TENDÊNCIA ANTI-SOCIAL E ILUSÃO NA ADOLESCÊNCIA Eliana A. S. Pintor68 José Tolentino Rosa69 A tendência anti-social advém de uma experiência de privação. O conceito de privação está ligado ao fracasso ambiental ocorrido na etapa da dependência relativa (seis meses aos dois anos). Esta privação pode ser de dois tipos: 1- deprivação, ou seja, perda do “bom objeto”, perda do estado no qual se teve algo bom que foi perdido; e 2- privação, que caracteriza o estado no qual nunca se teve algo e que resulta em doença mental ou no domínio de uma psicose. Sendo que, a experiência de privação está associada à impossibilidade de alcançar a posição depressiva e um sentido de responsabilidade social dentro do indivíduo. (OUTEIRAL, 1997). Winnicott revela que na tendência anti-social há um sinal de esperança. Segundo o autor, a criança que rouba não deseja o objeto roubado, mas está em busca da mãe, sobre a qual tem direito. (WINNICOTT, 1956). A adolescência é palco de transgressões, um tempo propicio para os atos anti-sociais. Inclui a possibilidade de re-significar o corpo, a família e a sociedade em busca de uma identidade própria. Knobel (1991) destaca que na descrita “Síndrome do Adolescente Normal” são encontrados claros traços psicóticos em 90% dos 1.000 (um mil) adolescentes estudados, com a finalidade de detectar estas características. Para o autor os chamados “traços psicóticos” são condutas transitórias (grifo do autor) de irracionalidade, difusão temporal, episódios fugazes, porém marcados pela despersonalização, depressão ou mania, violência indiscriminada ou expressões de pensamento claramente ambíguo ou de características psicopáticas sem discriminação consciente. Diante destas considerações pensamos que ao atender adolescentes nos dispomos a mergulhar num mundo de intensidade emocional que beira a loucura ou chega até ela em alguns momentos. Os ajustes borderline permeiam este estádio do desenvolvimento, e portanto, o setting pode sofrer alterações de modo a atender as necessidades do paciente e recuperar falhas ambientais. Desta forma, o setting funciona como metáfora dos cuidados maternos. Para pacientes regredidos o setting analítico assume um significado especial e analogamente as experiências insatisfatórias poderão assumir o significado de experiências corretivas, criando condições para que venha ocorrer uma mudança psíquica.(PINTOR, 2003). Para ilustrar os conceitos citados apresentaremos de forma sintética um caso atendido no serviço público no período de 14.09.2001 a 25.06.2002, perfazendo um total de 40 sessões. Psicóloga e Mestre em Psicologia da Saúde, UMESP, Psicóloga clínica da Secretaria de Saúde, Diadema. E-mail: [email protected] 69 Professor Titular do Curso de Pós-graduação em Psicologia da Saúde, Faculdade de Psicologia e Fonoaudiologia, UMESP. Orientador 68 109 O doente imaginário: um pescador de ilusão “Os doentes mentais são como beija-flores. Nunca pousam. Estão sempre a dois metros do chão.” Bispo do Rosário O Doente Imaginário, um adolescente de 16 anos, chegou à equipe de saúde mental de uma Unidade Básica de Saúde da área metropolitana de São Paulo através de uma usuária do serviço que o percebeu muito só, inerte e agendou uma entrevista com a assistente social. Tratava-se de um garoto solitário, que havia perdido o ano escolar por faltas e fazia uso de maconha. Foi encaminhado pela assistente social para um serviço especializado na dependência de substâncias psicoativas. Porém, compareceu apenas na primeira entrevista com a psicóloga e não deu continuidade ao tratamento. A assistente social o encaminhou em seguida para um grupo de teatro para adolescentes sob a coordenação de uma psicóloga da rede municipal, ao qual ele não aderiu. Diante disto a assistente social procurou-me para ver a possibilidade de prestar-lhe atendimento na própria Unidade Básica de Saúde. Na primeira entrevista o adolescente traz como queixa principal o fato de ter a sensação constante de que saia do próprio corpo. Relacionava o sintoma com o uso da maconha, a qual teria usado intensamente no inicio daquele ano. No momento da entrevista declara que fazia uso da maconha duas ou três vezes por semana. Atribuía o seu sintoma a um efeito colateral do abuso da droga. Devido à sua sintomatologia recebeu o codinome de Doente Imaginário. D.I. trajava-se de um modo despojado, fazia combinações atípicas no vestuário, tinha cabelos compridos, usava vários brincos numa orelha. Era risonho, simpático e cordial. Era filho de pais separados, sendo que esta separação ocorreu quando ele tinha 6 anos. O pai era alcoolista e encontrava-se desempregado. A mãe trabalhava numa creche como educadora. Tinha uma irmã casada, com 25 anos e um irmão de 26 anos com o qual não se dava bem. Referiu-se a família com desilusão, enfatizando o aspecto da desunião. A mãe foi apresentada como uma figura frágil, uma vítima, mas também foi responsabilizada pelo medo que D.I. tinha do pai quando pequeno. Contou que a mãe acendia velas para não apanhar do pai e o temia muito. Descreveu-se na infância como um “bobinho” diz: “eu era um coitado”. Relatou que gostava de rock e possuía uma banda onde tocava baixo e guitarra. Teve apenas uma namorada por dois meses. Nessa época diminuiu o uso da maconha e usava álcool, também passou a se auto agredir se furando com alfinetes. Sua intenção ao furar-se era ficar fora de si para não sentir a dor. Testava sua resistência para ver se agüentava e ele sempre agüentava. Era impossível dormir enquanto não se furava. Gostava de freqüentar o cemitério e uma vez quis jogar-se do alto de uma lápide. D.I. não aceitou a idéia de nossa equipe de saúde mental ter algum contato com alguém de sua família, sentia-se ameaçado e dizia que a mãe jamais poderia saber do seu envolvimento com drogas. Percebi um apelo veemente e decidi correr o risco de atendê-lo mesmo assim. Em outubro do 110 mesmo ano o encaminhei para o psiquiatra devido ao seu estado depressivo, comentou numa sessão que não pensava no futuro, pensava apenas na morte. Contra-transferencialmente este paciente causava-me um estado de preocupação constante, suas sessões eram ricas em conteúdo, porém, em algumas delas ele mostrava-se muito confuso, com dificuldade de explicar seus sentimentos. Nestas sessões meu trabalho era decodificar as suas mensagens, tentar dar um contorno ou estabelecer um nexo. Na primeira fase da psicoterapia, D.I. mostrava-se atemporal. Comparecia em dia diferente do que havia sido agendado, chegava perguntando se estava no horário certo e às vezes de fato estava enganado, tendo que aguardar um pouco. No início do atendimento D.I. mudou-se para outro bairro, ofereci-lhe duas sessões semanais mas, ele disse não ser possível devido às dificuldades financeiras. O seu comparecimento às sessões ficou limitado a uma vez por semana e às vezes nem isso por falta de dinheiro para o transporte. Chegou a lamentar-se por uma falta dizendo que pensou em ir a pé, mas a distância era muito grande. Após as primeiras entrevistas foi realizado um T.A.T. (Teste de Apercepção Temática) cujos conteúdos predominantes foram: a confusão de identidade, a falta de perspectivas nas histórias sem final, os pais frágeis e o seu sofrimento. Os títulos das histórias aludem as faltas: “era preciso”, “o roubo”, “desde pequeno”. Houve predominância de mecanismos da posição esquizo-paranóide, mas também mecanismos da posição depressiva se apresentaram. As sessões de D.I. refletiam um jovem sem perspectivas, sem ilusão alguma. Eu acreditava em risco de suicídio. Na sua quinta sessão inicia falando que fez aniversário (completou 17 anos) e que não gosta de presente, a mãe e a irmã o presentearam e uma tia foi cumprimenta-lo. Comenta que quando recebe um presente, pensa naqueles que não ganham como um primo seu que estava lá no dia. Logo adiante fala sobre a sensação de estar fora do corpo, como se estivesse no efeito da droga, ele se lembra das coisas que fez depois, como se fosse um filme, como por exemplo: “eu vim aqui, falei e depois vejo isto como um filme.” Fala que não pensa no futuro como as outras pessoas: pensar em casar e etc. Para ele a sensação é de estar no fim, pensa em morrer. Pensa em morrer devagar, fica pensando em formas de se matar, não quer que seja de repente, pensa em morrer aos poucos, fala da experiência de se furar, de sentir dor e ir até onde agüentava e depois lhe dava um alívio, um sono. Neste momento digo-lhe: “Só pode sentir dor quem está vivo, parece que há aí uma busca da vida. Acontece muitas vezes que quando a pessoa quase morre descobre que é bom viver.” Ele diz que não gostaria de morrer por doença ou algo que lhe tirasse a vida. Comenta em seguida sobre a loucura na sua família (tios paternos), inclusive um tio mora com ele. Ele se identifica com o tio e acha que o problema pode ser hereditário. Acredita que se estivesse usando droga até hoje, já teria feito alguma besteira contra si mesmo. Conta que fez tudo para sair do bairro e ir para a casa do pai, para distanciar-se das drogas. Diz que a família desconhece o seu envolvimento com drogas e se a mãe viesse a saber ele se matava. 111 Um poema e uma música na sessão Na sessão seguinte levo para ele um poema de Pablo Neruda que encontrei na internet casualmente durante a semana, é o seguinte: Morrer Lentamente Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições. Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras, quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece. Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o “preto no branco” ou os “pingos nos is” a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam o brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços... sentimentos. Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos. Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo. Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe. Evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar. D.I. geralmente demonstrava dificuldade em iniciar a sessão, em dizer a primeira frase. Nesta sessão eu inicio após breve silêncio dizendo-lhe do poema que encontrei e que se relacionava com o tema da sessão anterior. Ele sorri e a impressão que me causa é de surpresa e alegria pela terapeuta ter se ocupado dele fora da sessão. O meu objetivo com o poema era relativizar a sua colocação mostrando que de alguma forma ela já vinha fazendo isto. O texto também pressupõe um superego mais condescendente e ainda a necessidade de uma busca para uma vida feliz, que pareciam aplicar-se ao momento do paciente. Na sua oitava sessão ele conta que ganhou um ingresso para um show musical de uma banda chamada Rappa. Porém, alcoolizou-se antes do show e foi parar no hospital. Perdeu o show. Relata que não vê prazer nas coisas e inclui a perda do show neste estado de ânimo, Se fosse em outra época jamais teria perdido este evento. O grupo musical referido tem uma música chamada “Pescador de Ilusões”. Cito esta canção para D.I. Ele parece surpreso por eu conhece-la e diz imediatamente: “É a música que eu mais gosto do C.D.” Relaciono o título com a sua busca. Ele sorri e faz alusão a uma música do grupo Legião Urbana que ele acredita chamar “Quase sempre” e que gosta de ouvir. Busco este título e encontro a música “Quase sem querer” - há um ato falho. Levo para a sessão seguinte para conferir e perceber como ele se identifica. Este é o conteúdo: 112 Quase sem querer Tenho andado distraído, Impaciente e indeciso, E ainda estou confuso, Só que agora é diferente: Estou tão tranqüilo E tão contente. Quantas chances desperdicei. Quando o que eu mais queria Era provar pra todo mundo Que eu não precisava Provar nada pra ninguém. Me fiz em mil pedaços Pra você juntar E queria sempre achar Explicação pro que eu sentia. Como um anjo caído Fiz questão de esquecer Que mentir pra si mesmo É sempre a pior mentira. Mas não sou mais Tão criança a ponto de saber Tudo. Já não me preocupo Se eu não sei porquê Às vezes o que eu vejo Quase ninguém vê E eu sei que você sabe Quase sem querer Que eu vejo o mesmo que você. Tão correto e tão bonito: O infinito é realmente Um dos deuses mais lindos. Sei que às vezes uso Palavras repetidas Mas quais são as palavras Que nunca são ditas? Me disseram que você estava chorando E foi então que percebi Como lhe quero tanto. Já não me preocupo Se eu não sei porquê Às vezes o que eu vejo Quase ninguém vê E eu sei que você sabe Quase sem querer Que eu quero o mesmo que você. 113 Quando digo que estou com a letra ele me pergunta porque eu trouxe e disse-lhe que me interessava saber com que partes da música ele se identificava. Proponho a leitura e que ele vá me dizendo o que lhe faz pensar. Na primeira estrofe ele diz se lembrar do tempo em que se furava e que agora está mais contente. Também pensa nas chances desperdiçadas. Comenta que se achava um rebelde e agora procura a paz. Fala que não sabe se a mãe e a irmã acreditam na sua mudança. Ele acha que elas não entendem seus hábitos vegetarianos e aí ele se identifica com a frase: “Quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo, que eu não precisava provar nada pra ninguém.” Diz que a única parte que não bate é: “me fiz em mil pedaços pra você juntar”. Diz: “Não tenho ninguém pra me juntar.” Relata que não tem a figura do amor romântico. Continuando na letra da música, acrescenta: “sempre quis achar explicação para o que eu sentia.” Não se identifica com a frase: “Já não me preocupo se eu não sei porquê” diz que sempre quer saber o porque. Na seqüência fala do medo de namorar, quer e não quer, pensa como vai encontrar alguém que o entenda. Acrescenta também que evitava olhar as pessoas nos olhos, por medo que a pessoa soubesse o que ele sentia ao olha-lo. Após os seus comentários, digo-lhe que o que ele descreveu da música deu-me a impressão de um movimento de busca, devido às mudanças citada, também por perceber o que lhe falta e que possivelmente o espaço de psicoterapia seria a tentativa de juntar os seus mil pedaços junto com a terapeuta e se perceber por inteiro. A terapeuta não tem como fazer isto sozinha, isto é um trabalho da dupla. Nesta sessão dou-lhe o encaminhamento para a consulta psiquiátrica. Na sessão seguinte ele traz o relatório do médico dizendo parecer tratar-se de um quadro depressivo com distúrbios de senso-percepção e acresce uma interrogação (F 32.3 ? – CID 10), indicando talvez uma hipótese a ser confirmada. Foi medicado com cloridrato de fluoxetine 10 mg. Nas sessões seguintes o Doente Imaginário comenta que ele e o pai estão construindo um quarto para ele (vai ficar afastado do tio doente mental), pensa que quando acabar esta tarefa ficará um vazio. Diz que não consegue alegrar-se, empolgar-se, diz que se sente vivo quando vem às sessões. Em sua décima oitava sessão, D.I. mostra-se irritado, decepcionado e inconformado com o alcoolismo do pai. Este tem bebido diariamente e se torna chato, agressivo, provocativo. Acha agora, que o pai nunca parou de beber e os enganou para que voltassem a morar juntos. Comenta que está determinado a entrar no exército, quer alistar-se. Acha que com isto sai de casa e ajuda a mãe a sair. Conta que está providenciando documentos e também tentará uma vaga no Mac Donald¢s. Fala que um trabalho poderia ajuda-lo muito. Nesta sessão fala muito sobre a mãe. Tem pena dela e diz que se a mãe morresse ele se largava, ficava na rua, ia andando. Tem essa vontade, não ter rumo, não pensar em nada; (nesta hora é como se desejasse a morte da mãe para não ter que ser. Percebo aí um paradoxo). Fala que a mãe nunca teve férias e quando isto ocorre pela primeira vez, o pai só apronta. Quer tirar a mãe da casa do pai. Passa a falar sobre Deus, sente-se revoltado porque tudo isto acontece. Diz que não pode louvar a Deus porque não pode fazer o que Deus quer dele – parece referir-se ao fato de não saber perdoar, além da raiva porque Deus não interfere em sua vida. A minha 114 colocação aborda o amor que ele sente pela mãe e o sentimento de impotência que ele carrega desde menino. Agora se sente um menino porque não pode fazer nada. Está com raiva do pai dele e do pai do céu, ele gostaria de poder interferir nos destinos da família. Ele parece sair mais aliviado. Numa outra sessão mostra-se inconformado com o alcoolismo do pai o qual chama a atenção dos vizinhos com suas bebedeira, ele diz “Todo dia é um show.” Aparecem outras angústias em D.I. e ele começa a falar da falta de identidade, acha que copia coisas dos outros, de cada pessoa que encontra. Traz também a afirmação de que sua crença é que mesmo que tudo der certo, ele sempre no fundo vai querer a autodestruição, como se ele sentisse isso dentro dele. Fala do medo do descontrole e teme voltar a tocar numa banda. Conta que quando se drogava tocava sozinho e esmurrava a parede, no dia seguinte tinha a mão inchada e ninguém sabia o porque. Em seguida relata que viu um astro morrer e achou bonito. Era integrante do grupo de rock Nirvana. Ele suicidou-se e deixou uma carta para o seu amigo imaginário. Diz: “Depois que tinha conseguido tudo, o sucesso, matou-se”. Aponto que ele traduz um medo e um fascínio pela loucura. Sinalizo a identificação com o pai quando ele bebe. Mostro a loucura do ídolo fazendo uma carta para um amigo imaginário e ele assente com a cabeça. Sugiro que o seu lado que gosta da loucura contribui para o fato de ele não estar usando a medicação prescrita. Neste momento ele fala de efeitos colaterais do remédio que são indesejáveis e que ele precisa estar atento porque quando o pai bebe pode agredir a mãe e ele precisa estar bem alerta. Recomendo-lhe discutir isto com o psiquiatra. O Doente Imaginário vai modificando-se lentamente e passa a falar do medo de fazer amigos, medo de ir para o exército (mas o desejo também) e que está pensando num projeto de conscientização da humanidade, já tem um nome para o movimento: “O que você faz pela paz?” Com este movimento pensa em arrecadar alimentos e desenvolver atividades para os mais desfavorecidos. Aparece um sinal de ilusão que já entremeiam a sua desilusão pois, expressa o desejo de não ter família, não ter filhos e ser mendigo. Gostaria de formar uma sociedade alternativa, integrar movimentos contra a polícia. Gostaria de conhecer o M.S.T. (Movimento dos Sem Terra). Traz tudo isto numa sessão em meio a outros assuntos variados e contraditórios. Fecho a sessão espelhando alguns aspectos ambíguos: uma pessoa que não quer amigos mas ama os desconhecidos, quer fazer um movimento em prol dos que sofrem. O medo e o desejo de amar. A raiva que aparece contra a polícia ou contra as injustiças e como ele parece buscar um modo construtivo de lidar com raiva. O M.S.T. parece ser um exemplo disto, um movimento bem organizado que sabe o que quer e luta para conseguir os seus objetivos. Um sonho na sessão e a experiência de habitar o corpo O Doente Imaginário chega na vigésima terceira sessão trazendo um sonho e uma rápida vivência de integração, os quais consideramos o primeiro fato clínico psicanalítico. 115 A sessão começa da seguinte forma: D.I.: Então Terapeuta: E então? D.I. Meu pai não bebeu esta semana... quer dizer ontem bebeu, acho que bebeu, senti um cheiro. Terapeuta: Parece que houve uma mudança. D.I.: Esta semana teve um dia que senti uma coisa diferente, não sei explicar, hum... não sei se é do remédio, mas acho que não é. Terapeuta: O que foi? D.I.: Não sei, acho que parecia que eu estava acordado, porque sempre me sinto fora, às vezes me sinto muito mal, tenho vontade de pedir ajuda para alguém, mas não vou saber explicar o que quero. Não sou o mesmo, não mais aquele menino, quer ser como os outros. Terapeuta: Não ser mais aquele menino, parece que quer dizer que você cresceu, está buscando um novo jeito de ser. Cita então, uma passagem de um livro com a qual identificou-se. O nome do livro é “Mulher no palco” explica: D.I.: É um livro de auto ajuda, não sei o nome da autora. Tem uma parte do livre que me vi. É uma cena da infância dela onde a mãe estava sentada costurando à máquina e a menina estava deitava no colo do pai e ele a acariciou e neste momento ela diz que existia algo oculto que ele não sabia o que era, mas depois compreendeu ser a morte. Comigo é parecido só que este algo oculto é esta sensação, não sei (parece confuso, fala coisas tentando explicar). Terapeuta: Você fala de uma outra dimensão? D.I.: É uma sombra, me sinto uma sombra. Fico me lembrando de quando estava no efeito (droga), estava numa rua movimentada e não via os carros, estava muito maluco. Todos riam e eu ria, todos paravam e só eu continuava. Aí, depois eu ia pro espelho para ver como eu era e quando eu estava diante do espelho, já não sabia porque tinha escolhido estar ali. Terapeuta: No espelho você estava sob o efeito da droga? D.I.: Não. Eu estava nos lugares mas não estava. Este dia que senti que estava acordado pude perceber como eu não tinha estado em lugar nenhum, não estive nos lugares que passei. Aqui teve um dia que quis ir embora. Terapeuta: Que dia? D.I.: O dia da música, não conseguia te olhar, isso acontece com outras pessoas, minha mãe me levou na igreja, não conseguia olhar para a mulher da igreja, é, sou assim... Esta noite, tive um sonho. Acho que eu tinha roubado uma moto do meu irmão, peguei escondido e sai com ela e então, estou numa subida e a moto começa voltar. Eu me esforço e a moto parece que sou eu mesmo, parecia que não tinha motor e de repente, me vejo pedalando, já era uma bicicleta. Comento sobre o seu descrédito desde o início da sessão, primeiro com o pai, depois com ele – uma sombra – pergunto-lhe: O que uma sombra pode fazer, não é? E em seguida falo do sonho, da perda de forças, os veículos vão enfraquecendo. Aí ele se lembra que na verdade no início do sonho era um carro e depois que vem a moto. Abordo a força que deseja emprestar do irmão, como ele já disse que copia as coisas dos outros, como se ele julgasse 116 que os outros tem forças que ele não tem. Faço uma analogia com a história do Rei Midas, um rei que tocava as coisas e elas viravam ouro, no sonho de D.I. acontecia o inverso. Ele sorri e logo adiante volta a falar do seu mal estar físico, estar fora do corpo. Volta a falar em pedir ajuda e pergunto-lhe o que ele gostaria de me pedir. Ele fica pensativo e faz uma pausa. Digolhe:Gostaria de pedir para eu estar com você... ou ajuda-lo a sentir-se presente? Ele mostra-se confuso, diz que não sabe passa a falar coisas desconexas, tento ajuda-lo e ele acha um nexo dizendo que consegue ser ele mesmo com os sobrinhos e com a mãe. Eu pergunto:E aqui? Ele diz:Aqui também não (não consegue ser ele mesmo). Digo-lhe que apesar disso naquele espaço ele mostra como se sente e o que pensa. Ele diz em seguida: D.I.: Agora pouco senti aquilo? O Doente Imaginário referia-se a sensação de integração que havia experimentado em casa e agora se repetia no setting, sentia-se presente. Pergunto em que momento foi e ele diz: D.I.: Acho que foi quando você perguntou o que eu queria pedir. Faz uma pausa após isso e passa a falar de amigos, dificuldade de separação e então retomo aquela sessão onde trouxe a letra da música, dizendo-lhe que talvez ele tenha ficado com medo de ser o meu filho predileto. Mais adiante me dá a notícia de que tinha voltado a estudar e tinha um amigo que ia estudar com ele. Um momento de regressão: voltar para prosseguir Na vigésima quinta sessão dirijo-me à sala de espera e encontro D.I. prendendo os cabelos. Convido-o a entrar. Ele inicia a sessão falando que o psiquiatra aumentou a dosagem do remédio mas, que hoje ele não tomou. Relata o mal estar que sente quando vai ao CAPSI (Centro de Atenção Psicossocial- onde ficam os psiquiatras da rede municipal), gostaria que alguém o acompanhasse, vê-se naquelas pessoas totalmente fora de si. Continua no tema de estar fora de si e parece que sua angústia aumenta. Diz que as pessoas não acreditam no que ele sente. Pergunto-lhe se sou eu e o psiquiatra que não acreditamos. Ele responde que sim, são todos. Porque ele contou antes (de falar para a psicóloga e para o psiquiatra) para pessoas que não eram as pessoas certas e talvez por isso acha que ninguém acredita. D.I. começou a sessão sorrindo mas, vai ficando sério como nunca havia ocorrido. Num dado momento diz que quer chorar “não gostaria que isso acontecesse aqui.” Vai se angustiando e diz que gostaria de ficar encolhido. Digo-lhe que pode ficar como quiser, os colchonetes são para isso. Mas ele recusa-se, diz que fica com medo. Pergunto-lhe o que teme, ele responde: “não é machismo.” Comento que o que pode acontecer é eu ter que lhe dar papel para enxugar o rosto. Ele diz que quando ele sair as pessoas vão notar. Digo-lhe que ele pode lavar o rosto (há uma pia na sala). Ele diz que sempre se controla. Falo que me dá a impressão que ele acha que eu não agüentaria ou que ficaria zangada com ele e me recusaria a atende-lo. Após algum tempo chora. Dou-lhe o papel e aí ele parece nutrir-se desta tristeza e pede-me para que eu fale que ele quer ouvir. Passo a falar da imagem que fiz deste momento. Penso num colo que o protegesse no CAPSI 117 (ele sorri), a barriga da mãe para poder encolher-se e ficar abrigado. Acrescento que ele pôde ser ele mesmo, que agora a sua feição corresponde ao seu sentimento, porque antes estava falando de tristeza sorrindo.(Já havia ocorrido de ele solicitar que eu falasse em outra sessão, como se lhe produzisse calma. Também comentou certa vez que gostava quando eu fazia analogias com estágios infantis). Faz silêncio por pouco tempo e volta a parecer angustiado, dizendo que começa a se lembrar de tudo o que fez (a sensação é de que fez tudo de errado). Digo-lhe que a palavra “fez” é passado. Agora está em outro momento. D.I. fala que se estivesse em casa se furaria porque a dor desvia o seu pensamento. Fala algo sobre descontrole e lhe mostro o quanto ele sempre se controla diante das pessoas para não mostrar o seu lado triste e doloroso. Ele acrescenta: “Agora parece que estou no efeito.” D.I. demonstra um desconforto e sua feição parece insinuar um desejo de esconder-se de mim, de ir embora. Digo-lhe que faltam poucos minutos para encerrar sua hora, mas que seria bom dar mais um tempo para que possa se sentir melhor. Ele imediatamente preocupa-se com o rosto: “Estou normal?” Respondo: “Não parece que você chorou.” Ele parece não acreditar passa a mão no rosto, está desconcertado. Pergunto se ele quer um espelho para olhar-se. Ele diz: “Quando estou assim não gosto de me olhar no espelho”. Ele se levanta, torno a falar se não quer esperar e ele diz que é melhor ir embora senão vai chorar de novo. Ele ajeita sua roupa e eu me levanto. Ele fala que está com vergonha. Digo-lhe que é uma vergonha de mostrar a tristeza e será que isto precisa ser motivo de vergonha? Ele responde: “É porque eu sei que estou assim e agora você também sabe.” Acrescento que só nós dois sabemos. Ele parece aflito para sair e me apresso em concluir que a tristeza é um lado dele não ele todo, não há porque só cultuar a tristeza ou também ficar no outro extremo de ter que ser feliz o tempo todo. Recomendo-lhe que tome o remédio. Ele despede-se dizendo que vai à casa de um amigo porque não queria chegar em casa assim. Logo em seguida saio da UBS para almoçar e avisto D.I. caminhando apressado e de cabelos soltos (penso que prendeu os cabelos antes de entrar á sessão pois, não podia ser ele mesmo comigo), passando pelas pessoas como se não visse nada à sua frente. Na sessão seguinte D.I. não comparece. Ligo para a sua irmã (telefone de recado) oferecendo-lhe um outro horário na mesma semana. Ele não comparece novamente. Como eu não estaria na unidade em sua próxima sessão – horário habitual – faço nova ligação explicando a minha ausência e forneço um horário de reposição. O Doente Imaginário comparece e chega atrasado , porém, este atraso parece refletir uma resistência pois, ele diz que a irmã “pegou no pé”. Já pode mostrar-se contrariado comigo e disse ter pensado em não vir mais. Pensou em desistir porque no fundo já sabe o que quer para si mesmo: “viver por aí”. Acrescenta o desejo de andar rasgado, dormir na rua, ser um rebelde. Fala com certa irritação que está fazendo amigos na escola e diz: “eu não queria, tipo não quero me envolver com ninguém”. Trabalho o tema do envolvimento e medo da dependência e surge novamente a mãe como alguém que não pode saber das drogas. Ressalto sua atitude amorosa ao proteger a mãe de saber mas, que o amor também inclui o perdão. Ele repete que só 118 não fica na rua pela mãe. Resgato o seu desejo de ser um rebelde e que ele poderia pensar numa rebeldia construtiva. Introduzo a idéia de que ele na rua seria um a mais debaixo da ponte, mas se sua revolta contra o que está errado pudesse resultar na construção daquele movimento... Ele completa: “o movimento: O que você faz pela paz?” Eu já comecei fazer umas filipetas para distribuir...” Continuo perguntando: O que você pode fazer pela sua paz? E ele: “Como você consegue dizer tantas coisas bonitas com estas coisas que te falo? (o tom alude o que faço com as coisas ruins, estragadas que ele me dá). Acrescento que falo com os elementos que ele me dá. Falo sobre sua divisão: um lado que quer abandonar-se e um lado que quer crescer. Complemento a idéia dizendo que parece que não tem sido fácil crescer, virar um moço, talvez por isso precise se furar e murchar, assim encolhe e fica pequeno de novo Nesta sessão fala também que não tem tomado o remédio por falta de dinheiro para compra-lo. O pai está tentando arrumar-lhe um emprego num Lava Rápido. Conta que ao sair da última sessão de fato não foi para a casa do amigo, encontrou uns amigos no supermercado Extra e foi beber, um amigo até vomitou. Digo-lhe: “Acho que eu tinha motivo pra me preocupar, não tinha?” Ele sorri. D.I. vai embora e quando olho para o tapete vejo que ele deixou duas pequenas chaves no chão. Depois venho a saber que eram chaves de um cadeado que põe na porta do seu quarto. O Doente Imaginário demonstrou ódio quando falou que não queria envolver-se com ninguém.Na verdade já estava envolvido, o ódio estava ligado ao envolvimento com o processo psicoterapeutico. O fato de que por um lado ele foi à sessão pressionado pela irmã e por outro ele quis estar lá. E logo que chega diz que o seu objetivo mesmo é “viver por aí”. Porém, é preciso envolver-se para des-envolver-se, estava aí a possibilidade do crescimento mental. Green (1980) explica que há dois traços notáveis na transferência deste tipo de paciente (com o complexo da mãe morta). O primeiro é a não-domesticação dos instintos: o sujeito não pode renunciar a um desejo incestuoso, nem, em conseqüência, admitir o luto pela mãe. O segundo traço, mais notável, é que a análise induz o vazio. Isto quer dizer que, quando o analista consegue tocar um importante elemento do complexo nuclear da mãe morta, por um curto momento, o sujeito se sente como que vazio, em branco, como se estivesse privado de um objeto substituto e uma guarda contra a loucura. (p.167) A sensação de inutilidade é apontada por Winnicott (1954) como manifestação de um falso self. O terceiro fato clínico referiu-se a relativização do sintoma de estar fora do corpo. Pareceu um progresso por colocar a queixa hipocondríaca em segundo plano. O fato parece ter aberto caminho para outros aprofundamentos, como se houvesse a ampliação da consciência.Talvez significasse também uma vivência de momentos de integração mais freqüentes. Na sessão que se seguiu ele falou de sua ação na escola, o movimento que estava organizando e revelou o uso da cocaína no passado. Parecia que tinham coisas inconfessáveis, que só poderia dizer aos poucos, ora eu era a sua mãe real fragilizada, que não podia ouvir, ora eu era a mãe que podia 119 agüentar tudo. Kalina (1991) escreve sobre a incapacidade de estar só e o uso abusivo de drogas psicoativas. A capacidade de ficar só é um estado mental resultante da introjeção e assimilação do seio bom, sem o que não será possível um ego forte. As drogas parecem preencher esta ausência do seio bom, não é aprazível estar só. A droga levaria a um estado mental onde não há angústia, nem conflitos, o que corresponderia, segundo Kalina, ao paradoxo “provocar a morte para viver em paz.” A busca por saber em D.I., a vontade de entender Deus – o criadorparece coincidir com o que Green (1980) explica como uma compulsão a pensar, em conseqüência da busca do significado perdido. Houve uma sessão marcada pela confusão. O papel da terapeuta foi decodificar o que ele queria expressar, interromper o delírio fornecendo um contorno, chamando-o a integração.Outro momento de insight ficou claro quando disse: “eu olho muito para mim”, começou mudar de posição, começou olhar para os outros, integrar. Deu indícios de poder caminhar para a posição depressiva. Nesta sessão falou dos amigos e nas sessões seguintes trouxe uma garota, um amigo especial. Acrescentou alguns fatos positivos de sua vida: novas oportunidades, o computador que possuía, a atenção especial que a irmã havia lhe dedicado por um tempo. Pareceu menos vitimizado. Os períodos de silêncio na sessão começaram a aparecer. Entendemos isto como um apaziguamento interno, já podia ficar só na presença do outro, ainda que por pouco tempo. Apesar de querer fugir da terapeuta,. caso a encontrasse na rua, na mesma sessão fez uma reparação, apresentou um senso de realidade maior e contestou sua própria idéia. O Doente Imaginário esqueceu as chaves no setting, demonstrou dificuldade com as férias e com o apego. Parece que o setting e a terapeuta assumiram a condição de um objeto transicional, que poderia acompanha-lo a qualquer lugar. Interrompeu o trabalho psicoterápico porque estava bom, isto é um paradoxo a ser sustentado. Estando o objeto transicional naquele lugar ele poderia voltar e pegá-lo de acordo com a sua necessidade. A última vez que compareceu, chegou nos últimos cinco minutos, era o que podia agüentar ou o quanto necessitava para aquele dia. A terapeuta foi a mãe que não quis sua morte, o que lhe conferiu propriedades de apego seguro e constante, portanto, ele podia ir embora. A psicoterapia o resgatou da miserabilidade. No momento da interrupção do trabalho ele estava procurando profissionalizar-se, estava interessado no emprego. As informações posteriores, atestaram uma busca no campo cultural e profissional. Pôde resgatar seu lado artístico, sua sublimação, que havia se tornado perigosa (tinha medo de voltar a tocar os instrumentos). Podia ser até uma defesa maníaca, não podemos falar do prognóstico, porém, é uma defesa mais saudável. Organizar um movimento em prol dos abandonados também é melhor do que ficar no lugar do abandonado, ainda que reflita uma identificação com este estado. Percebeu-se um receio em crescer,em des-envolver-se, tão próprio do adolescente, como se o ato de olhar-se no espelho pudesse refletir a sua incapacidade, ele identificado com o pai. Mas, concomitantemente, percebeu-se o desejo de avançar. Afinal, a esperança está contida na tendência anti-social. D.I. sentiu-se roubado como atesta a prancha 13 mas, há uma busca. 120 O ambiente facilitador, segundo Winnicott (1970a), o qual capacita o indivíduo para o crescimento pessoal e o processo maturacional tem que ser uma descrição dos cuidados que o pai e a mãe dispensam, e da função da família. Os pais do Doente Imaginário tiveram qualidades e defeitos, houve momentos de troca afetiva e prazer com eles e com os irmãos, mas de algum modo predominaram na percepção de D.I. os aspectos negativos das figuras parentais. As percepções são modificáveis e na continuidade este retrato poderá até ter outras ênfases. A sensação ao escrever sobre o caso a terapeuta sente que não consegue esgotá-lo, isto se combina com o que foi escrito anteriormente que é como se a sua história não coubesse em papel algum. Pensamos que esta sensação é a reminiscência da sua sensação de vazio, um buraco sem fundo, ou a contaminação pelo medo do seu descontrole, ele foge ao controle da terapeuta. Outeiral, comentou num seminário em São Paulo (07/06/2003) que este tipo de paciente (os mais regredidos) deveriam causar ciúme nos nossos parentes mais próximos. A experiência com D.I., de fato mostrou que eles passam a fazer parte de nossas vidas e roubam a cena (no caso desta terapeuta que tinha um universo de mais de 45 pacientes). Este aspecto ficou potencializado por ter sido um caso que não houve um fechamento, embora o devir de todo e qualquer paciente seja geralmente, uma página a qual não temos mais acesso. Por outro lado, mostra toda a riqueza da psicanálise, em ambiente universitário, definida como um método singular de investigação clínica intersubjetiva (Vaisberg, 2003; Vaisberg & Machado, 2000; Pinto, & Vaisberg, 2001). O Doente Imaginário presenteou a terapeuta com sua riqueza de conteúdos, apesar de todo o vazio que ele considerava ser, inundou-a com suas vivências tão profundas e suas angústias impensáveis e indizíveis. Pensamos que para este caso cabe a frase de Winnicott (1945): “Somos de fato pobres se formos apenas sãos.” Referências Bibliográficas ABRAM, J. 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Tinha 16 anos e foi atendido pela equipe de saúde mental da Unidade Básica de Saúde, localizada na área metropolitana de São 122 Paulo. O paciente apresentava três defesas contra a perseguição interna: a hipocondria, a desrealização e o medo de avaliação. Era um rapaz solitário, havia perdido o ano escolar por faltas e fazia uso de maconha. Tinha sido atendido por assistente social em um serviço especializado no tratamento de dependência de substâncias psicoativas, mas não manifestava adesão ao tratamento, o mesmo acontecendo com sua participação em um grupo de teatro para adolescentes. Ao procurar a psicoterapia, o adolescente trouxe como queixa principal o fato de ter a sensação constante de que saía do próprio corpo. Contra-transferencialmente suscitava na psicóloga que o atendia, um estado de preocupação constante. As sessões tinham rico conteúdo, porém, em muitas delas predominava a ansiedade confusional e dificuldade de conversar sobre os sentimentos. Na psicoterapia pode mostrar sua riqueza de sentimentos e a partir de suas vivências foi possível o aprendizado pela experiência, podendo agora pensar sobre coisas antes impensáveis e não simbolizadas. Ao compreender suas vivências profundas, pode transformá-las em aprendizagem significativa pela experiência. Descritores psicoterapia; adolescente; saúde coletiva; psicanálise; Winnicott PSYCHOANALYTIC PSYCHOTHERAPY OF A YOUNG BOY WITH ANTISOCIAL TENDENCY AND CORPORAL DELUSION Abstract The chapter objective was to present conceptions of deprivation, privation and defensive mechanisms toward feelings of inner persecution and to discuss some implications about the psychotherapy process of an adolescent who was treated by 40 sessions of psychoanalytic psychotherapy in a Brazilian UBS (Health Basic Unit), located in the metropolitan area of Sao Paulo. The patient presented three defenses against internal persecution: hypochondria, derealization and fear of being evaluated. He was a lonely boy, and addicted to marijuana, and he had failed in school exams. Firstly, he was attended by a social worker in a specialized service in the treatment of addiction to psychoactive substances, but unfortunately without adhesion even with his participation in a theatre group for adolescents. At the beginning of psychotherapy, adolescent told about his constant sensation of going away from his own body. Intense anxiety and a permanent state of preoccupation were transferred to the analyst by projective identification mechanisms. Psychotherapy sessions showed conception richness, but confusional anxiety and difficult to talk about sentiments were predominant. Beyond his vivencies he learned with experience, and today he could talk about things he could never be able before, he is able to transform his experience in meaningful learning. Index-terms psychoanalysis; psychotherapy; adolescent; collective health; Winnicott. 123