Autora: Vera Lúcia Graziano da Silva Rodrigues CPF: 042.607.908-62 Endereço: Rua Açaí 336, Jd. das Palmeiras CEP: 13.052.687 – Campinas-SP Endereço eletrônico: [email protected] Grupo de pesquisa: n° 10 - Desenvolvimento Territorial e Ruralidade Forma de apresentação: em sessão sem debatedor O CONSELHO MUNICIPAL DE DESENVOLVIMENTO RURAL DE CAMPINAS E O GRUPO DE DESENVOLVIMENTO RURAL SUSTENTÁVEL: aproximações e divergências Vera Lúcia Graziano da Silva Rodrigues 1 Resumo: O presente trabalho teve como objetivo investigar a atuação de duas entidades que têm uma atuação importante na luta pelos direitos sociais em Campinas: O CMDR- Campinas e o GDRS. Enfatiza a importância delas numa metrópole cujo espaço rural ocupa metade da área. Aponta para as similitudes e diferenças entre ambas. Estas diferenças e semelhanças baseiam-se fundamentalmente no caráter consultivo do primeiro e no vínculo direto com o poder executivo do segundo que lhe dá caráter deliberativo. Abstract: This article deals with two important entities related to social rights in Campinas: The CMDR- Campinas and the Sustainable Rural Development Group (GDRS) . The main purpose of this paper is to present the activities of the two entities . Empathizes their importance in this metropolis in which the rural area occupies half of the space. It shows the differences and similarities among them. These differences and similarities are based mainly in the mere advisory character of the first and the deliberative character of the second. Palavras-chave: associativismo, novo rural, direitos sociais Introdução Iniciamos a pesquisa sobre o Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural de Campinas basicamente com o objetivo de comparar sua atuação com a dos Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural daqueles municípios onde a agricultura em seu sentido estrito ainda tem uma importância significativa. A hipótese era a de que seriam atuações bastante diversas pela inserção do CMDR-Campinas numa metrópole, onde a agricultura enquanto atividade econômica perdeu espaço. O levantamento bibliográfico sobre os Conselhos em estados do sul e em Goiás por exemplo, embora mostrasse diferenças significativas entre eles, apontava para a grande importância dos Conselhos para a liberação de verbas do Programa Nacional de Agricultura Familiar ( PRONAF- infra-estrutura) na sua implementação. Freqüentemente 1 Professora titular da Faculdade de Ciências Sociais, Centro de Ciências Humanas da PUC-Campinas. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Laboratório de Estudos Sociedade Ética e Cidadania (LESEC). toda a vida do Conselho girava em torno da aprovação dos Planos dos pequenos produtores interessados em obter financiamento deste programa. Esta realidade não era a de Campinas, e o objetivo da pesquisa consistia em indagar sobre o significado de um Conselho de Desenvolvimento Rural em uma Metrópole. Este sentido foi descoberto na relação deste Conselho com novas funções da agricultura, principalmente na direção de preservação do meio ambiente e aliviar o desemprego nas grandes cidades. A surpresa maior, entretanto, foi detectar o surgimento do Grupo de Desenvolvimento Rural Sustentável ( GDRS), cuja atuação ao longo da pesquisa mostrouse ao mesmo tempo complementar e diversa da do CMDR-Campinas. Complementar, porque ao revalorizar o espaço rural, atuando praticamente como uma Secretaria da Agricultura, auxiliava a consolidação do CMDR-Campinas. Diversa, porque mais radical na proposta de revalorizar o rural e planejá-lo de forma integrada à cidade. O que provocou muitas vezes confronto entre ambos, apesar da estreita relação. Pudemos observar inclusive que alguns representantes pertencem tanto ao CMDR como ao GDRS. É esta relação contraditória que queremos explorar no artigo. I- O Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural de Campinas: Um balanço O Conselho de Desenvolvimento Rural de Campinas foi constituído a partir da lei municipal n° 9804 de 16/07/98. A justificativa era a de que embora o município de Campinas seja conhecido basicamente pelas suas indústrias, comércio e universidades, não deixa de ter um meio rural importante que precisa ser planejado. A primeira reunião realizou-se em dois de março de 1999, no auditório da Centrais de Abastecimento de Campinas (Ceasa-Campinas ), que passou a ser a sede do Conselho. O presidente do Ceasa foi indicado presidente do Conselho e o diretor do Sindicato Rural seu vice-presidente, numa clara demonstração da necessidade da presença de órgãos estatais para a instalação do Conselho. Na segunda reunião , realizada no início de abril, foi aprovada proposta de regimento do CMDR-Campinas. Com relação às diretrizes, o CMDR-Campinas deve fundamentalmente identificar problemas dos vários segmentos do setor agrícola municipal e formular propostas de solução; promover a participação da comunidade rural em assuntos de seu interesse; propor diretrizes para a política agrícola municipal; incentivar a ação coordenada de pesquisa, de assistência técnica e extensão rural, bem como ainda do cooperativismo e associativismo; integrar as associações públicas e privadas vinculadas à pesquisa, ensino, produção, comercialização, armazenamento e industrialização, no planejamento e execução dos programas e recursos locais; viabilizar soluções municipais e regionais com as autoridades competentes, quer sejam elas municipais, estaduais ou federais, e ainda com os outros Conselhos de Desenvolvimento Rural. A exemplo de grande parte dos Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural , o CMDR-Campinas é órgão consultivo de assessoramento do Poder Executivo. Este caráter não deliberativo tem sido colocado como um entrave ao funcionamento do CMDRCampinas, pois é freqüente que problemas sejam diagnosticados, mas quando são encaminhados para o Executivo , a falta de verbas impede que sejam solucionados. A não efetivação de propostas acaba gerando um desestímulo à participação. Assim, torna-se difícil cumprir uma das diretrizes do CMDR-Campinas que é compatibilizar as reivindicações dos produtores locais com a política de desenvolvimento rural, e com os recursos disponíveis (grifos VLGSR). Em outras palavras, quando o caráter do Conselho é apenas consultivo, sua atuação restringe-se à formulação de sugestões ou ao encaminhamento de demandas. E na medida que isto ocorre, é possível que o sentido real de participação da sociedade civil em espaços políticos decisórios seja enfraquecido, limitando a possibilidade da mesma poder opinar e interagir comunicativamente antes que uma decisão seja tomada ( Vetullo, apud Demantova,2003: 30). De qualquer maneira, cumpre ressaltar que nem sempre o caráter deliberativo garante uma maior eficiência na atuação do Conselho. É preciso ficar atento, pois é possível que as deliberações sejam as de interesse do próprio governo e, portanto, correspondem às decisões que já seriam tomadas, servindo muito mais para referendar e legitimar a Secretaria do que, de fato, influir em suas ações (Vetullo apud Demantova,2003: 30). Estudo realizado em Lapão na Bahia, por exemplo, mostra que o CMDR, “tem caráter deliberativo, porém, de forma geral reúnem-se para discutir a alocação de recursos públicos, estando distantes da reflexão coletiva sobre potencialidades e vocações do município e sua relação com o contexto regional”. (Garrido e Rocha,2003:6) . Mais que isto, é possível que as deliberações sejam as de interesse do próprio governo e, portanto, correspondem às decisões que já seriam tomadas, servindo muito mais para referendar e legitimar a secretaria do que, de fato, influir nas suas ações. Ainda segundo o autor, um dos maiores desafios dos Conselhos é criar uma dinâmica de funcionamento que permita aos conselheiros estabelecer uma agenda de decisões que não esteja subordinada a pauta da administração pública ( Junior, in Demantova,2003: 30 e 35). Além disto, o caráter deliberativo do Conselho exige uma maior atuação dos conselheiros, ou seja, exige um conselho forte. Isto significa que para os Conselhos ainda com dificuldades de consolidação, como é o caso do CMDR-Campinas, o caráter consultivo pode ser um peso demasiado, tornando-se muito mais um entrave do que um benefício. Nas palavras do secretário executivo do CMDR: no caso particular de Campinas, ele é consultivo. Porém, existe uma lei que diz que qualquer decisão da Prefeitura sobre a área rural deve pegar um parecer do Conselho. Isso, na prática, não funciona. Mas, nesse caso, a gente se manteria como consultivo. Na câmara, participa muito mais! Esse é o ideal. Não precisa nem ser deliberativo, manter consultivo... Ser consultivo com esse lei complementando.Acho que aí seria perfeito. A gente não delibera. A gente informa só o melhor caminho. A gente não dá ordens. Acho que seria melhor assim.Quando o Conselho é deliberativo, a participação tem que ser muito boa, de todo mundo, tem que ter muito mais reuniões, dá uma carga muito maior para o conselheiro. Nem sempre o conselheiro tem disposição pra arcar com isso. Então eu acho que o consultivo ficaria bem melhor nesse caso (pesquisa de campo,2004). Com relação às finalidades, entre outras, o CMDR-Campinas deve propor diretrizes para a política agrícola municipal, colaborar nos estudos e elaboração do planejamento, planos e programas de expansão e desenvolvimento rural municipal , propor e acompanhar os programas de desenvolvimento rural, convocar reuniões comunitárias para a discussão de planos, ações e atividades relativas aos vários segmentos do setor agrícola e apoiar e estimular o cooperativismo e outras formas de associativismo. Nestas duas últimas finalidades, principalmente, fica clara a intenção do Conselho de colaborar para a constituição do capital social no espaço rural de Campinas. Uma das primeiras atividades do CMDR-Campinas foi a elaboração do Plano Municipal de Desenvolvimento Rural. Uma Comissão foi montada com esta finalidade já na segunda reunião, em abril de 1999, a mesma em que o regimento interno foi aprovado. A elaboração do Plano é, aliás, colocada como uma das competências do Conselho já no projeto de lei que o institui 2 . O Plano Municipal de Desenvolvimento Rural foi aprovado na reunião no início de setembro do mesmo ano. A implementação do Plano ficou então em grande medida na dependência da municipalização da Casa da Agricultura e da contratação de um engenheiro agrônomo. A municipalização significa estabelecer parceria entre o governo do Estado e prefeitura para a realização de projetos de Extensão/Assistência Técnica. Faz parte do processo mais amplo de descentralização do Estado, objetivando a transferência de atribuições antes de responsabilidade Federal e Estadual para outros níveis de governo. Não é demais lembrar que os Conselhos Municipais, que são expressão do processo de municipalização (...) representam o papel ativo do estado centralizado, que através da constatação de sua incapacidade na gestão das políticas públicas, passa a criar novas esferas públicas relativamente autônomas na aparência e no discurso oficial, mas totalmente controladas material e metodologicamente (Mussoi, in Demantova,2003 :31) Em São Paulo a municipalização se dá basicamente através da criação do Sistema Estadual Integrado de Agricultura e Abastecimento, implementado a partir do Decreto Estadual nº 35.673 de 14 de setembro de 1992. A justificativa dada pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo é o aumento da eficiência gerencial por meio de uma maior descentralização e participação no trabalho possibilitando assim um melhor desenvolvimento da produção e comercialização dos produtos agropecuários, integrando em nível local a ações de assistência técnica, pesquisa , treinamento e infraestrutura. Embora a adesão ao novo formato não seja obrigatória, condiciona o repasse de recursos vinculados a diferentes programas governamentais. Para participar dos programas da Secretaria é necessário que os municípios criem um Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural ,elaborem um Plano municipal de Desenvolvimento Rural e que exista no município , ou seja criado, algum órgão municipal integrado à Casa da Agricultura (Demantova,2003: 38). No caso específico de Campinas, uma divida da prefeitura junto ao INSS então existente, dificultou o estabelecimento de convênio e a presença do agrônomo tem sido bastante irregular. De maneira geral, com relação à “municipalização” da agricultura, a transferência da responsabilidade de gestão das estruturas de execução (entendendo com isto, a transferência de pessoal, de veículos e materiais) às prefeituras municipais, dava-se pela 2 As demais competências seriam: analisar, estabelecer e propor diretrizes para a política agrícola municipal; discutir, propor e acompanhar junto aos poderes constituídos, mecanismos e convênios relacionados a sua área de atuação ; manter intercâmbio com outros Conselhos similares e assessorar e propor Poder Executivo Municipal as matérias relacionadas a ao desenvolvimento rural e abastecimento alimentar necessidade de firmar convênio próprio, no qual ficavam expressos os câmbios de responsabilidade e compromissos: por parte da prefeitura havia a necessidade de formação de um Conselho Municipal de Agricultura e a elaboração de um Plano de Ação para o desenvolvimento da agricultura no município. Além disto deveria assumir as responsabilidades dos custos de manutenção de veículos, escritórios e demais custos operacionais derivados das atividades conveniadas, assegurando infraestrutura adequada em referência a instalações físicas, meios de comunicação e de locomoção, máquinas, equipamentos e materiais necessários. O governo estadual teria como responsabilidade pagar os salários do pessoal de seu quadro funcional que eram mantidos no município, e contribuir mensalmente com um valor correspondente a 500 litros de gasolina por veículo da Secretaria Estadual localizado em regime de comodato no município ( Mussoi,1999:32). Em Campinas, a constituição do Conselho surgiu a partir do diagnóstico de que o próprio Plano Diretor de Campinas possuía deficiências em relação a área rural, havendo necessidade de elaboração de um Plano Municipal de Desenvolvimento Rural. Este Plano foi elaborado no início de 2000, tendo como objetivo geral melhorar a qualidade de vida do homem no meio rural, evitando o êxodo e mantendo a agricultura como atividade econômica, sustentável e de grande importância no município ( Plano de Desenvolvimento Rural de Campinas, 2000:7). O Plano se propõe, em resumo, a viabilizar um dos objetivos primordiais do CMDR-Campinas que é fixar o homem no campo e valorizar a agricultura e a pecuária no município. O Plano de Desenvolvimento Rural de Campinas propõe como uma de suas ações imediatas que seja elaborada lei no Legislativo Municipal estabelecendo que todas as decisões do Executivo e do Legislativo referentes ao meio rural tenham um parecer do CMDR Campinas ( Plano de Desenvolvimento Rural de Campinas, 2000:18). Ou seja, o Conselho deveria emitir parecer prévio às aprovações e/ou votações em projetos de lei ou projetos de execução e que digam respeito direta ou indiretamente à sua área de atuação. Seriam matérias obrigatórias à análise do CMDR projetos, edificações e/ou empreendimentos na área rural; estratégias para o ordenamento territorial do município que venham a afetar, direta ou indiretamente a área rural; alterações pertinentes ao domínio rural e matéria do Executivo ou do Legislativo relacionada ao desenvolvimento rural. Esta lei foi efetivamente promulgada em 28 de setembro de 2000, mas não tem sido aplicada. O que é importante deixar claro é que em Campinas o CMDR surge não como uma demanda dos agricultores familiares alijados das políticas públicas ao longo da década de 1980 que levou à criação do PRONAF em meados dos anos 90, de alguma forma respondendo às pressões por crédito agrícola e apoio institucional. Com todos os problemas existentes na sua implantação- não é o caso de discuti-los aqui- o PRONAF não deixa de ser uma política pública que privilegia a gestão local de suas ações, dando forte ênfase à participação dos municípios e das entidades da sociedade civil local. Neste sentido, podese dizer que este programa está em sintonia com outro processo da maior importância para a sociedade brasileira, que diz respeito às transformações recentes nas formas de relacionamento entre sociedade civil e o Estado (Schneider e Kunrath Silva, 2003:2). Diferentemente do que aconteceu com os Conselhos implementados no Rio Grande do Sul e outros estados, em Campinas o processo iniciou-se com a própria necessidade de se revalorizar a agricultura , já que desde a década de 40 Campinas possuía um perfil predominantemente urbano. Isto significa que houve necessidade de se fortalecer o próprio setor que o Conselho deveria estar representando. Ao mesmo tempo, a criação do Conselho faz parte da proposta de revalorização do rural. Isto não quer dizer que alguns Conselheiros não vejam a influência do estímulo do PRONAF também na constituição do CMDR-Campinas., como mostra este depoimento do representante do CEASA coletado durante a pesquisa de Demantova: Como todos os CMDRs, foi o estímulo do governo federal que vincula a possibilidade de apoio aos municípios à existência de um CMDR (por exemplo PRONAF infraestrutura ) e a ação da Secretaria de Agricultura e Abastecimento na montagem de um Sistema Nacional de CMDRs Neste período inicial, em que a principal preocupação era elaborar o Plano Municipal de Desenvolvimento Rural, as assembléias eram mensais, mas já em agosto de 2000 uma reunião extraordinária altera o regimento tornando as assembléias bimestrais. Mais que isto, com esta alteração, fica estabelecido no artigo 13 do regimento que o conselheiro que deixar de comparecer a duas assembléias consecutivas ou quatro alternadas , sem justificativa, tem seu mandato extinto. Ressalte-se que o Conselho havia ficado sem se reunir entre setembro de 1999 e março de 2000, fatos estes que indicam uma dificuldade de consolidação do Conselho após sua criação formal. Esta hipótese fica confirmada quando se observa que um dos pontos discutidos no Congresso da Cidade de Campinas iniciado em 18 de julho de 2003 era a necessidade de se fortalecer o Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural. A ausência de algumas entidades como o Sindicato de Trabalhadores Rurais e o Sindicato do Comércio Varejista, Feirantes e Vendedores Ambulantes de Campinas levou à reformulação da própria composição do Conselho. O Sindicato dos Trabalhadores nunca veio! A sede dos Sindicato dos Trabalhadores Rurais é Cosmópolis. Foi feito contato: “Querem participar?”, “Queremos!”. Tenho os nomes, lá, o presidente do Sindicato também é uma delas. Nunca veio! Nunca vi pessoalmente a presença do Sindicato dos Trabalhadores. Eu gostaria até de conhecer porque o trabalhador é importantíssimo. Mas eles nunca estiveram aqui! Então queria -se tirar ele do Conselho( pesquisa de campo,2004) . A pesquisa de Demantova já havia detectado que a maioria dos integrantes considerava inadequada a composição do conselho. Esta deveria ser reformulada para que o conselho pudesse eleger seus objetivos de maneira mais democrática e atender as demandas dos vários segmentos que representam o meio rural de Campinas. Basicamente deveria haver maior participação dos produtores rurais e a inclusão de novas entidades importantes para que o Conselho se tornasse mais representativo. Assim, no início de 2001, quando das novas indicações após o vencimento do primeiro mandato dos Conselheiros, as entidades tiveram que ratificar ou retificar seus respectivos membros. Mais uma vez o Conselho havia passado um longo período - cinco meses - sem se reunir. Na reunião de dezenove de maio de 2001 foi proposta a alteração do regimento interno para facilitar a existência de quorum para o início das reuniões. A sugestão seria de que a presença de 1/3 dos membros na segunda chamada fosse suficiente para que a reunião pudesse ser realizada. Um dado surpreendente quando se observa a atuação do CMDR-Campinas é que os próprios conselheiros têm a nítida compreensão já mencionada de que um conselho marcado fundamentalmente pela presença de políticos, de cooperativas e com tímida participação de agricultores das associações locais corre fortemente o risco de não ser mais que uma fraca correia de transmissão pela qual passam recursos federais (Abramovay, 2001:130). Daí a constante preocupação com a recomposição do Conselho para que seus representantes tenham uma participação real. O próprio primeiro vicepresidente , representante do Sindicato Rural ressaltava já na primeira reunião do CMDRCampinas quando de sua indicação para vice-presidente, a necessidade da participação efetiva de todos os membros para que o Conselho realmente funcione e apresente resultados. Posteriormente, o secretário do Conselho, representante da CATI Regional Campinas, afirmava em outra reunião que seria importante maior representatividade dos produtores rurais e suas associações. O próprio presidente afirma que o CMDR-Campinas é muito “institucionalizado”. O Conselho Rural é muito mais institucional do que propriamente uma representação dos produtores. Ele representa o GDR, ele representa o CEASA, o Sindicato Rural, a Sociedade de Bairro, os feirantes, o ITAL, a CATI. Bom. Mas o Pedra Branca está no Conselho Rural? (pesquisa de campo, 2004). Observa-se assim que o principal fator que tem dificultado a atuação do Conselho é o peso muito grande das entidades do poder municipal e uma incorporação pequena da sociedade civil. O que fica claro, portanto, quando se analisa o CMDR-Campinas, é que, os Conselhos são exigências legais. São novos instrumentos de expressão com potencial de transformação política. A existência do Conselho, em si, enquanto exigência da lei, não garante nada. A sua presença como nova forma de elaboração de políticas públicas necessita que sejam operacionalizados com a efetiva participação cidadã ( Gohn, 2000: 36). E os representantes institucionais no CMDR-Campinas têm consciência disto e tentando superar o caráter muito formal que o CMDR-Campinas vem tendo. O secretário executivo do Conselho coloca isto com clareza quando relata que o objetivo principal da mudança na composição do Conselho foi diminuir esta presença forte das instituições e aumentar a presença dos produtores. Uma coisa essencial, nessa mudança, é que foram colocadas associações de agricultores para participar. As associações, quando o Conselho foi criado, elas eram meio... vamos ver, apagadas. Elas foram também se mostrando ótimas e as associações de produtores rurais é importante porque representa o produtor rural. É o cliente essencial Conselho. É o produtor então. Isso é uma melhora muito considerável (pesquisa de campo, 2004). As associações são importantes porque da perspectiva do Conselho, é fundamental conseguir a participação do agricultor de forma organizada, e não individual, isolada, como ressalta ainda o secretário do CMDR-Campinas: Então é ótimo! Acho que o essencial é participar, o agricultor, mas não chegar num sítio e “Olha, agricultor! O senhor não quer participar?”, “Ah, quero!”. Aí ele está isolado! Agora, se é uma associação, essa associação já tem dez, vinte, trinta... cinqüenta agricultores associados. Então a associação tem um peso muito maior, representa muito mais agricultores. Isso é essencial até pra ter participação (pesquisa de campo,2004). Na composição original o CMDR-Campinas possuía 16 membros e na proposta de reformulação este número sobe para 23. Este número é compatível com os da pesquisa realizada entre 50 CMDRs de Goiás segundo a qual a grande maioria era composta de até 20 conselheiros, mesmo tendo conselhos que chegam a ter 44 conselheiros (Marinozzi e Moraes, 2003:4). Vale a pena ressaltar que originalmente o Conselho possuía além de representantes do poder executivo e legislativo municipais e de vários segmentos do setor agrícolaCoordenadoria de Assistência Técnica Integral , Central de Abastecimento de Campinas, Instituto Agronômico, Sindicato Rural de Campinas, Sindicato de Trabalhadores Rurais de Campinas, etc., alguns representantes de entidades não diretamente voltadas para a agricultura. Exemplos são a SEBRAE/Campinas e da Associação Paulista de Supermercados , do Conselho das Sociedades de Amigos de Bairros de Campinas, e da Câmara Municipal. Os dados da pesquisa de Goiás anteriormente mencionada, por outro lado, mostraram que os representantes de setores de atividades não ligados à agricultura são muito poucos. É interessante notar que somente 1% do total de conselheiros é de empresários não-agrícolas (Marinozzi e Moraes,2003:8). A avaliação é que este fato dificultava um planejamento mais integrado do município, que favorecesse a criação de empregos não-agrícolas. A composição do CMDR-Campinas está sendo alterada, portanto, na tentativa de aumentar a sua representatividade. Assim, inclui-se o Grupo de Desenvolvimento Rural Sustentável (GDRS) que já vinha participando como representante do Poder Executivo Municipal, cinco representantes de associações de produtores rurais, sediadas em Campinas, um representante do Escritório de Defesa Agropecuária de Campinas, um representante da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) sediada em Campinas, um representante do Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL) e um representante do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR). A representação da Secretaria de Estado da Educação é substituída pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), já que não existem praticamente escolas rurais no município. A representação do Sindicato do Comércio Varejista, Feirantes e Vendedores Ambulantes de Campinas também foi retirada. Observa-se, assim, que há uma tentativa de eliminar representantes não diretamente voltados para a agricultura e incluir representantes do setor agrícola propriamente dito. As associações de produtores rurais passam a ter cinco representantes e os empregados rurais, que não vinham participando, deverão ter sua indicação feita pelo GDRS e pela CATI caso esta dificuldade permaneça e/ou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais não os indique . O representante da Casa da Agricultura, que não estava representada , deve ser o Secretário Executivo do Conselho. De qualquer maneira, a presença destes órgãos “oficiais” relacionados à agricultura é que garantem a relativa força do CMDR-Campias quando se compara a outros conselhos na região. Como afirma o Secretário do Conselho: Agora, eu acho que o Conselho de Campinas é um Conselho que atua bastante, que tem disposição. Em muitas cidades, isso não acontece. Em cidade pequena, principalmente, o Conselho geralmente não funciona. Tem reuniões de vez em quando, as pessoas não participam... Agora, em Campinas, a cidade é maior e a participação é melhor. A cidade maior... ela permite, no caso de Campinas, a participação de mais gente, além de agricultor e gente que, políticos ou não, técnicos que seja, que possam articular alguma coisa porque, aqui, existem instituições. Aqui tem a CATI, o Instituto Agronômico; no caso da Prefeitura, tem o GDR, tem o CEASA, tem a UNICAMP, tem várias instituições que existem aqui e isso facilita. No caso de município pequeno, eu sei, por exemplo que não existe sindicato, não tem associação, não tem nada. Então eles pegam uma pessoa qualquer para representar os agricultores, outras para representarem os pecuaristas. Aí tem uma lojinha, lá, de agrotóxicos e coloca uma pessoa. A prefeitura é nossa! Então fica uma coisa meio assim... fria! e isso, às vezes... A participação é pequena. No caso de Campinas, a participação, eu acho boa. Já teve muitas reuniões sem quorum. Isso já aconteceu. Mas, tranqüilamente, na maior parte das reuniões, sempre teve quorum. Isso é muito bom (pesquisa de campo, 2004). O que se pode observar de qualquer maneira é que embora a representação destas entidades garantam o funcionamento do CMDR-Campinas lhe dá um caráter muito formal, como reconhecem os próprios presidentes e secretário do Conselho. Mais que isto, parcela significativa dos Conselheiros acredita que os próprios objetivos do Conselho são definidos por sua diretoria ou por esta em conjunto com o Grupo de Desenvolvimento Rural Sustentável, confirmando uma visão institucionalizada do Conselho. Mais que isto, indicando que mesmo um órgão criado com o objetivo de estimular a participação ainda é visto por parcela de seus integrantes como tendo seus objetivos definidos a partir de sua cúpula, e não pelo conjunto de seus integrantes. 3 O interessante é perceber que este tipo de visão está presente não apenas do discurso dos representantes “oficiais”, como daqueles da sociedade civil. 3 Três depoimentos a respeito do processo de definição dos objetivos coletados durante a pesquisa de Demantova são bastante significativos neste sentido : O presidente , vice e Secretário do CMDR, além da diretoria do CMDR (conselheiro CONSABs) Acredito que o presidente e seus acessores (conselheiro FEAGRI) A atual coordenação oficial (Conselheiro IAC) No que diz respeito a garantir a atuação formal do Conselho, pode-se comparar este grande peso das entidades públicas no CMDR-Campinas ao estímulo dado ao PRONAF em outros municípios. Estímulo, aliás, que secretário do CMDR-Campinas também considera positivo. Eu entendo que isso foi criado como um estímulo pra que o Conselho seja mais unido e mais atuante. Qualquer governo entende que montar um Conselho com pessoas que vão voluntariamente, isso nem sempre funciona! Então, às vezes, precisa de algum estímulo. Isso é um estímulo! “Então, pessoal, pra poder funcionar a coisa, o Conselho tem que participar!”. Ótimo! Então eles se dedicam mais por causa disso. Então, nesse caso, acho que seria um incentivo bom. Melhor que... não ter... No caso de um governo, não existe tanto incentivo que se possa dar para um Conselho. Nesse caso...(pesquisa de campo,2004). O caráter voluntário da participação no Conselho tem sido apontado como um obstáculo à participação: É... a participação no Conselho é uma participação voluntária, tá? A instituição elege uma pessoa para participar do Conselho e a pessoa não ganha nada para participar do Conselho. Ela participa. É importante para o município, mas ela é que não ganha nada. Isso, de uma certa forma, pode até desestimular algumas pessoas. Ela tem que se dispor a ir numa reunião, a pensar, a ter idéias. E o que se ganha? Nada! A sociedade ganha. Nem sempre a gente consegue ver isso. Então existem os altos e baixos que, às vezes, o trabalho da pessoa é visto como mais importante. Não! Tô aqui no meu serviço, eu não posso ir na reunião porque tenho coisas para fazer aqui. Não é obrigação de ir. Então isso é um ponto importante(pesquisa de campo,2004). Para os representantes do setor público este caráter voluntário de qualquer forma pesa menos, pois ele está sendo remunerado no seu emprego. Para o trabalhador rural ou para o agricultor a participação significa perder o seu dia de serviço. Significa muitas vezes ter prejuízo econômico. Em Campinas o problema da representação dos segmentos agrícola e não-agrícola dentro do Conselho de Desenvolvimento Rural se dá de forma diversa da realidade encontrada em grande parte dos Conselhos. Se normalmente há uma certa deficiência na representação dos setores não ligados à agricultura, aqui é o setor agrícola que precisa ser estimulado a participar. Apesar de ter uma série de instituições e organismos relacionados à agricultura, exatamente por ser uma cidade grande, as organizações de agricultores propriamente ditas são poucas. Um outro ponto importante a ser destacado na composição do CMDR-Campinas, não há representação dos segmentos dos agricultores pluriativos no Conselho, apesar de sua importância na região 4 . Ou seja, embora o novo rural seja composto de atividades agrícolas e não-agrícolas estas últimas não estão representadas no Conselho. 4 Demantova já havia feito esta observação em sua dissertação de mestrado. A nova composição do Conselho não deixa porém de refletir a preocupação com o revigoramento da agricultura de Campinas e de organizações de produtores levada a cabo principalmente pelo GDRS. Além disto, o próprio funcionamento do Conselho permitiu a elaboração do Plano Municipal de Desenvolvimento Rural que teve como proposta de ação imediata articular a municipalização da assistência técnica e extensão rural no município. Em Campinas, as associações de produtores rurais eram praticamente inexistentes. É interessante mencionar de qualquer maneira que a pesquisa de Goiás mostrou que não existe de qualquer maneira uma relação direta e entre a presença organizações de produtores fortes e uma rápida implementação do CMDR(Marinozzi e Moraes,2003:7). A mencionada dificuldade de uma participação da sociedade civil no CMDRCampinas não significa que eventualmente não se tenha uma participação mais expressiva de agricultores em suas reuniões. Na de 25 de setembro de 2002, por exemplo, logo na abertura da reunião o presidente destaca a presença de muitos agricultores dos bairros Pedra Branca e Reforma Agrária. Estava na pauta a ampliação do aeroporto de Viracopos e a possibilidade de transferência das cerca de 4 000 famílias a serem removidas para áreas rurais. Uma possibilidade era sua alocação no bairro Pedra Branca, que embora considerada área urbana, vem gerando emprego, renda e sustentabilidade do meio ambiente com a atividade agrícola. Assim, o Grupo de Desenvolvimento Rural Sustentável já havia dado um parecer negativo quanto à instalação destas famílias no local, e este parecer estava sendo encaminhado para o CMDR. Na ocasião o representante do sindicato rural repudiou veementemente o assentamento das famílias não só nas imediações do bairro Pedra Branca, mas também do Reforma Agrária e Descampado. A decisão foi no sentido do CDRS também encaminhar um parecer negativo à prefeitura, acompanhando a decisão do GDR e do Sindicato Rural. De qualquer forma tratou-se de uma participação eventual. Um último ponto a ser destacado é que a lei orgânica do município aprovada em 1990 em seu artigo 184, parágrafo único prevê que o Conselho Municipal de Agricultura deverá desenvolver os seus trabalhos de forma harmônica e coordenada com o Conselho Municipal de Meio Ambiente. Assim, tem sido freqüente a presença de membros do Condema nas reuniões do CMDR-Campinas. Na reunião de 5 de março de 2002 comparece o próprio presidente do COMDEMA que além de discutir assuntos comuns aos dois Conselhos, enfatiza seu caráter deliberativo. Na reunião de 10 de abril do mesmo ano está presente um representante da UNICAMP no COMDEMA para contribuir na discussão que se fazia a respeito da necessidade de se reformular a composição do CMDR-Campinas. A colocação deste representante foi no sentido de que devem ser avaliadas a competência, a composição e a estrutura organizacional para concluir se o Conselho cumpre com suas atribuições 5 . . II- O Grupo de Desenvolvimento Rural Sustentável e Segurança Alimentar(GDRS): uma postura diferente 5 É interessante lembrar que a partir do início de 2001 o COMDEMA passa a incluir o Sindicato Rural para representar os agricultores. Diferentemente do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural, o GDRS é um grupo de trabalho vinculado diretamente ao Gabinete do Executivo. Tem sede na Central de Abastecimento (CEASA-Campinas), sendo composto por três membros deste órgão, além dos titulares da Secretaria Municipal de Planejamento Urbano e Meio Ambiente (SEPLAMA) e Secretaria Municipal de Finanças, dois integrantes do gabinete, um da Casa da Agricultura e um do Escritório de Planejamento da Cidade. Foi criado pelo Decreto n° 13.603 de 25 de abril de 2001, com a finalidade básica de revalorizar a zona rural e promover sua integração com as necessidades do município como um todo. A intenção era que um órgão municipal voltado ao desenvolvimento agropecuário facilitasse a implementação de políticas públicas de integração urbano/rural, além de servir como centro de interlocução e pleitos de eventuais benefícios de programas agrários e agrícolas das demais esferas da administração estadual e federal que muitas vezes não chegam até o local 6 . A proposta era criar um órgão com a capacidade de realizar um programa municipal de valorização da zona rural de Campinas. Proposta esta embasada em algumas hipóteses. A principal era a de que a manutenção da área rural ainda existente era fundamental para a preservação do meio ambiente da cidade, colocando assim a necessidade de se apoiar aqueles que permaneciam produzindo. A existência de uma área reformada - bairros Reforma Agrária, Pedra Branca e Descampado - mostrava a possibilidade da manutenção das atividades agrícolas. Nesta direção, a fruticultura, com alta tecnologia poderia ser uma oportunidade de geração de trabalho e renda. Para se viabilizar o programa era fundamental interromper o forte movimento especulativo nas áreas rurais que vinha sendo responsável pela criação de bolsões urbanos. Para a manutenção/ revalorização da agricultura era fundamental criar condições estruturais como realizar a manutenção das estradas e pontes sem as quais a comercialização da produção tornava-se inviável. Era necessário ainda conhecer este espaço estruturando um banco de dados em convênio com o INCRA. Mais detalhadamente, o GDRS tem como objetivos: 6 1. Planejar a política de Desenvolvimento Rural Sustentável para o município, gerando emprego e renda, melhorando as condições alimentares, principalmente para a população de baixa renda. Em outras palavras, promover condições de geração de renda e trabalho na zona rural. 2. Sugerir a elaboração de normas de competência municipal, de uso e ocupação do solo, visando a revitalização das atividades agropecuárias e a preservação dos recursos naturais e do meio ambiente. 3. Viabilizar programas de apoio à agropecuária local, em convênio ou parceria com as demais esferas dos órgãos federais, estaduais e municipais, com Esta referência foi retiradas do documento Compra de área para instalação de equipamento público multifuncional no bairro rural Pedra Branca, mimeografado. organizações não-governamentais, inclusive internacionais e com a iniciativa privada. 4. Animar os setores sociais envolvidos com a agropecuária criando canais para discussão dos problemas locais e buscar soluções conjuntas para as prioridades apontadas por meio da participação dos munícipes. Ou seja, organizar os agricultores. 5. Propor políticas de abastecimento e segurança alimentar. Apresentar projetos para a melhoria das condições de acesso da população de baixa renda aos alimentos, às condições sanitárias, observando o direito à informação e à educação alimentar. 6. Promover capacitação e informação de novas tecnologias para a produção agrícola de alto valor agregado. Difundir conhecimento e informações sobre tecnologia de ponta que tenham por finalidade manter a zona rural produtiva, competitiva e capacitada a responder às novas demandas. 7. Incentivar a agricultura orgânica e o controle no uso de agrotóxicos na produção de alimentos. Pode-se dizer que a principal atuação do GDRS tem sido implementar uma política de apoio aos agricultores ainda produtivos devido a sua importância inclusive na preservação do meio ambiente em uma cidade grande como Campinas. Em outras palavras, no sentido de garantir o seu direito de continuar produzindo. Com relação às atividades, o GDRS tem organizado e promovido cursos de capacitação e encontros de organização dos produtores. Neste sentido, já promoveu dois encontros de Produtores Rurais. Tem realizado esforços também no sentido de facilitar e ampliar a exportação, principalmente de frutas. Assim, promoveu e viabilizou encontro, em novembro de 2003, quando os produtores de frutas de Campinas firmaram acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, do Ministério da Saúde, para agilizar o Programa de Produção Integrada de Frutas (PIF) 7 . O objetivo é garantir atestado de qualidade, obtendo inclusive o registro provisório de defensivos químicos utilizados, adequando-se assim às novas regras de exportação de frutas da Europa, que começam a vigorar já a partir de 2004. O GDR tem também intermediado negociações com o Aeroporto de Viracopos para viabilizar exportação de perecíveis por Campinas, já que atualmente os produtores têm que enviar seus produtos por São Paulo. Exportando direto por Campinas, haveria redução de custos, aumento de produção e o conseqüente aumento na geração de empregos e saldo positivo na balança de pagamentos. Por iniciativa do GDR foram realizadas negociações com a Infraero, e empresas aéreas e uma delas, a Brasmex se comprometeu a colocar dois 7 O PIF consiste no acompanhamento de todas as fases de produção, desde o plantio até a comercialização e embalagem. O objetivo é auxiliar o produtor de frutas para que consiga melhor performance do produto (Boletim Ceasa-Campinas em Ação, Ano I, nº4, outubro/dezembro de 2003). vôos regulares para a produção rural local, com destino à Europa (Boletim Ceasa-Campinas em ação, ano I, nº 2, p.9). Ainda com relação ao estimulo à fruticultura, o GDR teve uma atuação decisiva visando incluir Campinas no Circuito das Frutas. Em dezembro de 2003, após aprovação pela Câmara, a prefeita sanciona e promulga a lei municipal nº 11.826 que autoriza o município de Campinas a participar do Consórcio Intermunicipal do pólo turístico do Circuito das Frutas. No processo de convencimento, além da movimentação política, inclusive junto ao governador do estado 8 , foi fundamental o trabalho do GDRS divulgando os dados da expressiva produção de frutas no município, superando até a de vários outros que já integravam o Circuito. Com relação à fruticultura, Campinas ocupa o quarto lugar se comparada com os oito municípios que compõem o Circuito das Frutas. Apesar do esforço do GDRS, do decreto lei do executivo autorizando o município de Campinas a participar do Consórcio Intermunicipal do pólo Turístico do Circuito das Frutas e do apoio do Governador do Estado, o município de Campinas não foi incluído no Consórcio. Também foi inédita a iniciativa de organizar a Semana do Produtor Rural, criada por projeto de lei, cujo objetivo é evidenciar, conhecer e valorizar a agropecuária. Em 2004 a Semana foi marcada por dois eventos. A primeira Feira de Produtos Rurais de Campinas e o II Encontro de Produtores Rurais de Campinas. No que diz respeito à Feira, o resultado superou as expectativas e mais de 30 mil pessoas passaram pela feira, que aconteceu entre 15 e 17 de janeiro de 2004. Com relação ao II Encontro de Produtores Rurais, o evento reuniu mais de 100 pessoas. O mesmo tempo que foi realizado um balanço das atividades já realizadas pela administração municipal na área rural, foram definidas prioridades de ações futuras. Com relação a este último ponto, optou-se pela continuidade e ampliação do programa de melhorias das estradas, ampliação da infraestrutura no campo nas áreas de telefonia e transporte público e ampliação da Guarda Municipal Rural e Ambiental (Boletim CeasaCampinas em ação, ano II, nº5, p.11). A melhoria das estradas na área rural tem sido uma das atuações mais destacadas do GDRS e um das principais reivindicações dos agricultores: Antes chovia e virava um lamaçal. Agora, com uma estrada boa, fica mais fácil para tudo, desde vender a produção até para a segurança numa situação de emergência (Ceasa –Campinas em ação, ano 1 n° 2, março/junho de 2003:8). Em termos dos direitos sociais, o que é importante colocar é que cada vez mais, os verdadeiros produtores rurais de Campinas, valorizados em seu papel econômico e social na cidade, trazem os pleitos dos bairros rurais – evidenciando uma participação renovada deste segmento que não tinha, sequer, espaço de discussão junto à administração pública municipal. (Ceasa –Campinas em ação, ano 1 n° 2, março/junho de 2003:8). Cumpre salientar que a atuação do GDRS tem significado uma retomada da capacidade do município implementar instrumentos e diretrizes de planejamento e ordenamento do desenvolvimento, principalmente no meio rural. 8 Em 18 de setembro de 2003, por exemplo, os agricultores aproveitaram a vinda do governador a Campinas, para reiterar a solicitação. Isto torna-se importante quando se recorda que no cenário de aplicação de políticas neoliberais, inclusive com relação aos municípios, as administrações de Campinas tiveram diminuída sua capacidade de utilizar instrumentos e implementar diretrizes de planejamento e ordenamento do desenvolvimento urbano e rural. A ocupação inadequada do solo não deixa de ser conseqüência deste processo. Não podemos deixar de lembrar ainda que até finais da década dos oitenta, a regulação dos espaços rurais era identificada exclusivamente com seus usos agropecuários e constituía um domínio exclusivo da União, e secundariamente dos estados, não tendo, o poder público municipal, papéis ou funções a desempenhar no que se referisse às zonas rurais produtivas ou não dos municípios 9 Uma das conseqüências foi a ausência de regulação de atividades agropecuárias, que se tornaram particularmente vulneráveis em situações onde concorrem desigualmente com usos urbanos da terra na maior parte das vezes mais compensadores. Áreas exclusivamente de destinação produtora de alimentos passaram a abrigar atividades não-agrícolas ou a serem complementadas por estas. Sem desprezar a crescente importância das atividades não-agrícolas, cumpre reconhecer que os agricultores que optaram por continuar nas atividades agrícolas devem ter seus direitos assegurados, o que significa o estabelecimento de intervenções que favoreçam a sua manutenção. Manutenção que evita o aumento da já enorme área ociosa na área rural, com todos os impactos negativos tanto do ponto de vista ambiental como social. O GDRS tem tido uma atuação importante no que diz respeito a encaminhar reivindicações destes agricultores. Exemplo concreto neste sentido foi a proposta de compra de área, definida já no Orçamento Participativo, destinada à instalação de um centro comunitário multifuncional na região do bairro rural Pedra Branca. Não é demais lembrar que nas áreas situadas nos bairros rurais de Pedra Branca, Reforma Agrária, Três Vendas, Saltinho e Descampado são produzidos 16% do figo e 4% da goiaba e da uva do Estado de São Paulo. Este centro viria a suprir a carência de espaço público para convívio. O Centro permitiria ao grupo ter local adequado para discutir seus problemas, preservar suas tradições culturais, religiosas, seus costumes em geral, organizar atividades esportivas, educacionais, culturais, e de aperfeiçoamento técnico na agricultura. O Centro seria ainda um espaço adequado para a promoção dos produtos agropecuários cultivados na região. Pode-se perceber que no que diz respeito a questão dos direitos sociais, o GDRS teve uma atuação significativa com relação à organização dos pequenos produtores que ainda desejam manter suas propriedades produtivas. Isto significou a inclusão na elaboração de políticas públicas de uma parcela da população que estava alijada de qualquer proposta neste sentido. III- Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural e Grupo de Desenvolvimento Rural Sustentável. Campinas, como se pode observar, acabou por implementar não apenas o Conselho de Desenvolvimento Rural constituído, mas também um grupo especifico, o GDRS, para a 9 Estas informações constam do documento elaborado pelo GDRS intitulado Compra de área para instalação de equipamento público multifuncional no bairro rural Pedra Branca . elaboração de propostas voltadas para o seu meio rural. Assim, uma questão relevante é verificar em que medida a atuação de ambos se diferencia. Num primeiro olhar fica clara a proximidade entre ambos: Muitas vezes se cruzam. O GDR não é uma Secretaria de Agricultura, mas é como se fosse. É um grupo que, no caso de Campinas, age como Secretaria de Agricultura do Município. Ótimo! Isso é excelente! Nunca teve isso antes. É um grande negócio. Isso, a partir do momento em que existiu o GDR, o contato até do estado com o município, em termos de agricultura, melhorou cem por cento. Isso é bom. E muitas coisas que, às vezes, dependem da Prefeitura. o Conselho define que, aqui no estado, a rural precisa ser arrumada. Quem é que arruma? A Prefeitura. Então tem que ter essa conexão muito boa para que a Prefeitura, “Então, olha, o Conselho realmente já decidiu. Tem estrada X que é mais importante”. Ótimo! Então a Prefeitura concentra a atenção dela na estrada X que o Conselho definiu. O Conselho vai na área rural. Então existe uma ligação muito boa...(pesquisa de campo,2004)) Em outras palavras, o GDR facilita a execução daquilo que é proposto pelo CMDR e fazendo os encaminhamentos com maior agilidade, atuando praticamente como uma Secretaria de Agricultura Municipal de Agricultura,que não existe em Campinas. Existe uma relação de complementaridade, entre os dois organismos tranqüilamente. Dá um certo conforto saber que eles também estão dentro dessa história. (pesquisa de campo,2004 ) Esta complementaridade fica clara quando se observa que grande parte dos objetivos são simultaneamente priorizados pelo CMDR e pelo GDRS. De qualquer maneira, a diferença fundamental entre o CMDR –Campinas e o GDRS reside no caráter apenas Consultivo do primeiro, enquanto o GDRS tem como objetivo pensar e ao mesmo tempo desenvolver projetos específicos para a área rural de Campinas. Em outras palavras, pela sua própria constituição e vínculo direto com o Executivo, o GDRS tem maiores condições de implementar ações pretendidas. Neste sentido é preciso ressaltar que o próprio GDRS coloca em seu folder de apresentação, o fortalecimento da organização dos produtores rurais e do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural entre as ações que vem desenvolvendo. Ou seja, um dos objetivos do GRDS é fortalecer o Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural. De qualquer maneira não se pode deixar de ressaltar a tensão que existe entre o Conselho e o GDRS desde a sua origem. Não é demais afirmar que o GDRS teve, pelo menos num primeiro momento, o objetivo de se contrapor à atuação do Conselho. O motivo principal era o já mencionado “pecado capital” do Conselho de ter nascido bastante institucionalizado. Aqui, a própria ligação com o GDRS –Campinas, pode estar contribuindo para lhe dar um caráter mais participativo ao Conselho, a medida que tem estimulado o fortalecimento das organizações dos produtores rurais. Eu acho que o Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural, ele tem toda uma lógica de concepção que corre muito pela secretaria da Fazenda . Eu não sei até que ponto as organizações rurais tiveram a devida função nesta concepção(pesquisa de campo,2004). Um outro ponto de atrito, talvez o mais importante, é que o CMDR tinha, na visão do GDRS, um caráter de classe muito acentuado. Ou seja, o sindicato patronal rural tinha uma presença decisiva no Conselho e este praticamente atuava no sentido de garantir o direito de propriedade destes. O fato do Partido dos Trabalhadores ter assumido a administração municipal gerou um certo receio de que fosse haver alterações na propriedade da terra. Havia ainda uma preocupação do Sindicato Rural garantir o direito daqueles proprietários que desejavam vender os seus imóveis, o que gerou o seguinte comentário da Coordenadora do GDRS : E eu falei, mas escuta, daí perde o sentido de um conselho municipal de desenvolvimento rural. Então, vocês vão ter que mudar de nome ou vão ter que ir para o CMDU ou o próprio sindicato que é muito presente na formação do CMDR vai ter que mudar o objetivo dele, ele vai ter ser o sindicato dos proprietários rurais e não dos produtores rurais, “né”. (pesquisa de campo,2004) Em outras palavras, ao ser criado o GDRS passou a ter uma proposta inovadora para o espaço rural de Campinas: valorizá-lo, integrá-lo ao desenvolvimento do município. Proposta muito mais ampla do que aquela do Conselho de Desenvolvimento Rural. Este último muito mais votado para garantir a propriedade da terra, sem se preocupar inclusive com uma dos grandes desafios do GDRS que era o de impedir os bolsões urbanos cada vez mais freqüentes com a transformação descontrolada de áreas rurais em urbanas. A preocupação de pedir apoio para a agricultura, revalorizá-la, era uma questão menor para o Conselho, enquanto era a grande meta do GDRS. o discurso diferente dele (Toninho) era pela reforma agrária e isso criou um certo medo dos proprietários rurais, principalmente por parte do Sindicato Rural, que mudou a lei tentando reforçar a necessidade de passar pelo conselho toda mudança que tivesse no município, que afetasse de certa forma a Zona Rural da cidade ou as propriedades e tudo. Então nós começamos a entender que na verdade, como aqui em Campinas, essa questão da agricultura estava muito em baixa "né", o que eles estavam querendo garantir com esse conselho, na verdade era qualquer ação do governo municipal que fosse prejudicar a propriedade de cada um "né", então me parecendo que até o contrário, que o conselho estaria ali para não deixar com que a gente tivesse ação que eventualmente fosse por perigo a propriedade da terra , por isso a necessidade de passar, era o contrário, e, aliás, é isso que uma vez nós conseguimos detectar que tinha o problema da lei dos bolsões que existe, que na verdade o que eles queriam garantir é que os bolsões fossem aprovados; não era, não me pareceu um conselho para defender a produção agrícola, mas sim um conselho para defender a propriedade da terra, para mim isso me pareceu muito claro, para defender essa mudança, que a propriedade pudesse ser garantida em toda sua plenitude, inclusive no ponto de vista de ser transformada O GDR, sendo um órgão da Secretária de Planejamento Urbano, junto para poder saber, para poder fazer qualquer plano de expansão da cidade, qualquer plano diretor que olhasse área urbana, mas olhasse área rural, não como área de expansão urbana, mas sim uma área onde poderia haver sim um potencial grande de produção agrícola, mas de atividade de acordo com a pesquisa, atividades urbanas na zona rural, reguladas e combater ferozmente o bolsão urbano na zona rural Para nós era um ponto de honra isso. Eu falava muito claramente(pesquisa de campo,2004) Esta postura mais ampla do GDRS em defesa da agricultura inclusive como tendo um papel importante na preservação do meio ambiente, fica clara também no depoimento do primeiro presidente do Conselho e integrante do GDRS: Quando nós começamos aqui, eu estava trabalhando em São Paulo e vim prá cá, nós encaramos assim que o rural de Campinas tinha uma certa importância. Qual a importância do rural? Você pega uma área de aproximadamente 80 mil hectares ........ Uma gestão municipal ela tem que pensar o município como um todo. Se você está dentro de uma lógica de valorizar os dois por cento das pessoas que estão ocupando 50% da área você tem que desenvolver algumas ações ao nível do governo municipal. A tendência .....é realmente abandonar . (pesquisa de campo,2004) Não é demasiado afirmar que o GDRS tem uma preocupação em estabelecer regras. Regras no sentido de criar formas de garantir proteção social ...que evite, de alguma maneira que a lógica de mercado e de lucro passe da economia para a sociedade ( Santos, 2003:18 grifos VLGSR). Eu falo que, normalmente, a gente tem duas agriculturas no Brasil: Uma agricultura, né, que a gente tá falando aí de cana, laranja, café, que exporta, né, em torno da carne, do gado e você tem também a agricultura familiar, os pequenos que, hoje, é muito notícia, mas ainda tá se iniciando um processo de ação e de estruturação, onde a gente pode ter uma política e, no Brasil, acho que cabe essas duas coisas, porque essa pequena agricultura, ela gera muito emprego, ela é a das que mais gera trabalho e tem o potencial também de exportação. Mas ela tem que ser organizada porque ela não é um só! ou um bloco que consegue andar com as próprias pernas! Elas são pequenos que tem que se juntar pra fazer uma coisa. Vamos dizer que os pequenos produtores de goiaba se juntassem pra fazer uma goiabada... tá vendendo isso... Tem que haver uma associação! Tem que haver um trabalho em conjunto, tem que fazer direcionamento e ações nesse sentido. Ah, eu vou falar de mandioca pra fazer farinha, pra fazer polvilho, as mesmas forças que eu tenho que juntar . Então essa falta de política, às vezes, deixa com que a gente não tenha o norte, qual é o rumo que a gente vai seguir. A partir da entrada dessa administração atual que resgatou e começou a valorizar a atividade rural, né, porque o pessoal se assusta hoje quando a gente tem 51% de município rural (pesquisa de campo,2004,grifos VLGSR)). Esta talvez seja a principal diferença entre o CMDR-Campinas e o GDRS : o segundo possui, enquanto órgão diretamente envolvido com a elaboração de políticas públicas, uma postura de estabelecer para esta um formato que tenha como suposto um Estado que ponha limites políticos democráticos à lógica do capital (Paulo Neto in Lesbaupin et alli, 2003: 87). Eu acredito que nem o Conselho Municipal de Desenvolvimento tinha isso muito claro porque sempre quando se falou de política, se discutiu uma grande política dessas grandes culturas [ ], não tinha um grande projeto, não tinha o conhecimento e a valorização. Desse pessoal que antes inclusive podia se mudar de Campinas, por exemplo, [Betel], Paulínia, né, por falta de apoio da Administração Municipal, é arrumar estradas, a segurança, discutia essa política, o fortalecimento dessa estrutura, a gente tinha áreas [ ] em Indaiatuba [ ], áreas com as famílias, Reforma Agrária, tinha, áreas em Jaguariúna e assim [ ] áreas que não são valorizadas na política e o que se tá fazendo nessa cidade, né? Dentro do planejamento, não se fala, não tinha... A própria Secretaria do Município: “Não, o rural não é comigo!”, [ ], não é com ninguém! Eu tô no município, mas eu não existo. (pesquisa de campo,2004, grifos VLGSR). Assim, diferentemente do que acontece com relação aos Conselhos em regiões onde a agricultura já possuía uma importância a atuação do CMDR-Campinas e mais especificamente do GDRS, foi no sentido de mostrar a importância da agricultura e de sua preservação. É isto que explica a sua ênfase no combate aos bolsões urbanos e as suas ações especialmente voltadas para a proteção dos pequenos agricultores que ainda preferem manter suas propriedades produzindo ao invés de vendê-las para projetos imobiliários. Um outro ponto de conflito entre o Sindicato e o GDRS era a atuação ainda muito clientelista deste junto a alguns deputados. A importância do Conselho enquanto órgão destinado a aumentar a gestão participativa não era valorizada, pois os agricultores, ainda através do Sindicato, adotavam práticas corporativistas, através das relações diretas com alguns políticos: Mas eles não vinham a nós pedir, eles já queriam ir direto, por que eles estavam acostumados, por exemplo, quem era o interlocutor do sindicato sempre “né”, que eles achavam que era ideal para fazer isso? Era o Graziano, o Chico Graziano. Eles votavam no Chico Graziano, tudo era em função do Chico. Mas eles iam direto, eles não iam pedir para gente, entendeu?(pesquisa de campo,2004) Isto nos faz lembrar que a sociedade brasileira é uma “sociedade de história lenta” como bem ressalta Martins , onde a força do passado dificulta as mudanças sociais. Tomando como base a tradição oligárquica no Brasil, o autor destaca, com razão, que “todo o sistema estava, por isto, baseado em mecanismos de intermediação política de fundamento patrimonial ( Martins, apud Wanderley, 1996: 98). Assim, a despeito da novidade, os avanços que ocorrem nesse âmbito- com o surgimento de grupos com interesses muito diversificados e com várias formas de atuação – são na maioria marcados por um corporativismo o mais cru. Estes grupos caracterizam-se pela ausência absoluta de legitimidade, implicando a impossibilidade de seu mútuo reconhecimento como atores coletivos com existência social validada, ou seja, com capacidade de exercer sua autonomia como atores sociais. Em outras palavras, trata-se de uma sociedade onde o tradicional convive com o novo, onde “a dominação oligárquica da troca como favor, que eliminou da vida publica as maiorias (índios, negros, mulheres, analfabetos ) durante séculos, impedindo a conquista da cidadania , permanece rejuvenescida “(Wanderley.1996:98). Em grande medida é este cenário que explica a existência do CMDR e do GDRS nas suas aproximações e divergências. Bibliografia ABRAMOVAY, Ricardo O Capital Social dos Territórios: Repensando o Desenvolvimento Rural Seminário sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Sustentável Fortaleza-CE, 2000. ______Conselhos Além dos Limites Dossiê Desenvolvimento Rural, Estudos Avançados, USP, volume 15, nº43, set/dez 2001. AUGUSTO, Maria Helena O “Políticas Públicas, e Políticas de Saúde: algumas questões para debate”, in Tempo Social, Revista de Sociologia da USP , vol.1,nº2, 1989:105-120. ARRETCHE, Marta T. S. 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