ABSENTEÍSMO EM ENFERMAGEM NEONATAL: DESGASTE FÍSICO, EMOCIONAL E ENFRENTAMENTO. Roberta Maria Rocha Lima1, Ilse Maria Tigre de Arruda Leitão2, Roberta Meneses Oliveira3, Lívia Marques Souza4, Marina Castro Sobral5 Introdução: o controle da qualidade da assistência tem sido prioridade nas instituições de saúde. Para tanto, existem indicadores que mensuram qualitativa e quantitativamente os serviços prestados, o que possibilita a avaliação contínua da assistência oferecida. A elaboração e a aplicabilidade desses indicadores guardam estreita relação com a motivação e a satisfação dos profissionais, repercutindo na assistência prestada aos usuários dos serviços de saúde1. Nesse contexto, destaca-se o absenteísmo como um indicador de gestão de pessoas na Enfermagem, geralmente utilizado para monitorar a qualidade da assistência, sobretudo nos serviços de funcionamento ininterrupto, pelas implicações de redução da equipe na assistência prestada e na sobrecarga física e psíquica dos profissionais2. No contexto da enfermagem, os indicadores possibilitam o monitoramento do processo de cuidar, e cada vez mais estão sendo utilizados nas Unidades de Terapia Intensiva Neonatais (UTIN), assegurando assistência segura ao neonato, que exige cuidados intensivos para sua reabilitação. No entanto, estudo em unidade de cuidados semi-intensivos neonatais mostrou que a taxa de absenteísmo é geralmente elevada (8,8%), causando repercussões para o serviço e clientela a curto, médio e longo prazo3. O estudo do absenteísmo na enfermagem é relevante para subsidiar a planificação e a adequação dos recursos humanos nos serviços de enfermagem, considerando o caráter de continuidade do cuidado4. Objetivo: analisar a relação entre absenteísmo, desgaste da equipe de enfermagem e seu enfrentamento em unidade neonatal de cuidados semi-intensivos. Metodologia: trata-se de um recorte de trabalho de conclusão de curso de Graduação em Enfermagem, que seguiu o método de pesquisa do tipo estudo de caso com abordagem qualitativa. O presente recorte abrange a compreensão do desgaste vivenciado por membros da equipe de enfermagem diante de trabalho em unidade com alto índice de absenteísmo. A pesquisa foi desenvolvida em unidade neonatal de cuidados semi-intensivos de hospital da rede pública de referência em pediatria de Fortaleza-Ceará. A unidade é de médio risco, composta por um posto de enfermagem e quatros enfermarias com capacidade para atender a, no máximo, 22 neonatos. A coleta de dados foi realizada entre os meses de janeiro e maio de 2012, após aprovação no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Ceará (CEP/UECE), nº.181.754. Foram incluídos todos os profissionais de nível médio lotados na unidade (15), incluindo 10 técnicos e 5 auxiliares de enfermagem. Foi aplicada entrevista aberta em profundidade, gravada, e norteada pela questão de pesquisa: “Como você se sente ao trabalhar em uma equipe desfalcada pela falta de alguma colega?”. Cada profissional recebeu prévia explicação sobre o teor da pesquisa e foi solicitada para assinar o termo de consentimento livre e esclarecido. As entrevistas foram registradas em gravador, em seguida transcritas e submetidas à análise de conteúdo temática5. Com o intuito de preservar o anonimato, os participantes foram codificados com a letra A ou T, 1. 2. 3. 4. 5. Enfermeira graduada pela Universidade Estadual do Ceará – UECE. E-mail: [email protected] Enfermeira. Mestre em Saúde Pública. Professora efetiva do Curso de Graduação em Enfermagem da UECE, E-mail: [email protected] Enfermeira. Mestre em Cuidados Clínicos em Saúde. Professora substituta do Curso de Graduação em Enfermagem da UECE, E-mail: [email protected] Acadêmica de Enfermagem da UECE, Bolsista CNPq, E-mail: [email protected] Acadêmica de Enfermagem da UECE, Bolsista PET/MEC/SESU, E-mail: [email protected] 00601 correspondente a auxiliar ou técnico de enfermagem, respectivamente; seguido de numeral arábico conforme a ordem em que foram entrevistados. Foram definidas para análise quatro categorias, das quais uma é o tema deste resumo: “O absenteísmo na Enfermagem: desgaste físico, emocional e enfrentamento”. A pesquisa desenvolvida cumpriu os preceitos estabelecidos na Resolução 196/96 da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa/Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde. Resultados: todas as trabalhadoras eram do sexo feminino, a maioria casada (9), com pelo menos 1 filho (8) e com vínculo empregatício na instituição concursada (12) e cooperada (3). Inicialmente, as entrevistadas relataram a necessidade de conciliar as funções de profissional, mãe, esposa e dona de casa. Este acúmulo de funções acaba repercutindo na saúde física e psicológica destas mulheres, o que aumenta a taxa de absenteísmo. As principais queixas em relação ao absenteísmo na unidade envolveram sentimentos de frustração, cansaço físico e mental, estresse, sensação de sobrecarga, resignação e conformação. A insatisfação foi unânime, geralmente associada a estresse físico e emocional devido à sobrecarga de trabalho. Um dos fatores de desgaste físico e mental para os trabalhadores da área da saúde é o acúmulo de dois ou mais vínculos empregatícios, submetendo-os a uma sobrecarga excessiva de trabalho. Dentre os efeitos causados pelo estresse, destacam-se os físicos (fadiga, dores de cabeça, insônia, dores no corpo, palpitações, alterações intestinais, náusea, tremores, extremidades frias e resfriados constantes) e os psíquicos (diminuição da concentração e memória, indecisão, confusão, perda do senso de humor, ansiedade, nervosismo, depressão, raiva, frustração, preocupação, medo, irritabilidade e impaciência). As entrevistadas também relataram estratégias utilizadas para o enfrentamento das situações de estresse no ambiente de trabalho, tais como manter a calma, conversar com as mães dos neonatos, prestar o cuidado com foco no paciente e priorizar a realização dos cuidados mais críticos, como a administração de medicamentos. Além disso, a resiliência foi percebida, associada ao maior bem-estar das entrevistadas, favorecendo as dinâmicas interpessoais na unidade e, consequentemente, a qualidade da assistência. Conclusão: evidenciou-se que há um déficit na motivação das funcionárias para execução do trabalho diante da alta taxa de absenteísmo, pois a sobrecarga de trabalho gera cansaço, estresse, desânimo e insatisfação com o ambiente e com a equipe de trabalho. Esses fatores emocionais geram, também, comportamentos de fuga e evitamento do ambiente de trabalho, o que configura uma relação cíclica entre absenteísmo e sobrecarga de trabalho. Os resultados deste estudo poderão subsidiar gestores de saúde na definição de políticas direcionadas ao trabalhador para garantir a qualidade do cuidado e da vida das profissionais. Sugere-se ainda a criação de um banco de dados na unidade para otimizar o registro das faltas, melhorar o acompanhamento das taxas de absenteísmo e suas causas, além de favorecer a análise das repercussões geradas para o serviço e para o paciente. Contribuições/Implicações para a enfermagem: conforme demonstrado no estudo, o número de pessoal reduzido repercute em prejuízos físicos e psicossociais aos trabalhadores, bem como na priorização de alguns cuidados considerados primários em detrimento de outros, como a higiene dos neonatos. Portanto, o absenteísmo compromete a qualidade da assistência prestada ao neonato, o que demonstra a necessidade de gestores da área e profissionais da assistência buscarem repensar 1. 2. 3. 4. 5. Enfermeira graduada pela Universidade Estadual do Ceará – UECE. E-mail: [email protected] Enfermeira. Mestre em Saúde Pública. Professora efetiva do Curso de Graduação em Enfermagem da UECE, E-mail: [email protected] Enfermeira. Mestre em Cuidados Clínicos em Saúde. Professora substituta do Curso de Graduação em Enfermagem da UECE, E-mail: [email protected] Acadêmica de Enfermagem da UECE, Bolsista CNPq, E-mail: [email protected] Acadêmica de Enfermagem da UECE, Bolsista PET/MEC/SESU, E-mail: [email protected] 00602 os métodos de dimensionamento de pessoal implementados na prática, visando à diminuição das taxas de absenteísmo nos serviços e garantindo um maior contingente profissional para promover melhores condições de trabalho e segurança ao paciente. Referências: 1. Kurcgant P, Tronchin DMR, Melleiro MM. A construção de indicadores de qualidade para a avaliação de recursos humanos nos serviços de Enfermagem: pressupostos teóricos. Acta Paul. Enferm. 2006: 19(1): 88-91p.; 2. Gaidzinski RR, Fugulin FMT, Castilho V. Dimensionamento de pessoal de enfermagem em instituições de saúde. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005.; 3. Lima RMR. Absenteísmo e qualidade da assistência na pecepção de auxiliares e técnicas de enfermagem: estudo de caso em unidade neonatal. Monografia [Graduação em Enfermagem]. Universidade Estadual do Ceará; 2012. 70p.; 4 Silva DMPP, Marziale MHP. Problemas de saúde responsáveis pelo absenteísmo de trabalhadores de enfermagem de um hospital universitário. Acta Scientiarum Health Sciences. 2003; 25(2):191-197.; 5. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 7. ed. São Paulo: Hucitec, 2000. Descritores: Enfermagem. Absenteísmo. Recém-nascido. Eixo temático 2: Questões antigas e novas da pesquisa em enfermagem. 1. 2. 3. 4. 5. Enfermeira graduada pela Universidade Estadual do Ceará – UECE. E-mail: [email protected] Enfermeira. Mestre em Saúde Pública. Professora efetiva do Curso de Graduação em Enfermagem da UECE, E-mail: [email protected] Enfermeira. Mestre em Cuidados Clínicos em Saúde. Professora substituta do Curso de Graduação em Enfermagem da UECE, E-mail: [email protected] Acadêmica de Enfermagem da UECE, Bolsista CNPq, E-mail: [email protected] Acadêmica de Enfermagem da UECE, Bolsista PET/MEC/SESU, E-mail: [email protected] 00603