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II Encontro Nacional de Estudos da Imagem
12, 13 e 14 de maio de 2009 • Londrina-PR PRISCILA BARBOSA DA SILVA (1910-2006):
UMA PIONEIRA DA FOTOGRAFIA EM GOIÂNIA (GO)
Rosana Horio Monteiro1
[email protected]
Resumo: Nesse artigo investigo a presença da mulher no mercado fotográfico nas
primeiras décadas do século 20 no Brasil. Destaco a trajetória profissional de Priscila
Barbosa da Silva (1910-2006), a única mulher entre os pioneiros da fotografia na
cidade de Goiânia. A partir de entrevista e consulta a seu acervo particular de
imagens, apresento as principais características de sua produção e da prática da
fotografia no período, enfatizando alguns papéis de gênero identificados nesse
contexto.
Palavras-chave: Priscila Barbosa da Silva, história da fotografia, Goiânia
Abstract: This paper aims to investigate the presence of women in the photographic
market in the first decades of the 20th century in Brazil. The career of Priscilla
Barbosa da Silva (1910-2006), the only woman among the pioneers of photography in
the city of Goiania, is highlighted. Working with interviews and studying her private
collection of images, I present both the main features of her production and of the
practice of photography at that time, emphasizing some gender roles identified in
this context.
Keywords: Priscila Barbosa da Silva, history of photography, Goiânia
Embora já existam registros da participação da mulher desde a pré-história da
fotografia, elas raramente são mencionadas em livros de história da fotografia. O
inglês Fox Talbot (1800-1877) tinha uma série de parentes mulheres que foram
atuantes neste campo e, na verdade, sua própria esposa, Constance, fotografava,
revelava e imprimia as imagens. Sua prima Emma Llwelyn (1837-1928) imprimia para
o marido, John Llwelyn (1810-1882), pioneiro galês da fotografia. O fotógrafo,
naturalista e soldado britânico Robert Tytler (1818-1872) e sua esposa Harriet (18281907) fotografaram as ruínas após o Grande Motim da Índia de 1857, produzindo
aproximadamente 500 negativos em calotipia de grande formato, e, embora o
trabalho de ambos tenha sido muito reconhecido, os mais populares livros de história
da fotografia mencionaram durante muitos anos somente o nome de Robert.
Genevieve-Elizabeth (1817-1878), esposa de Disdéri (1819-1889), famoso pela
produção dos cartes-de-visites, era sócia dele e continuou a trabalhar em Paris
mesmo após a morte do marido e até 1878, quando faleceu. Em seu atestado de
1
Professora do programa de mestrado em Cultura Visual da Faculdade de Artes Visuais (UFG).
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12, 13 e 14 de maio de 2009 • Londrina-PR óbito consta a informação de que Elizabeth morreu aos 61 anos, “sem profissão”...
(ROSENBLUM, 2004)
No Brasil, em anúncios de classificados das listas telefônicas entre as décadas
de 30 e 40 do século 20 já se encontravam referências ao trabalho de mulheres
fotógrafas. No entanto, essas profissionais não foram as primeiras mulheres a
atuarem na fotografia brasileira. Gioconda Rizzo, morta em 2004, aos 107 anos, já
fotografava em São Paulo desde 1910. Além disso, desde o início do século 20,
esposas e filhas de fotógrafos já realizavam serviços de laboratório, acabamento e
fotopintura. Gioconda foi, no entanto, a primeira mulher a ter a autoria de seus
trabalhos reconhecida.
Gioconda começou a trabalhar aos 14 anos, ajudando o pai, o fotógrafo
italiano Michelle Rizzo, em seu estúdio em São Paulo. Aos 17 instalou-se em estúdio
próprio, o Photo Femina, onde só retratava mulheres e crianças, pois seu pai não
permitia que ficasse sozinha com homens. A família Rizzo foi pioneira no uso do flash
no Brasil, alcançando grande repercussão na época. Depois de casada, Gioconda
passou a imprimir fotos em pingentes e porta-jóias de porcelana.
A inferioridade da mulher casada em relação ao marido estava presente no
Código Civil Brasileiro de 1916, vigente naquele período.2 A mulher era vista como
dependente e subordinada ao homem, sendo declarada relativamente inabilitada
para o exercício de determinados atos civis. A manutenção da família era
responsabilidade do casal, mas, em contrapartida, à mulher casada só lhe seria
concedido o direito ao trabalho mediante autorização do marido ou, em certos casos,
arbítrio do juiz.
Na década de 1920, no Rio de Janeiro, outra mulher destaca-se junto ao
Photo Club Brasileiro. D. Hermínia de Mello Nogueira Borges (1894-1989), como ficou
conhecida, teve uma formação artística tradicional, estudando desenho, pintura e
música. Adepta da fotografia pictorialista, desenvolveu sua carreira como fotógrafa
após o casamento, sendo o seu marido, o advogado e fotógrafo amador Nogueira
Borges, quem a teria estimulado a fotografar.3 Com aproximadamente uma década
de diferença, por volta nos anos de 1930, em Goiás, Priscila Barbosa da Silva também
iniciaria no ofício da fotografia através seu marido (Figura 1).
2
O código passou por uma reforma geral apenas em 2004.
Em 1987, o acervo fotográfico de D. Hermínia foi doado ao Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de
Janeiro.
3
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12, 13 e 14 de maio de 2009 • Londrina-PR Fig. 1 – Priscila, déc. 1930 (esq.), acervo MIS-GO; Priscila, 2005, foto de
Sylvana Lobo.
Priscila aprendeu a fotografar com seu marido, o fotógrafo ambulante Jaulino
Marques, que perdeu a visão precocemente. É Priscila quem nos conta como foi
iniciada no ofício da fotografia:
Ele [Jaulino] me ensinou a abrir o tripé, a armar; depois passou a mão por
cima, porque ele não enxergava, para ver se estava nivelado ou se estava
solto (...) Usava luz vermelha ou luz verde para revelar. Eu usei uma chapa
com luz vermelha. Aí coloquei no banho e ele ficou perguntando: ‘tá
aparecendo?’ Eu falei ‘tá, tá assim, assim’. Quando chegou num ponto, ele
disse: ‘tá bom! Tira, passa n’água e põe o fixador’ (SILVA, Priscila Barbosa,
entrevista, 2005).4
Além disso, Priscila lia a revista Kodak, que vinha esporadicamente de São
Paulo para revendedores de seus produtos. Além de fotógrafa, ela também revendia
produtos fotográficos, como papéis, filmes, químicos para cópia e ampliação.
Segundo ela, na revista “vinham instruções, ensinava alguma coisa, tinha muita
fotografia. Foi naquele tempo que eles foram na Lua, tinham muitos retratos deles
lá. Era uma revistinha boa” (SILVA, Priscila Barbosa, entrevista, 2005).
4
As entrevistas foram concedidas a Sylvana Lobo em 2005, durante a realização de sua monografia de
conclusão de curso de graduação em Artes Visuais na Universidade Federal de Goiás, orientada por mim
e intitulada “Priscila Barbosa da Silva: uma trajetória em imagens”.
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12, 13 e 14 de maio de 2009 • Londrina-PR Após três anos morando em Anápolis, interior de Goiás, em 1937 mudam-se
para Goiânia, com Jaulino já completamente cego. O casal e as duas filhas residiam
em Campinas, na época uma cidade independente de Goiânia.5 A construção de
Goiânia, entre 1933 e 1950, constituiu-se em um foco de atração para grupos que
procuravam trabalho. Vieram para a região, além da mão-de-obra especializada
(para a arquitetura, serviço de encanamento para água e esgoto), um grande
contingente de operários, oriundos de várias regiões do país. Integrando esse grupo
de trabalhadores, chegaram também os primeiros fotógrafos, muitos deles
estrangeiros, que inicialmente se fixaram em Campinas.
Nesse período, Priscila instalou em sua casa um laboratório para revelação e
ampliação de fotos. Na entrada, havia uma placa indicando o nome de seu
estabelecimento: “Fotografia Ideal” ou “Foto Ideal”, como algumas de suas fotos
estão identificadas. Havia ainda uma vitrine com alguns retratos expostos para atrair
os clientes. Posteriormente, montou um estúdio na casa em frente à que morava. Os
estúdios eram geralmente improvisados em cômodos das residências dos próprios
fotógrafos. Os produtos químicos para laboratório e materiais sensíveis para
negativos e cópias eram de difícil obtenção, caros e demorados, o que levou muitos
fotógrafos a agenciarem suas vendas, como foi o caso de Priscila.
Priscila fotografava tanto em estúdio, como ao ar livre e em ambos os casos
ela utilizava uma cortina, um fundo pintado, que mandava vir de São Paulo, cujas
paisagens seguiam as especificações da própria fotógrafa (Figuras 2 e 3). Para a
iluminação, ela utilizava três refletores, e trabalhava com duas máquinas de grande
formato e uma Zeiss alemã, mais usada para fotos externas, pois esta dispensava o
uso de tripé. De todos os seus equipamentos, o único do qual não se desfez foi um
termômetro usado para medir a temperatura dos químicos. O restante ela vendeu,
inclusive as revistas de fotografia da Kodak.
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Atualmente, Campinas é um bairro de Goiânia.
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12, 13 e 14 de maio de 2009 • Londrina-PR Fig. 2 – Casamento da filha de Priscila. Goiânia, déc. 1930, acervo MIS-GO.
Fig. 3 – Esther Marques, filha de Priscila. Goiânia, 1946.
Acervo MIS-GO.
Assim como ocorreu em outros lugares, a produção de retratos também foi
predominante em Goiânia nesse período. Além do trabalho em estúdios, que eram
bastante modestos e possuíam laboratórios precários, os fotógrafos dedicaram-se a
fotos externas, como de casamentos, formaturas, batizados, mortes, fazendo, às
vezes, pequenas viagens para cidades vizinhas. Seguindo a tendência do período,
Priscila realizou também muitos retratos, fotos de festas de casamentos, batizados,
fotos de arquitetura e eventos públicos, como a chegada de um avião ao primeiro
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12, 13 e 14 de maio de 2009 • Londrina-PR aeroporto de Goiânia (Figura 4). Entre seus clientes, além de pessoas do bairro e do
centro da cidade, havia também os donos de fazendas, que agendavam hora ou
mandavam buscá-la em casa:
Às vezes eu ia com quem vinha me chamar, outras vezes era hora marcada e
eu ia sozinha. A máquina que eu usava tinha uma maletinha; a máquina era
pequena, 9x12cm, e tinha um chassi. Negativo eu usava vidro e filme. Era
tudo igual, o filme era melhor porque não tinha perigo de quebrar. E os
preços regulavam (SILVA, Priscila Barbosa, entrevista, 2005).
Fig. 4 – Chegada de avião no aeroporto. Déc. 1930. Acervo MISGO.
Ela trabalhou para o político Íris Rezende, na época candidato ao cargo de
prefeito6, produzindo fotos no formato 3x4cm para documentos de seus eleitores,
tais como título de eleitor, carteira de trabalho:
Eu tinha um fundo para tirar retratinho pequeno. Exigia gravata e paletó.
Eram fotos pra título de eleitor, 3x4cm, e para o Ministério do Trabalho com
a data. Eu escrevia a data num papelzinho e colocava, ou então fazia na
chapa mesmo a lápis. Eram fotos para documento (SILVA, Priscila Barbosa,
entrevista, 2005).
Além do retrato, o retoque, a fotopintura e a fotomontagem estavam entre as
técnicas dominantes. Com o marido, Priscila aprendeu a fazer “vinhetas”, que eram
bordas em formato de coração, ovais, simulando uma renda (Figura 5), e
experimentou a fotomontagem:
Umas aprendi com ele e outras fui eu quem inventei. Ele fazia muito aquelas
chamadas de vinheta, fazia um coração, com uma flecha. Montava também
uns cartões que vinham da Kodak, certinhos para colar a fotografia, e tinha
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6
Íris Rezende é novamente prefeito de Goiânia.
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12, 13 e 14 de maio de 2009 • Londrina-PR um feito carteira: colava a fotografia e fechava (SILVA, Priscila Barbosa,
entrevista, 2005).
Fig.5 – Priscila Barbosa da Silva, s.d. Acervo particular.
Sobre as fotomontagens abaixo (Figuras 6 e 7), Priscila explica:
Essa aqui eu peguei a flor, tirei o miolo dela, tirei a fotografia separada,
cortei redondinho, colei na flor e tirei outra fotografia. Um girassol. Essa
foto aqui eu arrumei, fiquei no lugar e não sei se foi meu marido ou minha
filha quem tirou (SILVA, Priscila Barbosa, entrevista, 2005).
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12, 13 e 14 de maio de 2009 • Londrina-PR Fig. 6 e 7 – Priscila e suas filhas, 1938 (esq.). Acervo MIS-GO. Fotomontagem,
déc. 1930. Acervo particular.
O retoque e a fotopintura também foram técnicas utilizadas por Priscila. Com
lápis próprios fazia correções nos próprios negativos e pintava algumas fotos. Ela
iniciou na fotopintura de forma autodidata. Comprou um estojo de aquarela, próprio
para colorir fotos, e se arriscou a pintar. Sua atenção voltava-se para os detalhes das
roupas, as flores, geralmente presentes nos cenários, a maquiagem (Figuras 8 e 9).
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12, 13 e 14 de maio de 2009 • Londrina-PR Figuras 7 e 9 – Ruth e Esther (filhas), 1938. Acervo MIS-GO. Aldegonda, Ruth e
Esther, 1943. Acervo MIS-GO.
Embora não tenha alterado seu nome com o casamento, durante sua vida
como fotógrafa ela foi conhecida como Priscila Marques, uma referência direta ao
sobrenome do marido, morto em 1960, ou, ainda, como a “mulher do Jaulino”. Parou
de fotografar em 1970, aos 61 anos, e morreu em 2006, aos 98 (Figura 10). O
pequeno acervo de fotografias de Priscila encontra-se atualmente no Museu da
Imagem e do Som de Goiânia.
Sobre a história da fotografia em Goiás, há ainda poucos registros. O Museu da
Imagem e do Som (MIS-GO) desenvolveu um projeto sobre as manifestações iniciais
da fotografia em Goiânia, intitulado Pioneiros da Fotografia em Goiânia (2002), com
ênfase no período correspondente ao da construção da cidade, de 1933 a 1950.
Foram identificados 12 fotógrafos, entre os quais Priscila, a única mulher a compor
esse grupo.
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12, 13 e 14 de maio de 2009 • Londrina-PR Referências
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