................................. 28 3 OS CONJUNTOS DO PMCMV E SUA INSERÇÃO URBANA NA RMN .............. 35 3.1 CENTROS DE CIDADE: CARACTERÍTICAS E FORMAS DE ACESSO ............ 39 3. 2 OS EMPREENDIMENTOSDO PMCMV EM CEARÁ-MIRIM.............................. 40 3. 3 OS EMPREENDIMENTOS DO PMCMV EM EXTREMOZ ................................. 42 3. 4 OS EMPREENDIMENTOS DO PMCMV EM MACAÍBA..................................... 44 3. 5 OS EMPREENDIMENTOS DO PMCMV EM MONTE ALEGRE ........................ 46 3. 6 OS EMPREENDIMENTOS DOPMCMV EM NATAL .......................................... 47 3. 7 OS EMPREENDIMENTOS DO PMCMV EM NÍSIA FLORESTA ....................... 49 3. 8 OS EMPREENDIMENTOS DO PMCMV EM PARNAMIRIM .............................. 50 3. 9 OS EMPREENDIMENTOS DO PMCMV EM SÃO GONÇALO DO AMARANTE .................................................................................................................................. 55 4 OS CONJUNTOS DO PROGRAMA MINHA CASA, MINHA VIDA E O SEU ENTORNO IMEDIATO .............................................................................................. 57 4.1 ENTORNO DOS EMPREENDIMENTOS DO PMCMV EM CEARÁ-MIRIM ........ 60 4.2 ENTORNO DOS EMPREENDIMENTOS DOPMCMV EM EXTREMOZ ............. 62 4.3 ENTORNO DOS EMPREENDIMENTOS DOPMCMV EM MACAÍBA ................. 64 4.4 ENTORNO DO EMPREENDIMENTO DOPMCMV EM MONTE ALEGRE.......... 67 4.5 ENTORNO DOS EMPREENDIMENTOS DOPMCMV EM NATAL ...................... 68 4.6 ENTORNO DOS EMPREENDIMENTOS DOPMCMV EM NÍSIA FLORESTA .... 70 4.7 ENTORNO DOS EMPREENDIMENTOS DOPMCMV EM PARNAMIRIM .......... 71 4.8 ENTORNO DOS EMPREENDIMENTOS DOPMCMV EM SÃO GONÇALO DO AMARANTE .............................................................................................................. 79 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 82 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 85 APENDICES ............................................................................................................. 89 13 INTRODUÇÃO O espaço da cidade é o espaço do cotidiano das pessoas, daí ser importante analisar as políticas públicas e/ou outros fenômenos que implicam na produção do espaço e, por conseguinte, de significativas transformações no território e na dinâmica social. Os novos padrões difundidos pela globalização e pela nova lógica de produtividade econômica que marca o desenvolvimento urbano contemporâneo são de importância capital para a análise. Com as rápidas transformações da sociedade contemporânea, cada vez mais intensas e velozes, do território da cidade é exigida novas e mais infraestruturas físicas, econômicas e institucionais de suporte aos negócios e à vivência das elites locais dominantes. Tal dinâmica gera um futuro distópico e desigual, reforçando e fortalecendo a cidade dual. Nesse sentido, emerge a necessidade de produzir um espaço urbano que atenue os problemas, equilibrando as diferentes demandas e encontrando soluções para os atuais entraves do desenvolvimento (este último no sentido mais amplo de desenvolvimento social), sejam tais entraves de natureza política, - administrativa, social ou econômica. O presente trabalho pretende refletir sobre o desenvolvimento das cidades brasileiras, concentrando-se na análise da produção habitacional do Programa Minha Casa, Minha Vida, faixa 1 (ou seja, para os mais pobres), na Região Metropolitana de Natal. Os novos empreendimentos (conjuntos e condomínios) do programa produzem transformações espaciais e requerem dos seus beneficiários uma readequação à nova vivência no novo ambiente de moradia e no seu entorno.. Nesse contexto, o crescimento das cidades, o qual é resultante, em especial, de processos econômicos e demográficos, se projeta sobre uma contínua expansão da área urbana. Trata-se de um crescimento urbano, determinado pelas dinâmicas do mercado fundiário e imobiliário e, por isso, marcado, por um lado, pela expansão das favelas e loteamentos informais, da reprodução de condições sub-humanas de vivência e de insalubridade, e, por outro, da expansão de condomínios fechados de luxo e outras formas de produção de moradia para as elites. Além disso, constatamse diversos problemas relacionados à falta de planejamento urbanístico, os quais reforçam o processo de propagação de moradias precárias, a favelização e a formação de subúrbios desconectados do tecido urbano ou de urbanização difusa, 14 conforme aponta Abramo (2009). Todas essas questões explanadas são oriundas do processo do crescimento acelerado das cidades brasileiras – e também de outros países em desenvolvimento – que resulta em marcantes desequilíbrios socioespaciais. Assim, as cidades não são capazes de ofertar infraestrutura para toda a sua população nem de garantir para toda ela um padrão de vida adequado. A maioria, senão todas as cidades brasileiras têm características dessas profundas desigualdades de condições de moradia e acesso aos equipamentos e serviços urbanos. Na Região Metropolitana de Natal, este processo de crescimento urbano é também evidente. E não havendo, para todo o tecido urbano, um planejamento específico para absorver as novas demandas demográficas, o resultado tem sido o acúmulo de problemas urbanos, em particular os infraestruturais, com graves consequências sociais e para a qualidade de vida no espaço urbano metropolitano. De acordo com Del Rio (1990), do ponto de vista do desenho urbano e do processo de planejamento, a evolução da cidade corresponde a uma série de modificações de atividades urbanas, das quais surge a necessidade de adaptação dos espaços necessários a essas novas atividades, como, por exemplo, a acessibilidade. Desse modo, faz-se necessário refletir sobre o planejamento do desenvolvimento urbano, implementando políticas públicas que impactem diretamente na oferta de infraestrutura e equipamentos sociais, determinando um desenvolvimento urbano metropolitano mais equilibrado em termos de crescimento físico e espacial e combatendo os efeitos negativos oriundos dos fenômenos da segregação e da desterritorialização (conceito tratado em mais detalhe mais adiante). Buscando refletir sobre a problemática abordada até aqui, essa pesquisa propõe uma análise sobre as formas de produção da moradia e seus impactos na reconfiguração espacial das metrópoles, concentrando-se no estudo dos empreendimentos do Programa Minha Casa, Minha Vida (PMCMV), destinados à população de faixa de renda de 0 a 3 salários mínimos (faixa 1), implantados na Região Metropolitana de Natal, buscando caracterizar a sua localização, que se dá em áreas afastadas dos centros das oito cidades analisadas, desabastecidas de equipamentos e serviços urbanos essenciais. Busca-se também verificar se tal inserção urbana e carência de serviços e infraestrutura determinam uma segregação 15 da população residente, implicando em consequências marcantes no seu cotidiano, ou seja, em um processo de desterritorialização. Conforme apontamentos de Oliveira e Benaduce (2011), a infraestrutura urbana consiste num sistema técnico de equipamentos e serviços necessários ao desenvolvimento das funções urbanas, com vistas a assegurar os aspectos social, econômico e institucional, permitindo a plena realização da vida de uma população. Assim, a infraestrutura urbana visa promover adequadas condições de moradia, trabalho, saúde, educação, lazer e segurança, proporcionando meios necessários ao desenvolvimento das atividades político-administrativas. Segundo estudos realizados, entre eles o de Andrade (2011), verificou-se que o PMCMV tem realizado significativa construção de conjuntos e condomínios habitacionais com localizações periféricas nas cidades, onde o preço da terra é mais baixo, mas que possui pouca ou nenhuma oferta de transporte público, infraestrutura e equipamentos sociais. Quanto ao espaço urbano da Região Metropolitana de Natal, observa-se que a elevação do valor de terrenos e a falta de infraestrutura urbana são os maiores obstáculos para a implantação do PMCMV. Os terrenos com preço compatível com o programa (faixa 1) se localizam nas periferias das cidades, onde não há infraestrutura adequada. De acordo com documentos oficiais do programa, localização desse tipo não é a desejada, uma vez que existe a preocupação em não construir conjuntos habitacionais desconectados da malha urbana, objetivo incompatível com a realidade do mercado fundiário e custos de produção impostos pelos normativos do programa. Nesse sentido, o maior desafio do programa realmente é promover condições adequadas de habitabilidade urbana, ou seja, a obtenção de terrenos compatíveis com o programa e a disponibilização, além das infraestruturas viárias e de rede, de serviços, como creches, escolas, postos de saúde, segurança e transporte. Em síntese, pode-se considerar que o programa busca universalizar o acesso à moradia digna, no entanto, faz-se necessário garantir os padrões mínimos de infraestrutura básica, transporte coletivo e serviços sociais, entendidos como direitos e formas de inclusão social. Dentre os fatores motivadores do estudo, tem-se a evidência de que os empreendimentos do PMCMV destinados à população de baixa renda implantados no território da RMN em sua maioria estão sendo construídos em localidades distantes do centro urbano, ao mesmo tempo em que são mantidos terrenos vazios, 16 próximos da região central, onde estão concentrados postos de trabalho, equipamentos e serviços públicos, para especulação no mercado imobiliário, provocando a expansão da malha urbana. A presente pesquisa pretende, assim, verificar a inserção dos novos empreendimentos na estrutura metropolitana e investigar se esta tem promovido a segregação social da população de baixa renda atendida pelo programa na RMN, impactando diretamente no cotidiano dos moradores, da forma como Haesbaert (1994; 2001; 2004) define a desterritorialização. Para execução da pesquisa e buscando atingir o objetivo proposto, foi desenvolvido trabalho de campo, o qual visava caracterizar a configuração espacial metropolitana intraurbana e no entorno e proximidades dos empreendimentos do PMCMV (faixa 1), construídos na RMN, levantando e identificando a infraestrutura e serviços existentes nessas localidades. Para isso, seguiram-se diferentes etapas de investigação, partindo-se inicialmente da identificação dos equipamentos e infraestruturas presentes nos bairros onde estão localizados os empreendimentos do PMCMV, fazendo um registro fotográfico dos bens públicos e privados, seguidos de uma análise de sua caracterização e importância para a população local onde estão inseridos. Foi também analisada a situação da infraestrutura urbana e equipamentos sociais, nos arredores dos empreendimentos, verificando se estes satisfazem as necessidades dos moradores. Foram adotados alguns procedimentos metodológicos com vista a tratar adequadamente da localização destes empreendimentos, partindo de um mapeamento do conjunto dos empreendimentos desenvolvidos pelo PMCMV. Todos os empreendimentos foram demarcados, com o auxílio do GPS, evidenciando os pontos de distância dos equipamentos para os empreendimentos do PMCMV, possibilitando a elaboração de mapas temáticos que permitiram analisar questões referentes à segregação dessas habitações. O levantamento de dados sobre os equipamentos urbanos, principalmente quanto à educação, transporte e lazer, apresentou um retrato da atual cobertura desses serviços, permitindo diagnosticar se o atual quadro de equipamentos é suficiente para atender à demanda resultante da construção dos novos empreendimentos habitacionais. Essa pesquisa foi realizada no primeiro semestre de 2013, acessando também os sites dos municípios da RMN beneficiados com o programa, e complementada com observações em campo e no Google Earth, além de 17 informações do IBGE e da CAIXA. Esses estudos indicaram características marcantes de alguns municípios da RMN, em relação ao processo de produção habitacional, principalmente com relação à implementação do PMCMV, indicando, sobretudo, novas tendências na estruturação do território metropolitano. Por meio dessas pesquisas exploratórias, foi possível desenvolver uma reflexão mais consistente sobre os efeitos de localização dessas habitações para o cotidiano dos moradores, contribuindo assim com o estudo sobre o território urbano no que diz respeito à inserção de novos empreendimentos habitacionais populares. O trabalho está divido em quatro capítulos, que estão fundamentados em discussões teóricas e nas pesquisas exploratórias de campo. No primeiro e no segundo, procurou-se refletir sobre os fenômenos da segregação e da desterritorialização, bem como sobre a abordagem da produção do espaço e dos agentes que o produzem. Adicionou-se uma discussão sobre a ideia Lefebvriana de revolução urbana, complementando-se com os normativos orientadores do Programa Minha Casa Minha Vida. A ideia desses capítulos iniciais consiste em debater os principais conceitos teóricos que serão utilizados no trabalho, dialogando com os autores e possibilitando refletir sobre os elementos propostos nessa pesquisa. Os capítulos posteriores abordam, principalmente, os elementos relativos à pesquisa de campo. Caracteriza-se o recorte espacial utilizado, bem como apresentam-se dados e mapas que situam os empreendimentos pesquisados na Região Metropolitana de Natal. Além disso, no capítulo quatro, são apresentados os dados relativos à pesquisa desenvolvida, apontando para as principais conclusões sobre as observações realizadas no entorno imediato dos empreendimentos do PMCMV e demarcando todos os serviços e infraestruturas urbanas, públicos e privados, lá existentes. Por fim, alerta-se que praticamente todas as pesquisas por nós desenvolvidas sobre o programa na RMN apontam para os seus impactos territoriais, ressaltando aspectos referentes ao processo de periferização dos empreendimentos e segregação social da população que foi beneficiada com o programa. Essas questões reafirmam as críticas até então desenvolvidas ao programa, nas quais especialistas, como Ermínia Maricato, Nabil Bonduki, Márcio Valença e Raquel Rolnik, consideram que a falta de articulação dos novos empreendimentos com a política urbana municipal é o principal nó do programa. Em outra perspectiva, o 18 presente trabalho apresenta os efeitos do programa na RMN, levantando reflexões que permitem avaliar os resultados do programa quanto ao processo de segregação e desterritorialização, constatando-se que, contraditoriamente, um dos principais desafios dos gestores públicos consiste justamente em combater o modelo de habitação social caracterizado pela segregação socioterritorial e pela precariedade urbana e ambiental. De acordo com Rolnik (2009), é essencial discutir os impactos dos empreendimentos imobiliários nas condições de vida, no ordenamento territorial e no funcionamento das cidades, uma vez que a forma de produção de moradias populares sem cidades tem consequências graves que acabam prejudicando a todos. Além disso, ações desse tipo promovem o encarecimento da extensão das infraestruturas urbanas que precisam alcançar locais cada vez mais distantes. O distanciamento entre os locais de trabalho, os equipamentos urbanos e as áreas de moradia aprofundam as segregações socioespaciais e encarecem os custos de mobilidade urbana. É, pois, preciso priorizar a integração entre a política de habitação e a política urbana, permitindo o controle e o planejamento do território e evitando a manutenção do padrão fragmentado de urbanização brasileiro, onde os mais carentes são constantemente afastados das áreas centrais, o que passa a demandar investimentos cada vez maiores para a sua integração à malha urbana da cidade. 19 1 SEGREGAÇÃO COMO DESTERRITORIALIZAÇÃO: QUEM SOFRE? Com o crescimento das cidades, acompanhado do intenso êxodo rural, a urbanização inevitavelmente não se deu de maneira gradual. Por isso, entre outros fatores, o planejamento urbano deixou lacunas no que concerne à produção das infraestruturas e serviços urbanos necessários. A distribuição espacial na cidade não ocorreu de maneira equitativa, tendo sido, além disso, voltada para os interesses privados, incluindo os do mercado imobiliário. O contingente populacional menos favorecido economicamente, em particular o que saiu do campo para a cidade, não encontrou estruturas que possibilitassem o seu desenvolvimento humano pleno. Os indivíduos, não tendo condições de se manter nas estruturas formais das áreas mais centrais da cidade, a não ser, em certos casos, as áreas mais degradadas do centro antigo, passaram a ocupar terrenos na periferia e em favelas, muitas vezes impróprios para a moradia (VALENÇA, 2010). Lefebvre (1999) discorre sobre esse processo, conceituando de Revolução Urbana as transformações ocorridas no espaço urbano nas últimas décadas. Assenta o seu pensamento na hipótese da urbanização completa da sociedade. O autor, partindo da concepção de reconfiguração das relações espaciais, esclarece que a cidade está passando por um processo de implosão, marcado por uma intensa concentração de pessoas, de atividades e de serviços. Além disso, paralelamente a este processo, a cidade também passa a conviver com uma dinâmica de explosão, processo caracterizado pela fragmentação espacial e relacionado com a expansão do espaço urbano para territórios vizinhos, espraiando o tecido urbano. Desses conceitos, é possível extrair variadas implicações para as relações sociais, econômicas, políticas e ambientais, que se estabelecem no espaço da cidade e que serão discutidas nesse capítulo, o qual dispõe o aporte conceitual necessário para o estudo aqui desenvolvido. As intensas transformações no território urbano provocam a existência de diversos fenômenos, os quais, quando combinados, sintetizam a estruturação do espaço. Características, como a informalidade, a periferização, a segregação e a desterritorialização, são oriundas da produção do espaço e ressalta a influência exercida pelos agentes do mercado imobiliário, pelo Estado e pela classe de rendas mais altas no desenvolvimento desses fenômenos nas cidades. Daí as cidades 20 híbridas, que, conforme apontamentos de Abramo (2009, p.43), são compactadas e difusas, pois “produz uma estrutura urbana informal [e também formal] mais compacta nas áreas consolidadas e mais difusa nas franjas urbanas”. Isso significa que estamos diante de sítios com elevada densidade demográfica (Villaça, 2001), porém que são estruturados em torno de um espaço urbano, o qual é produzido pela dominação de uma classe em detrimento de outra. Como característica peculiar desse modelo de cidade, emergem alguns agentes econômicos dominantes, os quais irão ser os responsáveis por orientar a utilização do solo, demandar a infraestrutura de equipamentos sociais, além de ser responsável pela construção de outras produções urbanas. Desse modo, a distribuição do espaço passa a ser um evento indispensavelmente ligado à lógica do capital, onde o espaço e as infraestruturas urbanas deixam de ser providas segundo uma lógica de servir ao bem público, e passam a ser um produto de investimentos do capital: em suma, a produção do espaço. Lojkine (1981) descreve sobre esse princípio de atuação do Estado em sua obra intitulada “O Estado capitalista e a questão urbana”. Segundo o autor, o Estado é o principal agente de distribuição social e espacial dos equipamentos urbanos, incluindo a necessidade de promover para as diferentes classes, uma oferta adequada de serviços. No entanto, observa-se que as prerrogativas estatais de proteger a sociedade e direcionar os investimentos, com o passar dos anos, tem cada vez mais sido utilizadas em prol da classe de mais alta renda. Na prática, compreende-se que o Estado, mais ainda em países em desenvolvimento, como agente organizador do espaço, tem tido uma atuação deficitária na implantação de sistemas viários, calçamentos públicos, abastecimento de água, tratamento de esgotos, fornecimento de iluminação pública e prestação de serviços públicos mais gerais, tais como a oferta de coleta de lixo regular e estruturação de parques e praças. Nesse contexto, o Estado assume apenas a posição de regulador das atividades executadas pelo capital no espaço urbano, desviando a prática de executar políticas de bem-estar social para a população como um todo, para a adoção de uma postura passiva diante das intervenções favoráveis a uma estruturação territorial marcada pela segregação e desigualdade. Maricato (2000) destaca que o processo de produção e apropriação do espaço urbano reflete e reproduz as desigualdades e as contradições sociais, 21 contando também com a influência do poder público na manutenção de vazios urbanos, ao mesmo tempo em que promove a desterritorialização da população de menor renda em áreas periféricas e mal servidas de equipamentos e serviços urbanos. Nessa concepção, a ideia de desterritorialização, vai ter a sua fundamentação, sobretudo, na definição do território simbólico, o qual foi proposto por Haesbaert (1999) como produto da apropriação feita através do imaginário e da identidade social sobre o espaço, no qual se desenvolve as relações de trabalho, moradia e lazer. Desse modo, o processo de desterritorialização seria fruto da ausência de uma dinâmica do indivíduo com o novo espaço que habita, o qual é precariamente atendido pelos equipamentos e serviços públicos. As famílias de baixa renda, assentadas em áreas periféricas, sofrem as consequências manifestadas na dificuldade de acesso a equipamentos e serviços públicos, no dispêndio de maior tempo no percurso entre local de moradia e local de trabalho, na menor disponibilidade de tempo para participação em eventos e reuniões, na desvantagem, enfim, de condições de interferir nos rumos da cidade (AMARAL, 2009). Essas considerações iniciais permitem a discussão sobre a ocorrência do fenômeno da segregação social no território, concentrando nossas análises para compreender os efeitos de tal processo na Região Metropolitana de Natal. O pressuposto central que motiva a realização da pesquisa consiste em investigar os aspectos locacionais relativos à implementação de empreendimentos habitacionais populares como determinantes da segregação social da população de menor renda no território da RMN. Nesse contexto, a segregação manifesta-se como um processo de desterritorialização, o qual é determinado e agravado pela implantação do Programa Minha Casa, Minha Vida – faixa 1, numa localização fora (ou na extensão mais distante) da malha urbana central das localidades. Ao mesmo tempo, mantêmse glebas e terrenos urbanos vazios, mais próximos de regiões centrais, onde há maior acessibilidade, infraestrutura e serviços públicos. Os resultados desse processo evidenciam, portanto, a implantação de empreendimentos habitacionais de maneira a criar uma distribuição seletiva das camadas sociais, resultando na segregação social da população de renda mais baixa que tem sido assentada em áreas distantes dos equipamentos e serviços públicos, enquanto as áreas mais bem localizadas são arrematadas por investidores 22 e segmentos da população de renda mais alta, contribuindo e reafirmando a especulação imobiliária. (AMARAL, 2009). Este é um impacto desolador para uma política pública que pretende ser progressista e promover o bem-estar e a justiça social. Esse processo vem sendo demonstrado em diversas metrópoles do Brasil, sendo responsável pela reconfiguração do território urbano e por novas pressões sociais em busca de uma mais equilibrada distribuição do espaço e acesso aos serviços. A discussão sobre o papel que o Estado desempenha nessa configuração espacial permite que cheguemos a conclusões semelhantes às já levantadas por Singer (1982). O Estado possui determinante papel na estruturação do território, uma vez que, na medida em que o poder público implanta infraestrutura, equipamentos e serviços públicos, torna-o mais atraente e valorizado. Nesse contexto, cabe constatar que a segregação socioespacial e seus efeitos no cotidiano das populações atingidas devem aqui ser explicados a partir da compreensão do processo de produção do espaço local, aliado a reflexões sobre o conceito de segregação, bem como os efeitos do fenômeno da desterritorialização. Somente após a compreensão desses três fatores é que podemos chegar a conclusões realísticas sobre o processo de segregação e deterritorialização relativos aos empreendimentos do PMCMV – faixa 1, na RMN. Ao observamos a produção do espaço da RMN, constatamos duas características relacionadas à lógica do mercado habitacional. A primeira refere-se a uma contínua expansão de empreendimentos populares para localizações mais distantes, onde os terrenos (ou glebas) são mais baratos, e não se constata a existência de equipamentos e serviços adequados à qualidade de vida e da moradia. Tal fato fortalece o processo de desterritorialização, o qual pode ser entendido como uma perda de vínculos com determinado espaço, provocado principalmente por um afastamento geográfico que gera danos econômicos e sociais, uma vez que emerge uma profunda dificuldade de acesso aos recursos mais básicos de vivência no cotidiano. Nesse contexto, Haesbaert (2004) destaca o processo de desterritorialização numa perspectiva material, como produto espacial do embate entre classes sociais e da relação capital-trabalho. Isso significa que esse fenômeno está intrinsecamente ligado às alterações provocadas a partir de um processo de rompimento com as 23 conexões de uma organização espacial já estabelecida, obrigando que a população atingida desenvolva novos relacionamentos com um novo território. Assim, “as atividades econômicas, a vida social e as demais relações das populações remanescentes locais se alteram no confronto com o novo e desconhecido ambiente, enquanto que as populações desterritorializadas vão sofrer alterações em seus novos espaços para os quais foram remanejadas.” (ROCHA; COSTA, 2010, p.1). Haesbaert (apud Rocha; Costa, 2010, p. 3) complementa: É importante enfatizar que a desterritorialização não é um processo linear, de mão única, mas um processo caracterizado pela própria globalização. Onde existe desterritorialização há também reterritorialização. Desterritorialização é uma condição ambígua que combina benefícios e custos com várias tentativas do restabelecer. Assim, a desterritorialização não pode significar o fim da localidade, mas sua transformação em um espaço. Outra característica evidenciada na estruturação do espaço da RMN está associada a um padrão de autossegregação ou segregação voluntária. Este, conforme descreve Villaça (2001) em sua análise de outras cidades brasileiras, consiste num movimento das classes de mais altas rendas a se isolar em condomínios fechados, em áreas mais próximas dos seus "iguais" e mais distantes dos seus "desiguais". Nesse contexto, a segregação pode ser entendida como "um processo dialético segundo o qual diferentes classes ou camadas sociais tendem a se concentrar cada vez mais em diferentes regiões gerais ou conjuntos de bairros da metrópole.” (VILLAÇA, 2001, p. 142). Ou seja, trata-se de uma separação crescente entre as zonas e moradias reservadas às camadas sociais mais privilegiadas e as zonas predominantemente de moradia popular. Para fortalecer esse conceito, Castells (1978 apud VILLAÇA, 2001, p. 148) considera: Em um primeiro sentido se entenderá por segregação urbana a tendência à organização do espaço em zonas de forte homogeneidade social interna e de forte disparidade social entre elas, entendendo-se essa disparidade não só em termos de diferença como também de hierarquia. Corroborando com esse entendimento, os estudos desenvolvidos por Neto; Moreira; Schussel (2012) sobre os descompassos entre a Política Nacional de Habitação e os empreendimentos do Programa Minha Casa, Minha Vida evidenciam uma crescente periferização das intervenções em habitação de interesse social. 24 Segundo dados levantados, "apenas 34,6% do total de unidades habitacionais vinculadas ao PMCMV nas regiões metropolitanas se localizam nos municípiospolo." (p.91). Isso significa que estes novos conjuntos resultam de uma tendência de expansão geográfica e urbanização capitalista, a qual mantém um padrão periférico de segregação socioespacial. David Harvey, na obra “A Justiça Social e a Cidade (1980), discute o conceito de segregação, argumentando que este se relaciona com uma diferenciação residencial segundo grupos, a qual é reflexo de um diferencial de renda. Esses elementos irão determinar a localização de proximidade às facilidades da vida urbana como água, esgoto, áreas verdes, melhores serviços educacionais, e ausência de proximidade aos custos da cidade como violência, serviços educacionais inferiores, ausência de infraestrutura etc. Desse modo, denotamos que a segregação gera acessos diferenciados à infraestrutura urbana, aos serviços educacionais e, consequentemente, é responsável pela manutenção de uma estratificação social e residencial, onde a população segregada para as áreas periféricas sofrerá com a diminuição da qualidade de vida, no que tange a seu acesso a recursos básicos que a cidade oferece. Desse modo, observa-se que a reestruturação urbana das metrópoles brasileiras tem acentuado uma configuração de novas espacialidades, paisagens e territorialidades. O processo de segregação das classes de rendas mais baixas confirma, portanto, um paradigma de desterritorialização, onde se faz necessário promover alterações em diversas dinâmicas de funcionamento da cidade. Nesse contexto, as camadas populares beneficiadas com o PMCMV pressionam por alterações nos sistemas de transporte, nos processos de descentralização de novos núcleos de serviços e nos novos padrões de adequada infraestrutura pública e equipamentos comunitários. Villaça (1996, p. 2) considera que “o espaço urbano tende então a produzir e a reproduzir a estrutura gerada pelos interesses das burguesias, pois ela, para esse fim, controla o mercado, o Estado e a ideologia." Assim, a desigualdade de acesso à infraestrutura da cidade consiste num fator que vai além de questões espaciais. A precariedade dos sistemas de transporte das nossas cidades e o desequilíbrio de poder político entre as classes sociais faz com que as burguesias controlem o 25 espaço urbano, escolhendo as melhores localizações para se instalarem, atraindo os serviços mais importantes para o seu entorno. Diante do cenário exposto, pode-se pensar que as questões relativas à habitação e ao espaço construído não estão longe de ser o principal gargalo da cidade contemporânea. Observa-se que os poderes públicos nessa cidade multifacetada devem promover ações de diversas naturezas, assegurando a qualidade e o bem-estar dos seus citadinos. No entanto, ainda não foram empreendidas alternativas políticas e administrativas que combatam esse déficit espacial e social, garantindo padrões adequados de moradia e a estruturação adequada do espaço urbano para todos. Temos a sensação de que a natureza do problema não foi atingida e, por isso, as raízes continuam desgastadas e ineficientes. Para a moradia popular, faz-se necessário pensar em soluções que sejam capazes de aliar a provisão habitacional a um sistema de manutenção das unidades produzidas, para estabelecer uma gestão de sucesso em longo prazo, e não meramente soluções pontuais e imediatistas. Além disso, deve-se superar esse antigo embate entre as classes sociais. O poder público, enquanto agente isento, ao menos na teoria, dos interesses individuais, precisaria agir de forma mais equitativa, provendo condições adequadas para a reterritorialização, e/ou para a promoção de inserção mais central das populações de rendas mais baixas. Além disso, cabe novamente refletir sobre aquilo que Lefebvre (1999) chama de revolução urbana real, incluindo as noções de sociedade urbana alienada e projetos urbanos alucinantes. Nesse contexto, a revolução urbana se projeta no inchaço das cidades, o qual é acompanhado de projetos urbanos cada vez mais modernos e espetaculosos, incluindo os objetos arquitetônicos como ícones, em contradição aos problemas sociais, os quais ficam quase sempre esquecidos no imaginário da população, a qual é alienada pela produção dos consensos midiáticos de desenvolvimento e progresso. Estaríamos nós criando e assistindo a um futuro distópico? As cidades contemporâneas são, realmente, catástrofes espaciais, apartadas socialmente? Para efeitos de reflexão, as propostas distópicas discutidas por Valença (2011) retratam um futuro indesejado, servindo como verdadeiras matérias-primas para um projeto crítico de transformação da realidade social. Deve-se procurar apreender a 26 realidade, as representações do espaço e, a partir dessa compreensão, pode-se pensar na “construção de um projeto de sociedade que seja mais incluso, tolerante, aberto ao novo, indeterminado, diferente e que vislumbre um futuro melhor para todos.” (Valença, 2011, p. 60). 27 2 PRODUÇÃO DO ESPAÇO E DOS CONJUNTOS DO PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA Conforme já discutido anteriormente, sabe-se que o espaço é produzido e modificado de acordo com os interesses da sociedade, mas, especificamente, sabese que essa transformação espacial obedece a uma lógica da classe dominante, a qual irá traçar estratégias de readequação, partindo da dominação dos instrumentos existentes, bem como influenciando os agentes produtores desse espaço a seguirem aquilo que melhor irá beneficiar esse grupo de atores. Pode-se ter um retrato dessa situação, partindo para uma reflexão do cotidiano, englobando o entorno imediato. Pesquisas apontam os efeitos do ordenamento espacial, existindo bairros destinados predominantemente a uma classe de maior poder aquisitivo e outros onde se concentram uma classe de renda mais baixa. Estudos desenvolvidos pelo Observatório das Metrópoles (2013), a partir da análise das rendas médias da população, confirmam essa tendência de estruturação do espaço, onde os mais ricos têm os seus próprios bairros, sendo estes melhor localizados e mais bem servidos dos equipamentos urbanos. Lago e Mammarella (2010) analisam essa grande tendência na organização social do território metropolitano brasileiro, considerando o perfil social de uma área, bem como o grau de diversidade ou homogeneidade social presente na dinâmica cotidiana do bairro. Aponta que o perfil social de uma localidade é expressão das desigualdades econômicas na disputa pela apropriação do espaço urbano, existindo áreas mais exclusivas das classes superiores e outras mais tipicamente operárias. Assim, constata-se que áreas habitadas por classes mais baixas, distantes e com reduzido poder de disputa na cidade, funcionam como entraves às oportunidades de acesso aos recursos. Essa lógica corrobora com aquilo que já discutimos e que foi definido por Villaça como uma tendência à segregação residencial do espaço. Ribeiro (2003, p.2) complementa: Estes fenômenos provocam conjuntamente o aumento da segregação residencial na medida em que surgem bairros exclusivos das camadas superiores, ao mesmo tempo em que as camadas médias e, eventualmente, as inferiores, em processo de mobilidade social descendente, são deslocadas para outros bairros, diminuindo, assim, o grau de mistura social das cidades. 28 O presente capítulo, portanto, pretende refletir sobre essa produção do espaço, trançando uma discussão sobre os agentes produtores deste, bem como analisando como os conjuntos implementados pelo Programa Minha Casa, Minha Vida atuam nessa estruturação do espaço, incluindo, para isso, a análise dos normativos que instituíram o programa. O aporte teórico que será utilizado se fundamenta nas considerações oriundas dos trabalhos de Henri Lefebvre e David Harvey, que produziram diversas obras sobre esse fenômeno, em especial a vasta reflexão temática sobre a “produção capitalista do espaço” (Harvey, 2005). Para iniciar a discussão sobre a produção do espaço, faz-se necessário, primeiro, tratar da temática “cidades”.Hall (2009) discorre sobre as mudanças que vêm ocorrendo no modo convencional de planejar as cidades, a qual passou do uso de planos, regulamentos e controle do uso do solo, para novas estratégias de crescimento urbano e produção de riquezas. As cidades passaram a ser vistas como máquinas econômicas de produção e os planejadores assumiram o papel de empreendedores urbanos. Os efeitos disso no espaço são amplamente visíveis e essa forma de crescimento das cidades, a qual incorpora a renovação de áreas degradadas, permite que se reflita sobre as questões relacionadas à justiça espacial já trata por Harvey (1980) em sua obra “Justiça Social e a Cidade”, bem como sobre as posturas dos empreendedores urbanos, discutidas por Harvey (1996) na obra “Do gerenciamento ao empresariamento urbano: a transformação da administração urbana no capitalismo tardio”. As reflexões propostas emergem quando investigamos se essa estruturação espacial ocorre de forma justa para toda a população, ou se essa requalificação do espaço empreendida em função da globalização vislumbra apenas a instauração de áreas mais desenvolvidas, composta por arquiteturas de design mais moderno, destinadas à atração de turistas, investidores e restritas a usuários solváveis. Convivem com estas áreas apartadas espacialmente, mal servidas de equipamentos urbanos, onde se escondem os efeitos da pobreza, da marginalização e da desigualdade de renda. Essas considerações ainda não têm respostas, porém se faz necessário analisar que o que toda população espera do poder público é que ele seja capaz de desenvolver a cidade de uma formar justa, eficiente e menos desigual. Nessa concepção, a análise da produção do espaço a partir da construção dos conjuntos do PMCMV faz-se necessária. Destaquem-se a lógica a que estes têm 29 obedecido, bem como os impactos dessas formas de habitação no cotidiano dos novos moradores que, no geral, têm sofrido ao longo de suas vidas os males da urbanização desenfreada, com seus problemas habitacionais e de insalubridade do espaço urbano. Edesio Fernandes (2008) aborda essa temática sob o enfoque do direito urbanístico, apontando questões relativas à ilegalidade e à informalidade dos espaços, as quais muitas vezes estão relacionadas com as legislações urbanísticas e com os interesses capitalistas dos agentes produtores desse espaço. O autor pondera sobre a expressão Direito à Cidade, formulada por Henri Lefebvre (1991), e que, na sua origem, designa um conjunto de elementos necessários para a vivência no espaço da cidade, garantindo a homogeneidade de acesso aos serviços, bem como assegurando que os habitantes da cidade possuam condições similares de reprodução das relações sociais. De forma geral e conforme apontamentos de Lefebvre, temos que o direito à cidade se confunde com o próprio direito à vida, reivindicando a necessidade de que todos os habitantes da cidade usufruam de uma “integral cidadania”. No entanto, na prática, vivenciamos uma constante luta por esse direito, uma vez que, apesar dos avanços na legislação que diz respeito aos instrumentos de ordenamento territorial no Brasil, existe uma enorme dificuldade de aplicação desses normativos no cotidiano. Corrêa (2000) discorre sobre a produção do espaço, tratando-o como um elemento central da problemática do mundo contemporâneo, partindo da conceituação do que é o espaço urbano, de quem são os produtores desse espaço e destacando que esse será definido de acordo com um conjunto de usos da terra, podendo assim definir as áreas da cidade destinadas para a concentração de atividades comerciais, de serviço, de indústrias, de residências e de lazer. Quanto aos agentes produtores desse espaço, o autor aponta as ações empreendidas pelos proprietários fundiários, os proprietários dos meios de produção, o Estado, os promotores imobiliários e os grupos sociais, destacando que a ação de todos eles se dá paralelamente e conjuntamente no espaço urbano. Lefebvre (1991) discorre sobre as relações entre as classes, destacando que a classe trabalhadora seria o componente-chave no processo de transformação do espaço urbano. O autor nega a ideia de tornar os problemas urbanos uma questão meramente administrativa, técnica, científica; para ele é preciso que os cidadãos, incluindo especialmente a 30 classe trabalhadora, sejam sujeitos do espaço social, fazendo uma oposição à perspectiva administrativista de produção social do espaço. Desse modo é que Lefebvre defende a construção de um espaço de cidade que seja do povo, pelo povo e para o povo. A relação disso como o PMCMV é clara quando observamos os normativos que instituíram o programa. Os agentes do Estado, enquanto propulsores de políticas públicas, estabelecem suas ações, impactando e influenciando as atividades de todos os outros demais agentes produtores do espaço. De maneira clara, na legislação nº 12.424 (2011) que regulamenta o PMCMV, especificamente no artigo 5º, observam-se alguns aspectos para a implantação de empreendimentos no âmbito do PMCMV, a destacar a necessidade localização do terreno na malha urbana ou em área de expansão; a existência de adequação ambiental do projeto, bem como de uma infraestrutura básica que inclua vias de acesso, iluminação pública e solução de esgotamento sanitário e de drenagem de águas pluviais e que permita ligações domiciliares de abastecimento de água e energia elétrica. Outro ponto recorrente e enfatizado nos normativos consiste na necessidade de existência ou compromisso do poder público local de instalação ou de ampliação dos equipamentos e serviços relacionados à educação, saúde, lazer e transporte público. Estes princípios condicionam o PMCMV e confirmam a sua relação com os demais agentes responsáveis pelo ordenamento territorial. No contexto atual, os princípios jurídicos norteadores da ocupação e uso do solo só se consolidaram a partir de 2001, com o Estatuto da Cidade; de 2003, com a criação do Ministério das Cidades, órgão responsável pela integração das políticas de habitação, saneamento, desenvolvimento urbano e mobilidade urbana; e de 2005, com o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social – SNHIS, entre outras medidas e ações, ressaltando que nunca antes existiu aparato normativo tão integrado no que tange ao campo de habitação social no Brasil. Além disso, com a implementação da Política Nacional de Habitação em 2004, criação do Sistema Nacional de Habitação em 2005 e do Plano Nacional de Habitação em 2009 e da constituição de um Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social, em 2006, foi possível construir um modelo consistente de enfrentamento do déficit habitacional brasileiro, articulado com os três níveis de 31 governo e que teve como trunfo mais recente o Programa Minha Casa, Minha Vida, implantado a partir de 2009. O PMCMV foi instituído por meio da lei 11.977, de 07 de julho de 2009, tendo como objetivo principal promover emprego e renda e o acesso à moradia,em áreas urbanas e rurais, através da construção, reforma e aquisição de um milhão de imóveis para famílias com rendas de 0 a 10 salários mínimos (com subsídios para as famílias com renda de até R$5.000,00) em áreas urbanas, e para famílias com renda bruta anual de até R$60.000,00 em áreas rurais. O programa é dividido em três faixas de renda, sendo a primeira destinada a famílias com renda mensal inferior a R$ 1.600,00, que podem receber subsídios de até 96% do valor do imóvel. Para a segunda faixa, para o segmento de renda familiar acima de R$ 1.600 até R$ 3.275, os juros cobrados são menores que os de mercado e os subsídios podem chegar a R$ 25 mil por família, sendo que, quanto menor a renda familiar, maior o valor subsidiado. Na terceira faixa, a partir da renda familiar de R$ 3.275 até R$ 5.000, não existe subsídio no valor do imóvel, mas as taxas de juros também são menores que as de mercado. A abrangência é para as capitais e respectivas regiões metropolitanas, municípios com mais de 100 mil habitantes, podendo contemplar em condições especiais municípios entre 50 e 100 mil habitantes, de acordo com o seu déficit habitacional. O funcionamento do programa parte da alocação dos recursos pela União, a qual faz a solicitação de projetos. A partir disso, os estados e municípios realizam cadastramento das famílias que poderão ser selecionadas e as construtoras apresentam os projetos às superintendências regionais da CAIXA, podendo fazê-los em parceria com estados, municípios, cooperativas, movimentos sociais ou independentemente. A CAIXA analisa e faz a contratação, sendo necessário deste agente acompanhar a execução da obra, liberar recursos conforme cronograma e, após a conclusão do empreendimento, realizar a ocupação dos imóveis. Ressalta-se que este conjunto de instrumentos estabeleceu um novo arcabouço institucional de enfrentamento do problema habitacional brasileiro, exigindo das três esferas um novo patamar de legislações, culminando, em nível local, com a obrigação dos municípios elaborarem seus Planos Locais de Habitação de Interesse Social (PLHIS), um fundo local e seu conselho gestor, propondo novas formas para reverter o quadro habitacional vigente. 32 No entanto, as limitações da política habitacional são claras e bastantes recorrentes. Apesar dos avanços institucionais, o desafio de pôr em prática os princípios integradores desses setores, capazes de garantir um desenho territorial equilibrado, assegurando padrões de justiça, bem como proporcionando à sociedade o direito à cidade, ainda se constitui um dos principais entraves do programa. Parte desse problema se relaciona com a heterogeneidade dos municípios brasileiros, os quais apresentam divergências quanto à aplicação de políticas habitacionais e fundiárias, bem como possuem padrões de controle de uso do solo que seguem a lógica dos interesses individuais e mercantis. O resultado disso ainda pode ser revertido, porém se faz necessário evitar esse modelo de produção e reprodução de uma política habitacional caracterizada pela segregação da população no espaço, culminando no fenômeno da desterritorialização e afetando principalmente os beneficiários dessas políticas. Estes irão sofrer cada vez mais com os problemas de habitar um território sem cidade, precário de infraestruturas básicas e distantes dos postos de trabalho, saúde e lazer etc. Cláudio Acioly (2012), especialista em habitação do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), afirma que isso tem levado a alguns municípios a repetir erros do passado, quando foram construídos conjuntos habitacionais desconectados da malha urbana. Complementando este pensamento, o Ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, diz que o maior desafio do governo realmente é a "habitabilidade urbana", ou seja, a obtenção de terrenos compatíveis com o programa e a disponibilização de infraestrutura, como creches, escolas, postos de saúde e transporte. Nessa perspectiva, apesar das ações empreendidas pela Política Nacional de Habitação, agregando inovações na legislação quanto ao acesso à terra urbanizada e à qualidade da produção habitacional, a prática de construção dos conjuntos do PMCMV para a população de 0 a 3 salários mínimos tem comprovado o abandono da política urbana integrada, priorizando-se a quantidade em detrimento das boas localizações1. As constatações que podemos extrair dessa reflexão acerca da produção do espaço e da construção dos conjuntos do PMCMV, bem como dos agentes que os produzem, permitem que novas perspectivas do ordenamento territorial sejam 1 O capítulo quatro deste trabalho irá tratar desse elemento, demostrando os resultados evidenciados na RMN e comprovando os efeitos da segregação e desterritorialização do programa. 33 pensadas. Conceber o espaço como uma unidade em constante transformação, a qual varia de acordo com práticas cotidianas, bem como com as interferências oriundas daqueles agentes responsáveis pela sua produção, possibilita que se construa um futuro de cidade que seja mais equilibrado e mais justo. O PMCMV, como uma política pública que busca universalizar o acesso à moradia e que, por isso, possui uma dinâmica com o espaço urbano, promove amplos efeitos territoriais, sendo necessário garantir que a moradia signifique não só a melhoria das condições de salubridade e conforto, mas, sobretudo, um fator de inclusão social e não de marginalização espacial (AMARAL, 2009). Assim, temos que não se é possível pensar em provisão habitacional isoladamente do contexto de cidade, sendo imprescindível assegurar que a população tenha acesso a infraestruturas urbanas e não sofra consequências do processo de desterritorialização, minimizando impactos territoriais relacionados à segregação residencial, em linha com o que Harvey propõe que seja feito na busca por justiça social. Desse modo, a luta pelo direito à cidade se inicia com o rompimento do sentimento de indiferença que marca a sociedade atual, sendo necessário se pensar em formas mais democráticas de produção do espaço urbano, construindo-se uma realidade de cidade que faz da moradia um bem comum àqueles que desenvolvem as suas relações sociais num espaço permeado de práticas individualistas e fragmentadas. 34 3 OS CONJUNTOS DO PMCMV E SUA INSERÇÃO URBANA NA RMN A Região Metropolitana de Natal é composta atualmente por 11 municípios, que se distribuem numa área aproximada de 2.950 km², abrigando uma população de 1.351.004 habitantes, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2012. Foi formada, em 1997, com 5 municípios, e, com o passar dos anos, vem se estruturando e se readequando às novas dinâmicas impostas pelo território. Apesar dos entraves políticos que circundam a sua constituição, observase nessa área metropolitana a existência de diversos fenômenos relacionados ao território e à expansão urbana, tais como a conurbação entre municípios, o transbordo populacional e a existência de cidades dormitórios (CLEMENTINO, 2003). Relacionado à construção dos empreendimentos faixa 1 do PMCMV, os dados levantados apontam para uma crescente expansão urbana rumo à periferia da RMN, a qual se dá inicialmente devido a uma indisponibilidade de áreas de baixo custo para investimentos imobiliários em Natal, onde os terrenos mais centrais têm preços muito elevados. Segundo pesquisa realizada, em 2010, pelo Observatório das Metrópoles – Núcleo Natal, nove municípios da RMN – excluindo, dos 11, apenas Natal e Maxaranguape, este último que apenas foi incorporado, em 18 de fevereiro de 2013, à Região Metropolitana –, tiveram um crescimento populacional demais do que o dobro da média para todo o estado, entre 2000 e 2010. Esse crescimento e essa nova tendência de ocupação nos extremos das cidades constituem um fenômeno quase que irreversível. O PMCMV tem sido importante para enfatizar esta tendência. Novamente, os dados do Observatório da Metrópole indicam duas tendências de crescimento da mancha urbana, sendo a principal a de Natal em direção a Parnamirim e Macaíba, e a São Gonçalo do Amarante e Extremoz, apontando para um “espraiamento” da população ao longo da RMN, provocando a expansão e um transbordo em seu entorno (FREIRE e CLEMENTINO, 2011). Essa expansão descontínua da mancha urbana tem aumentado as distâncias, encarecido os investimentos para a implantação de serviços públicos, elevado os custos de moradia e reduzido a qualidade de vida da população. De forma geral, observa-se um impacto direto no cotidiano dos habitantes dessas áreas periféricas, que se 35 veem obrigados a residir num espaço segregado, com precária infraestrutura e poucos serviços. A causa de tal condição são os altos custos da moradia em áreas mais centrais das cidades. Referindo-se a este processo nas cidades brasileiras, ainda nas décadas de 1970-80, BOLAFFI (1985 apud AMARAL, 2009, p.4) escreve: Enquanto porções do solo urbano parcial ou totalmente atendidas permanecem ociosas, contingentes cada vez maiores da população se instalam em áreas não servidas. E enquanto a periferia surge e se amplia, a baixa utilização dos serviços instalados condena o poder público à incapacidade permanente de resolver um problema que, paradoxalmente, o crescimento econômico e demográfico somente contribuíram para agravar. Dados disponibilizados pela Caixa Econômica Federal indicam a construção de 32 empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 na RMN, totalizando 10.226 novas residências, distribuídas em oito dos onze municípios da área metropolitana de Natal (ver Mapa 1).Superando-se a discussão sobre a ideologia da casa própria, pretendese aqui refletir sobre os efeitos do PMCMV para a população atendida, bem como os impactos ocasionados no território da RMN, discutindo-se sobre o relativo isolamento da população residente nos novos conjuntos devido à distância e à ausência ou deficiência de infraestrutura e serviços públicos e privados no entorno. Ademais, pretende-se investigar se isto é determinante para definir a segregação dessas populações, bem como a sua desterritorialização e a formação de uma nova territorialidade (ou a reterritorialização), para usar os termos de Rogério Haesbaert. Nesse sentido, foram visitados os municípios da RMN que têm empreendimentos pelo PMCMV – Faixa 1 (que atendem a população de baixar renda, de 0 a 3 salários mínimos), caracterizando o empreendimento e o seu entorno, bem como demarcando a distância relativa ao centro da cidade e as vias de transporte que os abastecem. Essa pesquisa exploratória ocorreu no mês de maio quando foram visitados todos os 32 conjuntos do PMCMV – Faixa 1, distribuídos no território metropolitano, estando estes em construção ou já construídos. 36 Mapa 1 – Situação dos empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 na RMN Fonte: Elaborado pela autora sobre base cartográfica fornecida pelo Observatório das Metrópoles – Núcleo RMNatal. A partir da leitura do mapa, pode-se perceber que apenas os municípios de Maxaranguape, São José de Mipibu e Vera Cruz não contaram, até o presente momento, com os investimentos do PMCMV para a faixa de renda de 0 a 3 salários mínimos. Os demais apresentam empreendimentos nas fases de construção ou que já foram entregues aos novos moradores. No caso de Parnamirim e Nísia Floresta, destaca-se a existência de empreendimentos tanto em construção quanto aqueles que já foram construídos. É importante ressaltar a quantidade total dos empreendimentos que estão sendo instalados em cada município, possibilitando estabelecer comparações entre aqueles que mais receberam os investimentos, bem como observar a tipologia de construção que tem sido adotada para cada localidade. O quadro abaixo sintetiza essas informações: 37 Quadro 1 – Distribuição dos conjuntos do PMCMV – faixa 1 na RMN, observando a atual situação e a tipologia de construção QUANT. DE TOTAL DE MUNICÍPIO SITUAÇÃO TIPOLOGIA EMPREENDIMENTOS UNIDADES Ceará-Mirim Extremoz 4 4 1.155 790 Entregue Entregue Macaíba 3 1.040 Entregue Maxaranguape 0 0 Não beneficiado - Monte Alegre Natal 1 4 169 896 Em construção Em construção Casas Apartamentos Nísia Floresta 2 383 Em construção e Entregue Casas Parnamirim 13 5.488 Em construção e Entregue Apartamentos São Gonçalo do Amarante 1 305 Entregue Casas São José do Mipibu 0 Não beneficiado Não Vera Cruz 0 0 beneficiado Total RMN 32 10.226 Fonte: Elaborado pela autora com dados daCaixa Econômica Federal 0 Casas Casas Casas e Apartamentos - As informações levantadas junto à Caixa Econômica Federal evidenciam que o município da RMN que mais recebeu investimentos do PMCMV para a população que se encontra na faixa de renda de 0 a 3 salários mínimos foi o município de Parnamirim, existindo nessa localidade 13 conjuntos habitacionais na forma de apartamentos, totalizando 5.488 novas habitações. Seguido desse município, encontramos as cidades de Ceará-mirim, Extremoz e Natal, as quais abrigam 4 empreendimentos na forma tipológica de casas nos dois primeiros, e apartamentos na capital. Ressalta-se, no entanto, que o primeiro município construiu 1.561 novas residências, enquanto que o segundo construiu apenas 790 unidades habitacionais e Natal encontra-se na fase de construção de 896 novas moradias. O município de Macaíba foi beneficiado com 3 empreendimentos PMCMV – Faixa 1, sendo construídas na localidade 1.040 unidades habitacionais. Nísia Floresta conta com a implementação de 2 conjuntos, sendo que um ainda se encontra na fase de construção. Somados contribuem para a existência de 383 unidades residenciais destinadas à população de baixa renda. Os municípios de Monte Alegre e São Gonçalo do Amarante contam com a construção de apenas 1 conjunto do programa 38 para essa faixa de renda, totalizando no primeiro 169 novas casas e no segundo 305. A leitura desses dados permite que se gere uma reflexão acerca das novas dinâmicas que serão impostas no território a partir da construção dessas unidades habitacionais. Sobretudo, é preciso discutir sobre os impactos diretos no cotidiano desses novos moradores que serão obrigados a arcar com os custos de habitação em áreas periféricas, desabastecidas dos equipamentos públicos considerados essenciais, instaurando uma nova relação com o espaço, provocada, a priori, por uma desterritorialização, conforme já abordado anteriormente. Buscando melhor esclarecer esses aspectos e evidenciar de forma mais visível os efeitos dessa segregação, foram construídos mapas, os quais demarcam as distâncias relativas ao centro ou núcleo urbano de cada município para o conjunto habitacional analisado. Desse modo, todos os oito municípios da RMN que receberam investimentos do PMCMV – Faixa 1, estarão aqui representados, elucidando, principalmente, as formas de acesso aos conjuntos por meio de vias e transportes públicos e a dificuldade de se estabelecer uma política habitacional integrada com os demais setores do meio urbano. No entanto, antes de adentrar nessa abordagem mais exploratória sobre as relativas distâncias dos conjuntos do PMCMV para os centros das cidades, faz-se necessário refletir sobre o que se constitui um centro de cidade, bem como apresentar suas características referentes à concentração de comércio e serviços. 3.1 CENTROS DE CIDADE: CARACTERÍTICAS E FORMAS DE ACESSO Conforme apontamento de Corrêa (2000), uma área central de cidade constitui-se da concentração das principais atividades comerciais, de serviço, da gestão pública e privada e de terminais de transportes. Ela se destaca no ordenamento espacial da cidade principalmente pelas relações que se estabelecem nesse território, possuindo uma intensa dinâmica de atividades diurnas capazes de conferir uma identidade a esta realidade local. Os registros mostram que a cidade passou a reconhecer a importância dos centros a partir da Revolução Industrial, quando se evidencia de forma mais clara a elevada necessidade de redes de transporte integradas, capazes de suprir a 39 demanda de distribuição dos produtos industrializados que surgia. Diante disso, verificou-se um processo de aglutinação ao redor das redes de transporte, possibilitando que novos investimentos e estabelecimentos se instaurassem, buscando, sobretudo, aproveitar o fluxo de pessoas nessas determinadas áreas. Nessa perspectiva, os núcleos centrais que se estabelecem nas cidades possuem estreita influência na dimensão espacial do território, uma vez que irá se buscar, cada vez mais, as melhores formas de acesso a essas localidades. Ressalta-se, no entanto, que nem sempre a proximidade física a um núcleo central se constitui na melhor área para se estabelecer. O que deve ser levado em conta, nesse contexto, são as formas de acesso a essa área central, incluindo nesse cenário a importância da rede de transportes. Desse modo, levando-se em consideração os transportes, bem como a infraestrutura de serviços implantada, a proximidade e o acesso ao centro é um dos fatores definidores da qualidade de vida da população em geral. Nessa pesquisa, foram demarcados os centros das cidades da RMN beneficiadas pelo PMCMV – Faixa 1, levando em consideração esse conjunto de características já relatadas. Tal fato possibilitará a discussão sobre as formas de acesso a esse centro, refletindo sobre as distâncias dos empreendimentos do PMCMV para essas áreas, bem como sobre as formas de transporte entre estes e aqueles. 3. 2 OS EMPREENDIMENTOSDO PMCMV EM CEARÁ-MIRIM O município de Ceará-Mirim apresenta 4 conjuntos do PMCMV - Faixa 1, todos construídos no bairro Terra Santa, nas proximidades da BR-406, zona de expansão urbana do município. A construção dos empreendimentos foi iniciada no ano de 2009 e a prefeitura do município, em parceria com a Caixa Econômica Federal, formalizou o processo de entrega para famílias de baixa renda com rendimentos de até três salários mínimos, em agosto de 2011. As residências, totalizando 1.155 unidades, possuem área aproximada de 41,69 m² e são compostas por 2 quartos, sala, cozinha, banheiro e área de serviço, conforme sintetiza o quadro abaixo. 40 Quadro 2 – Os empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 em Ceará-Mirim Nome RESIDENCIAL FAUNA Preço R$ 36.995,00 Quant. 401 Tipo Casas Tamanho Situação 41,60m² Endereço Entregue RESIDENCIAL FLORA R$ 36.995,00 202 Casas 41,60m² Entregue RESIDENCIAL MAR R$ 36.995,00 322 Casas 41,60m² Entregue RESIDENCIAL TERRA R$ 36.995,00 230 Casas 41,60m² Entregue Loteamento Natureza I, situado à BR 406, trecho Ceará Mirim/Taipú, Bairro Terra Santa –– Ceará Mirim/RN (zona de expansão urbana). Fonte: Caixa Econômica Federal Quanto à localização dos empreendimentos, a Figura 1 evidencia as distâncias geométricas medidas dos conjuntos até o centro urbano do município. No entanto, conforme já foi relatado, é preciso também considerar as formas de acesso do conjunto para o centro. Figura 1: Localização dos empreendimentos do PMCMV e sua distância relativa ao centro de Ceará-Mirim Fonte: Adaptado do Google Earth. Os dados coletados na pesquisa de campo, acompanhado dos relatos dos moradores, bem como das observações extraídas no local, possibilitaram registrar o cotidiano estabelecido no conjunto, o qual conta com diversos problemas de 41 natureza estrutural. A menor distância do conjunto para o centro da cidade corresponde ao valor de 2,55 quilômetros (medidos pelo GPS, ou seja, em linha reta, desconsiderando-se a disposição das ruas), os quais são geralmente percorridos a pé pelos moradores, gastando em torno de 40 minutos. Alguns utilizam bicicletas, serviços de moto-táxi ou, outros poucos, seus automóveis particulares. Isso se dá, sobretudo, pela dificuldade de acesso ao transporte público, uma vez que da localidade para o centro circulam apenas 2 linhas de alternativos que não possuem horário fixo nem frota suficiente para atender a demanda. O valor da passagem é de R$ 1,50 e, no conjunto, não existem pontos de ônibus adequados, construídos para proteger a população das condições climáticas de sol e chuva. A dificuldade de acesso à área central se materializa no cotidiano local, onde os moradores sofrem os impedimentos de desenvolverem suas práticas sociais, inclusive no cumprimento de suas atividades de trabalho. O fenômeno da segregação e da desterritorialização se manifesta, portanto, nessa dificuldade da população ter acesso às áreas centrais, a qual pode ser evidenciada quando observa-se na Figura 1 o desenho territorial do município. Os empreendimentos estão à margem daqueles espaços já consolidados da cidade e a ausência de meios de transporte público adequados contribui para a segregação e o desenvolvimento de novas territorialidades, uma vez que a população local se vê obrigada a conceber novas práticas nesse espaço distante e desequipado. 3. 3 OS EMPREENDIMENTOS DO PMCMV EM EXTREMOZ São 4 os empreendimentos do PMCMV destinados à população de 0 à 3 salários mínimos em Extremoz, constituindo-se 790 novas unidades habitacionais na forma de casas. Os Residenciais Jardins de Extremoz I, II, III e IV foram entregues à população em agosto de 2011 e estão localizados no conjunto São Miguel Arcanjo, nas proximidades da RN-160. As residências possuem tamanho médio de 41,08 m² e seguem os padrões definido pelo Ministério das Cidades. 42 Quadro 3 – Os empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 em Extremoz Nome Preço Quant. Tipo Tam. Situação RESIDENCIALJARDINS R$ 200 Casas 41,08m² Entregue DE EXTREMOZ I 36.999,96 RESIDENCIAL JARDINS R$ 196 Casas 41,08m² Entregue DE EXTREMOZ II 36.999,96 RESIDENCIAL JARDINS R$ 190 Casas 41,08m² Entregue DE EXTREMOZ III 36.999,93 RESIDENCIAL JARDINS R$ 204 Casas 41,08m² Entregue DE EXTREMOZ IV 36.999,97 Fonte: Caixa Econômica Federal Endereço Loteamento Jardins de Extremoz – São Miguel Arcanjo Extremoz/RN Os conjuntos I, II e III e IV ficam a uma distância de 1,55 quilômetros do centro de Extremoz (Figura 2). Figura 2: Localização dos empreendimentos do PMCMV e sua distância relativa ao centro de Extremoz Fonte: Adaptado do Google Earth Para ter acesso aos serviços concentrados no centro do município, os moradores dos conjuntos do PMCMV precisam contar com as duas linhas de alternativos que atendem à localidade, sendo uma intermunicipal, que custa R$:1,00, e outra que vai até a área de Igapó, custando uma passagem R$:2,00. Enquanto se coletavam as informações e se observava o cotidiano da área, percebeu-se que não existe uma rota específica de circulação do transporte, ficando ao critério do 43 motorista em quais ruas circular e quais pontos parar. Tal fato foi uma das principais queixas relatadas por uma moradora do conjunto, enquanto aproveitava a sombra oriunda de um ponto de vendas criado por um morador local (ver Figuras 3 e 4). Esse problema também foi verificado nos conjuntos construídos em Ceará-Mirim e ambos possuem como característica um amplo descampado no entorno, com ausência de uma dinâmica de vizinhança que permite o estabelecimento de práticas sociais comunitárias. Figura 3: Ponto de ônibus Residencial Jardins de Extremoz I, II, III e IV Figura 3: Ponto de ônibus Residencial Fauna, Flora, Terra e Mar em Ceará- Mirim Fonte: Acervo da autora. Fonte: Acervo da autora. 3. 4 OS EMPREENDIMENTOS DO PMCMV EM MACAÍBA Macaíba conta com 3 empreendimentos do PMCMV destinados à população com renda de até 3 salários mínimos. Dois deles foram construídos na forma de casas e são localizados no loteamento Ferreiro Torto, totalizando 540 unidades habitacionais. Já o Residencial Minha Santa é composto por 500 apartamentos e foi construído no bairro Bela Vista, fazendo divisa com o território de Parnamirim. Os empreendimentos começaram a ser construídos em 2010 e foram entregues em 2012 pela prefeitura do município em parceria com a Caixa Econômica Federal. (Ver Quadro 4). Quadro 4 – Os empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 em Macaíba Nome Preço Quant. Tipo Tam. Situação Endereço RESIDENCIAL R$ 36.995,00 FRANCISCO ALÍPIO 256 RESIDENCIAL LÚCIA MARQUES 284 R$ 36.995,00 Casas 41,67m² Entregue Loteamento Ferreiro Torto – Alto do Ferreiro Torto - Macaíba/RN Casas 41,67m² Entregue CEP 59.280-000 44 RESIDENCIAL MINHA SANTA R$ 41.000,00 500 Rua Irineu Nunes, S/N, Bela Vista Apart. 42,52m² Entregue Macaíba/RN – CEP: 59.280-000 Fonte: Caixa Econômica Federal As informações relacionadas à distância dos conjuntos para o centro de macaíba evidenciam a dificuldade que a população tem de acesso aos transportes públicos. Conforme dados levantados na Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes – SMTT, existem 3 linhas de ônibus que circulam no município de Macaíba, sendo a primeira em direção a São Gonçalo do Amarante e Igapó; a segunda em direção ao Centro de Natal, atravessando a BR-226; e a terceira que parte de Macaíba pela BR-101 em direção as mediações do shopping Midway Mall, em Natal. O problema dessas linhas é que elas não atendem os bairros do município, partindo sempre do Centro de Macaíba para os seus destinos finais. Assim, caso o morador residente do conjunto do PMCMV, localizado no Alto do Ferreiro Torto, queira acessar alguma área central, ele deverá fazer o uso de uma forma alternativa de locomoção. Durante a pesquisa de campo, foi vivenciado o drama dos moradores, os quais desenvolveram um meio de transporte denominado de “carro de lotação”, sendo esse o responsável por circular no conjunto e levar as pessoas para o centro de Macaíba. Quanto ao Residencial Minha Santa, a questão é um pouco mais dramática. O conjunto foi construído numa localidade que divide os municípios de Macaíba e Parnamirim, fazendo com que os moradores tenham uma divergência de identidade territorial, estabelecendo práticas mais intensas com o município de Parnamirim (guardando uma distância do centro dessa localidade de 3,42km), porém estão sob jurisdição do município de Macaíba. A distância desse empreendimento para o centro de Macaíba é de aproximadamente 8,4 km e o acesso para esse se dá através de duas conduções de ônibus. Desse modo, caso o morador residente do condomínio Minha Santa queira chegar ao centro do município, ele deverá utilizar da linha “J” de Parnamirim e pegar outro ônibus na BR-101. Essa questão traz diversos entraves para o ordenamento espacial e consequências político-administrativas que impactam diretamente no cotidiano do morador, que serão melhores discutidas no próximo capítulo. 45 Figura 4: Localização dos empreendimentos do PMCMV e sua distância relativa ao centro de Macaíba Fonte: Adaptado do Google Earth 3. 5 OS EMPREENDIMENTOS DO PMCMV EM MONTE ALEGRE Monte Alegre conta com apenas um conjunto do PMCMV destinado para a população considerada na Faixa 1 de renda. O empreendimento estava em processo de construção no início da pesquisa, porém já foi concluído e entregue recentemente aos moradores. O Residencial Esperança possui 169 casas, com tamanho médio de 42,54 m², construídas no Bairro da Esperança em Monte Alegre. Quadro 5 – Os empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 em Monte Alegre Nome Preço Quant. RESIDENCIAL ESPERANÇA R$ 48.935,35 169 Tipo Tam. Situação Endereço RN-002 Bairro Em Casas 42,54m² Esperança – Monte Construção Alegre/RN Fonte: Caixa Econômica Federal Na pesquisa realizada no empreendimento, a distância do conjunto para o centro do município. Além disso, foram realizadas conversas com os moradores para coletar informações acerca do acesso aos transportes públicos. Uma moradora do residencial, mãe de 3 filhos e que estava gestante do quarto, falou sobre a 46 dificuldade de acessar as áreas mais centrais do município. Ela informou que até agora no residencial não circulou nenhum tipo de ônibus ou alternativo, comprometendo as atividades do cotidiano dos moradores que, para ter acesso à alguns serviços básicos, precisam se deslocar à pé ou solicitar o serviço de mototáxi. Em Monte Alegre, não há linhas de transportes públicos que circulem nos bairros, passando somente os transportes intermunicipais de localidades mais próximas. A pesquisa de campo evidenciou, portanto, que o conjunto do PMCMV de Monte Alegre foi construído numa área afastada do centro, dificultando o acesso dos moradores ao centro e a outras localidades. Figura 5: Localização dos empreendimentos do PMCMV e sua distância relativa ao centro de Monte Alegre Fonte: Adaptado do Google Earth. 3. 6 OS EMPREENDIMENTOS DOPMCMV EM NATAL Em Natal, existem 4 empreendimentos do PMCMV destinados para a população com renda de até 3 salários mínimos. O Residenciais Vivendas do Planalto I,II, III e IV, cada um com 224 apartamentos, estão sendo construídos com quatro blocos cada, no bairros do Planalto, na zona Oeste de Natal. São 896 apartamentos que serão entregues até junho deste ano e que dispõem de sala, quarto, banheiro, cozinha e área de serviço. 47 Quadro 6 – Os empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 em Natal Nome Preço Quant. Tipo RESIDENCIAL R$ VIVENDAS DO 224 Apart. 50.000,00 PLANALTO I RESIDENCIAL R$ VIVENDAS DO 224 Apart. 50.000,00 PLANALTO II RESIDENCIAL R$ VIVENDAS DO 224 Apart. 50.000,00 PLANALTO III RESIDENCIAL R$ VIVENDAS DO 224 Apart. 50.000,00 PLANALTO IV Fonte: Caixa Econômica Federal Tam. Situação 43,18m² Em Construção Endereço Em Loteamento reforma – Construção Quadras 209, 210 e 211 – Bairro Planalto - Natal/RN CEP: Em 43,18m² Construção 59.074-557 43,18m² 43,18m² Em Construção A localização do empreendimento é um dos fatores que merece ser discutido com mais detalhe e a visita de campo foi fundamental para compreender o ordenamento do espaço que se estabelece no entorno do conjunto, o qual está localizado no bairro que mais cresce em Natal (Figura 7). Figura 7: Localização dos empreendimentos do PMCMV e sua distância relativa ao centro de Natal Fonte: Adaptado do Google Earth Distante aproximadamente 8,5 km do centro de Natal, os Residenciais Vivendas do Planalto I, II, III e IV estão sendo erguidos numa área que se encontra 48 em constante expansão, porém que já acumula problemas antigos. O empreendimento é vizinho ao conjunto do Leningrado, uma ex-favela urbanizada pela prefeitura do Natal, e que já conta, entre outros problemas, com a falta de transporte urbano. O fato é que para se ter acesso a áreas centrais, precisa-se andar aproximadamente 1km até o terminal de ônibus mais próximo, localizado no começo do bairro do Planalto. As linhas de transporte que abastecem a localidade são 9, porém não atendem o bairro de forma satisfatória nem chegam aos destinos mais solicitados. Por exemplo, no caso do morador querer se deslocar ao bairro de Ponta Negra, terá que utilizar dois transportes, pois não há nem um no Planalto. Situação semelhante também ocorre com quem necessita se dirigir ao campus da UFRN. 3. 7 OS EMPREENDIMENTOS DO PMCMV EM NÍSIA FLORESTA Nísia Floresta conta com 2 empreendimentos do PMCMV para a população que se encontra na faixa de renda de 0 a 3 salários mínimos. O Residencial Clóvis Ferreira da Silva já foi entregue à população, no ano de 2011, e o Residencial Alto da Floresta foi concluído no primeiro semestre de 2013 (em fase de entrega aos novos moradores). Os conjuntos seguem o modelo padrão de tipologia adotado pelo programa e possuem aproximadamente 42m². Somados, totalizam para o município 383 novas unidades habitacionais destinadas para a população de baixa renda. Quadro 7 – Os empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 em Nísia Floresta Nome Preço Quant. Tipo Tam. Situação Endereço RESIDENCIAL Rua Projetada, S/N – CLÓVIS R$ Desmembramento do Sítio 199 Casas 42,20m² Entregue FERREIRA DA 36.992,00 Estivas, Nísia Floresta/RN SILVA – CEP: 59.164-000 RESIDENCIAL R$ Em Estrada do IBAMA, Centro ALTO DA 184 Casas 42,20m² 48.970,00 Construção Nísia Floresta/RN FLORESTA Fonte: Caixa Econômica Federal Na visita realizada no empreendimento, constatou-se a proximidade entre eles, bem como a localização em que eles foram construídos. Por se tratar de um município relativamente pequeno, o padrão de segregação bem como o de desterritorialização é menor. As distâncias relativas ao centro da cidade não são 49 especificamente objetos de problemas relatados pelos moradores. Além disso, o município dispõe de linhas de alternativos que circulam entre os bairros e, conforme dados levantados na prefeitura municipal, a rede de transporte que atende os conjuntos é até melhor do que em outros bairros. O valor da passagem do alternativo para o centro é de R$1,00 e o custo da passagem que segue para Natal é de R$:5,00. A Figura 8 abaixo demonstra essas informações, ressaltando que mesmo assim os residenciais encontram-se fora da malha urbana central. Figura 8: Localização dos empreendimentos do PMCMV e sua distância relativa ao centro de Nísia Floresta Fonte: Adaptado do Google Earth 3. 8 OS EMPREENDIMENTOS DO PMCMV EM PARNAMIRIM Parnamirim é o município da RMN que mais recebeu investimentos do PMCMV na faixa 1, ou seja, são 13 empreendimentos destinados à população com renda de até 3 salários mínimos, sendo que 8 conjuntos ainda encontram-se na fase de construção. Todos são na forma de apartamentos e estão distribuídos nos bairros de Nova Esperança, Cajupiranga e Passagem de Areia. A visita a esses bairros foi fundamental para compreender a dificuldade de acesso, bem como para perceber problemas relacionados à iluminação pública e mobilidade urbana que os moradores dessas localidades enfrentam ou vão enfrentar. 50 Quadro 8 – Informações sobre os empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 em Parnamirim Nome Preço Quant. Tipo Tam. Situação Endereço RESIDENCIAL NELSON MONTEIRO R$ 41.000,00 352 Apart. 37,19m² Entregue RESIDENCIAL WALDEMAR ROLIM R$ 41.000,00 496 Apart. 37,19m² Entregue CONDOMÍNIO VIDA NOVA R$ 41.000,00 464 Apart. 42,11m² Entregue CONDOMÍNIO ILHAS DO PACÍFICO R$ 41.000,00 432 RESIDENCIAL AMÉRICA I R$ 41.000,00 496 Apart. 42,94m² Entregue RESIDENCIAL AMÉRICA II R$ 41.000,00 496 Apart. 42,94m² Entregue CONDOMÍNIO ILHAS DO ATLÂNTICO R$ 40.994,16 496 Apart. 37,39m² CONDOMÍNIO ILHAS DO CARIBE R$ 40.979,10 496 RESIDENCIAL TERRAS DO ENGENHO I R$ 53.000,00 496 RESIDENCIAL TERRAS DO ENGENHO II R$ 53.000,00 496 RESIDENCIAL IRMÃ DULCE I R$ 53.000,00 256 Rua Santa Ágata, 130, Em Nova Esperança, Apart. 47,86m² Construção Parnamirim-RN – CEP 59.144-390 RESIDENCIAL IRMÃ DULCE II R$ 53.000,00 256 Apart. 47,86m² RESIDENCIAL IRMÃ DULCE III R$ 57.000,00 256 Rua Antônia de Lima Paiva, antiga Rua Projetada, bairro Nova Esperança, Loteamento Taborda-Quadra I-Lote4 Parnamirim/RN. Rua Brigadeiro Afonso Trompowsky, s/n – Passagem de Areia – Em Parnamirim/RN – CEP Apart. 42,11m² Construção 59.150-000 Rua - João Firmino da Silva, Loteamento Santa Cecília, Bairro Nova Esperança – Parnamirim/RN Em Rua Antônio Carlos Construção Sobrinho s/nº Cajupiranga – Parnamirim/RN CEP Em Apart. 37,39m² Construção 59.150-001 Em Rua Doutor Mário Construção Negócio, 4100, Bairro Nova Esperança, Parnamirim/RN CEP: Em Apart. 44,75m² Construção 59.150-000 Apart. 44,75m² Em Rua Santa Ágata, 130, Construção Nova Esperança, Parnamirim-RN – CEP Em 59.144-391 Apart. 47,86m² Construção Fonte: Caixa Econômica Federal Relacionado à localização desses empreendimentos, foi construída a Figura 9, a qual dispõe das distâncias relativas dos empreendimentos até o centro de Parnamirim. 51 Figura 9: Localização dos empreendimentos do PMCMV e sua distância relativa ao centro de Parnamirim Fonte: Adaptado do Google Earth As análises foram representadas a partir da localização desses conjuntos nos seus bairros e, a partir das informações levantadas com os moradores, juntamente com a Secretaria do Município de Trânsito e Transporte – SETRA. Desse modo, temos que os conjuntos Vida Nova e Ilhas do Pacífico, ambos construídos no bairro passagem de areia e representados pelo indicador 1 ficam a uma distância média de 1,6 quilômetros do centro comercial de Parnamirim. Dentre os conjuntos construídos no município, os localizados em Passagem de Areia são os que possuem melhores formas de acesso às áreas centrais, dispondo tanto de linhas de ônibus – “J” e de alternativos interbairros – 1 e 5. Além disso, existe um ponto de moto-táxi na esquina, que une os condomínios, e as paradas de ônibus são bem próximas. Já os Residenciais Irmã Dulce I, II e III, que ainda se encontram na fase de construção e estão localizados no bairro Nova Esperança, possuem um padrão de acesso ao centro local bastante problemático. Nesta área, não existe uma rota de transporte público, sendo necessário que os futuros moradores do conjunto andem até a parada mais próxima, a qual fica nas proximidades do Residencial América I e II. As vias de acesso ainda estão sendo pavimentadas e nota-se um padrão de 52 segregação bastante acentuado, uma vez que os empreendimentos estão sendo construídos em áreas que não possuem uma dinâmica residencial de bairros. Fato semelhante ocorre com os condomínios Terras de Engenho I e II. Apesar de ainda se encontrarem em construção, o perfil do empreendimento já aponta para os efeitos de uma segregação da população. Distante aproximadamente 5,5 km do centro, nas proximidades não passam linhas de transportes e é preciso percorrer longas distâncias a pé para chegar numa área mais urbanizada. No dia da realização da visita de campo, foi possível evidenciar essa problemática com os próprios trabalhadores da construção. A maioria deles se utilizam de motos e bicicletas, pois afirmam que não têm como chegar no local de trabalho com o transporte público. Uma senhora que trabalhava na construção relatou que demora cerca de 40 minutos à pé para chegar na sua casa, que está localizada no mesmo bairro. Outros trabalhadores precisam caminhar até as paradas de ônibus construídas nas proximidades do Residencial América I e II. Figura 10: Residenciais Engenho I e II Fonte: Acervo da autora Terras do Figura 11: Trabalhadores saindo da construção dos Residenciais Terras do Engenho I e II Fonte: Acervo da autora Os Residenciais América I e II são conhecidos na localidade como Iderval Medeiros e Salatiel Rufino. Distante do centro aproximadamente 4,4 km, os moradores precisam contar com a linha de ônibus C, a qual abastece a localidade e vai em direção as mediações do shopping Via Direta em Natal, passando antes pelo Centro de Parnamirim. Outra opção aos moradores é a linha de alternativos 1, a qual circula entre os bairros. A pesquisa de campo evidenciou que os empreendimentos do PMCMV foram construídos longe dos serviços existentes na localidade, 53 obrigando aos próprios moradores estabelecer novas dinâmicas com o território, os quais para ter acesso aos serviços básicos precisam percorrer longos descampados, escuros e não pavimentados. Figura 12: Ponto de ônibus e comércio local desenvolvidos pelos moradores do Residencial América I e II Fonte: Acervo da autora Os residenciais Nelson Monteiro e Waldemar Rolim estão distantes aproximadamente 2,82 km do centro de Parnamirim, localizados à margem da BR101, próximo ao IFRN do município e bem no início do bairro Nova Esperança. Os relatos dos moradores evidenciaram a dificuldade de acesso aos transportes, pois existe apenas a linha de ônibus C, a qual se destina ao centro comercial de Parnamirim. Para se ter acesso aos serviços do próprio bairro, os moradores do conjunto precisam percorrer alguns quilômetros a pé, com bicicletas ou utilizando os serviços de moto-táxi. A realidade local do ordenamento espacial permite inferir, portanto, que os moradores dos residenciais construídos no bairro de Nova Esperança sofrem com o processo de segregação, uma vez que para se ter acesso aos serviços mais básicos presentes no bairro, os moradores dispendem de muito tempo percorrendo longos trajetos. Quanto aos empreendimentos Ilhas do Atlântico e Ilhas do Caribe, localizados no bairro de Cajupiranga, e que ainda se encontram em processo de construção, evidenciou-se que o acesso se dá principalmente pela Estrada de Cajupiranga, a qual se interliga com a Estrada de Pium, possibilitando, desse modo, o acesso à BR101. A única linha de ônibus que circula nas imediações do bairro é a linha “L” que 54 percorre o próprio bairro, o centro de Parnamirim e vai até a Av. Senador Salgado Filho, em Natal. Ademais, ressalva-se que as análises sobre o entorno dos conjuntos foram limitadas devido à ausência de moradores no local, dificultando a coleta de informações referentes à dinâmica cotidiana que se estabelece no bairro. Figura 13: Construção dos Condomínios Ilhas do Atlântico e Ilhas do Caribe – Parnamirim/RN Fonte: Acervo da autora 3. 9 OS EMPREENDIMENTOS DO PMCMV EM SÃO GONÇALO DO AMARANTE O município de São Gonçalo do Amarante possui 1 empreendimento do PMCMV destinado para a população de faixa de renda de 0 a 3 salários mínimos. O Residencial Jomar Alecrim dispõe de 305 unidades habitacionais localizadas nas proximidades do Loteamento Brasil e que foram entregues no ano de 2012 pela prefeitura do município. As casas apresentam o padrão proposto pelo Ministério das Cidades e possuem dois dormitórios, sala, cozinha, banheiro e área de serviço externa. Quadro 9 – Informações sobre os empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 em São Gonçalo do Amarante Nome Preço Quant. Tipo Tam. Situação Endereço RESIDENCIAL JOMAR ALECRIM R$ 36.995,00 305 RN 160 – Trigueiros Loteamento Brasil – São Casas 41,67m² Entregue Gonçalo do Amarante/RN - CEP 59.290-000 Fonte: Caixa Econômica Federal. 55 Figura 14: Localização dos empreendimentos do PMCMV e sua distância relativa ao centro de São Gonçalo do Amarante Fonte: Adaptado do Google Earth Relacionado à localização do empreendimento, foi possível evidenciar na pesquisa de campo que o conjunto se distancia, em média, 1,78 km das atividades centrais do município. A rede de transporte que abastece a localidade é precária, existindo apenas uma linha de alternativo que circula nas proximidades do residencial e que vai em direção ao bairro Igapó, em Natal. Conforme relatos dos moradores, quando se quer ter acesso aos serviços disponibilizados no centro, é necessário caminhar até a RN-160 e, de lá, seguir o trajeto desejado. Tal fato se constitui numa das principais queixas dos moradores, os quais já se organizaram em conselhos comunitários para reivindicar mais linhas de ônibus circulando na localidade, contribuindo assim para minimizar os efeitos da segregação imposta aos beneficiários do programa. Esses dados subsidiam a discussão sobre o fenômeno de construção de moradias em locais descontínuos da mancha urbana. As distâncias dos empreendimentos ao centro dos municípios evidenciam que esse padrão habitacional da RMN tem provocado consequências sociais e econômicas que marcam profundamente o território municipal, conforme será evidenciado no próximo capítulo. 56 4 OS CONJUNTOS DO PROGRAMA MINHA CASA, MINHA VIDA E O SEU ENTORNO IMEDIATO O presente capítulo dispõe os dados da pesquisa sobre o Programa Minha Casa, Minha Vida – Faixa 1 na Região Metropolitana de Natal, a qual, conforme relatado anteriormente, contou com a visita aos 32 empreendimentos do programa, construídos ou em construção (no primeiro semestre de 2013), distribuídos em 8 municípios da RMN. Foram compiladas as informações sobre o entorno dos empreendimentos, caracterizando-os e buscando, sobretudo, refletir sobre os fenômenos da segregação e desterritorialização que podem acompanhar a construção desses conjuntos. Nessa perspectiva, foi fundamental compreender os impactos do ordenamento territorial para o cotidiano dos moradores, discutindo sobre a existência de serviços essenciais, bem como a distância aproximada entre eles e a unidade habitacional. Desse modo, foi possível constatar a importante função desempenhada pelos equipamentos urbanos e comunitários para a estruturação do território, uma vez que eles são determinantes para a vivência cotidiana de uma população. Essa temática abrange, principalmente, questões referentes ao planejamento urbanístico, enfocando a disponibilidade de infraestruturas e serviços, as quais quando proporcionadas de forma eficiente, possibilitam condições de vida adequadas aos habitantes, assegurando espaços para o desenvolvimento das práticas sociais e comunitárias. Os apontamentos propostos por Oliveira e Benaduce (2011) discutem a importância dessas redes de infraestruturas, ressaltando que elas são parte indissolúvel das cidades. Além disso, conceitua-se a infraestrutura urbana como um sistema de equipamentos e serviços, de ordem pública ou de utilidade pública que são necessários ao desenvolvimento das funções urbanas e que permitem a plena realização da vida de uma população. Em outras palavras, transcreve-se: Então a infraestrutura urbana visa promover adequadas condições de moradia, trabalho, saúde, educação, lazer e segurança, proporcionando meios necessários ao desenvolvimento das atividades políticoadministrativas, entre os quais se inclui a gerência da própria cidade. (OLIVEIRA e BENADUCE, 2011, p.4). 57 Relacionado aos empreendimentos construídos pelo PMCMV, as regras estabelecidas pelo Ministério das Cidades orientam como os municípios devem utilizar os recursos do programa para evitar a construção dos conjuntos em áreas periféricas, desequipadas de infraestrutura pública, conforme designa a cartilha, organizada por Raquel Rolnik, no ano de 2010, intitulada “Como produzir moradia bem localizada com os recursos do Programa Minha Casa, Minha Vida? Implementando os instrumentos do Estatuto das Cidades”. Além disso, o dispositivo da Lei nº 12.424, de 2011, especificamente no Art. 5º, aborda: o Art. 5 -A. Para a implantação de empreendimentos no âmbito do PNHU, deverão ser observados: I - localização do terreno na malha urbana ou em área de expansão que atenda aos requisitos estabelecidos pelo Poder Executivo federal, observado o respectivo plano diretor, quando existente; II - adequação ambiental do projeto; III - infraestrutura básica que inclua vias de acesso, iluminação pública e solução de esgotamento sanitário e de drenagem de águas pluviais e permita ligações domiciliares de abastecimento de água e energia elétrica; IV - a existência ou compromisso do poder público local de instalação ou de ampliação dos equipamentos e serviços relacionados à educação, saúde, lazer e transporte público.(BRASIL, Lei nº 12.424, 16 de Junho de 2011). Partindo dessas constatações, esclarece-se que é fundamental estabelecer critérios para a construção dos imóveis do PMCMV. Além de ruas pavimentadas, é necessário exigir os demais itens e serviços de infraestrutura básica, os quais garantem qualidade de vida à população, tais como a construção de calçadas, rede de energia elétrica e iluminação pública, rede de água e esgoto e coleta de lixo regular. Conforme visto acima, essas exigências de ruas calçadas até os imóveis e infraestrutura básica já foi estabelecida pela Lei nº 12.424/11, buscando combater o antigo modelo vigente em muitas cidades brasileiras as quais carecem de asfaltos em suas ruas e não possuíam os requisitos mínimos de infraestruturas nos bairros. No entanto, na prática, apesar da existência desses normativos, se faz necessário refletir sobre os resultados observados nos conjuntos construídos na RMN, apontando os efeitos territoriais oriundos do programa, bem como os impactos no cotidiano dos moradores dessas localidades. Nessa perspectiva, o trabalho realizado por CUNHA (2012) demonstrou parte do que se pretende apontar nessa pesquisa, evidenciando os efeitos do PMCMV no 58 entorno imediato do bairro Nova Esperança, localizado em Parnamirim. A metodologia utilizada pela autora consistiu numa avaliação de impacto a partir da satisfação dos moradores do residencial Iderval Medeiros e, por meio da pesquisa de campo, acompanhada de entrevistas com os moradores, foi possível caracterizar o entorno do empreendimento, demarcando as distâncias entre o residencial e os principais equipamentos e serviços existentes na proximidade. Com base nesse trabalho, a presente pesquisa ampliou o estudo para todos os municípios beneficiados com o PMCMV – Faixa 1 na Região Metropolitana de Natal, caracterizando o entorno dos empreendimentos e acrescentando uma discussão sobre os fenômenos da segregação e desterritorialização que podem se constituir com a construção dessas unidades residenciais. Os dados serão demonstrados na forma de imagens esquemáticas, as quais foram produzidas com o auxílio da ferramenta do Google Earth, a partir da demarcação dos pontos com o GPS. Ressaltando que o objeto de trabalho totaliza-se em 32 empreendimentos, esclarece-se que serão utilizados dois recortes espaciais de demonstração dos dados. O primeiro consiste numa representação na escala municipal, separando as localidades beneficiadas com o programa; o segundo se baseia numa escala intraurbana, onde se demonstram os empreendimentos construídos de acordo com os serviços básicos existentes nos bairros, evidenciando a tendência de segregação dessas localidades. Dentre os serviços e equipamentos urbanos pesquisados, destacou-se aqueles que são requisitados pelos normativos do PMCMV, criando-se cinco categorias de análise, as quais contemplam os equipamentos e infraestruturas de saúde, educação, lazer e cultura, segurança e comércio. Além disso, foram investigadas duas outras categorias relacionadas à mobilidade e acessibilidade do empreendimento e aos serviços básicos existentes, destacando os pontos de ônibus, a pavimentação das ruas e existência de calçadas, iluminação pública, água encanada, rede de telefonia e internet e, por fim, o registro das atividades do correio. 59 4.1 ENTORNO DOS EMPREENDIMENTOS DO PMCMV EM CEARÁ-MIRIM Em Ceará-Mirim, os Residenciais Fauna, Flora, Mar e Terra foram construídos na zona de expansão urbana do município, à margem da BR-406, no bairro Terra Santa. A pesquisa sobre o entorno dos empreendimentos evidenciou a precariedade dos serviços existentes no bairro, contribuindo para desterritorializar uma população que, para desenvolver atividades essenciais, precisa se deslocar em direção ao centro urbano do município. No entorno imediato dos conjuntos do PMCVC, existem apenas atividades informais de mercadinho, lanchonetes e cabeleireiros. Além disso, os moradores relataram a existência de igrejas evangélicas e de um ponto de mototáxi nas proximidades do conjunto. Quanto aos equipamentos de saúde, educação, lazer e cultura, segurança e comércio, ofertados principalmente pelo poder público, observamos que os moradores precisam percorrer longas distâncias, uma vez que não foi instalado nas redondezas do bairro esse tipo de infraestrutura para abastecer a nova demanda que surgia com a construção dos conjuntos do PMCMV. Quanto aos demais serviços referentes à caracterização do empreendimento, observamos a existência de quadras esportivas, parques e praças deteriorados, aparentemente sem manutenção. Quando questionados sobre a iluminação pública, qualidade da água e serviços do correio, os moradores do local informaram que a iluminação é deficiente, a água é bastante salobra e as correspondências chegam com dificuldades. Relacionado ao sistema de telefonia e internet, observamos a existência de torres próximas, garantindo o sinal telefônico. Sobre a pavimentação das ruas, apesar das ruas internas dos conjuntos serem calçadas (exigência do programa), ao redor, nos locais que não foram construídos habitações, não existe calçamento nem iluminação. As fotos nas Figuras 15 a 18 foram tiradas no local e demostram um pouco desse cotidiano. Figura 15: Serviços ofertados no entorno dos Residenciais do PMCMV em CearáMirim Figura 16: Serviços ofertados no entorno dos Residenciais do PMCMV em CearáMirim 60 Fonte: Acervo da Autora Fonte: Acervo da Autora Figura 17: Ponto de Moto-táxi instalado na localidade Figura 18: Quadra, Parque e Praça da localidade sem manutenção Fonte: Acervo da Autora Fonte: Acervo da Autora A Figura 19 foi elaborada visando caracterizar o entorno dos empreendimentos, destacando os principais serviços e equipamentos existentes no município. Essa análise já indica que os residenciais foram construídos nas franjas do território municipal e que não houve a implementação de uma infraestrutura voltada para atender a necessidade dos novos moradores. A partir dos relatos desses beneficiários, vivenciou-se parte dos problemas que se instauraram no cotidiano desses indivíduos, os quais gastam em média 30 minutos para acessar escolas, posto de saúde, farmácias, entre outros serviços. De modo geral e, apropriando-se do conceito já discutido por Haesbaert (2004), os moradores desses conjuntos perdem as conexões estabelecidas com o espaço anterior, dispendendo mais tempo e dinheiro para acessar os serviços mais básicos. A consequência dessa desterritorialização, no entanto, implica na existência de uma janela de oportunidade que proporciona o estabelecimento de novas territorialidades. Tal fato foi comprovado quando, ao percorrer os conjuntos, encontraram-se diversas atividades de comércio informal, as quais surgem a partir da necessidade da população local de acessar serviços de forma imediata. 61 Figura 19: Residenciais Fauna, Flora, Terra e Mar e o seu entorno imediato Fonte: Adaptado do Wikimapia 4.2 ENTORNO DOS EMPREENDIMENTOS DO PMCMV EM EXTREMOZ No município de Extremoz, localizam-se os empreendimentos do PMCMV – Faixa 1 Jardins de Extremoz I, II, III e IV, construídos no bairro São Miguel Arcanjo. Os moradores da localidade convivem com diversos problemas relacionados à deficitária infraestrutura nas proximidades do empreendimento, a destacar a ausência de escolas próximas e a precária iluminação pública existente no entorno imediato das unidades habitacionais. Dados levantados na Secretaria Municipal do Trabalho, Habitação e Ação Social comprovam a dificuldade de implementação da ação conjunta entre o governo federal – principal alocador de recursos do PMCMV, e os governos municipais – responsáveis por adequar a demanda por novas infraestruturas e serviços urbanos. O fato observado é que o município não consegue acompanhar a velocidade do programa, cumprindo com a construção de equipamentos que conectem aquela população com as atividades cotidianas, amenizando os efeitos da desterritorialização dessa camada de beneficiários. 62 Conforme será demonstrado no mapa esquemático (Figura 22), os empreendimentos construídos em Extremoz ficam distantes das escolas, postos de saúde, farmácias e igrejas. A caracterização do conjunto realizada com o auxílio do relato dos moradores evidencia a precariedade de acesso aos serviços básicos. Esse fato foi comprovado através da existência de diversas atividades de comércio no conjunto, a partir do improviso dos moradores, os quais reformam suas casas e iniciam atividades de comercialização principalmente de alimentos. Quando questionados sobre isso, eles afirmaram que era preciso montar um comércio local, uma vez que todos os outros mercados ficavam distantes, levando-se em média 20 minutos a pé para se chegar a algum lugar. Além disso, os conjuntos de Extremoz não dispõem de quadras, parques ou praças. Apesar dos espaços destinados para a construção desses equipamentos, os moradores informaram que desde o recebimento das unidades nada foi construído. Outra queixa ressalvada por eles é em relação às atividades do correio, pois é preciso ir até a agência para receber as correspondências. Corroborando com aquilo já observado nos conjuntos de CearáMirim, as vias internas dos empreendimentos são calçadas, porém, no entorno que possibilita o acesso, existem diversas ruas de terra. Figura 20: Mercadinho e Açougue do conjunto. Fonte: Acervo da Autora Seguindo com Figura 21: Local destinado à construção dos equipamentos comunitários. Fonte: Acervo da Autora a caracterização do entorno dos empreendimentos, observamos que o município de Extremoz, por ser um dos menores da RMN, apresenta uma relativa proximidade dos serviços, estando a escola mais próxima dos conjuntos distante cerca de 800 metros. O que se pretende apontar com a imagem Figura 22 é que, diferentemente do municío de Ceará-Mirim, os conjuntos 63 do PMCMV de Extremoz foram construídos nos limites municipais mais próximos ao centro. Porém, observando o ordenamento territorial, percebe-se que as fronteiras do espaço são pouco povoadas, existindo poucas vias de acesso pavimentadas e iluminadas. Em suma, os moradores relataram que, para acessar os serviços e equipamentos, gastam em média 10 minutos, tendo que atrevessar um único caminho, o qual é dividido por uma rua projetada, quase sem atividades, escuras e que liga o conjunto à RN-160. Figura 22: Residenciais Jardins de Extremoz I, II, III e IV e o seu entorno imediato Fonte: Adaptado do Wikimapia 4.3 ENTORNO DOS EMPREENDIMENTOS DOPMCMV EM MACAÍBA Macaíba conta com 3 empreendimentos do PMCMV – Faixa 1. Dois são localizados no bairro Ferreiro Torto e o outro foi construído nos limites divisórios com o município de Parnamirim, no bairro Bela Vista. A visita de campo realizada nesses conjuntos possibilitou o reconhecimento do entorno imediato, caracterizando os principais serviços e infraestruturas existentes, refletindo, desse modo, sobre os fenômenos da segregação e da desterritorialização. De maneira geral, percebeu-se a dificuldade que os moradores do local possuem para acessar os serviços essenciais. Nos três empreendimentos, ficou claro o relativo abandono dos 64 conjuntos por parte do poder público local, uma vez que se observa a existência de centenas de casas semelhantes, com problemas de acessibilidade, de sinal telefônico e internet, com quadras e praças sem manutenção e com uma iluminação deficitária. Nos casos específicos dos Residenciais Francisco Alípio e Lúcia Marques, construídos no loteamento Ferreiro Torto, a população precisar andar até a Rodovia BR-226 para ter acesso aos serviços de saúde e educação. No caso dos equipamentos de lazer e cultura, os empreendimentos dispõem de praças e parques, porém ambos estão deteriorados. Referente à infraestrutura de segurança, os moradores relataram que dificilmente circulam policiais pela área, sendo criado pelos próprios residentes um sistema de vigilância particular onde cada morador paga uma taxa. Já sobre as atividades de comércio, observam-se estabelecimentos informais criados pelos próprios moradores, os quais transformam parte de suas casas em mercadinhos e lanchonetes para abastecer a comunidade local. Sobre as atividades de correio, os relatos apontam para a dificuldade de registrar o endereço da localidade, contribuindo para problemas com os comprovantes de residência. Figura 23: Residenciais Francisco Alípio e Lúcia Marques e o seu entorno imediato Fonte: Adaptado do Wikimapia 65 Figura 24: Vista dos Residenciais Francisco Alípio e Lúcia Marques Figura 25: Posto de Segurança improvisado na localidade Fonte: Acervo da Autora Fonte: Acervo da Autora Sobre o Residencial Minha Santa, construído nos limites de Macaíba com Parnamirim, além dos problemas de acesso aos equipamentos e serviços, os moradores reclamam das condições estruturais dos condomínios. Alagamentos, escuridão, problemas com drenagem e assaltos já fazem parte do cotidiano dos moradores, os quais relataram que já recorreram até às reportagens de televisão para tratar do assunto. O problema do entorno do residencial é agravado pela dificuldade de territorializar essa população que aguarda ações do poder público na implantação dos serviços básicos. O depoimento abaixo, extraído de uma reportagem realizada com os moradores do Residencial Minha Santa, resume bem o cotidiano da área: Realmente é de se lamentar que o prefeito e seus representantes diretos nunca estiveram aqui. Minha Santa é os animais entrando, sendo carneiro, bode, gado, todos transitando por dentro do condomínio. Estamos entregues a própria sorte, pra não falar da saúde, segurança, esporte, lazer e outros. (Carlos A. de Araújo, ao site Senadinho Macaíba, em 30 de abril de 2013). Figura 26: Acesso ao Residencial Minha Santa Fonte: Acervo da Autora Figura 27: Mercadinho no entorno do conjunto Fonte: Acervo da Autora 66 Figura 28: Residencial Minha Santa e o seu entorno imediato Fonte: Adaptado do Wikimapia 4.4 ENTORNO DO EMPREENDIMENTO DOPMCMV EM MONTE ALEGRE O município de Monte Alegre possui apenas um empreendimento do PMCMV para a faixa de renda de 0 a 3 salários mínimos, o qual foi entregue no início do ano de 2013. O Residencial Esperança foi construído no bairro da Esperança, totalizando 169 habitações no conjunto. Dentre os equipamentos que compõem a infraestrutura do local, constatamos apenas a existência de uma quadra de esportes que, segundo relato dos moradores, apresenta iluminação deficitária. As ruas internas do conjunto são calçadas, porém as vias de acesso ao residencial não estão pavimentadas. Quanto ao entorno imediato do conjunto, os moradores relataram a dificuldade de acessar os serviços básicos, como escola e posto de saúde. Além disso, foi informado que obras estruturantes do residencial, tais como a construção da creche do bairro da Esperança, estão paralisadas. Sobre os serviços de correio, destacou-se que ainda não foi possível receber correspondências na localidade. A imagem abaixo dispõe informações sobre o entorno imediato do conjunto, ressaltando que para acessar os serviços mais próximos, precisa-se andar, no mínimo 10 minutos. 67 Figura 29: Residencial Esperançae o seu entorno imediato Fonte: Adaptado do Wikimapia Figura 30: Acesso ao Residencial Esperança Figura 31: Mercadinho no entorno do conjunto Fonte: Acervo da Autora Fonte: Acervo da Autora 4.5 ENTORNO DOS EMPREENDIMENTOS DOPMCMV EM NATAL O Residencial Vivendas do Planalto ainda se encontra na fase de construção e está sendo construído entre os bairros do Planalto e Guarapes, Zona Oeste de Natal. Os problemas com a infraestrutura do local já são antigos, pois, vizinho ao empreendimento, encontra-se a comunidade do Leningrado, a qual é reconhecida pelas lutas a favor do transporte e de equipamentos comunitários para a localidade. 68 O entorno do empreendimento já conta com partes de calçamento de paralelepípedo, rede de energia elétrica e abastecimento de água. No entanto, existem problemas com as linhas de transportes, escolas e postos de saúde. Segundo relato da vizinhança, as crianças e idosos são os que mais sofrem com a ausência de infraestrutura urbana e equipamentos coletivos nas proximidades, precisando andar quilômetros para acessar mercadinhos e farmácias. Outro ponto destacado é a falta de segurança da localidade, fato que poderá ser agravado com a entrega das novas habitações. Pesquisas sobre a construção dos empreendimentos no local encontraram o comprometimento do poder público de construção de novos equipamentos públicos na comunidade, entre eles uma Unidade Básica de Saúde e uma Escola de ensino fundamental, a qual complementaria o Centro Municipal de Educação Infantil Professor Arnaldo Arsênio de Azevedo que já foi construído. Enquanto esses serviços básicos não chegam mais próximo, o caminho que os moradores precisarão fazer será repleto de subidas nos morros, em meio a vegetação, lama e buracos. Figura 32: Residencial Vivendas do Planalto e o seu entorno imediato Fonte: Adaptado do Wikimapia 69 Figura 33: Vista da construção Residencial Vivendas do Planalto Fonte: Tecnart Engenharia do Figura 34: Mercadinho no entorno do conjunto Fonte: Acervo da Autora 4.6 ENTORNO DOS EMPREENDIMENTOS DOPMCMV EM NÍSIA FLORESTA Em Nísia Floresta, existem 2 conjuntos do PMCMV faixa 1. O residencial Clóvis Ferreira já foi construído e está habitado; o Residencial Alto da Floresta finalizou no início de 2013 as obras de construção, faltando apenas entregar as residências aos novos moradores. A distância entre ambos é de cerca de 400 metros, ficando definido o mesmo entorno de equipamentos e serviços para eles. A visita de campo a esses residenciais constatou que, dada a dimensão do município, o padrão de segregação, em comparação aos demais empreendimentos da RMN, é mínimo. Os moradores dessas localidades usufruem de certa proximidade com os serviços urbanos, contando também com uma rede de transporte que atende o bairro. As queixas principais relatadas pelos moradores do empreendimento se resumem à deficitária iluminação, bem como à ausência de serviços de correio. Em linhas gerais, os moradores se sentem satisfeitos com o empreendimento, bem como com os equipamentos coletivos do entorno. Nesse caso, a segregação espacial bem como a observação do processo de desterritorialização não são uma problema em evidência, ficando mais claro na localidade um padrão de reterritorialização, no qual os moradores deverão estabelecer/atrair novas conexões, expandindo o tecido espacial da cidade e atraindo novos serviços de mercadinho, farmácia escolas etc. 70 Figura 35: Casas do Residencial Clóvis Ferreira da Silva Fonte: Acervo da Autora Figura 36: Casas do Residencial Alto da Floresta que ainda serão entregues Fonte: Acervo da Autora Figura 37: Residenciais Clovis Ferreira e Alto da Florestae o seu entorno imediato Fonte: Adaptado do Wikimapia 4.7 ENTORNO DOS EMPREENDIMENTOS DOPMCMV EM PARNAMIRIM Parnamirim é o município da RMN que mais apresenta empreendimentos do PMCMV, existindo 4 conjuntos já entregues aos moradores e 7 que ainda encontram-se na fase de construção. Quanto à localização desses conjuntos, tem-se que eles foram instalados nos bairros de Passagem de Areia, Nova Esperança e Cajupiranga, sendo o segundo bairro aquele que mais dispõe dessas unidades residenciais. A análise sobre o entorno dos empreendimentos levou em 71 consideração os eixos de crescimento municipal, destacando que Parnamirim, conforme dados do IBGE, cresceu em média 62% do ano de 2000 a 2010. Parte desse crescimento implica diretamente na estruturação do território, onde estão sendo construídos mais bairros, expandindo-se as fronteiras urbanas e rurais da localidade, necessitando, desse modo, ações planejadoras por parte do poder público local, garantindo transporte e acesso aos serviços mais essenciais à população. A pesquisa sobre os conjuntos do PMCMV evidenciou esse crescimento, destacando, principalmente o acesso da população a esses serviços. Para análise dos dados, optou-se por categorizar os conjuntos de acordo com os bairros que eles estão localizados, refletindo sobre a infraestrutura e equipamentos que abastecem os moradores, possibilitando discutir sobre os padrões de segregação e desterritorialização que podem se projetar no cotidiano da área. No bairro de Passagem de Areia existem dois empreendimentos do PMCMV – o Residencial Vida Nova e o Residencial Ilhas do Pacífico, o qual ainda encontrase em construção. Os dois residenciais estão localizados lado a lado e o estudo sobre o entorno dos empreendimentos permite que se chegue a conclusões um tanto quanto diferentes daquelas relativas aos conjuntos dos demais municípios. A imagem abaixo evidencia as distâncias médias dos residenciais aos principais serviços e equipamentos ofertados no bairro. Figura 38: Residenciais Vida Nova e Ilhas do Pacífico Fonte: Adaptado do Wikimapia 72 Através da imagem percebemos a relativa proximidade entre os residenciais e os principais serviços e equipamentos urbanos, destacando que o bairro Passagem de Areia encontra-se à margem da BR 101, ao lado oposto ao centro de Parnamirim. Esses dados permitem constatar que esses conjuntos são abastecidos de infraestrutura local, ficando claro nos relatos dos moradores que eles não se sentem desterritorializados ou desbastecidos dos serviços, já que a maioria dos equipamentos estão num raio de 1km de distância. Dentre as queixas levantadas pelos moradores do Residencial Vida Nova, ressalvam-se os problemas estruturais do empreendimento, tais como a deficitária iluminação interna e os problemas com o acúmulo de lixo nos espaços coletivo do empreendimento. Figura 39: Condomínio Vida Nova Fonte: Acervo da Autora Figura 40:Residencial Ilhas do Pacífico em construção Fonte: Acervo da Autora Sobre o bairro Nova Esperança, destacamos que ele dispõe de 7 residenciais do PMCMV, se configurando no bairro de maior expansão do município. Situado à margem direita da BR -101, a localidade marca os limites municipais de Parnamirim. Dada essa explosão de novas residências, a pesquisa exploratória apontou os problemas relacionados ao transporte, calçamento e iluminação de ruas e acesso aos serviços básicos, destacando, nesse contexto, os impactos para os moradores dos conjuntos do PMCMV que precisam conviver com uma dinâmica de segregação residencial. Abaixo são demonstrados todos os conjuntos localizados no bairro, trazendo uma caracterização do entorno desses empreendimentos. Os Residenciais Irmã Dulce I, II e III ainda encontram-se na fase de construção e irão totalizar 758 novas unidades habitacionais no bairro, exigindo, do poder público local, uma oferta de infraestrutura que assegure o acesso dos moradores aos principais serviços. Infelizmente, como o empreendimento ainda não 73 está habitado, não foi possível coletar informações com os moradores, destacando os principais problemas do entorno. Porém, através do reconhecimento da área, percebemos que problemas relacionados à vizinhança serão claros. O empreendimento está sendo construído em frente a vários terrenos vazios, dificultando o estabelecimento de uma dinâmica residencial e contribuindo para o fenômeno da desterritorialização, uma vez que dificilmente se estabelecerá um convívio social neste espaço. Figura 41: Residenciais Irmã Dulce I, II e III Fonte: Adaptado do Wikimapia Figura 42: Construção dos Residenciais Irmã Dulce I, II e III Fonte: Acervo da Autora Figura 43: Localização dos Residenciais Irmã Dulce I, II e III Fonte: Acervo da Autora 74 Os Residenciais Terras do Engenho I e II também ainda encontram-se na fase de construção e estão localizados um pouco mais distante que os Residenciais Irmã Dulce. Na visita ao empreendimento foi possível conversar com os trabalhadores, os quais já ressaltaram a dificuldade de acesso aos equipamentos e serviços. Além disso, ficamos impressionados com a localização do empreendimento, o qual é mais distante que todos os outros do bairro e não possui nenhuma estrutura no seu entorno próximo. Na frente do empreendimento, aos lados e atrás, se projeta um longo e contínuo vazio urbano, quase sem iluminação e com estradas de terra. Imagine, com a chegada dos moradores, como se dará o acesso desses habitantes aos serviços básicos do seu cotidiano, dificultando o estabelecimento de conexões com o território, e sendo desterritorializados por uma perda de vínculo social com o espaço que habita, corroborando com aquilo já exposto por Rolnik (2009) que denominamos de produção de moradias populares sem cidades. Figura 44: Residenciais Terras do Engenho I e II Fonte: Adaptado do Wikimapia 75 Figura 45: Localização dos Residenciais Terras do Engenho I e II Fonte: Acervo da Autora Figura 46: Estrada de acesso aos Residenciais Terras do Engenho I e II Fonte: Acervo da Autora Quanto aos Residenciais América I e II, o estudo realizado por CUNHA (2012) já apontou a dificuldade que os moradores destes conjuntos tem em relação ao acesso de equipamentos e serviços, destacando o anseio da população por infraestruturas, como escolas, posto de saúde, comércios e mais linhas de ônibus. Em frente aos empreendimentos se estabeleceram comércios informais montados pelos próprios moradores, visando suprir a ausência deste serviço nas proximidades, pois, conforme relatado pelos moradores, é necessário percorre longas distâncias para se chegar ao ponto de comércio mais próximo. Além dessas problemáticas, constataram-se insatisfações com a iluminação do entorno e com a ausência de sinal telefônico. Um morador do local, afirmou que, à noite, o local é bastante inseguro, pois não existem atividades nas proximidades do empreendimento. Todos esses apontamentos confirmam aquilo já relatado, onde os moradores são segregados por habitar um território desabastecido e também são desterritorializados, pois, nesse novo espaço habitado, não existe como estabelecer práticas sociais comunitárias que configure uma dinâmica social no entorno do empreendimento. Figura 47: Comércios criados pelos moradores dos Residenciais América I e II Figura 48: Localização dos Residenciais América I e II 76 Fonte: Acervo da Autora Fonte: Acervo da Autora Figura 49: Residenciais América I e II Fonte: Adaptado do Wikimapia Por fim, os Residenciais Nelson Monteiro e Waldemar Rolim completam os empreendimentos construídos no bairro Nova Esperança. Os dois empreendimentos foram construídos a uma distância de __ da BR, não existindo uma dinâmica residencial no seu entorno. Os Moradores relataram que precisam caminhar em média 20 minutos para se chegar à via mais central do bairro, onde passa maior número de transportes. Além disso, os problemas com a iluminação dificultam que os moradores caminhem nas proximidades do conjunto, sendo necessário quase sempre se deslocar via moto-táxi. Figura 50: Residenciais Nelson Monteiro e Waldemar Rolim Fonte: Acervo da Autora Figura 51: Acesso aos Residenciais Nelson Monteiro e Waldemar Rolim Fonte: Acervo da Autora 77 Figura 52: Residenciais Nelson Monteiro e Waldemar Rolim Fonte: Adaptado do Wikimapia No bairro de Cajupiranga estão sendo construídos os Residenciais Ilha do Atlântico e Ilhas do Caribe, compreendendo os 13 empreendimentos localizados em Parnamirim. O entorno das 992 novas residências deverá ser capaz de oferecer a infraestrutura adequada para o estabelecimento das práticas sociais, proporcionando serviços básicos necessários à população. Na visita aos empreendimentos, constatou-se a dificuldade de acesso aos residenciais, destacando a má qualidade das vias de acesso, as quais sofrem com os danos causados pela chuva. Além disso, todos os serviços e equipamentos ofertados encontram-se a uma distância mínima de 500 metros, precisando que o poder público proporcione meios de transportes que sejam capazes de ligar os moradores à suas atividades cotidianas. Figura 53: Acesso aos Residenciais Ilhas do Atlântico e Ilhas do Caribe Figura 54: Residenciais Ilhas do Atlântico e Ilhas do Caribe Fonte: Google Imagens Fonte: Google Imagens 78 Figura 55: Residenciais Ilhas do Atlântico e Ilhas do Caribe Fonte: Adaptado do Wikimapia 4.8 ENTORNO DOS EMPREENDIMENTOS DOPMCMV EM SÃO GONÇALO DO AMARANTE O Residencial Jomar Alecrim foi construído nas proximidades do Loteamento Brasil e apresenta diversos problemas com a infraestrutura urbana. Na visita ao empreendimento, foi verificada a dificuldade dos moradores para acessar os serviços mais básicos. Dentro do conjunto, percebemos o relativo abandono das praças e quadras. Os moradores também relataram problemas com a iluminação, o que agrava o sentimento de insegurança na localidade. Como os moradores precisam percorrer longos trajetos para acessar escolas, posto de saúde e serviço de comércio, evidenciamos no conjunto diversas construções informais, onde o próprio morador adaptava sua residência para fornecer serviços de alimentação e bebidas. Outro ponto observado é a ausência de ruas calçadas no entorno imediato do conjunto, seguindo o modelo já percebido em outros municípios, onde costumase calçar apenas as vias internas do empreendimento, deixando as vias de acesso escuras e esburacadas. 79 Além desses problemas, foi relatada a necessidade de construção de abrigos e paradas de ônibus, informando que os moradores já se organizaram e enviaram solicitações via abaixo assinado para atendimento das necessidades da comunidade. O presidente do Conselho Comunitário do Residencial Jomar Alecrim apontou também a ausência de escolas, segurança e transportes para atender os moradores, os quais receberam as suas casas, porém passaram a conviver com as dificuldades do ordenamento espacial, configurando-se num padrão de segregação que tem gerado diversos transtornos. Figura 56: Residencial Jomar Alecrim Fonte: Acervo da Autora Figura 57: Comércio local no Residencial Fonte: Acervo da Autora Figura 58: Residencial Jomar Alecrim e o seu entorno imediato Fonte: Adaptado do Wikimapia 80 Conforme relatado nessa caracterização de todos os empreendimentos Faixa 1 do PMCMV construídos na RMN, evidenciamos os problemas relacionados ao acesso da população beneficiária aos equipamentos e serviços disponibilizados no entorno imediato dos residenciais. Essa discussão se fundamentou principalmente na visita aos empreendimentos, onde foi possível coletar informações com os moradores, refletindo sobre a dinâmica local dos bairros onde foram inseridas as residências do PMCMV. A partir do reconhecimento dos principais estabelecimentos existentes nas localidades, bem como a partir dos relatos dos moradores dessas áreas, foi possível construir esses mapas temáticos, os quais, com o auxílio das ferramentas do google, demarcam as distâncias percorridas pela população para acessar os serviços mais básicos. No item anexo é possível observar um quadrosíntese, o qual dispõe as distancias entre todos os empreendimentos e os serviços encontrados no entorno, sistematizando essas informações e possibilitando compreender um retrato da atual cobertura dos serviços existentes nas proximidades dos empreendimentos do PMCMV. 81 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esse cenário projetado pelo Programa Minha Casa, Minha Vida – Faixa 1, na Região Metropolitana de Natal, traz sérias implicações para o ordenamento urbano e para o planejamento das ações locais, uma vez que deverão ser pensadas novas formas de garantir que os equipamentos e infraestruturas da cidade cheguem a esses locais mais distantes. Trata-se de amenizar os efeitos oriundos da construção de unidades habitacionais desconectadas do tecido urbano, onde se observa a carência de transportes e serviços, impactando diretamente no cotidiano dos moradores, os quais terão – por algum tempo – dificuldades de conceber suas práticas e relações sociais nesse espaço quase que sem vizinhança. Essa falta de serviços constatada na maioria das visitas ao entorno dos 32 empreendimentos da RMN pode dificultar a reterritorialização dos moradores, uma vez que o convívio diário dessas pessoas – que também se estabelece na padaria, no mercadinho, no cabeleireiro, no ponto de ônibus – está comprometido pela ausência dessas práticas no território, sendo necessário eles se reterritorializarem, implantando os serviços nas proximidades e concebendo relações com o território que vão além do morar individual. A desterritorialização, sobretudo, acontece quando existe uma separação do lugar onde se residia antes e o encontro com o novo ou com outro território. As pessoas perdem os laços sociais que tinham estabelecido com os vizinhos, a familiaridade com o lugar, além de se verem obrigados a conceber práticas nesse espaço caracterizado pelos problemas de acesso a infraestruturas e serviços. Além disso, a carência de equipamentos comunitários evidencia uma inserção desse espaço de baixa hierarquia no meio urbano, criando dificuldades e restringindo as possibilidades de bem-estar dos residentes. Esta, por sua vez, é uma característica da segregação residencial, onde os melhores terrenos são alocados para as atividades daqueles que detêm maior poder aquisitivo. Isso confirma a tendência de que a problemática da habitação não está longe de ser um dos principais gargalos da cidade contemporânea, sendo necessário extrair lições que reforcem que a construção planejada do espaço urbano é a melhor maneira de prevenir a proliferação de construção de moradias segregadas e/ou desterritorializadas. 82 Nessa concepção, é fundamental tratar da questão do espaço urbano e propor sua remodelação, baseando-se no modelo de construção de moradias do PMCMV, o qual atua diretamente na estruturação do espaço, alocando terrenos para a população e estabelecendo o local de moradia para a população beneficiada. Na RMN, a estruturação desses espaços promovida pela expressiva produção habitacional é caracterizada por um padrão de carência de serviços, dificultando o acesso das pessoas às áreas centrais e impondo uma dinâmica de crescimento periférico, onde os grupos sociais de renda de até 3 salários mínimos são instalados nos espaços desequipados e sem infraestruturas. Assim, compreende-se que “morar” não significa apenas ocupar determinado espaço. É necessário que a moradia assegure uma condição de vivência, dotada de infraestrutura e acesso a equipamentos coletivos, contrariando esse padrão de segregação. O que observa-se nesses empreendimentos do PMCMV – Faixa 1, construídos na RMN, é um afastamento dos grupos mais pobres da população das áreas mais centrais e de toda a sua infraestrutura, para as periferias, onde evidencia-se a ausência de serviços públicos. As unidades habitacionais construídas acabam por não garantir os direitos sociais à população lá instalada, potencializando uma série de problemas urbanos que perpassam a luta pela habitação de qualidade e pelo acesso aos demais serviços públicos. Essas análises, embora ainda não definitivas, indicam a necessidade de pesquisas complementares para melhor caracterizar os problemas reais de acessibilidade desses novos empreendimentos, investigando como o Estado atua na distribuição do espaço, definindo como as diversas classes sociais irão usufruir das infraestruturas e serviços públicos. Ademais, as reflexões que foram propostas nessa pesquisa indicam a necessidade de se realizar avaliações dos impactos desse programa habitacional, contemplando os seus efeitos positivos e negativos, levantando questionamentos que evidenciem a prática vivenciada nos conjuntos implantados pelo programa. Em suma, reforça-se o caráter de abandono sentido pelas famílias beneficiárias que, distantes dos serviços públicos e privado e mal servidos de transporte público, têm um cotidiano marcado pelo isolamento. Nessa perspectiva, os descompassos identificados na natureza do PMCMV permitem que se questione a que preço se está pagando por essas respostas às grandes demandas que historicamente reivindicam a reforma urbana e o combate ao 83 déficit habitacional. Será que as mais de 10 mil unidades habitacionais, construídas na RMN pelo PMCMV, se materializam em avanços no campo habitacional? Ou será que essa construção de moradias tem contribuído para o retrocesso na garantia do direito à cidade, marginalizando uma população historicamente prejudicada, e fortalecendo no território uma dinâmica de injustiça e desigualdade? Enquanto não temos respostas a essas perguntas, a proposta é continuar a estimular as discussões que enfoquem o desenvolvimento de alternativas que priorizem o bem-estar social, investigando os fenômenos que se projetam no território e observando, na percepção da sociedade, qual a melhor forma de combater os danos provocados por essas ações descontínuas. Em suma, questionase: será que a promoção da casa própria compensa os padrões de segregação e desterritorialização impostos pelas distâncias dos empreendimentos em relação aos equipamentos sociais? A construção dessas novas residências se configura,de alguma forma, numa conquista na luta pelo direito à moradia, porém ressalta-se que ainda há muito que se alcançar na busca da garantia dos direitos à cidade, sendo necessário implementar políticas públicas de planejamento territorial que compreendam o espaço como espaço de vivência e convivência. 84 REFERÊNCIAS ABRAMO, Pedro. 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Cap. 7. 88 APENDICES ANEXO I: Quadro resumo de todos os empreendimentos do PMCMV e suas distâncias aos centos de cidade MUNICÍPIO EMPREENDIMENTO RESIDENCIAL FAUNA RESIDENCIAL FLORA Ceará-Mirim RESIDENCIAL MAR RESIDENCIAL TERRA RESIDENCIAL JARDINS DE EXTREMOZ I RESIDENCIAL JARDINS DE EXTREMOZ II Extremoz RESIDENCIAL JARDINS DE EXTREMOZ III RESIDENCIAL JARDINS DE EXTREMOZ IV RESIDENCIAL FRANCISCO ALÍPIO Macaíba RESIDENCIAL LÚCIA MARQUES RESIDENCIAL MINHA SANTA Monte Alegre RESIDENCIAL ESPERANÇA RESIDENCIAL VIVENDAS DO PLANALTO I RESIDENCIAL VIVENDAS DO PLANALTO II Natal RESIDENCIAL VIVENDAS DO PLANALTO III RESIDENCIAL VIVENDAS DO PLANALTO IV RESIDENCIAL CLÓVIS FERREIRA DA SILVA Nísia Floresta RESIDENCIAL ALTO DA FLORESTA RESIDENCIAL NELSON MONTEIRO RESIDENCIAL WALDEMAR ROLIM CONDOMÍNIO VIDA NOVA CONDOMÍNIO ILHAS DO PACÍFICO RESIDENCIAL AMÉRICA I RESIDENCIAL AMÉRICA II Parnamirim CONDOMÍNIO ILHAS DO ATLÂNTICO CONDOMÍNIO ILHAS DO CARIBE RESIDENCIAL TERRAS DO ENGENHO I RESIDENCIAL TERRAS DO ENGENHO II RESIDENCIAL IRMÃ DULCE I RESIDENCIAL IRMÃ DULCE III RESIDENCIAL IRMÃ DULCE III São Gonçalo do Amarante RESIDENCIAL JOMAR ALECRIM Fonte: Elaboração Própria DISTÂNCIA AO CENTRO DO MUNICÍPIO 2,55 km 1,55 km 2,89 km 8,41 km 1,40 km 8,5 km 1,06 km 1,25 km 2,82 km 1,6 km 4,45 km 2,65 km 5,51 km 4,53 km 1,78 km 89 ANEXO II: Planilha orientadora de coleta de dados utilizada na pesquisa de campo Bairro: Condominio: Temática Tipo Infraestrutura Serviço latitude longitude Outras Características Posto de Saúde Hospital Clinica Saúde Saneamento Básico CMEI Escola NivelFudamental de Escola de NivelMedio Educação Faculdade/Universidade Quadra de Esporte Praça Parque Igreja Lazer e Cultura Academia Ponto de Ônibus Vias Calçadas Pavimentadas Mobilidadee acessibilidade e Iluminação Pública Acessibilidade Posto Policial segurança Delegacia Internet TV a cabo Correios Serviços Agua Encanada Farmacia Padaria Supermercado Mercadinho Comércio e Posto de Gasolina Outros Fonte: Elaboração Própria 90 ANEXO III: Quadro-síntese – Distâncias entre os empreendimentos e serviços EMPREENDIMENTO RESIDENCIAL FAUNA RESIDENCIAL FLORA RESIDENCIAL MAR RESIDENCIAL TERRA RESIDENCIAL JARDINS DE EXTREMOZ I, II, III e IV RESIDENCIAL FRANCISCO ALÍPIO RESIDENCIAL LÚCIA MARQUES RESIDENCIAL MINHA SANTA RESIDENCIAL ESPERANÇA RESIDENCIAL VIVENDAS DO PLANALTO I, II, III e Iv RESIDENCIAL CLÓVIS FERREIRA DA SILVA RESIDENCIAL ALTO DA FLORESTA RESIDENCIAL NELSON MONTEIRO RESIDENCIAL WALDEMAR ROLIM CONDOMÍNIO VIDA NOVA CONDOMÍNIO ILHAS DO PACÍFICO RESIDENCIAL AMÉRICA I e II CONDOMÍNIO ILHAS DO ATLÂNTICO CONDOMÍNIO ILHAS DO CARIBE RESIDENCIAL TERRAS DO ENGENHO I RESIDENCIAL TERRAS DO ENGENHO II RESIDENCIAL IRMÃ DULCE I, II, III RESIDENCIAL JOMAR ALECRIM Fonte: Elaboração Própria. FARMÁCIA POSTO DE SAÚDE DELEGACIA IGREJA GINÁSIO ESPORTIVO x 1,87 km 1,84 km 1,57 km 2,32 km 2,8 km x 0,96 km x 1,64km 0,84 km 2,4 km 1,03 km 0,93 km x x 3,5 km 0,7 km x 3,6 km 0,95 km 1, 87 km x 0,6 km 0,64 km x 1,32 km 2,15 km 0,77 km 1,8 km x 1,37 km 0,7 km x x 0,4 km 1,63 km x x 0,3 km 1,2 km 1,1 km 2,79 km x 1,35 km 2,75 km x 2 km x 1,09 km 1,43 km x x 0,8 km 1,1 km x x x x x x 1,27 km 1,48 km x x 1,19 km 1,4 km 1,6 km 1,9 km 1,73 km x 2,16 km 0,36 km x 0,77 km 1,01 km 1,55 km x x 0,55 km x 0,29 x 0,27 km 1,07 km 0,56 km x x x 0,35 km x 0,28 km 1,55 km x 1,14 km 1,06 km 1, 23 km x x 0,36 km 0,42 km 0,69 km 2,01 km 0,54 km x 0,71 km x x x 0,75 km x 0,69 km 2,45 km x 2,04 km 1,92 km 1,73 km x x 0,2 km 1,1 km x x 0,4 km 0,91 km 1,73 km 2,04 km x x 1,38 km 1,89 km 1,34 km 1,91 km 0,95 km 1,96 km x 1,84 km x 0,9 km ESCOLA CRECHE MERCADINHO SUPERMERCADO PADARIA 2 km 1,47 km 1,23 km 2,28 km 0,8 km 1km 0,9 km 0,7 km x x 0,65 km 91