TENDÊNCIA ANTI-SOCIAL E ILUSÃO NA ADOLESCÊNCIA
Eliana A. S. Pintor68
José Tolentino Rosa69
A tendência anti-social advém de uma experiência de privação. O
conceito de privação está ligado ao fracasso ambiental ocorrido na etapa da
dependência relativa (seis meses aos dois anos). Esta privação pode ser de
dois tipos: 1- deprivação, ou seja, perda do “bom objeto”, perda do estado no
qual se teve algo bom que foi perdido; e 2- privação, que caracteriza o estado
no qual nunca se teve algo e que resulta em doença mental ou no domínio de
uma psicose. Sendo que, a experiência de privação está associada à
impossibilidade de alcançar a posição depressiva e um sentido de
responsabilidade social dentro do indivíduo. (OUTEIRAL, 1997).
Winnicott revela que na tendência anti-social há um sinal de
esperança. Segundo o autor, a criança que rouba não deseja o objeto
roubado, mas está em busca da mãe, sobre a qual tem direito. (WINNICOTT,
1956).
A adolescência é palco de transgressões, um tempo propicio para os
atos anti-sociais. Inclui a possibilidade de re-significar o corpo, a família e a
sociedade em busca de uma identidade própria.
Knobel (1991) destaca que na descrita “Síndrome do Adolescente
Normal” são encontrados claros traços psicóticos em 90% dos 1.000 (um mil)
adolescentes estudados, com a finalidade de detectar estas características.
Para o autor os chamados “traços psicóticos” são condutas transitórias (grifo
do autor) de irracionalidade, difusão temporal, episódios fugazes, porém
marcados pela despersonalização, depressão ou mania, violência
indiscriminada ou expressões de pensamento claramente ambíguo ou de
características psicopáticas sem discriminação consciente.
Diante destas considerações pensamos que ao atender adolescentes
nos dispomos a mergulhar num mundo de intensidade emocional que beira
a loucura ou chega até ela em alguns momentos. Os ajustes borderline
permeiam este estádio do desenvolvimento, e portanto, o setting pode sofrer
alterações de modo a atender as necessidades do paciente e recuperar falhas
ambientais. Desta forma, o setting funciona como metáfora dos cuidados
maternos. Para pacientes regredidos o setting analítico assume um
significado especial e analogamente as experiências insatisfatórias poderão
assumir o significado de experiências corretivas, criando condições para que
venha ocorrer uma mudança psíquica.(PINTOR, 2003).
Para ilustrar os conceitos citados apresentaremos de forma sintética
um caso atendido no serviço público no período de 14.09.2001 a
25.06.2002, perfazendo um total de 40 sessões.
Psicóloga e Mestre em Psicologia da Saúde, UMESP, Psicóloga clínica da Secretaria de Saúde, Diadema. E-mail:
[email protected]
69 Professor Titular do Curso de Pós-graduação em Psicologia da Saúde, Faculdade de Psicologia e Fonoaudiologia,
UMESP. Orientador
68
109
O doente imaginário: um pescador de ilusão
“Os doentes mentais são como beija-flores. Nunca pousam. Estão sempre a
dois metros do chão.”
Bispo do Rosário
O Doente Imaginário, um adolescente de 16 anos, chegou à equipe de
saúde mental de uma Unidade Básica de Saúde da área metropolitana de
São Paulo através de uma usuária do serviço que o percebeu muito só, inerte
e agendou uma entrevista com a assistente social. Tratava-se de um garoto
solitário, que havia perdido o ano escolar por faltas e fazia uso de maconha.
Foi encaminhado pela assistente social para um serviço especializado na
dependência de substâncias psicoativas. Porém, compareceu apenas na
primeira entrevista com a psicóloga e não deu continuidade ao tratamento. A
assistente social o encaminhou em seguida para um grupo de teatro para
adolescentes sob a coordenação de uma psicóloga da rede municipal, ao qual
ele não aderiu. Diante disto a assistente social procurou-me para ver a
possibilidade de prestar-lhe atendimento na própria Unidade Básica de
Saúde.
Na primeira entrevista o adolescente traz como queixa principal o fato
de ter a sensação constante de que saia do próprio corpo. Relacionava o
sintoma com o uso da maconha, a qual teria usado intensamente no inicio
daquele ano. No momento da entrevista declara que fazia uso da maconha
duas ou três vezes por semana. Atribuía o seu sintoma a um efeito colateral
do abuso da droga. Devido à sua sintomatologia recebeu o codinome de
Doente Imaginário.
D.I. trajava-se de um modo despojado, fazia combinações atípicas no
vestuário, tinha cabelos compridos, usava vários brincos numa orelha. Era
risonho, simpático e cordial. Era filho de pais separados, sendo que esta
separação ocorreu quando ele tinha 6 anos. O pai era alcoolista e
encontrava-se desempregado. A mãe trabalhava numa creche como
educadora. Tinha uma irmã casada, com 25 anos e um irmão de 26 anos
com o qual não se dava bem.
Referiu-se a família com desilusão,
enfatizando o aspecto da desunião. A mãe foi apresentada como uma figura
frágil, uma vítima, mas também foi responsabilizada pelo medo que D.I.
tinha do pai quando pequeno. Contou que a mãe acendia velas para não
apanhar do pai e o temia muito. Descreveu-se na infância como um
“bobinho” diz: “eu era um coitado”. Relatou que gostava de rock e possuía
uma banda onde tocava baixo e guitarra. Teve apenas uma namorada por
dois meses. Nessa época diminuiu o uso da maconha e usava álcool,
também passou a se auto agredir se furando com alfinetes. Sua intenção ao
furar-se era ficar fora de si para não sentir a dor. Testava sua resistência
para ver se agüentava e ele sempre agüentava. Era impossível dormir
enquanto não se furava. Gostava de freqüentar o cemitério e uma vez quis
jogar-se do alto de uma lápide.
D.I. não aceitou a idéia de nossa equipe de saúde mental ter algum
contato com alguém de sua família, sentia-se ameaçado e dizia que a mãe
jamais poderia saber do seu envolvimento com drogas. Percebi um apelo
veemente e decidi correr o risco de atendê-lo mesmo assim. Em outubro do
110
mesmo ano o encaminhei para o psiquiatra devido ao seu estado depressivo,
comentou numa sessão que não pensava no futuro, pensava apenas na
morte.
Contra-transferencialmente este paciente causava-me um estado de
preocupação constante, suas sessões eram ricas em conteúdo, porém, em
algumas delas ele mostrava-se muito confuso, com dificuldade de explicar
seus sentimentos. Nestas sessões meu trabalho era decodificar as suas
mensagens, tentar dar um contorno ou estabelecer um nexo. Na primeira
fase da psicoterapia, D.I. mostrava-se atemporal. Comparecia em dia
diferente do que havia sido agendado, chegava perguntando se estava no
horário certo e às vezes de fato estava enganado, tendo que aguardar um
pouco. No início do atendimento D.I. mudou-se para outro bairro, ofereci-lhe
duas sessões semanais mas, ele disse não ser possível devido às dificuldades
financeiras. O seu comparecimento às sessões ficou limitado a uma vez por
semana e às vezes nem isso por falta de dinheiro para o transporte. Chegou
a lamentar-se por uma falta dizendo que pensou em ir a pé, mas a distância
era muito grande.
Após as primeiras entrevistas foi realizado um T.A.T. (Teste de
Apercepção Temática) cujos conteúdos predominantes foram: a confusão de
identidade, a falta de perspectivas nas histórias sem final, os pais frágeis e o
seu sofrimento. Os títulos das histórias aludem as faltas: “era preciso”, “o
roubo”, “desde pequeno”. Houve predominância de mecanismos da posição
esquizo-paranóide, mas também mecanismos da posição depressiva se
apresentaram.
As sessões de D.I. refletiam um jovem sem perspectivas, sem ilusão
alguma. Eu acreditava em risco de suicídio. Na sua quinta sessão inicia
falando que fez aniversário (completou 17 anos) e que não gosta de presente,
a mãe e a irmã o presentearam e uma tia foi cumprimenta-lo. Comenta que
quando recebe um presente, pensa naqueles que não ganham como um
primo seu que estava lá no dia. Logo adiante fala sobre a sensação de estar
fora do corpo, como se estivesse no efeito da droga, ele se lembra das coisas
que fez depois, como se fosse um filme, como por exemplo: “eu vim aqui,
falei e depois vejo isto como um filme.” Fala que não pensa no futuro como
as outras pessoas: pensar em casar e etc. Para ele a sensação é de estar no
fim, pensa em morrer. Pensa em morrer devagar, fica pensando em formas
de se matar, não quer que seja de repente, pensa em morrer aos poucos, fala
da experiência de se furar, de sentir dor e ir até onde agüentava e depois lhe
dava um alívio, um sono. Neste momento digo-lhe: “Só pode sentir dor quem
está vivo, parece que há aí uma busca da vida. Acontece muitas vezes que
quando a pessoa quase morre descobre que é bom viver.” Ele diz que não
gostaria de morrer por doença ou algo que lhe tirasse a vida. Comenta em
seguida sobre a loucura na sua família (tios paternos), inclusive um tio mora
com ele. Ele se identifica com o tio e acha que o problema pode ser
hereditário. Acredita que se estivesse usando droga até hoje, já teria feito
alguma besteira contra si mesmo. Conta que fez tudo para sair do bairro e ir
para a casa do pai, para distanciar-se das drogas. Diz que a família
desconhece o seu envolvimento com drogas e se a mãe viesse a saber ele se
matava.
111
Um poema e uma música na sessão
Na sessão seguinte levo para ele um poema de Pablo Neruda que
encontrei na internet casualmente durante a semana, é o seguinte:
Morrer Lentamente
Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso,
evita as próprias contradições.
Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias
o mesmo trajeto e as mesmas compras, quem não troca de marca, não
arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o “preto no
branco” ou os “pingos nos is” a um turbilhão de emoções indomáveis,
justamente as que resgatam o brilho nos olhos, sorrisos e soluços,
coração aos tropeços... sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no
trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve
música, quem não acha graça de si mesmo.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da
chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não
perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo
quando lhe indagam o que sabe.
Evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar
vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.
D.I. geralmente demonstrava dificuldade em iniciar a sessão, em dizer
a primeira frase. Nesta sessão eu inicio após breve silêncio dizendo-lhe do
poema que encontrei e que se relacionava com o tema da sessão anterior. Ele
sorri e a impressão que me causa é de surpresa e alegria pela terapeuta ter
se ocupado dele fora da sessão. O meu objetivo com o poema era relativizar a
sua colocação mostrando que de alguma forma ela já vinha fazendo isto. O
texto também pressupõe um superego mais condescendente e ainda a
necessidade de uma busca para uma vida feliz, que pareciam aplicar-se ao
momento do paciente.
Na sua oitava sessão ele conta que ganhou um ingresso para um show
musical de uma banda chamada Rappa. Porém, alcoolizou-se antes do show
e foi parar no hospital. Perdeu o show. Relata que não vê prazer nas coisas e
inclui a perda do show neste estado de ânimo, Se fosse em outra época
jamais teria perdido este evento. O grupo musical referido tem uma música
chamada “Pescador de Ilusões”. Cito esta canção para D.I. Ele parece
surpreso por eu conhece-la e diz imediatamente: “É a música que eu mais
gosto do C.D.” Relaciono o título com a sua busca. Ele sorri e faz alusão a
uma música do grupo Legião Urbana que ele acredita chamar “Quase
sempre” e que gosta de ouvir. Busco este título e encontro a música “Quase
sem querer” - há um ato falho. Levo para a sessão seguinte para conferir e
perceber como ele se identifica. Este é o conteúdo:
112
Quase sem querer
Tenho andado distraído,
Impaciente e indeciso,
E ainda estou confuso,
Só que agora é diferente:
Estou tão tranqüilo
E tão contente.
Quantas chances desperdicei.
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém.
Me fiz em mil pedaços
Pra você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia.
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira.
Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber
Tudo.
Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.
Tão correto e tão bonito:
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos.
Sei que às vezes uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?
Me disseram que você estava chorando
E foi então que percebi
Como lhe quero tanto.
Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você.
113
Quando digo que estou com a letra ele me pergunta porque eu trouxe e
disse-lhe que me interessava saber com que partes da música ele se
identificava. Proponho a leitura e que ele vá me dizendo o que lhe faz pensar.
Na primeira estrofe ele diz se lembrar do tempo em que se furava e que agora
está mais contente. Também pensa nas chances desperdiçadas. Comenta
que se achava um rebelde e agora procura a paz. Fala que não sabe se a mãe
e a irmã acreditam na sua mudança. Ele acha que elas não entendem seus
hábitos vegetarianos e aí ele se identifica com a frase: “Quando o que eu
mais queria era provar pra todo mundo, que eu não precisava provar nada
pra ninguém.” Diz que a única parte que não bate é: “me fiz em mil pedaços
pra você juntar”. Diz: “Não tenho ninguém pra me juntar.” Relata que não
tem a figura do amor romântico. Continuando na letra da música,
acrescenta: “sempre quis achar explicação para o que eu sentia.” Não se
identifica com a frase: “Já não me preocupo se eu não sei porquê” diz que
sempre quer saber o porque. Na seqüência fala do medo de namorar, quer e
não quer, pensa como vai encontrar alguém que o entenda. Acrescenta
também que evitava olhar as pessoas nos olhos, por medo que a pessoa
soubesse o que ele sentia ao olha-lo. Após os seus comentários, digo-lhe que
o que ele descreveu da música deu-me a impressão de um movimento de
busca, devido às mudanças citada, também por perceber o que lhe falta e
que possivelmente o espaço de psicoterapia seria a tentativa de juntar os
seus mil pedaços junto com a terapeuta e se perceber por inteiro. A
terapeuta não tem como fazer isto sozinha, isto é um trabalho da dupla.
Nesta sessão dou-lhe o encaminhamento para a consulta psiquiátrica. Na
sessão seguinte ele traz o relatório do médico dizendo parecer tratar-se de
um quadro depressivo com distúrbios de senso-percepção e acresce uma
interrogação (F 32.3 ? – CID 10), indicando talvez uma hipótese a ser
confirmada. Foi medicado com cloridrato de fluoxetine 10 mg.
Nas sessões seguintes o Doente Imaginário comenta que ele e o pai
estão construindo um quarto para ele (vai ficar afastado do tio doente
mental), pensa que quando acabar esta tarefa ficará um vazio. Diz que não
consegue alegrar-se, empolgar-se, diz que se sente vivo quando vem às
sessões.
Em sua décima oitava sessão, D.I. mostra-se irritado, decepcionado e
inconformado com o alcoolismo do pai. Este tem bebido diariamente e se
torna chato, agressivo, provocativo. Acha agora, que o pai nunca parou de
beber e os enganou para que voltassem a morar juntos. Comenta que está
determinado a entrar no exército, quer alistar-se. Acha que com isto sai de
casa e ajuda a mãe a sair. Conta que está providenciando documentos e
também tentará uma vaga no Mac Donald¢s. Fala que um trabalho poderia
ajuda-lo muito. Nesta sessão fala muito sobre a mãe. Tem pena dela e diz
que se a mãe morresse ele se largava, ficava na rua, ia andando. Tem essa
vontade, não ter rumo, não pensar em nada; (nesta hora é como se desejasse
a morte da mãe para não ter que ser. Percebo aí um paradoxo). Fala que a
mãe nunca teve férias e quando isto ocorre pela primeira vez, o pai só
apronta. Quer tirar a mãe da casa do pai. Passa a falar sobre Deus, sente-se
revoltado porque tudo isto acontece. Diz que não pode louvar a Deus porque
não pode fazer o que Deus quer dele – parece referir-se ao fato de não saber
perdoar, além da raiva porque Deus não interfere em sua vida. A minha
114
colocação aborda o amor que ele sente pela mãe e o sentimento de
impotência que ele carrega desde menino. Agora se sente um menino porque
não pode fazer nada. Está com raiva do pai dele e do pai do céu, ele gostaria
de poder interferir nos destinos da família. Ele parece sair mais aliviado.
Numa outra sessão mostra-se inconformado com o alcoolismo do pai o
qual chama a atenção dos vizinhos com suas bebedeira, ele diz “Todo dia é
um show.”
Aparecem outras angústias em D.I. e ele começa a falar da falta de
identidade, acha que copia coisas dos outros, de cada pessoa que encontra.
Traz também a afirmação de que sua crença é que mesmo que tudo der
certo, ele sempre no fundo vai querer a autodestruição, como se ele sentisse
isso dentro dele. Fala do medo do descontrole e teme voltar a tocar numa
banda. Conta que quando se drogava tocava sozinho e esmurrava a parede,
no dia seguinte tinha a mão inchada e ninguém sabia o porque. Em seguida
relata que viu um astro morrer e achou bonito. Era integrante do grupo de
rock Nirvana. Ele suicidou-se e deixou uma carta para o seu amigo
imaginário. Diz: “Depois que tinha conseguido tudo, o sucesso, matou-se”.
Aponto que ele traduz um medo e um fascínio pela loucura. Sinalizo a
identificação com o pai quando ele bebe. Mostro a loucura do ídolo fazendo
uma carta para um amigo imaginário e ele assente com a cabeça. Sugiro que
o seu lado que gosta da loucura contribui para o fato de ele não estar
usando a medicação prescrita. Neste momento ele fala de efeitos colaterais
do remédio que são indesejáveis e que ele precisa estar atento porque
quando o pai bebe pode agredir a mãe e ele precisa estar bem alerta.
Recomendo-lhe discutir isto com o psiquiatra.
O Doente Imaginário vai modificando-se lentamente e passa a falar do
medo de fazer amigos, medo de ir para o exército (mas o desejo também) e
que está pensando num projeto de conscientização da humanidade, já tem
um nome para o movimento: “O que você faz pela paz?” Com este
movimento pensa em arrecadar alimentos e desenvolver atividades para os
mais desfavorecidos. Aparece um sinal de ilusão que já entremeiam a sua
desilusão pois, expressa o desejo de não ter família, não ter filhos e ser
mendigo. Gostaria de formar uma sociedade alternativa, integrar
movimentos contra a polícia. Gostaria de conhecer o M.S.T. (Movimento dos
Sem Terra). Traz tudo isto numa sessão em meio a outros assuntos variados
e contraditórios. Fecho a sessão espelhando alguns aspectos ambíguos: uma
pessoa que não quer amigos mas ama os desconhecidos, quer fazer um
movimento em prol dos que sofrem. O medo e o desejo de amar. A raiva que
aparece contra a polícia ou contra as injustiças e como ele parece buscar um
modo construtivo de lidar com raiva. O M.S.T. parece ser um exemplo disto,
um movimento bem organizado que sabe o que quer e luta para conseguir os
seus objetivos.
Um sonho na sessão e a experiência de habitar o corpo
O Doente Imaginário chega na vigésima terceira sessão trazendo um
sonho e uma rápida vivência de integração, os quais consideramos o
primeiro fato clínico psicanalítico.
115
A sessão começa da seguinte forma:
D.I.: Então
Terapeuta: E então?
D.I. Meu pai não bebeu esta semana... quer dizer ontem bebeu, acho
que bebeu, senti um cheiro.
Terapeuta: Parece que houve uma mudança.
D.I.: Esta semana teve um dia que senti uma coisa diferente, não sei
explicar, hum... não sei se é do remédio, mas acho que não é.
Terapeuta: O que foi?
D.I.: Não sei, acho que parecia que eu estava acordado, porque sempre
me sinto fora, às vezes me sinto muito mal, tenho vontade de pedir ajuda
para alguém, mas não vou saber explicar o que quero. Não sou o mesmo,
não mais aquele menino, quer ser como os outros.
Terapeuta: Não ser mais aquele menino, parece que quer dizer que
você cresceu, está buscando um novo jeito de ser.
Cita então, uma passagem de um livro com a qual identificou-se. O
nome do livro é “Mulher no palco” explica:
D.I.: É um livro de auto ajuda, não sei o nome da autora. Tem uma
parte do livre que me vi. É uma cena da infância dela onde a mãe estava
sentada costurando à máquina e a menina estava deitava no colo do pai e
ele a acariciou e neste momento ela diz que existia algo oculto que ele não
sabia o que era, mas depois compreendeu ser a morte. Comigo é parecido só
que este algo oculto é esta sensação, não sei (parece confuso, fala coisas
tentando explicar).
Terapeuta: Você fala de uma outra dimensão?
D.I.: É uma sombra, me sinto uma sombra. Fico me lembrando de
quando estava no efeito (droga), estava numa rua movimentada e não via os
carros, estava muito maluco. Todos riam e eu ria, todos paravam e só eu
continuava. Aí, depois eu ia pro espelho para ver como eu era e quando eu
estava diante do espelho, já não sabia porque tinha escolhido estar ali.
Terapeuta: No espelho você estava sob o efeito da droga?
D.I.: Não. Eu estava nos lugares mas não estava. Este dia que senti
que estava acordado pude perceber como eu não tinha estado em lugar
nenhum, não estive nos lugares que passei. Aqui teve um dia que quis ir
embora.
Terapeuta: Que dia?
D.I.: O dia da música, não conseguia te olhar, isso acontece com
outras pessoas, minha mãe me levou na igreja, não conseguia olhar para a
mulher da igreja, é, sou assim... Esta noite, tive um sonho. Acho que eu
tinha roubado uma moto do meu irmão, peguei escondido e sai com ela e
então, estou numa subida e a moto começa voltar. Eu me esforço e a moto
parece que sou eu mesmo, parecia que não tinha motor e de repente, me
vejo pedalando, já era uma bicicleta.
Comento sobre o seu descrédito desde o início da sessão, primeiro com
o pai, depois com ele – uma sombra – pergunto-lhe: O que uma sombra pode
fazer, não é? E em seguida falo do sonho, da perda de forças, os veículos vão
enfraquecendo. Aí ele se lembra que na verdade no início do sonho era um
carro e depois que vem a moto. Abordo a força que deseja emprestar do
irmão, como ele já disse que copia as coisas dos outros, como se ele julgasse
116
que os outros tem forças que ele não tem. Faço uma analogia com a história
do Rei Midas, um rei que tocava as coisas e elas viravam ouro, no sonho de
D.I. acontecia o inverso. Ele sorri e logo adiante volta a falar do seu mal
estar físico, estar fora do corpo. Volta a falar em pedir ajuda e pergunto-lhe o
que ele gostaria de me pedir. Ele fica pensativo e faz uma pausa. Digolhe:Gostaria de pedir para eu estar com você... ou ajuda-lo a sentir-se
presente? Ele mostra-se confuso, diz que não sabe passa a falar coisas
desconexas, tento ajuda-lo e ele acha um nexo dizendo que consegue ser ele
mesmo com os sobrinhos e com a mãe. Eu pergunto:E aqui? Ele diz:Aqui
também não (não consegue ser ele mesmo). Digo-lhe que apesar disso
naquele espaço ele mostra como se sente e o que pensa. Ele diz em seguida:
D.I.: Agora pouco senti aquilo?
O Doente Imaginário referia-se a sensação de integração que havia
experimentado em casa e agora se repetia no setting, sentia-se presente.
Pergunto em que momento foi e ele diz:
D.I.: Acho que foi quando você perguntou o que eu queria pedir.
Faz uma pausa após isso e passa a falar de amigos, dificuldade de
separação e então retomo aquela sessão onde trouxe a letra da música,
dizendo-lhe que talvez ele tenha ficado com medo de ser o meu filho
predileto. Mais adiante me dá a notícia de que tinha voltado a estudar e
tinha um amigo que ia estudar com ele.
Um momento de regressão: voltar para prosseguir
Na vigésima quinta sessão dirijo-me à sala de espera e encontro D.I.
prendendo os cabelos. Convido-o a entrar. Ele inicia a sessão falando que o
psiquiatra aumentou a dosagem do remédio mas, que hoje ele não tomou.
Relata o mal estar que sente quando vai ao CAPSI (Centro de Atenção
Psicossocial- onde ficam os psiquiatras da rede municipal), gostaria que
alguém o acompanhasse, vê-se naquelas pessoas totalmente fora de si.
Continua no tema de estar fora de si e parece que sua angústia aumenta.
Diz que as pessoas não acreditam no que ele sente. Pergunto-lhe se sou eu e
o psiquiatra que não acreditamos. Ele responde que sim, são todos. Porque
ele contou antes (de falar para a psicóloga e para o psiquiatra) para pessoas
que não eram as pessoas certas e talvez por isso acha que ninguém acredita.
D.I. começou a sessão sorrindo mas, vai ficando sério como nunca
havia ocorrido. Num dado momento diz que quer chorar “não gostaria que
isso acontecesse aqui.” Vai se angustiando e diz que gostaria de ficar
encolhido. Digo-lhe que pode ficar como quiser, os colchonetes são para isso.
Mas ele recusa-se, diz que fica com medo. Pergunto-lhe o que teme, ele
responde: “não é machismo.” Comento que o que pode acontecer é eu ter que
lhe dar papel para enxugar o rosto. Ele diz que quando ele sair as pessoas
vão notar. Digo-lhe que ele pode lavar o rosto (há uma pia na sala). Ele diz
que sempre se controla. Falo que me dá a impressão que ele acha que eu
não agüentaria ou que ficaria zangada com ele e me recusaria a atende-lo.
Após algum tempo chora. Dou-lhe o papel e aí ele parece nutrir-se desta
tristeza e pede-me para que eu fale que ele quer ouvir. Passo a falar da
imagem que fiz deste momento. Penso num colo que o protegesse no CAPSI
117
(ele sorri), a barriga da mãe para poder encolher-se e ficar abrigado.
Acrescento que ele pôde ser ele mesmo, que agora a sua feição corresponde
ao seu sentimento, porque antes estava falando de tristeza sorrindo.(Já
havia ocorrido de ele solicitar que eu falasse em outra sessão, como se lhe
produzisse calma. Também comentou certa vez que gostava quando eu fazia
analogias com estágios infantis). Faz silêncio por pouco tempo e volta a
parecer angustiado, dizendo que começa a se lembrar de tudo o que fez (a
sensação é de que fez tudo de errado). Digo-lhe que a palavra “fez” é
passado. Agora está em outro momento. D.I. fala que se estivesse em casa se
furaria porque a dor desvia o seu pensamento. Fala algo sobre descontrole e
lhe mostro o quanto ele sempre se controla diante das pessoas para não
mostrar o seu lado triste e doloroso. Ele acrescenta: “Agora parece que estou
no efeito.” D.I. demonstra um desconforto e sua feição parece insinuar um
desejo de esconder-se de mim, de ir embora. Digo-lhe que faltam poucos
minutos para encerrar sua hora, mas que seria bom dar mais um tempo
para que possa se sentir melhor. Ele imediatamente preocupa-se com o
rosto: “Estou normal?” Respondo: “Não parece que você chorou.” Ele parece
não acreditar passa a mão no rosto, está desconcertado. Pergunto se ele
quer um espelho para olhar-se. Ele diz: “Quando estou assim não gosto de
me olhar no espelho”. Ele se levanta, torno a falar se não quer esperar e ele
diz que é melhor ir embora senão vai chorar de novo. Ele ajeita sua roupa e
eu me levanto. Ele fala que está com vergonha. Digo-lhe que é uma vergonha
de mostrar a tristeza e será que isto precisa ser motivo de vergonha? Ele
responde: “É porque eu sei que estou assim e agora você também sabe.”
Acrescento que só nós dois sabemos. Ele parece aflito para sair e me
apresso em concluir que a tristeza é um lado dele não ele todo, não há
porque só cultuar a tristeza ou também ficar no outro extremo de ter que ser
feliz o tempo todo. Recomendo-lhe que tome o remédio. Ele despede-se
dizendo que vai à casa de um amigo porque não queria chegar em casa
assim.
Logo em seguida saio da UBS para almoçar e avisto D.I. caminhando
apressado e de cabelos soltos (penso que prendeu os cabelos antes de entrar
á sessão pois, não podia ser ele mesmo comigo), passando pelas pessoas
como se não visse nada à sua frente.
Na sessão seguinte D.I. não comparece. Ligo para a sua irmã (telefone
de recado) oferecendo-lhe um outro horário na mesma semana. Ele não
comparece novamente. Como eu não estaria na unidade em sua próxima
sessão – horário habitual – faço nova ligação explicando a minha ausência e
forneço um horário de reposição.
O Doente Imaginário comparece e chega atrasado , porém, este atraso
parece refletir uma resistência pois, ele diz que a irmã “pegou no pé”. Já
pode mostrar-se contrariado comigo e disse ter pensado em não vir mais.
Pensou em desistir porque no fundo já sabe o que quer para si mesmo: “viver
por aí”. Acrescenta o desejo de andar rasgado, dormir na rua, ser um
rebelde. Fala com certa irritação que está fazendo amigos na escola e diz: “eu
não queria, tipo não quero me envolver com ninguém”. Trabalho o tema do
envolvimento e medo da dependência e surge novamente a mãe como alguém
que não pode saber das drogas. Ressalto sua atitude amorosa ao proteger a
mãe de saber mas, que o amor também inclui o perdão. Ele repete que só
118
não fica na rua pela mãe. Resgato o seu desejo de ser um rebelde e que ele
poderia pensar numa rebeldia construtiva. Introduzo a idéia de que ele na
rua seria um a mais debaixo da ponte, mas se sua revolta contra o que está
errado pudesse resultar na construção daquele movimento... Ele completa:
“o movimento: O que você faz pela paz?” Eu já comecei fazer umas filipetas
para distribuir...” Continuo perguntando: O que você pode fazer pela sua
paz? E ele: “Como você consegue dizer tantas coisas bonitas com estas
coisas que te falo? (o tom alude o que faço com as coisas ruins, estragadas
que ele me dá). Acrescento que falo com os elementos que ele me dá. Falo
sobre sua divisão: um lado que quer abandonar-se e um lado que quer
crescer. Complemento a idéia dizendo que parece que não tem sido fácil
crescer, virar um moço, talvez por isso precise se furar e murchar, assim
encolhe e fica pequeno de novo
Nesta sessão fala também que não tem tomado o remédio por falta de
dinheiro para compra-lo. O pai está tentando arrumar-lhe um emprego num
Lava Rápido. Conta que ao sair da última sessão de fato não foi para a casa
do amigo, encontrou uns amigos no supermercado Extra e foi beber, um
amigo até vomitou. Digo-lhe: “Acho que eu tinha motivo pra me preocupar,
não tinha?” Ele sorri. D.I. vai embora e quando olho para o tapete vejo que
ele deixou duas pequenas chaves no chão. Depois venho a saber que eram
chaves de um cadeado que põe na porta do seu quarto.
O Doente Imaginário demonstrou ódio quando falou que não queria
envolver-se com ninguém.Na verdade já estava envolvido, o ódio estava
ligado ao envolvimento com o processo psicoterapeutico. O fato de que por
um lado ele foi à sessão pressionado pela irmã e por outro ele quis estar lá.
E logo que chega diz que o seu objetivo mesmo é “viver por aí”. Porém, é
preciso envolver-se para des-envolver-se, estava aí a possibilidade do
crescimento mental.
Green (1980) explica que há dois traços notáveis na transferência
deste tipo de paciente (com o complexo da mãe morta).
O primeiro é a não-domesticação dos instintos: o sujeito não pode
renunciar a um desejo incestuoso, nem, em conseqüência, admitir o luto
pela mãe. O segundo traço, mais notável, é que a análise induz o vazio. Isto
quer dizer que, quando o analista consegue tocar um importante elemento
do complexo nuclear da mãe morta, por um curto momento, o sujeito se
sente como que vazio, em branco, como se estivesse privado de um objeto
substituto e uma guarda contra a loucura. (p.167)
A sensação de inutilidade é apontada por Winnicott (1954) como
manifestação de um falso self.
O terceiro fato clínico referiu-se a relativização do sintoma de estar
fora do corpo. Pareceu um progresso por colocar a queixa hipocondríaca em
segundo plano. O fato parece
ter aberto caminho para outros
aprofundamentos, como se houvesse a ampliação da consciência.Talvez
significasse também uma vivência de momentos de integração mais
freqüentes.
Na sessão que se seguiu ele falou de sua ação na escola, o movimento
que estava organizando e revelou o uso da cocaína no passado. Parecia que
tinham coisas inconfessáveis, que só poderia dizer aos poucos, ora eu era a
sua mãe real fragilizada, que não podia ouvir, ora eu era a mãe que podia
119
agüentar tudo. Kalina (1991) escreve sobre a incapacidade de estar só e o
uso abusivo de drogas psicoativas. A capacidade de ficar só é um estado
mental resultante da introjeção e assimilação do seio bom, sem o que não
será possível um ego forte. As drogas parecem preencher esta ausência do
seio bom, não é aprazível estar só. A droga levaria a um estado mental onde
não há angústia, nem conflitos, o que corresponderia, segundo Kalina, ao
paradoxo “provocar a morte para viver em paz.”
A busca por saber em D.I., a vontade de entender Deus – o criadorparece coincidir com o que Green (1980) explica como uma compulsão a
pensar, em conseqüência da busca do significado perdido.
Houve uma sessão marcada pela confusão. O papel da terapeuta foi
decodificar o que ele queria expressar, interromper o delírio fornecendo um
contorno, chamando-o a integração.Outro momento de insight ficou claro
quando disse: “eu olho muito para mim”, começou mudar de posição,
começou olhar para os outros, integrar. Deu indícios de poder caminhar
para a posição depressiva. Nesta sessão falou dos amigos e nas sessões
seguintes trouxe uma garota, um amigo especial. Acrescentou alguns fatos
positivos de sua vida: novas oportunidades, o computador que possuía, a
atenção especial que a irmã havia lhe dedicado por um tempo. Pareceu
menos vitimizado. Os períodos de silêncio na sessão começaram a aparecer.
Entendemos isto como um apaziguamento interno, já podia ficar só na
presença do outro, ainda que por pouco tempo. Apesar de querer fugir da
terapeuta,. caso a encontrasse na rua, na mesma sessão fez uma reparação,
apresentou um senso de realidade maior e contestou sua própria idéia.
O Doente Imaginário esqueceu as chaves no setting, demonstrou
dificuldade com as férias e com o apego. Parece que o setting e a terapeuta
assumiram a condição de um objeto transicional, que poderia acompanha-lo
a qualquer lugar. Interrompeu o trabalho psicoterápico porque estava bom,
isto é um paradoxo a ser sustentado. Estando o objeto transicional naquele
lugar ele poderia voltar e pegá-lo de acordo com a sua necessidade. A última
vez que compareceu, chegou nos últimos cinco minutos, era o que podia
agüentar ou o quanto necessitava para aquele dia.
A terapeuta foi a mãe que não quis sua morte, o que lhe conferiu
propriedades de apego seguro e constante, portanto, ele podia ir embora. A
psicoterapia o resgatou da miserabilidade. No momento da interrupção do
trabalho ele estava procurando profissionalizar-se, estava interessado no
emprego. As informações posteriores, atestaram uma busca no campo
cultural e profissional. Pôde resgatar seu lado artístico, sua sublimação, que
havia se tornado perigosa (tinha medo de voltar a tocar os instrumentos).
Podia ser até uma defesa maníaca, não podemos falar do prognóstico,
porém, é uma defesa mais saudável. Organizar um movimento em prol dos
abandonados também é melhor do que ficar no lugar do abandonado, ainda
que reflita uma identificação com este estado.
Percebeu-se um receio em crescer,em des-envolver-se, tão próprio do
adolescente, como se o ato de olhar-se no espelho pudesse refletir a sua
incapacidade, ele identificado com o pai. Mas, concomitantemente,
percebeu-se o desejo de avançar. Afinal, a esperança está contida na
tendência anti-social. D.I. sentiu-se roubado como atesta a prancha 13 mas,
há uma busca.
120
O ambiente facilitador, segundo Winnicott (1970a), o qual capacita o
indivíduo para o crescimento pessoal e o processo maturacional tem que ser
uma descrição dos cuidados que o pai e a mãe dispensam, e da função da
família. Os pais do Doente Imaginário tiveram qualidades e defeitos, houve
momentos de troca afetiva e prazer com eles e com os irmãos, mas de algum
modo predominaram na percepção de D.I. os aspectos negativos das figuras
parentais. As percepções são modificáveis e na continuidade este retrato
poderá até ter outras ênfases.
A sensação ao escrever sobre o caso a terapeuta sente que não
consegue esgotá-lo, isto se combina com o que foi escrito anteriormente que
é como se a sua história não coubesse em papel algum. Pensamos que esta
sensação é a reminiscência da sua sensação de vazio, um buraco sem fundo,
ou a contaminação pelo medo do seu descontrole, ele foge ao controle da
terapeuta. Outeiral, comentou num seminário em São Paulo (07/06/2003)
que este tipo de paciente (os mais regredidos) deveriam causar ciúme nos
nossos parentes mais próximos. A experiência com D.I., de fato mostrou que
eles passam a fazer parte de nossas vidas e roubam a cena (no caso desta
terapeuta que tinha um universo de mais de 45 pacientes). Este aspecto
ficou potencializado por ter sido um caso que não houve um fechamento,
embora o devir de todo e qualquer paciente seja geralmente, uma página a
qual não temos mais acesso. Por outro lado, mostra toda a riqueza da
psicanálise, em ambiente universitário, definida como um método singular
de investigação clínica intersubjetiva (Vaisberg, 2003; Vaisberg & Machado,
2000; Pinto, & Vaisberg, 2001).
O Doente Imaginário presenteou a terapeuta com sua riqueza de
conteúdos, apesar de todo o vazio que ele considerava ser, inundou-a com
suas vivências tão profundas e suas angústias impensáveis e indizíveis.
Pensamos que para este caso cabe a frase de Winnicott (1945): “Somos de
fato pobres se formos apenas sãos.”
Referências Bibliográficas
ABRAM, J. A linguagem de Winnicott: Dicionário das Palavras e Expressões utilizadas por
Donald W. Winnicott. Rio de Janeiro.: Revinter, 2000 (original de 1996).
AVELLAR, L.Z. Jogando na análise de crianças: intervir-interpretar na abordagem
winnicottiana. Orientador: Profº Dr. Gilberto Safra. Tese de Doutorado, Psicologia
Clínica, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
GADDINI, R. de B. A Regressão e os seus Usos no Tratamento: Uma Elaboração do
Pensamento de Winnicott. In: GIOVACCHINI, P.L. (Org.) Táticas e Técnicas
Psicanalíticas: D. W. Winnicott. Porto Alegre: 1995. p.150-162.
GREEN, A. A mãe morta. In:______.Sobre a loucura pessoal. Trad. C. A. Pavanelli. Rio de
Janeiro: Imago, 1988. p. 148-177. (original de 1980).
GROLNICK, S. Winnicott o trabalho e o brinquedo: uma leitura introdutória. Trad.
R.M.Garcez. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.
HEIDEGGER, M. Construir, Habitar, Pensar. In:_____. Ensaios e Conferências. 2 ed. Rio de
Janeiro:Vozes, 2002. p. 125-141. (original de 1951).
KALINA, E. A incapacidade de estar só e o uso abusivo de drogas psicotóxicas. In:
OUTEIRAL, J.; GRAÑA, R.B. (orgs.) Donald W. Winnicott – Estudos. Porto Alegre: Artes
Médicas: 1991. p. 161-163.
121
KNOBEL, M. Pesquisas em Adolescência: Cultura e Sociedade, Normalidade e
Psicopatologia. In: KNOBEL, M.; VIZZOTTO, M.M. (orgs.) Temas de Psicologia
Psicanalítica. Campinas, SP: UNICAMP, NEP. 1991, p.5-36.
MELLO FILHO, J. de. O ser e o viver: uma visão da obra de Winnicott. 1ª reimpressão
revista. Porto Alegre:Artes Médicas, 1995. (original 1989).
OGDEN, T. H., Lendo Winnicott. Rev. Bras. Psicanál., v. 36 (4): 737-755, 2002.
OUTEIRAL, J. Tendência Anti-Social e Patologia do Espaço Transicional. In: LEVISKY, D. L.
e cols. Adolescência e Violência: conseqüência da realidade brasileira. Porto Alegre:
Artes Médicas, 1997.
Pinto, E.B.; Vaisberg, T.M.J.A. Psicanálise e universidade: perspectivas. Psicologia USP ,
vol.12 (2) 137-145, 2001.
PINTOR, E. A.S. Ilusão-Desilusão e Espaço Potencial no manejo do setting em Unidade
Básica de Saúde. Orientador: Prof.º Dr. José Tolentino Rosa,
Dissertação de
Mestrado, Programa de Pós-graduação em Psicologia da Saúde, Universidade
Metodista de São Paulo. São Bernardo do Campo, 2003.
ROSA, J.T. Sintomas depressivos em adolescentes e em seus pais. Pediatria Moderna,
v.XXXII, (5), 557-566, ago 1996.
Vaisberg, T.M.J.A. Ser e fazer: interpretação e intervenção na clínica winnicottiana .
Psicologia USP , v .14 (1), 95-128, 2003.
Vaisberg, T.M.J.A.; Machado, M.C.L. Diagnóstico estrutural de personalidade em
psicopatologia psicanalítica. Psicologia USP, v. 11 (1), 29-48, 2000.
WINNICOTT, D. W. Desenvolvimento emocional primitivo. In:______. Textos selecionados da
pediatria à psicanálise. 4ª ed. Trad. J. Russo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993. p.
269-285. (original de 1945).
WINNICOTT, D.W. O ódio na contra-transferência. In:____. Textos selecionados da pediatria
à psicanálise. 4. ed. Trad. J. Russo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993. p. 341-353.
(original de 1947).
WINNICOTT, D. W. A mente e sua relação com o psique-soma. In:______. Textos
selecionados da pediatria à psicanálise. 4 ed. Trad. J. Russo. Rio de Janeiro:
Francisco Alves, 1993. p. 409-426. (original de 1949).
WINNICOTT, D. W. Aspectos clínicos e metapsicológicos da regressão dentro do setting
psicanalítico. In: ______. Textos selecionados da pediatria à psicanálise. 4. ed. Trad. J.
Russo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993, p.459-481. (original de1954).
WINNICOTT, D. W. A tendência anti-social. In:_____. Textos selecionados da pediatria à
psicanálise. 4 ed. Trad. J. Russo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993. p.499-511.
(original de 1956).
WINICOTT, D. W. A integração do ego no desenvolvimento da criança. In:____. O ambiente e
os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional.
Trad. I.C.S. Ortiz. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982. p.55-61 (original de 1962).
WINNICOTT, D. W. A comunicação entre o bebê e a mãe e entre a mãe e o bebê:
convergências e divergências. In:______. Os bebês e suas mães. Trad. J.L. Camargo.
São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 79-92. (original de 1968).
WINNICOTT, D.W. A cura. In:___. Tudo começa em casa. 1ª ed. Trad. P Sandler. São Paulo:
Martins Fontes, 1989. p. 87-93 (original de 1970 a).
WINNICOTT, D.W. Sobre as bases para o Self no Corpo. In: WINNICOTT, C.;SHEPHERD, R.;
DAVIS, M. (orgs.) Explorações Psicanalíticas D. W. Winnicott. Trad. J.O.A. Abreu.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. p. 203-218. (original de 1970b).
WINNICOTT, D.W. Os bebês e suas mães. 2. ed. Trad. J. L. Camargo, São Paulo:Martins
Fontes, 1999. (original de 1987).
Resumo
O objetivo deste capítulo foi apresentar os conceitos de privação, deprivação e
defesas contra sentimentos de perseguição interna e discutir as implicações sobre o
processo de psicoterapia de um adolescente, atendido em UBS, em 40 sessões de
psicoterapia psicanalítica. Tinha 16 anos e foi atendido pela equipe de saúde
mental da Unidade Básica de Saúde, localizada na área metropolitana de São
122
Paulo. O paciente apresentava três defesas contra a perseguição interna: a
hipocondria, a desrealização e o medo de avaliação. Era um rapaz solitário, havia
perdido o ano escolar por faltas e fazia uso de maconha. Tinha sido atendido por
assistente social em um serviço especializado no tratamento de dependência de
substâncias psicoativas, mas não manifestava adesão ao tratamento, o mesmo
acontecendo com sua participação em um grupo de teatro para adolescentes. Ao
procurar a psicoterapia, o adolescente trouxe como queixa principal o fato de ter a
sensação constante de que saía do próprio corpo. Contra-transferencialmente
suscitava na psicóloga que o atendia, um estado de preocupação constante. As
sessões tinham rico conteúdo, porém, em muitas delas predominava a ansiedade
confusional e dificuldade de conversar sobre os sentimentos. Na psicoterapia pode
mostrar sua riqueza de sentimentos e a partir de suas vivências foi possível o
aprendizado pela experiência, podendo agora pensar sobre coisas antes
impensáveis e não simbolizadas. Ao compreender suas vivências profundas, pode
transformá-las em aprendizagem significativa pela experiência.
Descritores
psicoterapia; adolescente; saúde coletiva; psicanálise; Winnicott
PSYCHOANALYTIC PSYCHOTHERAPY OF A YOUNG BOY WITH ANTISOCIAL
TENDENCY AND CORPORAL DELUSION
Abstract
The chapter objective was to present conceptions of deprivation, privation and
defensive mechanisms toward feelings of inner persecution and to discuss some
implications about the psychotherapy process of an adolescent who was treated by
40 sessions of psychoanalytic psychotherapy in a Brazilian UBS (Health Basic
Unit), located in the metropolitan area of Sao Paulo. The patient presented three
defenses against internal persecution: hypochondria, derealization and fear of being
evaluated. He was a lonely boy, and addicted to marijuana, and he had failed in
school exams. Firstly, he was attended by a social worker in a specialized service in
the treatment of addiction to psychoactive substances, but unfortunately without
adhesion even with his participation in a theatre group for adolescents. At the
beginning of psychotherapy, adolescent told about his constant sensation of going
away from his own body. Intense anxiety and a permanent state of preoccupation
were transferred to the analyst by projective identification mechanisms.
Psychotherapy sessions showed conception richness, but confusional anxiety and
difficult to talk about sentiments were predominant. Beyond his vivencies he
learned with experience, and today he could talk about things he could never be
able before, he is able to transform his experience in meaningful learning.
Index-terms
psychoanalysis; psychotherapy; adolescent; collective health; Winnicott.
123
Download

Consultorias Psicoterapêuticas: cuidando do profissional