Cultura Organizacional e Poder: a Possibilidade de Utilização da Noção de Poder
Foucaultiana na Análise da Cultura Organizacional.
Autoria: Maria Fernanda Rios Cavalcanti, Márcia de Freitas Duarte
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo investigar como e se a noção de poder presente em Foucault
pode ser utilizada como uma lente para análise da cultura organizacional. Observamos a
existência de trabalhos que utilizaram noções construídas por Foucault que possuem pontos
de interseção com a cultura organizacional, pois problematizam a esfera simbólica das
organizações e/ou fazem referência a conflitos gerais. Contudo, não dizem como isso poderia
de fato ser feito, tornando tal afirmação frágil e inconsistente. Assim, apresentamos alguns
apontamentos acerca de como esta análise poderia ser feita, propondo-se a genealogia como
um possível meio de análise da cultura organizacional.
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1. Introdução
Assim como o tema do poder, o tema da cultura vê-se cercado por um problema: o perigo de
ser subestimado. Já que, por tratarem de instâncias tão intrínsecas e fundamentais na
composição das relações humanas, estes podem parecer auto-evidentes e, por isso,
elementares. Contudo, estes temas, que possuem interseções e mesmo pontos de
sobreposição, estão imersos numa enorme complexidade e são de cunho fundamental para
quem deseja tornar inteligível a rede de relações sócio-materiais que dá forma a uma
organização (Bertero, 1992). Prasad e Prasad (2008) afirmam que, se por um lado, o conceito
de cultura organizacional tornou-se extremamente popular nos estudos organizacionais e do
management – sobretudo nos anos 1980, quando o conceito passou "a fazer parte do
repertório das tecnologias de gestão organizacional” (Carrieri & Leite-da-Silva, 2006, p. 54) –
por outro lado, existiriam enormes controvérsias sobre como este deveria ser estudado, sendo
o conceito de cultura e suas abordagens não universais (Freitas, 2007), e não passíveis de
generalizações (Alcadipani & Crubelatte, 2003). Martin (2002) corrobora tal visão, e afirma
que existiriam inúmeras maneiras de se estudar o tema da cultura organizacional. Poderíamos
dizer, portanto, que focar nas relações de poder que a compõem seria uma delas. Tendo isto
em vista, o objetivo do presente trabalho é o de investigar como e se a noção de poder
presente em Foucault pode ser utilizada como uma lente para análise da cultura
organizacional.
Contudo, vale ressaltar que tanto o uso da noção de cultura organizacional quanto a utilização
de noções construídas por Foucault vêm sofrendo críticas no campo dos estudos
organizacionais. Por um lado, afirma-se que o conceito de cultura, que antes ocupara um lugar
privilegiado no mesmo, hoje ocuparia uma posição negligenciada (Prasad & Prasad, 2008).
Por outro lado, argumenta-se que a utilização de noções foucaultianas nesse campo tornou-se
por demais familiar, o que dificultaria o surgimento de problematizações que cheguem a
engendrar novos olhares sobre a vida organizacional (Barratt, 2008). No entanto,
concordamos com a afirmação de Freitas (2007) de que a cultura organizacional constitui uma
área temática consolidada e merecedora de atenção prática e teórica (Ver também: Freitas,
1997), bem como propomos que a utilização da noção foucaultianas de poder pode contribuir
para compreensão da mesma a partir do momento que a problematiza. No que diz respeito à
possibilidade de aproximação destes temas, observamos a existência de trabalhos que
utilizaram noções construídas por Foucault em seus argumentos – circunscritos,
principalmente, em sua noção de poder –, como por exemplo, os estudos desenvolvidos por
Silva e Alcadipani (2001); Cappelle e Brito (2002); Moreira (2005); Diniz e Barreto (2010);
Eccel (2010); Estanislau et al. (2010); Irigaray (2010); Mascarenhas (2010) e Souza e Santos
(2010). Estes trabalhos possuem alguns pontos de interseção com o tema da cultura
organizacional, uma vez que problematizam a esfera simbólica das organizações e/ou fazem
referência a conflitos de forma geral, como a emergência e denúncia de novas formas de
poder e mecanismos de controle, questões relativas ao gênero e à sexualidade nas
organizações e a produção dos efeitos discursivos e suas relações com a identidade e cultura
corporativas.
Outro ponto a se destacar em relação à convergência entre o tema cultura organizacional e a
analítica de poder foucaultiana é que essa última seria, basicamente, uma forma de tornar o
campo social inteligível por meio de uma lente que permite compreender como as relações de
poder formam e transformam este campo. Alguns trabalhos chegam a apontar explicitamente
a possibilidade de utilizar a noção de poder foucaultiana para uma análise da cultura
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organizacional, tais como Alcadipani e Crubellate (2003), Cavalcanti et al. (2009), Souza et
al. (2008), Bell e Taylor (2004), Merhi et al. (2010). Contudo, apesar de responderem o se da
pergunta do presente artigo estes trabalhos não dizem como isso poderia de fato ser feito,
tornando tal afirmação frágil e, talvez, inconsistente.
Sendo assim, buscando dar consistência a tal afirmação e alcançar o objetivo aqui proposto,
primeiramente realizaremos uma análise de como a obra de Foucault vem sendo utilizada nos
estudos organizacionais críticos por meio de um levantamento feito em algumas das
principais revistas e anais de congressos nacionais, buscando identificar preocupações em
comum com a agenda de pesquisa sobre cultura organizacional. Após isso, realizaremos uma
revisão de trabalhos que buscaram relacionar os temas poder e cultura organizacional para
verificar a necessidade de um “acerto de contas” com esta literatura, isto é, verificar se a
noção de poder foucaultiana vem sendo utilizada nestes trabalhos e, caso contrário, até que
ponto esta noção exigiria um outro olhar sobre a cultura organizacional para que tal análise
torne-se possível. Verificamos por meio desta revisão de literatura que a noção de poder
foucaultiana não vem sendo utilizada para analisar a cultura organizacional, e também que as
diferenças presentes nesta noção de poder em relação a uma noção de poder dita “tradicional”
utilizada nos trabalhos analisados, acarretam necessariamente em mudanças na forma como
enxergamos a cultura organizacional e, consequentemente, sua utilização como lente para
análise desta última exigiria mudanças na forma como a cultura organizacional é investigada.
2. A Utilização da Obra de Foucault nos Estudos Organizacionais Críticos no Brasil
Com o objetivo de verificar como a obra de Foucault vem sendo utilizada como base teórica
dos estudos cujos temas envolvam cultura organizacional e poder, realizamos um
levantamento sobre a produção acadêmica brasileira sobre os referidos temas, nos mesmos
moldes do levantamento sobre a produção científica brasileira na área dos Estudos
Organizacionais Críticos na década de 1990, realizado por Davel e Alcadipani (2003) e do
estudo realizado por Paula et al. (2010), no qual se buscou discutir o movimento Critical
Management Studies, comparativamente aos Estudos Organizacionais Críticos brasileiros.
Assim, a busca de artigos críticos foi realizada nos seguintes periódicos e congressos nas
áreas de Organizações e Administração: Revista de Administração de Empresas (RAE),
Revista de Administração (RAUSP), Revista Eletrônica de Administração (READ), revista
Organizações & Sociedade (O&S), revista Cadernos EBAPE (CEBAPE), Anais do encontro
anual da associação nacional dos programas de pós-graduação em administração
(EnANPAD), do Encontro de Estudos Organizacionais (EnEO) e Encontro de Gestão de
Pessoas e Relações de Trabalho (EnGPR). Esses periódicos foram escolhidos por serem os
mais conceituados na área de organizações e administração no Brasil. No que tange aos anais
dos EnANPAD, EnEO e EnGPR, a escolha se deu devido ao fato desses fóruns serem
bastante expressivos e respeitados encontros de pesquisadores em administração do país,
especialmente o primeiro.
Portanto, a unidade de análise considerada é formada por artigos acadêmicos e o universo da
pesquisa inclui todos os estudos encontrados nos periódicos nacionais e congressos que
contenham evidências de serem críticos, abordem os temas cultura organizacional e/ou poder
e que tomem como base teórica a obra de Michel Foucault. Inicialmente, buscamos por
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palavras-chave (cultura, cultura organizacional e poder) nos sistemas de busca dos periódicos
e nos anais eletrônicos dos congressos. Em seguida, identificamos os trabalhos que utilizaram
Michel Foucault em suas referências. Posteriormente, para classificar um artigo como crítico,
foram utilizados os mesmos critérios de Davel e Alcadipani (2003), ou seja, os três
parâmetros definidores das fronteiras dos estudos organizacionais críticos: a) visão
desnaturalizada da administração, b) desvinculação da performance e c) intenção
emancipatória.
De 164 trabalhos analisados, ou seja, que continham as palavras-chave mencionadas
anteriormente, apenas 30 artigos referenciaram Foucault e, destes, 22 (13,41%) foram
selecionados como sendo críticos (Tabela 1). Na análise realizada de cada um desses 22
artigos, buscou-se examinar quais eram as temáticas abordadas e como a obra de Foucault foi
utilizada como orientação teórica.
Tabela 1 – Aspectos metodológicos e estatísticos.
Literatura
examinada
Período analisado
O&S
2000 (v. 7, n. 18) - 2010 (v. 17, n. 55)
READ
2000 (v.6, n.1) - 2010 (v. 16, n. 3)
RAE
2000 (v. 40, n. 1) - 2010 (v. 50, n. 4)
RAUSP
2000 (v. 35, n. 1) - 2010 (v. 45, n. 4)
CEBAPE
2003 (v. 1, n. 1) - 2010 (v. 8, n. 4)
ENANPADS
2000 - 2010
ENEO
2001 - 2010
ENGPR
2007 - 2009
TOTAL
Fonte: elaborado pelas autoras.
Total
24
14
12
10
7
63
30
4
164
Artigos
Referência
Críticos
à Foucault
1
1
2
2
2
2
1
1
2
0
11
8
10
7
1
1
30
22
% do
Total
4,17
14,29
16,67
10,00
0,00
12,70
23,33
25,00
13,41
Segundo este levantamento, evidenciou-se a existência de poucas publicações nos anais do
EnANPAD, no período analisado, de pesquisas sobre cultura organizacional fundamentadas
na obra de Foucault. Nos artigos analisados, foi possível identificar alguns argumentos e
temas em comum, acerca do uso da obra de Foucault: a) emergência e denúncia de novas
formas de poder e mecanismos de controle nas organizações, ou seja, o exercício de práticas
de gestão voltadas para o exercício de poder (Silva & Alcadipani, 2001; Cappelle & Brito,
2002; Moreira, 2005; Diniz & Barreto, 2010; Estanislau et al., 2010); b) a construção do
conhecimento relativo ao gênero, aproximando-o da cultura e destacando a noção de que os
ideais de masculinidade e feminilidade são coletivamente construídos nas organizações,
sendo, portanto, singulares e contextualizados (Eccel, 2010), bem como construções sociais
acerca da noção de gênero, ressaltando a relação entre sexualidade e poder e a produção de
discursos (Figueiredo, 2010; Irigaray, 2010; Souza & Pereira, 2010); c) produção de efeitos
discursivos que assumem o caráter de "jogos de verdade" e suas relações com identidade e
cultura corporativas (Mascarenhas, 2010; Souza & Santos, 2010); e d) a renovação da análise
organizacional a partir da obra de Michel Foucault (Motta & Alcadipani, 2004; Souza &
Machado, 2004; Souza et al, 2006; Mendes & Ishikawa, 2010; Peci & Vieira, 2004).
Apesar da não existência de trabalhos que articulem as temáticas cultura e poder, utilizando a
noção de poder presente na obra de Michel Foucault para analisar a cultura organizacional, foi
possível observar algumas tentativas de aproximação dos temas, embora a maioria dos
trabalhos se utilize apenas de citações pontuais do autor, sem propor novas abordagens ou
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sem sugerir como a cultura organizacional pode, de fato, ser analisada à luz das ideias e
conceitos propostos pelo autor. Assim, dentre os temas abordados nos estudos que tentam
realizar essa aproximação, destacam-se temas referentes às generalizações acerca do tema
cultura organizacional, bem como o uso desta enquanto prática discursiva.
Em relação às generalizações acerca do tema cultura organizacional, Alcadipani e Crubellate
(2003), por exemplo, destacam a inadequação de um tratamento unitário à cultura brasileira e
às suas interferências nos estudos organizacionais. Na referida pesquisa, a obra de Foucault é
utilizada para ilustrar como a noção de verdade é problematizada pelos pensadores pósmodernistas. Esta é apontada como dependente das circunstâncias específicas de cada período
histórico e das relações de poder envolvidas no contexto de sua geração, as quais são
necessárias à sua manutenção. Ou seja, os regimes de verdade são apontados como
sustentáculos das relações de poder, ao mesmo tempo em que são sustentados por elas.
Assim, à luz do pós-modernismo, os autores criticam a busca por interpretações
generalizáveis para a compreensão da vida organizacional e da cultura das organizações, em
particular, argumentando que, agindo desta forma, ignoram-se as peculiaridades, as nuanças e
as especificidades dos objetos analisados, implicando em problemas como "ditaduras
autorais” e a imposição de pressupostos assumidos como verdadeiros sobre o fenômeno
social.
Quanto à concepção de cultura enquanto prática discursiva, Cavalcanti et al. (2009) lançam
um olhar crítico acerca da emergência e desdobramento do conceito de “cultura
organizacional” no campo discursivo dos estudos organizacionais e suas implicações práticas
enquanto objeto de intervenção na gestão de pessoas, de modo a propor uma perspectiva para
a análise dos discursos e produção de sentido nas organizações. Para atingir tal objetivo, as
autoras recorrem a uma perspectiva arqueológica, conforme o conceito de acontecimento
desenvolvido por Michel Foucault, analisando, por um lado, os desdobramentos do campo
dos estudos organizacionais e saberes coetâneos que levaram ao engendramento do conceito
de “cultura organizacional”, e, por outro lado, sua aplicabilidade no campo da gestão de
pessoas contemporâneo.
No referido estudo, portanto, recorre-se a uma análise do surgimento da cultura
organizacional enquanto um acontecimento no campo discursivo dos estudos organizacionais,
representando o afastamento de uma abordagem que buscasse uma origem de tal conceito
(antropológica, sociológica, etc.). Ao contrário, defende-se que um acontecimento deve ser
visto como uma irrupção que ocorre numa dada pontualidade histórica, num contexto
temporal que permite a um determinado discurso ser repetido, sabido, transformado ou
mesmo esquecido, como propõe Foucault. As autoras concluem que emergência do conceito
de cultura organizacional clama por uma enunciação de uma nova abordagem crítica que
ultrapasse os marcos da interioridade e exegese, tornando-se capaz de opor resistências e
sacudir as práticas que se constroem para atender às demandas deste mesmo contexto
histórico que afastou de nós tais pensamentos.
Acerca da construção de discursos e verdades e como estes se articulam ao exercício de poder
e formam práticas sociais e culturais nas organizações, Souza et al. (2008) objetivam
problematizar o conceito de homem contido na corrente pós-estruturalista e seu rompimento
com a visão tradicional do Homem da modernidade e as implicações deste fenômeno para os
estudos organizacionais. Os autores propõem uma forma de se enxergar o Homem e seu
discurso, por meio de uma análise do pensamento de Michel Foucault, destacando a
preocupação do mesmo em saber como o sujeito humano entra nos jogos de verdade por meio
5
das práticas sociais, sendo que estes jogos podem assumir a forma de ciência, de instituições
ou das diversas práticas de controle do homem. Essas práticas sociais manifestam as diversas
formas de relações de poder existentes numa sociedade; elas constituem o homem e,
consequentemente, o seu discurso. Em suma, Foucault, por meio dos estudos genealógicos,
constitui um modo de analisar as práticas culturais que têm sido instrumentais para a
formação do indivíduo contemporâneo, tanto como objeto quanto como sujeito.
Dessa forma, os autores afirmam que a analítica das práticas desenvolvidas por Foucault
concentra-se nas práticas culturais, nas quais o poder e o saber se entrecruzam, ou seja, da
forma que a compreensão de indivíduo, de sociedade e das “ciências humanas” é fabricada.
Vista sob esta perspectiva, a análise do discurso consiste em estudar as “ciências duvidosas”,
o senso comum, ou seja, as práticas culturais que não apresentam nenhum sinal de se
transformarem em “ciência normal”; estudar as práticas culturais de forma a revelar que a
verdade se tornou um componente central do poder moderno.
Utilizando o conceito de “poder pastoral”, proposto por Foucault (1981; 1982), Bell e Taylor
(2004) realizam uma análise para estabelecer os contornos do discurso popular relacionado à
espiritualidade no ambiente de trabalho, investigando os meios pelos quais este se materializa
como fonte de poder administrativo. O poder pastoral distingue-se das outras formas de poder
tanto por se “totalizador”, ou seja, busca cultivar o bem-estar de uma população inteira de
cidadãos, como por ser “individualizante”, manifestando-se como uma forma de poder que
cuida de cada indivíduo em particular, ao longo de toda a sua vida. A metáfora cristã utilizada
por Foucault é a do pastor, que junta um rebanho de indivíduos dispersos e vela para lhes
assegurar a salvação (Foucault, 1982).
Os referidos autores argumentam que essa teoria da espiritualidade no trabalho envolve a
aceitação parcial da religião como um sistema organizacional e cultural, ou seja, pelo uso do
discurso, sugere-se “que toda forma de trabalho remunerado pode chegar a ser considerada
uma vocação na qual o indivíduo é obrigado a se comprometer total e apaixonadamente, para
que haja um significado em sua vida” (Bell & Taylor, 2004). Assim, a teoria da
espiritualidade no trabalho envolve a aceitação parcial da religião como um sistema
organizacional e cultural posto que, se a religião é definida não mais em termos do divino ou
sobrenatural, mas como um sistema de significados elaborados em torno de narrativas
históricas e míticas, as quais são reforçadas por certas práticas rituais, qualquer organização
que tenha valores explicitamente articulados, que deverão ser compartilhados por todos os
membros, pode ser considerada como religiosa.
Merhi et al. (2010) utilizam a perspectiva crítica apresentada por Foucault em relação ao uso
do poder como uma prática inserida em um dispositivo disciplinar em uma ampla rede de
relações cotidianas no intuito de compreender como a cultura organizacional, as relações de
poder e o processo de liderança se articulam no cotidiano de uma empresa de celulose. Ao
final do estudo, concluem que, ao longo das fases da trajetória da empresa, identificaram-se
três bases das articulações entre cultura, poder e liderança: paternal, racional e simbólica.
Cada uma representa maneiras diferentes das lideranças articularem a lógica disciplinar em
torno dos interesses organizacionais. Se por um lado uma pessoa ou entidade específica, como
uma empresa, não controla o processo disciplinar, por outro lado ela desenvolve mecanismos
para aproveitá-lo. Nessa perspectiva, para a organização, pode ser mais coerente manter em
ação o processo pelo qual se busca uma cultura organizacional homogênea do que alcançar
essa cultura. Ou seja, ao contrariar os autores que tratam a cultura como variável, embora ao
mesmo tempo em que se corrobora com as práticas defendidas por eles, obter uma cultura
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organizacional homogênea parece ser menos relevante do que manter em ação dispositivos
com esse propósito os quais, ao mesmo tempo, permitem articular os interesses da
organização na rede de relações (familiares; profissionais; religiosas etc.) na qual seus
membros se inserem.
Conforme os trabalhos apresentados nesta seção, embora a obra de Michel Foucault venha
sendo utilizada sob as mais diversas temáticas, sobretudo no estudo do poder nas
organizações, verifica-se uma lacuna no sentido de aproximar a mesma ao tema cultura
organizacional, embora algumas tentativas de aproximação tenham já sido elaboradas, elas
são pontuais e não oferecem ou sugerem formas de análise dos diversos aspectos que
envolvem o tema cultura organizacional sob a luz da obra foucaultiana. Sendo assim, na
próxima seção, realizaremos apontamentos de como tal aproximação poderia ocorrer.
3. A Noção de Poder Foucaultiana e Cultura Organizacional
Segundo Alcadipani (2005), a utilização do tema do poder, conforme construído por Foucault,
tornou-se possível pela quebra da dominação funcionalista do campo dos estudos
organizacionais. O autor vem sendo utilizado nesse campo desde os anos 80 e, conforme
vimos no tópico anterior, existem algumas temáticas que utilizam mais comumente suas
noções. Vemos que tais temáticas possuem alguns pontos de interseção com o tema da
cultura, principalmente as ligadas à esfera simbólica e a conflitos de forma mais ampla. Outro
ponto a se destacar em relação à convergência entre os dois temas é que o que temos na
analítica de poder foucaultiana é, basicamente, uma forma de tornar o campo social inteligível
por meio da compreensão das relações de poder que seriam responsáveis por sua formação e
transformação.
Contudo, observamos também que grande parte dos trabalhos que buscam objetivamente
aproximar os temas de cultura e poder permanecem com uma noção “clássica” desse último.
Segundo uma visão tradicional da relação entre poder e cultura organizacional possuiria os
seguintes aspectos: a) o poder seria uma das instâncias que comporiam a cultura
organizacional, ligada à noção de status (Schein, 1997; Neiva & Paz, 2002); b) o poder
comporia a faceta “controladora” e “opressora” da cultura organizacional (Bertero, 1992;
Morgan, 1996; Hopfer & Faria, 2003; Souza, 2006); c) o poder seria algo possuído por
pessoas e grupos/instituições que seriam os responsáveis por definir a cultura organizacional
(Bertero, 1992; Fischer, 1992; Machado-da-Silva & Coser, 2004; Jacometti, 2005; Merhi et
al, 2008); e d) o poder é “utilizado” para instrumentalizar uma cultura organizacional para sua
manutenção ou mudança (Bertero, 1992; Cappelle & Brito, 2002; Merhi et al, 2008; Dornelas
et al, 2009).
Desejamos frisar que uma análise feita sob a lente da noção de poder desenvolvida por
Foucault rechaçaria todas essas aproximações. Machado (2007) afirma que a noção de poder
desenvolvida por Foucault teria as seguintes características: a) o poder não constitui uma
instância por si só, é antes relacional; b) é compreendido como algo que não pode ser
possuído (não existem aqueles que detêm o poder e aqueles alijados); c) funciona como uma
rede de dispositivos que tudo engloba; d) é algo que se efetua, que se exerce, porém não é
localizável numa dada estrutura; e) implica uma relação de forças, de combate, de
afrontamento, aonde existiria uma primazia da resistência; e f) não é violência ou
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essencialmente opressor, mas produtivo; g) não seria um lugar que se ocupa ou um objeto que
se possui.
Realizando um paralelo entre os aspectos mencionados anteriormente, ou seja, entre a noção
clássica de poder apresentada na maioria dos estudos que buscam aproximar os temas cultura
e poder e a analítica de poder desenvolvida por Foucault, foi possível elaborar o Quadro 1, o
qual apresenta um comparativo das aproximações entre cultura e poder segundo uma visão
tradicional e como estas seriam reconstituídas por uma noção de poder foucaultiana:
Quadro 1: Comparativo de Aproximações Cultura x Poder (Visão Tradicional) Cultura x Poder (Visão
Foucaultiana).
Aproximação Tradicional
Aproximação segundo a noção Foucaultiana
O poder seria uma das instâncias que comporiam a O poder não compõe uma cultura organizacional, já
cultura organizacional, ligada à noção de status
que por si só ele não existiria, ele funciona e se
dissemina por toda a estrutura social
O poder comporia a faceta “controladora” e A opressão não é a essência do poder, antes ele é
“opressora” da cultura organizacional
positivo no sentido de que produz (falas, ritos,
sujeitos)
O poder seria algo possuído por pessoas e O poder não pode ser possuído, ele é relacional e
grupos/instituições que seriam os responsáveis por aonde há poder há resistência, ou seja, ambos os lados
definir a cultura organizacional
possuiriam agência nesta definição
O poder é “utilizado” para instrumentalizar uma O poder é algo que se exerce, que se efetua, contudo,
cultura organizacional para sua manutenção ou antes de ser instrumental ele é afrontamento, relação
mudança
de força, situação estratégica e bilateral
Fonte: Elaborado pelas autoras.
Vemos, portanto, que a noção de poder foucaultiana exige algumas mudanças na forma como
a cultura organizacional seria abordada caso optemos por utilizá-la. Segundo uma visão
tradicional, o poder seria uma instância que comporia a cultura organizacional, contudo, se
tomamos a noção foucaultiana de poder, tal afirmação não poderia ser feita, já que a própria
cultura organizacional seria fruto da conjunção de uma série de mecanismos fluidos de poder
que funcionam e se disseminam por toda estrutura social. A aproximação da cultura
organizacional a uma visão tradicional de poder também implica numa visão do mesmo
enquanto uma faceta “controladora” e “opressora” da cultura organizacional, presente em
trabalhos mais críticos. Por outro lado, para Foucault (2007c) a opressão não seria a essência
do poder, no sentido que não seria a opressão o mecanismo que faz com que o poder funcione,
mas o poder teria uma característica de funcionamento absolutamente positiva, ele produz, faz
com que as pessoas façam e digam determinadas coisas antes de oprimi-las (ver: Foucault,
1988). Outra aproximação bastante comum, como vimos, é a de que a cultura organizacional
seria definida por um determinado grupo que possuiria o poder. Foucault (2007c) rechaça a
possibilidade do poder ser possuído e, portanto, todos os grupos existentes numa determinada
organização teriam agência na definição de sua cultura, uma vez que o poder seria relacional
(ver também: Deleuze, 1988). Finalmente, a visão foucaultiana de poder não poderia partir do
princípio de que o poder possa ser instrumentalizado, antes disso ele seria um afrontamento,
uma luta entre partes que estão em relação, estratégico e bilateral (Foucault, 2007c; 1988;
Machado, 2007; Deleuze, 1988).
Contudo, resta um questionamento quando resgatamos o objetivo do presente trabalho: como
seria possível investigar a cultura organizacional vista desta forma? No próximo tópico
apontaremos algumas questões referentes às metodologias que vêm sendo utilizadas na
análise da cultura organizacional, e apontaremos também a possibilidade de sugerir que a
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genealogia, conforme desenvolvida por Foucault em seus trabalhos de análise histórica das
relações de poder, como um meio de análise capaz de dar conta desta visão complexa.
4. Genealogia e uma Crítica à Cultura Organizacional
O desenvolvimento de aspectos metodológicos para o tratamento da temática de cultura
organizacional vem sendo um esforço contínuo nos estudos organizacionais desde o
surgimento da mesma (Fisher, 1992). Fleury (1989) realizou uma tentativa de sistematizar as
diversas metodologias que vinham sendo empregadas para investigar a cultura organizacional,
aonde já destacou que recuperar o histórico de uma organização seria extremamente
importante para compreender sua cultura. Por histórico a autora destaca: o contexto político e
econômico da época de sua criação, o papel do fundador e incidentes críticos (crises,
expansões, grandes fracassos ou sucessos, etc.). Na presente seção, partiremos dessa
importância da história para o desenvolvimento de metodologias para investigação da cultura
organizacional tentando, primeiramente, analisar o papel da mesma na genealogia
foucaultiana para, posteriormente, analisar como essa visão de história pode ser usada para
uma investigação crítica da cultura organizacional.
O método genealógico desenvolvido por Foucault em suas pesquisas sobre relações de poder
sofreu grande influência nietzschiana, principalmente no que diz respeito à noção de história
que o permeia (Alcadipani, 2005; Souza & Machado, 2004; McKinlay & Starkey, 1998;
Rabinow & Dreyfus, 1995). Apesar de estarmos propondo que a noção de poder presente na
nesta fase da obra de Foucault possa ser utilizada para analisar a cultura organizacional, não
podemos deixar de ressaltar que Foucault buscou, na fase de sua obra comumente referida
como a fase genealógica, utilizar a história para tratar de campos do saber ligados a certos
combates bastante específicos: a psiquiatria, a penalidade e a sexualidade. Sendo assim,
Foucault não chegou a tratar do tema de organizações conforme presente nos estudos
organizacionais. Apesar disso, e conforme já colocamos, acreditamos que tal aproximação
não só é possível, mas é também desejável devido à riqueza proporcionada pela lente da
analítica de poder foucaultiana.
Voltando ao tema da genealogia, em entrevista a Paul Rabinow (Rabinow, 2002) Foucault nos
dá uma clara explicação de quais foram suas pretensões nestas pesquisas denominadas
genealógicas: neles Foucault fez um trabalho minucioso de dissecação de uma atitude moral,
a reconstruindo a partir do jogo que se trava com as estruturas políticas e modalidades de
conhecimento. Seu objetivo foi, portanto, analisar o domínio científico, a estrutura política e
uma prática moral que cada um destes campos de saber constituiriam ou representariam,
(Rabinow, 2002).
A obra genealógica de Foucault, apesar da diversidade de campos de saber tratados e em
aparente não linearidade, possui a coerência de um estilo propriamente diagramático de
questionamento. Esta possibilidade de se diagramatizar vem justamente de uma unidade
prática, política e filosófica que conduz suas problematizações. Rabinow (2002) revela tal
aspecto, de seu estilo de problematização, ao comentar o debate entre Foucault e Noam
Chomsky acerca da questão da natureza humana. O autor diz que Foucault rejeita a visão de
Chomsky de natureza humana, mas em momento algum chega a afirmar que ela não exista,
assim ele não refuta a questão abstrata “existe uma natureza humana?”, ao invés disso, ele
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consistentemente historiciza as grandes abstrações, ou seja, ao invés de se perguntar se esta
existe ou não ele pergunta: como funciona o conceito de natureza humana em nossa
sociedade? É desta forma que Foucault recusa as universalizações e traz a problematização
para o nível de um dado contexto histórico e social, examinando funções sociais que certos
conceitos (como o de natureza humana) desempenham no contexto de práticas. Assim,
Rabinow (2002, p. 28) diz que “para Foucault, não há posição externa de certeza, não há
compreensão universal que esteja além da história e da sociedade”.
Rabinow e Dreyfus (1995, p. 118) concluem acerca da genealogia que para ela:
[...] não há essências fixas, nem leis subjacentes, nem finalidades metafísicas.
A genealogia busca descontinuidade ali onde desenvolvimentos contínuos
foram encontrados. Ela busca recorrências e jogo ali onde progresso e
seriedade foram encontrados. Ela recorda o passado da humanidade para
desmascarar os hinos solenes do progresso. A genealogia evita a busca da
profundidade.
Acerca da questão da origem, este filósofo francês nos deixou claro, assim, que sua
genealogia não utilizou a história para buscar possíveis origens, ao contrário, a utilizou para
demonstrar que “o que se encontra no começo histórico das coisas não é a identidade ainda
preservada da origem – é a discórdia entre as coisas, é o disparate” (Foucault, p.18 2007c).
Assim, o autor buscou utilizar a história para conjurar a suposta unidade e coesão presente na
noção de origem. Burrell (1998) afirma que, enquanto método de análise, a genealogia
destacar-se-ia, portanto, por não apoiar-se em instâncias fixas ou pela noção de coerência e
progresso.
Barratt (2008) afirma que a genealogia foucaultiana vem sendo largamente negligenciada nos
estudos organizacionais, e propõe que esta deva ser um lócus central em trabalhos de cunho
crítico que pretendem furtar-se de noções construídas por este autor. Resumindo, um
pensamento crítico para Foucault (histórico, arqueológico) estaria imediatamente ligado a
positividades, a uma postura que abre as formações históricas estratificadas e em aparente
imobilidade. Foucault (2007c) diz que “o sentimento histórico dá ao saber a possibilidade de
fazer, no movimento de seu conhecimento, sua genealogia” (Foucault, 2007c, p. 30). De
acordo com Queiroz (2004), fazer este movimento, esta genealogia, aproxima as saídas,
fazendo com que se transpareça a pouca rigidez dos estatutos múltiplos e mutáveis nos quais
permanece ancorado o nosso presente; trata-se de uma crítica que coloca em crise, uma
desestabilização do presente em prol de um por vir. E estas reflexões histórico-críticas,
segundo Foucault (1991), devem ser sempre direcionadas às práticas. Segundo tal perspectiva
o sujeito é sempre tratado como algo em relação, como um ponto numa rede, mas que, em
meio às estratégias saber-poder, também haveria as estratégias dos jogos de liberdade.
A análise da cultura organizacional, ou seja, dos hábitos, objetos, ritos, discurso de uma
organização, assim como a etnologia conforme analisada por Foucault (2007a; 2007b), estaria
também intimamente ligada a uma historicidade. Reconhecendo esta ligação, Morgan (1996)
afirma que: “À medida que se explora o que é racional dos aspectos desta cultura, pode-se
quase sempre descobrir que parecem existir explicações históricas para a maneira pela qual as
coisas são feitas” (Morgan, 1996, p. 125).
Segundo Clifford (1988) uma genealogia, como qualquer outra análise/descrição histórica é
construtiva, ou seja, faz sentido a partir do momento que trata de elementos do passado e
10
dando sentido aos mesmos no presente. É o que Foucault (2007a; 2007b) chama de
acontecimento. Utilizar um olhar genealógico para analisar a cultura de uma organização
seria, portanto, uma maneira de construir um olhar crítico sobre a mesma, uma vez que o que
Foucault esperava da história seria justamente uma determinação dos visíveis e enunciáveis
de cada época, que tornariam possíveis determinados comportamentos, mentalidades e idéias,
contudo sempre a favor de um tempo por-vir (Deleuze, 1988). Compreender a cultura de uma
organização enquanto uma semiótica que consubstancia a ação humana estaria, portanto,
intimamente ligada a uma compreensão histórica da organização, que, porém, envolveria
principalmente um exercício de criação de acontecimentos. Trata-se de um movimento que
está na contra-corrente tanto do passado histórico quanto do presente enquanto estados de
coisas dados e imóveis. Na análise organizacional, Alvesson e Deetz (1999) reconhecem que
a história produz maneiras de pensar o presente, ou seja, isso não seria o mesmo que dizer que
podemos construir, através de seu uso, maneiras de experimentar algo que escapa dela? Os
autores afirmam, justamente, que a história se torna interessante pela sua capacidade de
produzir (Alvesson & Deetz, 1999).
Sendo assim, concordamos com Barratt (2008) quando o mesmo diz que é extremamente
frutífero apropriar-se desta postura crítica da genealogia nos estudos organizacionais, neste
caso em específico na análise da cultura organizacional. Contudo, como isto poderia ser feito?
Uma análise genealógica da cultura organizacional, apesar de apresentar-se como uma análise
histórica da organização, primeiramente, não seria uma busca por uma “origem” de sua
cultura. Isto excluiria, portanto, buscar uma coesão para a mesma nas intenções de um
fundador, por exemplo, como é comumente feito em trabalhos que adotam uma perspectiva
histórica de análise da cultura. Ao invés disto, o foco de análise nos acontecimentos, partiria
do pressuposto de que haveria uma dispersão histórica e não uma coesão, seria a partir de uma
dispersão do passado que se buscaria dar sentido ao mesmo no presente, sentido este que não
necessariamente coincide com o passado.
Segundo um meio de análise genealógica, também, as relações de poder são tomadas como
fundamentais, uma vez que sua analítica é responsável por reconstituir as tramas de
perturbações, as transformações, rupturas desse passado histórico. Contudo, estas relações de
poder não comporiam um objeto, algo repressor, sujeito a ser possuído, ou mesmo um
mantenedor da cultura organizacional, mas uma trama de relações diferenciais e instáveis,
responsável pela constante transformação de uma organização. Outro ponto a se destacar seria
a posição da linguagem enquanto uma instância privilegiada de análise como é comum em
análises pós-modernas das organizações (ou seja, a linguagem é tomada como viés
privilegiado para análise das relações de poder). Segundo esta abordagem, também, o
indivíduo é tido como produto das relações de poder, não como portador de uma interioridade
própria, constituída a priori e/ou independente. Sendo assim, a análise do discurso seria
privilegiada em detrimento de uma abordagem de pesquisa mais subjetivista/interpretativista.
Concluímos que é possível aproximar a noção de poder conforme proposta por Foucault à
cultura organizacional de forma a torná-la inteligível por meio de uma absorção da visão
genealógica presente nos trabalhos de Foucault que buscaram analisar historicamente relações
de poder. Esta seria uma abordagem crítica que, ao mesmo tempo, teria o potencial de fazer
com que se emirjam facetas da organização e sua história que uma noção tradicional de poder,
quando utilizada para analisar a cultura organizacional, não levaria em consideração.
11
5. Considerações Finais
Resgatando o objetivo do presente artigo, pode-se dizer que verificamos que alguns trabalhos
que utilizam noções foucaultianas para construção de seus argumentos apontam que tais
noções podem servir para analisar a cultura de uma organização. Contudo, vimos que não há
uma proposta concreta de como isso poderia ser feito. Apesar do tema do poder ser
amplamente estudado nos estudos organizacionais concluímos que os pontos de interseção e
sobreposição com o tema da cultura organizacional não vem tendo todo seu potencial
aproveitado, já que a importante faceta da analítica de poder foucaultiana não vem, de fato,
sendo aproximada da mesma nos trabalhos pesquisados. Observamos que os trabalhos que
realizaram tal aproximação o fizeram segundo uma noção “clássica” de poder. Segundo esta
visão, o poder seria uma das instâncias que comporiam a cultura organizacional, ligada à
noção de status, compondo a faceta “controladora” e “opressora”, o poder seria passível de
ser possuído por pessoas e grupos/instituições que seriam os responsáveis por definir a cultura
organizacional. Segundo esta visão, também, o poder é “utilizado” para instrumentalizar uma
cultura organizacional para sua manutenção ou mudança.
Haja vista a ampla presença desta visão da relação entre cultura e poder nos trabalhos
pesquisados, foi necessário fazer um acerto de contas para determinar como a aproximação da
cultura organizacional com o poder segundo a concepção foucaultiana do mesmo exigiria
outros moldes para análise. Vimos que, de fato, a noção de poder foucaultiana exige algumas
mudanças na forma como a cultura organizacional seria abordada caso optemos por utilizá-la,
dentre as quais destacamos: o poder não seria uma instância que comporia a cultura
organizacional, contudo, já que a própria cultura organizacional seria fruto da conjunção de
uma série de mecanismos fluidos de poder que funcionam e se disseminam por toda estrutura
social; o poder não poderia ser tomado como uma faceta “controladora” e “opressora” da
cultura organizacional, para Foucault (2007c) a opressão não seria a essência do poder, ele
teria uma característica de funcionamento absolutamente positiva, produzindo, fazendo com
que as pessoas façam e digam determinadas coisas antes de oprimi-las; a cultura
organizacional não seria definida por um determinado grupo que possuiria o poder, Foucault
(2007c) rechaça a possibilidade do poder ser possuído uma vez que ele seria relacional e,
portanto, todos os grupos existentes numa determinada organização teriam agência na
definição de sua cultura; finalmente, a visão foucaultiana de poder não poderia partir do
princípio de que o poder possa ser instrumentalizado, antes disso ele seria um afrontamento,
uma luta entre partes que estão em relação, estratégico e bilateral (Foucault, 2007c; 1988;
Machado, 2007; Deleuze, 1988).
Devido à ausência de propostas concretas sobre como essa aproximação poderia dar-se em
trabalhos que desejem utilizar a noção foucaultiana para análise da cultura organizacional,
acreditamos que uma contribuição importante deste trabalho foi ter proposto a genealogia,
conforme presente nos trabalhos de Foucault que buscaram analisar as relações de poder
historicamente, poderia também ser utilizada para tanto, muito embora este (a cultura
organizacional) não tenha sido um objeto de preocupação para Foucault. Buscando, portanto,
responder ao como do objetivo deste trabalho, destacamos o que viriam a ser as principais
características do método genealógico na investigação da cultura organizacional: a) não busca
uma “origem” histórica para a cultura de uma organização (como, por exemplo, a coesão das
intenções de um fundador); b) busca dar sentido a acontecimentos a partir de uma dispersão
do passado, ou seja, dar sentido ao mesmo no presente, sentido este que não necessariamente
12
coincide com o passado; c) as relações de poder são tomadas como fundamentais, uma vez
que sua analítica é responsável por reconstituir as tramas de perturbações, as transformações,
rupturas desse passado histórico; d) tais relações de poder não comporiam um objeto, algo
repressor, sujeito a ser possuído, ou mesmo um mantenedor da cultura organizacional, mas
uma trama de relações diferenciais e instáveis responsável por sua constante transformação; e)
toma a linguagem como instância privilegiada de análise (como viés privilegiado para análise
das relações de poder); f) o indivíduo é tido como produto das relações de poder, não como
portador de uma interioridade própria, constituída a priori e/ou independente; g) o poder não
seria uma instância da cultura e nem mesmo uma instância por si só, mas uma rede de
relações (sócio-materiais, históricas, dispersas e instáveis) responsável pela formação e
constantes transformações de uma cultura organizacional.
Para estudos futuros, sugerimos que se realizem pesquisas empíricas para que, de fato,
saibamos quais seriam as dificuldades de ir a campo e aplicar o método genealógico numa
investigação da cultura organizacional pelo viés da análise histórica das relações de poder.
Tendo em vista a limitação de um ensaio teórico no sentido de debater tais dificuldades,
esperamos que o presente trabalho possa ser um primeiro passo para tornar tal abordagem
possível.
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